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domingo, novembro 18, 2012

Eu, a minha querida cãzinha e os cães em geral; Lisboa, a Bela avistada do Ginjal - e o gato preto que hoje, inesperadamente, me veio abraçar


Já falei nisto em comentários, por mail, mas nunca aqui e ainda não é hoje que vou falar como um dia falarei. Agora ainda não consigo. Tive uma cadela, que eu nunca referia como cadela mas como cãzinha, que nos acompanhou durante treze anos. Era a nossa menina querida, a nossa companhia, a nossa grande e incondicional amiga.

Antes eu tinha medo de cães. Era capaz de mudar de passeio se via um cão. Mas cá em casa todos queriam um cão e um dia vi-a, ainda bebé, dois meses cor de mel, brincalhona, uma gracinha. Não resisti. Depois tornámo-nos quase inseparáveis. Eu abraçava-a, enchia-a de beijinhos e ela a mim. Fez-se grande, forte. Era uma boxer. Passei a não ter medo de cães, nenhum medo. Agora faço festas mesmo a cães que não conheço, e os cães chegam-se, dão ao rabo, reconhecem-me como amiga.

Passei a gostar muito de cães. Depois da nossa amiguinha se ter ido, faz já algum tempo, nunca mais voltámos a colocar a hipótese de ter outro cão. Não temos condições para poder dar a vida ao ar livre de que necessitam e, sobretudo, não queremos voltar a passar pelo grande desgosto que tivemos.

De gatos nunca gostei no sentido em que se gosta de um cão. Sempre vi os gatos como bichos pouco afectuosos, bichos livres, bichos que podemos observar, que podemos gostar de ver mas que nunca se afeiçoarão a nós como um cão.

Além disso, sempre pensei nos gatos como bichos temperamentais, que se eriçam, que ficam assanhados, perigosos.

Quando o meu filho era solteiro, em casa da namorada havia um gato e ele contava-me que o gato, que era terrível, às vezes se atirava a ele, era traiçoeiro, imprevistamente saltava-lhe para cima, ameaçador. Eu ficava aterrorizada, imaginava o susto, tinha medo que o gato lhe fizesse mal. 

Como é sabido, gosto de passear à beira do rio e, frequentemente passeio no Ginjal, local muito frequentado por gatos.

E sabem como gosto de os ver, animais livres que por ali andam, sem dono, vagueando pelas ruínas, pelas rochas da beira de água, pelos muros, pelas árvores, olhando o rio, pensativos. São lindos, têm uns olhos fantásticos. Por vezes fogem mas, outras, deixam-se estar. Eu aproximo-me e eles deixam-se estar, deixam-se fotografar, tolerantes, superiores. 

Hoje o tempo estava mau, um pouco chuvoso, vento, frio. Com o tempo assim, passear por ali não é fácil. Mas estes dias à beira Tejo são, para mim, uma tentação. O Ginjal quase deserto, apenas um único pescador, nenhuns turistas, nada de namorados. Um local mágico à disposição do meu olhar. 

Farto-me de fotografar. Milhares de fotografias já eu fiz por aquelas paragens. 

À ida para lá, na direcção do jardim, cruzei-me com o  gato preto que já tantas vezes fotografei. Seduz-me este gato.




Lá ia ele, negro, lustroso, belo e indiferente à magnífica cidade do outro lado do rio. Lisboa, vista dali, é lindíssima.




O colorido das casas, a forma como se sobrepõem à nossa vista, acompanhando a elevação das colinas, a forma como o sol ilumina esta cidade, tudo me encanta em Lisboa, a Bela.

O céu tapava-se e chovia, outras vezes descobria e iluminava partes da cidade como se, naquele bocado, estivesse bom tempo. Mais além, já se envolvia em névoa. 




E depois um arco-íris veio enfeitar de cor a zona, já de si colorida, dos contentores. 

Fico presa a esta beleza. Respirar a maresia, estar no meio da névoa, num espaço quase deserto, que sensação tão boa de liberdade.

No silêncio elevou-se, então, uma gaivota soltando grandes gritos de liberdade enquanto voava, branca, fantástica, sobre o rio.




E eu ali a fotografar, tão feliz por poder desfrutar toda esta beleza. Lisboa quase difusa, envolta em neblina, os veleiros difusos na paisagem, e a gaivota voando e gritando sobre as águas.

Depois, um pouco mais à frente, o céu limpava-se e o azul de Santa Apolónia, com o véu da Vasco da Gama por detrás, misturavam-se e a imagem, ali, era de uma harmonia suave. Tão bonita, Lisboa, tão bonita.




E eu, encantada. E eu absorta a fotografar. E, então, senti que alguma coisa se colava às minhas pernas. Um corpo macio e quente enrolava-se nas minhas pernas.

Não me assustei. Olhei para baixo, com cuidado, não queria eu causar nenhum susto, não queria estragar o momento.

Era o gato preto. Veio encostar-se a mim. Encostava-se nas minhas pernas. Abraçava-me.

Fiquei até um pouco comovida. Falei com ele, bichinho, bichinho.

Depois queria vir comigo, miava, chamava-me.




E eu, bichinho, não posso ficar contigo, bichinho, não te posso levar... mas ele vinha atrás a chamar-me. 

Adoçou-me o coração, que contente fiquei, que surpresa tão boa, quem havia de dizer?, sempre tão indiferente e hoje veio abraçar-se assim. A ver se para a próxima vez lhe levo comida. Cativou-me. Como diria a raposa de Saint Exupéry, agora fiquei responsável por ele. Claro que, sei também, depois corro o risco de um dia vir a chorar por ele. Mas, até lá, não vou pensar nisso.

Depois, já de longe, fiquei a vê-lo. Desistiu de esperar que eu voltasse atrás e entrou no seu reino mágico, entrando pela parede adentro.




A esta hora deve estar a dormir. Será que os gatos, afinal, também reconhecem as pessoas? Será que este gosta de mim? Será que também se afeiçoam? Também são capazes de demonstrar afecto? 

*

E, daqui, eu, gata branca numa noite escura, dedico este bailado ao meu amigo vadio, o gato preto do Ginjal: Victoria, the White Cat, Feathery Wings.




*

Tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo. 
Desejo-vos também que saibam, a cada momento, procurar a beleza.