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quinta-feira, maio 23, 2019

Não me lembro do nome dela





A secretária do director era uma pessoa intrinsecamente neutra. Nunca tinha opinião e nem valia a pena que tentassem tirar-lhe nabos da púcara: dizia que não sabia, que não tinha lido nem ouvido nada. As outras juntavam-se na copa e riam-se e comentavam tudo mas ela, por isso mesmo, evitava lá ir, especialmente se percebia que as outras lá estavam. Na melhor hipótese dizia-se dela que não dava confiança a ninguém e, na maior parte, dizia-se que era o cão de guarda do chefe. Creio que ela nunca suspeitou destes comentários pois parecia viver fechada no seu mundo.

Não gerava simpatias nem nunca lá lhe conheci uma melhor amiga ou alguém que lhe fosse especialmente simpático. Frequentemente, quando lhe ligava para saber se o meu colega estava disponível, não me lembrava do nome dela. Agora que escrevo também não me lembro. Deve ser das poucas pessoas de que nunca me lembrei do nome, como se fosse anónima, como se a sua identidade fosse irrelevante.

Aquele meu ex-colega sempre foi muito alegre e informal e bem disposto e tentava contagiá-la quer na forma como falava com ela quer na forma como queria que ela organizasse o trabalho. Mas ela era irremediavelmente formal. Colocava cada papel num separador de pastas de despacho, coisa antiga, e levava-lhe como se vivesse no século passado. Separava-lhe os documentos todos em pastas, tudo com um cerimonial a que já ninguém estava habituado. Parecia ignorar as possibilidades da informática. Contudo aprendia tudo num instante e, mesmo no computador, a organização das suas pastas eram exemplar.

Era mais ou menos da minha idade mas sempre a vi como pessoa velha. Não me lembro que tivesse rugas ou cabelos brancos e sempre a vi bem arranjada. Mas tudo nela era convencional, antigo, coisa de outra era. Estou a tentar lembrar-me dela e só me ocorre que parecia estar sempre vestida de igual, de uma cor indefinida, de saias e blusa mas tudo fora de moda, como se vivesse na província, décadas atrás. Tenho ideia que andava geralmente em tons de castanho, com o cabelo também sempre igual, da mesma cor, nem mais curto nem mais comprido. E até pode ser que houvesse cambientes mas é assim que a minha memória a guardou.

Quando eu estava no gabinete do meu colega, ela aparecia a perguntar se eu queria chá e se eu dissesse que sim ela perguntava se preferia lúca-lima, menta, cidreira. E aproveitava para verificar se a garrafa tinha água. Era silenciosa, quase invisível, quase desconfortavelmente discreta. Muitas vezes quase não dava por ela e, quando ia agradecer-lhe, já ela estava a sair.

A certa altura, o meu colega começou a andar preocupado. O novo accionista estava a impôr algumas mexidas e na área dele, em concreto, queria que se passasse grande parte do trabalho para outsourcing o que implicaria mandar embora várias pessoas do departamento. E ele falava, com muita preocupação, de alguns jovens licenciados em quem vinha apostando e de quem, provavelmente, teria que abrir mão. Os jovens nem supunham que o seu destino estava a ser discutido com a maior frieza. Faziam-se contas, equacionavam-se vantagens e desvantagens. O meu colega batia-se como um leão e eu e outros colegas estávamos ao seu lado. Tudo se fez para combater a estúpida moda de externalizar os serviços. Substituía-se mão de obra especializada, gente motivada e dedicada, por serviços que se compravam, serviços esses prestados por outros jovens mal pagos, desmotivados, sem qualquer 'amor à camisola'.

Mas a sentença estava traçada.

Aquela direcção foi reduzida a quase nada e o meu colega foi incentivado a sair ficando ligado à empresa através de uma avença.

Tudo muito triste.

No meio disto, ninguém se lembrou dela. Um dia, ia eu a passar no corredor ao pé do espaço dela, uma espécie de antecâmara do gabinete do meu colega, e vi-a com a cabeça entre as mãos. Senti como que um choque. Nem por um momento me tinha lembrado dela. E agora gostaria de a referir pelo nome e não consigo ter nem ideia de qual fosse. Parei, perguntei-lhe o que se passava. Disse-me o óbvio: tinha sido convidada a ir-se embora. Contou-me que o meu colega lhe tinha dito que não era obrigada a aceitar sair, que ficasse. Mas ela tinha medo de ficar sem nada que fazer ou de ser mandada para outro serviço onde se sentisse recebida por favor, onde não conhecesse o trabalho. Lembro-me que dizia: 'Ainda me põem a lançar facturas'. E eu dizia-a que isso não tinha mal nenhum. Ela dizia, voz quase estrangulada, que não sabia nada de contabilidade. Eu dizia que para lançar facturas não é preciso ser-se contabilista e que a ensinariam. Mas ela reagia como se qualquer dessas perspectivas fosse um pesadelo. Tentei convencê-la: que não estivesse assim, que, para onde fosse, a fariam sentir integrada. Mas ela não queria sequer equacionar essa possibilidade. Nunca tinha conseguido enturmar-se, nunca tinha estabelecido laços de amizade com ninguém. Vivia para trabalhar naquilo que sabia: para servir o chefe, para organizar o trabalho dele. Chorava enquanto falava, mas quase como se não houvesse ali emoção, como se tolhida pela angústia e pelo desalento. Tive muita pena. Ela olhava, com uma tristeza difícil de descrever, as suas estantes tão arrumadas e dizia que não sabia quem ia zelar pelo arquivo e que, de repente, ninguém queria saber de nada daquilo, como se anos de vida profissional vividas com tanto zelo afinal não valessem nada. Disse-me que não conseguia dormir, que só lhe apetecia chorar.

Falei com o meu colega. Estava preocupado. Também ele estava a viver tempos difíceis. E vê-la assim deixava-o ainda mais prostrado. Com a maneira de ser dela, não a via a poder fazer outra coisa na vida senão ser secretária daquela forma dedicada, quase obsessiva. Queria que ela ficasse na empresa. Se fosse para o desemprego, não arranjaria nada.

O meu colega, começou a aparecer menos, alguns dos gabinetes foram ficando vazios e, logo de seguida, ocupados por outros serviços. Ela continuava lá, a olhar para a parede ou para o computador. Todos os dias eu passava por lá, tentava animá-la. Estava amorfa, frequentemente com olhos de sono. Andava a tomar ansiolíticos. 

Até que um dia, a vi a arrumar gavetas. Disse-me que já tinha acertado as contas. Ia para o desemprego e ia receber o subsídio todo de uma vez e porque ia explorar um quiosque, vender revistas. Estava desencantada, com ar cansado. Eu nem queria acreditar. Disse-me que já não aguentava mais estar ali. Eu olhava para ela sem perceber como poderia ela lidar com clientes, ter expediente para saber o que encomendar, como gerir as compras e vendas de uma pequena papelaria. Só pensei que ia desgraçar-se, gastar o dinheiro todo num investimento que não podia dar certo. Não queria desanimá-la. Derrotada já ela estava. Mas também me custava não alertar para os riscos daquela ilusão que, à partida, já era apresentada por ela com ar desiludido.


E lá se foi. Não se despediu de ninguém. Quando por lá passei estava o lugar dela vazio. Nunca mais soube dela. Quando perguntava se alguém sabia dela, ninguém sabia. Acabei por me esquecer.


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Só ontem, e já passaram tantos anos, voltei a lembrar-me dela. Foi ao fim do dia, quando fui fazer a minha caminhada, ao passar por um pequeno café, vazio, todo pintado de cor de rosa, duas ou três mesas com toalhas cor de rosa. Ao fundo, um pequeno balcão que também me pareceu vazio e atrás dele uma senhora com o cabelo apanhado e com um avental cor de rosa. Olhei e senti um aperto no peito.

Era para ter falado nisto ontem, para dizer que tomara que o cafezinho dê certo, que a senhora tenha sorte. E que aquela minha colega de que não consigo lembrar-me o nome também tenha tido sorte. Mas meteu-se aquilo do Prémio Camões para o Chico e quis aqui deixar-lhe o meu agradecimento e os meus parabéns. E, por isso, esta conversa ficou para hoje.

E é mesmo só isto que eu hoje tenho para dizer.


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[As fotografias são de Tamara Dean]

terça-feira, fevereiro 26, 2019

Poderia. Mas não.





Poderia falar de como é bom, em dia luminoso, o calorzinho pré primaveril na bela cidade. E como são lindas, tão suaves, as cores que andam no ar. E como dá vontade de embarcar nos grandes navios deslizando no rio.  Ou nos veleiros brancos e silenciosos. E como é bom que nos deixemos estar, embarcando neles apenas o nosso olhar.


Poderia falar de como, apesar da pressão turística, ainda há enormes prédios abandonados nas melhores avenidas. E como são tristes os prédios grandes abandonados. Poderiam transformar-se em residência de artistas, em casas para jovens, em residências universitárias, em residências assistidas para idosos de fracas e médias posses. Mas, se calhar, vão ser hotéis.

Ou poderia falar de como começam a aparecer, nas empresas, movimentos reivindicativos atípicos, orgânicos, com os quais as estruturas tradicionais não sabem bem como lidar. E do medo que causam. Sem rosto, sem contornos. Um medo difuso.


Poderia falar também da casa de Salazar que vi na TVI. Abandonada, as coisas do ditador, do atávico campónio que arrastou o país para o coitadismo, para o remediadismo, para as galinhas no quintal para mostrar como é bom ser poupadinho. Poderia falar de que de nada lhe serviram os pides a guardar a rua, a prender e torturar os outros. Poderia falar do relógio na parede, parado, para sempre parado, e dos livros a desfazerem-se. O ditador que caíu da cadeira e acabou sem saber que já não era nada. De nada lhe serviu tudo o que fez. Agora ninguém quer saber de lhe preservar a casa, as malditas memórias. Poderia dizer que ele deveria voltar por um instante para ver que ninguém lhe sente a falta e que todos lamentam os anos de desenvolvimento e abertura ao mundo que roubou ao país. Poderia dizer que os piores são sempre os apertadinhos, como apertadinho era o Salazar, bem governadinho pela zelosa D. Maria.

[Nota: Desagradável, contudo, a imitação da voz do ditador na leitura da carta e do poema; banaliza-o. E vultos nefastos não devem ser banalizados]


Ou poderia falar de Neto de Moura, mais um dos juízes que parece ter saído das cavernas. Poderia falar em como é perigoso estar a justiça nas mãos de parvos encartados. Poderia falar que é assustador pensar que há mulheres que são vítimas de estafermos destes. Ou poderia falar de como é assustador pensar que há mais juízes como este. Ou como estarão desprotegidas as mulheres que caiam nas malhas de justiceiros destes a quem, pelo que se vê, não há quem tenha poder para os mandar de volta para as cavernas.

Mas falta-me a verve na conta e medida requeridas. Vou antes pregar para outra freguesia ou, melhor, tirar a minha viola do saco e tocar música para algum incauto que por mim ainda  se deixe embalar.


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E tenho dito. Abaixo há vestidos para despir e há um momento de química aplicada.

domingo, abril 15, 2018

Momentos bons






Se calhar parece contraditório, mas é o que é. E o que é, é que tenho a dizer que há momentos bons na vida e que, sobre eles, não há muita coisa a dizer.
São bons porque se aninham dentro de nós. São bons porque sentimos que ficam guardados em nós, envoltos em sorrisos mansinhos. Porque não carecem de rebuscada adjectivação, explicação ou descrição, porque não obedecem a hirearquias. São momentos bons e nada mais.
Posso falar do meu dia de hoje. Alguns momentos tão bons. Simples e bons. De manhã cedo, a olhar o rio. Os barquinhos, a ponte, tudo envolto em claridade, névoa e harmonia. A cidade branca também envolta em claridade, paz e névoa. Depois a ler sobre o Príncipe, a ver como Angelica surpreendeu todos em Donnafugata com a sua inesperada beleza. Depois a olhar as flores. Trazem de dentro da terra cores impossíveis, quase imaginárias. Depois a andar debaixo das árvores, a desbastá-las, a ver os ninhos, a sentir os cheiros intensos da terra, dos verdes, da humidade. Depos a ver a transformação rendilhada das folhas em cinzas. Depois a olhar a serra ao longe, as aldeias como casinhas de brincar por entre verdes que se diluem em cor de céu. Depois a ver os meninos na praia, brincalhões, felizes. Depois a ver o mais velho a trazer o mais pequeno ao colo, porque ele ia a fugir. Depois a ver os mais crescidos a saltarem da duna ou os rapazes todos, de três gerações, a jogarem à bola. Depois o bebé às cavalitas da mana e a tia a correr atrás, a segurá-lo. Depois todos a falarem alto, ela a tratar os rapazes por 'miúdos', depois todos a rirem, a comerem pão quente com chouriço e a discutirem por causa dos pombos. Depois o mar tão bonito e eu a andar a passear de mão dada, o ar frio carregado de maresia.

Eu agora aqui sossegada,  nada que fazer, tranquila, a ver as fotografias, a ouvir música. A ler poemas que recebo e que, agradecida, tomo entre as mãos. Como este, do Leitor LS

Vinhas vestida de transparência,
O arco-íris no olhar,
Primaveras soltando-se do andar;
Ao mesmo tempo, o fogo e a inocência.
Urânia te chamavas,
Não sei por que razão Urânia.
Apenas sei que esvoaçavas,
Em delírio de cores,
A minha insânia,
Assim como o fazias sobre as flores.
Eras as manhãs alvorecendo
No chilreio de aves imaginadas,
A urze, a giesta, o redoendro
Tocados pelo rocio das madrugadas.
Só me salvava do cântico de sereia,
Ao mastro do meu barco bem amarrado,
De modo a fugir da tua teia
Com o coração amordaçado.

Momentos bons. Tão bons.

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O poema do LS (que me chegou também pela sua voz mas que não consigo colocar aqui) deu-me vontade de ouvir o A une passante de Baudelaire dito pelo Serge Reggiani



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Todas as fotografias foram feitas neste sábado (em casa, in heaven, na praia)

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quarta-feira, dezembro 06, 2017

Não sei se vou habituar-me a isto. Juro. Não sei mesmo.




Estou aqui a flutuar que nem vos conto. E, de tanto flutuar, já estou quase almariada. Flutua-se-me o teclado, flutuam-se-me as coisas aqui ao meu lado. Tudo. Uma bailação em nebulado. Que coisa mais horrível.

Conto.

Sou um pouco míope, já o contei. Nada de extraordinário. Não uso óculos senão para conduzir ou estar no cinema. No primeiro caso é mais por sentido de responsabilidade e no segundo por preguiça mental, para não estar preocupada em ouvir cada palavra já que, sem óculos, se calhar não veria lá muito bem as legendas. De resto, não uso. O que não vejo, não vejo, azarinho. 

Uma vez, estava a podar um loendro e, ao puxar uma pernada que estava presa, ela soltou-se de uma maneira tal que disparou na direcção da minha cara e feriu-me um olho. Tive uma dor brutal, pensei que o estupor da pernada me tinha vazado o olho. Nem conseguia tirar a mão do olho e nem conseguia abri-lo, tamanhas as dores. Fui para o hospital, fizeram-me exames, estava ferido, trataram-me e taparam-no. Tinha que voltar ao hospital uns dias depois, podendo nesse dia tirar o penso.
Moro num andar muito alto. Quando vou à janela, vejo o que há para ver mas sem grande definição. Para mim, está bem assim. Estou habituada. 
Contudo, nesse dia, ao ir à janela apanhei um susto. Pensei: 'Que horror, não vejo nada, querem ver que quase ceguei...?' Encostei-me à parede, desconsolada. Tapei o olho bom e espreitei pela janela. E aí fiquei estarrecida. O olho ferido via a milhas. Conseguia ver as matrículas dos carros lá em baixo, mesmo os que estavam mais longe. Nem queria acreditar. Assustei-me com aquele excesso de visão. Tapei depois o olho ferido e pus-me a ver pelo bom. Por esse via mal, como sempre tinha visto. Tinha sido o contraste entre as visões dos dois olhos que me tinha dado aquela estranha impressão de que por um olho via mal. Estava tão estranha que não me arrisquei a ir a conduzir para o hospital. O médico, quando lhe contei o que me tinha acontecido, disse: 'É natural. Mas vai voltar ao normal'. Perguntei: 'O que quer dizer com isso? Vou voltar a ver mal do olho ferido?'. Ele confirmou. Na alura ele explicou mas agora já não tenho a certeza. Tenho ideia que a pancada fez achatar o globo ocular.

De facto, com o tempo, o olho foi recuperando a sua miopia. Mas nunca a recuperou completamente. Portanto, entre os dois, agora vejo melhor ao longe do que via antes desse acidente.

Contudo, ao perto, a coisa tem vindo a perder alguma qualidade. Presumo que seja a isso que se chame vista cansada, com a agravante que o olho que vê melhor ao longe é o que vê pior ao perto. Mas, enfim, vou-me habituando a conviver com a situação e não uso óculos para ver ao perto.

Acontece que no outro dia partiu-se-me a armação dos óculos. Para mal dos meus pecados, a seguradora, para comparticipar os óculos, requer receita médica. Conclusão: fui ao oftalmologista, coisa que não fazia há mais de mil anos.

O médico admirou-se com a minha autogestão visual e recomendou que, para ver ao perto, não esforçasse a vista e usasse óculos. Para o longe pois que gerisse como até aqui já que agora a visão já é melhor ao longe que ao perto.

Lá fui ao oculista. A preocupação, claro, foi com a estética, em especial com a dos de ver ao longe que, neste caso, são escuros. Optei por uns Armani, bem ao meu gosto.

Agora ao perto...? Não me via de óculos. Tipo prof...? Tipo quê...? Ná. Not my kind. Portanto, escolhi uns invisíveis, uns Ray Ban sem aros e umas hastes finíssimas. A menina perguntou se os queria progressivos. Que não, qual progressivos, qual carapuça, só mesmo para ler ou escrever. Ela ainda tentou mas a minha paciência tinha-se esgotado com a escolha dos escuros e, para além disso, pensei que ela estava era a querer facturar. 

Resumindo: quando fui buscá-los e pus os desgraçados de ver ao perto, ia-me dando uma coisa. Só via alguma coisa, se olhasse para baixo e exclusivamente para o que estivesse mesmo perto. Mal levantava a cabeça nem o ecrã do computador conseguia enxergar. Ao longe, então, era para esquecer: uma mancha.  Ainda tentei. Impossível. Ou usava os óculos deprimentemente na ponta do nariz ou só de levantar a cabeça dos livros para dois palmos à frente e já estava toda trocada. Uma turbulência enevoada. Muito mau. Conclusão: tive que admitir que tinha tomado a decisão errada. Tive que dar a mão à palmatória e trocar para lentes progressivas.

Fui hoje buscá-los. E o que vos posso dizer é que é do catano. A menina disse-me: 'Requer habituação. Estão aí três graduações, a de perto, a de longe e a intermédia. Tem que dar um tempo. Tem que os usar para se habituar.'. Fogo. Que desatino.

Estou com eles postos. Se estiver a olhar apenas para o teclado a coisa ainda vai. Se levanto a cabeça para ler no ecrã, tenho que dar um jeito até descobrir a posição em que não me aparece tudo de esguelha, tudo meio a fugir. Se olhar para a televisão, é um disparate. Péssimo. Está a dar o Miguel Esteves Cardoso com o Bruno Nogueira, dois que gosto imenso de ouvir. Mas, caraças, tenho que estar a espreitar pelo canto, a virar a cara de lado, a tentar descobrir qual o ângulo em que vejo qualquer coisa. 


E depois, quando trago os olhos, de novo, para a escrita, tenho que vir de mansinho, toda esgueirada, a espreitar por cima, a espreitar por baixo. Um desatino. Tudo baço, tudo oscilante. Bolas. Coisa mais péssima. 

Será que vou habituar-me a isto? Algum dia...?

Alguém consegue conviver com uma gaita destas dos óculos progressivos? 

Duvido. Duvi-dê-o-dó.


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Acho que vou publicar isto sem tentar ler o que escrevi. Acho que não consigo.
Deve estar uma coisa jeitosa. A menos que tire os óculos. Acho que vou fazer isso. Raios partam a porcaria dos óculos.

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As fotografias são de Juana Gómez

A música é de Edvard Grieg - Lonely Wanderer

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domingo, junho 04, 2017

Os golos de Cristiano Ronaldo na final da Champions, in heaven, por entre o caso das criancinhas desaparecidas, chilreios anónimos, um sol dourado e um ventinho fresco





Não está calor. Calor nenhum. Quando o vento sopra sente-se, mesmo, algum frio. Estou vestida com calções curtos e uma blusa fina de alças. Há pouco, enquanto andava lá por baixo a passear, pensei que devia vestir um casaco mas o ar fresco na pele soube-me bem.  

Agora estou na sala enquanto na televisão dá a final da Champions. De lá chega o som da festa do futebol. Ouço dizer que 'o gajo está sempre a fazer carinhas'. Depois 'o gajo agora está louro aos caracolinhos'. Mas a televisão está um bocado longe e não vejo bem. Grande alarido agora. Ouço 'o gajo já marcou'. Olho e vejo um vulto vestido de lilás a dar um grande salto. O gajo é o melhor jogador do mundo. 


Lá fora o sol está dourado, faz dourar as árvores e os arbustos. É como se a doçura do sossego pousasse sobre o que me rodeia.


Fotografo o que vejo enquanto aqui escrevo. A cor da cortina parece contagiada pelo ouro do sol a esta hora em que já passa das oito da tarde. Sabe-me tão bem estar aqui. 


As árvores crescem desabaladamente. A minha filha admira-se: também não choveu assim tanto que justifique um crescimento destes. Não, de facto. Mas a verdade é que a terra se modificou. De pedregosa e árida tornou-se muito fértil. 

Tudo cresce assim. Os pinheiros, cedros e eucaliptos atingem alturas incompeensíveis. Mesmo o alecrim ou a madressilva crescem de forma incomum. Tudo está florido e perfumado. 


Ao passar por um caminho rearei numas flores delicadas e cheirosas. Nunca ali as tinha visto. Penso que sejam ervilhas de cheiro. Tão bonitas. De onde vêm estas flores, eu não sei. Dá ideia que há aqui, neste lugar abençoado, um chamamento que atrai flores vindas não sei de onde. Flores e pássaros.


E os pássaros, esses invisíveis seres que enchem o ar de variadas melodias, devem ser muitos. Tão frondosas estão as árvores que nunca consigo vê-los. Estive sentada no banco que foi pintado do azul-alentejo que veio por engano e o chilreio era esfusiante. Estava imóvel a ver se descobria algum pássaro mas não, dá ideia que se disfarçam entre a folhagem. Ou, então, sou que sou mais míope do que penso. Mas não faz mal. São como eu. Querem ser apreciados pelo que cantam, apenas pelo seu canto, e não pelo que parecem ser. Também eu quero que gostem ou não gostem do que escrevo, independentemente de eu ser como sou.


Tenho estado a ler um livro que pensava que ia ser uma animação. Qundo comecei a ler ainda me ri, uma maluqueira desbragada, o Pacheco no seu melhor. Depois percebi que o disparate era uma defesa, que o que estava a ler era um dos livros mais tristes que já lera. Interrompi para escrever isto porque a escrita era dilacerante.

Ainda pensei transcrever uma parte para vos mostrar mas falta-me o ânimo para tal. Talvez depois, não agora. Não sei se todo o livro será assim, mas até onde li, Luiz Pacheco fala do período em que viveu, pobremente, nas Caldas da Rainha, tão pobremente que os filhos lhes eram retirados e dados para adopção. A forma como ele fala desse período é pungente.


Enquanto o meu marido cortava umas pernadas da figueira gigante a cuja sombra fresca e perfumada gosto de me acolher nos dias de verão, estive sentada num banco a tentar ler. Mas as solicitações eram muitas e as leituras devem ser guardadas para momentos de algum recolhimento. Acho que agora, enquanto por ali as atenções estão concentradas no futebol, vou ler um pouco do livro sobre arte. Acima, há pouco, junto aos livros, uma tigelinha onde os meninos estiveram a experimentar culinárias com bolotas, folhas variadas, bocadinhos de terra e alguma água. Brincam tanto, eles. Tudo lhes é motivo de descoberta e alegria. Como escreve o Pacheco, o facto é que conviver com as crianças nos leva a aprender muita coisa e nos rejuvenesce porque repito a novidão nos dá vida e os mais novos são os mais sábios.


E, de novo, ali do fundo da sala, um bru-ah-ah, a explosão em forma de grande festejo. Cristiano Ronaldo marca mais um golo. Imparável este rapaz. Fui ver a repetição: uma precisão e compreensão do jogo quase não-humana, uma coisa de tipo ex machina. Mesmo eu, que nada percebo de futebol, me espanto com a energia intravável com que ele se lança a caminho do golo.



E já quase anoiteceu, as janelas já foram fechadas. E ouço o vento nas árvores. Uma música maravilhosa que me chega da natureza, aqui in heaven.

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Até já. 

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