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quarta-feira, maio 28, 2025

Tudo conspira, e muito, contra a inocência

 

Imagino a invejinha que quem ainda trabalha sente quando me lê a relatar o meu dolce fare niente. Espero é que seja daquela invejinha boa, inocente, não daquela que vem sob a forma de olho gordo. 

Lembro-me bem daquela ex-colega de quem toda a gente dizia que apenas se realizava através do trabalho e que um dia, uns meses depois de ter saído da empresa, apareceu lá a visitar-nos. Vinha remoçada, muito bem vestida e penteada. Quando lhe perguntámos como estava a adaptar-se à condição de 'desocupada', riu de gosto e disse: 'Penso muitas vezes que se as pessoas soubessem como não trabalhar é tão bom, ninguém queria trabalhar...'

E é mesmo. Não percebo como é que há tanta gente que faz de tudo para se manter a trabalhar até estar quase a cair da tripeça. Mas, enfim, cada um é como cada qual.

E o que eu ia dizer é que estava numa espreguiçadeira, à semi-sombra, completamente em paz comigo e com o mundo, a ler e a ouvir os passarinhos, e pensando que devia ter ali um lápis para ir assinalando algumas frases com piada. Nisto, reparei que o cãobeludo estava freneticamente a espreitar para uns vasos que estão num nível abaixo e que estão separados daquela zona por uma pequena rede. Entre a rede e os vasos costuma juntar-se farta caruma. E era para ali que ele olhava, saltava, agitado como se tivesse descoberto coisa. Tremo quando isso acontece pois antecipo que o passo seguinte seja o cometimento de um crime.

Chamei o meu marido. 

Nessa altura já ele (ele, o cão) tinha ido para essa zona rebaixada e já andava agitadamente em volta dos vasos. O meu marido pegou numa cadeira dobrada e colocou, na parte de baixo, junto aos vasos, tentando impedir que ele lá chegasse.

Em sobressalto, fui buscar a mangueira e abri a água para tentar evitar que o predador se atirasse ao que quer que fosse que ali estava. Então, do monte de caruma que ali estava, monte que mais parece um ninho, saiu um pássaro espavorido, a correr. Parecia um pássaro ainda criança, que ainda não sabia voar, mas de um porte grande, digamos que do tamanho de uma palma de mão aberta. Desatei a chamar o meu marido para impedir que houvesse um desastre e, ao mesmo tempo, a dar mangueiradas de água para afastar o cãomaluco. 

O aflito passarito foi a correr, ladeira abaixo, indo encostar-se a um canto do portão da garagem. 

O meu marido foi então com uma pá para tentar que ele se pusesse lá em cima para o pôr a salvo. Mas foi o bom e o bonito pois, apesar de estar a levar mangueiradas de água, o cão queria, à viva força, ir atirar-se ao frágil serzinho. E o meu marido gritava com ele para ele se ir embora. Só que, com tal reboliço, o passarito abalou a correr ladeira acima, atravessou o jardim e foi refugiar-se junto à sebe. Só que o cão foi mais rápido que o meu marido e que eu com a mangueira. Em menos de um segundo saltou, implacável. 

Quando o meu marido lá chegou, já o passarinho estava deitado de lado, sem se mexer. O meu marido deu um grito ao cão e eu apontei-lhe a mangueira. Mas, aí, ele deve ter percebido que tinha feito um mal irreparável pois afastou-se e ficou como se paralisado, sentado, a olhar para o pobre defunto. 

O meu marido foi resgatar a vítima. O cão-marado afastou-se, pesaroso.

Fiquei atordoada com tudo aquilo. E francamente arreliada por não termos conseguido evitar tão infeliz desfecho. 

Mas a vida na natureza tem destas coisas. 

Depois fui apanhar nêsperas e, como sempre, foram quase tantas as que comi, in loco, como as que coloquei na taça. É congénito: não desfazendo... mas estou mais para Rubens do que para Giacometti.

E agora estou aqui sossegadamente a ganhar coragem para ir à procura de algumas frases de que gostei.

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E, depois de ter feito uma rápida pesca à linha, aqui estão algumas frases transcritas do gostoso 'Uma última pergunta - Entrevistas com Mário Cesariny'

- Tudo conspira, e muito, contra a inocência, contra a linguagem verdadeira.

- O que eu sinto é que a partir dos 50, por exemplo, uma pessoa sabe demais, não era preciso saber tanto. E muito do que se aprende é triste.

Como define a poesia?  - A técnica mais proibida da mágica mais procurada 

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Imagens geradas pelo Sora (IA)

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Dias felizes

sexta-feira, maio 23, 2025

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

 

Dia de intervalo, de pausa, de descanso, de folga. Hoje não quero dissertar, pensar, reflectir, equacionar. Zero, por favor. 

Durante o dia quase não conversámos sobre o que se passou pois não gostamos de falar sobre percepções que não temos como fundamentar. Pelo contrário,  somos racionais, tendemos a ser analíticos, frequentemente assentamos os nossos raciocínios em números. Ora, no caso vertente, tudo o que aconteceu desafia a lógica, a razão, a objectividade. 

Ouvi, há pouco, no Eixo do Mal, o Luís Pedro Nunes dizer que em Rabo de Peixe, terra em que mais gente usufrui de subsídios de subsistência, ganhou o Chega, partido que faz campanha contra os subsídios. Ou seja, os subsidiados votaram em quer acabar-lhes com os subsídios.

E li que em pequenas aldeias em que grande parte da população emigrou, que estão meio desertificadas e sem mão de obra local e que sobrevivem graças aos imigrantes, votaram contra o Chega porque não gostam de imigrantes. Se calhar, preferiam viver em terras desertas, solitárias, sem trabalho, só com velhos à espera da morte. 

E o meu marido viu uma reportagem, numa vila piscatória, em que um homem dizia que, se não fossem os imigrantes, não arranjava gente para poder sair com os barcos e, ao mesmo tempo, que tinha votado no Chega porque estava farto dos imigrantes. Ouve-se isto e só podemos concluir que, para pessoas assim, a lógica é uma batata.

Portanto, num tal quadro de irracionalidade, mais vale pendurar os neurónios ao sol, a ver se arejam, se se vitaminam, e, ao mesmo tempo, dar tréguas ao que sobra da minha inteligência.

No entanto, deixem que junte ainda uma informação. No outro dia, a minha filha dizia que muita gente só tem contacto com a 'informação' -- e vamos pôr aspas e mais aspas a embrulhar a 'informação --, através das redes sociais. E, enquanto falávamos, disse: 'Deixa cá ver como é a presença deles no Instagram'. E lá está: branco é, a galinha o pôs. É que os números falam por si. André Ventura está em todas, gera conteúdo, dá tração ao algoritmo, e, como resultado, tem 581.000 seguidores. Os outros estão a milhas. Por exemplo, Luís Montenegro tem apenas 59.900 seguidores. Pedro Nuno Santos ainda menos, 40.500 seguidores. 

Uma investigação, creio que da CNN, que contratou uma empresa israelita especialista nestas coisas, divulgou que no X, ex-Twitter, cerca de 50 % das contas que promovem o Chega e minam com comentários negativos o PS e o PSD são falsas. Mas, entre falsidades e verdades, o que se pode concluir é que se as televisões andam permanentemente com o Ventura ao colo, nas redes sociais são as vozes dos apoiantes do Chega, sejam eles verdadeiros ou falsos, que se fazem ouvir. E quem não aparece esquece. 

Mas, retomando a minha trégua, antes que os meus fusíveis se queimem todos a tentar encontrar uma solução para isto, hoje resolvi que era holiday. Tenho esperança que, depois da borrasca, venha a bonança e é com essa esperança (uma esperança abstracta e congénita) que vou ter que me alimentar.

E, nesse comprimento de onda, viro-me para as leituras. Como sempre, navego em águas marginais. 

Só o que é diferente satisfaz a minha necessidade de alimento intelectual ou estético. O meu prazer na leitura é encontrar o que me deixe a pensar, o que me divirta ou me enterneça, o que me faça pensar: 'olha, está bem visto', o que me interrompa porque está tão bem escrito que me apeteça fazer uma vénia.

Agora são estes:

Uma última pergunta - Entrevistas com Mário Cesariny (organização, introdução e notas de Laura Mateus Fonseca com um belo prefácio de Bernardo Pinto de Almeida)

A longa estrada de areias - Pier Paolo Pasolini

Hojoki - reflexões da minha cabana - Kamo No Chomei

Tenho constatado, no Instagram (where else?), que há muitos clubes de leituras. Vejo que as pessoas se juntam para comentar o que leem. Mas o que vejo é que comentam livros banais. E, de certa forma, compreendo-as. É que estes livros que estou a ler, por exemplo, seriam diminuídos se um conjunto de pessoas se pusesse a dizer banalidades sobre eles. Mesmo que não fossem banalidades... É que são livros para a gente ler com vagar, apreciar, quando muito ler uns trechos para outra pessoa ouvir também. Mas é para a gente sentir prazer com eles. Só isso. Não é para explicar, descodificar, perceber. Não, não.   

Enfim. Que sei eu? Se calhar sou eu que sou atípica, bissexta, escalena, um número primo, uma letra de um abecedário ainda por desenhar. 

Termino transcrevendo uns versos de Pastelaria, do Cesariny

(...)

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

(...)

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mas vou ainda catrapiscar melhor para depois repiscar um pouco mais (talvez até abusivamente, não é...?), deixando agora apenas o que me dá jeito:

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

Que afinal o que importa é não ter medo

Que afinal o que importa é rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta

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 E hoje o que me apetece ouvir (e ver) é isto:

Bruce Springsteen - Dancing In the Dark


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Boa sexta-feira

segunda-feira, junho 27, 2022

Portugal, Portugal

 


Gosto muito do meu país. Gosto dos lugares, das paisagens. Acho que o meu país tem sítios lindíssimos. Gosto dos portugueses. Claro que, como em todo o lado, há gente de toda a espécie. Há os miseráveis e os ignorantes. Há os corruptos e os arrogantes. Os palermas e os parvos. Mas há muito boa gente, gente tolerante, gente generosa, gente talentosa, interessante. E há a língua portuguesa, tão bonita, tão rica. 

Em muitos lugares do país há agora muita gente de fora. Se, por exemplo, estivermos na linha de praia, há uma multidão de jovens que falam outras línguas, muitos surfistas, muita gente descontraída que fica à beira mar a conversar até a noite chegar. Se estivermos na linha de restaurantes e esplanadas, estão cheias. Ouvem-se todas as línguas, as pessoas estão já um pouco bronzeadas e geralmente sorriem, de bem com a vida. E por todo o lado se ouve a língua portuguesa nas suas múltiplas variantes, dos brasis, das áfricas. Uma riqueza extraordinária. O país agora é aberto, alegre, inclusivo, luminoso.

Já lá vai o tempo em que os portugueses eram gente ensimesmada, gente que vivia fechada em casa espreitando atrás do cortinado, gente sempre pronta para a censura castradora, sempre pronta para a maledicência, pronta para rejeitar a diferença.

Ainda há alguns assim. Os que são dessa raça podem correr mundo e assentar arraiais noutras paragens que continuarão a ser assim, soturnos, fatalistas, maledicentes, sempre prontos para cortar na casaca dos outros. Gente maldosa, cinzenta.

Mas são uma minoria. Agora, por onde se passa, já se vê gente aberta à vida, aos dias que passam, à música e à claridade, já se vê gente que aparenta alguma confiança nos dias futuros.

Há ainda gente com rendimentos muito baixos, é verdade, e que, com certeza, não pode ter acesso ao que de bom a vida tem para oferecer. Mas onde não há? Em lado nenhum. Imaginar que há é querer viver dentro de uma utopia. Para além disso, em Portugal há apoios sociais e há a educação e há uma atenção crescente à necessidade de não deixar ninguém para trás. Haveremos de ser ainda melhores. E não é com palavras de ordem e parangonas que as coisas se mudam. É com acções concretas e uma forte consciência social.

Pode dizer-se mal de tudo, claro. Há quem o faça. Os populistas são assim. Ouça-se o líder do Chega e comprove-se: segundo ele, Portugal é uma desgraça, os portugueses uns desgraçados. E eu olho para ele e acho que desgraça é haver portugueses assim, como ele.

Há ainda muito a fazer, muito. Alguém diz que não? Alguém de bom senso acredita que Portugal é perfeito? Claro que não. O que é preciso é que ninguém baixe os braços, que ninguém de bem vire as costas aos que ficam. A partirem, que partam apenas os que não sabem honrar a história, a língua e a garra dos portugueses de gema.

O que temos pela frente é um percurso. Ainda não há cinquenta anos que vivemos em democracia. Durante décadas o país viveu tolhido, amarrado à força à pobreza, à ignorância. Éramos um país fechado sobre si próprio. E isso deixas marcas profundas.

Leva tempo a construir mentalidades novas, a abrir as mentes de forma colectiva, a abrir-se ao mundo. 

Eu estudei em Portugal, perto de casa. Não me ocorreu ir para longe quando podia estar perto. Mas uma prima mais nova já foi estudar para uma universidade a centenas de quilómetros de casa. E a filha de uma outra prima já foi estudar para um outro país, um país longínquo. Os meus pais nunca me deixaram fazer o interrail porque eu queria ir com um namorado e eles acharam que nem pensar ir por aí, à aventura, com um namorado. E casei-me aos vinte porque não me passou pela cabeça ir viver com ele sem me casar. Com os meus filhos foi tudo diferente. Viveram juntos sem se casarem, passearam, fizeram o que quiseram. Não sei como será com os meus netos. Da minha parte, quero que sejam felizes, que realizem os seus sonhos -- mas que amem sempre, de paixão, o nosso país, que sejam sempre solidários com os seus concidadãos, que sintam sempre orgulho em serem portugueses.

Não é um sentimento abstracto. É bem concreto, bem real. É um amor verdadeiro, completo que, em cada pequeno acto, deve ser materializado. É daqueles amores que se quer físico, demonstrado. Quem ama o seu país sente-se também amado. É como com as pessoas. Amor verdadeiro é amor partilhado, é amor tolerante, é amor que se quer construir e para o qual se quer que depois de um dia venha o outro dia. Quando assim não é, então não é amor. 

Há pouco apareceu-me um vídeo que mostra o meu País pelo olhar de um não-português, muitas vezes em imagens aéreas que, obviamente, não são alcançadas por quem anda com os pés no chão. Conheço aqueles lugares mas sob uma outra perspectiva. Gostei de ver. Que país tão bonito.

A seguir, com alguma edição, vi como um casal também não-português vê o nosso país. Vi muitos lugares que conheço e percebo o encantamento de quem os vê pela primeira vez. País mais lindo, o meu querido Portugal.

Partilho-os convosco. Mostram o país visual. Claro que há depois o país vivido, o país do dia a dia, tantas vezes tão difícil. Mas esse não é agora o tema. Só espero é que gostem tanto do nosso país como eu. 

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Os melhores locais para visitar em Portugal segundo Ryan Shirley

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Portugal - The Europe We Didn’t Know Existed!

Portugal has been on every "top travel destination" blog for years. Over a 2-week road trip we explored the beautiful castles, incredible history, and rugged coastline, from Lisbon to Sintra down to the world-renowned Algarve beaches and caves, and then all the way up to the rolling vineyards of the Douro Valley wine region in this fascinating slice of Europe. 

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Mário Cesariny :: Queria de ti um país 

Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes / Vídeo Cine Povero


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Pinturas respectivamente de Vieira da Silva, Paulo Ossião, Guilherme Parente, 2x Graça Morais, Noronha da Costa, Paula Rego, Cargaleiro.

Carlos Paredes com Luísa Amaro interpreta Canto do Amanhecer

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Boa sorte. Compreensão. Paz. 

terça-feira, novembro 30, 2021

Dizem que é uma celebração do amor.
Mas, cá para mim, isto das joalharias faz-me é lembrar aquela história do Cesariny...

 


Que o vídeo é uma alegria e uma explosão de movimento envolta no mais luminoso rubro lá isso é verdade. Mas o que é que isso tem a ver com a celebração do amor não sei. 

Se calhar, para os cavalheiros que vão à Place Vendôme escolher uma jóia para a sua bem amada, isso é um sinal de amor. Não digo que não. Claro que é para quem pode mas, enfim, não é por poder que tem menos sentimentos. E, nestas coisas, cada um é como cada qual. 

Agora uma coisa eu sei: se eu não fosse eu mas alguém estupidamente apaixonado por mim e, ao mesmo tempo, estupidamente rico não sei se, para celebrar o amor, a primeira coisa que me ocorreria seria gastar uma fortuna numa gargantilha cravada a diamantes. 

Gosto de jóias. Sim, gosto. Mas o meu gosto tem mudado. Se alturas houve em que me deslumbrava com um clássico ornado com umas belas esmeraldas, safiras, rubis ou, mesmo, diamantes, mais tarde evoluí para a simplicidade, mas uma simplicidade com arrojo. Peças modernas com um design elegante mas algo inesperado. 

Ultimamente já era a simplicidade em absoluto. 

Mais até do que simplicidade: peças com alguma piada a nível estético mas baratas. Por exemplo, algumas peças da Parfois fazem maravilhas numa toilette.

E, como já tenho que chegue para esta vida e para a outra, evoluí para o estadio limite: zero aquisições. Nem jóias nem social-jóias, nem Parfois nem coisa nenhuma. 

Tinha uma pulseira de ouro com um belo design urbano. Pesada, muito bonita, um fecho muito original. Gostava imenso de senti-la no pulso. Era uma peça e tanto. Até que um dia à noite, ao chegar a casa, não a tinha. Fiquei para morrer. Não era apenas o prejuízo mas a pena por ter perdido uma joia tão especial. Voltei atrás e, à noite, percorri a pé o último percurso. Andei dias a perguntar se alguém a tinha visto. Deixei o meu contacto em todas as lojas possíveis e imaginárias. Nada, claro. 

Serviu-me de emenda: usar peças assim no dia a dia nunca mais. 

O que uso -- e uso sempre, fazem parte de mim -- são dois fiozinhos muito fininhos. Tenho-os, como integrantes da minha pele, há décadas.

Quando, no verão, fiquei no hospital em observação de um dia para o outro, tive que os tirar. Coloquei-os na carteira. Quando a minha filha lá conseguiu entrar, pedi-lhe que a entregasse ao meu marido. Tinha ideia que os tinha posto de lado, numa bolsa sem fecho. Quando a dei, esqueci-me de avisar que ele não virasse a carteira. No dia seguinte,  pedi ao meu marido para ver se lá estavam. Não estavam. Ia-me dando uma coisinha má (em cima da que tinha tido). Perguntei se tinha tido cuidado. Enervado, sabia lá ele como é que tinha pegado na carteira. 

Em cima da preocupação pelo estado do meu coração, ainda mais o desgosto por ter ficado sem os meus inseparáveis fiozinhos. 

Quando nesse dia tive alta e cheguei a casa, com a pressão arterial altíssima e sem saber se devia voltar para o hospital, arranjei disponibilidade mental para fazer um break para ir vasculhar a carteira na esperança que o meu marido, pura e simplesmente, não os tivesse visto. Nada. Então, de súbito tive um lampejo e lembrei-me que, na véspera, no hospital, ao tirá-los e guardá-los tinha pensado que tinha que os pôr a bom recato, num separador com fecho, na carteira. Salve.

Quanto a jóias, recordo também sempre o primeiro desgosto que o meu marido me deu, revelando a sua maneira de ser. Tínhamos casado há poucos meses e eu tinha visto numa montra na Rua Augusta um anel de ouro muito fininho com dois pequenos corações em que um se sobrepunha ligeiramente ao outro. Eram de marfim com um aro fininho também de outro. Super discreto, mimoso. Descrevi-o com pormenor. Quando recebi o presente, nem queria acreditar. Um anel em ouro branco e com um lustroso rubi. Um anel descarado. De facto, lindo mas que não passava despercebido. Nada do que eu queria. Tinha vinte anos, vestia-me como as adolescentes se vestiam naquela altura. Não podia imaginar-me com anel tão exuberante. Perguntei porque me tinha oferecido aquele se eu lhe tinha dito tão claramente qual o anel que gostava de ter. Pouco ligou, disse que simplesmente tinha visto aquele anel e tinha achado que me ia ficar bem.

Depois disso fez muitas mais do género, geralmente deixando-me sempre perplexa com o que recebia e que era tão diametralmente oposto em relação ao que lhe tinha sugerido. 

Depois deixei de sugerir o que quer que fosse. Agora, quando quero uma coisa, não peço. Compro. Deixei de esperar o que quer que seja. O que vier está bem. Aliás, estou numa fase em que se não receber nada está também muito bem.

Mas não vou terminar este post natalício sem relembrar uma história, já aqui referida, do Cesariny. Contou ele que estava num alfarrabista ali ao Chiado quando entrou uma madama muito madama, muito sofisticada e cheia de nove horas, e lhe perguntou: Cavalheiro, desculpe-me, isto aqui é uma joalharia? Perante o insólito da pergunta e o ar cagão da baronesa, Cesariny não resistiu e disse: É sim, minha senhora, já aqui fiz muitos broches de joelhos.


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E, conversa à parte, que se entoe o Love is all e que venham as donzelas adornadas a rigor para dançar e celebrar o dito amor e, en passant, para honrar as jóias da Cartier: Monica Bellucci, Khatia Buniatishvili, Lily Collins, Golshifteh Farahani, Willow Smith e outros. Uma festa. E se quem me vê não pode com p pois que não perca tempo nas lastimações. Junte-lhe um h que vai ver que a festa ainda vai ser melhor. 

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E que venha daí um belo smile
Um dia muito bom para todos os que aí, desse lado, fazem o favor de me aturar

quinta-feira, novembro 05, 2020

Surrealidades e encontros inesperados para salvar o dia

 



Esteve muito frio por aqui. Quando fiz a caminhada estava um gelo impensável. Estava a falar ao telefone enquanto andava e a minha mão ia enregelando enquanto o tempo ia avançando. Um frio de natal. Não sei de onde apareceu. 

Quando entrei em casa, senti-a acolhedora, uma temperatura boa. Quando vinha, estava a pensar que, um dia destes, havemos de experimentar a lareira. Mas, ao entrar, achei que ainda é cedo demais para isso.

Agora até me lembrei. Uma vez, in heaven, estava a ter uma reunião (remota, claro) em frente da lareira. Às tantas, virei-me para trás e apressadamente coloquei um tronco grande. Quando dei por ela, algum tempo depois, havia fumo na sala. Com o braço, peguei na pinça grande e empurrei o tronco porque, se bem me lembro, tinha ficado longe da chaminé. Não quis interromper a reunião mas os olhos já me estavam a chorar. De repente apareceu o meu marido a gesticular, entre o assustado e o irritado. Abriu a janela, passou atrás de mim a perguntar se eu não tinha percebido que a casa estava cheia de fumo e o ar irrespirável. Tive que pedir desculpa aos da reunião, tirar o som e a imagem. Ele conseguiu levar o tronco lá para fora para acabar com a fumarada e eu lá recomecei a reunião no meio da neblina e do frio que vinha da rua. São os percalços de quem está a fazer reuniões em casa, um olho no burro e outro no cigano. 

Hoje tive um dia excessivamente preenchido. Dias assim são aborrecidos. Passam a correr. Não consegui um tempinho para mim. De manhã, tinha dito ao meu marido que a ver se ligávamos a aparelhagem. Sozinha nem sei por que ponta hei-de pegar, aquilo liga-se tudo entre si, tem que se ver com que cabos e o quê a quê. Só depois poderemos arrumar os LP's e os CD's. O meu marido disse-me: 'podes ir andando'. Mas não fui a lado nenhum, claro. Não me entendo com cabos, sou avessa a liaisons de certos tipos, nomeadamente eléctricas. E, depois, só voltei a ter tempo para pensar nisso por volta das sete e tal da tarde. Mas depois tive telefonemas, demorados, e depois o jantar para fazer. Sei lá. Esgotou-se o tempo útil. Só sobrou o inútil, este, agora.

À hora de almoço, vi as notícias. Tudo em aberto. Uma tragédia, mesmo que Biden ganhe. Agora voltei a ver. Talvez a coisa se dê (tomara, tomara, tomara) e, apesar de achar que Biden é falho em carisma e que não faz grande sentido alguém iniciar um mandato destes com a provecta idade que ele tem, os resultados mostrarão que quase metade dos americanos votaram no traste mais traste de que há memória. E isso é assustador. Ao fim de quatro anos ninguém pode alegar que não sabe o que está ali. Trump mostrou à saciedade que é um psicopata, um perigoso narcisista, um mentiroso compulsivo, uma pessoa destituída de empatia, de sentido de estado, de honestidade intelectual. Quem votou nele sabia, forçosamente, no que estava a votar. E isso assusta-me. Melhor: deixa-me sem perceber nada. 

Quanto ao corona, às vezes sinto que é como se sentisse que o cerco está a apertar. Agora é uma colega com a casa cheia de gente com covid, todos infectados e doentes. Ela, que pensava que tinha escapado, afinal agora também com sintomas. No outro dia foi outra que também teve. Vale-nos as equipas andarem desfasadas e toda a gente que pode estar em casa. Senão estaria meio mundo infectado e inoperacional. Ao ritmo a que isto vai, a ver no que esta porcaria vai dar. No outro dia, quando se falava que, não tardaria, estaríamos acima dos 3.000 por dia, eu disse, tomara é que daqui por umas duas ou três semanas não estejamos nos dois dígitos. Espanto em quem me ouvia. Concretizei: acima dos dez mil.  Disseram: não, vão tomar medidas, não vai chegar aí. Ai não que não. Não tarda. Isto está perigoso. Em termos percentuais a coisa não amedronta mas, como a base de incidência é grande e crescente, o resultado será também expressivo, gente a sobrar face ao número de camas, os hospitais a deitarem por fora. Não poderemos deixar de andar com o credo na boca.

Aqui e por todo o lado. Aos poucos, a Europa está a fechar-se em casa. Um mundo virado para dentro de si próprio. Se não é doçura, só pode ser travessura. Travessura dos deuses, claro, fartos de aturar estes macacos burros armados em inteligentes que somos nós.

Mas passa das duas da manhã, adormeço a cada sílaba, não me apetece ir deitar-me ainda com o sarro do merdinhas colado aos dedos. Muito menos com o do palhaço cor-de-laranja (Orange clown. Orange stupid cow, orange coward)

Por isso, vou-me mas não sem antes partilhar um vídeo do caraças que o meu amigo algoritmo hoje tinha para me oferecer. Nada a ver com nada. Apenas encontros inesperados entre animais. Muito engraçado. Um oásis no meu dia, uma forma de escapar à tortura que têm sido as notícias deste dia.


As pinturas são de Mário Cesariny e acompanham Lost with you na interpretação de Patrick Watson

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E eu desejo-vos um bom dia. Saúde. Força. Boa disposição.

sexta-feira, julho 26, 2019

Nota à Introdução





Dizer o quê? Que dos nomes da gramática retive o sujeito, o predicado e o complemento directo? Bem, o indirecto também. Já a voz activa e a passiva não sei se é coisa que encaixe na gramática ou se é outro ramo da matéria. Dividir em orações já nem me lembro do propósito. Lembro, sim, a charada das orações nos Lusíadas. Coisa para ser levada a sério tem que ter lógica, alguma matemática. Agora coisa que mais parece entretém de dondoca desocupada e que não dá para traduzir em teorema que se perceba, não pega. 

Escrever eu escrevia. Chegava à hora da redacção e eu via meia turma de cabeça no ar sem saber como pegar no título para com ele insuflar a página e já eu por ali fora, cheia de ideias, histórias a atropelarem-se para caberem todas na folha. Ler também. Muita leitura. Agora chegada à hora da gramática era uma contrariação. Sem o saber já era avessa a burocracia e aquilo era regrinha frouxa uma a seguir à outra. A minha mãe queria que eu prestasse atenção, não rejeitasse, tentasse dar importância. Qual quê.

Depois, quando os meninos foram para a escola e eu espreitava a matéria já aquilo tinha tudo mudado de nome. Os casos notáveis ou a forma de dar a volta às equações ainda estava tudo na mesma mas a gramática estava travestida, talvez para ver se tinha mais graça. Mas não. Inútil na mesma.

Agora, se calha ouvir os meninos dos meninos a falarem do assunto, é ainda pior: é língua estrangeira. Não se percebe nada mas, ao que me parece, permanece a inutilidade, a burocracia, um banho de desengraçamento em cima da beleza das palavras.

Dir-me-ão: é preciso ser muita bruta para escrever tamanha alarvidade. E estarão certos. Sou bruta mesmo. Primitiva. Podia viver nua nas cavernas, descer até ao rio e apanhar peixe à mão, subir às árvores para apanhar frutos e bagas, deitar-me na terra a ouvir o som dos bichos e ver os desenhos das nuvens. Ou podia viver num mosteiro, descalça, em silêncio, e, à hora da reza, à socapa, fugir para os claustros do mosteiro vizinho para ouvir os cânticos dos monges gregorianos e viris. 

Para quê a agramática? Para quê comezinhar a beleza singela da escrita, arranjar-lhe significados e subentendidos, minimizando-a? Não me entra. Atribuir segundas intenções ao texto, inventar-lhe sub-textos, espreitar as intimidades das palavras parece-me feio, falta de decoro, é não saber respeitar o pudor da frase. Não, comigo não, violão, não contem comigo para nada disso. 

E isto já para não falar do latim ou do grego. Grego nem nunca tentei. Latim aflorei mas não era a minha praia. Para mim, língua morta já era. Pode ser que seja a raiz e que conhecer a raiz, ou, sei lá, a semente ou a linhagem, seja importante. Não digo que não. Digo só que vivo bem sem isso. Podiam as palavras ser de geração espontânea, podia ser como se a fada do dentinho ainda por aqui pairasse e todos os dias me deixasse, debaixo da almofada, um papelinho com palavrinhas novas. Por mim, estava bem. E o grego, aquilo de estar tudo nos gregos, de ser essencial conhecer as tragédias gregas -- filho que mata a mãe, gentinha que esvazia os olhos, pai que se perde no mar mas que afinal se encontra, mulher que fica à espera feita freirinha bordadeira, órfãos incestuosos que se desgraçam a cada passo que dão (e se non è vero que estes são gregos, è ben trovato e honi soit qui mal y pense), ou ninfas, monstros ou bicharada aluada -- que é que isso acrescenta à minha felicidade? Nada.


Se fosse dada a cenas dessas, via as telenovelas portuguesas do horário nobre. E não quero saber que estejam de boca aberta perante tamanha ofensa à cultura matricial, à génese da civilização. Não quero mesmo saber.

Tudo o que seja obrigatório me incomoda. Não gosto de ortodoxias. Latim e grego são fundamentais? Passo.

Fundamental para mim é outra coisa: é não ter que ler documentos escritos por doutores que escrevem 'poder-mos' ou 'á um mês atráz' ou não ter que ouvir outros eloquentíssimos seres a dizer em que nunca foram fortes a matemática para se desculparem por não saberem quanto é dez por cento de quinhentos.

Portanto, é isto.

E também não sei porque é que estou com todo este converseio. Se quero ser casca bruta pois que o seja em privado, que não o alardeie em público. Mas é aquilo de a ignorância ser muito afoita. Perco a prudência e mostro ao que venho. Azarinho.

Tirando isso, com vossa licença, uma 'Nota à Introdução'

Pinar só co'a cabeça
É protérrima noção
Ca Literatura começa
Ter em muita aceitação.

Entrada a tola entra tudo: taco
tórax e veio.
Se não couber no buraco
Racha-se o buraco ao meio.

-- Nem rachar será preciso:
Só rasgar um bocadinho.
Como na árvore, inciso,
O nome do passarinho.



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O poema é de Mário Cesariny in 'O Virgem Negra', as pinturas de Júlio Pomar e o Cry Baby é cantado com as vísceras de Janis Joplin
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😜
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E queiram aceitar o meu convite e apareçam no meu Ginjal para testemunharem que não é Nem no cântico dos seios nem no soluço das pernas, coisa que proveio de David Mourão-Ferreira ao som da Carmen.

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quinta-feira, fevereiro 14, 2019

Sobre não sei bem o quê




Num inquérito a que me foi pedido para responder sobre uma outra pessoa (volta e meia é isto, passamos a vida a avaliar-nos uns aos outros ou a nós próprios, não há pachorra), a primeira pergunta indispôs-me logo: como é que a pessoa em apreço comparava com outras com quem eu tenha já trabalhado. E vá de classificá-lo. Desisti logo ali e participei que não ia responder. Aqui d'el rei. Tem que ser senão vai dar que falar, especular-se-á porque não o faz, pode até prejudicar a pessoa em causa. Informei que não gosto destes inquéritos, prefiro dizer o que tenho a dizer cara a cara. Mas pensa assim tão mal?, perguntou-me a pessoa em causa. Disse que já trabalhei com pessoas extraordinárias. Ele percebeu que não o acho extraordinário. Acrescentei que também com gente imprestável. Talvez tenha ficado mais aliviado.

Amanhã vou esforçar-me. Também não quero criar um caso nem quero prejudicá-lo. No outro dia, pessoa que muito prezo, uma das pessoas mais francas, intelectualmente honestas e sãs que conheço disse-me dele: é um tipo decente. Concordo. É decente. Se calhar eu é que sou muito exigente. Ou se calhar tive foi o privilégio de conhecer e trabalhar de perto com pessoas ímpares.


Pelo caminho, vim a recordar-me das três pessoas com quem mais aprendi, que considero como dos melhores profissionais, dos mais inteligentes que conheci, verdadeiras mentes brilhantes. Todos eles eram carismáticos, imperfeitos, longe de serem consensuais. Há já algum tempo que não me cruzo profissionalmente com pessoas de tal craveira. Gosto de pasmar perante provas de inteligência alheia, rasgos de coragem, jogadas de risco e, infelizmente, não me acontece faz tempo. É que não eram apenas pessoas com que dava gosto trabalhar: eram também pessoas com quem dava gosto conversar.

Vinha no carro a pensar neles, nesses três homens, tão diferentes entre si mas tão marcantes. Como apanhei muito trânsito pude recordar muitas situações. Tudo tem um lado bom: levar mais de uma hora a fazer um percurso que se faz nas calmas em metade do tempo dá para puxar pela memória, o que pode ser uma coisa boa.


Comecei o dia a ir para um sítio, a meio da manhã fui para outro, antes da hora de almoço para outro, depois de almoço para outro, a meio da tarde para outro e à noite regressei a casa. Nesta brincadeira devo ter feito para cima de uns cento e cinquenta quilómetros. E tanto que tive que fazer pelo meio. Agora estou com vontade de dormir. Praticamente não consegui usar ainda o computador. Estava a descarregar e depois a instalar actualizações, não mexia. Agora, depois de ter passado por todos os passos, quando reiniciou, apareceu-me a dizer que tinha mais actualizações. Perdido por cem, perdido por mil. Disse que sim. Está de novo a pisar ovos, a descarregar cenas. É que, com isto, não consigo fazer nada. Ia tentar responder aos comentários mas, de cada vez que carregava num, punha-se branco, a andar à roda. Desisti. Agora vou folheando os dois livros que tenho aqui ao meu lado, lutando para não adormecer, e ele nisto, a descarregar, a instalar, a meditar.


À hora de almoço, no meio do louco rodopio que foi o meu dia, cheia de pressa, deu-me para uma desopilinha, que é como quem diz uma desopilada rapidinha. Entrei na livraria e jurei que era mesmo só para ver livros e ganhar fôlego para o que vinha a seguir, de tarde. Entrei, pois, com aquela superioridade moral tão típica dos não-pecadores. Estava sozinha pelo que não fazia sentido fazer aquele sorrisinho arrogante com que os seres superiores manifestam o seu desdém perante as tentações que vergam os seres inferiores. Não sorri mas avancei de nariz erguido. Só para ver. Vi um com interesse, folheei, pensei: querias..., e segui em frente; mais à frente, um outro -- mas não é qualquer um que verga as minhas boas intenções. Segui. Ia pensando: noutros tempos, ia buscar uma cestinha e era como se fosse aos figos. Mas agora não. Mais um pouco e iria com um rosário nas mãos e punha-me a rezar o terço. E a seguir outro livro. Tão bom. Mas... vade retro. Por pouco não me benzi para puxar a mim os bons espíritos e esconjurar o apelo da tentação.


Até que vi um livro amarelinho, uma tamanhinho jeitosinho, uma capa bonitinha. Chamou por mim, o malandro. Fui ver: 'Escritor fracassado e outros contos'. Gostei. Autor: Roberto Arlt. Nunca tinha ouvido falar em tal pessoa. Tradutor identificado na capa (coisa digna de reparo): Miguel Filipe Mochila. Colecção Pedante. Espreitei e li que a Colecção Pedante nasce de muitas horas de conversas, troca de livros e ideias entre a Livraria Snob e a editora Pé de Mosca. Pareceu-me interessante. A seguir abri do outro lado e li que Roberto Arlt, 'O grande indigno da literatura argentina', nasceu em 1900 em Buenos Aires e morreu em 1942. Li também que o estilo de Arlt é furioso, mesclado, um motor aquecido com os detritos de uma sociedade urbana à beira da ruptura e que [obviamente] foi mal recebido pela crítica. Achei ainda melhor. Peguei nele e achei que até seria falta de educação deixá-lo lá. Condescendi: só este.

De seguida, segui com a mesma indiferença, superior. Vi mais uns quantos com vontade de ceder mas resistindo. A Santa UJM é santa, sempre santa, mesmo rodeada das maiores tentações.

Até que apareceram os 'Gatos Comunicantes'. Pimbas. Capa bonita, um belo tom azul. Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny. Folheei. Gravuras, bilhetinhos, fotografias. E as cartas. Pensei: se calhar já tenho. Mas noutra edição. Será? Não sei. Pensei outra vez: apesar de tudo, há que manter o decoro, um mínimo de boa educação. E trouxe-o. Tal como o amarelinho também este, azulinho, está aqui comigo.


E com isto o tempo vai passando, daqui a nada são duas da matina. Não faz sentido. Vou desligar, vou dormir. Não vou agradecer os comentários -- não vou dizer a todos que me poderia dar para pior; não vou dizer à Luísa B. que fico mesmo contente por sabê-la junto dos seus meninos; nem à Isabel que não se zangue, que isto não tem nada a ver, é tudo na boa; nem vou dizer à Gina que Desavergonhada e Cara-Alegre são os meus nomes do meio pelo que nada a fazer, é mesmo um caso perdido; não vou dizer à Lucília que vinha no carro quando li o comentário e que dei uma boa gargalhada; não vou dizer à Luísa que aquelas florzinhas desenhadas e pintadas são mesmo bonitas e que se habilite ela a fazer parecido que certamente ficarão também mimosas; não vou dizer à Bea que está bem, pronto, se a peça é só utilitária e, de resto, sem graça que mereça prosa, pois, está bem, não falamos mais nisso; nem vou dizer à Janita que espero que o penteado estivesse a preceito quando se viu ao espelho; nem sequer vou dizer ao Francisco que é um valente por ter a coragem de se abeirar de um tal jardim pejado de flores de perdição. Nem vou dizer à JV, essa gloriosa evangelizadora, que, com esse tão grande amor, um dia ainda corro o risco de a ver a fazer parte da direcção ao lado do Vieira...

E como não vou dizer nada disso porque senão não durmo e a noite já não é uma criança e, ainda por cima, vai ser curta porque o dia vai ser longo, fico-me por aqui. E desculpem lá qualquer coisinha.


[O pintor é Carlos Jacanamijoy e o cantor James Taylor e eu desejo-vos um dia feliz]

terça-feira, julho 18, 2017

A homossexualidade de Cesariny e o que ele e a irmã pensavam disso
[Post com bolinha vermelha]


Também dedicado às viúvas-perpétuas que nunca tinham ouvido dizer que a homossexualidade é uma coisa de minorias -- e que, ouvindo-o pela primeira vez, se viram em puro estado de apoplexia -- aqui trago de novo Cesariny, essa talentosa bicha maluca que tinha muito orgulho em sê-lo (orgulho e pena).

Com vossa licença, aproveito para relembrar uma que lhe ouvi. Não será de salão mas, como trata do mais fino artesanato, talvez até de filigrana, arrisco: 
Estava ele num alfarrabista ali ao Chiado, quando entra uma madama cheia de finesse. Olhando em redor sem encontrar aquilo que procurava, dirigiu-se a Cesariny que ali estava como cliente: 'O Senhor queira desculpar-me... mas isto aqui não é uma joalharia?'. De imediato, ele, com igual educação, elucidou-a: 'Não, minha Cara Senhora, não é, embora já aqui tenham sido feitos muitos broches de joelhos'.
Bem.

Recomendo todo o vídeo mas, aos mais apressados, que pelo menos vejam aquele momento ali ao 2' 30". E um pouco mais à frente, a mesma temática.

Cesariny por ele mesmo e em diálogo com Henriette, a irmã




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E descei, Irmãos, descei. O meu querido Manuel João espera por vós.

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sábado, abril 02, 2016

Breve antologia de malucos
- ou umas quantas maluqueiras de antologia


Bem. Agora que já falei de, por pura distracção -- e logo no dia em que avantesma reapareceu travestida de assombração laranja -- ter passado ao lado do Dia das Mentiras, mas em que, nem de propósito, vivi um fantástico Dia dos Prodígios, resolvi dar mais uma volta pela net.

Antes, estava numa de tentar parecer vagamente erudita e já me tinha municiado com uns ensaios dantescos e até já tinha aqui uns coros a condizer, uma toda vestida de preto, da cabeça aos pés, numa igreja com aspecto sinistro, mais umas outras que tais ao fundo, todas a cantarem numa língua que não entendo (o que não é de estranhar já que pouca coisa entendo) mas que eu ia fazer de conta que percebia muito bem. Só que a natureza tem mais força. Bocejo, bocejo, bocejo. Portanto, como estou cheia de sono, resolvi que essa aventura fica para outro dia e que hoje nem meto o pé nos ensaios, que me fico pelos jornais online, pelos blogues. E, enquanto estava nisto, surprise, surprise, não é que dei com um outro prodígio...? A sério. E mais um daqueles de gargalhada.

E, talvez por isso, ocorreu-me fazer um post sobre malucos. Como é de todos sabido e consabido, há-os de toda a espécie e feitio. Os encartados, os engraçados, os tresloucados, os simplesmente parvalhões, os que mantêm a elegância, os que não têm jeito e se atiram para fora de pé -- há de tudo.

Ao escrever isto, apetece-me logo partir aqui para uma antologia. Podia pensar num âmbito alargado e transcrever excertos ou colocar links para a vasta amostragem que rapidamente colheria pela blogosfera. Mas não, há por aí muita fancaria, teria que perder algum tempo com avaliações para apenas aqui trazer malucos de qualidade. Por isso, não vai ser assim. 

Vai ser uma coisa na base da 'consulta directa': ocorre-me uma meia dúzia de nomes, portugueses, homens e ligados aos meios artísticos (em sentido lato), e desses é que vou buscar uma amostra. Com tempo a ver se alargo a amostragem, que malucos é o que não falta.

Aviso: não é de espantar nem deve ofender a linguagem algo libertina e desprovida de auto-censura que se encontra nos vídeos que selecconei (afinal são malucos, digamos assim). Contudo, por prudência, as almas sensíveis deverão abster-se e saltar directamente para o post seguinte.

Ora, então, vamos lá. Pedro, Miguel, Manuel, Mário, Luíz, João. A ordem é aleatória. Cada um que escolha o seu maluco preferido.

1. Pedro

Uma mulher e uma pistola


Pedro Paixão fala com Nuno Markl

.....

2. Miguel

Amores e saudades de um português arreliado


Miguel Esteves Cardoso fala com José Adelino Faria

.....

3. Manuel João

New in Town


Manuel João Vieira e uma entrevista de vida


4. Mário

Um pouco mais de sol


Mário Cesariny diz um poema
...

5. Luiz

O Libertino


Luiz Pacheco, um querido muito cá de casa

....

6. João Vuvu

Vai e vem
(lição com bolinha vermelha)


João Vuvu esclarece a uma amiga de longa data, em detalhe, como se pratica o Broche Chinês e, de seguida, contextualiza politicamente esta "tecnologia de ponta".

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(a continuar)
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Dado o adiantado da hora e o meu estado de sono absoluto, vou retirar-me. Queiram, por favor, continuar a descer que há não apenas se fala da pesca a amejua na tia doalvor como de outras aparições.

segunda-feira, março 21, 2016

O Tejo, a Vasco da Gama e o céu, blu de Sakamoto e uma receita de sopa de feijão verde e outra de bifes de peru com pevides de abóbora




Olho a janela. Podia ser uma aguarela: há um rio, há o casario, há um horizonte debruado, há montes, há nuvens que parecem abstrações doces. Abro o vidro para que o ar fresco acrescente uma nova dimensão à pintura. 

Encanto-me com as tonalidades do rio e do céu. Se passou um barco, fica um rasto branco de espuma. Ou, então, são as correntes que toldam as águas que ficam mais escuras ou o sol que abre clareiras de luz. O dorso da ponte acompanha as funduras, e toda ela, branca, elegante, emoldura a vastidão da paisagem.

Já consigo andar, devagar mas ando. Continuo com o anti-inflamatório e com o gelo mas, de tarde, não me aguentei em casa. Fui passear. Ando sem dobrar o pé, coxeio mas já não muito, consigo disfarçar. Esta segunda-feira conto já estar fina.

Já vos mostro, a seguir, por onde andei.

Depois, ao chegar a casa, antes de pôr a roupa a lavar, fazer sopa e fazer bifes de peru* no forno, fui à janela e não resisti a uma vez mais fotografar o rio. Tão bonito, este rio que aqui vem espreitar à minha janela.


Estas visões, fazem-me sempre lembrar as linhas de água do Cesariny. 


Ah, é verdade, já apareceu a Agustina. Ontem, enquanto fazia o jantar, os meninos estiveram a usar o sofá como baliza e parece que os livros os distraíam porque pegaram neles e os puseram num outro sofá mas o da Agustina, por algum motivo, escapou-se para debaixo dele. Hoje, desvendado o mistério, o meu marido já o resgatou e já voltei a deliciar-me com aquelas palavras rubras, refulgentes.
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* Passemos, então, à cozinha

O meu marido foi de manhã ao supermercado e trouxe bifes de peru. Não é coisa que se aprecie muito cá em casa. Como cada vez comemos menos carne e, em especial, carnes vermelhas, às tantas já não sabemos o que fazer.

Então, quando ele me disse o que tinha trazido, resolvi disfarçá-los e disse ao meu marido que lhes ia pôr pevides em cima. Ele desatou-se a rir: 'Só tu te lembrarias de tal maluquice... Mas espera lá, estás a falar a sério...?!'. Claro que estava.

Conto-vos como fiz os ditos bifes de peru.

Aqueci previamente o forno no máximo. Entretanto, preparei um tabuleiro de pirex da seguinte forma:
Um fio de azeite para cobrir ao de leve o findo. Depois, dois tomates bem maduros, cortados, e uma pedacito de abóbora cortado aos cubinhos pequenos. Por cima coloquei os bifes de peru abertos. Coloquei umas pedras de sal e esfarelei uma haste de alecrim por cima deles. Por cima, coloquei, na zona central, outro tomate cortado aos pedaços e, à volta, cobri os bifes por lascas finas de abóbora. Por cima das lascas coloquei pevides de abóbora que tinha secas. Reguei tudo com azeite e foi ao forno que reduzi para 150º. Ficou ali nesta temperatura baixa talvez uma hora e meia, não sei bem.
Já agora digo também como fiz a sopa, embora seja banal:
Numa panela com água juntei duas cebolas grandes, duas courgettes gigantonas, um pedaço de abóbora, um chuchu e quatro dentões de alho. Pus ao lume com um pouco de sal. A um outro tachinho, para o qual passei um pouco da água da panela onde coziam os outros legumes, juntei uma boa quantidade de feijão-verde laminado e abóbora aos cubinhos pequeninos.
Quando os legumes estavam cozinhados, juntei azeite à panela grande e, com a varinha, desfiz tudo até ficar um creme macio e espesso. Juntei-lhe então o conteúdo do outro tachinho. Fica a base cremosa e aqueles legumes inteiros. 
Quando estava a acabar a lida na cozinha e me preparava para regressar ao sofá, ligou a minha filha a perguntar se podia vir com os meninos. Felizmente havia toda esta janta, foi só fazer arroz. Comeram que se fartaram. O menu foi aprovado. Claro que, para os meninos, tirei as pevides (que estavam sequinhas e estaladiças) porque estavam intrigados e, sem provarem, disseram que achavam que não iam gostar e, portanto, para evitar teimosias, isso nem foi para o prato.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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