Música por favor
Rapsódia sobre um tema de Paganini, composta por Sergei Rachmaninoff
Eu era ainda muito nova quando descobrimos este nosso lugar in heaven. Sendo eu de me rir muito, sempre tive algumas rugas de expressão mas, de resto, a minha pele era ainda muito lisa. Não tinha um único cabelo branco pois apenas recentemente começaram a aparecer. A minha carne era firme e vejo pelas roupas que vestia na altura que era delgadinha. Os meus filhos diziam, nessa altura, que as mães dos colegas não eram tão novas como eu, chegaram a dizer-me que eu quase nem parecia uma mãe.
Já aqui o contei: aqui havia apenas mato e pedras. Desbastámos o mato, aparámos arbustos que vieram a transformar-se em árvores, fizemos caminhos, criámos os nossos recantos e, aos poucos, este tornou-se o nosso espaço. Na altura plantámos muitas pequenas árvores. Íamos comprá-las aos viveiros do Ministério da Agricultura e da Câmara de Lisboa pois vendiam-nas pequeninas, quase pequenos rebentos, um palmo de árvore, e isso tinha duas vantagens: eram muito baratas e, sendo a terra toda pedregosa e muito difícil de cavar, sendo elas tão pequeninas, bastaria uma pequena cova para as plantar. Muitas morriam e nós sempre repondo, sempre, e muitas não vingando, e nós persistindo. Mas algumas vingaram. Tratámo-las com o desvelo com que se tratam pequenas crias, dando-lhes o comer à boca. Levávamos-lhes água, amparávamo-las, protegíamo-las dos coelhos que roíam os caules finos e indefesos.
Os meus filhos, com a impaciência dos jovens adolescentes, diziam nessa altura, Tanto trabalho e elas tão pequenas; quando as árvores forem grandes já vocês são velhos.
Eu repetia-lhes uma frase que tinha lido, A verdadeira sabedoria é plantar árvores à sombra das quais nunca nos sentaremos. Mas, porque não sou tão pessimista assim, acrescentava que, de qualquer maneira, acreditava que quando eles crescessem já as árvores estariam grandinhas e que, quando tivessem filhos, já eles poderiam brincar à sombra delas.
Assim é com algumas das árvores. Algumas, talvez porque aí a terra tem mais pedra ou porque apanham menos sol, ainda não medraram bem. Mas outras estão enormes. Há pinheiros muito altos, imensos, frondosos, que dão uma sombra fresca e cheirosa. E já nasceram pequenos pinheirinhos, espontaneamente, filhos dos pinheiros grandes. Gosto destes grandes pinheiros como de pessoas. Em especial gosto de um deles, por ser grande, belíssimo, por dar muitas pinhas, pelo sítio em que está. Dá uma sombra abrigada, o chão cobre-se de caruma loura, as pinhas tombam, úteis, e de tarde os meus filhos, agora jovens adultos, levam para lá as suas crianças que gostam de brincar sob os seus braços amistosos.
. O tronco junto a um chão atapetado de caruma do meu amado e enorme pinheiro . |
Mas neste meu pinheiro eu vejo o tempo que passa, que passa por mim também. A sua pele tem rugas, rugas fundas. A minha pele tem agora mais algumas rugas (felizmente não muitas, acho eu). Mas o avanço do tempo é inexorável e eu vejo que a firmeza da minha carne já não é a que era quando plantei este pinheiro.
E parece seca a pele deste meu pinheiro.
E parece seca a pele deste meu pinheiro.
. Parte do tronco visto de baixo, vendo-se o céu através dos ramos e das pinhas . |
A pele descarnada, quase escamada, mostra bem a erosão do tempo na sua carne. Eu hidrato a minha pele, tenho esse cuidado, mas não me preocupo muito nem disfarço a minha idade. Tenho orgulho na minha idade.
Olho o meu pinheiro enrugado, descarnado, olho-o com compreensão, com ternura. É isto a fraternidade. Olho-o e vejo-o tal e qual ele está. E, no entanto, quanta beleza. Olhando para ele vejo, maravilhada, o efeito do tempo que passa. Elevando-se para bem perto do céu, cheio de vida, longos braços que acolhem quem a ele se chega, braços ainda carregados de sementes que transportam a vida para outras gerações, assim é o tronco deste adulto maduro que me tem acompanhado. Encaramos de frente e com orgulho o tempo que se detém quando estamos juntos.
Gosto de ver o efeito da idade nas pessoas. Gosto de ver as pessoas tal e qual são, maduras ou velhas, que trazem a vida marcada no rosto. Pelo contrário, acho quase patéticas as pessoas que se esticam, que se injectam para aumentar o volume das maçãs do rosto ou o volume dos lábios, que se cobrem de base espessa, que quase não riem para que as rugas não fiquem mais visíveis, que se pintam excessivamente para fazerem de conta que o tempo não passou. Sinto uma certa pena quando vejo homens que pintam o cabelo (nas mulheres acho admissível e, até, recomendável) ou que se esforçam por disfarçar a falta de cabelo.
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Música, de novo, por favor
(caso a anterior já tenha acabado)
Chopin, Prelúdio Nº4 - interpretado por Sergio Tiempo
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Uma das mulheres retratas por Graça Morais, a pele enrugada e vivida como a do meu pinheiro |
Um jovem pode ser belo, ter a frescura de uma vida que se está a desenhar, pode conter a atracção do que é efémero. Mas prefiro a beleza já madura de alguém que acrescentou textura, espessura à sua pele, sabedoria à sua vida, que viveu histórias, alegrias, tristezas, nascimentos, lutos, que perdeu arrogância e deixou, para trás, as certezas.
Ver estes rostos, ouvir as suas palavras, olhar os olhos que se amaciam e humedecem é, para mim, ver, de perto, a beleza na sua essência, a beleza na sua verdade (e uso estas palavras com respeito pois não sei dizer, com honestidade, o que é a beleza nem o que é a verdade, mas, com a reverência humilde de quem pisa terreno sagrado, ouso juntar a beleza e a verdade para me referir a pessoas de idade, orgulhosas, dignas, íntegras).
Para terminar, pela segunda vez, trago a Um Jeito Manso uma das esculturas que, até hoje, mais me marcaram. Não é um corpo esbelto, não é um rosto perfeito, não é uma posição artística. É o corpo sentado, cansado, caído, seios pendentes, cabelo sem vida, de uma mulher que, na altura em que posou, tinha mais de 80 anos e que, um dia, tinha sido uma bela mulher.
Quando, há muitos anos atrás, era eu então muito jovem, vi pela primeira uma exposição de obras de Rodin, obras de incrível beleza, foi perante esta que parei, emocionada. Uma obra de bronze e não de sumptuoso mármore branco, uma obra de pequenas dimensões (mede apenas 50 cm). A ela deu o autor o nome de Celle qui fut la belle heaulmière.
Depois dessa primeira vez, já procurei La Belle Heaulmière por mais duas vezes e, por mais duas vezes, parei, emocionada, emudecida, em frente deste belo corpo descarnado.
O tempo vai passando por mim, a minha pele vai adquirindo algumas rugas, a carne do meu corpo vai perdendo a tonicidade, vejo mais cabelos brancos, especialmente junto ao rosto. Talvez um dia eu venha estar como ela, a mulher de idade que um dia foi bela. Será bom sinal, será sinal que viverei muitos anos, que terei muitas histórias no meu coração, muito orgulho e dignidade, muitos sonhos cumpridos e, espero, ainda alguns por cumprir.
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[Escrito depois de ler aqui, no Homo Viator, o belíssimo poema 'O perdido poder de te ressuscitar']
[Escrito depois de ler aqui, no Homo Viator, o belíssimo poema 'O perdido poder de te ressuscitar']
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E, por hoje, é isto.
Desejo-vos um belo domingo e que aproveitem bem o tempo que passa.


