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domingo, maio 24, 2026

Ainda não faço ideia

 

Sábado animado, a começar com uma ida ao mercado comprar peixe de mar. O meu filho gosta de fazer grelhados, ofereceu-se para tratar do assunto. Com o calor que está, se eu pedisse isso ao meu marido, mandava-me passear ou dizia que fosse eu destilar. Mas o meu filho gosta, e domina a arte do fogo. Sabe atear as brasas, sabe colocar o peixe no momento certo, sabe o momento de retirar. 

E o peixe, que era gigante, estava fresquíssimo, ainda com aquela goma de quem foi apanhado há pouco, cheio de sangue, todo ele feito de mar. Fez-me lembrar quando amanhava o peixe das pescarias do meu avô ou do meu pai, durante o período em que ele resolveu ser pescador (amador, à linha).

Mas, claro, o menino mais novo protestou, quase amuou. E o seguinte também torceu a cara. Preferem carne. Além do mais, lá na praça, pedi para não escamarem para que a pele não se pegasse à grelha, e um deles gosta de comer a pele do peixe. Um outro diz que gostou mas não sei se não estava apenas a querer simpático pois não o vi a repetir e a comer com o mesmo entusiasmo de quando é entrecosto, bolonhesa ou cozido à portuguesa. A menina gostou. E o mais velho não compareceu, foi passar o fim de semana com amigos para festejar um aniversário.

De resto, o tempo anda estranho. Depois da subida a pique das temperaturas, à tarde o céu toldou, estava até húmido. Quente mas húmido.

De manhã o meu marido viu um pássaro quase sem conseguir andar. Conseguiu que ele fosse para o lado da horta, estaria mais a salvo. Mas, quando me contou, pensei que, se calhar, deveria ter dado água ao bichinho. Com estes calores, se calhar desidratam-se. Mas ainda bem que o cão não estava por perto, senão ia haver confusão. Nem quero pensar.

Estas flutuações de tempo parece que não estão a fazer-me muito bem. A noite passada tive uma insónia. Não sei porquê. De vez em quando, talvez uma noite de quinze em quinze dias, não sei, quase não durmo. E, quando quase não durmo, levanto-me com dores musculares. 

Poderia pensar: é a idade, a p... da idade. Mas gosto de ir ao fundo do problema: o que se passa no meu organismo para, de vez em quando, o sono se desregular? E o que se passa no meu corpo para, quase sempre que mal durmo, me levantar com dores no corpo? Já fui à consulta da IA e o ChatGPT e o Gemini são unânimes pelo que já sei que devo tentar que me prescrevam algumas análises para ver se não estou para aqui com magnésio a menos ou ferro a mais. O corpo humano é uma fábrica que requer condução cuidada, cautelosa afinação de parâmetros.

Quero ver se não me deito muito tarde pois a privação de sono notoriamente destrambelha-me para aqui qualquer coisa. Depois de passar uma vida inteira a dormir pouco e a andar sempre nas horas, fresca como uma alface, agora, de vez em quando é isto, um vidrinho.

E estava há pouco a espreitar o youtube quando me apareceu o vídeo abaixo. Parecia-me a Maria João Pires e fui logo ver, com curiosidade. Afinal não é. Mas é uma mulher com piada. Quatro casamentos e nenhum deu certo. E a graça e a objectividade com que fala disso... E fala de outra coisa, essa em que me revejo. Diz que ao fim de muitos anos, organizaram um fim de semana de reencontro de colegas de escola. E que a atenção que agora dedicam umas às outras é muito diferente de quando eram miúdas em que sabiam lá se alguma passava fome ou se tinha problemas em casa. Também comigo acontece não ter a mínima ideia de quem eram aquelas pessoas, quando andávamos na escola. Talvez por ser míope, habituei-me a não me pôr a olhar para as pessoas pois parece até coisa de mau gosto. Portanto, não vejo, passo ao lado. Depois, sou despassarada, distraída, interesso-me por algumas coisas, ignoro as demais. Acresce que, nessa altura, andava sempre apaixonada ou a gerir diferentes paixões. Pouco tempo me sobrava. Tinha o meu grupo de amigas e amigos com quem andava sempre no laré e em festas e idas ao cinema e à praia, e o resto era um vasto grupo de pessoas que por ali andava. Agora tenho curiosidade, sinto simpatia.

Partilho, pois, o vídeo. Dá para escolher legendas em português. (E vejam lá se, assim de repente, não parece a Maria João Pires)

Ainda não faço ideia

Reflections of Life

Passamos grande parte da nossa vida na esperança de que um dia saberemos finalmente exatamente o que estamos a fazer. Que chegaremos a alguma resposta clara e definitiva. Mas talvez parte de ser humano seja aprender a viver com serenidade dentro da incerteza.

Há momentos em que a vida nos pede para olharmos honestamente para nós próprios, para os padrões que repetimos, as histórias que carregamos e os momentos em que nos perdemos demasiado no nosso próprio mundo. Pode ser um trabalho desconfortável, mas também pode abrir as portas a novas perspetivas, em qualquer idade.

Talvez a sabedoria não esteja em ter todas as respostas. Talvez esteja simplesmente em mantermo-nos abertos, prestar atenção e questionar qual a melhor forma de utilizar o tempo que temos. Para nós próprios, uns para os outros e para a pequena parte que cada um desempenha no todo maior.

Com Célia Beaumont. Filmado em Mossel Bay, África do Sul.


Desejo-vos um belo dia de domingo

segunda-feira, maio 30, 2022

Apanhá-los quase à mão

 

O domingo foi de descanso. Dormi até vir a mulher da fava-rica. Depois foram as coisas das quais não reza a história: lavar e estender roupa, descobrir uma coisa aqui e outra ali (coisa que, qual pós vendaval, sempre acontece quando a malta miúda por aqui passa -- e, desta vez, até a televisão da sala de cima mudou de sítio), fazer uma caminhada, falar com a minha mãe, fotografar as flores do jardim, ver qual a melhor maneira de pôr as grinaldas solares. Coisas assim.

O almoço foi o resto da caldeirada, agora ainda mais saborosa e apurada que na véspera. Depois, viemos para a sala. Ele ligou a televisão e eu a Netflix para ver a nova temporada da Grace & Frankie. Mas, ao fim de algum tempo, comecei a baquear. Como tudo, quando há um interregno, o que vem a seguir sabe a déjà-vu com a agravante de aqui não se aplicar aquilo de estar melhor porque 'mais apurado'. Talvez por isso, a tarefa de me manter acordada revelou-se de difícil consecução. Tentei resistir mas não fui bem sucedida. Acordei com a fera felpuda que ladrava. Acordei eu e acordou o meu marido. Moles que só visto. Não faço ideia de quanto tempo durou a sesta mas a verdade é que acordámos meio zombies. Fomos fazer outras coisas mas o tempo cinzento e abafado não ajudou. Fomos lá para fora e sentámo-nos nos dois cadeirões de onde se vê todo o jardim e que ficam num recanto bem acolhedor. Mas continuávamos moles. Presumo que tenha dormido meia hora ou mais para estar assim.

Resolvemos, então, ir andar para a praia. Levei um corta-vento pois o tempo estava incerto. 

Antes de chegarmos, o urso peludo começa sempre a dar sinais de impaciência. Com a nossa boxer acontecia o mesmo. Pressentem que estamos a chegar a lugar de seu agrado e, tal como as crianças que perguntam de minuto a minuto se estamos quase a chegar, assim os canitos. Cheira-lhes a praia e não vêem a hora de chegar.

Gosto do mar em dias assim. Estupidamente esqueci-me da máquina fotográfica. Estas fotografias foram feitas com o telemóvel.

Gaivotas a refrescarem-se à beira de água. Fomos até mesmo ao pé delas. A fera impassível. Olha, certamente tentando perceber que animal é aquele que anda com as patas na água e que, de vez em quando, levanta voo. Olha mas nada do que vê o tira do sério. Quem o viu feito parvo com uma menina no nosso jardim e quem o vê agora indiferente a tudo, apenas entregue à curtição do momento... Nem parece o mesmo.

Entretanto, vi uns pescadores num pontão e, ao fotografá-los, reparei num rapaz alto que, com a cana da pesca na mão, entrava na água. Calçado e tudo. Ficou com a água pela cintura.

Ao andarmos no areal vimos uns quantos robalos aos saltos. O meu marido disse: 'se calhar são peixes que aquele ali apanhou'. Pensei que seria pouco provável pois tinha-o visto entrar e sair da água mas há pouco tempo, enquanto fotografava.

No entanto, ao estarmos intrigados com aquilo, vimos que o rapaz estava, uma vez mais, a sair da água. E reparei que vinha mais um peixe a saltar na ponta da corda.

De facto, dirigiu-se ao lugar onde os outros robalos saltavam e deixou ficar mais um. 

E voltou a entrar na água. E nós continuámos. Mas intrigados com aquilo. Até sugeri que o meu marido passasse a dedicar-se à pesca. Ia um bocadinho até à praia e regressava carregado de robalos. O meu marido disse: 'Há anos que andas a querer isso.' Protestei. Não me lembro de alguma vez ter sugerido isso. Ele diz que sim. Depois condescendeu: 'Talvez nos últimos anos não tenhas dito. Mas já disseste.'. Nestas situações, não vale a pena a gente fazer braço de ferro. Observei apenas: 'Não sei. Mas tenho quase a  certeza que nos últimos cem anos não disse'. E ele também já não disse nada.

Mas eu estava deveras intrigada pois não vi o rapaz a pôr isco no anzol. Aliás, nem devia ir a pensar apanhar aquilo tudo pois, pelos vistos, nem tinha onde pôr o peixe.

Continuámos o nosso passeio. Na volta, voltámos a vê-lo. Vinha a sair da praia. Vinha uma rapariga com ele, com um saco de plástico na mão. Talvez levasse lá os peixes. O rapaz trazia um robalo grande na mão, bicho para uns dois ou três quilos. Parecia um daqueles caçadores que andam com os coelhos ou os patos à ilharga. Um casal que ia a passar abeirou-se e pareceu-me que logo ali estavam a mercadejar. 

Pensámos que também poderíamos ir transaccionar um daqueles peixes para levar para a janta. Mais fresco não poderia haver. Eu disse, quase me lambendo por antecipação: 'Grelhadinho...' Mas o meu marido disse: 'Sim, deveria ser bom. O problema é o trabalho que ia dar'. Concordei: 'Ia, não ia...?'. E seguimos viagem. A brisa fresca do mar tinha-nos feito bem, estávamos mais frescos mas não a ponto de nos irmos pôr a atear fogareiros.

E foi isto. Um dia tranquilo, portanto.

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E, façam-me o favor, queiram descer até ao post abaixo. 

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Confiança. Força. Melhores dias. Paz.

domingo, maio 29, 2022

Dia de caldeirada

 

Por volta das dez da manhã já estavam a chegar mensagens com enormes cabeças de peixe. Depois via-se um grande atum. Pelo menos foi o que ela escreveu na mensagem.

Depois a minha mãe e eles junto a uma bancada cheia de peixe. 

[O mais pequeno, depois, ao enunciar os peixes que tinham trazido, referiu 'serafim'. Espanto de quem ouviu. 'Serafim?!'. A mãe corrigiu: 'Deve estar a falar do safio'.]

Foi a minha menininha, também dada às reportagens fotográficas, que deu testemunho da incursão familiar no mercado. Tinham ido buscar a bisa e tinham ido juntos comprar o peixe. 

Na bancada da minha cozinha já estava o tacho grande à espera, aquele de que já nem me lembrava bem. Estava na prateleira de cima da despensa, onde a minha vista nem alcança. O meu marido já o tinha tirado lá das alturas e já o tinha lavado.

Pus-me a descascar batatas, três quilos. Depois, antes que chegassem, lavei os morangos e os alperces. A seguir, coloquei na cuba do lava-louça cebolas, umas seis ou sete cebolas novas, tomates, talvez uns dois quilos de tomate alongado bem maduro, e salsa ao dispor.

Passado um bocado, chegaram. Traziam cinco quilos de peixe fresquinho para uma bela caldeirada que iria ser feita sob orientação da minha mãe.

Várias mãos de juntaram para a faena. No fundo do tacho, azeite, duas cebolas às rodelas, três dentes de alho, vários tomates, um bocado de pimento, batatas às rodelas, salsa, louro, depois o peixe mais rijo. Um pouco de sal. Depois nova camada de cebola, nova camada de tomate, nova camada de rodelas de batatas. Por cima o peixe mais frágil (cabeças de charroco, por exemplo, e, claro, o que prefiro: os fígados). A encabeçar, a última camada de batatas, cebolas, tomate e salsa. Para rematar, sal, um pouco de vinho branco e azeite.

Lume forte até ferver. Como o tacho é muito grande, foi um castigo até que o calor chegasse cá acima. Quando chegou, baixou-se o lume e com o tacho bem tapado, deixou-se que os odores se misturassem e o caldo começasse a aparecer. Quando as batatas ficaram macias, desligou-se o lume e colocou-se coentros por cima, para perfumar.

Boa, boa. 

Para sobremesa tinha morangos e alperces mas vieram também cerejas, melancia e a minha mãe trouxe o seu infalível bolo de cenoura coberto de chocolate.

A seguir ao almoço, depois de descansarmos e conversarmos um pouco, o meu filho resolveu ir com o filho do meio e com os sobrinhos para um parque perto, para irem jogar futebol. Lá foram. Quando chegaram vinham corados e transpirados. Tinham feito uma futebolada com jogadores desconhecidos que por lá encontraram.

A fera felpuda fica sempre feliz da vida com toda a família ruidosa em volta, toda a gente a fazer-lhe festas e ele a retribuir e, pelo meio a roubar um chinelo, uma meia, o que apanha. E apanhou uma flauta e apanhou um daqueles apitos das festas que estica quando se sopra. E etc.

E vai ter com cada um e vai ter com outro, sempre na boa e ciranda, entre carinhos, sempre vendo que malandrice pode fazer. Mas sempre tudo numa tranquila.

Entretanto, a menininha mais linda convidou a sua amiga que ia dormir a sua casa para vir cá ter. E, assim, para além dos cinco pimentinhas, tivemos cá mais essa menina.

E aqui é que a porca torceu o rabo. Ao ver aparecer um ser desconhecido no seu território, desatou a ladrar enfurecido e a querer investir. 

Por precaução, o meu marido tinha-lhe posto a trela. Por mais que lhe disséssemos que estava tudo bem e que a menina era amiga, a fera estava furibunda. Por via das dúvidas, o meu marido resolveu retirá-lo de circulação e ele, transtornado, ainda tentou ferrar a mão do meu marido. Ficou de castigo, claro, fechado, a chorar. Mas de cada vez que via a menina ficava desorientado. Por fim acalmou mas, para evitar chatices, mantivemo-lo sempre pela trela e longe da menina.

Sei que há por aí quem perceba de cães e se souberem o que se deve fazer nestas circunstâncias, muito agradecerei. Nós, que tivemos a nossa doce boxer durante tanto tempo e nunca lhe vimos reacções destas, ficamos desconcertados e apreensivos com estas reacções exacerbadas.

Este é cão de guarda, disso não há dúvida, e é bom que assim seja. Se sente movimento junto à vedação ou ao portão, ou se alguém cá entra, ladra freneticamente, quer atirar-se e, portanto, por segurança, mantemo-lo afastado das pessoas que cá vêm. Mas deve haver maneira de o fazer perceber que algumas pessoas, que ele não conhece, são de confiança e que pode ficar tranquilo.

No parque, na rua, na praia, é cordato, as pessoas podem aproximar-se, não faz nada, toda a gente o acha uma simpatia, um fofo. Mas se alguém que ele não conheça entra aqui em casa, o animal vira uma verdadeira fera. E, como fica tão transtornado, até reage abrutalhadamente com quem tenta refreá-lo, nomeadamente comigo ou com o meu marido. 

Custa-me pensar que, quando temos cá pessoas que ele ainda não conhece, teremos que o deixar preso; mas receio que seja isso que tem que acontecer.

Mal o meu filho se foi embora, levando a menina, o urso felpudo ficou calmo, tranquilo. Contudo, como o meu marido lhe tinha dado um pontapé quando ele se quis virar a ele e como ficou de castigo e toda a gente se zangou com ele, estava sentido, ar infeliz, muito quieto. Dá-me pena. Nitidamente o seu instinto é de guardar a casa de intrusos. E fica infeliz quando não o deixamos agir e, ainda por cima, o punimos.


Não falei do lanche. Salsichas, linguiça, alheira, queijo, tostas, pão quentinho, sumos, fruta, iogurtes. Os jovens comeram como se não comessem há uma semana. Fizeram as sandes ou prepararam as tostas à sua vontade. Quando comprei as embalagens de salsichas pensei, cá para mim, que era um exagero. Mas receio sempre que fiquem a olhar para o prato vazio, com vontade de mais. O meu marido, quando cheguei a casa e viu aquilo tudo, disse que eu não tinha noção, que compro sempre o dobro do que é preciso. 

Sim, sim... Voaram.

A minha mãe, quando ontem estava a combinar sobre o bolo, disse que trazia o de cenoura pois eles gostam sempre e é um bolo grande. Pois bem. Não sobrou nem migalha.

Estivemos na parte do jardim que arranjámos para ligar ao pátio pois o pátio era escasso para tanta gente e, às tantas, estavam uns no pário e outros na relva e tudo bem quando era para conversar mas não era muito prático quando estava uma mesa no terraço e outra mesa na relva num piso ligeiramente mais baixo. Agora há uma continuidade, fica melhor. 

E não esteve um daqueles calorões que esteve durante a semana mas também não esteve frio. Foi bom, é sempre bom quando estamos juntos. E as buganvílias estão todas floridas, as rosinhas caem em cachos e eu acho que é uma sorte e uma felicidade podermos estar juntos e de boa saúde -- e em paz. 

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Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Boa disposição. Paz.