Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, março 31, 2019

Uma grande, corajosa e sentida crónica de Ferreira Fernandes





Na altura disse-o e hoje volto a referi-lo. O futebol, tal como muitos outros espectáculos, vivem muito de patrocínios. Um patrocínio consiste geralmente em uma empresa contribuir financeiramente através de pagamento de utilização de espaços para publicidade ou através do financiamento de eventos em que usa a ocasião para se publicitar. Geralmente compra bilhetes para os espectáculos ou tem camarotes. Quando compra bilhetes, 'cadeiras' ou camarotes está a garantir receita de bilheteira. E depois, tendo esses bilhetes disponíveis, a empresa financiadora oferece-os a quem quer: a clientes, fornecedores, colaboradores, familiares de colaboradores, gente conhecida. 

E isto é o normal. As empresas para que tenho trabalhado costumam patrocinar eventos ou clubes. Por isso, poderia ususfruir. Como sou um bocado bicho de mato não costumo aproveitar mas já tenho usado ingressos que me estariam destinados para os meus filhos e amigos. E muitos colegas meus assistem regularmente a desafios de futebol ou espectáculos desta maneira.

Não há nisto corrupção, não há nada de mal.


Se os clubes de futebol, os concertos, os espectáculos de qualquer tipo não tiverem patrocínios dificilmente se aguentam. E, como se pode facilmente perceber, se os patrocinadores não arranjarem quem dê uso aos ingressos que adquirem ficará desagradável ver os lugares vazios.

E vem isto a propósito de um absurdo que há tempos aconteceu e que enlameou estupidamente três pessoas honestas.

Os jornalistas que estão carecas de saber disto, com a falta de escrúpulos que caracteriza tantos, passaram por cima disso pois querem é arranjar títulos e polémicas. E a 'malta', que vai atrás de todos os ossos que são atirados para a via pública, logo desatou a ladrar, a morder, a querer despedaçar. A 'malta' gosta de pisar quem vai ao chão, a 'malta' gosta de sangue, em especial do sangue daqueles que acha que são 'poderosos' -- como se trabalhar num governo fosse a mesma coisa que pertencer a um gang de ladrões.


E vem isto a propósito de uma das pessoas honestas que foram vítimas da sacanagem que com eles fizeram: João Vasconcelos, que morreu esta semana e sobre quem Ferreira Fernandes escreveu no DN a crónica que abaixo transcrevo quase na íntegra.



Eu escrevo, assim: "João Vasconcelos, ex-secretário de Estado da Indústria, morreu." Primeiro, o nome do homem extraordinário, para que se saiba logo a extensão da perda; e, de seguida, nunca escondendo a palavrinha fundamental que deixei escrita na frase do meu anúncio: ex. É, temos de pensar na palavrinha.
Ex, pois. Quando o João Vasconcelos morreu aos 43 anos, nesta semana, era um ex há quase dois anos. Evidentemente, não para os seus, nem para os que profissionalmente continuavam a beneficiar da sua inteligência e rasgo. Mas uma crónica de jornal é dirigida para o público e, oficialmente para os portugueses, ele estava assim: ex. E quem perdia com isso eram os portugueses.
João Vasconcelos governou-nos, deixara de nos governar e dificilmente haveria um governo que voltasse a interpelar os portugueses sobre a tentação de o trazer para o natural lugar dele: querem voltar a tê-lo como ministro? 
Já perdemos a noção da diferença entre um escândalo e um escândalo fátuo. Em havendo canzoada, vergamo-nos. "Eh pá, ele teve aquele problema... - Mas qual problema?... - Sim, sim, eu sei, não foi bem problema, mas..."
Enfim, mas. Esse argumento definitivo a que se vergam as sociedades assustadas pelo coro com os escândalos verdadeiros, os assim-assim, os nem por isso... Então, ele já era um ex-político quando morreu. Infelizmente para nós todos, o que nos remete para a obrigação de pensar a causa e o efeito da tal palavrinha, ex.
João Vasconcelos tornou-se um ex-governante por causa de um bilhete de futebol para jogo do Campeonato Europeu de Futebol. Ele e mais dois secretários de Estado aceitaram um convite para um jogo e a viagem em voo fretado pela empresa patrocinadora da Federação Portuguesa de Futebol, a Galp. Fez-se um caso, os secretários de Estado ainda pagaram as despesas de que beneficiaram, mas abriu-se um inquérito, eles foram constituídos arguidos, demitiram-se. O Ministério Público abandonou o assunto e uma juíza quer prossegui-lo. Em todo o caso, para o que diz respeito à nossa perda, era isto quando ele morreu: João Vasconcelos, ex-governante.
Os jornais chamaram Galpgate ao caso, os jornalistas nem foram admoestados por falta de imaginação nos títulos (o que é um erro profissional?), os diretores dos jornalistas não foram incomodados por terem ido com os mesmos bilhetes grátis (a hipocrisia é um erro moral, e então?), e o segundo político mais famoso comentador político desta vez não comentou, pois fora visto nesse verão de 2016, indo e vindo a Paris, com os seus habituais cachecol e bilhete de borla... Mas o facto foi: João Vasconcelos saiu definitivamente da coisa pública, passou a ex.
(...)
Mas o que aqui me traz, mesmo, é sublinhar a defesa do nosso interesse. O nosso, o de todos - lembrar como a histeria do patrulhamento leva, por razões fúteis, a perdermos os melhores. A modernização da indústria portuguesa, a evolução industrial da digitalização, o regresso dos nossos jovens mais qualificados - e nem meto siglas para impressionar, Web Summit, Startup Portugal, Indústria 4.0, porque não quero impressionar, quero que sintam a perda - enfim, expulsámos da nossa empresa, Portugal, o político João Vasconcelos, por causa de um bilhete de futebol. Não se entende. Pensem no tamanho desperdício de João Vasconcelos não nos ter governado nos derradeiros dois anos da sua já de si curta vida.
Nos últimos meses, conheci-o pessoalmente. O interesse era todo meu e, confesso, cronista da espuma das coisas com que construí a minha carreira, ele atraiu-me pela dimensão do "não se entende" como o Portugal político (metam políticos nisso, mas sobretudo a canzoada popular, incluindo a manhosamente organizada) o desperdiçou. Acontece que nos últimos tempos, porque diretor de um jornal, isto é de uma indústria de tão dramático presente e ainda mais de futuro promissor, precisei dele. Sabem? Paguei-lhe dois almoços e, confirmou-se a frase feita, não foram grátis. Fiquei a dever-lhe uma fortuna: fiquei ambicioso quando já não me pensava virado para aí.
O João Vasconcelos falou-me do pequeno e ágil, do bem feito e do ousado. Do mundo que nos espera, quanto mais cedo soubermos melhor. Tinha a cara de boxeur como a imagem das luvas com que um dia posou. A última vez que o vi, passou montado na ironia: uma trotineta que anunciava à Galp que ela tem de se reinventar... E, numa destas manhãs, quando soube, no que pensei, mas logo, foi logo, em mim: perdi-o. Calculem agora o que Portugal perdeu.

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Se calhar não faz sentido, num texto destes, estar aqui a colocar cantorias, cerejeiras em flor ou bailados mas eu gosto de aqui ter cor, música, voos e não creio que isso desvalorize as palavras. Pelo contrário, a minha intenção é que respirem, que, quem as lê, possa fazer pausas, deixar que elas melhor irradiem.


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sábado, março 30, 2019

Um post onde também se diz: "Porque hoje é sábado"


De saída para mais um dia, e depois de ontem à noite não ter conseguido espraiar-me nem tão pouco responder aos comentários, tendo-me ficado pelo bom humor possível em torno da tristeza do Brexit (e que inclui o tão aguardado e delirante encontro com a Rainha), venho aqui numa fugidinha retomar algumas escolhas para um fim de semana tranquilo e alegre.

Primeiro, Mauro Morandi, o homem que em 1989 chegou à Ilha de Budelli, na Sardenha. Gostou e foi ficando. Vive sozinho no paraíso.



Agora, não é por mais nada a não ser porque gosto do vídeo: a coleção Pharrell para a Chanel 



E pela beleza serena de tudo, os fatos Dior para o bailado ‘Nuit Blanche’


A todos desejo um bom fim de semana 

O bright side of Brexit e o tão esperado encontro com a Rainha




Mais uma cegada para os lados do Brexit. Não há explicação para o que se está a passar. Entretanto, nas ruas, uma maltosa altamente suspeita desfila a gritar 'Shame on EU'. Parecem hooligans, malta de gangs, de claques, fazem saudações que metem medo, dizem que foram traídos, querem sair da Europa. Outros são apenas excêntricos. Ou tias fora de tempo. Ou velhos nacionalistas desfasados da realidade. Ou gente que parece que chegou atrasada para os festejos de carnaval. Um grupo esparso e inconsistente. E vendo quem assim ainda continua a defender o Brexit percebe-se ainda melhor o tremendo disparate que os britânicos fizeram. 

Já tenho visto, nas empresas, cometerem-se erros incríveis. A gente tenta perceber como foi possível ter acontecido uma decisão tão absurda e, mesmo depois de se ter percebido o erro que se cometeu, continuar a persistir-se nele, e não percebe. 

Imagine-se isto a uma escala muitas mil vezes superior.

Que não haja uma figura acima disto a pôr fora de jogo quem já mostrou não saber jogar e a escolher melhor alternativa é coisa que ainda assusta mais. A rainha? Onde pára a rainha?

A vulnerabilidade dos povos é grande. Deixam-se empurrar, avançam determinadamente em direcção ao abismo e, mesmo que toda a gente veja o triste destino que se avizinha, permanecem incapazes de mudar de rumo. Muito preocupante isto a que o mundo está a assistir.

Mas já estamos no fim de semana e eu, depois de de um dia em parte preenchido por avaliações, eu como avaliada e eu como avaliadora, tudo coisas às quais não acho especial graça e tendo ainda em cima de mim o peso de saber que a parte pior é ainda a que me espera, nomeadamente o ter reuniões destas com algumas figurinhas complicadas, chego aqui, a esta hora, e falta-me vontade para dissertar sobre o tema.

Hoje, ao fim da tarde, alguém  espreitou à minha porta e, do nada, perguntou-me: então agora o que é que vai acontecer depois do que sucedeu hoje? Embrenhada que estava nas minhas coisas, levantei a cabeça, admirada: o quê? Ele disse: isto do brexit. E eu, apesar de admirada, disse: alguma coisa vai acontecer pois não creio que caiam mesmo no caos.  Ele seguiu e eu fiquei a pensar que, se calhar, daqui por algum tempo, vou lembrar-me do meu optimismo inocente.

Não será a primeira vez.
Há uns anos, estávamos numa reunião e um disse que estava preocupado pelo rumo que as coisas estavam a tomar a nível do BES, com o Banco de Portugal a agudizar a crise. Desvalorizei. Ainda vivia naquela tonta ilusão do 'too big to fail'. Lembro-me de ter dito que se o Banco de Portugal continuasse entregue às indefinições daquele que viria a revelar-se o Emplastro-Mor -- o tal que está em todo o lado mas está só por estar, para aparecer, para ser visto, para fazer número -- o Governo haveria de intervir. Não se deixa cair um banco daquele tamanho, sabendo que a sua queda arrastaria a queda de várias empresas, de ânimo leve. E, no entanto, aconteceu. O impensável aconteceu. E, no entanto, apesar da leviandade e incongruência da decisão, tanta gente apoiou, tanta gente ainda acha que foi dado o passo certo. E, no entanto, apesar dos custos brutais que a decisão acarretou e ainda acarreta, ainda há muita gente que não percebeu a dimensão do erro cometido.
São muito manipuláveis, as pessoas. Portanto, vulneráveis.

Mas isto não é tema para fim de semana, bolas. Se é para falarmos de desgraças que são tão estúpidas que até dão vontade de rir, então que entre quem sabe do assunto. E que entre também a Rainha, caraças, que se esta situação não está a pedir um gesto real então não sei qual é que pedirá.


quinta-feira, março 28, 2019

Um post cheio de mistérios



Não vou contar onde estive hoje porque ninguém acreditaria. Se eu não tivesse fotografias nem eu própria acreditaria. Mas não é por não acreditarem que não conto porque se não acreditam, não acreditam, paciência. Não conto porque se, por absurdo, aqui o contasse, o meu marido rifava-me e isso eu também não quero -- a ser rifada que seja por um motivo mais espectacular. Se bem que mais espectacular do que o lugar onde estive não deve ser fácil. 

Comigo acontecem-me coisas assim. Até há dois dias jamais me passaria pela cabeça a possibilidade de ali pôr os pés. Mas é que nem por sombras. E, no entanto, por um insignificante imprevisto, apareceu a possibilidade. Talvez um dia, daqui por tempo razoável, eu o refira, coisa en passant. E tenho a certeza que alguém aparecerá a dizer que é mais uma das minhas fantasias. Mas não: as minhas fantasias não são tão delirantes.


O que sei é que com tal programa de festas consegui vir mais cedo para casa e a coisa foi de tal forma fora de qualquer contexto que, quando cheguei, me apeteceu ir passear. Sentia-me como se estivesse de férias, recém-chegada de um outro planeta. Vim a casa buscar a máquina fotográfica e fui laurear e, de caminho, comer um gelado. Andava com o desejo do gelado atravessado desde domingo e, para a criança não nascer aguada, fui dar-lhe um ice cream a lamber. 

E agora, aqui refastelada, cheia de indolência e uma certa vontadezinha de estar a milhas, por exemplo em Amesterdão ou a passear de comboio pelas margens do Reno, pus-me para aqui a assistir em directo à palhaçada do brexit -- a malta a votar não e não e não e não, oito vezes não, e uns a rirem-se, outros a não acreditarem, outros passados e outros nem aí.


Eu ainda hei-de, um dia, dar-me ao trabalho de perceber para que é que a Rainha serve, para que é que a agremiação dos Lordes serve e o que é que os conservadores e os trabalhistas andam a fazer para se terem ensarilhado mais do que o enredo de linhas dentro da minha caixa da costura. Será que o espírito das comédias britânicas baixou neles todos e a única coisa que já sabem fazer é imitar os Monty Python ou outros que tais?


Tirando isso, estive a ver o livro que comprei para dar à minha mãe. E, depois de lho dar, logo vos conto. Agora não porque seria deselegante para o livro -- porque, se vai ser presente, deve estar é embrulhado e não aqui exposto. O que posso dizer é que acho que ela é capaz de lhe achar graça porque eu também acho.

Mas o facto de eu achar graça a um livro destes também é um daqueles fenómenos do além para o qual não encontro explicação. E a coisa é ainda tão mais bizarra quanto estou cheia de vontade de começar a pôr em prática parte do que ali se ensina. Mas sem fundamentalismos. Há coisas em que sou fundamentalista (mas não posso dizer quais -- e não posso porque agora não me lembro e não me apetece puxar pela cabeça). Mas nisto de que trata o livro não sou. Se fosse, se levasse à risca, isso violentaria a minha natureza e a minha natureza é sagrada. Sou obra dos meus pais e do acaso e das circunstâncias e este mix é um cocktail que merece respeito.


Resumindo (nb: a palavra 'resumindo' aqui está mal aplicada): há um tema sobre o qual gostava de falar, tema da actualidade portuguesa. Mas é tema pesado e eu, sinceramente, não estou para aí virada. Tema pesado não é coisa que se traga para aqui a uma hora destas e, ainda por cima, depois de um dia como o que tive hoje. Tema pesado deve vir envolto em negrume, pegado com pinças, transportado em carreta. Não é, pois, o momento.

Vou mas é curtir uns bailados. E, calma, curtir mas na base da inocência, nada de curtir na base das mocas. E isto a propósito da JV e do P. Rufino que, por eu nunca me ter pedrado, quase me fizeram sentir uma bota-de-elástico do mais cinzento e maçador que há. Mas é verdade: sou. Botinha, mesmo, das cinzentinhas e tudo. Nem erva nem piela. Nunca. Continuo virgem e, cá para mim, assim continuarei. Aliás, sou muito dada a virgindades. Por exemplo, também nunca me corrompi nem corrompi ninguém. Não que sejam coisas comparáveis. Mas pronto. Foi agora o que me ocorreu a propósito de virgindades. Há também um palavrão, um em particular, que nunca disse. Virgem também disso.

Bem. Vou mas é ficar-me por aqui que isto hoje está ainda pior do que é normal.  Que entrem mas é os bailarinos do Nederlands Dans Theater que nunca na vida me vou cansar deles.



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Isabel, hoje deu-me para ir buscar as pinturas de Tawaraya Sotatsu e, como é bom de ver, não têm nada de nada a ver com o que desescrevi. Mas são muito bonitas, não são?

quarta-feira, março 27, 2019

Ângelo in the sky with canábis




Já fui informar-me e já sei onde posso ir deixar os safados dos computadores para saber quanto custa o arranjo. O pior é que, se for muito caro e o arranjo não compensar, tenho que pagar o orçamento na mesma, trinta euros cada. Mas compreende-se, é justo (para quem recebe). Entretanto, estou com computador de empréstimo (se é que assim me posso expressar) e isso, parecendo que não, traz-me de volta a rotina: posso escrever se me apetecer. E apetece-me, claro.

Mas como, depois de ter falado com os meus filhos, me pus na palheta mensagística com a minha filha, a produtividade foi-se-me. É tarde. E dói-me um pouco a dobradiça do braço direito, certamente efeito de ter andado armada em lenhadora no fim de semana.

Enfim.

Como tenho andado um pouco arredada das actualidades, fui agora espreitar o DN. E fui dar de caras com uma notícia que, pela minha reacção instintiva, me fez perceber que há uma zinha preconceituosa encolhida dentro de mim à espera de se poder manifestar. O que vale é que estava sozinha e a minha reacção foi de mim para mim e dela nunca ninguém vai saber.


Como disclaimer, devo dizer que nunca me drunfei, nem por boas nem por más razões. Nem drunfei nem inalei. Sem erva nem sem ser erva. Mas foi por opção racional e não por ideologia, fundamentologia ou parvolhogia. Não senti necessidade, não tive vontade de experimentar e, pelo sim, pelo não, achei que não valia a pena arriscar.


Ou seja, por muito que possa parecer que sou uma santinha do pau oco, a verdade é que pouco tenho a dizer sobre a matéria.

E, se a substância tem propriedades terapêuticas e é bonne pour la santé, pois que desçam todos os santinhos e venham abençoar a mezinha. E amén. E tudo bem.

Mas... se me dá vontade de rir que hei-de eu fazer?

Começo a pensar nesse antigo ministro das inventonas, esse grande aconselhadeiro da nação, todo ele tresandando multi cultura e enxundiosa sabedoria, em tempos cavaquistas um dos mais fecundos ideólogos do regime, mestre na nobre arte de projectar a dentadura em pleno acto de comentar,


a mostrar a sua vasta experiência empresarial por tudo o que é canto e esquina, ex-ilustre padrinho do Láparo e agora entusiasta apoiante e ministro-assombrado de Rio, esse grande líder das mangas de alpaca, ... e, nos entretantos, no resguardo mediático, na moita, a farejar o negócio e a investir na... bela maria joana. 

Perdoem-me a extroversão mas tenho que soltar um ruidoso ahahahaha. Acho o máximo. Mil lois. (lois = plural de LOL)

O fundador do PSD, ex ministro da Administração Interna, em tempos considerado mentor de Passos Coelho e agora "ministro sombra" de Rio para a defesa confirmou ao DN ter adquirido 40% da Terra Verde, a primeira empresa a obter licença de produção de canábis em Portugal. O empresário reconhece que até há pouco tempo "canábis para mim era dos tipos que fumavam droga."
A canábis para mim era dos tipos que fumavam droga. Isto é um novo mundo que nós desconhecíamos. Esta planta tem um sem-número de aplicações e em termos de saúde e esta indústria é das mais promissoras em termos mundiais." [...]
E é assim que o ex-Cabo Angel, o célebre autor da primeira inventona dos tempos pós 25 abrilistas, esse valentão que imaginou perigosos atentados a partir de uma mão cheia de pregos espalhados no chão, esse tal que, qual barriga de aluguer, anos mais tarde haveria de parir o láparo de má memória, vai agora dedicar-se ao negócio da erva. 

Com notícias destas ainda tenho esperança de que não tenhaEmos batido no fundo. nquanto tivermos empreendedores destes ainda há esperança. Só falta mesmo a gente saber que o Relvas é sócio dele. A Terra Verde como testa de ferro do verdadeiro dono, a Relvas Angelicais, sociedade anónima e ilimitada.

Muito bom. It made my day.


E, a sério, façam de conta que não topam a milhas que rebento de preconceitos pelas costuras. E perguntem-me bem alto: que mal tem o Cabo Angel ter olho para o negócio?

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Sergei e a fama vem já a seguir para espairecermos a nossa pobre soul.

(nisto da soul ser pobre falo por mim, claro)

Sergei e a fama


Depois de tudo o que faz, proscrito, rejeitado, odiado, eis que Sergei ressurge para enternecer quem o vê. E podemos vê-lo enternecido com os outros, a dar uma aula de dança a meninas, a dar um beijinho no ombro do seu par. E podemos vê-lo nos seus saltos alados, com o seu sorriso bonito, com o seu corpo perfeito.

Dirão os cínicos que é o agente a tentar reparar os estragos na sua imagem. Pode ser. Mas nada anula ou diminui o prazer de vermos a sua surpreendente leveza e força, a musicalidade dos seus movimentos, a sua arte, a sua intemporalidade.

Escolheu o Remember my name para dançar 
e eu -- e certamente muito mais pessoas -- não o esquecerão


terça-feira, março 26, 2019

Uma explicação


Bem, isto hoje é mesmo para esquecer. Já aqui o tinha referido. O meu marido um dia deixou cair o meu portátil. Quando me zanguei com ele, zangou-se ele comigo, que a culpada tinha sido eu por deixar o computador ali. Ali e em todo o lado. Mas ele já não estava bom. Ele, o computador. Já, antes, o tinha deixado cair, repescando-o pelo monitor que se ia desconjuntando. Portanto, por um cúmulo de situações, a tomada ficou bamba, deixou de carregar, a imagem deixou de ser vista. Acabei por aceitar. Finou-se. Deitei mão a um pesadão, pré-histórico, que não era usado há anos. Refiro-me a um computador, claro. Outro. Velho, velho. A pedal, a pedal, a pedal. Mas pronto, esperar o quê de um velho? Mas hoje a mesma cena. Quando o liguei, a mesma coisa: o écrã às escuras. Nada de nada de coisa nenhuma. Tentei, retentei. Nada. Pensei, desolada: mais um que se finou. Há que aceitar, é a lei da vida.

Até que, aqui a carpir em silêncio, me lembrei de um pequenino, mignon, coisinha fofa. Há mil anos recebi de presente um bombom em forma de computadorzinho. Uma coisa que não era lá muito compatível com a velocidade das minhas mãos. A ideia era usá-lo ao fim de semana. Mas poupadinha como sou, ultrapassei as secas que apanhava com ele (ele, o computador) respirando fundo e a coisa foi sendo tolerada. Até que lhe deu a travadinha. A tomada só fazia efeito numa certa posição e, pior, não carregava a bateria. Por isso, ao mínimo toque a coisa descontinuava-se e tinha que recomeçar. Mas, paciente e eco-resiliente que sou, guardei para um just in case.

Foi hoje. À míngua de alternativas, fui buscar o bichinho. O meu marido olhou e não reconheceu. De facto, até pela cor, nem parece um computador mesmo que zinhoO que é isso?!  Relembrei-o.

Está aqui, coxinho, aos tropeços -- e continuo a falar de um computador --, todo desactualizado, a procurar actualizações de tudo e mais alguma coisa, sem instalar nada, todo ensarilhado. Nem tuge nem muge. Bichinho pequenino, velhinho, ceguinho, atarantadinho. E, como é bom de ver, continuo a falar do computador.

Mas já desisti. Enquanto o pobrezinho patina, tentando pôr a cabeça fora de água, aqui imobilizado na marquesa, indo-se abaixo a cada insignificante toque, resolvi desistir. Contra factos não há argumentos. O mundo está a conspirar contra mim. Não quer que eu blogue. Mas eu sou dura na queda. Não caço com cão, caço com gato. Não caço com gato, caço com rato. Não caço com rato, caço com formiga velha e pastelona.

Devia falar do último episódio do brexit mas um romance daqueles, com tão grande cordel, merece dedos soltos sobre teclado a sério, não isto de dedo a picar letrinha-inha virtual zinha no telemóvel. Portanto, sem responder a comentários, sem juntar figurinha ou musiquinha, isto hoje é mesmo só na base desta indigência, apenas a explicação para o facto de não ser. Conto, claro, com a vossa caridade.

(E se isto vos soa a modéstia zinha demais para o que é costume, pois saibam que a razão está convosco. Inhas e zinhas não fazem bem o meu género mas sinto-me tão limitada que me dá para me sentir piquinininha e impotentezinha.)

E acho que nada mais tenho a dizer. Só que vou ter que encarar de frente este sério assunto. Ou isso, ou volto a aprender a escrever à mão e passo a escrever palermices só para mim. Ou vou dedicar-me a sério aos tapetes de arraiolos. Ou vou aprender grego. Do bom, do clássico. Ou isso ou aprendo a ir dormir a horas decentes.

segunda-feira, março 25, 2019

Um dia in heaven
[E uma noite a preparar a semana que já aí está --- e um casal muito especial que vive em montanhas diferentes]





Às sete e tal da manhã uma mensagem. Tinha deixado o telemóvel a carregar na sala. Já estava sozinha na cama. Durmo com um madrugador. Já andaria nos seus passeios por entre arvoredos e orvalhos matinais, quando os verdes ainda estão azulados pela frescura da noite. Levantei-me, ensonada, para saber o que seria àquela imprópria hora da manhã. Desde que troquei de telemóvel comecei a habituar-me ao convívio com um ser inteligente e pespineta, cheio de opiniões mesmo que a despropósito. Era o caso: não era uma sms mas uma notificação. Dizia-me qual a temperatura e a humidade relativa do local. Só me apeteceu mandá-lo bugiar mas consegui não descer a esse ponto. Deixei-o lá e voltei para a cama. Soube-me tão bem, a cama quentinha e eu ainda com tempo para dormir. Enrosquei-me e foi até às dez. Acordei a ouvir lá fora o som da escada. Era ele a entrar em casa e a arrumá-la. Pensei que já devia ter desramado os dois cedros gigantes que tinham sobrado da véspera. Levantei-me. Fui ver. Era. O chão estava forrado com uma densa e perfumada manta de ramos de cedro. 

Ali mais à frente, eram ramos de azinheira. No sábado, ao fim do dia, tinha andado a alguns metros de altura, com o serrote na ponta, a serrar os ramos grandes que estavam a vergar na direcção do telhado do estúdio. Pensei que não fosse conseguir mas conseguiu. Cá em baixo, muitos ramos enormes. 

Mais longe, grandes ramos de pinheiro que, ali no chão, quase pareciam pinheiros autónomos.


Voltei para casa, lavei-me, vesti-me ao de leve, comi uma banana, uma laranja, meia dúzia de miolos de amêndoas, bebi um café e parti para a luta. O meu marido arrastava os grandes ramos lá para baixo. Peguei no serrote que já pouco corta e fui cortar mais ramos de pinheiro, de azinheira e aroeira. Uma luta.

O José Ferreira Marques recomenda uma serra eléctrica de bateria. No outra dia à noite fomos ao Leroy e vimos lá uma delas mas é daquelas de corrente e o meu marido tem uma cisma com correntes. Temos uma. Melhor: duas. Uma a gasolina e outra eléctrica. Ambas de mão, não destas telescópicas. Em ambas, ao fim de minutos a corrente solta-se. Não posso ajudar: aparelhos eléctricos desse género não são a minha praia. Podendo parecer que não, a verdade é que tenho um acentuado lado feminino. (Se calhar, dizendo isto, torno-me machista). Mas as coisas são o que são. Tal como nunca atinei com mudança de pneu ou lavagem de carro na bomba automática, também não me dá para pegar em rebarbadoras, roçadoras, berbequins ou serras eléctricas. Quando o vejo passado a tentar pôr a corrente à volta da lança, tento ajudar. Mas, de facto, não consigo. Aquilo ali é um karma. Não se percebe como há tanta gente que se ajeita com uma serra eléctrica e nós é isto, uma tremenda falta de pouca sorte. (Ou isso ou falta de jeito).


Gosto de desbastar árvores. Olho para elas e vejo o que está a mais. Não podendo cortar fartas cabeleireiras de mulher, coisa que tanto gosto de fazer, limito-me ao escasso cabelo do meu marido e às minhas bem amadas árvores.

Depois fui também carregar os ramos, os que eu tinha cortado e os que ele tinha cortado. Os ramos mais pesados são os de cedro. Pesam toneladas. Verdes, densos, com aquelas bolas que adivinho cheias de sementes, pesadas. A distância é grande e eu esgoto-me a puxar aqueles pesadelos. 

Lá ao fundo, o meu marido fazia a fogueira (autorizada, sacramentada). Não se imagina o braseiro forte, não se imagina a força do calor do inferno que dali se solta. Mas o lustro, o brilho de óleo que refulge quando a chama lambe os ramos do pinheiro radiata é o mais surpreendente. Bonito. A azinheira crepita, a aroeira frige, o cedro inflama. Mas o pinheiro derrete primeiro a sua essência. É um instante bonito e breve. Logo será nada. Um imenso mar de ramagens fica reduzido a um insignificante montinho de cinza. E só isto deveria ser suficiente para nos reduzirmos à nossa insignificância.


O meu marido disse que, de manhã, enquanto comia uma maçã, se pôs a contar os ramos que cortou do cedro grande e que pensa que foram pelo menos cinquenta. Ninguém imagina o quanto temos reduzido as ramagens das árvores. Os técnicos florestais chamam-lhe combustível e eu, que sou sensível às palavras, assusto-me e corto o que posso.

Mas, com tudo isto, apenas almoçámos às duas e tal. De tarde, adormecemos. Mas antes e depois estivemos a ler uns livros incomuns, mas mesmo muito incomuns, sobre história, arquitectura e tudo o que se possa imaginar em torno disso. Foi um amigo que me emprestou, antevendo que eu iria gostar. O autor é senhor de muita cultura e muito humor.  De facto, há pessoas extraordinárias e uma pessoa que se põe a escrever livros daqueles só pode ter uma personalidade invulgar. Num dos livros fala muito do nosso primo presidente. Era primo da minha bisavó. A minha avó, que o designava assim quando falava no primo Manel e eu lhe perguntava qual era esse, lembrava-se de ele ter sido recebido na cidade em grande festa e de, ao passar por elas, a ter puxado por um braço e a ter levado a cavalo com ele. Era pequena, claro.


Andei também a fotografar, dentro e fora de casa. Reflexos nos vidros, relances, uma rola pensativa. Também uma das pequenas estantes com dvd's. Houve uma altura em que víamos muitos filmes quando lá estávamos. Uns eram comprados, outros vinham com os jornais, outros nem sei. Olho para eles e, em relação a alguns, tenho dúvidas que os tivesse comprado. Mas a vida é assim mesmo, com curvas, desvios, alçapões. E tudo bem. E vejo que um dos miúdos riscou o banquinho amarelo. E vejo também que as aranhas estiveram entretidas a tecer entre os pés do que foi a máquina de costura de uma das minhas avós e que agora é uma mesa com tampo de azulejos. E só agora o vi pelo que ainda lá ficaram. Para a semana as teias estarão mais compostas. 

Bem. De volta à cidade, vinha de desejos de um gelado. Ao domingo à noite fico de desejos, em especial de kumkuat ou gianduja. Juraria que não estou grávida, que isto é só gula. Mas já era quase oito da noite, a gelataria estava desgraçadamente fechada. Uma carência. Ainda estou assim, de apetites. Não está certo, não se nega um desejo a quem muito o deseja.


Cá em casa já fiz uma máquina de roupa, uma panela de sopa, um tachinho de papas de aveia para o pequeno almoço de amanhã, um tabuleiro de lombinhos de porco no forno. E já pintei as unhas e já arrumei roupas e etc. E sei lá que mais.

Há bocado concluímos que temos trabalhado que nem uns mouros. Pensei e disse-lhe: 'um dia que a gente se reforme, temos que descobrir coisas que fazer para nos mantermos ocupados'. Ele disse que eu sou é maluca, que é justamente ao contrário, que espera é que nessa altura consiga tempo para descansar.

Se calhar tem razão. Mas eu gosto de fazer coisas, não me imagino sem ter o que fazer.

Bem. É tarde e já escrevi demais. Uma parladeira, é o que sou. Mas só a escrever. Ao vivo, sou contida.

É verdade: ontem enganei-me. Não eram flores de marmeleiro, eram de pereira. Hoje quando estava ao lado da pereira, fui cheirar as florzinhas e pensei: 'olha que burra, então ontem fotografei as flores e fui confundi-las com as outras.'. Fica a correcção.

Também, a propósito de falos, fotografei a antes erecta flor do aloé. Agora está como aqui abaixo de vê, murcha. É a vida. Daqui por uns meses volta-lhe o vigor. Dir-se-á que meses de intervalo não é grande performance. Mas, como dizia o outro, é a vida.


E agora permitam que partilhe um vídeo muito bonito. Um estilo de vida que me atrai. A paz do campo e das montanhas envolve a alma e eu cada vez preciso mais disso.


Uma boa semana, a começar já esta segunda-feira.

domingo, março 24, 2019

Post entre o fálico e o angelical





Almoçámos todos e, enquanto comeram, os meninos estiveram relativamente sossegados. O bebé come de tudo e gosta de fazer misturadas. Hoje misturou sumo de laranja na gyoza, nos noodles com frango, no pão chinês com carne e mel e no crepe vietnamita e continuou a comer de gosto. Os irmãos e primos comem mais que eu. São auto suficientes e têm um apetite voraz. À medida que cada travessa chega logo eles se atiram e, em segundos, a travessa fica vazia. 

O pior é que, mal acabam de comer, começam a conversar; daí a coisa evolui para ensinarem umas coisas uns aos outros e, sem darmos como, quando olhamos, já eles estão a fazer das deles. Hoje juntaram algumas cadeiras, tiraram os sapatos e, ali mesmo, usando os tampos das cadeiras, praticaram técnicas de judo. O bebé mal viu, quis sair da cadeirinha, depois quis tirar os ténis e também quis ir para lá. Um dos primos içou-o e ficou o bando dos cinco completo. Ela alinha, anda com os rapazes mas marca a diferença, não se mistura naquelas maluqueiras.Tinha um livro novo, com cheiros, e, no meio da maior confusão, pôs-se a ler.


No fim, depois de termos estado com eles no jardim ao sol e de os vermos a brincar,  concluímos os dois que as crianças já comem como gente grande e que cada vez é mais difícil perceber as quantidades necessárias. O meu marido acha que temos que nos precaver e contar com muito mais comida, senão fica a sensação de que foi quase à tangente.

Depois, voltámos à nossa labuta. Para salvar árvores, desbastamo-las até bem alto e até que as copas fiquem bem afastadas. Mas o serrote que está na ponta do cabo já está passado, já não corta nada. O meu marido trouxe um serrote novo para trocar mas acho que não conseguiu, não sei bem porquê. Não sei como é que ele, empoleirado lá no alto da escada, conseguiu serrar tantos ramos com aquele serrote. Eu, com o serrote pequeno, tentei serrar alguns ramos mais baixos ou serrar em troncos pequenos os ramos gigantes de cedro que ele cortou. Mas mal consegui. A madeira de cedro é muito dura e meio húmida. Vi-me grega. Esforcei-me, esforcei-me mas os resultados ficaram aquém do que o meu esforço indiciaria.


E fotografei as coisinhas dos pinheiros, pequenos falos com as suas pequenas glandes rosadas. Vultosinhos fálicos que contrastam com as flores angelicais e perfeitas dos marmeleiros.

Com os dedos abri um daqueles espigões peludos. É verde e húmido por dentro. E cheira tão bem, aquele cheiro bom a pinus de que eu tanto gosto. Peguei entre os dedos e fotografei.


Depois, já de noite, comecei a arrastar os ramos lá para baixo mas o meu marido chamou-me, aborreceu-se, não quer que eu ande lá por baixo sozinha. Mas eu gosto de andar na penumbra. E há perfumes diferentes de noite, perfumes mais intensos. E há sons misteriosos. E as árvores, à noite, são vultos que guardam enigmas. E eu gosto. Mas ele chama-me, fica zangado, não quer, não me vê, chama-me e eu não respondo porque estou longe, mal ouço e percebo que não tenho potência vocal para me fazer ouvir. Mas, assim, a ouvir chamar ao longe por mim, perco a vontade de andar devagarinho, sozinha nos caminhos escuros, confundindo-me com as sombras crepusculares da natureza.

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Ando com alguma dificuldade em dar nomes aos posts. Não planeio, as palavras deslizam para o ecrã e vêm ao fluir da  coisa, nem dou conta, nem sei bem que é isto que vou escrevendo. Sei que falo de muita coisa diferente e, na hora de resumir, não há denominador comum, ponto de intersecção. Por vezes há ponto de fuga e é ele que eu agarro para pôr no altarzinho. Agora, se não há, fico sem saber. Se calhar vou falar na pilinha do pinheiro. E digo pilinha por simplificação porque os ramos cortados tinham várias, deveria dizer 'pilinhas'. E, para dizer a verdade, a palavra tem um i e um l a mais. A palavra certa deveria ser 'pinha'. Mas como o processo foi interrompido e daqui nunca há-de nascer uma pinha prefiro fazer de conta que sou dada aos erotismos e chamar-lhe pilinha. Também quem manda ter aquela cabecinha cor de rosa na ponta, não é? E pronto, para contrabalançar, vou pôr no título as florzinhas inocentes dos marmeleiros. Dali nascerão marmelos e aí haverá mentes maldosas que poderão estabelecer conotações. Mas eu não, eu fico-me pela sua beleza angelical para ver se catequisam aquelas coisinhas que parecem dadas ao pecado.

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As anedotas e os cartazes com o tempero do humor britânico estão já aqui abaixo e, claro está, têm a ver com a anedota do Brexit.

O humor britânico ao serviço do Brexit



Sempre apreciei imenso o divertido fair play britânico e sempre fui entusiasta admiradora das séries de humor que passavam na televisão. 


Agora só não sinto falta disso porque a realidade inglesa ultrapassa a ficção e, em consciência, apenas me coibo um bocado de dizer que tudo aquilo a que se assiste -- por parte da enfarilhada Theresa May que não atina nem por mais uma e pelo tatibitate Corbyn que não foi capaz de se decidir sobre o lado para o qual cair, não dançando nem saindo da pista -- é de gargalhada porque começo a pensar que, por incrível que se possa pensar, ainda há o risco de se atirarem mesmo para o precipício.


Toda esta peripécia do Brexit mostra bem como, impensadamente, na maior ligeireza, um povo pode tomar uma decisão parva e, com isso, se pode não apenas ridicularizar perante o mundo como, sobretudo, pôr o reino em sério risco de grave e descontrolada convulsão social e económica -- e, mais: sem que a Rainha se mexa.


Se a monarquia é isto, então vou ali e já venho. Perante o carnaval macaco com que o poder britânico brinda o mundo, da realeza nem um pio.

Continuam a aguardar a chegada de mais um bebé real,  certamente tremendo que o desbocado pai ou a pérfida irmã de Meghan saiam de novo à cena, e continuam com as suas visitinhas, a Rainha com as suas toilettes coloridas e os seus adoráveis chapelinhos, Kate sempre elegante e sorridente, os príncipes sempre simpáticos como a sua simpática e eterna mãe e o eterno-putativo rei Carlos com a sua bem amada Camilla de férias, ambos sempre naquela boa onda, fotografados em fato de banho, numa praia nas Caraíbas.

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Hoje, quando passei os olhos pelo DN, tive esperança que, por ser sábado, a crónica do grande Ferreira Fernandes estivesse aberta. E fui lendo:

Conhecem a última anedota do Brexit?


Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

No Brexit rir não é o melhor remédio. É o único remédio. Ah, como seria lindo ver o John Cleese, de chapéu de coco, casaco e colete escuros, calças cinzentas - enfim, um funcionário british como já não os há - e com aquele andar de quem trabalha no Ministério dos Passos Esquisitos! Bastaria um dos brilhantes e bizarros Monty Python andar atrás de Theresa May, nas tristes e bizarras andanças dela nos últimos três anos, para se confirmar que o programa inteiro da política inglesa são passos esquisitos. (...)

[E a partir daqui só com assinatura que não tenho. ]

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E, portanto, à falta da crónica completa do FF e à falta dos Monty Python ou do Little Britain, tenho que me contentar com imagens da mega manif deste sábado em Londres:

Put it to the people














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You shall not pass, Brexit




E ti-jaei

sábado, março 23, 2019

Noite de sono profundo depois de um longo dia no país profundo





Não foi dos dias piores. Madruguei e isso não é bom e fui eu que conduzi e isso também não é das melhores coisas. Mas, por junto, não devo ter feito mais que trezentos quilómetros, talvez um pouco mais, não sei bem, e isso não foi mau de todo. E andei pelo país profundo e os campos estão lindos e isso só pode ser muito bom. Que tenha estado sentada tempo demais não posso dizer que é coisa que se deseje. Mas, enquanto orei, por sinal palavras muito profanas, estive de pé e isso foi bom. E o almoço também se comeu, não dos melhores que lá comi mas, ainda assim, bom. E a companhia não foi das piores e isso também foi bom. 

Mas ainda fui a casa dos meus pais antes de regressar à minha e isso sendo já noite -- e estar lá e vê-los é sempre bom mas, depois de um longo dia é bom mas, quando vinha de lá, cansada, cansada, e liguei para casa reparei que vinha a cento e nove e disse isso e o meu marido ficou admirado, perguntou porquê e eu expliquei que nem tinha dado por nada porque vinha ao ritmo do meu baixo biorritmo e ele disse que tivesse juízo e que viesse mais depressa. E eu tentei e fui aos cento e vinte e cinco mas passado uns instantes reparei que já vinha outra vez a pisar ovos. 

Depois resolvemos ir até à praia comer um peixinho grelhado mas nem quis passear à beira mar nem nada. E depois cheguei aqui e reclinei-me. Horas demais. Daqui a nada quase há vinte e quatro horas.


No durante, espreitei os comentários. Li apreço pelo que escrevi ontem. Espantei-me Não me lembrava do que tinha exactamente sido. Lembrava-me que estava quase a dormir e que queria a palavra certa, a palavra única, a palavra que não desvirtuasse o sentido, e não queria ruído em torno da minha demanda, queria silêncio, nada que perturbasse a limpidez elementar do sentimento, talvez amor, talvez saudade. E o azul em cristal. A fragilidade das lâminhas em blue, flores desfolhadas, água pura. Mas não me lembrava exactamente de como o tinha dito. E um comentário. Quando vejo os comentários à espera de moderação, só vejo o princípio. Não vi o autor. Li e pensei: fui eu que escrevi isto, alguém está a transcrever o meu dito. Mas aquilo seria conversa de outro dia, conversa minha mas não de ontem. Agora fui ler outra vez. Fui até ao fim até perceber que não tinha sido eu, tinha sido a JV. E sorri. Podiam ser minhas aquelas palavras. Li-as como se as estivesse a reconhecer. Aquela menina é tão parecida comigo. E antes tinha lido o poema de Drummond de Andrade a pensar, ena que justeza de palavras, tão a descrever isto de as palavras andarem à procura dos dedos, alminhas perdidas à procura do aconchego das mãos. E a Isabel, sempre tão querida, sempre tão directa e clara, sempre tão amável, sempre com gostos próximos dos meus, e eu sempre a pensar que uma pessoa assim deve ser um bálsamo para quem com ela convive regularmente. E a Maria a referir que o azul é a cor mais quente, e é verdade, especialmente quando vem com flores amarelas no colo, mas é preciso perceber que o calor do azul tem dias e o de ontem não era quente, era gelado, feito de pétalas de cristal celeste.


E agora estou aqui, adormecida, enquanto na televisão uns casais em lingerie, sentados numa cama, fazem conversas de sedução ou tímida aproximação. Estou praticamente a dormir e não consigo prestar-lhes grande atenção mas falam em italiano e isso é uma boa música de fundo. O italiano é a língua do amor doce, do amor ternurento. Também pode ser do amor secreto. O francês é mais do amor provocante, do amor que prefiro, mal comportado. O português só é língua de amor se for em meias palavras, sussurradas. Penso: seria eu capaz de participar numa coisa assim? Agora não, nem pensar. Pelo menos para um programa de televisão. E também não em lingerie. Acho eu. Mas, se estivesse desemparelhada e com vontade de ter companhia, não me chocaria uma experiência assim. Mas estar a ser filmada, não. Tirando a filmagem, parece-me razoável. Acredito na empatia ao primeiro olhar, acredito na atracção instantânea, acredito na força irresistível de um beijo que se quer dar, acredito que é um desperdício de vida não ceder a impulsos e a intuições. 


Isabel, estas pinturas hoje são de Gino Severini e são coloridas mas aos pontinhos para serem como eu estou agora, a meio gás. E convidei Denis Matsuev para aqui nos trazer Chopin e ele veio e trouxe a Balada Nº 4

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Um belo sábado. Be happy.