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sexta-feira, julho 03, 2026

Enquanto Portugal tenta sobreviver, eu entretenho-me a festejar os 100 anos de Mel Brooks
-- Portugal, salvo seja, calma aí: a Selecção Portuguesa... --

 

Para já, chama-me a atenção o equipamento, muito fofo. Gosto. Mas, assim de repente, olhei para lá e pensei que estavam a dar algum outro jogo, não reconheci aquela roupa. Depois é que vi o Cristiano Ronaldo e percebi que são eles. Mas não percebo porquê porque o equipamento dos outros é azul, não se confundiria com o nosso, o tradicional. Mas é um pormenor, este equipamento também é bonito.

Tirando isso, não digo nada. Às vezes tenho premonições e acontece que, enquanto dura aquela excitação, eu digo: 'Não há crise, vão ganhar', mas, desta vez, talvez porque a coisa ainda não encarnou em mim, não tenho nenhuma previsão.

O que posso dizer é que este calor me derete. De dia, esteve horrível. O cão deita-se ao comprido no chão de pedra e eu deveria ter feito o mesmo.

Mas, ainda assim, tratei de uma data de coisas chatas e, quando consigo chegar a bom porto em tarefas que metem registos em portais do estado, em que nada é explícito, em que do call center ninguém atende, mas, ainda assim, consigo chegar ao fim, fico contente. O meu marido, então, não tem pachorra. Diz que delega isso tudo em mim porque eu gosto de fazer estas coisas. Não é verdade. Não gosto. Tenho é uma persistência que faz com que não largue até chegar ao fim, por mil obstáculos que me surjam.

À noite, depois de ver as notícias e ao querer distrair-me, apareceu-me a notícia de que Mel Brooks fez 100 anos. Inacreditável. 100 anos de boa disposição, de bom humor. Gosto muito dele, sempre gostei, sempre gostei de pessoas que, sendo boas pessoas, pessoas decentes, são, contudo, inofensivamente mal-comportadas, dos que pisam sistematicamente todas as linhas vermelhas, dos que são mais ireverentes do que o normal bom senso recomendaria. Faz falta termos mais pândegos assim. Agora, ao mesmo nível de maluqueira só mesmo o Trump. Falha é naquilo de ser boa pessoa, de ser decente.

Mas, enfim, enquanto a rapaziada por ali anda afincadamente a correr atrás da bola, eu atiro foguetes pelo Mel Brooks.

Aos 100 anos Mel Brooks não tem planos para se reformar

À nossa equipa desejo que siga adiante

e

a todos

um dia feliz

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E seguiu

Força, malta!

domingo, setembro 03, 2023

Ainda é bom ser rei...?

 

Não me interpretem mal. Não suporto machistas, azeiteiros, parvalhões. Já nem falo em assediadores, muito menos em violadores, caso em que falamos de crime e já nem tanto de costumes.

Mas não me acho uma zinha, sem voz própria, incapaz de me defender nem acho que as mulheres devam ser todas vistas como umas pobre coitadas, indefesas, necessitadas de um coro de virgens de cada vez que algum homem ponha o pé em ramo verde.

Uma coisa são situações de franca inferioridade, seja profissional, social ou, mesmo, mental, em que um chefão malandreco ponha e disponha senão a pobre coitada vai suar as estopinhas. Aí algum apoio será requerido para que a pobre mulher consiga defender-se. 

Mas outra coisa é quando um qualquer macho alfa, extrovertida ou impensadamente, faz um gesto um bocado para além do que os cânones estão dispostos a aceitar. Aí, caraças, acha-se que a mulher não sabe defender-se? Ou que é uma qualquer beijoca ou piada brejeira ou olhar malandro que vai ferir os sentimentos das mulheres? Molestá-las? Traumatizá-las? Caraças.

Qualquer dia os homens ganham medo e, por via das dúvidas, fazem-se eunucos. Que mundo mais sem graça queremos para nós? Está tudo maluco ou quê...?

Que venha, por favor, o Mel Brooks e atire uma pedrada para o charco.






Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Bom humor. Paz.

segunda-feira, março 06, 2023

Afinal o Prémio Leya não é um prémio: é um adiantamento sobre direitos de autor futuros, direitos estes pagos a percentagens muito baixas
[E, já agora, falemos também de coisas politicamente incorrectas]

 

Sempre tive em mente dedicar-me à escrita. Mas a minha vida profissional sempre foi muito exigente. Não tinha disponibilidade para escrituras

Tive, pois, que esperar longos anos. 

Agora tenho tempo. 

E agora gostava de conseguir desdobrar-me em três pois tenho em mente (e iniciados) três coisas. Digo coisas e não livros pois, naturalmente, nesta fase inicial é impossível saber no que vai dar. São géneros totalmente diferentes. Não posso passar directamente de um para outro pois a minha cabeça tem que se ajeitar, tenho que me encaixar no carril respectivo. 

Sei que quando me atiro às coisas é para as levar adiante e, por isso, agora tenho é que aprender a gerir este meu novo tempo. Tenho que voltar a gerir prioridades e conseguir não perder muito tempo quando faço o reset de uns para outros. 

Claro que gostaria de me focar a tempo inteiro sem atender a qualquer outra solicitação. Mas isso não é possível. Há as caminhadas (assim que volte a carregar baterias, na sequência deste corona que se diverte a pôr-me KO), há as compras, há a lida doméstica, há compromissos familiares e outros. Por isso há aqui uma aprendizagem a ser feita.

Entretanto, vi que está para breve o concurso ao tão propalado Prémio Leya

Fui ver o regulamento e fiquei estupefacta. Na verdade não é um prémio

O dinheiro que supostamente é o prémio, na realidade é um adiantamento sobre os direitos de autor que, no caso, não passam de 8% do preço de venda do livro, se for um livro normal, ou 5% se for de bolso. Pode dizer-se que 8% está na média. Mas do que me informei, estará no limite inferior pois os percentuais mais comuns serão os 10% ou 12% podendo, até, chegar aos 15%. 

Ora o que aqui está é que o autor aceita que, se ganhar, fica amarrado ao percentual de 8% ou 5%. Parece-me feio.

Transcrevo:

b) Para efeitos de cálculo, a título de direitos de autor, aplicar-se-á o seguinte: 8% do preço de venda ao público (no caso de edições cartonadas ou brochadas) e 5% do preço de venda ao público (no caso de edições de bolso), sobre cada exemplar vendido.

c) O autor da obra premiada receberá todos os anos, até 31 de março, uma informação sobre as vendas dessa obra. Os montantes resultantes, conforme cálculos previstos na alínea b) e d) do presente artigo, serão pagos ao autor uma vez coberto o montante total do prémio, considerado como adiantamento de direitos de autor.

E todo o regulamento aponta para que, para se candidatarem, os autores têm que aceitar que, se foram os escolhidos, celebrarão o que me parece ser um contrato leonino em favor da Leya.

Fiquei francamente perplexa. O tão badalado Prémio Leya afinal não é prémio coisa nenhuma...?

Apetecer-me-ia dizer que é um embuste mas não o digo pois pode estar a escapar-me qualquer coisa. E, se estiver, muito agradeceria se alguém me esclarecesse.

É certo que quem ganhar verá o seu livro publicado. Mas, para isso, tem que sujeitar-se a não receber o produto da venda dos seus livros senão quando o somatório daquelas míseras percentagens sobre o preço de venda ultrapasse o valor do prémio. E não explicita se é o valor bruto ou o valor do prémio líquido de impostos.

Sinceramente fiquei muito decepcionada. Para mim, prémio é prémio, não é engodo.

Sou geralmente confiante no meu trabalho e, além disso, sou optimista (já para não dizer ingénua). Ou seja, pensei que, se concorresse, talvez ganhasse, e, portanto, venceria a primeira barreira de encontrar uma editora que o publicasse. Mas, depois de ver este regulamento, não sei se me sujeite a isso.

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E este foi o primeiro dissabor nesta minha nova labuta. 

O segundo tem a ver com o politicamente correcto que varre alguns sectores da cultura e, ao que parece, do mundo da edição. 

Quando estou a escrever escrevo o que me vem à cabeça. Quando começo a escrever, não faço ideia do que vou escrever. É como se os personagens (no caso do romance) tivessem vida própria e fossem falando por si. E usam o linguajar que lhes é próprio e têm a maneira de ser que têm, podendo ser machistas, mal educados, gozões, parvalhões, o que for. 

Se vou estar a preocupar-me com o que é politicamente correcto vou estar a cercear a fluidez que me é indispensável. 

Será que, se escrever com a mesma descontração com que agora estou a fazer, estarei automaticamente condenada ao insucesso editorial? 

E é que já nem falo da porcaria do AO, esse espartilho abortativo. Será que as editoras já só aceitam os que se vergaram?

[Querem lá ver que isto de escrever afinal tem ainda mais escolhos do que gerir? Caraças.]

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Bem. Porque a conversa pode estar um bocado chata, aqui fica um dos meus gurus, por sinal um dos grandes malucos do cinema, um dos mestres do politicamente incorrecto.

Mel Brooks


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Desejo-vos uma boa semana, a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Força. Paz.

sexta-feira, dezembro 31, 2021

Gostava de dizer que o 2022 vai ser como o Tiririca, ou seja, que pior do que está não fica

 



Sempre pensei que do Abril transacto a coisa não passaria. Afinal estendeu-se pelo verão. E eu aí já não antevi coisa nenhuma, limitei-me a desejar. Afinal passou o Setembro, veio o Outubro e eu já sem saber o que pensar. Pelo sim, pelo não, mantive-me céptica. 

Um dia cheguei a um espaço muito lindo, muito eco, muito vip e estavam lá umas centenas de pessoas. Parecia um filme de antes. Tudo na maior, sem máscara. 

Sentei-me perto da porta e não quis saber de seguir as maiorias: mantive a minha. Logo alguns gozaram comigo: ''Atão...? Não me diga...  com medo...?' Disse que sim, que tinha medo. Assumo as minhas fraquezas. Mas depois pensei que, na volta, a coisa, a pandemia, já tinha acabado e eu é que não tinha dado por isso.

Ao almoço, uns dez em volta de uma mesa redonda. Obviamente sem máscara. Tudo na maior conversa, tudo na maior risota, todos contentes por estarem juntos em volta da mesa. Eu incluída. Ao meu lado, um amigo que se debruçou sobre mim e me disse: 'Já acabou o covid, já viu...?' Tive vontade de lhe dizer que não é o covid, é a covid. Mas deixei-me de picuinhices e limitei-me a dizer: 'Pois, já vi. Não sei é se a notícia da morte do bicho não é prematura'. Ele disse, ar preocupado: 'Também acho... mas já viu? Tudo à vontade...'. Ele também. Quero dizer: ele também à vontade.

E acabou Outubro e veio Novembro. E veio Dezembro. E o Dezembro está quase no 'já era'. E a coisa não acabou. Pelo contrário. Números nunca vistos. Uma onda a subir a pique, contágios e mais contágios. É certo que parece que é menos grave. Mas quando a base é tão extensa, qualquer percentagem dá números grandes.

Por todo o lado se sabe de casos. Equipas incompletas, trabalhos suspensos, planos trocados. O ano está a acabar e estamos nisto. Sem sabermos bem o que fazer, sem sabermos bem o que esperar.

Uns defendem que se deixe o bicho andar à vontadinha a ver se se cansa. Outros dizem que estão é malucos os que tal defendem pois os hospitais iriam ficar a deitar por fora, ou seja, muitos doentes ficariam por tratar. E uns dizem que a omicron pode ser o princípio do fim mas outros dizem que sabe-se lá se atrás da omicron não virá outra variante que da omicron boa fará.

Portanto, estou com a Graça Freitas: os tempos são de incerteza. E prognósticos, como dizia o outro (não sei se o escorraçado divino, se outro qualquer), só no fim do jogo.

Há também as eleições que daqui a nada estão aí. 

Estou em crer que os portugueses -- que tantas vezes parecem parvos -- burros não são. 

Hão-de perceber que o mangas de alpaca é um videirinho viciado no diz-que-não-disse. É que a gente sabe bem que ele disse-aquilo-que-diz-que-não disse. A malta há-de perceber que aquilo ali é um tangas encartado. Um troca-tintas. Melhor que o Rangel, honra lhe seja feita mas, ainda assim, um bocas. Pouco credível, muito pouco credível.

Mas, nestas coisas, não arrisco palpites. Jogo na prudência. É que, nestas coisas, há sempre os que fazem o pleno: são, ao mesmo tempo, parvos e burros. Esses irão votar no Chega. Gostava que não fossem mais do que 2% dos votantes mas, sei lá, ele há coisas... Há os que se cansaram do CDS, que aquilo ali já era, não passa de casca vazia. Há os que se desiludiram do BE, populismo sim mas com alguma coerência. E há os que dizem que estão fartos de dar para o peditório do PCP. E há, bem entendido, as laranjas mais podres do que as outras. Toda essa tropa fandanga junta, dizem as sondagens, soma, à data de hoje, a desgraça de uns preocupantes 7%. Portanto, sei lá.

De uma maneira ou de outra, as eleições hão-de sempre mostrar o tiro no pé que a decisão do Marcelo foi. Tal como o foi também o acto falhado do BE e do PCP ao darem o braço ao PSD, CDS e Chega. Tiros nos pés. Para alguns, tiros na cabeça.

Mas, lá está, não faço ideia no que as eleições vão dar. Sei o que eu gostava que dessem mas não tenho peneiras de acreditar que os astros se vão alinhar só para me agradar.

E depois há mais uns quantos imponderáveis: os frios, os calores, as chuvas, as secas, os ventos, os actos de deus, les force majeures.

E tudo o mais.

Mas uma coisa é certa: aqui já chegámos. 

O 2021 já ninguém nos tira. Bom ou mau, já cá canta. Essa é que é essa. E o que o vem enterrar pior que este não vai ser. Chamem-me optimista, chamem-me aluada, chamem-me simplesmente maluca. Não quero saber. Acredito porque acredito que pior que o 2021 o 2022 não há-de ser.

E agora até me lembrei do Tiririca que dizia que, com ele, pior do que tá não fica.

E é isso aí. 


Há pior que isto...?

Tudo o que venha a seguir só pode ser melhor.
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As colagens são da autoria de um arquitecto turco cujo nome não descortinei
Lá em cima Mel Brooks goza com o Hitler
E se nada tem a ver com nada, melhor ainda.
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Por isso, vá de começar a enxotar o ano velho a ver se, com o novo, nos chega alguma coisa melhorzinha.

Desejo-vos um belo dia
Saúde e sorte. E alegria.

segunda-feira, dezembro 27, 2021

Domingo de chuva com uma aula prática sobre como combater a neura e a ansiedade

 



Estive como se estivesse de férias. Choveu todo o santo dia, em especial de tarde. Pouco fiz. Tenho várias coisas para fazer esta semana mas a vontade é pouca. Vi o Dont't look up e vi a Emily in Paris. Estou anestesiada com a ligeireza em doses mais do que duplas.

Praticamente não vi televisão. Não ouvi a mensagem de António Costa mas, quando à hora de almoço ligámos a televisão, apareceu um ilustre desconhecido -- nem sei de que partido -- a criticar; mas o que dizia não fazia qualquer sentido. O meu marido disse que não estava para ouvir parvoíces (acho que não usou a palavra 'parvoíces') e que o melhor era desligar. E eu assim fiz. Portanto, estou fora.

Não sei porque é que as televisões insistem em dar palco a gente que não tem nada para dizer senão dizer mal. Gente assim é um veneno. E as televisões espalham veneno. Portanto, quanto menos se vê, melhor.

A meio da manhã fizemos a nossa caminhada à chuva, numa altura em que era apenas uma chuvinha. O urso peludo molhado e feliz. Gosto de levá-lo à trela. Vai de trela curta, alinhado, bem comportado. Quando ando assim com ele até crio a ilusão de que consigo controlá-lo e torná-lo bem comportado. O pior é quando tem aqueles picos de energia, especialmente em dias como os de hoje em que está maioritariamente dentro de casa, sem poder gastar energia. Mas, na caminhada, ia feliz embora pingando. Os jardins também pingando. Muitas casas têm decorações de natal no jardim. Mas as decorações de natal parecem tristes assim à chuva, nos dias escuros.

Esta pandemia é bem capaz de modificar a nossa maneira de ser. Se calhar acabaremos todos um bocado mais afastados uns dos outros. Mas não sei. Uma porcaria de um vírus, uma coiseca ruim, desalmada e descerebrada, dá conta da nossa vida. 

O ar que respiramos é a fonte dos contágios. Espaços fechados são ratoeiras. 

A civilização levou a que as empresas se concentrassem longe das zonas habitacionais, torres energeticamente eficientes, sem trocas de ar com o exterior para evitar que esfrie ou que aqueça e se gaste mais dinheiro a manter a temperatura ideal. Ratoeiras.

Levou a que o comércio se concentre em grandes superfícies em enormes espaços fechados em que todos respiram o ar de todos. Ratoeiras.

Claro que agora, com isto, algumas empresas, alguns espaços -- os mais conscientes, os mais endinheirados -- já adaptaram os seus sistemas de climatização, extraindo o ar respirado e injectando o ar do exterior. Mas basta que haja avarias ou que a manutenção não seja correcta para que o burro esteja nas couves. 

Não iremos voltar à saudável vida no campo pois a agricultura de subsistência é mantimento para umas famílias, não para comunidades.

A vida nas cidades é cara, há muitos transportes a pagar, muita despesa a fazer, e toda a gente quer comprar tudo a baixo custo. 

Em todo o lado as empresas, sejam de que ramo forem (excepto as que comercializam produtos de luxo ou as que se dedicam à ficção, às miragens, ou seja, aos unicórnios para enganar os pategos), defrontam-se com a impossibilidade de vender produtos ou serviços de qualidade pois quase ninguém os quer pagar, toda a gente quer saldos, borlas, fancaria. Podem ser produtos fabricados em lugares remotos em que se explora mão de obra infantil ou escrava, podem ser serviços em que se recorre a imigrantes que fazem qualquer coisa para sobreviverem ou a mão de obra desqualificada e precária. E não vale a pena apontar ao dedo ao vizinho do lado. Somos todos assim. 

Foi para isto que caminhámos.

Não sei se há pandemia que nos volte a colocar nos eixos. Creio que não. Agora é este corona, outro dia há-de ser outra porcaria qualquer, depois são os vendavais, as chuvas diluvianas, as temperaturas avassaladoras, incêndios descontrolados. 

Mas os humanos são mais burros que os mais descerebrados e invisíveis vírus: não aprendem nem por mais uma. Só se prendem com ninharias, só gostam de maledicência, são egoístas e parvos. 

Um dia ainda vem um asteroide, um pedregulho gigante ou uma coisa qualquer destravada do universo na nossa direcção e acontece uma coboiada como a que se pode ver no Don't look up: palhaçada atrás de palhaçada, cada uma mais incrível e parva que a outra, até que vamos todos desta para melhor.

...

E vou mas é acabar de escrever pois até parece que estou apocalíptica, a anunciar o fim do mundo -- todos com um big calhau na tola. 

Mas acho que não, isto é mesmo de ter estado o dia todo sem fazer nada, um dia escuro, sempre a chover. Tanta roupa que tenho para lavar. Mas lavar roupa com um tempo destes...? Como é que seca? E também me chateou que às quatro e tal da tarde já tive que acender a luz para conseguir ler, parecia quase de noite, um tempo da treta.

Agora lembro-me que se calhar também fiquei um bocado blue por ter visto no Emily in Paris um restaurante onde almocei há não tanto tempo quanto isso, um restaurante especial, e onde gostaria de voltar mas onde agora, com tudo isto que não se vê jeito de acabar tão cedo, não sei se voltarei.

Quando penso em Paria, agora penso em ir de carro, se calhar até com alguns dos meninos. Mas como metermo-nos a viajar com a porcaria do ar todo embruxado, tanta gente a bufar coronas pelas goelas e pelas ventas...? Gaita.

Bem. Passa das duas da matina. Vou-me deitar que esta segunda volta a ser dia de trabalho. As minhas short férias só duraram este domingo.


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Pinturas de Leonora Carrington ao som de River por Joni Mitchell

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Mas, para combater a ansiedade, a pancada, a neura ou a chatice nada de meter para dentro, nada de ficar a remoer, a repisar. Pelo contrário, o melhor é deitar cá para fora. Sobretudo, lutar contra isso. Mostro como -- e recomendo que o exercitem, de preferência se tiverem algum comentador televisivo pela frente.


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Estamos na última semana deste ano. Espero que, apesar de se inserir num dos anos mais estúpidos de todos os tempos, seja uma boa semana.

Saúde, peace and love e boa sorte. 

terça-feira, novembro 09, 2021

Uma miríade de buscas e detenções das Forças Armadas.
Se calhar tinham combinado não entrarem em pânico.
Mas...

 

Havia aquilo das messes. As coisas na realidade só custavam custavam X mas eles compravam por X+g. As Forças Armadas pagavam X+g aos fornecedores. E o g, g de gorjeta, era transferido pelos fornecedores para aqueles que assim negociavam. Ou seja, as Forças Armadas, ou seja, todos os pagam impostos, estavam a pagar para alguns receberem umas gorjetas. Consta que chorudas gorjetas. Ouvi falar em milhões. E quem lhe chama gorjeta, chama gratificação. Ou comissão. Ou fee. Não sei se isso já foi apurado ou se ainda anda enleado nas malhas da Justiça.

Houve também aquilo das armas. Falava-se em roubo e comercialização de armas. A barraca maior aconteceu em Tancos. Não terá sido a única barraca mas foi a mais cabeluda. Mais do que barraca, foi uma barraquinha. Uma historieta marada. Coisa de gatunagem miúda à mistura com alguma mais graúda e tudo condimentado com guerra de bairros, alfama contra mouraria, judite-tropa ou judite-civil. Ou whatever. Uma cambada de malucos e de marados que nunca deixou que se percebesse bem quem era quem na máfia das armas. Claro que ainda anda tudo enleado nas malhas da Justiça.

A nossa Justiça é daquelas badalhocas que já perderam a vergonha na cara, que falam demais, que têm uma língua comprida e venenosa difamando meio mundo e que, dentro de portas, guardam sacos cheios de restos de linhas e de lãs, tudo emaranhado, onde mesmo que se encontre uma ponta e se puxe, não se consegue tirar tão presa estás nos outros fios.

Pois bem. Desta vez parece que a coisa fia mais fino. Coisa digna da Place Vendôme: ouro e diamantes. Não sei se, pelo meio, havia umas e outras para cheirar ou se era sobretudo ouro e diamantes. E eu disse parece pois nestas molhadas em que é tudo ao molho e fé em deus com o Super-Judge Alex à mistura a gente nunca sabe se é mais um dos mega delírios que ele gosta de apadrinhar ou se, pela primeira vez, dali vai sair algum rato. Centenas de agentes, vários suspeitos, vários detidos. Diz o nosso impagável Marcelo que esta investigação só os prestigia. Coisas lá dele. Eu, por acaso, preferia umas Forças Armadas impolutas mas, lá está, inocências cá minhas. 

Seja como for, nada de dramas: tal como uma passarinha não faz a primavera também uma fiada de diamantes não ensanguenta todos os Comandos. Para além disso, claro que todos são inocentes até prova em contrário. 

Mas, a ser verdade que há fumo porque houve fogo e a ser verdade que agiam conluiados, com o espírito de fraternidade que costuma uni-los, cá para mim devem ter combinado uma estratégia das valentes: caso cheire a cocó no beco, nada de pânico.

Mas, com tantas centenas de agentes à solta nas ruas e a farejarem casa a casa... sempre gostava de ter visto como reagiram os ditos militares e ex-militares.

Não é por nada mas só espero que tenham reagido melhor que estes aqui abaixo. A menos que tiritar de pânico também seja coisa que prestigie a tropa. 


E até já

sexta-feira, novembro 05, 2021

Marcelo -- ou a arte de dissolver a Assembleia e, en passant, também dar uma ajudinha na dissolução dos partidos à esquerda e à direita do PS

 


A data deixa-me indiferente. A ter que dizer alguma coisa, direi que é razoável. Mas o tema não é a data. O tema é o absurdo disto tudo. 

Dois partidos de esquerda, desfasados da realidade e atados ao que pensam ser o fio de ariadne que os prende ao que resta do seu exíguo eleitorado, entenderam que deveriam impor ao PS medidas com que o PS, que tem a responsabilidade de assegurar as boas contas e que já tinha feito inúmeras e generosas concessões, entendeu não dever comprometer-se. O Orçamento era equilibrado e francamente à esquerda, beneficiando amplamente o eleitorado natural do PC e do Bloco. 

Marcelo, que gosta de ser ele a estar no centro da agenda mediática, em vez de ser sensato e esperar que o PCP e o BE caíssem neles e constatassem que nunca tinham tido orçamento tão favorável, não senhor, resolveu chamar o protagonismo a si e, precipitadamente, informou que, se o Orçamento fosse chumbado, liquefaria a Assembleia e convocaria eleições.

Ninguém o levou a sério: parecia ser mais uma das suas sound bites para conseguir saltar para as primeiras páginas.

Com os nervos à flor da pele -- e com medo de desagradar aos membros mais fundamentalistas dos respectivos partidos -- e marimbando-se para o 'povo', o orçamento chumbou mesmo. 

Para espanto e incompreensão de toda a gente, o Bloco e o PCP apareceram de braço dado com o PSD, o CDS, a IL e... quem poderia imaginar?... até com o Chega. A esquerda e a direita do PS unidas para fazerem o País perder tempo e andar para trás numa altura crítica em que o sentido de Estado aconselharia a unir esforços num sentido construtivo e não destrutivo. Uma vergonha de que os portugueses não se esquecerão.

O retratista do reino deveria ter mandado que se sentassem todos do mesmo lado da mesa para lhes tirarem um retrato para a posteridade.

Aí chegados, o Marcelo, enfiado na saia justa que ele mesmo costurou, não teve outro remédio senão passar das palavras aos actos.

Confrontados com a consequência dos seus actos, o Bloco e o PCP, na maior imbecilidade, vieram, então, dizer que não queriam que isto acontecesse, queriam esticar a corda mas nunca, jamais, em tempo algum, provocar a liquefacção do parlamento. Tarde demais. Pela segunda vez, a espúria aliança já tinha sido consumada. Uma vez mais, o Bloco e o PCP trairam os seus eleitores. Logicamente, o mais normal é que, nas eleições, sejam dissolvidos de vez.

E, perante este cenário, para animar a festa, o PSD e o CDS resolveram começar a devorar-se uns aos outros. Agridem-se à bruta e, não contentes com isso, deram também em fornicar-se mutuamente, a toda a hora, à frente de toda a gente. Uma orgia de tal forma alargada e assanhada que chega a ser indecente. De cada vez que um deles fala, demonstra aos eleitores que neles é que ninguém se pode fiar. Nem internamente conseguem ser civilizados e responsáveis, faria se se apanhassem aos comandos do país. 


Não é só o espectáculo de lavarem a roupa suja em público. É mesmo a falta de decoro. É agressão, fornicanço e canibalismo praticado a toda a hora, à frente de toda a gente. A maior pouca vergonha.

No meio disto, Marcelo apareceu hoje ao País com ar esvaído, quase a fazer beicinho, aspecto de quem se sente acossado (quando foi ele próprio que se meteu nesta ratoeira), esforçando-se por justificar o que aconteceu. No fim da alocução, saiu de fininho, curvado, enfiado, rabo entre as pernas. Longe vão os áureos tempos em que corria para observar o acidente do eléctrico na Baixa, para acudir na queda da avioneta ou para andar a distribuir beijinhos e selfies pelas feiras, pelas ruas, de casa em casa, e em que, arrebatadamente, não resistia a ligar em directo para o programa da Cristina Ferreira. Longe, muito longe, vão esses tempos.

E a gente percebe que ele percebe que corre sérios riscos de ficar para a história como o presidente que dissolveu não apenas a Assembleia da República mas também os partidos à esquerda e à direita do PS. Dissolvidos, feitos em água, reduzidos a pó. E a ver se, no processo, não se dissolve a ele próprio.

Está bonito isto, está, está.


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E, já agora, a propósito de se sentarem do mesmo lado da mesa para ficarem todos no retrato, aqui fica a Última Ceia by Mel Brooks

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Inté