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domingo, abril 23, 2023

Entre o bafo quente da multidão

 

Na altura das eleições no Brasil disse aqui que obviamente desejava que houvesse um grande não a Bolsonaro. Mas que o meu entusiasmo com o Lula era reservado. Na lógica do mal o menos, ok ao Lula. Mas com muita pena que não haja melhor no Brasil. Um país enorme e complexo como o Brasil para ser bem governado e para ser respeitado interna e externamente tem que ter um presidente bem capacitado, consistente, com uma visão modernista, humanista. Lula está longe disso.

Por exemplo, a posição do Brasil sobre a Rússia a propósito da invasão criminosa da Ucrânia não é apenas dúbia. É também cínica, hipócrita, incoerente. Não sei se estas flutuações de posições, ajeitadas consoante o interlocutor, se devem ao seu caráter pouco consistente ou se Lula é simplesmente uma pessoa pouco informada. Ou se é a lógica interesseira do videirinho que quer fazer negócio e disfarça a coisa com conversa da treta julgando que os outros são mais parvos que ele. Não sei. Seja como for não é uma boa coisa.

E o que sei também é que, por tudo isto, Lula não me merece grande respeito.

Continuo a dizer: entre Bolsonaro e Lula, Lula. Mas que o Lula está aquém, mas muito aquém, do que o Brasil precisa, isso parece-me uma evidência.

E se pensarmos que o Brasil deveria ser um aliado de peso para Portugal, o que me ocorre é esquecer os interesses diplomáticos (que são incontáveis) e mandar bugiar o Lula. Ter um aliado como Lula é pormo-nos a jeito para vários tiros nos pés. Mas porque o Brasil é mais, obviamente muito mais, do que quem o governa, pois que se feche um bocado os olhos ao nonsense em forma de gente que é o Lula. 

(Num aparte, completamente aparte, também devo dizer que não percebo a que propósito é que anda em todo o lado, mesmo nos encontros institucionais, com a mulher a reboque). 

Enfim, uma tristeza.

Mas haja esperança. Por entre o bafo quente da multidão que acarinha gente como Bolsonaro, num quadrante, ou Lula, num outro, pode ser que surja uma consciência, uma voz que se erga. Muda como a exactidão   como a firmeza    como a justiça. Brilhando indefectível.

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Partilho um vídeo Cine Povero que me encanta, um remake de um anterior

Jorge de Sena :: Uma pequenina luz / Por Pedro Lamares


Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Ideias claras. Paz.

segunda-feira, março 01, 2021

Acredite num amor que está guardado para si como uma herança

 


Numa ideia criadora revivem milhares de noites de amor esquecidas que a enchem de nobreza e de altura. E os que se unem na noite e se enlaçam numa volúpia embaladora, fazem obra séria e acumulam doçuras, força e profundidade para o canto de qualquer poeta que há-de vir, que se erguerá para dizer delícias indizíveis. E convocam o futuro; e se também errarem e se abraçarem às cegas, o futuro vem na mesma, levanta-se um homem novo e, no terreno do acaso que aqui parece realizado, desperta a lei que impele uma semente forte e resistente para o óvulo que se abre ao seu encontro. Não se deixe iludir pelas superfícies; nas profundezas tudo se torna lei. 



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O pequeno texto é um excerto da carta de Rainer Maria Rilke a Franz Kappus datada de 16 de Julho de 1903. Da mesma carta foi extraído o título deste post.

Fotografias feitas hoje cá em casa

Maria Callas interpreta Madame Butterfly de Puccini 

O Segredo de Maria Teresa Horta é dito por Pedro Lamares

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domingo, novembro 29, 2020

Acidentes, regressos e manuscritos de Felipa
[Ah...se eu pudesse trincar a terra toda]

 



Não há muito a dizer. O jardim está verde e florido e a chuva torna-o ainda mais viçoso. Mas a partir do princípio da tarde começou a chover, choveu, choveu, e escureceu de tal maneira que, para ler, só de luz acesa. 

Tenho um hábito: quando me levanto, dou a volta à casa, levanto os estores e vou pondo as janelas na posição basculante. Gosto que entre ar fresco. E, geralmente, gosto que fiquem assim todo o dia. O meu marido agora não concorda, diz que está frio demais para tanto ar fresco, diz que arrefece a casa. Por isso, geralmente, quando me apanha distraída, vai fechar as janelas. Se acordo a meio da noite vou, sorrateiramente, abrir a janela do quarto, gosto de sentir o ar fresco da noite. Se ele dá por isso, passa-se, diz que sou maluca. Mas gosto tanto.

De manhã não choveu. Fomos fazer uma caminhada. Mais de uma hora a bom passo. Uma caminhada bem mais longa do que o costume. Vamos conversando. Às tantas disse ao meu marido que ele sobretudo ouve e responde ao que pergunto. Ele respondeu: 'e não é preciso mais'. Ri-me. Sempre assim foi. Raramente é ele que puxa assunto. Ou tem assuntos de trabalho que o preocupam ou ouviu alguma notícia que achou relevante ou, então, alinha na minha conversa. E assim, nesta conversa solta, nem se dá pelo tempo a passar. 

Este domingo, que parece que vai chover todo o dia, não sei como vamos fazer. Já andámos muitas vezes com chapéu de chuva mas é uma maçada, em especial quando a chuva é forte ou faz vento. Mas ficar sem caminhar é que não.

Tinha ideia de ir fazer umas arrumações mas deu-me uma total preguiça. Estive a ler. Fui fazer a monda aos livros que trouxe no outro dia a ver os que tinham vindo para mim. E estive a ler parte de cada um. Enquanto lia, ia tentando descortinar quais as partículas elementares que ali se encontravam e que não encontro noutros autores. 

Mas não foi pacífico, devo confessar. Pensei que ia ficar rendida mas estou vacilante. Por exemplo, estranhei a linguagem deste Acidentes. Parece que lhe falta ali o sopro de deus. 

E, lá está, quem sou eu para falar em deus? A última pessoa a poder fazê-lo. Mas é o que penso: nos poemas que me parece conterem verdadeira poesia eu acredito que há ali mais do que apenas a inspiração ou a técnica do poeta, há uma qualquer transcendência, a mesma que encontro numa flor perfeita, numa música improvavelmente bela, numa pintura que sobrepõe sentimentos e luzes e sombras e inexistências. Penso: é um sopro divino. Um deus que reina sobre os acasos e se diverte a deixar que uns afoguem algumas coisas e outros elevem as coisas a um patamar tal que quem se apercebe deles tem vontade de se ajoelhar. Mais do que um patamar, um altar. 

O da Mónica Baldaque já cá estava em casa e o do Harari não é dos meus

Mas é isso: ainda não li tudo e talvez não com a devida concentração. Mas, do que li, sinto que há ali palavras destituídas de música ou de luz ou de não sei o quê. Tenho ideia que há palavras que não têm cabimento no reino dos céus que é o reino onde habita a poesia.

Da Adélia Prado parece que também não estou a encontrar nestas páginas a dose habitual de desalinho e a irreverência que nela tanto me cativam. Mas, de qualquer maneira, estou a gostar. Há sempre ali uma graça, um drible, um sorriso escondido por detrás da palavra. Para gostar de um livro tenho que sentir a inteligência mas sem exibicionismo, tenho que sentir o conhecimento profundo da natureza humana mas um conhecimento sem pergaminhos. Não sei explicar.

Do primo, ainda apenas espreitei. E ali encontrei a elegância do costume, a fluidez, o espírito. Lerei depois. Por enquanto, contento-me em folhear, apanhar fragmentos, deixar-me ir pela mão. Depois saltar, ler outro bocado. Há ali aquele saber escrever antigo, aquela prosa bem costurada, aquele saber contar. Não há futilidade, superficialismo. Há o prazer de escrever e partilhar ideias ou conhecimentos.

Ao início da noite fiz encomendas online e falei ao telefone. Antes fui para debaixo do telheiro ver a chuva e fotografar. Também fotografei os livros e algumas coisas em volta. E respondi aos comentários atrasados e descansei. Não é fácil ocupar o tempo quando se está habituado a não o ter. Inconscientemente parece que me sinto ociosa. Dou por mim a pensar se tenho alguma coisa atrasada para fazer, como se não me fosse concedido o direito a estar sem nada que fazer. Geralmente, ou tínhamos a família cá em casa ou íamos visitar a família, ou íamos encontrar-nos com alguém a algum lado ou íamos para o campo onde há sempre mil coisas para fazer ou íamos às compras ou qualquer outra coisa. Agora aqui em casa, num dia de chuva, sem se poder sair, parece que fica aquela sensação estranha de não saber bem o que fazer com o tempo. Mas foi bom, então não...?



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E, de repente, ocorreu-me que há muito tempo aqui não tinha o Cine Povero, bateu a saudade. 

E cá está: vem com Alberto Caeiro na voz de Pedro Lamares


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E desejo-lhe, a si muito em especial, um bom domingo.
Descubra o que lhe traria felicidade e procure-o. 
Geralmente não é nada de transcendente, está certamente ao seu alcance.
Be happy

quarta-feira, maio 24, 2017

Só lhe queria dizer que comigo, o que me salvou foi o amor, o dos outros por mim e o meu pelos outros, e não conheço muitas mais curas.
-- Escreveu uma Leitora num mail que li com emoção.





Foi levar-me documentos para eu aprovar e, como muitas vezes acontece, ficou à conversa. Gosto de conversar com ela. Deve ser mais ou menos da minha idade, talvez uns dois ou três anos mais nova que eu. Trabalha numa outra área da empresa. É uma pessoa genuína. A única coisa que, por vezes, me perturba na conversa é ter uma certa tendência para pôr as palavras no diminutivo. Mas faço por superar. Gosta também de descrever as conversas que tem, relatando-as em discurso directo. Quando tenho pouco tempo, aflijo-me por dentro -- porque não a quero interromper -- pois o detalhe faz com o tema se espraie e eu, nas minhas pressas, não vejo fim à conversa.

Mas o que diz interessa-me sempre.

Ao fim de semana ela e o marido vão amanhar a terra. Percebo  que é um bocado de terreno relativamente perto da casa, num dos subúrbios da grande cidade. Desta vez foram apanhar batatinhas pequeninas. Depois assou-as no forno, com frango. Batatinhas pequeninas, das novas, diz-me ela. E, então, estavam lá na apanha, o marido diz-lhe: 'Olha, vai espreitar lá ao fundo' e, pela cara dele, ela percebeu logo que ele lhe reservava uma surpresa. E, conta-me ela, foi andando até que, ao fundo, viu uns arbustos, quase uma trepadeira. Faz uma pausa e pergunta-me: 'Está a ver as moitas de silvas que dão amoras...? A diferença é que as framboesas são maiorzinhas, mais encarnadas. Plantou, deixou que crescessem, tudo para me fazer surpresa. De longe gritou para eu ver se estavam boas. Oh se estavam. Comi as mais pintadinhas. As outras tapei-as com folhas a ver se os pássaros não dão por elas, a ver se ainda há algumas no fim de semana'.

E ouço-a e quase parece que me ouço a mim.

A conversa corre neste comprimento de onda. Pelo meio, enuncia-me receitas, desta vez eram os legumes num tabuleiro debaixo do frango, um limão e uns dentes de alho dentro do frango, o frango lavado com azeite, sal e louro. Explica tudo muito bem.


Conheço-a há quase vinte anos. Nunca a ouvi dizer mal de ninguém. Enquanto fala sorri. O seu trabalho por vezes é rotineiro e frequentemente intenso. Não se queixa. 

No outro dia calhou ficarmos as duas numa sala, a participarmos numa sessão por videoconferência. Criaram uma amostragem e estão a testar uma iniciativa, ouvindo antes a reacção de um grupo de pessoas. Do nosso local de trabalho, saíu a rifa a nós duas, eu na qualidade de dirigente, ela na qualidade de pessoa sem cargos de chefia. Entrosámo-nos muito bem e as nossas opiniões tiveram, como sempre, grandes afinidades. A forma como ela compreende as dificuldades de quem manda mas que está também sujeito a regras e condicionamentos quase me comove. 

É daquelas pessoas que tem uma energia positiva que faz bem a quem a rodeia. De vez em quando tem problemas de saúde mas ultrapassa-os com uma leveza que surpreende. O responsável pela área na qual trabalha, por vezes comenta isso comigo: 'Qualquer outra no lugar dela... e no entanto aí anda, sempre sorridente'. 


Uma vez estava muito preocupada com a mãe. Magra, cada vez mais magra, sem apetite, parecia que tinha uma coisa ali atravessada -- contou-me ela no meu gabinete, numa tarde. Quando a conseguiu convencer a ir ao médico, já era tarde demais. Um médico dizia que era de operar, um outro que era melhor não mexer. Ela aflita. O que fazer perante duas opiniões contrárias? Que se conhecesse alguém de confiança... Disse-lhe, então, que uma pessoa próxima é dessa especialidade, que podia ligar a ver se a podia receber. Liguei. Que ela fosse com a mãe ao hospital e que levasse os últimos exames. Foi. A mãe ficou logo lá. Pediu sinceridade total e teve-a: pouco tempo de vida, nada a fazer, apenas atenuar o sofrimento. Ela prostrada, num desgosto. A mãe ficou lá até ao fim. Fui levá-la algumas vezes ao hospital, outras buscar. Um dia ligou-me, era dia de Páscoa: o que se esperava tnha acontecido, a mãe tinha morrido. Dias depois ligou-me de novo: gostava de oferecer uma coisa ao dito médico, queria agradecer o carinho e cuidado dele com a mãe, desde o primeiro ao último dia. Disse-lhe que não, que não era pessoa que esperasse isso. Mas ela insistiu, que não imaginaria o sofrimento ainda maior da mãe se não tivesse estado tão bem acompanhada.

Por indicação médica, por prevenção, foi fazer ela um exame. Uma coisinha, contou-me ela. Biópsia. Positiva. Teve que tirar. Dias depois, já a trabalhar, animada, que felizmente tinha dado com aquilo a tempo. Depois tratamentos e ela sempre serena: tive sorte, grave é quando não se detecta a tempo.

Contudo, aqueles dois meses da mãe arrasaram-na. Diz que só se lembrava da mãe a definhar, já sem força para andar, sem conseguir comer nem reter comida no estômago. Custava-lhe aceitar como, antes de se ter descoberto, nunca lhe tinha passado pela cabeça uma coisa destas. Diz que há que tempos que a mãe se queixava que parecia que andava sempre cheia, que parecia que andava enfartada, sem fome nem vontade para nada. E nem a mãe, nem o pai nem ela atribuíram importância a isso. Pensava que, se tivesse percebido antes, talvez a mãe tivesse salvação. Com estas ideias a corroerem-lhe a mente, arranjou uma depressão. Reconheceu que não estava bem, tratou-se, esteve um mês de baixa. Veio outra vez igual, bem disposta. 


Depois os problemas com o pai. Viúvo. Ficou maluco, diz ela. Anda com mulheres, gasta dinheiro, deixa-se enganar, não aceita conselhos, não ouve ninguém. E ela sempre com tranquilidade: 'Deixa-o, é a vida dele, também não estou a fazer conta com o dinheiro dele'. Um dia o pai ligou-lhe, que tinha ido ao supermercado com a romena que estava de mulher-a-dias (mulher-a-dias e não só, comentava ela) e, quando chegara a casa, não tinha janelas, tinham-lhe roubado as janelas e as portadas de alumínio. Quando me contou, dizia ela: 'É bem feita para aprender a não meter qualquer uma dentro de casa. Ninguém me tira da cabeça que foi armação dos romenos, tanto mais que a romena nunca mais lá pôs os pés. Mas vá lá meter-lhe isso na cabeça...' 

Pelo natal faz filhoses, umas com recheio, outras simples, e sonhos. Faz sempre a mais para nos levar. Deixa na copa uma caixa para nos banquetearmos. Espreita no meu gabinete e diz . 'Há-de passar pela copa'. E eu passo.

E eu também lhe conto dos meus pais, da minha lida no campo, das receitas que invento, dos miúdos. E falamos de como por vezes, parece que é quando o tempo muda, temos dores nas articulações e ela conta-me do que lhe faz bem e tem sempre mezinhas que me parecem fundamentadas e que, por vezes, sigo. E coisas assim.

Em tantos anos, nunca falámos de política, de literatura, de economia. Nem de comentadores de televisão. Nem de tantas coisas que aparentemente me são caras. E, no entanto, gosto tanto de falar com ela. Nas nossas conversas parece que só falamos da vida, da vida sem filtros, sem intermediação.


E isto que estou a escrever também não tem nada que se lhe diga e, mais que certo, espremido vale zero -- mas eu tenho esperança que, por vezes, estas minhas conversas à toa digam qualquer coisa a algumas pessoas que me lêem.

Ontem escrevi aquilo de alguns distúrbios mentais não serem visíveis a olho nu e hoje recebi um mail que me tocou: uma pessoa dizia que reconhecia a doença da prima do meu amigo, que ela também a tinha tido mas que acreditava que a tinha superado, e contava como o amor de quem a apoiou foi relevante na sua cura. E terminou o mail agradecendo-me: 'por ir chamando a atenção dos leitores do seu blog para estas questões que fazem parte da vida de todos'. E eu, lendo este mail, fiquei comovida e a pensar que vale a pena estar aqui a escrever -- frequentemente cansada, o corpo a pedir-me descanso -- se, por vezes, as minhas palavras confortam alguém ou chamam a atenção para os problemas invisíveis para quem não os consegue sentir (ou pressentir) mas que podem machucar a vida de quem os vive ou que com eles convivem de perto.


E eu sinto-me agradecida perante quem me lê e me diz que gostou de ler.

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[Se eu pudesse trincar a terra toda]


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[E peço mil desculpas por andar sem conseguir responder a mails e comentários. Ando com muito sono e escrever um post a dormir ainda vá que não vá. Mas já uma resposta requer cuidado para não parecer desmazelo se a resposta me sair com letras trocadas ou palavras a menos]

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As fotografias foram feitas no fim de semana, in heaven.

De Hahn, "L'heure exquise" numa interpretação de Philippe Jaroussky

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Talvez até já

(Ou até amanhã -- se fizer caso do que hoje me recomendaram: que durma mais, que me deite mais cedo a ver se deixo a  melatonina trabalhar à vontade)

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quarta-feira, março 08, 2017

Eu, mulher


Não é por amanhã ser Dia da Mulher mas porque me falta assunto. 


Podia dar um giro pela blogosfera e fazer uma reportagem sobre o que chamasse a minha atenção mas não me apetece. Ou podia ver os jornais mas era capaz de me amofinar. Podia ver a televisão e comentar a primeira porcaria que me aparecesse. Ou poderia ficcionar. Mas estou com preguiça. 

Por isso, vou aqui colocar um vídeo que já aqui pus, que me lembre, umas duas vezes. Gosto muito do poema que aqui é lido, o Segredo. Num muro in heaven escrevi-o à mão e ao lado pintei uma mulher a tirar o vestido pela cabeça. Pena não ter uma mulher a dizê-lo. Podia dizê-lo eu, gravar e colocar aqui. Mas não o faço por razões mais do que óbvias. 

Para fazer contraponto à voz do Pedro Lamares, coloco aqui três fotografias de Guy Bourdin. Gosto bastante da obra de Guy Bourdin, acho que soube captar a graça e irreverênvia das mulheres que gostam mesmo de ser mulheres.


Eu gosto muito de ser mulher. Acho que nem conseguiria fingir ser homem. Sinto-me completamente mulher, nunca senti necessidade de me masculinizar, nunca tive vontade de ter nascido homem. Gosto do meu corpo de mulher. Gosto muito de louvar as mulheres. Acho que só gente muito estúpida é que pode achar que ser mulher é pouca sorte ou que mulher é gente que ainda se encontra num patamar inferior aos dos homens. Nem inferior nem superior. Ao lado.

Gosto da minha vida de mulher: de mulher-mulher, de mulher-mãe, de mulher-trabalhadora, de mulher-que-lê, de mulher-que-escreve, de mulher-que-ri, de mulher-que-gosta-de-provocar, de mulher-que-se-está-nas-tintas, de mulher-que-gosta-de-política, de mulher-que-gosta-de-comer-e-beber, de mulher-que-gosta-de-ser-gostada. E etc.



Não contes do meu 
vestido 
que tiro pela cabeça 

nem que corro os 
cortinados 
para uma sombra mais espessa 

Deixa que feche o 
anel 
em redor do teu pescoço 
com as minhas longas 
pernas 
e a sombra do meu poço 

Não contes do meu 
novelo 
nem da roca de fiar 

nem o que faço 
com eles 
a fim de te ouvir gritar


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Até já.

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sábado, junho 18, 2016

A viagem do ADN
- Quais as nossas origens?


O Fernando Ribeiro, num comentário ali mais abaixo a propósito de um outro vídeo maravilhoso sobre o DNA, deixou um outro que vi com interesse e, ai mãezinha, com que vontade de ir atrás daquilo. Já o mostro lá mais em baixo.

Estive a ver. Dá ideia de que, por detrás da curiosa iniciativa, há um concurso patrocinado por uma agência de viagens: pode ganhar-se uma viagem a um dos países que consta do nosso cadastro do ADN. Nada mau.

Mas o engraçado não está aí, está na identificação das nossas origens (se é que isto se pode dizer assim - e, se não for, os cientistas que, por favor, me corrijam)

Saber onde nasceram os meus antepassados é uma coisa que a mim me desperta interesse.




Durante muito tempo, muita gente, por exemplo na rua, achava que eu seria francesa. Dirigiam-se a mim: Française? Presumo que teria a ver com o facto de eu, durante bastante tempo, ter usado cabelo rapadinho, muito a la Jean Seberg, e blusas justinhas, calças justinhas ou vestidinhos desempoeirados. 

Gosto muito de França, muito mesmo, e não só de Paris. Também de toda a Normandia, e volta e meia tenho vontade de regressar a Saint-Malo, ou o sul de França, ou aquela costa maravilhosa que se junta à de Itália, o mar muito verde lá em baixo.

E gosto muito de Itália, muito, e tenho muita vontade de ir conhecê-la melhor. Ainda recordo com espanto, e já disso aqui falei, aquela vez em Génova em que descíamos a pé as ruas empedradas até ao porto, aquelas casas banhadas pelo sol quente do entardecer, e, de uma ruela saía um canto, uma jovem mulher cantando árias enquanto, ao lado, um homem jovem tocava violoncelo. Um momento sublime na minha vida. Um momento assim passa a habitar a nossa memória de uma forma feliz e transcendente.

Também sempre me senti bem em Espanha. Até ao AVC do meu pai, ia umas duas ou três vezes por ano a Madrid, quando não mais. Agora saio cada vez menos do país, parece que não fico descansada indo para longe. Também gosto de Barcelona. Mas, de todas, a cidade espanhola de que mais gosto, mas que gosto mesmo muito, é San Sebastian, a bela basca Donostia. Difícil até explicar o quanto me atrai aquela cidade. Adoro lá andar, parece que lá é que eu deveria ter nascido. Acho que, um dia que me reforme, tudo farei para lá passar no mínimo umas duas semanas por ano. Mas não sei se é por sentir que tenho sangue espanhol. Não sinto isso.

O meu avô paterno tinha um certo ar oriental. Há chineses de idade que se parecem um bocado com ele. Não que tivesse olhos rasgados mas, não sei, acho que havia nele traços orientais. E tinha uma calma oriental. Gostava de estar no jardim ou na horta, tranquilamente, a tratar das suas coisas. E gostava de ir à pesca, e ia de bicicleta. Os filhos passavam-se com ele, que era um disparate, que um dia ainda tinha um acidente. Ele não lhes ligava. Até aos oitenta e tal anos lá ia ele, na maior paz, de bicicleta para as suas pescarias. Tinha antepassados orientais, com certeza. Talvez japoneses, mais do que chineses. Não faço ideia.

O outro avô era muito alto, muito louro, olhos azuis muito claros. Descenderia dos povos das terras frias do Norte, talvez. Lembro como me pegava ao colo e me colocava às suas cavalitas, lá bem no alto.

As minhas avós eram mulheres portuguesas típicas, acho eu. Algarvias. A minha avó paterna mais conservadora, a outra muito liberal.

E isto é até onde posso dizer.

Mas se me desligar do que sei dos que conheci, e tentar abstrair-me e pensar nas minhas origens, tenho para mim muito claro que devo descender de mulheres etruscas. Sinto-o como se guardasse em mim memórias desses tempos. Quase me parece que são tempos não muito longínquos. Acho que eram tempos muito bons esses e se eu, em abstracto, pudesse escolher um ambiente em que gostasse, ainda hoje, de viver, era para a reconstituição desses tempos que eu gostaria de ir. 

Ou, em alternativa, poderia viver na beira de um rio, num bosque, ser talvez índia, andar nua, balouçar-me numa cama de rede e folhas, estar sempre feliz, a rir, a banhar-me, a apanhar flores ou a escolher sementes. Ou a fazer colares, brincos, e a brincar - ah como eu gosto de brincar.

Ou, quem sabe, a frequentar salões literários e boémios, em tertúlias e noites de perdição, inspirar poetas e pintores, ordenar que me lessem poemas, que cantassem para mim, que me massajassem os pés (bem... isto não deveria fazer parte), que me servissem chás e me ensinassem sobre mundos novos.

Mas não é que ser musa me agrade especialmente, só se for musa distante, uma allumeuse

Ascendentes negros ou indianos não me parece que tenha, mas, enfim, não faço ideia.

Contudo, posso ter primos venezuelanos ou argentinos (que estupidez, agora não me lembro).

Já aqui falei disto, perdão, pois, pela repetição. Um dos meus bisavôs era muito rico, tinha muitas propriedades, casas e dinheiro. Mas era um boémio que estourou tudo no jogo e com 'mulheres'. Então, um belo dia, sem se despedir, fugiu. A mulher não lhe perdoou. Criou o meu avô e os restantes filhos mantendo uma raiva àquele marido que naquele desamparo a tinha deixado. Ninguém na família mexeu uma palha para saber dele. E se ele fez alguma tentativa para saber da família, não deve ter tido sorte.

Muitos anos depois, seria já ele um ancião, alguém vindo de lá falou que ele ainda era vivo, que vivia numa quinta, na maior solidão. Ninguém se condoeu. Acho que nem foi isso, acho que, na verdade, para toda a gente era como se, ao fugir, se tivesse suicidado.

Também já o contei: se ainda ninguém lhe chamou um figo, ainda hoje deve haver um belo terreno no Algarve que nos pertence e que nem o meu pai nem o irmão se deram ao trabalho de registar. Antes, em vida ainda do meu avô, era preciso uma certidão de óbito do pai dele. Poderia ter-se averiguado junto da embaixada. Depois, já era mais do que óbvio que não estava já vivo de certeza pelo que nem a certidão de óbito era precisa. Zero. Ninguém mexeu uma palha. Depois morreu o meu avô com noventa e tal anos. Agora o meu pai e o meu tio já estão nos oitenta e tais e obviamente que já não serão eles a tratar do assunto. Para aí uma vez por ano, eu e a minha prima dizemos, olha lá, temos que ver o que fazemos àquilo lá do terreno, devíamos pedir a algum solicitador. E ambas dizemos que sim. Mas algum papel deveríamos ter para pôr o assunto a mexer. E ninguém mexe uma palha para descobrir que papel seria este.

Da minha parte, sinto que aquela terra pertence a uma história que não acabou bem e que não sinto como tendo a ver comigo. O lado monetário da coisa não me diz nada, como se o dinheiro que aquilo valerá não compense o esforço de descobrir um papel gasto pelo tempo.

A história da minha família tem sido, assim. Desfazerem-se de tudo, sem olhar para trás. Tudo gente assim. Incluindo eu.

Portanto, às tantas, descendo é de nómadas, de gente desligada, de gente que andou a cruzar o mundo sem ser de lado nenhum. Talvez seja mesmo o mais provável. E essa ideia agrada-me. Agrada-me pensar que estou de passagem e que, de uma forma ou de outra, tenho vindo passando por aí.

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Este é o vídeo de que o Fernando Ribeiro falou e que vos convido a ver:

The DNA Journey



Vamos fazer o teste e ver se somos primos? Teria graça, não teria? 

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E não vem a propósito mas apetece-me dançar. Elevar-me, voar, libertar-me da gravidade desta vida.

(Na volta, tenho é gaivotas como antecedentes)



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Apetecia-me ainda ouvir um poema em português.

Queria um poema de um homem dito por um homem ou de uma mulher dito por uma mulher. Nenhum me prendeu (provavelmente porque me estava a apetecer alguma coisa especial, só pode, já que oferta no youtube é o que não falta).

Vai, portanto, um poema de que gosto muito, de uma mulher, Maria Teresa Horta, dito por um homem que diz muito bem, Pedro Lamares:

Segredo

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Das fotografias que ilustram o texto se diz no Bored Panda:

These rare and beautiful vintage portraits of Native American girls were taken between the late 1800s and the turn of the 19th Century, yet despite being over a century old, many of them are still surprisingly clear.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma belo sábado.


quarta-feira, dezembro 30, 2015

Homens versus Mulheres
- descubra algumas diferenças e veja como juntos ganham outra graça
[E uns pós sobre mais esta agora dos investidores institucionais do BES poderem perder para cima de 2 mil milhões de euros]






Não sou grande frequentadora de blogs mas tenho a impressão que esta coisa das diferenças entre mulheres e homens deve ser, nesse fértil terreno, explorada à exaustão. Por isso, originalidade sobre o tema é missão impossível. Tenho também a ideia de que, se a coisa é escrita por homens, o objectivo é depreciar as mulheres. E vice-versa. Pois aí talvez eu consiga ser vagamente diferente porque não consigo alinhar nessa dicotomia e, sobretudo, por deformação formativa ou profissional, não consigo (nem em registo de conversa parvinha) fazer generalizações abusivas. 

Já muitas vezes aqui o disse: vivo, em grande parte, num mundo de homens -- e dou-me bem. 

Mesmo quando andei no liceu as turmas em que andei tinham para aí 10 raparigas e vinte rapazes. Mas nem é apenas dessa altura eu ter, como melhores amigos, os rapazes: isso acontece desde sempre. A minha grande amizade de infância não foi com outra menina: foi com um rapaz que era um ano mais velho que eu. Não é que eu fosse ou seja de tipo maria-rapaz. Não sou, antes pelo contrário. Sou muito feminina em tudo. Contudo, prefiro conversar com homens. Ainda hoje estive para aí uma hora ao telefone com um amigo. Falamos com uma proximidade enorme e não existe reserva no que dizemos.

O meu marido vai adorar esta!
Quando andei a estudar na faculdade, havia uma infestação de alunas, quase tudo umas marronas maçadoras. Claro que, por isso, tirando talvez aquela alentejana desempoeirada e extrovertida de que no outro dia falei, não conseguia manter uma conversa com aquelas chatas. Eu queria combinar ir ao cinema ou ver uma exposição ou passear e elas só falavam de dúvidas, de trabalhos, daquela matéria que eu via como poética e que elas viam como um calvário que era preciso percorrer. Por isso, nesse período eu enturmava-me sobretudo com um colega de outro curso, com o meu namorado da altura e com o que veio a seguir ou com os estudantes africanos. Havia um grupinho de colegas raparigas com quem ainda havia alguma afinidade mas nada por aí além: trocava instintivamente a companhia delas pela dos rapazes. Quando dei aulas, as professoras também, em geral, eram conflituosas ou desinteressantes. Uma ou outra mais divertida (e lá encontrei de novo essa tal outra colega) mas, uma vez mais, era com um colega que eu mais me enturmava, um bem apessoado sindicalista. 

Segundo um estudo da
Universidade de Wayne State é isto
mesmo que acontece: ao fim de pouco tempo
de separação os
homens sentem-se tristes e as mulheres libertas

A seguir, quando comecei a trabalhar em ambiente empresarial, quase tudo homens. Íamos num transporte dedicado, uma carrinha, e era eu e uns vinte homens. No local de trabalho, quase só homens, no refeitório idem. Nas reuniões,  eu a única mulher. E sempre na maior. Nunca tive que me masculinizar nem eles nunca me trataram com menos respeito.

Até me faz lembrar os meus filhos:
ele vai de vez em quando a um sítio barato,
dá uma rapada quase total:
ela faz um filme, gasta uma nota,
e vem igual

Uma das coisas maçadoras do convívio social com os meus colegas é que, quando levam as mulheres, eu levo o meu marido. E ele, naturalmente, enturma-se com os meus colegas e falam de política, de geo-estratégia, de história ou, na pior das hipóteses, de futebol. E eu, por uma espécie de sentimento de dever, fico no grupo das mulheres. E elas, regra geral, falam de empregadas, de assuntos domésticos, e, como parte são professoras, falam da falta de educação dos miúdos e da falta de educação dos pais dos miúdos. Tem graça mas, de forma geral, a conversa gira muito em volta disso. Salva-me uma que é médica (em S.José!) e que é maliciosa até dizer chega, quase fazendo corar o marido que, sendo um malandreco, ao pé dela parece um menino do coro. E vale-me também uma outra, pessoa conhecida, misto de cientista, de empreendedora e de crazy girl, que dá conta da cabeça do marido (e da cabeça do meu marido também, que a acha doida varrida). Mas, se essas não estão, dou por mim a fazer um esforço para não me raspar para o pé deles na primeira oportunidade. No entanto, quando me vejo na conversa, no meio de um bando de homens, penso que as mulheres deles podem achar isso estranho. 

Outra que confirmo:
apesar de ter um cabelo farto e forte,
vejo sempre se há algum shampoo milagroso
(nem sei para fazer que milagre);
o meu marido usa o gel de banho.

Enfim.

Portanto, resumindo: conheço razoavelmente quer a mentalidade quer o comportamento dos homens. E acho-lhes graça. E acho que a maneira de ser masculina e feminina se complementam, que os contrastes dão, por vezes, à vida sal e pimenta e, por outras, açúcar, mel e suaves licores. Ou luz e exaltação, por vezes, ou sombra e recato, por outras.

Quando às vezes penso que, para descansar o corpo e o espírito, não me importava nada de viver durante algum tempo num convento, ocorre-me logo que ou era em silêncio (coisa que não sei se suportaria durante muito tempo) ou, então, não descansaria enquanto não me visse livre de tanta mulher. Em contrapartida, não me importava nada de viver durante uns tempos num convento masculino. Se tivessem lá um coro gregoriano, então, havia de ser como viver às portas do céu. Não sei é se admitem mulheres-turistas num convento só de padres. Conventos mistos acho que ainda não há. (Ora aí está um belo nicho de mercado).

Adiante (que quero ver se chego ao fim do post sem pisar o risco).

Vem isto a propósito de, no outro dia, por mail, um Leitor , a quem agradeço, me ter enviado dois desenhos que ilustram o comportamento típico masculino ao comprar sapatos, que é racional e minimalista, ao passo que o das mulheres é caótico, quase delirante.


O meu marido é deste género:
o objectivo parece ser comprar
sapatos sempre iguais e só compra uns quando os anteriores estão velhos

Isto parece a conversa entre mim e o meu marido quando compro sapatos:

se deitasses fora os que não precisas, talvez tivesses onde arrumar esses;
ou:
não tens uns quase iguais a esses?
ou:
se em vez de comprares tanta porcaria, comprasses sapatos de jeito, bastava-te um par.

(Tenho que fazer um grande esforço de abstração para não ir na conversa dele)


Entretanto, vi uma coisa do género e fartei-me de rir: refiro-me aos desenhos com que fui enfeitando o texto provêm do Bright Side. Tudo verdade o que ali se descreve. Mas sou incapaz de, colocando os comportamentos lado a lado, dizer que um é melhor que o outro: são diferentes, e é na diferença que reside a graça. Eu, pelo menos, assim o acho.
...   ...

CASOS PRÁTICOS

1.

Um homem que sabe amar uma mulher

Até que tu vieste provisoriamente 
encher da tua ausência um coração 
que só a fome alimenta 
Até que tu poisaste tão serenamente 
como a tardia folha que tem 
insaciável vocação de chão


.....

2.

Um homem e uma mulher aprendendo-se e desaprendendo-se -- num telhado de zinco quente


 .....

3.

Um homem e uma mulher aprendendo-se num espaço e num tempo só deles

...   ...
  • Lá em cima Anna Netrebko e Rolando Villazon são o par que se diverte, interpretando A Traviata de Verdi. Um prazer a dois, um prazer total.
  • Eunice Muñoz e Pedro Lamares dizem Ruy Belo. Mais um prazer a dois, desta vez temperado com palavras.
  • Elizabeth Taylor e Paul Newman vivem os altos e baixos de uma paixão encalorada em Cat on a Hot Tin Roof. Um tempestuoso prazer a dois.
  • Por último os bailarinos do English National Ballet, Erina Takahashi e James Forbat, numa coreografia de James Streeter, dançam um delicioso mano a mano: Bohemian Rhapsody dos Queen. Um prazer a dois, um prazer em que os corpos se entregam um ao outro outro, sem peso, sem sombras.
....

Esta nova tranche de resgate do Novo Banco, agora à custa dos credores obrigacionistas institucionais, mereceria aqui uma referência. É assunto que, apesar de ser, porventura, uma opção mais equilibrada face à alternativa de ir fustigar, de novo, os contribuintes, também não é isenta de dor para quem perde o dinheiro, nomeadamente para as empresas que tinham investido em obrigações do tipo das que agora, quais sardinhas de volta ao prato, regressam ao BES para se transformarem em nada.

Claro que, no meio da desgraça, há sempre uns quantos que, mal ouvem isto, esfregam logo as manápulas de contentamento: os grandes escritórios de advogados. A esta hora já deve reinar a efervescência. Processamos os gajos!
Contudo, hoje vinha com esta encasquetada e preferi converseta simples, música, dança, cinema e poesia a pôr-me com uma prosa enfadonha metendo números, bail-ins, regulações que são umas ceguinhas do caraças, gente que mente com quantos dentes tem na boca e etc. Talvez amanhã se estiver para aí virada.

Só de me lembrar que caíu o Carmo e a Trindade quando António Costa falou numas quantas surpresas que Passos Coelho e Maria Luís andavam a esconder: que não senhor, que com eles era tudo transparência. Está bem, abelha. Só trapalhices, lixo debaixo do tapete. 

O que eu, no meio da desgraça pegada em que estava parte do sistema financeiro português, só espero é que -- com este incompreensível mega-desastre do Banif e com, agora, mais esta bola a sair do saco, a capitalização necessária do Novo Banco -- se limpe de vez tudo o que há para limpar. É que já não há pachorra. Cambada. Espatifaram dinheiro como manteiga em focinho de cão. É que se há mais alguma bronca para rebentar que António Costa trate já de apagar o fogo, a ver se, depois, se deixa a economia funcionar como deve ser, sem ter que andar a alimentar o sorvedouro que são estes bancos privados tão maravilhosamente geridos. Caraças.
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Para os que ontem não repararam, sempre publiquei à hora de almoço, um post com dois stripteases para que as Leitoras possam avaliar qual se adapta melhor a si e para que os Leitores possam escolher qual o tipo de strippers que mais apreciam.
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Bem, por agora por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira. 

domingo, março 22, 2015

Que a minha loucura seja perdoada pois metade de mim é amor e a outra metade também


Não sei se a primavera começou hoje ou ontem. Pensava que era a 21 mas agora parece que é 20. E há o dia da Árvore o dia da Poesia e não sei se coincidem ou não. E eu que gosto tanto de árvores, de primavera e poesia, não sei se já foi se ainda é. Mas também não faz mal porque todos os dias o são.



Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também


E hoje o meu dia teve tudo: primavera, poesia, árvores. E um rio grande como um mar.

De manhã andei rente ao rio. O dia estava um pouco cinzento mas junto ao rio a beleza é permanente. Olhar o rio traz-me paz, traz-me voos, traz-me saudades. 


Levantai-vos, amigo, que dormis nas manhãs frias;
todas as aves do mundo diziam:
Alegre ando eu.

Levantai-vos, amigo, que dormis nas manhãs frias;
todas as aves do mundo cantavam:
Alegre ando eu.



Duas gaivotas chegaram-se à beira da muralha e eu, imóvel, segui os seus movimentos. São felizes as gaivotas. Vejo-as muitas vezes contemplando as águas que correm. Têm todo o tempo do mundo, têm total liberdade, as suas enormes asas levam-nas a atravessar o espaço, a cruzar o horizonte. Acho que um dia ainda hei-de ver duas gaivotas abraçadas, a cabeça de uma encostada no ombro da outra, silenciosamente sentindo o prazer de estarem juntas.


Todas as aves do mundo diziam;
do meu amor e do vosso tinham no pensamento.
Alegre ando eu.

Todas as aves do mundo cantavam;
o meu amor e o vosso recordavam.
Alegre ando eu.



Mais à frente, dois veleiros brancos seguiam com o vento, e eu pensei que talvez fossem as duas gaivotas que se tivessem transformado, que deslizassem para bem longe onde poderiam sonhar com praias desertas, tardes de sol e silêncio, noites de cumplicidade.

Depois fui até onde a primavera já se anuncia em festa. In heaven a natureza resplandece, as árvores crescem, e eu olhei a gaivota que voa sempre junto a mim, ou dentro de mim. 


O meu amor e o vosso tinham no pensamento;
vós lhes arrancastes os ramos em que se sentavam.
Alegre ando eu.

O meu amor e o vosso recordavam;
vós lhes arrancastes os ramos em que pousavam.
Alegre ando eu.


Os pássaros andam felizes por lá, a terra é toda deles. Ando em silêncio e só a minha respiração os faz levantar, numa agitação de asas, numa alegria, e eu fico contente por cada vez mais os sinto próximos de mim. Outras vezes são os coelhos que saltam, correm, e eu penso que era assim que eu queria ser, e se calhar já quase sou, quase livre, a respirar o ar da terra tal como respiro o ar do rio, próxima dos bichos que os habitam.


Vós lhes arrancastes os ramos em que poisavam;
e lhes secastes as fontes em que bebiam,
Alegre ando eu.


A rocha está muito suave, azulada na sua ternura, e dela saem rebentos, pequenas flores esguias, delicadas. E eu passo a mão pela pele da rocha, e estava quase morna, o sol manso tinha estado lá a repousar. Gosto tanto destas pedras. Depois de chover ficam húmidas e, no sítio por onde a água mais escorre, ficam mais escuras. Mas agora, que não chove, estão apenas descansadas e belas na sua infinita sabedoria, acolhendo estas efémeras e belas flores cor de rosa.


Vós lhes arrancastes os ramos em que se sentavam;
e lhes secastes as fontes onde se banhavam,
Alegre ando eu.


O alecrim está todo florido, há um intenso perfume lilás no ar e o tojo também já floriu, amarelo, carregado de luz. Percorro o caminho muito devagar, sozinha, aspirando o ar, e constato que não vou a pensar em nada, penso que vou em processo de meditação. É como se todo o céu, todos os sonhos, todos os abraços inventados, todos os olhares imaginados, todas as palavras que em segredo deixo voar, me envolvessem. À minha frente, rente ao chão, vai a minha sombra, silenciosa também, e eu sei no que ela vai a pensar. Mas ela não mo diz e eu não lho pergunto. À terra, ao rio, às gaivotas, às rochas talvez todos os segredos se possam confiar. No coração da terra ou no fundo do mar, a sombra que se desprende de mim esconde os seus segredos mais puros, sabendo que um dia alguém os há-de ir lá buscar.


Les + grands secrets se cachent dans la lumière



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Lá em cima Pedro Lamares diz o poema Metade de Oswaldo Montenegro

As fotografias foram feitas este sábado.

O poema repartido sob as fotografias é de Nuno Fernandez Torneol, século XIII, e integra o livro Cem Poemas para salvar a nossa Vida, uma selecção de Francisco José Viegas

A música no final é de Ludovico Einaudi - Nuvole Bianche 

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Muito gostaria que me visitassem no meu Ginjal onde Mia Couta se junta a Manuel de Falla e onde falo de quem, com os seus dedos, recolhe gaivotas no raso voo sobre o meu peito.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

terça-feira, dezembro 30, 2014

"Aí está outra coisa: a idade. Tanto como o nome, ainda menos que o nome, também a idade não deveria ter grande importância. Mas tem. Oh, se tem!", disse David Mourão-Ferreira. E pergunta uma Leitora: "As grandes coisas "materiais" têm importância com a idade?"


O post abaixo é dedicado ao humor e mete uma mulher audaciosa e um cavalo marinho - e mais não digo.

A seguir, se não se importam.

Aqui, agora a conversa é outra. A Leitora Rosa Pinto perguntou se as grandes coisas 'materiais' são importantes com a idade.

Mas - uma vez mais o sugiro - vamos com música: Anna Prohaska interpretando Song to the moon de Dvořák, com Eric Schneider no piano. Um som quase divino.








A pergunta, da forma como é feita, é relativamente abrangente e permite-me, à laia de introdução, falar sobre a importância da idade em sentido lato.

Para começar, direi que, seja qual for a perspectiva, a idade importa mas, em minha opinião, não necessariamente no mau sentido. 

É claro que à medida que a idade avança, o corpo vai perdendo resistência e a flexibilidade, a pele vai perdendo a luminosidade, o cabelo vai perdendo a vitalidade. 




Mas em tudo isso pode ser vista beleza, a beleza de um corpo que se vai transformando, assimilando o tempo que passa.

Claro que há também, de vez em quando, o desconforto das articulações que perdem a lubrificação ideal, dores que surgem e custam a passar. Mas, para isso, há tratamentos e, aos poucos, o corpo também se vai habituando a conviver com essa nova realidade. E há a flacidez que não se cura com comprimidos mas que apenas significará decadência se a mente se sentir decadente.

E no amor?

No amor a idade traz maior exigência mas, por outro lado, maior tolerância. 




À medida que se vai conhecendo mais e melhor a vida, vai-se sendo capaz de relevar o que é insignificante e passageiro e vai-se percebendo que não se deve esperar por algo que, de tão perfeito, pode não existir, ou que não se deve contrariar a natureza e que, se o corpo pede uma coisa, deve-se satisfazê-lo sob risco de a oportunidade passar. Da mesma forma, há uma urgência que advém do contador que vai avançando e que impede que se continue a tolerar o que é intolerável.

E no sexo?

No sexo a idade traz um tempo, uma disponibilidade que antes havia em menor quantidade e qualidade e traz um maior conhecimento dos corpos, do próprio e do outro, e uma maior capacidade de entrega e partilha.

E nas grandes coisas materiais, como explicitamente a Leitora refere? 
Por exemplo (digo eu), conhecer grandes hotéis, frequentar os mais caros e luxuosos restaurantes, fazer grandes viagens e consumir sem limites, adquirir roupas de marca custem o que custarem, ter casas requintadamente decoradas com peças assustadoramente valiosas?
Penso que, à medida que a idade avança, tudo isso vai perdendo relevância. Claro que há aqueles para quem a vida apenas faz sentido em função do que conseguem possuir ou experiências exóticas e dispendiosas que conseguem averbar no curriculum - mas com esses eu não me identifico, pelo que por eles não falarei. 




De facto, a mim, isso pouco me diz e cada vez menos. Cada vez aspiro mais à simplicidade, ao valor intrínseco do que é genuíno - ou porque seja puramente natural ou porque resulte do trabalho amoroso de alguém. 

Fiz estas fotografias in heaven durante este fim de semana. O sentimento de deslumbramento que tenho
perante a perfeição de uma pequena flor que desponta no junquilho, 
ou perante os bocados do tronco do meu grande pinheiro que tombou num dia de vendaval e cuja memória preservo, contemplando a beleza da rugosidade que os cobre, 
ou perante a sumptuosidade efémera da flor do aloe vera 
ou, ainda, perante as cores suaves da rocha, entre o azul e o dourado, que se tornam ainda mais belas quando entrevistas numa tarde fria junto aos braços de um pinheiro que dança ao sabor de um vento vagaroso 
é um sentimento imenso, que me empolga, que me fascina. 

Fico perante as cores da rocha num estado de encantamento muito puro e inocente que não se compara ao prazer mundano de frequentar um bom hotel, toco a macieza da sua superfície humedecida e é-me bem mais agradável do que sentir uma cara caxemira, debruço-me e quase venero a perfeição quase intangível da pequena flor como não veneraria uma dispendiosa peça de joalharia.


D & G - 2015


Mas, dito isto, tenho que reconhecer que também não me é indiferente um confortável quarto de hotel com uma bela vista, uma obra de arte que me provoque ou um livro bem encadernado e ilustrado, uma peça de vestuário principescamente costurada - essas grandes coisas materiais.


D & G - 2015


Mas isso é uma coisa e outra é gastar fortunas ou decidir o que gosto ou não gosto em função de modas, de marcas, de prestígios exibicionistas.
[Por exemplo, alguns dos quadros que tenho aqui na sala onde agora estou, e dos que mais gosto, adquiri-os por poucos euros num pintor que vendia a sua arte na rua, mais concretamente na Plaza Mayor em Madrid.]
Importante é a alegria, o gosto pela vida, os afectos, os sorrisos, a beleza das palavras, o apelo de toda a arte, o desafio infinito do conhecimento, o conforto maternal que vem da natureza - e essa importância vai crescendo à medida que a idade nos vai dando a faculdade de melhor abrir o coração e a mente. E as mãos.

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A propósito de tudo isto e da beleza da idade e da importância das grandes coisas imateriais, deixem que vos mostre o vídeo com o novo anúncio Dolce & Gabbana (Verão 2015) - a sensualidade mediterrânica, o convívio entre os dois sexos, entre as várias idades (as mulheres de idade são maravilhosas), as influências de Espanha e Itália misturadas e em festa, tudo é magnífico.





E viva a vida, em qualquer idade!

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E, se é para glorificar coisas que verdadeiramente importam nesta vida, como a beleza e a partilha, e rir e mandar os preconceitos às urtigas, pois então que entre o Freedom Ballet: esta é uma das formas de honrar a beleza imaterial do movimento e da liberdade dos corpos

6&7





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E se é para deixar que as palavras nos levem no seu voo imaterial, que se chegue a nós o Pedro Lamares e diga "Metade" (Oswaldo Montenegro)

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também





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E se é para ajoelharmos perante a beleza imaterial de seres que, de tão belos e intemporais, quase poderiam ser delicados anjos, pois que dancem para nós as medusas Água-viva-juba-de-leão, Cyanea capillata, a Urtiga preta do Mar, Chrysaora achlyos, a Medusa da Lua, Aurelia aurita e a Provocação do Mar, Chrysaora fuscescens. 


No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores


(in O fundo do mar de Sophia)




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Nunca quando eu era menina e jovem mulher pude deleitar-me tanto com a infinita vastidão da beleza que está agora ao meu alcance e com a qual antes mal conseguiria sequer sonhar. Menina deslumbrada perante a imensa beleza que me cerca sou eu agora.

Elegantes medusas, sublimes cantos, poemas, danças, sorrisos, palavras que chegam vindas não se sabe de onde, essas sim são as verdadeiras coisas que materialmente importam - e isso sei-o agora, agora que a idade vem deixando as suas marcas de beleza no meu corpo.

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Relembro: a divertida história da mulher que queria porque queria um cavalo marinho é já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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