Mostrar mensagens com a etiqueta David Hockney. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta David Hockney. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, julho 29, 2020

Tempos atípicos.
[E, de caminho, um pequeno vídeo com um galo e vários touros à laia de metáfora]




Os dias vão correndo de forma atípica. Passam-se coisas que eu, por mil anos que viva, não consigo perceber. Se uma empresa está a passar por dificuldades e desencadeia uma série de acções supostamente para encontrar soluções para os seus trabalhadores, porque é que tudo o que faz é nebuloso, evasivo, retardador, inexplicável? Porque é que suscitam reuniões, enviam documentação, pedem celeridade e, em actos, embrulham, atrasam, enevoam? Estarão aqueles postos de trabalho deveras em jogo? Ou, se estão, saberão essas pessoas que quem diz querer encontrar uma solução está na prática a dificultá-la? 


E porque acontecem coisas assim? Porque há coisas assim?

Dizem-me outras pessoas, avisando-me que estão a falar off the record, que aquilo ali é de família, que é gente conhecida nos mentideros por ser gente de esquemas, que eu tenha algum cuidado. Impaciento-me. Não quero saber de mentideros nem de bastidores nem gosto de perder tempo com coisas que não percebo e que não dão em nada.

Ainda há bocado, estava a jantar, recebi uma mensagem. Lembravam-me a urgência do tema e que tentasse que a próxima reunião seja conclusiva. Ainda mais incomodada fiquei. Sinto-me rodeada de gente que diz que quer fazer uma coisa e, com os melhores modos, com as palavras mais acertadas, diz coisas que não significam nada nem correspondem aos actos. Por dentro, digo: tirem-me deste filme. É como se uns bombeiros me dissessem: há aqui um fogo, há gente em risco, não conseguimos salvá-los, venham ajudar-nos. E uma pessoa chega lá, vê os bombeiros com ar de quem precisa de ajuda, em roda, como se a proteger os indefesos no meio, os bombeiros dizendo-se muito colaborantes no sentido de arranjar uma solução para os pobres coitados que estão no interior do círculo mas, estranhamente, com as mangueiras apontadas para fora. As bocas e as caras dizem uma coisa, as mãos fazem o oposto. Queremos aproximar-nos para resgatar os que supostamente estão em risco mas somos impedidos, afastados, pelo jacto das mangueiras dos supostos bombeiros. Mas sempre afáveis, educados. Gente poderosa que, mesmo quando supostamente apeada, usa o seu poder para manipular e para tornar mais vulneráveis os mais frágeis.

Ou será tudo uma estranha farsa?


Quando acabei de jantar, peguei no prato onde tinha juntado os ossos sobrantes e fui lá fora, lá abaixo, longe, debaixo de um arbusto, despejar esses restos para os animais. De caminho, parei na figueira grande e comi a sobremesa. Os figos começam a adoçar, a amolecer de ternura, carnudos e gulosos. Adocei-me por dentro. 

Chegada a casa, estava a pôr o prato no lava-louça, senti uma coisa a fazer-me uma cócega pelo ombro abaixo. Olhei e, num relance, vi um bicho escuro e grande. Dei um valente safanão e, no acto, dei um grito e parti o prato em vários bocados. O meu marido acorreu, surpreendido. Pareceu-lhe que me tinha dado uma fúria e, num rompante, tinha dado um grito e atirado com o prato. Expliquei e mostrei-lhe a causa do sucedido. Não sei que bicho seria. Talvez uma cigarra. Não era preto, tinha manchinhas. E lá se foi mais um prato. Há umas semanas foi a minha filha que, sem as lentes, calculou mal a distância ao pegar num prato para o lavar ou lá o que foi, parece que roçou noutro e, de uma vez, partiu dois. Os pratos lisos e grandes que prefiro vão levando sumiço. Já não gosto de usar pratos como eram os de dantes, mais pequenos. Claro que isto não tem nada de especial e muito menos tem a ver com o tema de cima mas aconteceu no mesmo dia e a minha vida é uma sucessão de coisas que nada têm a ver umas com as outras, de importâncias díspares e globalmente irrelevantes.


Também me aborrece o facto de, logo agora que os figos estão a ficar maduros, é que eu não vou estar por lá para dar conta deles. Bolas. Contrariedade e das grandes. Tento encontrar maneira de a ultrapassar e não vejo como. Pelo menos, de momento.

E há outras coisas que agora também não me dão muito jeito: excesso de trabalho, profissional e sobretudo pessoal (sendo certo que o pessoal é, em grande medida, procurado por mim), excesso de calor, excesso de falta de férias, excesso de falta de paciência para quem me faz perder tempo. E até falta de paciência para a NOS que me obriga a perder tempo em infindáveis telefonemas em que me deixam pendurada a ouvir música, em que me fazem repetir dúzias de vezes o número de contribuinte, o nome, o motivo, e em que nunca, nunca, sabem de nada do que eu disse aos antecedentes nem resolvem porcaria nenhuma.


E não se salva nada? Ora essa, claro que salva. Por exemplo, um telefonema. Conversa longa. A certa altura, aquele homem gigante (e, por sinal, talvez o mais lindo da actualidade) desaba em lágrimas ao saber aquilo que eu tinha escondido e ao recordar as minhas palavras e o meu apoio quando lhe aconteceu a ele o mesmo. Depois, porque também me emocionei, o silêncio. E outras coisas. Pequenas coisas, coisas valiosas. Cores límpidas, cores quentes, cores que desenham pontes, vislumbres que enunciam o que, sendo invisível, brilha como uma luz que traça o caminho para a perfeição, palavras depuradas, sorrisos que se adivinham, proximidades indestrutíveis, alegrias que surgem de dentro de nós, a vertigem das memórias, sonhos, a paz do entardecer, a respiração dos lobos que trazem a noite presa aos seus olhos transparentes. Coisas assim.

Tempos atípicos estes. Tempos atípicos.


-------------------------------------------------------------

E, de repente, agora que estava a dar o expediente por encerrado, levantou-se, de dentro de mim, uma vontade de dizer aos que se julgam com o rei na barriga e mais espertos que os outros que, calminha aí, nem sempre o vento sopra a seu favor. Portanto, cuidadinho com os pequenos e insignificantes.


__________________________________________________

Pinturas obviamente de David Hockney ao som de Origins de Max Richter
__________________________________________________

E um dia feliz a todos!

quarta-feira, abril 22, 2020

Agruras de uma criatura em dia não muito sim





A questão é que hoje não estou em forma: dormi mal a noite passada e, por isso, estou perdida de sono. Em cima disso, dói-me a garganta. Há tempos, a minha mãe disse-me que costuma curar as dores de garganta gargarejando com água morna salgada. Hoje o meu marido disse que, no outro dia, lhe doeu a garganta e experimentou a mezinha da minha mãe e que, curiosamente, ficou logo bom. Mas não me afoitei, acho que sou capaz de não me sair bem, às tantas ainda me agonio, sei lá. Por isso, estou para aqui sempre a adormecer e com dores de garganta. Também sinto uma afta na ponta da língua o que igualmente me incomoda. E a mão ainda me dói. Diria que o meu corpo se descompensou, seja lá o que isso quiser dizer.

Como sou muito somática, toda eu corpo, se alguma coisa em mim se manifesta assim, logo eu fico nula, sem nada dentro, muda, nada que dizer. Não existe mente nem psique que resista a um corpo em oposição. Isto em mim, claro. Que há-de haver gente, muitos de vós, em que, mesmo com o corpo desfalcado ou insurrecto, a mente e a psique se mantêm nos eixos, segurando o equilíbrio de tudo. Eu não. Eu apeio. Eu cedo. Eu baqueio. A mente e a psique dissolvem-se no ar e sobra o corpo em estado de desagrado.

Portanto, como se vê, estou aqui sem tema, sem vontade, incapaz de prosa.

E os dias também não ajudam. Estou entre fogos cruzados, entre indecisões que não são minhas, entre diferentes pontos de vistas, entre muitos trabalhos, e, volta e meia, quando me sinto quase cercada, com alguma tentação pela indiferença. Por vezes, acontece sentir-me quase atordoada. E o mau tempo e o frio não passam. E eu, que gosto tanto de calor e de pouca roupa, ando encasacada, de meia grossa, metida em casa e a casa fica escura porque não há sol a vir lá de fora. Hoje, por acaso, o sol, a espaços, até deitou os pauzinhos de fora, raiou um arzinho de luz. Mas foi coisa pouca: logo acinzentou, o ar frio, o vento a fazer adernar árvores e arbustos. E o telefone sempre a ocupar o espaço. 

Hoje o meu marido saíu-se com uma. Disse aquilo em que já tantas vezes pensei em segredo. Claro que, mal ele falou, cortei cerce. Que não, que nem tal me passa pela cabeça, que ideia, nem vale a pena. Mas, em segredo, digo que é coisa que tem passado pela cabeça, sim. Mas sei que não, que não é a hora. Ademais, até me esqueci de jogar no euromilhões. Portanto, adiante.

Ao fim do dia, enquanto falava ao telefone, fiz fotografias e sempre à mesma coisa, a primavera a chegar a medo, as flores, as cores,  os verdes. E fui ficando com a ideia que estavam bonitas, as fotos. Por vezes procuro a abstração. Tenho a ideia de que a perfeição há-de ser abstracta. É como um grande amor. Um grande amor há-de ser sempre impreciso, indefinido, inexplicável, intemporal. Vou a andar e antevejo uma mistura de tons, a luz transparecendo difusamente. Aponto a objectiva sem querer a precisão, dispensando o enquadramento. Quero apenas o momento, o injustificável momento.

Mas agora não me apetece ir à procura da máquina. Pousei-a por aí, não sei onde. Não é hora de enveredar por expedição. Amanhã há-de aparecer.

Estou a escrever, sentindo que não deve ser fácil encontrar um fio neste vadio vaguear e, ao mesmo tempo, vejo-me incapaz de me organizar. Não consigo, não quero. Tenho a ideia de que, se um dia, escrever um texto completamente desprovido de sentido, sentirei que estou quase lá. Um texto como uma mancha imprecisa, uma mistura, um instante, um segredo guardado, uma sombra esquiva deslizando na página.

Sei que tenho leitores muito racionais, muito cultos, muito disciplinados e imagino como devem sentir-se descoroçoados perante coisas assim, com vontade de cá não voltar a pôr os pés. Percebo-os. Tenho pena de não conseguir atinar, gostava de estar à altura dos mais exigentes. Enquanto escrevo, vejo-me no desconcerto com que devo estar a ser vista. E, no entanto, o sono, a dor de garganta, a afta, o cansaço e uma certa saturação impedem-me de tentar encontrar a disciplina que daria um rumo nisto. Nada a fazer.

(Mas, para dizer a verdade, também não me importo por aí além. Maluco que é maluco nem sabe quão maluco é. Pior: maluco que é maluco inventa desculpa para ser assim).

_____________________________________________________________

O que posso dizer é que espero que, pelo menos, gostem deste vídeo:

David Hockney sobre Vincent van Gogh



E também deste.


-----------------------------------------------------------------------------------------------

As fotografias são de © Stefan Fähler e vêm ao som de Leonard Cohen interpretando The Hills.

_____________________________________________

Desejo-vos um dia bom. Saúde.

segunda-feira, março 11, 2019

A alegria da natureza segundo Hockney e Van Gogh
-- E uma ou outra insignificância que nem sei se vêm a propósito --




Acredito que para muitas pessoas o domingo seja um dia de descanso e, até, um dia de tédio e abatimento.

Quando penso nisso, lembro-me de, há mil anos, teria eu uns treze, catorze, quinze anos quando passava o fim de semana com os meus pais. Eles organizavam o seu tempo e eu tinha que me encaixar nele. Um tédio. Ou ficávamos em casa e calhava haver algum programa de televisão razoável ou, então, eram horas intermináveis que pouco tinham para me oferecer.

Quando os meus filhos andavam por estas idades e iam connosco para o campo também começaram a achar uma 'seca'. Os amigos e os seus programas estavam longe e a natureza era motivo pouco interessante para o seu gosto. Primeiro ela, que é mais velha, depois também ele, até que, quando já mais crescidos, acabámos por deixar que ficassem sozinhos na cidade, de sábado para domingo. Era para mim uma aflição, com vontade de saber deles a toda a hora e numa inquietação enquanto não ligavam a dizer que estavam em casa. 


Mas eu, moi-même, tédio por usar o tempo de forma fastidiosa só tenho ideia nesses meus anos de entrada na adolescência. Antes, em criança, entretinha-me com qualquer coisa e depois, quando arranjei namorado e um grupo de amigos inseparáveis, comecei a ser eu a determinar como ocupar o tempo.

Mas isso sou eu e eu, espero que já toda a gente saiba, não sou exemplo para ninguém.

E isto para dizer que acredito que, para quem passe o domingo sossegado, com pouco que fazer, se calhar a desejar que acabe depressa, pode ser cansativo ler que eu, como sempre, andei numa roda-viva. Mas é a verdade. E é a história da minha vida: desde o desrame das árvores, até a concertar a vedação, às limpezas no campo e na cidade, a cozinhar, a arrumar, de manhã até às quinhentas, foi sem parança.


Durante o dia, descansámos um pouco a seguir ao almoço, para aí durante uma hora, enquanto dava o 007. Não sei se consegui manter-me acordada durante esse tempo.
O Daniel Craig é um belo homem, disso não há dúvida, a história é sempre aquela ebulição -- sedução, perseguições, maluqueira da grossa -- mas acho sempre que falta aquela componente de credibilidade mínima que me impede de ficar presa ao desfecho.  
Conheço um inglês que se veste assim, que fisicamente até é parecido com o Craig, que todo ele é ironia e até fisicalidade. Hoje, ao ver o 007, pensei que não percebia como é que antes nunca tinha reparado que esse meu conhecido tem tudo a ver com o Bond, James Bond. Mas tem. Tudo. Até nos disfarces em que é exímio.
Além disso, há uma coisa que eu aqui não deveria confessar mas que confesso: a actividade de espionagem atrai-me. E também não deveria aqui dizer mas digo: conheço um ou outro e os portugueses não têm nada a ver com as incursões espaventosas do Graig. Mas, na volta, é porque, por cá, somos dados ao comedimento. 

Adiante.

É que isto é o intróito para me penitenciar por, uma vez mais, deixar passar ao largo o jogo branco do Marques Mendes (conversa fiada, esfiapada), os excessos da Catarina Martins (um destempero), as candidatas a mulher do agricultor (umas desmioladas a ver se casam com outros que tais) ou outros temas candentes da nossa joyeuse actualidade. E não é só porque os temas são velhos e relhos ou meras bolas de sabão. Não. É que chego aqui já tarde, o sono a abater-se fatalmente sobre mim. Já micro-adormeci várias vezes. Penso que não vou conseguir chegar acordada ao fim deste post a ponto de conseguir responder aos comentários, coisa que me custa sempre. Isto hoje não está nada fácil. 


Mas, antes de me deixar cair nos braços do tal tipo, o Morfeu, I mean, gostava de vos dizer que a primavera avança galopante, as árvores rebentam, dos ramos nus despontam pequenas folhas, outras estão floridas, lindas. Uma alegria. A ameixeira, o pessegueiro, o abrunheiro -- lindos, gloriosos, um hino à vida.

E, agora que as árvores estão tão desbastadas, a luz do sol passa melhor por elas e, por isso, parece que, in heaven, a luminosidade é outra, uma claridade mais festiva. E, não sei se é por isso, os pássaros cantam, cantam, numa felicidade inocente que parece ainda mais efusiva que antes.


E eu gostava que vissem o vídeo abaixo no qual David Hockney fala da sua afinidade com Van Gogh a propósito da exposição Hockney - Van Gogh: The Joy of Nature que estará no Museu Van Gogh até 26 de Maio. As imagens que aqui partilhei convosco mostram pinturas de ambos. É muito interessante. É certo que gosto sempre de ouvir, ver e ler os pintores mas, a sério, este vídeo é mesmo interessante.
From 1 March, the colossal works of David Hockney will be on display in the Netherlands. For the first time, this spectacular exhibition offers an extensive and colourful exploration of the common ground between the work of Vincent van Gogh and David Hockney.
‘The world is colourful. It is beautiful, I think. Nature is great. Van Gogh worshipped nature. He might have been miserable, but that doesn’t show in his work. There are always things that will try to pull you down. But we should be joyful in looking at the world’. - David Hockney
[A menos que os comichosos do Museu mudem de opinião, serão remetidos para verem o vídeo directamente no YouTube mas não faz mal, não é caso para desistirem. Ok?]


-------------------------------------

E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira. 

[E que me desculpem por não conseguir responder e agradecer os comentários do post anterior.]