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terça-feira, abril 28, 2026

Transparência, opacidade, independência, submissão e etc. -- e democracia

 

Não é uma questão de saber se a casa de um político tem elevador e meia dúzia de casas de banho -- e porque será que este exemplo, como diria o Montenegro, se aplica como uma luva ao criador da Spinumviva? -- ou de espreitar para os bolsos deste ou daquele ou de cusquice vã. Não senhor, nada disso. É mesmo ter a certeza de que a democracia funciona a bem dos cidadãos e não de grupos e grupinhos, é ter a certeza de que a política não está aprisionada por interesses que não privilegiam o bem da sociedade no seu todo mas, apenas, obter vantagens que passam por contornar a lei para enriquecimento ilícito ou de uma pequena minoria.

Nestas coisas, antes de me pôr a tecer considerações, gosto de me informar e de aprender com as experiências alheias.

E agora, com as extraordinárias ferramentas da Inteligência Artificial, é fácil fazer comparações. Claro que nisto, como já o era nos motores de busca, a chave está em fazer as perguntas certas. Ora, o que devemos saber para ficarmos com a ideia mais aproximada daquilo sobre o qual pretendemos formar opinião? Aí reside a dificuldade.

Neste caso, o que eu quero saber é qual o modelo de financiamento da actividade pública que melhor defende os interesses da população. 

Como casos de comparação, resolvi obter informação sobre os Estados Unidos (em que, no caso extremo e corrupto do regime trumpista, se percebe como os grandes doadores, as Metas, Teslas, Open AI, Amazon, empresários israelitas, etc, na prática mandam nos EUA -- e, por essa via, também, em parte no mundo), sobre os países nórdicos (em que há sociais-democracias, que me interessa conhecer melhor) e, talvez como contraponto, a Suiça (que, em quase tudo, corre em carris muito lá dela).

O que abaixo se pode ser é o que o Gemini (versão gratuita) respondeu às minhas questões:


1. Política e Democracia: Do "Big Money" à Democracia Direta


A forma como o poder é financiado define quem manda no país.

  • EUA: O sistema de "venda ao melhor licitante". As campanhas são máquinas de gastar dinheiro privado, criando uma elite política refém de doadores.

  • Países Nórdicos: Baseiam-se na transparência radical. O financiamento é maioritariamente público. Na Suécia, por exemplo, o foco é a igualdade de oportunidades para os partidos; o dinheiro privado é limitado para evitar que a riqueza distorça o debate.

  • Suíça: É o caso mais curioso. Sendo um centro financeiro, a Suíça tem menos financiamento público direto que os vizinhos, mas o seu "segredo" é a Democracia Direta. Como o povo pode votar em referendos sobre quase qualquer lei, o poder dos lobistas é diluído: não basta convencer um político; é preciso convencer a população.

2. Infraestruturas e Bem Comum


Quem decide onde se constrói a próxima ponte ou linha de comboio?

  • EUA: O modelo é de exploração. Muitas vezes, o Estado só consegue avançar se houver um interesse comercial privado por trás, o que gera desertos de infraestrutura em zonas pobres.

  • Países Nórdicos: O Estado é o arquiteto. As infraestruturas são vistas como a base da produtividade. O financiamento vem de impostos elevados, mas o retorno é visível em transportes públicos impecáveis que servem toda a gente, não apenas quem pode pagar.

  • Suíça: Um modelo híbrido de alta eficiência. O investimento em infraestrutura (especialmente ferroviária) é massivo e financiado publicamente, mas gerido com um rigor empresarial que faz inveja aos privados americanos.

3. Educação e Ascensão Social


O papel das universidades na perpetuação da elite.

  • EUA: As universidades são empresas. Os endowments bilionários de Harvard ou Stanford vêm de doações de magnatas, criando um ciclo onde os ricos financiam as instituições que educam os seus próprios herdeiros.

  • Países Nórdicos: A educação é um investimento público total. Do jardim de infância ao doutoramento, o custo é zero (ou quase zero). O objetivo é que o filho do operário e o filho do CEO estudem na mesma sala, financiados pelo Estado.

  • Suíça: Foca-se na qualidade e no ensino dual (profissionalizante + académico). As universidades públicas (como a ETH Zurich) são das melhores do mundo, têm propinas muito baixas e são financiadas pela Confederação, garantindo que a inovação não dependa de caridade privada.

4. Coesão Social vs. Filantropia


  • EUA (Filantropia): Se um milionário decide financiar uma ala de um hospital, ele é visto como um herói. O problema é que o milionário escolhe o que financiar, substituindo a vontade democrática pela sua preferência pessoal.

  • Países Nórdicos (Estado Social): Não esperam pela caridade. O contrato social dita que todos contribuem para que todos recebam. A saúde e o apoio social são direitos garantidos, não favores de patronos.

  • Suíça (Responsabilidade Individual e Coletiva): A Suíça equilibra isto com um sistema de seguros obrigatórios e uma forte descentralização (Cantões). O dinheiro fica perto do cidadão e a gestão é local, o que impede que grandes fortunas comprem decisões federais.


Comparativo de Modelos

CaracterísticaEstados UnidosPaíses NórdicosSuíça
Motor do SistemaCapital PrivadoEstado SocialDemocracia Direta
Financiamento PolíticoPrivado (Ilimitado)Público (Transparente)Misto (Focado no Cidadão)
Educação SuperiorNegócio / ElitistaDireito / GratuitaExcelência Pública / Acessível
InfraestruturaDependente de LucroPlaneamento EstatalEficiência Coletiva

Nota de Contexto: Enquanto nos EUA o poder económico domina a política, nos Nórdicos o poder político regula o económico e na Suíça o poder do cidadão (via voto direto) trava ambos.

Transparência

A transparência financeira é, talvez, a maior linha divisória entre estes sistemas. Enquanto nuns o dinheiro é um "segredo protegido", noutros é um "livro aberto".

Aqui está como funciona o acesso à informação sobre quem paga as contas da política:


1. Estados Unidos: O Labirinto do "Dark Money"


Nos EUA, a transparência existe no papel, mas é facilmente contornada.

  • Transparência Nominal: As doações diretas a candidatos (limitadas a valores baixos) são públicas e registadas pela Federal Election Commission (FEC). Qualquer pessoa pode pesquisar quem doou a quem.

  • O Problema do "Dark Money": O grande volume de dinheiro passa pelos Super PACs e organizações sem fins lucrativos (501(c)(4)). Estas entidades podem gastar milhões em propaganda política sem nunca revelar a identidade dos seus doadores originais. É aqui que os milionários e as corporações escondem a sua influência.

2. Países Nórdicos: A Cultura do Aquário


Nestes países, a premissa é que se queres influenciar o público, o público tem o direito de saber quem és.

  • Suécia e Noruega: As leis de transparência são extremamente rigorosas. Os partidos são obrigados a publicar relatórios detalhados. Na Noruega, por exemplo, existe um portal online onde qualquer cidadão pode consultar as receitas dos partidos, discriminando o que é público e o que é privado.

  • Cultura de Escrutínio: Mais do que a lei, a pressão social é enorme. Se um político recebe uma doação avultada de uma empresa privada, isso é notícia de primeira página e visto como um conflito de interesses quase imediato. O anonimato em doações políticas é praticamente inexistente.

3. Suíça: A Exceção Histórica (em Mudança)


Até muito recentemente, a Suíça era curiosamente um dos países menos transparentes da Europa nesta matéria.

  • O Passado: Durante décadas, o financiamento político era considerado uma questão de privacidade pessoal. Não havia leis federais que obrigassem a revelar os doadores.

  • A Mudança (2022/2023): Após pressões internacionais e internas, a Suíça implementou novas regras. Agora, para eleições federais, os partidos devem declarar doações superiores a 15.000 francos suíços. Embora seja um passo em frente, ainda é um sistema mais "fechado" do que o nórdico, refletindo a cultura suíça de discrição financeira.

4. Democracias Europeias Consolidadas (Portugal, Espanha, França)


  • Regras Estritas: Nestes países, as doações de empresas (pessoas coletivas) são geralmente proibidas. Apenas cidadãos individuais podem doar, e até um teto máximo relativamente baixo.

  • Publicação Obrigatória: As contas dos partidos são auditadas por entidades independentes (como o Tribunal de Contas em Portugal) e publicadas em Diário da República ou nos sites das instituições. Saber quem doou 1.000€ a um partido é uma questão de consulta pública.


Comparação de Transparência

RegiãoAs doações são públicas?Existem doadores "anónimos"?
EUAParcialmente (Transparente nos candidatos, opaca nos Super PACs)Sim, em larga escala (Dark Money).
Países NórdicosSim, quase totalmente.Praticamente impossível.
SuíçaAgora sim (acima de 15k CHF).Sim, para valores pequenos e locais.
Resto da EuropaSim, com limites baixos por pessoa.Não, empresas estão proibidas de doar.

Onde está o perigo?


Onde as doações são públicas mas os limites são inexistentes (EUA), o risco é a captura do regulador: o político trabalha para quem financiou a sua campanha.

Onde as doações são privadas e anónimas (como era na Suíça ou é no Dark Money americano), o risco é a corrupção invisível, onde o eleitor nem sequer sabe a quem o seu representante deve favores.

sábado, abril 11, 2026

O Tó Zé Seguro, o SNS, o Governo e o Rutta
-- E cá está o meu marido, outra vez, a varrer o terreiro a varapau --

 

Segundo o Expresso, Belém (será que continua a existir a fonte de Belém?) vai preparar um relatório sobre a Presidência aberta do Seguro. Admito que será uma espécie de caderno de encargos para o governo, referindo o que tem que ser feito. Como é relatado pelas populações e autarquias, à verborreia habitual do governo, prometendo ajudas com enorme rapidez, não corresponderam ações efetivas sendo os atrasos na chegada das ajudas mais do que muitos. 

E não são só os atrasos nas ajudas. Pelo que se vem ouvindo, parece que nada foi feito de relevante para mitigar o que aconteceu. Sabermos pelo Seguro que ninguém no governo se tinha preocupado com o enorme problema que é a quantidade de combustível existente nos terrenos. Ora isto só revela uma coisa: a enorme incapacidade do governo para tomar decisões e para actuar com competência. 

Aposto que, quando sair o relatório/caderno de encargos, o Montenegro, engolindo o elefante, vai dizer, com aquele ar de sacana que o caracteriza, que o documento "assenta que nem uma luva na política do governo". 

Já aqui o recordei e vou voltar a isso: ao  SNS. É urgente que o Seguro volte ao assunto porque os indicadores sobre o SNS são cada vez piores, é preciso pôr o dedo na ferida, tentar minimizar as dores e dinamizar soluções. 

Tenho para mim que os principais problemas do SNS são:

  • a ministra e os lobbies que a suportam e que querem privilegiar os privados, 
  • a Ordem dos Médicos com as suas atitudes super corporativistas 
  • e a falta da qualidade dos gestores que estão nos postos chave do SNS. 

As chefias são nomeadas pelo cartão do partido e não pela competência e capacidade de gestão. E esta questão da gestão é tão problemática que o SNS manda para entidades privadas, para frequentarem cursos de gestão que custam milhares de euros, dezenas e dezenas de chefias que, de cada vez que abrem a boca, revelam um completo desconhecimento do que é o b-a-bá da gestão e a única coisa que sabem fazer é queixar-se de não terem autonomia para fazer nada. 

Em resumo, o dinheiro dos contribuintes também é esbanjado na formação de recursos que podem ter jeito para muita coisa mas não têm, seguramente, jeito para gerirem serviços no SNS e só são nomeados pelo cartão partidário. É necessária acabar com este forrobodó. 

Pior que o Rangel a apostar que os americanos cumprem estritamente o tratado das Lajes (provavelmente só ele e Montenegro é que acreditam -- uma vergonha a posição do governo sobre a guerra do Irão) foi o que o Rutta disse ontem sobre a posição do Trump e dos países da NATO na guerra do Irão. Este tipo de parvos bajuladores sem espinha dorsal ainda não perceberam que só consegue vencer o Trump quem lhe faz frente e o que se passa com a guerra no Golfo é um bom exemplo. São estúpidos e covardes. É uma vergonha exercerem as funções que exercem.

Não menos vergonhosa é a posição que a direita tem sobre a tudo o que envolve a identidade de género, nomeadamente a recente polémica sobre as terapias de conversão. As provas científicas contrariam a opção destes gajos e as ordens dos médicos e dos psicólogos são absolutamente contra as opções da direita. Cada vez mais a direita portuguesa (de que o actual PSD não é capaz de se distanciar) se aproxima dos membros do culto MAGA defendendo posições revanchistas, reaccionárias, sem qualquer fundamento científico e estupidamente desrespeitadoras das opções individuais. Provavelmente acham que devem pôr padres abusadores a aconselhar menores sobre as respetivas orientações sexuais. É difícil descer mais baixo. 

Será que ainda existem sociais democratas no PSD e, se existirem, o que pensam sobre este tipo de retrocesso civilizacional?

quarta-feira, janeiro 28, 2026

O Ressentimento faz a força

-- Um poderoso texto do meu filho --

 

Se observarmos a História da humanidade e a evolução das diversas civilizações, encontramos dois elementos que surgem recorrentemente: o conflito e o progresso. É provável que estejam interligados. O progresso nasce do desejo de alcançar mais e melhor, e é essa mesma vontade que está na raiz de inúmeros conflitos.

A nossa história é marcada por ciclos de mudança e por grandes disrupções: pragas, descobertas, obras colossais e destruições massivas provocadas por guerras. Periodicamente, surgem transformações profundas que criam novas eras — a queda de impérios, revoluções tecnológicas, ou a criação de armas cujo poder supera tudo o que as antecedeu.

A mudança, porém, não é necessariamente benéfica. O progresso, por definição, implica melhoria; a mudança, não. Uma inovação tecnológica pode acarretar custos ambientais tão elevados que os prejuízos ultrapassam largamente os benefícios. Um novo império guiado por ideologias de ódio pode destruir muito mais do que é capaz de criar. A história recente já nos ofereceu exemplos de ambos os casos.

Há nestes dias o acordar da consciência coletiva para uma nova fase da humanidade. 

Por alianças, proximidades geográficas e culturais e por interesses partilhados, o mundo organizou-se em blocos. Nas últimas décadas, o Bloco Ocidental liderou a ordem internacional e concentrou uma parte significativa dos recursos globais. Sem juízos de valor sobre os méritos ou falhas desse Bloco, é inegável que, para os povos que o compõem — em especial os nativos deste espaço — essa configuração de poderes foi, em geral, favorável. Foram, de forma recorrente, vencedores de conflitos, acumuladores de riqueza e beneficiários de um estilo de vida mais confortável do que a maioria da população mundial.

Hoje, esse Bloco revela fraturas profundas, que colocam em causa qualquer resquício de unidade. O fenómeno parece mais uma implosão do que um confronto externo — forças internas comprimidas numa câmara de pressão que já não suporta a crescente intensidade das tensões.

O risco para todos os povos do mundo é que esta desagregação produza uma mudança profunda, mas não um verdadeiro progresso para a Humanidade. Esta suposição contém um certo grau de arrogância (na qual na realidade nunca me revi): a ideia de que o mero funcionamento deste Bloco gera mais benefícios do que prejuízos para o mundo.

É perfeitamente concebível imaginar, num cenário contrafactual, uma ordem global diferente — mais equilibrada entre povos, menos dependente de hegemonias, mais cooperativa, mais solidária no desenvolvimento e menos assente na apropriação de recursos pela força, militar ou económica.

Mas é igualmente plausível, noutro cenário contrafactual, emergir algo pior: guerras destrutivas e globais, isolacionismo e egoísmo que aceleram a catástrofe ambiental, migrações massivas provocadas pela fome e pela seca, um retrocesso civilizacional nas liberdades e nos direitos.

Se este for, de facto, um momento de charneira, o risco é escolhermos o cenário contrafactual errado — empurrados pela cegueira de poder de elementos agitadores que exploram o Ressentimento Histórico do Homem Branco Nativo, que se vê como o “herdeiro legítimo” do Bloco Ocidental, mas que hoje se sente traído e contrariado no seu forte sentido de entitlement, de direito adquirido.

Este Homem Branco, nativo do Bloco Ocidental, não pertence às classes altas nem aos vencedores do capitalismo liberal que moldou o Bloco. Não integra a elite política nem a burocrática. Não faz parte dos ricos nem dos privilegiados. Pertence, isso sim, à classe trabalhadora — na melhor das hipóteses à middle working class assalariada, com rendimentos próximos ou abaixo da média. Cumpre a lei, paga impostos e tem opiniões. Recebeu educação, mas não chegou à universidade. Tem um emprego, mas não uma carreira. Viveu sempre no mesmo ambiente cultural e racial, partilhou com os seus vizinhos tradições semelhantes, interesses futebolísticos, religiosos e sociais.

É esta classe que está a aumentar a pressão dentro da câmara. 

Esta classe sente-se ressentida. Ressentida pela perda de poder de compra; pela nostalgia de um tempo que nunca viveu, mas que lhe foi prometido pelas gerações anteriores — a convicção de que o futuro seria melhor do que o presente e muito melhor do que o passado. A promessa de que, cumprindo as suas obrigações e trabalhando com afinco, proporcionaria aos seus filhos uma vida superior à sua. Hoje, essa promessa soa-lhes irrealista, e não têm evidências de que alguma vez venha a concretizar-se. 

O liberal económico argumentará que a oportunidade existe: “trabalharás, e chegarás lá”. Mas será mesmo assim? Será essa a realidade para a maioria? Existem oportunidades infinitas numa economia real, capaz de absorver todos os que se esforçam? E acordar cedo, trabalhar oito ou nove horas, perder duas em deslocações, trabalhar cinco ou seis dias por semana sem pausa, desempenhando bem a sua função — não é esforço suficiente esperado? A verdade é que, para muitos, não é.

A evolução do Bloco Ocidental está a gerar um conflito que parece cada vez mais insanável. À medida que o Estado reduz o seu papel de intervenção económica e se desvalorizam as políticas de redistribuição, solidifica-se uma camada de vencedores, criando-se um sistema progressivamente viciado. Como é próprio da natureza humana, essas classes vencedoras criam mecanismos para preservar a sua posição e ampliar a distância em relação aos seus competidores naturais. Assim tem sido desde os primórdios da humanidade.

Deste desequilíbrio nasce o ressentimento da classe trabalhadora, que cumpriu o contrato social que lhe foi proposto, mas não recebeu o retorno que lhe tinha sido implícita ou explicitamente prometido.

É verdade que este Homem Branco dispõe de um certo conforto material: possui um carro, uma casa nos subúrbios — quase sempre associada a uma dívida duradoura, faz férias ocasionais, tem SportTV e pequenos prazeres do quotidiano. Não vive a miséria extrema que atinge muitos povos do Hemisfério Sul ou amarguras da guerra, os verdadeiros derrotados da ordem global. O seu ressentimento nasce mais de um sentimento de abandono do que de desespero.

Este ressentimento é alimentado também pela degradação dos serviços públicos, financiados pelos seus impostos, que se deterioram a uma velocidade inversamente proporcional à expansão dos serviços privados por natureza elitistas e orientados para os vencedores do sistema. O fenómeno manifesta-se igualmente na educação, na saúde e na justiça, pilares fundamentais da democracia que lhes foi prometida. Quando estas instituições se degradam, desmorona-se, aos olhos desta classe, a própria perceção de que o sistema democrático funciona.

E são percebidos como perdedores — não porque estejam pior do que há cinquenta anos, mas porque estão estagnados há vinte, mergulhados num ambiente generalizado de degradação e desânimo. São as escolas sem professores, os hospitais a transbordar ou com as urgências encerradas, os comboios paralisados ou sobrelotados, o preço esmagador das casas, a inflação nas compras mensais e na energia, os processos nos tribunais que se arrastam, uma perceção generalizada de insegurança.

Ressentimento também por motivos culturais. Uma sociedade multicultural, com bairros étnicos, com muitas culturas e línguas, como se observa em Londres, é o que Homem Branco espera para a terra onde nasceu, cresceu e sempre viveu? O sistema de imigração deve exclusivamente dar resposta às necessidades vorazes do mercado de trabalho liberal?

O Homem Branco não está pronto para uma transformação cultural tão acelerada. Em alguns casos poderá ser Racismo e Xenofobismo ideológico, mas em muitas situações será um humano receio da mudança. A dificuldade em assimilar que tudo muda menos ele. A dificuldade em lidar com vizinhos diferentes, com comportamentos que não compreende, com línguas que não fala. A nostalgia de outros tempos, que pelo menos eram fáceis de entender.

É um Ressentimento cultural real.

O ressentimento nasce também da perceção — ainda que abstrata — de que quem governa pertence à Classe dos Vencedores, em oposição à Classe dos Perdedores. Alimenta-se a ideia de que o poder político age sobretudo em benefício próprio, sem um verdadeiro compromisso com o Serviço Público.

A esta pressão interna soma-se um elemento adicional que funciona como catalisador, tal como acontece em tantas reações físicas: neste caso, os partidos situados nos extremos do espectro político. São eles que veem nesta insatisfação profunda uma oportunidade para avançar com a sua própria transformação, oferecendo respostas simples para problemas complexos e capitalizando a frustração acumulada.

Com a queda do Muro de Berlim caiu por terra a promessa e atração do Socialismo Real. Com a ascensão do Donald Trump, das Redes Sociais e dos fenómenos migratórios de muito larga escala, num panorama estéril de promessas transformadoras, emergiram os Partidos da Direita Radical, herdeiros do fascismo do século passado. 

Os grandes atores políticos da atualidade — apoiados por estrategas experientes em propaganda e marketing, utilizadores hábeis das redes sociais e sem pudor em recorrer à mentira, à difamação e a técnicas de manipulação de massas — tornaram-se os verdadeiros vencedores políticos do nosso tempo. São os orquestradores de uma nova era que receamos poder ser pior do que a anterior: uma era em que prosperam aqueles que mais beneficiam do retrocesso, da destruição e da divisão. Emergindo do caos e do ódio, da gritaria e da acusação, das fake news e da demagogia, constroem um futuro com estas características e moldado pelo ambiente em que melhor sobrevivem. Uma simbiose perfeita entre o organismo e o meio.

As redes sociais funcionam, neste contexto, como um acelerador sem precedentes. Permitem uma comunicação direta, desintermediada e sem filtros entre o Agitador e o Ressentido — uma combinação altamente inflamável. Este canal imediato facilita a provocação e a mobilização, apelando às emoções mais primárias de indignação e ódio, ao mesmo tempo que oferece o conforto da desculpa: a sensação de que afinal ninguém está sozinho, de que esses sentimentos têm legitimidade, de que há uma razão plausível para a raiva. Alimenta-se assim a motivação para “mudar” — seja para o que for, desde que não seja isto.

O dilema para a sociedade torna-se, assim, evidente e deve ser recordado em cada eleição. Combater a força da direita radical através das ferramentas da política tradicional revela-se uma estratégia condenada ao fracasso junto da sua base eleitoral mais fiel — aquela parte da população que já não acredita no valor das propostas dos partidos convencionais. Para este eleitorado marcado pelo ressentimento, a frustração é tão profunda que prefere derrubar o sistema para ver o que daí resulta, em vez de persistir no caminho que considera estagnado, mesmo que não haja propostas ou projetos de mudança reais.

A única forma de transformar este momento de mudança em algo melhor — no espírito do que Mark Carney defendeu no seu discurso — é devolver esperança aos que se sentem ressentidos, através de propostas concretas e credíveis. Um futuro baseado na justiça, na confiança e na inclusão; um mundo em que ninguém fica para trás. Um mundo em que o fosso entre ricos e os remediados se estreita, em que as relações entre países se constroem sobre acordos justos e não sobre a exploração dos mais fracos pela força dos mais poderosos.

À escala de um país como o nosso, isso implica um plano de longo prazo, sustentado por um amplo consenso entre os partidos que partilham princípios democráticos. Um plano orientado para recuperar os pilares fundamentais da sociedade; para reforçar o elevador social; para criar um mercado verdadeiramente justo, que valorize e premie o trabalho e não apenas o capital.

Implica também uma gestão responsável e transparente da imigração, com políticas claras de aceitação e integração.

E aponta para um futuro em que os pais possam acreditar que os filhos terão uma vida digna e estável: com acesso a creches de qualidade, boas escolas, boas universidades, bons empregos com salários justos e habitação paga de forma sustentável; com cuidados de saúde que respondam às suas necessidades. Este era — e continua a ser — o sonho da convergência europeia e da globalização no seu melhor sentido. Era o sonho de uma ordem internacional baseada no direito e nos direitos humanos. 

A construção desse futuro não tem de gravitar na órbita dos Estados Unidos. Pode assentar num quadro multilateral, baseado em pontos de aproximação e numa interdependência pragmática entre diferentes regiões e parceiros. 

Não estamos condenados à guerra e conflito. Da cooperação pode vir uma paz longa e duradora. Da cooperação conciliada com a autonomia, do progresso aliado à justiça, pode resultar uma sociedade melhor. 

Neste cenário alternativo ao ressentimento — um cenário de esperança — o Estado tem um papel real, não pela força do seu peso, mas pela força da sua capacidade de promover mudança e transformação, em conjunto com os demais setores da sociedade. Um projeto que inclua todos, sem exceção, garantindo que ninguém fica para trás.

Não haverá sucesso nesta jornada se não se compreender e enfrentar a verdadeira origem do Ressentimento. Ignorar ou desvalorizar a parte da população que agora aderiu à Direita Radical seria um erro histórico.

Num momento tão transformador como o que vivemos, cabe às forças impulsionadoras da mudança encarar o desafio de frente e reescrever o futuro comum, com o propósito claro de transformar o ressentimento em esperança. E promover a mudança positiva em cada Eleição.