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sexta-feira, julho 24, 2026

Ela não dava respostas, ela ficava na pergunta

 

Não sei bem qual o primeiro livro dela que eu li. Sei, isso sim, que me agarrou pelas vísceras. É daquelas coisas que, se eu quiser explicar, não sei bem o que dizer. A ideia que tenho é que ela não contava propriamente uma história, contava o que alguém, ou ela mesma, sentia. Mas sentia a um nível muito elementar. Em geral os escritores falam de eventos especiais, marcantes. Quando muito, numa crónica ou num registo mais diarístico, acontece o autor permitir-se falar de pequenos nadas da sua vidinha, insignificantes impressões. Mas abrir-se um livro, romance ou novela, e uma pessoa sentir aquela sensação estranha de que entrou na cabeça ou no corpo de alguém e que experimenta aquelas dúvidas miúdas que geralmente nunca veem a luz do dia ou aqueles medos ou aflições que nunca se verbalizam, aquela maldade de que se sente vergonha apesar de ser inofensiva, isso é muito estranho. Lembro-me de de avançar de página em página e depois recuar, querer ter a certeza de que tinha lido bem, que aquela escrita existia mesmo da forma como eu estava a assimilar. Uma sensação que era de estranheza, sim, mas, ao mesmo tempo, de grande admiração, uma admiração por algo novo, e, também, de vontade de a ter descoberto há mais tempo. E, reconheço agora, uma vontade de também ser capaz de escavar assim, tão impiedosamente, dentro de mim.

Fui comprando os seus livros. 

Quando o mundo deixou de ser analógico e as pessoas, mesmo as desaparecidas, continuavam vivas nos nossos computadores, comecei a ver como ela era, como era a sua voz, como demonstrava tão cruamente o desinteresse pelas aparências, como não disfarçava o seu cansaço. 

Também morreu cedo de mais.

Alguns dos seus livros, para mim não ser para ler de seguida. Não costumo ler missais mas imagino que abra-se em que página se abrir, está sempre certo, faz sempre sentido. E, se não vier a calhar, abre-se ao acaso noutra página e já vai estar bater certo com o que estamos disponíveis para ler. Assim com algumas das suas coisas. É a escrita pela escrita. Mas isto não significa que seja desprovido de sentido. Significa apenas que é uma escrita que não se encaixa nas escalas a que estamos habituados: é uma escrita multidimensional em que as derivadas e os vectores secindários são tão determinantes quanto os eixos principais e os pontos que por entre eles se deslocam.

Há muitos documentários sobre ela e, às tantas, já não há nada de novo a acrescentar. Mas vou sempre ver. Gosto de ver o seu desapego. Era também assim que escrevia, sem querer saber.

Já aqui o referi antes: nestes tempos de mil solicitações, em que a sua atenção fica cativa dos youtubes, dos influencers, das redes sociais, da omnipresença do futebol, não sei como se instila nos jovens o prazer da leitura. A realidade deles já é quase exclusivamente a das notícias que se descrevem em meia dúzia de palavras, dos vídeos cheios de palavrões, dos jogos e das interacções através das muitas plataformas de partilha de toda a espécie de coisas, sobretudo de lixo. 

Como conseguir que um jovem, mesmo um jovem adulto, pegue num livro dela, tão diferente de tudo, e não desista antes de chegar ao fim da primeira página?

Não sei.

Vou dizer o que disse no outro dia: um dos meus netos fez o 12º. Creio que não leu um único dos livros obrigatórios. Sei que gostou dos Lusíadas, mas não sei se o leu todo. Da maioria dos livros que poderiam sair no exame sei que não leu. Disse que não tinha tempo nem paciência, que precisava do tempo para se concentrar na matemática. E, no entanto, nos testes lectivos teve sempre boas notas. Não lhe disse nada para não o enervar, mas temi pelo exame. Mas ainda bem que não disse pois no exame teve uma nota igualmente alta, nem sei se até um pouco superior à lectiva. Como o conseguiu? Youtube, provavelmente trabalhando em conjunto com a IA na caracterização de personagens ou na descrção do enredo. Não sei ao certo. O que sei é que resultou com o tipo de ensino que temos que, como se vê, não consegue estimular o gosto pela leitura. Em casa cresceu entre livros, sempre testemunhou hábitos de leitura, sempre foi incentivado a ler. E lia. Até que cresceu e começou a ter menos tempo livre e até que foi confrontado com a necessidade de ler livros que não lhe dizem nada. Como é inteligente e facilmente apanha do ar, desenvolveu formas de atingir os objectivos escolares. Mas temo que o prazer de desbravar o infinito mundo da literatura se tenha dissipado, pelo menos para já.

Mas, enfim, o inteligente ministro da educação (letras deliberadamente pequenininhas) há-de também te solução para isto.

O enigma de Clarice

Clarice Lispector não escrevia apenas histórias. Neste vídeo, mergulhamos na vida e na mente de uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. De sua origem Ucraniana ao auge no Brasil, entenda como Clarice transformou a literatura. Se você já se sentiu um "estrangeiro" no próprio mundo, este vídeo é para você.

E já estamos outra vez numa sexta-feira

Que ela seja feliz

segunda-feira, dezembro 01, 2025

Vamos de mal a pior
-- A palavra ao meu marido --

 

Esta semana tivemos conhecimento de crimes absolutamente abjetos, que demonstram a falta de humanidade e de escrúpulos de quem os praticou. Como se não fossem suficientemente horríveis ainda soubemos na sexta-feira que se levantam fortes suspeitas da actuação de guardas prisionais sobre um recluso, com consequências terríveis. Quando nos entram pela casa dentro notícias de que quem se supõe que cumpre as leis, nomeadamente polícias, bombeiros e guardas prisionais, afinal as viola, demonstrando a maior  desumanidade, ficamos enojados e pensamos que, caso se prove a respectiva culpa, têm que ser exemplarmente punidos. 

É difícil admitir que são acontecimentos fortuitos e não um sinal dos tempos. O Governo, seguindo a cartilha do Chega, não se pronuncia sobre casos que põem em causa os nossos valores e a coesão da nossa sociedade. Quando vemos que os GNR alegadamente envolvidos na escravização dos imigrantes no Alentejo ficaram com a pena menos gravosa após o primeiro interrogatório porque a procuradora não transcreveu as conversas telefónicas ou  que o PGR quer fazer um despacho à medida do Montenegro e do caso Spinunviva para evitar escrutínios, percebemos que se estão a criar condições para que o apuramento da verdade e responsabilização dos culpados não aconteça. Aliás, num caso idêntico que ocorreu recentemente, os responsáveis pela exploração desumana de imigrantes foram absolvidos por falta de provas. 

E, relativamente à escravização dos imigrantes, também deveria ser investigado como é possível que os donos das herdades não soubessem, que as hierarquias não suspeitassem e que a população local não se tivesse apercebido. Será que são votantes do Chega que, embalados pelas cantigas fascizantes do Ventura, acham que isto é o novo normal e que os imigrantes devem ser explorados sem qualquer pingo de humanidade?

A mentira continuada e sem escrúpulos dos populistas propagadas nas redes sociais, populistas que não têm quaisquer escrúpulos e utilizam todos os meios para atingir os seus fins, estão a dar ou já deram cabo da nossa sociedade e dos valores das democracias liberais. 

A democracia não se soube defender destes perigos que põem em causa tudo o que de bom e positivo foi construído nas últimas dezenas de anos. Como é possível que a geração Z, que só acede à informação através das redes sociais, seja cada vez mais reacionária, até na forma como trata as mulheres, e pense que  antigamente se vivia melhor do que se vive hoje? 

É possível porque a geração Z e outras gerações sofrem todos os dias uma lavagem ao cérebro quando acedem às redes, não tendo a democracia sabido defender-se destes perigos porque foi mais democrática do que era exigível e, em vez de se defender, abriu as portas à extrema direita racista, populista e xenófoba. 

Qual a razão de as escolas, nas aulas -- por exemplo, de cidadania -- não apresentarem factos, sem ideologias, relativamente aos tempos da antes do 25 de Abril e de hoje? Comparação da taxa de alfabetização, do acesso à saúde, do acesso à educação, da percentagem de casas com água canalizada e com casa de banho, da taxa de pobreza, ... . 

Existem exemplos mais do que suficientes para qualquer jovem com um mínimo de inteligência perceber que hoje estamos centenas de vezes melhor do que antes do 25 de Abril. 

Maldito algoritmo! Será que algum dia se conseguirá combater eficazmente este flagelo? 

Urge, para bem de todos nós!

domingo, junho 15, 2025

Reservado

 

Neste meu período sabático em que me ocupo desocupando-me e em que aprendo a fazer livremente o que me apetece sem me sentir mal por não produzir nada, voltei a ver Netflix. Já não via há séculos pois o tempo não me chegava para nada, muito menos o tinha para ver filmes ou séries a meio do dia ou à noite.

O meu marido, em contrapartida, não tem parança. Lava muros e pavimentos à pressão, pinta muros, pintou uma mesa, corta a relva, apara sebes. Quem o viu e quem o vê. Gosta do que faz. Claro que acho que faz tudo à pressa, parece que trabalha por empreitada e que tem que despachar uma para ir agarrar outra. Mas parece que não consegue ser de outra maneira pelo que não vale a pena eu dizer o que quer que seja.

No outro dia, ouvíamos um chinfrim dos diabos vindo de um jardim vizinho. Eram os jardineiros. Disse ao meu marido: uma das boas decisões que tomámos foi livrarmo-nos deles. Ia responder mas atalhei: já sei que sobra para ti mas é um sossego e o jardim está muito melhor. As nossas máquinas são a bateria, quase silenciosas. Eles usam máquinas a gasolina que fazem uma barulheira que não se aguenta. Quando vinham cá, o melhor era pirarmo-nos. Ainda me lembro de quando estava em teletrabalho, a ter reuniões pegadas umas às outras, sem poder livrar-me, enquanto, no exterior, os jardineiros aparavam relva, cortavam sebes, sopravam folha, um festival de barulheira, e, no interior, o cão ladrava alto e bom som, atirava-se aos vidros, numa fúria descontrolada. Não havia sítio na casa onde eu pudesse estar em paz enquanto eles andassem a jardinar a toda a volta da casa.

Mas, estava eu dizendo, voltei a ver Netflix. No outro dia tinha visto as 4 Estações, uma série engraçada, depois vi La Dolce Villa, um filme fofo, e, ao acabar, resolvi dar uma espreitadela. Chamou-me a atenção a série Reservado (Secrets we keep) por ser dinamarquesa. Gosto bastante de séries e filmes escandinavos. São outra coisa. Não desfazendo -- até porque há coisas boas em todo o lado -- mas, mais que americanices, espanholadas, francesices, italianadas, etc, é com as cenas escandinavas que mais me identifico. 

E gostei muito. Não descansei enquanto não vi tudo. É um bocado inquietante, por vezes bastante, mas tudo dentro do limite do totalmente verosímil, tudo a fazer-nos pensar, tudo a obrigar-nos a olhar para as coisas sob uma perspectiva que não era a inicial. E tocante. Vamos acompanhando as lealdades que, por vezes, obrigam a deslealdade para com a verdade, a confiança e a facilidade com que se quebra, a protecção dos que se amam que, por vezes, implica a desprotecção de outros, geralmente dos mais frágeis, a cumplicidade que tenta proteger a intimidade mas que, por vezes, implica esconder um crime. Mas também ficamos na dúvida: quem praticou o crime é, na verdade, o responsável pelo crime ou é, ele próprio, uma vítima?

Mas tudo se passa sem barulho, sem ruído a poluir os diálogos ou os pensamentos, sem perseguições, sem pressa. Temos tempo para observar as expressões dos personagens, para pensar, para reagir.

Ou seja, a quem subscreva a Netflix, recomendo.

RESERVADO (Reservatet) 
| Trailer Legendado PT | Minissérie | Marie Bach Hansen | Excel Busano

Ao procurar respostas para o desaparecimento da au pair de uma vizinha, Cecilie desvenda segredos que abalam o mundo aparentemente perfeito do seu subúrbio abastado.

Elenco: Marie Bach Hansen, Excel Busano, Danica Curcic, Sara Fanta Traore, Simon Sears, Lars Ranthe, Lukas Zuperka, Frode Emil Bilde Rønsholt, Donna Levkovski, Henrik Prip



Desejo-vos um belo dia de domingo

segunda-feira, outubro 16, 2023

O que éramos, o que somos. Os que deixaram de ser.
E o mundo que não compreendo.

 


A minha mãe encontrou uma carteirinha de fotografias pequenas daquelas a que, há milénios, se chamava 'tipo passe' com algumas fotografias de colegas de liceu. Nem todas têm o nome atrás. Naquela altura devíamos pensar que não fazia falta escrevê-lo. Agora olho para algumas dessas, lembro-me das pessoas que elas representam mas não tenho ideia do nome.

Partilhei com outros colegas dessa altura. Duas dessas foram identificadas. Outras não. Desapareceram nos meandros da memória de toda a gente.

De uma disseram que não está bem da cabeça, ausente, desinteressada do mundo. Fez-me muita impressão, isso.

Claro que, de tudo, o que me faz impressão são os vários que já morreram. Parece-me uma coisa muito contra natura. Já falei disso e estou a repetir-me. Mas a sério que isso me incomoda muito.

Não sei se também falei no seguinte: dou por mim a olhar para as fotografias em que estão os que já morreram. Tento perceber se, neles, naquela altura, já alguma coisa poderia fazer prenunciar o que iria acontecer. De uma delas já não me recordava. Ao ver as fotografias, reparo que estava sempre um pouco isolada, parecia um pouco distante. Ou triste. Um outro era muito divertido, gordinho, muito simpático. Vejo-o nas fotografias. Qualquer coisa nele me parece agora assimétrico. Uma outra era muito carismática quer na maneira de ser quer na maneira de se vestir. Vejo-o nas fotografias. Parecia quase nossa mãe, muito mais desenvolvida, rosto já um bocado marcado. Uma outra, médica, disse-me agora que foi terrível, que era a médica dela. Como me viu muito perturbada, disse-me que naquela família todos têm morrido de cancro. Ela disse-me isso como para me dizer que eu não estivesse impressionada pois ela já estaria 'fadada' à morte por aquela doença. Mas eu fiquei a pensar que os filhos e netos dessa que morreu devem estar bem apreensivos com essa triste sina.

De uma outra de quem fui muito próxima e a quem depois perdi completamente o rasto, disse-me a minha mãe que, tendo ela engravidado ainda miúda, foi afastada, levada para uma quinta que tinham no campo.

Mas agora soube que está bem, que se reformou agora, que também tem uma mão cheia de netos. Vejo a fotografia dela. Tão bonita e alegre que era. Já aqui falei delas algumas vezes. Gostava de voltar a vê-la. 

Uma coisa que, olhando para aquelas fotografias, também reparo é que antes, alguns de nós, quando éramos pequenos parecíamos mais velhos. Por exemplo, uma que, deveria ter uns catorze ou quinze anos, já parecia ter uns vinte e tal ou trinta. Não dá para perceber. Mas mesmo as que tinham ar de miúdas, frequentemente se mostravam circunspectas. 

Poder-se-ia pensar que o mundo hoje é mais leve para as crianças.

E, contudo, sabemos como isso pode não ser verdade em algumas partes do mundo. A televisão mostra crianças a sofrerem horrores pelos quais nem os adultos deveriam passar. Vejo-as a falarem, cheias de medo, a chorarem e o meu coração quase me dói. Não falo por falar, não é uma metáfora. É mesmo dor. E é sobretudo uma grande incompreensão.

Por vezes penso que se um dia um grande meteorito ou uma qualquer outra coisa chocar com a Terra e der cabo de grande parte dela, se calhar até fará algum sentido já que parece que grande parte dos humanos têm uma pulsão brutal pela autodestruição, não só de si próprios e dos outros, como do seu habitat. 

Tirando isso, vou falar de quê?

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Só se, por exemplo, partilhar um vídeo. Um qualquer. Talvez este aqui abaixo.

President Joe Biden: The 2023 60 Minutes Interview

President Biden answers questions on Israel, efforts to locate American hostages in Gaza, the state of the war in Ukraine and more during a wide-ranging conversation with Scott Pelley.

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Lá em cima, Jakub Józef Orliński interpreta "Amarilli, mia bella" (Giulio Caccini)

A fotografia lá em cima é da autoria de Ali Jadallah/Anadolu Agency/Getty Images e outras poderão ser vistas no Guardian

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Desejo, a todos, uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Força. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. 

domingo, abril 17, 2022

Marina, Dima, Inna e Eli

 

Marina e Dima têm duas filhas pequeninas e vivem na Holanda. Não suportaram viver na Rússia debaixo de um regime totalitário. Têm sorte. Vivem em liberdade e gostam de falar da sua vida, partilhando dicas sobre como viver no estrangeiro, entrevistando pessoas e trocando experiências. Para isso têm o canal Expat Family Live. Desta vez, o teor do vídeo é outro: como russos, falam da situação actual, falam de Putin e da invasão da Ucrânia, falam dos riscos que correm.

Inna é também muito jovem, é casada, tem um canal no Youtube, Speak Ukrainian, no qual ensina a língua e fala da cultura ucraniana. No vídeo que partilho fala, quase em estado de choque, da invasão, ainda mal acredita, descreve o que se passa. Num vídeo posterior já saiu do apartamento e fala a partir de uma outra casa, numa zona da Ucrânia que pensa estar mais a salvo. Resiste como pode.

Eli, uma jovem viajada, tem o canal Eli from Russia no qual mostra as maravilhas e as particularidades do seu país e da sua cultura. Mas desta vez fala sobre a situação acual que se vive no seu país e na Ucrânia. Por isso, no vídeo que partilho diz que não sabe se será o seu último vídeo pois, como é crítica da guerra, está sujeita à nova lei que a pode prender e/ou impedir de continuar a publicar os seus vídeos.

São vozes que, de certa forma, se tocam. Não percebem, não querem, condenam esta guerra. Querem viver a sua vida e o seu futuro, anseiam pela paz e pela liberdade. São jovens que deveriam viver tempos de esperança e tranquilidade e não viver, de perto, a triste realidade da guerra e da loucura totalitária.

We're Russian and WE WANT TO TALK!


WAR IN UKRAINE. Russians invaded us. What is going on and how to support Ukraine?


How the 'special operation' changed our life | Q&A from Russia



Queiram descer para ouvir Harari sobre o momento que atravessamos: Notícias terríveis para a espécie humana

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Um feliz dia de domingo 

Esperança. Paz.

domingo, abril 07, 2019

JV e Paulo Batista: les beaux esprits se rencontrent

A palavra a dois millennials de excepção






Junto dois textos que aparentemente nada têm a ver um com o outro. Calhou serem os dois últimos comentários que a JV e o Paulo escreveram. São textos muito bons, escritos por dois jovens especiais que ilustram bem a qualidade excepcional da nova geração.

A JV e o Paulo são ambos cultos, engagés, despertos para as circunstâncias concretas que enformam a sociedade em que se inserem. Se, jovens como são, pensam e escrevem assim, imagine-se quando a vida depositar neles mais e mais camadas de conhecimento, de aprendizagem de que, quanto mais se sabe mais se percebe o que há para descobrir, de novas emoções, de novos deslumbramentos.

Sempre que recebo comentários ou mails deles fico contente pois trazem-me sempre uma visão nova, fresca e pujante da vida.

Transcrevo, então, palavras de ambos e, como forma de agradecer a sua generosidade por escreverem aqui o que pensam, junto algumas fotografias feitas hoje de tarde in heaven. Todas menos uma: esta aqui abaixo foi-me enviada pela própria JV e mostra a floresta onde gosta de se perder.





Palavras da JV

Há uma palmeira na avenida da liberdade da qual emana uma chilradeia que chega a mais de trinta metros. Devem ser dezenas de passarinhos aos guinchos por comidinha! Já tenho visto muito turista a parar e tentar fotografar as avezinha lá no alto. 
As árvores são lugares fantásticos, povoadas de vida. 
Há uma árvore num jardim da nossa cidade que é minha. Não por título de propriedade, mas porque quem gosta tanto de uma coisa deve considerá-la sua, sob pena de cometer uma injustiça. 
É uma propriedade que não é exclusiva, partilhada com quem lá está quando não estou eu.  
Mas não é menos minha. 
Quando estou debaixo dela ou empoleirada nela (eu ainda subo às árvores) é como se tivesse entrado num mundo que parece ser todo meu. 
Mesmo num dia de fim de semana, uma tarde de sol radioso, com o jardim cheio de gente, o recanto onde aquela árvore fica é um espacinho isolado com uma vista desafogada lá do alto onde não se avista vivalma. 
Fora desse recanto, pessoas a tropeçar umas nas outras, velhos, crianças, namorados, solitários, amigos, um sem fim de gente. 
Tenho fotos de uma tarde dessas em que parece que estou imersa numa floresta sem ninguém.

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Palavras do Paulo Batista

... eu acho que parte dessa desagregação do sistema político e da sua dificuldade em construir respostas eficazes não deve tanto à inadequação de um conjunto de "velhos" que comanda um sistema (político e económico) anacrónico e inadequado para a malta nova, mas talvez deva mais à incapacidade da malta nova, saltar efetivamente da sua rede social, colocar-se no lugar do outro (diferente de si) e procurar construir respostas colectivas, integradoras, da crescente diversidade de grupos, de indivíduos e de condições de vida que co-habitam os seus territórios. 
Não quero com isto parecer um millennial "velho do restelo" (embora tenha fama disso). Eu acho que esta (a minha) geração tem as condições e as ferramentas para construir uma sociedade melhor. No entanto, talvez inebriados pela intensidade que os novos e velhos meios de comunicação colocam na ligação e integração do indivíduo numa dada rede social, tem aumentado a criação de "bolhas" de (ir)realidade. 
Os algoritmos de recomendação e dos serviços de "redes sociais" na internet são só a face mais vísivel disso mesmo - mecanismos simples mas poderosíssimos na criação desse efeito "bolha social".
Apesar da atitude aberta e liberalizante dos "millennials" perante a vida (maior abertura às redes "fracas"), paradoxalmente, o efeito material e imaterial é uma fragmentação desses mesmos grupos sociais (as redes fortes têm uma dimensão cada vez mais reduzida). Desta forma, o arquipélago de grupos sociais torna-se de tal forma complexo e "ingovernável" que resulta num crescente imobilismo coletivo. 
A fragmentação do sistema político e dos partidos tradicionais, num cada vez maior número de grupúsculos, parece-me resultar deste fenómeno de fragmentação dos "millennials" - e o Brexit, por exemplo, é mais um sintoma dos "defeitos" da geração emergente do que como uma consequência do anacronismo e "antanho" das gerações passadas.

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E como é bem verdade que les beaux esprits se rencontrent, termino com uma bela coreografia de Jiří Kylián sobre música de Mozart e com Sylvie Guillem num momento de 'petite mort' com Massimo Murru. Um prazer.


Para ambos, os mais sinceros votos de felicidade nas suas vidas e de que saibam encontrar a formar de fazer deste mundo um melhor lugar para se viver.

sexta-feira, outubro 11, 2013

Ei-los que partem ____ Morrem mais de mágoa, diria eu _____ ["La Sorpresa - dedicado a todos os que estão longe", vídeo sobre a emigração jovem e a mágoa tão grande dos que ficam]


O filme que aqui mostro evidencia a desgraça a que a Europa chegou: países a rejeitarem os seus jovens, deixando-se ficar envelhecida, empobrecida. 

A troco de quê?

O que é que Durão Barroso tem andado a fazer estes anos todos para ter deixado a União Europeia tornar-se tão desoladamente decadente, tão inútil, tão entregue a tantos incompetentes, tão incompetentes como ele?

Tudo isto me revolta de uma maneira...!

Sem mais palavras, apenas as imagens e as palavras dos jovens. Não são apenas os que ficam que sofrem (se bem que devem sofrer mais): são também os que deixam as raízes para trás e se ficam soltos no mundo.





quarta-feira, agosto 03, 2011

Nuno Crato anuncia que bastantes professores ficarão sem colocação ou com horário zero e eu, daqui, envio um apelo - a ele e aos professores de português

Possa-mos, quaiqueres, hadem, faria-se, etc, são palavras que aparecem escritas ou ditas com alguma frequência em textos que leio ou em conversas em que participo a nível profissional (e, já agora: também a nível social) – e, para este efeito, estou apenas a reportar-me a casos em que os intervenientes são, no mínimo, licenciados.

Preço de saldo, I presume

(NB: Neste caso, não faço ideia se quem escreveu o cartaz era licenciado...)

A questão do Acordo Ortográfico (AO) não me mobiliza extraordinariamente porque penso que, no domínio da língua portuguesa, há questões mais graves, mais prementes, carências mais básicas a que se deveria atender.

De resto, como leiga, não o conheço o suficiente para me pronunciar. Parecer-me-ia mais adequado que novas grafias fossem pacificamente incorporadas na língua em vez de aparecerem como substitutas das antigas. Desta forma, seria possível ir progressivamente enriquecendo a língua sem ter que violentar hábitos enraizados e - não negligenciável - sem ter que substituir manuais escolares e outros suportes, operação inutilmente dispendiosa. No entanto, não estou certa de que isto vai ser exactamente assim pelo que, sobre o assunto, não me adianto mais.


(Um parêntesis para referir que um absurdo com algumas parecenças, embora a uma escala bem mais específica e bem mais limitada, se observa quando uma empresa muda de logótipo. Veja-se o caso da EDP. De vez em quando a EDP gasta rios de dinheiro, milhões de euros, mudando o logótipo. Não apenas o custo das agências é elevadíssimo como, a partir daí, mudam os letreiros, a publicidade em todos os suportes, as inscrições em viaturas, mudam fardas, cartões de visita, papel de carta – muda tudo. E para quê? Para nada. Ainda por cima, neste caso em concreto da EDP, a mudança foi para pior, uma piroseira ridícula).

Todas as discussões que giram em torno do AO, são sem dúvida, muito pertinentes mas o que me parece, de facto, mais grave, mas mesmo preocupantemente grave, é a iliteracia de grande parte dos jovens que, de há uns largos anos a esta parte, vêm saindo das escolas, especialmente, como é óbvio, os que vêm de cursos de, por exemplo, gestão, economia, informática, engenharias.

Há muito tempo que defendo – mas não defendo nos sítios certos porque, nesta matéria, não tenho acesso a qualquer centro de influência – que todos os cursos, todos, sejam de gestão, sejam técnicos ou sejam do que for, tenham em cada semestre até ao fim do curso, disciplinas obrigatórias ligadas à língua portuguesa.

Tenho difiuldade em aceitar que pessoas com formação académica superior e, muitas vezes, cargos de responsabilidade, cometam atrocidades ao falar ou escrever. É uma vergonha.

Uma pessoa inculta, que não sabe respeitar a sua própria língua, dificilmente será uma pessoa apta a intervir de forma responsável e construtiva no desenvolvimento do seu País. (Escuso de completar que uma pessoa inculta que nunca lê livros vive num mundo tão pequeno, tão fechado, que dificimente pode dar contributos de fôlego para o que quer que seja)

Tanta luta que vejo do lado dos professores (pela carreira, pelo modelo de avaliação, ou pró ou contra o acordo ortográfico) e nunca vi aquilo que me pareceria a mais justa reivindicação: o alargamento do ensino da língua portuguesa a todos os cursos superiores (e, já agora, faço notar um dos muitos efeitos colaterais que isso teria: o aumento de postos de trabalho na área do ensino; e, já agora, um outro: o aumento da venda de livros, com o também consequente aumento de postos de trabalho).

Tenho lido que Camilo Castelo Branco foi retirado da lista de autores obrigatórios  e isso vem causando compreensível contestação (penso que é isto mas, como é uma discussão que me parece relativamente acessória, não tenho prestado excessiva atenção).

Camilo Castelo Branco e o seu amor, Ana Plácido

Face ao que acima referi, a questão central parece-me ser outra: o ensino da língua não deveria, de forma alguma, ser interrompido no final do ensino secundário para os cursos que não os de literatura. 

Se o ensino da língua fosse alargado de 4 ou 5 anos, a complexidade dos autores já poderia ser progressiva, desde a infância, passando pela adolescência, até á idade adulta.

Eu, que adoro ler desde pequena e que não segui as humanidades, no liceu passei como cão por vinha vindimada por Júlio Dinis, Camilo, Antero e, mesmo, Camões. Não tinha maturidade suficiente, nada daquilo me interessava, aqueles textos eram de difícil entendimento e, logo, o que me despertavam era, na melhor das hipóteses, indiferença.

Além disso, pelo menos na altura, nas aulas de português os textos eram basicamente matéria prima para explicar conceitos abstractos relativos ao género ou para exemplificar regras gramaticais. Do que me recordo, qualquer texto era sistematicamente esquartejado em orações, e, a esta distância, se traduzir em palavras o que na altura sentia, direi que a gramática apunha sobre os textos uma densa camada do que me parecia ser uma burocracia literária que tirava a graça ao que quer que fosse.

No entanto, nessa altura, por conta própria, deleitava-me eu com os romances de Fernando Namora, José Rodrigues Miguéis, Augusto Abelaira, etc (e, nos não portugueses, com Pearl Buck, Eric Maria Remarque, Somerset Maugham, etc).

Fernando Namora de quem, na altura, li tudo:
As sete partidas do mundo
A casa da malta
....

Por outro lado, se temos os clássicos, temos também numerosos autores contemporâneos de qualidade que, certamente, serão mais motivadores para jovens com 15 ou 16 anos. Ou seja, neste contexto, não obrigar a ler Camilo parece-me um mal relativo.

Lembro-me do meu filho mais novo (desde cedo leitor assíduo, leitor exigente) que, sendo da área das ciências exactas, desesperava aos 15 ou 16 anos para conseguir ler os Maias, leitura obrigatória. Várias vezes assisti às fúrias que o levavam a atirar o livro para o chão quando, estando deitado no sofá, como costumava estar sempre que lia, não passava das longas narrativas iniciais, ‘não tenho paciência, não consigo, estou farto de ler e não passo dos cortinados!’, ironizava ele, sinceramente desesperado.

Eça de Queiroz

Ora, de certeza que o teria lido com mais gosto, sabendo ler em diagonal as páginas sobre a descrição do casarão, se o tivesse lido mais tarde, já com alguma maturidade.

Não é uma contradição absurda, a situação actual, em que, grande parte dos miúdos, mal sabendo falar e escrever correctamente, seja obrigada a ler autores que, para eles, são ‘uma estucha’?

Não seria preferível ensiná-los, de uma forma adequada, a saber falar e escrever, de forma consistente, ao longo de um período alargado, e, com mais tempo, ir introduzindo a literatura de uma forma progressivamente mais complexa?

(E, quando falo em complexidade, não me refiro forçosamente a complexidade linguística. Basta que sejam temas desajustados para a idade, para os hábitos correntes, para que se tornem complexos. Um jovem com 15, 16 ou 17 anos - habituado aos jogos de consola, às redes sociais,  a sms com palavras abreviadas e símbolos que exprimem sentimentos, a praticar desporto, a sair com os amigos - estará desperto para, por exemplo, compreender dramas passionais entre adultos, adultérios, incestos? Eu acho que não.)

Resumindo:

O ministro de quem muito se espera - vamos ver se está à altura das expectativas

Alô, alô, professor Ministro Nuno Crato!

Alô, alô, professores deste país!

Alô, alô, reitores deste país!

Prolongue-se o ensino da língua portuguesa até ao final de todas as licenciaturas! Ensinemos a gente deste país a falar, a ler e a escrever! 


[Dada a altura em que estou a escrever isto, com meio mundo de férias, provavelmente voltarei ao tema mais tarde. Gostaria também de escrever alguma coisa sobre a minha opinião àcerca do ensino da matemática e da avaliação de professores. A ver se um destes dias o faço.]


PS:. Aos estóicos que chegaram até aqui: caso queiram mudar de ares, podem deslizar até à sala da Carla Vasconcelos onde se encontra o Rui Unas e, se quiser ver os melhores corpos do ano, desça ainda um pouco mais.

sexta-feira, maio 13, 2011

A culpa é do Sócrates? É do Passos Coelho? Do Portas? Do Louçã? Do Jerónimo de Sousa? Do Santana Lopes? Do Durão Barroso? Do Guterres? Do Cavaco?... É minha? ... e sua não é? De quem é a culpa desta crise?

Ao longo de anos fomos aceitando mais ou menos acriticamente que os programas da agricultura e pescas fossem negociados com Bruxelas e impostos em Portugal.



Aos poucos (já aqui o referi várias vezes), ao longo de anos, ao longo de governos (PS, PSD, por vezes com o CDS lá dentro), fomos aceitando que os campos ficassem por cultivar a troco de dinheiro (os famigerados programas de set aside), fomos aceitando que a frota pesqueira fosse sendo abatida.


Muitos postos de trabalho, directo e indirectos, se perderam (porque quando se acaba com a agricultura, acaba-se também com fábricas de adubos e pesticidas, com fábricas de embalagens, etc, quando se acabam com fábricas, acaba-se com outras indústrias e serviços a montante e jusante). E, além disso, passámos a substituir produção própria (cujos excedentes se poderiam exportar) por importação directa.

A política de subsídios que nos foi imposta (ou que sucessivamente negociámos mal – não sei) tornou-nos num povo quase totalmente dependente de importações.

Claro que, com isto, a balança de trasacções se desequilibrou.

Ao longo dos últimos anos, de políticas sucessivas, com vários governos (PS, PSD, por vezes com o CDS lá dentro), todos os bancos (que são supervisionados) desincentivaram a poupança, incentivaram o consumo.

As pessoas passaram a achar normal não apenas não poupar como gastar como se fossem abastados ‘burgueses’.


De repente, toda a gente passou a ir de férias para Punta Cana, Porto de Galinhas, Havana, Istambul, etc.

As pessoas passaram a achar normal que numa casa, quem tem mais que 18 anos, tem carro. As pessoas passaram a achar normal que haja plasma ou lcd na sala, na cozinha e no quarto de cada filho, que cada pessoa tenha o telemóvel último grito, quando não mais que um por pessoa. As pessoas passaram a achar normal comprar uma máquina de fazer comida por 1000 euros ou mais. E por aí fora, tudo pago em mensalidades geralmente com elevadas taxas de juro.



As pessoas passaram a achar normal que os filhos, enquanto estudam, tenham mesadas que lhes permitem ir de carro para a faculdade, irem jantar fora com os amigos, irem ao cinema, ao futebol, sair à noite bebendo várias bebidas por noite e, sempre que os há, irem a concertos.



As pessoas passaram a achar normal que, para se casarem, tenham que gastar rios de dinheiro, muitas vezes a crédito, e que os noivos iniciem a sua vida em conjunto não com um pé de meia obtido de presente mas com luas de mel na Tailândia, Seychelles e outras extravagâncias.

As pessoas passaram a achar normal não mexer uma palha em casa (porque para isso é que pagam a empregadas), passaram a achar normal combater o sedentarismo provocado pela total ausência de esforço físico (andam de carro, passam o dia sentadas e, em casa, quando chegam, sentam-se à mesa e, da mesa, arrastam-se para o sofá) com idas ao ginásio que não é barato. E, assim, ao custo fixo do carro, da empregada, vão somando o ginásio e uma série de outros custos fixos, entre os quais as prestações dos cartões de crédito e as prestações da casa e do carro.

Ao longo de anos, com muitos governos, fomos aceitando que cada governo destruísse o trabalho feito pelo anterior, fomos aceitando que, na educação, se passasse a estudar menos, a exigir menos, fomos aceitando que os jovens se fossem desviando para cursos que em nada contribuem para que o país se desenvolva, fomos aceitando que jovens brilhantes com notas altíssimas e vocação para médicos fiquem de fora, enquanto mansamente assistimos a que se tenham que importar médicos de Espanha, de Cuba, da Colômbia.

Ao longo de anos, políticas sucessivas de vários governos (PS, PSD, por vezes com o CDS lá dentro), incentivaram as empresas a alavancarem-se financeiramente, desenvolvendo toda a sua actividade em cima de financiamentos bancários.

Ao longo de anos, políticas sucessivas de vários governos (PS, PSD, por vezes com o CDS lá dentro), incentivaram empresas municipais, institutos, fundações, e cargos de assessoria, e recurso a consultoria de toda a espécie, e subsídios sociais, e progressão na carreira de tudo o que é funcionário público, aumentos de ordenado e benesses, funcionários públicos com direito a uma ADSE que tem mais regalias do que os que trabalham para a privada e que são mais privilegiados com direito a Medis ou Multicare têm, e, com tamanho desgoverno transformámos o estado social num saco sem fundo, num excesso, numa anedota.

Ao longo de anos, muitos anos, fomos permitindo que os media se fossem tabloidizando, se fosse mercantilizando, futilizando, esvaziando, fossem perdendo a independência.

Ao longo de anos, muitos, muitos anos, fomos permitindo que a política deixasse de ser uma nobre causa, a casa dos eleitos, dos melhores, para ser um antro de interesses, de incultas, ocas e taticistas criaturas que papagueiam o que os assessores de imagem determinam.



Ao longo de anos, políticas sucessivas de vários governos (PS, PSD, por vezes com o CDS lá dentro), ninguém atendeu à trágica evolução demográfica: somos cada vez menos. A população não se renova, apenas envelhece. Ou seja, há um cada vez maior número de pessoas a depender de pensões e um cada vez menos número de pessoas a descontar para os fundos de pensões. Prevê o INE que dentro de 20 anos, serão 175 idosos para 100 jovens e que, a manter-se esta trágica decadência, no fim do século, seremos apenas 6 milhões de portugueses.

É a lenta extinção de Portugal.


Ou seja, o que aconteceu agora (de repente os cofres vazios) não resultou de nada em particular que tenha acontecido nos últimos tempos (ou melhor, acelerou-se nos últimos tempos fruto da crise internacional e, em particular, nos últimos meses, fruto da pressão especulatória dos ‘mercados’ muito incentivadas pelas pouco independentes agências de rating), o que aconteceu agora foi o chegar ao fim de uma linha que se vinha desenhando.

Não foi este, nem aquele, nem o outro, ninguém em particular: fomos todos, fui eu, foi você Caro Leitor.

Pensar que a crise foi da responsabiliade de alguém em particular ou que se desencadeou por acções dos últimos meses ou anos é, lamento dizer, pura miopia política.

Como sair daqui, back to basis, voltar a colocar os pés (e as mãos) na terra, produzir, voltar a não consumir para além das possibilidades, voltar a não estar totalmente dependente de realidades exógenas, essa é a grande questão.

Claro que agora, neste imediato curto-prazo, há que fazer um corte abrupto para ver se se conseguem equilibrar as finanças mas, em simultâneo, e mais importante, há que refundar toda a sociedade.

Há que repensar no que são os verdadeiros princípios que nos deverão nortear, há que rejeitar as palavras vagas e ocas de quem nos pretende governar sem estar preparado para isso, há que não alinhar mais em facilitismos, perceber que há que trabalhar, há que ser rigoroso, estudar antes de decidir, arriscar, persistir, lutar, ver mais longe.

Como é que isso é possível apesar das medidas europeias, eu não sei. Como é que isso é possível apesar da incompetente classe política que se instalou no país, também não sei. Mas é isso que tem que ser feito.

Coração português da fantástica e inovadora Joana Vasconcelos

domingo, março 13, 2011

As avenidas da Liberdade e dos Aliados transformadas em sambódromo: o enredo de ontem foi 'Estamos à Rasca' e 'Volta PREC, estás perdoado!'

Dia de paródia e festa: para estes meninos, qual o significado da palavra escravatura?

Na televisão vejo novas imagens das manifestações de ontem. As avenidas parecem um sambódromo em que as escolas de samba apresentam enredos que têm o PREC como tema.

Os novos revolucionários

Tudo canta, toca e dança, uns mascarados, outros simplesmente fantasiados, outros com cartazes e todos a rir, felizes. Novos e velhos tudo desfila em festa. Até a Rita Ferro me pareceu lá ver. Não sei se Ani Avoila também lá andou, mas é provável, talvez fantasiado de Mariazinha.

Carnaval a 12 de Março

Na reportagem mostram uma mulher jovem a pintar um cartaz, parece que com o filho. Escreve ‘abaixo o TGV’ e depois falta-lhe a imaginação e então, divertida, pede ajuda ‘abaixo o tgv e mais o quê? Escrevo mais o quê?’ e repete a ver se alguém descobre o que rima com tgv: ‘abaixo o tgv…e mais o quê?’. Finalmente o que talvez seja o marido, sem jeito nenhum para slogans, diz-lhe ‘não há dinheiro’ e ela, feliz com a invenção, ‘boa! não há dinheiro, boa!’. E atira-se à obra, toda contente.

Deprimente. Ideias: zero.

Vejo também um senhor de meia idade, ar de bem instalado na vida, com um adereço que não percebi bem, talvez um capacete com uma lanterna, com outro adereço tipo computador e diz ‘eu estou reformado desde os 47 anos e ainda tenho rendimento’ e eu, com isto, fico perplexa. Manifesta-se porquê? Mas então este senhor ainda não percebeu que é por causa de coisas destas - pessoas que trabalharam apenas durante apenas cerca de 20 ou 25% da sua vida, vivendo o resto da vida com subsídios, pensões, etc – que o estado social está em risco?

Poderia ser mais explícito? É possível o quê?

Vejo pessoas com ar muito pouco gauche, para não dizer que alguns mesmo com arzinho de direita, que querem derrubar Sócrates, pessoas de esquerda estalinista, de esquerda caviar e do mais que houver mas que também querem derrubar Sócrates, de pensionistas precoces que têm receio que o filet mignon se acabe, jovens bolseiros, jovens estagiários e todo um conjunto de jovens - que gostariam de, aos 20 e tal anos, já terem casa própria, carro próprio e dinheiro para a folia - e claro, no meio, também pessoas com legítimas razões para se queixar (porque as há, claro que há).

Com tanto apelo ao sobressalto a malta até já se afoita a confessar instintos assassinos

E, no meio de todo este albergue espanhol em festa, em que grande parte não está de todo à rasca, lá andam os baladeiros de há 30 anos, com slogans pós 25 de Abril, mais os brincalhões mascarados de ’conta-me como foi’. E toda a gente canta e dança, e de dedos em V, 'o povo unido jamais será vencido'. Lindo.

Pedro Barroso não poderia faltar, anti-fascismo é com ele

Um país, falho de ideias e sem noção da realidade. Será que, ao menos, se interrogam: hoje, depois de toda esta folia, o que conseguiram melhorar?


PS: Enquanto escrevo isto tenho a televisão ligada e, depois de ter ouvido que os camionistas se preparam para chantagear o governo e paralisar de novo o País, causando-nos novo sobressalto (Cavaco Silva está, certamente, ao lado deles), vejo uma coisa inacreditável que talvez ilustre o ridículo dos tempos que correm. Uma mocinha irritante e convencida, Carolina Patrocínio (a filha de seu bem colocado pai) - numa rubrica chamada ‘o mundo de carolina’ de um programa totalmente estúpido, o Fama Show - a ser filmada enquanto leva o cão ao veterinário. Este país, para além de falido e deprimente, está a ficar parvo, parvalhão.

Carolina Patrocínio: uma mulher famosa neste país.  Estará também à rasca?



Portugal, com isto tudo, ainda tem futuro? Começo a temer o pior.

sábado, março 12, 2011

No dia da manifestação inorgânica, Jel, Falâncio e Amigos da Luta, professores e Mário Nogueira e Pedro Barroso, a Tourada e a Geração à Rasca - e eu in heaven a desejar que o Japão recupere do tsunami de tragédia em que mergulhou

Jel, Falâncio e demais Amigos da Luta, directamente do PREC para animar a Geração à Rasca

Liguei a televisão e ouvi 'O povo unido jamais será vencido!', depois o Fernando Tordo a cantar a Tourada, depois vi o Pedro Barroso, inflamado, a clamar pela democracia, tenho ideia de que vi também umas pessoas a cantarem uma cantiga da Tonicha, avenida abaixo lá ia a manif, 'o povo unido jamais será vencido!' e parece que estava a ver imagens do tempo do PREC.

Alguma coisa não bate certo nisto. Que saudosismo é este? Esta gente toda que se manifesta, quer o quê? Querem voltar atrás no tempo? Em vez de quererem fazer um tempo novo, diferente, querem voltar para trás? Mas que coisa é esta? Não viram que o resultado não foi grande coisa....?!

Vi entrevistas a jovens e não há uma ideia nova, não há uma proposta, uma solução, só há reclamações. Os organizadores - que, com as formações académicas extraordinárias que têm não se percebe como é que ninguém lhes dá emprego... 'estudos da paz'... francamente, com a saída profissional que isso tem é mesmo má vontade dos empresários e do Sócrates - não são capazes de referir uma única ideia de futuro.

E, claro, lá andaram o Jel e o Falâncio a animar a malta e já nem percebo se são os personagens que sairam do Prec ou se são eles próprios que não passam daquilo. Mas também não interessa.

O triste disto tudo é que as pessoas andam descontentes e preocupadas e com razão mas mobilizam-se em torno de coisa nenhuma.

A seguir vi a reportagem do encontro de professores - que já nem se sabe o que querem agora - com o insuportável, maçador, demagogo, fala-barato Mário Nogueira. Que mau serviço esta criatura presta ao ensino e ao País!

Por isso, tenho muita pena, mas Mário Nogueira, Pedro Barroso, o povo unido jamais será vencido, Tourada e cantigas da Tonicha tudo junto no mesmo dia é xaropada a mais. Decididamente não é disto que Portugal precisa. 

Por isso, assim como assim, fico-me here in heaven:

O céu esteve assim, quase irreal.


Os ramos da figueira ainda nus mas tão bonitos


A madressilva começa a florir e tanto que eu gosto tanto dela


E a beleza elegante da flor do pessegueiro?

Tem uma harmonia que me faz lembrar as composições florais japonesas e por isso, como um tributo solidário pela tragédia sem tamanho que aconteceu no Japão, aqui a deixo.

(São malfadados os dias 11, twin towers, atocha, isto).

Há coisas de uma dimensão excessiva e, perante o que aconteceu, dificilmente poderemos dizer que foi um Act of God (expressão que, nos clausulados contratuais, se utiliza para designar os casos de force majeure em que não se cumprem as obrigações contratualizadas por sucederem fenómenos da natureza que impossibilitem o seu cumprimento). Deus, se existe, não determinaria um desastre daquela magnitude.

quinta-feira, março 10, 2011

O discurso do presidente, os homens da luta, os auto-proclamados parvos, enrascados e deolindos - e uma coisa muito diferente: a indispensável reviravolta disruptiva

Seria natural que falasse hoje do discurso de tomada de posse de Cavaco Silva mas não consigo.

A sua hipocrisia política vai para além do que consigo processar. Ao ouvi-lo apelar ao sobressalto cívico, quem não saiba, não supõe que estamos perante o responsável pela governação do País durante vários anos e Presidente da República nos últimos cinco.

A ideia que dá é que, com o espírito vingativo cuja fama chegou até aos EUA, não descansará enquanto não der cabo de Sócrates nem que, para isso, tenha que incendiar o País.

Pode ter razão em muito do que diz - e tem - mas é estranho ver um presidente a assobiar para o lado, a fazer de conta que se esqueceu de que muito do que acontece agora decorre de decisões suas enquanto governante, enquanto figura de topo da hierarquia de Estado.

O discurso revela algo de feio e de preocupante para Portugal.

Tanto que até me aborrece falar disto.

Vou antes falar outra vez dos jovens a quem Cavaco Silva, com a sua costela avoila, também se colou, instigando-os à luta. Claro que, dada a tenra idade, estes jovens não têm memória dos tempos em que Cavaco foi 1º ministro, traçando muito do rumo político que hoje se trilha. E até já li que alguns destes jovens ficaram sensibilizados com o apoio de Cavaco.

De uma mediocridade tenebrosa, isto.

Vou, portanto, falar de novo sobre os jovens da Geração à Rasca (como eu abomino esta expressão...)

Não há nada mais útil a uma causa do que heróis vitimizados. A turba une-se naturalmente em sua volta para os vingar, para os honrar. Se antes a causa era difusa, a partir de aí ganha rostos. Seja o professor que fura um cordão policial e é empurrado, imediatamente se transformando num novo Che Guevara, seja agora o grupinho de penetras que, de cartaz em punho, invade um recinto em que vai decorrer um encontro partidário, tendo sido empurrado de lá para fora (já que, por convite, não saíam) transformando-se, de imediato, em heróis.

João, Paula e Alexandre, três dos organizadores da manifestação de 12 de março


Com este episódio banal que nem digno de registo seria, os iletrados da política agora histericamente já clamam: ‘fascismo!’ ou ‘é o fim da democracia!’.

Felizmente para eles e para todos nós, estão enganados. Regimes não democráticos ou fascistas são coisas muito diferentes do regime em que vivemos.

Heróis? Vítimas de um regime não democrático? Claro que não.

O que se passa é que  a algumas pessoas corre nas veias o gosto pela luta (seja ela qual for). Cheira-lhes a confusão e aí vão eles.

Independentemente do sexo ou condição social, há os góticos, há os rappers, há os intelectuais, os metrossexuais, os ecológicos, os tecnológicos, os gestores, os desportistas, os balofos, os meninos da mamã, os escuteiros, etc e tal, e mais os carneiros, os surfistas e os amigos da luta, ou lato sensu, homens da luta (agora parodiados pelos manos Jel e Falâncio).

Os Homens da Luta - Nuno,Vasco Duarte & Amigos - sempre prontos para um bom caldinho 


Com as devidas adaptações cronológicas, sempre assim foi desde o princípio dos tempos.

Geralmente os carneiros e os surfistas acompanham os homens da luta. Estes últimos provocam, desafiam, andam à cacetada, e atrás, a bramar, a balir, vai a carneirada e, por cima, aproveitando a onda, seguem os surfistas. Nada de novo, aqui e em todo o lado, com as devidas adaptações culturais.

Por vezes os amigos da luta interpretam bem o sentir de um povo e, justamente, desencadeiam movimentos válidos, libertadores. São os que ficam para a história porque mudam o seu rumo.

Mas nem sempre há causas históricas e os homens da luta não podem esperar, o gostinho pela confusão está-lhes na massa do sangue. Então tudo serve.

É o caso dos auto-proclamados parvos ou enrascados deolindos.

Ouvimos o que dizem e que nos fica é que parece que não estão preparados para esta vida que não é fácil, que querem bolsa ou subsídio que dê para o carro e para o estacionamento que está tão caro, para o clube ferroviário e para o lx factory, para a Zambujeira e o Rock in Lisbon, para o iPad e PS2, para as bejecas, shots e circuito das tasquinhas.

E logo se lhes juntam as avoilas e os picanços, a menina Rato, os BEzinhos enfáticos e empinocados (ainda agora vi a Joana Amaral Dias, hirta e convencida, armada em sexy, dissertando do alto da sua cátedra revolucionária), os juízes e quejandos, promoção na carreira e casa à borla.

E vai daí arranjam uma arruaçazeca onde consigam levar um empurrão (ou mesmo um estaladão – que isso, sim, seria a coroa de glória) certos de que logo aparecerão os abutres da comunicação social a dar-lhes tempo de antena para que possam gritar ‘Fascismo!’ e que, acto contínuo, aparecerão os arautos de megafone em punho a conduzir a carneirada, sempre pronta para fazer grupo, mais os surfistas do costume a compor o ramalhete.

É ver o PCP inquieto a colar-se de qualquer maneira (porque a rua, com os diabos!, a rua é dos comunistas), é o Bloco de Esquerda todo nervoso (a manif é minha! a manif é minha!!!), é o PSD (têm razão, têm razão e já agora ajudem a derrubar o governo que nós estamos com a goela aberta à espera de ir matar a sede ao pote - PPC dixit), é agora esta adesão de luxo, o próprio Cavaco Silva.

Um albergue espanhol: uns a dizerem banalidades, outros de megafone em punho, outros a cavalgar a onda.

A falta de ideias (e até o mau domínio da língua portuguesa) não auguram nada de bom

Esclarecimento: não quero com isto dizer que acho que os tempos estejam fáceis. Acho o contrário.

Lamento que os jovens não consigam trabalhos dignos, que a economia esteja uma lástima. Lamento que o futuro, para muitos jovens, seja uma miragem. Lamento que tanta gente de meia idade vá para o desemprego. Lamento que a vida esteja tão difícil. Lamento que os juros estejam a subir para níveis insustentáveis. Lamento quue o País esteja falido.

Mas a primeira coisa a fazer para sairmos deste marasmo (que por analogia é como as águas de Redondo Beach, L.A. Califórnia, que estão pejadas de milhões de sardinhas mortas, um caldo pesado, anaeróbico, onde qualquer forma de vida parece impossível) é afastarmos a maltosa desqualificada que tem invadido os partidos e que, a partir daí, ocupa o lugar de legisladores e governantes.

Em Los Angeles, águas carregadas de sardinhas mortas, milhões de sardinhas mortas, águas sem oxigénio

De forma geral, grande parte da classe política actual quase parece a tropa fandanga da Quinta dos Animais – ou o Triunfo dos Porcos – de George Orwell (cuja leitura muito vivamente recomendo).

"Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais"

Parecem homens, portam-se como homens, andam de fato e em cima de apenas duas patas mas olhemo-los bem… Que conhecimentos, que cultura, que experiência de vida, que desprendimento, que arcaboiço, que visão estratégica lhes vemos para que os possamos considerar dignos dos lugares que ocupam?

O mundo está em convulsão e tudo aquilo em que assentou nos últimos anos vem sucessivamente a colapsar. A alavancagem financeira, o crédito fácil e barato, a alimentação abundante e a baixo preço, o petróleo a la volonté, uns países com elevados recursos mas uma população miserável para onde escoar excedentes e com uma liquidez muito conveniente, e por aí fora… tudo a ruir. Em contrapartida a Ásia paulatinamente vai conquistando poder. Uma economia em crescimento consistente e continuado, com excedentes de liquidez, que vem comprando a dívida de tudo o que é mundo ocidental. Grande parte da economia americana e europeia está nas mãos dos países do oriente, em especial da China. O impacto geopolítico deste facto ainda está por se manifestar mas será, certamente, um outro sobressalto.

Seria preciso que, do lado de cá, surgisse uma nova geração política com capacidade de reinventar uma ambiciosa visão de futuro. E era nesse sentido que a juventude descontente deveria concentrar esforços em vez de andarem domesticamente a varrer o chão do insignificante lixo orgânico da politicazinha nacional.