Depois do 'artista de mamilos' do post abaixo, estava com vontade de fazer aqui uma gracinha mas há gracinhas que apenas a civilização permite. Ora aqui, in the middle of nowhere, com uma internet a pedal, em que cada página demora eternidades a abrir, com o próprio computador a rebentar pelas costuras, não consigo fazer nada do que queria.
Desespero a ver esta coisa a pensar -- e se me maçam as coisas lentas (as coisas e as pessoas) que dão voltas e voltas aos neurónios sem que dali saia coisa que se aproveite, credo, que falta de paciência. Estou aqui e é o chamado dançar, dançar e não sair da pista. Cada página atravanca a outra, fica tudo pasmado, nem ata nem desata, mastiga e não engole. E por aí fora que, se continuo com metáforas, daqui a nada estou naquela que se impõe. Caraças.
Por isso, e tendo já intervalado para ler - senão, enfurecia-me para nada que não é a minha impaciência que torna a internet mais rápida ou me limpa o disco do computador - volto aqui com um novo plano que, a bem dizer, pode ser plano nenhum que, se isto continua assim, vou ler um pouco mais e...oh oh, ó-ó.
É verdade: a televisão já funciona e afinal não era humidade (thanks de qualquer maneira, Rosa!), era mesmo nabice, uma ficha estranha enfiada na tomada errada aqui na geringonça da tdt, coisa que um olhar jovem e entendido logo detectou. Mas a oferta televisiva é miserável.
Neste momento, estou a ver uma coisa que não sei como se chama mas que tem a gente do Big Brother ou Casa dos Segredos e há outras pessoas, que admito que sejam concorrentes, que são do pior que se possa imaginar. Inenarrável. Vou desligar.
Portanto, meus Caros, hora de procurar o que me agrade noutras paragens. Vamos lá. A pedal, devagar, devagarinho, mas vamos lá.
Uma imagem
Uma fotografia que é quase uma pintura, uma mulher que é quase imaginação
Às vezes os dias teimam em não passar, arrastam-se na maior indolência, sem história nem tremura de pele que os distinga. Não sei se posso afirmar, suportada pela estatística, que geralmente isso me acontece em dias de céu cinzento e pressão atmosférica incerta. Mas, com base no que agora estou a sentir, afirmo.
Não gosto de dias assim, acho que estou a desbaratar um bem precioso. Num deserto, ver uma fonte a deitar um vagaroso fio de água e passar-lhe adiante, com desdém (sem perceber que, mais à frente, quando a carne mirrar de tão seca, poderei já não ter como reverter a situação), parece-me até desfaçatez.
Então invento aventuras para poder ter com que entreter a cabeça e o coração. Pulo cercas artísticas, deslizo invisível por salas de museus, espreito quadros nas paredes a ver se algum me acelera a batida, percorro jardins, enfio-me nas grutas mais escuras, chamo o papão, desenlaço tranças imaginárias para ter com que enlear algum incauto príncipe que se aproxime, bebo licores raros a ver se algum me faz sentir especiosa -- qualquer coisa.
Outras vezes, em dias de mansidão, apenas abro clareiras para que a sombra do tédio se afaste e chegue até mim a luz das páginas de algum livro que me encontre. Não me esforço, apenas espero que seja livro com falas de pintores desaluados, diários de escritores tresloucados, reflexões de pernas para o ar de algum filósofo arredio, frases soltas de algum bem-aventurado, cartas de poetas a editores, recados de mulheres friorentas a homens tratadores de árvores -- coisas assim.
Ou, se a preguiça do dia já se me colou à pele, deito o olhar pela janela e ele, sozinho, que escale a serra ao fundo, que encontre os espigões de rocha onde se fixar, que deite mão às lianas por onde possa balouçar-se até encontrar o cume, o leito, a razão de ser.
Pode acontecer também que esteja completamente serena, uma vontade de doçura e subtileza, e que uma palavra, um olhar, um sorriso faça por valer o dia. Em dias assim, de brandura e calidez, posso até procurar o nome de flores generosas para, em imaginação, as passar nos pulsos, no recôndito do detrás da orelha, no prenúncio dos seios. Mas têm que ser raras e desconhecidas: boronia, tuberosa. Adentro-me então em procuras: que outros nomes têm, com que se parecem. Fico contente quando as reconheço: magnólia, nardo, loendro. Hesito, então: será que não as deveria temperar com rosas e jasmins ou com a folha fresca da laranjeira? Ou escavar uma abertura no tronco grosso de um pinheiro da longínqua Flandres e mergulhar lá as mãos, encostar a nuca, deixar que o cheiro activo da seiva roce a minha pele? Imagino como um véu invisível, feito de um bouquet irreal, traria maravilhas únicas aos meus dias parados. E, com isto, os dias agitam-se, preenchem-se de vontades - onde encontrar as flores, como misturá-las, como imergir nesse manto leve de perfumes inventados?
Dias feitos de silêncios. E, neste esvair de tempo, por vezes consigo sentir que os momentos que invento enriquecem o meu viver. Mas se isso não me satisfaz ou se algum sucedimento não pousa no meu dia, pois então desato as mãos e deixo que a rede dos meus pensamentos se espalhe no espaço. E fico à espera.
Agora que escrevi isto, olhei pela janela, espreitei o céu. Se nada vejo é porque os meus olhos ainda andam desaprendidos do indizível. Mas sei que há uma flor navegando pelos ares, que há água e estranhas formas de vida noutros planetas, que há milhões de sóis, milhões de céus, milhões de sonhos perdidos em órbitas desencontradas, palavras flutuando sobre as ondas que as marés siderais levam e trazem, medusas aladas, anjos, luas, pedrinhas, memórias, braços que procuram abraços, sons estelares, infinitos nadas; e lugares escuros, sem tempo, onde passado, presente e futuro se misturam. E então ocorre-me que só tenho que me deixar estar porque a chave que desvenda a minha existência está algures, presa entre os dentes de algum misterioso ser que de longe me olha, me desafia, me seduz, me envolve em segredos, em ternuras, em subtis destempos.
E assim vou vivendo, esperançosa, paciente, deixando palavras destas pelos ares, palavras que às vezes entram no coração de alguém, palavras que, tantas vezes, se perdem de mim e que ninguém vê, ninguém ouve, ninguém toma para si, palavras que não compreendo, palavras ditadas por uma alma que não me habita.
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Ao pé dos cardos sobre a areia fina
que o vento a pouco e pouco amontoara
contra o seu corpo (mal se distinguia
tal como as plantas entre a areia arfando)
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto?
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas,
quantos luares nas águas ou nas nuvens,
tisnado haviam essa pele tão lisa
em que a penugem tinha areia esparsa?
Negros cabelos se espalhavam onde
nos braços recruzados se escondia o rosto.
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos
no breve espaço em que o seu bafo ardia?
Mas respirava? Ou só uma luz difusa
se demorava no seu dorso ondeante
que de tão nu e antigo se vestia
da confiada ausência em que dormia?
Mas dormiria? As pernas estendidas,
com um pé sobre outro pé e os calcanhares
um pouco soerguidos na lembrança de asas;
as nádegas suaves, as espáduas curvas
e na tão leve sombra das axilas
adivinhados pêlos... Deus ou deusa?
Há quanto tempo ali dormia? Há quanto?
Ou não dormia? Ou não estaria ali?
Ao pé dos cardos, junto à solidão
que quase lhe tocava do areal imenso,
do imenso mundo, e as águas sussurrando -
-ou não estaria ali?... E um deus ou deusa?
Imagem, só lembrança, aspiração?
De perto ou longe não se distinguia.
[Metamorfose de Jorge de Sena
-- poema deixado por Rosa Pinto em comentário abaixo e que me deixou emocionada]
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Hubbard Street Dance Chicago dançam “Waxing Moon” numa coreografia de Robyn Mineko Williams, com os bailarinos Jacqueline Burnett, Jonathan Fredrickson
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Já respirei fundo, já fiz uma pausa.
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E agora deixem que vos convide a descer até ao post seguinte onde fiz uma entrada de pé em riste na direcção do Miguel Sousa Tavares, o gémeo separado à nascença do João Miguel Tavares (facto a que, bem entendido, Sophia, a mãe do primeiro, é alheia)
A principio é simples, anda-se sózinho Passa-se nas ruas bem devagarinho Está-se bem no silêncio e no borborinho Bebe-se as certezas num copo de vinho E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito Entra-se cansado e sai-se refeito Luta-se por tudo o que se leva a peito Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio Enfrenta-se a vida de fio a pavio Navega-se sem mar, sem vela ou navio Bebe-se a coragem até dum copo vazio E vem-nos à memória uma frase batida Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
......
Até agora, António Costa mostrou ser um jogador implacável. Muitas vezes aqui o censurei por, ao longo do período que mediou a sua eleição para liderar o PS e as eleições para as Legislativas parecer adormecido. Não se via o PS. Os PàFs punham e dispunham e o PS nada. Os PàFs, com arrogância, saltavam em cima de um PS que parecia apático -- e os eleitores iam-se desvinculando e aderindo a um BE que nos aparecia lutador e determinado. Os socialistas pareciam desaparecidos. Apenas António Costa aparecia e, ainda assim, pouco. Depois, a própria campanha eleitoral foi um desastre, a começar pela pirosice e amadorismo dos cartazes, pelas gaffes, pela falta de ânimo e de organização.
As sondagens iam mostrando o impensável: quando haveria condições para mostrar ao PSD e ao CDS que o descontentamento era total, o PS fraquejava, incapaz de capitalizar esse descontentamento, incapaz de descolar.
Na noite das eleições fiquei francamente desanimada. O PS não conseguiu ser o partido mais votado já que essa maioria foi para os PàFs, embora uma maioria relativa. A maioria dos eleitores tinha mostrado que preferia uma alternativa à política de destruição levada a cabo por um governo incompetente e composto por gente impreparada e servil face aos 'mercados' mas os votos tinham-se dispersado pelo PS, PCP e BE. E, para mim, face ao historial de anos e anos, jamais as esquerdas teriam a elevação necessária para se unirem com vista a vencer aqueles que combatiam e que tão mal tinham feito ao País.
Contudo, nessa noite, estranhei o tom sereno e bem disposto de Costa e percebi que estava longe de se preparar para atirar a toalha ao chão e entregar os pontos. Vi-o animado como nunca o tinha visto na campanha. O seu sentido de humor, a sua inteligência, a sua capacidade de pôr uma máquina em movimento estavam ali, inteiras. Parecia pronto para se pôr em marcha.
De seguida, nessa noite, Leitor que muito prezo enviou-me a imagem aqui ao lado e disse que o cavaleiro não estava derrotado -- pelo contrário, já estava pelejando já que não era qualquer um que metia medo a cavaleiros endurecidos por batalhas anteriores. Gostei de ler. Animou-me.
Pouco depois, para minha absoluta surpresa, Jerónimo de Sousa deu o tom: o PS teria condições para formar governo. Já antes, na campanha, no debate com Costa, Catarina Martins tinha mostrado idêntica abertura.
E isto mudou tudo. Tudo. Inesperadamente o jogo virou.
A partir dessa altura, António Costa foi de uma eficácia tremenda. Admito como provável que, já antes das eleições, tivesse havido conversas entre eles mas, seja como for, o que sucedeu em Portugal daí para cá foi inacreditável. Contra uma direita em histeria e para quem valia tudo, contra um presidente pequenino, muito pequenino (e não o digo no sentido mignon do termo: digo-o referindo a sua mesquinhez, mediocridade, bairrismo bacoco), contra uma comunicação social minada, contra os cépticos e medrosos do seu próprio partido, António Costa seguiu em frente com uma firmeza e serenidade a todos os títulos notáveis.
Em todo este processo, é de salientar a inesperada e corajosa posição do PCP. Uma reviravolta destas poderia macular a sua identidade e a sua idoneidade. Contudo, Jerónimo de Sousa tem credibilidade, tem uma inteligência prática e a elegância de um príncipe. Conseguiu uma inflexão no rumo do PCP que mostram que tem uma personalidade superior. Percebeu que o interesse do país e a própria sobrevivência do partido se jogavam nesse momento e, com uma capacidade de liderança formidável, imprimiu honorabilidade a este processo e é essa honra que transparece na atitude destes comunistas que garante o empenho que vão ter no apoio a este governo.
Quanto ao Bloco de Esquerda, Catarina Martins conseguiu a proeza de atrair, como um pára-raios, a esquerda criativa, lutadora, sem lastro do passado. Arguta, empática e decidida, os debates em que participou mostraram uma mulher bem preparada, aguerrida. E depois há Mariana Mortágua: uma fera na argumentação, voz baixa, temível. Prepara-se para os debates como poucos. Tem qualquer coisa de animal feroz. Aquele killing instinct que transparece em Sócrates, tem-no ela também. Li que Francisco Louçã e João Semedo assessoraram Catarina Martins e, portanto, estão igualmente de parabéns.
Uma esquerda assim é uma mais valia num país débil como Portugal. Assim consigam sempre manter-se unidos contra o capitalismo de casino, selvagem e desregulado, unidos a favor da industrialização e do relançamento sustentado da economia, do emprego, do desenvolvimento, do conhecimento, unidos na defesa da igualdade de oportunidades, na defesa dos mais desprotegidos, unidos na luta contra o envelhecimento, o desemprego, a emigração, o abandono escolar, unidos na defesa da cultura, do património e dos recursos naturais do país, unidos a favor de uma justiça célere, digna e justa, unidos na defesa pelo respeito e pela dignidade das pessoas. Assim saibam colocar sempre os interesses de Portugal acima dos interesses dos seus próprios aparelhos partidários.
Aqui estarei para os criticar quando achar que estão a pisar o risco, aqui estarei para os louvar quando achar que merecem.
Até ver, acredito que o Governo tem condições para ser um bom Governo. Há dois ou três nomes que me surpreenderam e não pelos melhores motivos mas talvez esteja enganada, não os conheço bem. Há dois ou três que me surpreenderam e pelos melhores motivos. E os restantes são sólidos, à prova de bala.
Gostaria de lá ver mais mulheres mas não é por se ser homem ou mulher que se é melhor ou pior (e nem sei se não terão sido algumas das sondadas que não se mostraram disponíveis -- que isto de estar ao serviço sete dias por semana, de manhã à noite, não conseguindo prestar apoio doméstico e familiar, não é para qualquer uma e, neste ponto, também ainda há grandes diferenças entre sexos)
Uma nota de rodapé para o diminuído presidente Cavaco. Nem no momento de indigitar António Costa conseguiu estar à altura. Todo o texto revela um mau perder indigno de uma pessoa que ocupa um lugar destes. Em vez de indigitar diz que indica e fá-lo desculpando-se com as opiniões dos outros. Mas sobre tão triste figura nem me apetece já falar. Não tarda vai-se embora e passará pela vergonha de sair rasteiramente pela porta baixa.
Mas como dos fracos não reza a história, esqueço o pequeno cavaco.
Agora quero é desejar a António Costa e a toda a equipa governativa boa sorte e que preservem sempre a capacidade de perceber o que mais importa para o futuro do País e que tenham juízo, firmeza, presciência, elevação, tolerância e capacidade de negociação e, a toda a hora, respeito e amor pelos portugueses e por Portugal.
É tempo de abrir as asas - chegou a hora de voar. Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas.
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Obtive as fotografias no Bored Panda.
A canção lá em cima é, como é bom de ver, O primeiro dia do Sérgio Godinho.
Guilherme Gomes diz e realiza O Mostrengo de Fernando Pessoa
Queria ter encontrado um vídeo mais longo do One Thousand Pieces, e sem os dizeres apologéticos, mas não descobri. Fica este mesmo porque, pela beleza, pela criatividade e pelo harmonioso trabalho de equipa queria tê-lo aqui. A companhia é Hubbard Street Dance Chicago, o coreógrafo é Alejandro Cerrudo e a música é de Philip Glass
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, saúde, sorte e muita alegria. E esperança.
Está uma noite de verão. Da rua sobe até mim o calor, o cheiro a flores. E vejo o rio espelhado e escuro lá em baixo, as luzinhas brilhando em volta. Haverá pessoas passeando pelas margens mas da minha janela não as vejo. Lá em baixo, na entrada do prédio, está um casal de namorados que se abraça e beija. A vida corre morna, macia.
Chego a esta altura da minha vida, depois de tanto museu, livro ou música e, cada vez mais, o que mais me surpreende ou comove é a convivência entre o efeito do tempo nas coisas e a marca que, quem passa, vai deixando nas coisas e em nós.
Recuo no tempo em busca do silêncio, da harmonia graciosa, dos sons que parecem descer dos céus, das paredes gastas, de restos de objectos que, em tempos, alguém amorosamente escolheu, e detenho-me perante a beleza do acaso, do encontro inesperado, da magia da simbiose perfeita, do pequeno desenho deixado como uma oferenda, da elegância de um pequeno ser azul sobre uma superfície de ferro que o tempo esculpiu, de gestos que se cristalizaram, de palavras que ficaram.
A vida é diversa, entram e saem pessoas na nossa vida, e ficam memórias, afectos intemporais, e entram outras, com leveza, e logo se cravam na nossa mente ou invadem o nosso coração, e aquilo de que gostávamos abre espaço para quem chega.
Nos últimos dias partiram um grande poeta, um grande realizador, um grande economista. Os jornais e televisões não conseguem ter sossego: retrospectivas, evocações, tributos. As redes sociais enchem-se com os rostos de quem parte. Ainda nos estávamos a refazer da partida de Herberto Helder e já Manoel de Oliveira partia também e agora eis que Silva Lopes também se foi.
Mas eu, que não gosto de me deter nas partidas e que detesto despedir-me, permito-me pensar não só na marca que deixam mas também naqueles que, entretanto, chegam. E chegam novos músicos, novos poetas, novos bailarinos, novos pensadores, e logo nos encantam e, de entre os novos, alguns se haverão de destacar, de deixar as suas marcas e encher também os nossos corações. E depois descobrimos também outros que pensávamos presos ao passado, longínquos como se os tivéssemos conhecido noutras encarnações e é como se tivessem nascido de novo. E com memórias, com descobertas e com os que vivem à nossa beira, vamos avançando na vida. Assim somos nós, como uma parede que se vai erodindo, ganhando novas texturas, e na qual se inscrevem os ecos do passado e onde, quem passa, os poetas, os pintores, os músicos, vão deixando os seus sonhos azuis e onde também se inscrevem os afectos todos, os abraços, os olhares, as palavras.
Até que um dia partiremos também. Efémera é a vida.
Não tenho medo de doenças e, para falar verdade, não penso na minha morte. Um dia deixarei de existir mas, enquanto cá estou, penso é em viver.
Quando um dia, como já aqui o contei, o carro que conduzia perdeu os travões e, sendo um carro todo dado às electrónicas, não tinha um travão de mão de que eu pudesse socorrer-me, avancei com o carro desgovernado por uma estrada que descia ingrememente em direcção a uma rotunda em volta da qual circulavam camiões. Naquela fracção de segundos, pensei que o melhor a fazer, para não me ir desfazer contra os camiões, seria galgar o passeio e entrar pela rotunda acima. E assim fiz. Mas, quando olhei, vi o carro desgovernado em direcção a uma enorme peça metálica, de chapa, no centro da rotunda. Naquele instante, pensei que a chapa iria entrar pelo vidro e decapitar-me. Pensei: se calhar estou a viver os últimos momentos da minha vida. E, por estranho que possa parecer, não tive medo.
Entretanto, com o impacto, houve um estrondo, o carro ficou cheio de fumo, quase virado no ar, e eu fiquei sem ver nada. Percebi que o carro se tinha imobilizado. Sem perceber bem o que tinha acontecido, sem saber se estava ferida, experimentei abrir a porta do carro, abriu, com alguma dificuldade saí do carro, e pensei: olha, não morri.
Entretanto, começaram a aparecer pessoas que saíram dos outros carros a dizerem-me para fugir porque o carro podia explodir porque estava cheio de fumo. Não me afastei, acho que percebi que eram os airbags que tinham rebentado e tinham deitado toda aquela fumarada. Tive muita sorte, podia mesmo ter ido desta para melhor. Mas teria ido sem medo.
Efémera e bela é a vida. Breves e misteriosos os instantes. Eterno o tempo que nos traz vidas de antes e as mistura com as de hoje e de amanhã. Festivos os afectos. Doces as memórias. Ternos os sonhos.
....
Esta mão que escreve a ardente melancolia da
idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a
sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se. O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça : essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a carne. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce : eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
.....
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A música lá em cima é Ave generosa - Hildegard von Bingen - de Heavenly Revelations (Naxos); Maestro: Jeremy Summerly; Coro: Oxford Camerata
O poema é a carta da paixão de Herberto Helder in Photomaton & Vox
O bailado está a cargo de Hubbard Street Dance Chicago: One Thousand Pieces; coreografia de Alejandro Cerrudo; música de Philip Glass
As fotografias foram feitas no Ginjal
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira com muito amor à vida.
Acho que nunca ofereci nem recebi nada no dia de S. Valentim. E tenho ideia de que, por cá, a moda do Dia de S.Valentim é relativamente recente, mais uma das invenções importadas que têm por objectivo estimular o consumo.
Em contrapartida, desde um certo dia 10 de Dezembro até que um ano e pouco depois me casei, recebi todos os dias 10 de cada mês uma rosa.
Ele, moreno, tinha aquele ar de cristo (ou, à luz dos tempos correntes, de jihadista), cabelo escuro quase pelos ombros, barba espessa, e depois um certo ar freak e andar de desportista e, por contraste, aparecia com uma rosa para me oferecer e eu derretia-me e beijava-o ardentemente, estivesse onde estivesse, à frente de quem calhasse.
Quem assistia espantava-se com amor tão arrebatado de parte a parte.
No dia do meu casamento não quis bouquet, quis que fosse ele a trazer-me uma rosa.
Muitos anos depois encontrei uma colega de faculdade e pergunta-me ela: Olha lá, e ele ainda te oferece uma rosa todos os meses?
Rose by Georgia O'Keeffe
Achei graça como ela tinha guardado isso na memória.
Agora Dia dos Namorados? Não sei bem o que seja isso mas, como é bom namorar, acho que Dia dos Namorados devia era ser todo o santo dia. Namorar a sério, namorar de brincadeirinha, namorar para esconjurar a solidão, namorar para celebrar a comunhão de pontos de vista, namorar para adoçar os dias, namorar só por uma noite, namorar ao longo de anos, namorar para festejar a vida - tanto faz.
Por isso, o dia 14 ainda vem longe mas não faz mal, antecipa-se. Ou, então, faz de conta que estou a abrir caminho para os que querem celebrar à maneira e que podem inspirar-se aqui: decorem o poema, ponham o joelho em terra e digam-no com sentimento, ofereçam rosas, ofereçam beijos (e, claro, também podem oferecer um vestido couture como os que aqui mostro, o primeiro Chanel, o segundo Alexander McQueen).
E que sejam rosas vermelhas, carmins, cor de sangue - que essas, sim, são a cor da paixão, do amor.
(Rosinhas cor-de-rosa, brancas, amarelinhas, etc, são para outras circunstâncias e quem não saiba o significado da cor das rosas pode consultar aqui.)
Este é o terceiro post da noite (e desculpem-me estas minhas introduções mas é que, como já aqui expliquei, uma certa pessoa sempre muito apressada e distraída, se eu não o agarro logo pelos colarinhos, pira-se antes de percorrer todo o caminho das pedras; por isso, mal entra num post que não é o primeiro, não vai ter desculpa se disser que não reparou que abaixo havia mais).
A seguir falo de Manuela Ferreira Leite, essa mulher que se tem revelado um verdadeiro carro de combate, e das interessantes revelações que fez na TVI. A não perder.
Mais abaixo ainda tenho mais uma divertida cena da Porta dos Fundos - coisa de mulheres, é certo, mas que interessará também aos homens pois quem, senão os homens, para se divertirem à custa das mulheres.
Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.
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Depois da Manuela e depois do meu marido se ter ido deitar, pus-me a ver a telenovela nova da SIC, uma bem engraçada de que não me lembrava o nome.
Fui ao youtube e vi que se chama Lado a Lado com a cada vez mais bonita Patricia Pillar que aqui faz uma fantástica Baronesa Constância que é uma mulher elitista, pedante, inconveniente e que usa uns vestidos e uns chapéus de uma pessoa morrer de inveja. Para ilustrar, escolhi a fotografia acima na qual aparece com a toilette usada no casamento da filha. Uma perdição de toilette.
Vi o trailer no youtube e achei-lhe piada, coloco-o aqui. Recebeu um Emmy em 2013 esta telenovela. Há que séculos que eu não via uma e estou a gostar. Reencontro caras que não via há muito e reencontro o prazer das boas novelas da Globo.
Mas, ao abrir o Youtube, apareceram, entre as sugestões habituais, a de um bailado da Companhia Hubbard Street Dance Chicago, companhia que bastante aprecio. Fui procurar outras coreografias, aquela não me dizia grande coisa. E fui parar a um que aqui vou colocar, "Extremely Close", uma coreografia de Alejandro Cerrudo.
Mas, então, a partir desta expressão, extremamente perto (ou próximo) - que é uma das características de uma vida a dois - ocorreu-me procurar excertos de filmes em que se vejam alguns episódios da vida a dois: fantasias, hesitações, desconfianças, seduções, traições, ciúmes, perdões.
São algumas destas cenas da vida conjugal que hoje coloco aqui, a começar com excertos de um dos filmes de que francamente gostei de ver, Closer.
Aqui baixo, uma cena de sedução e atracção entre Anna (Julia Roberts) e Dan (Jude Law) - e que românticos eles são, que envolvente é o momento. Uma inspiração.
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Do mesmo filme, Larry (o abrasador Clive Owen) e Alice (Natalie Portman), num momento de sedução e desejo sem freio. Um desafio.
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E, depois das cenas acima com os casais trocados, a cena entre marido e mulher, Larry e Anna: a cena que todos os casais gostariam de ser capazes de evitar ou ultrapassar. Uma atrapalhação. Um momento para esquecer se fosse na vida real. Assim, no cinema, uma cena marcante.
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Mas há também as fantasias, tão ou mais marcantes na vida de uma mulher do que um caso concreto.
Alice e o marido, Dr. William Harford - de facto Nicole Kidman e Tom Cruise (então ainda casados antes do seu casamento cair de borco depois deste filme) - juntos numa inesquecível cena de descrição de uma fantasia. Um devaneio. Um suplemento de ânimo ou uma semente de insegurança.
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E esta matéria daria pano para muitas mangas mas a verdade é que estou cheia de sono e amanhã é dia de aquartelamento parcial aqui ao jantar com dormida incluida e, portanto, não posso partir para um dia com reuniões e mil coisas para fazer e ainda uma noite repleta, logo a cair de sono. Por isso, abstenho-me de filosofar e parto já para o bailado: Extremely Close.
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Fico-me por aqui porque já não dá mesmo mais, tenho que ir dormir. Não vou rever e peço que relevem as letras trocadas, a menos ou a mais, as vírgulas a mais ou a menos.
Relembro: Abaixo encontrarão a Manuel Ferreira Leite e, logo a seguir, a Porta dos Fundos.
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Desejo-vos, meus Caros Leirores, uma bela sexta-feira.
Deixa que a escuridão se instale completamente sobre a terra
e acende só então o pequeno candeeiro
para que a tua sombra encontre a noite do mundo.
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A fotografia foi feita no outro dia na Meia Praia.
O poema chama-se 'A noite do mundo' e faz parte do livro 'A Misericórdia dos Mercados' de Luís Filipe Castro Mendes.
A pintura é de António Palolo e surge aqui na sequência de comentário abaixo que muito agradeço. Ficam muito bem aqui estes homens azuis que parecem também procurar a sua sombra.
O pequeno excerto do bailado pertence a "Fluence" na coreografia de Robyn Mineko Williams e dançado pelo Hubbard Street Dance Chicago.