O meu dia foi de seguida, quase sem pausa para almoço. Mas tudo a andar bem, todos in the mood. Não for love mas, ainda assim, na boa. Dia sem stress e sem crise é dia bom, dia em que parece que a paz pousa em mim como uma daquelas abençoadas rolas brancas que, por aqui, pousa nas árvores.
Ao fim da tarde, quando nos reencontrámos em casa, fomos caminhar. Conversamos, observamos as casas e os jardins enquanto andamos. Depois, de novo em casa, fomos prender ramos e hastes da trepadeira, guiando-os para que floresçam como um arco.
Os telefonemas do fim do dia também todos tranquilos. Sem chover, os pássaros contentes, as flores a desamarrotar as grandes pétalas, tudo na serenidade.
[Não quero saber dos chiliques e das petulâncias das meninas bloquistas. Aquilo não faz o meu género. Tudo se há-de resolver. Não perco tempo com fricotes.]
Já tarde, a noite já avançada, recolhi ao sofá e adormeci. Uns minutos apenas mas os suficientes, os que me faltavam. Fico logo mais fresca, com vontade de me surpreender.
Circulo, então, por onde posso. Em dias assim não pego em livros, parece-me que se me fecha a disponibilidade para coisa que se adentre em mim. Ponho-me, então, a navegar aos deus-dará.
E, então, deambulando na vagabundeza, fui parar a mais um antológico trecho de Eberth Vêncio.
E, ao lê-lo, recordei a vez em que constipada, congestionada e engripada resolvi ir ao médico. Não havia corona-dos-totós pelo que foi sem medos que lá fui, apenas por não saber o que tomar. Era menina recém-casada, andava a estudar e a dar aulas, não queria piorar, não queria faltar aos meus compromissos. Morava num lugar totalmente desconhecido, sem quaisquer conhecidos por perto. O meu marido disse que, ao fim da rua, tinha visto uma tabuleta, médico de clínica geral. Lá fui. Era um homem já entrado. Perguntou de que padecimento me queixava. Não eram precisas grandes explicações: a voz, o semblante, os olhos, tudo falava pelo meu estado. Mandou, então, que passasse para a sala ao lado e me deitasse na marquesa. Mandou-me que despisse as cuecas.
Estaquei, incrédula.
Mandou-me que pusesse as pernas num suportes. Admirada, não obedeci: 'Acho que não percebeu o que eu disse'. Mas sentia-me febril, sem energia e doente. Faltavam-me as forças para me rebelar. Ele disse: 'Percebi bem. Mas este é o protocolo.'. Tentei protestar: 'Estou constipada ou com gripe, só isso'. Ele, seco, médico velho e sem paciência para frescura de menina, zangou-se: 'O médico aqui sou eu. Tem que ser observada e fazer uma lavagem vaginal'. Em condições normais, teria saído porta fora, talvez a correr para apresentar queixa na Ordem. Mas estava sem força, doente, zonzinha de todo. Ainda hesitei, mas até para a hesitação me faltavam as forças. Ele já estava com um reservatório na mão, autoritário: 'Deite-se'. E eu, fraca e doente, deitei-me. Pela primeira e única vez na vida, fizeram-me uma lavagem vaginal. Furiosa com o bode velho, furiosa comigo, mas sem energia para atear a fúria, deixei que a fizesse. Logo a seguir, ainda sem perceber o que me tinha acontecido, levantei-me. Auscultou-me, viu-me à transparência, viu-me a garganta, os ouvidos, prescreveu-me o que entendeu, mandou que me apresentasse lá passados uns dias. Nunca mais. Saí de lá doente e desnorteada. Quando contei ao meu marido, ficou espantado. Também eu. Ao fim de tanto tempo ainda estou: o que foi aquilo? Abuso? Reinação? Método arcaico?
Mas, enfim, coisas esdrúxulas que acontecem na vida de uma mulher.
Bom mesmo era o doutor Pecker que colocava as mãos na clientela sem pressa, malícia e asco. Sobretudo, aceitava o pagamento em bandas-de-leitoa. Decorava bulas, sonetos e até “O Navio Negreiro”, de Castro Alves. Tinha cultura e boa memória. Para tratar pedras nos rins, quebrava os rigorosos protocolos científicos ao receitar os caminhos tortuosos de Drummond. Para a contenção dos gêiseres fertilizantes e dos fluidos contaminados por intrépidos treponemas que espocavam das varas, instruía o uso de camisinhas-de-força.
Para evitar o dissabor de um neném não planejado, servia-se aos casais um tira-gosto: azeitona; sim, uma azeitona estrategicamente alocada entre os joelhos da mulher amada. Era batata, ou melhor, era azeitona; desde que não se deixasse cair o caroço na cama. Aliás, azeite alentejano, para amenizar a secura vaginal, fazia parte da régia estratégia para escorregar-enguia-na-loca e temperar o relacionamento durante os bravos verões da menopausa.
Para corrimento, pausa. Para os dias de TPM, recomendava guardar melhor distância. Para frieza sexual, receitava jeitinho mais cobertor de orelha. Para ejaculação precoce, indicava manteiga-de-tartaruga e punhetas com a mão esquerda. Macetes para inzonar. Para garantir plena eficácia contraceptiva, caçava gametas com a mesma gana de quem caçava confusão; instalava, ele próprio, fraco e mirradinho, com o artifício de binóculos e de um cilibrim, minúsculas arapucas e umas tais micro-ratoeiras importadas da França (tinham ratos de sobra em Paris naquela época) para surpreender o verter das picas e capturar espermatozoides no arcabouço da cratera vaginal.
Havia uma compreensível, justificável e natural falta de luz no fim do túnel. Ali, deitado em berço esplêndido, jazia boquiaberto um colo uterino, prestes a engolir novas expectativas de vida. A mãe-do-corpo, como sempre acontecia, urrava. Mulher sofria e sofre. Não restava dúvida ao médico ateu de que as fêmeas da espécie tinham levado imensa desvantagem durante o ato divino da criação.
Padecia também o descrente doutor desses tipos de incongruências filosóficas. Para retesar o desatino da frouxidão crônico-involuntária dos esfíncteres e dos orifícios, deveria o moribundo piscá-los em salvas de trinta vezes, a intervalos de oito horas.
Para a impotência sexual masculina, ovos-de-pata mais os famosos exercícios de levitação do professor Karnal. Para dor de veado, tinturas de arco-íris. Para frieira, beirada de rede. Para batedeiras no peito, repiques com o dedo indicador num portal de madeira para ensinar o coração a bater no ritmo correto.
Para as dúvidas existencialistas, listas de exercícios de matemática. Para transtornos bipolares, uma terceira opinião. Para moléstias mentais do tipo desespero de causa e loucura absoluta, cadeiras elétricas de frente ao mar. Amar. Carecia armar o espírito, no qual ele não cria, com aquelas cálidas cápsulas de claves-de-sol. Mais incongruências.
O tempo passou. Há roupa no varal e doses homeopáticas de devaneio nesse texto em tributo à medicina humanizada. Espero ser bem compreendido. Adveio tecnologia avançada com o uso trivial de caríssimas máquinas-de-tirar-dúvidas nas quais se entra numa extremidade, enquanto o laudo sai noutra. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. Eis a vida. Já não se fazem mais médicos como o desprovido doutor Pecker que sumiu engolido por sucuri.
Instruído por Hipócrates, arrancava bala à grito, mandava veia parar de sangrar e cochichava coisas que ninguém entendia enquanto operava milagres num singelíssimo hospital no interior do Brasil. Se eu não soubesse da sua flauta de fé, poderia jurar que se aconselhasse com o próprio Deus enquanto desembaraçava tripas.
Escreve Élida Ramirez, sobre a primeira dama de Tamandaré, Sari Corte Real, que, no outro dia, tinha manicura em casa a fazer-lhe as nails e se impacientou com o menino Miguel que não parava de chamar pela mãe que, entretanto, tinha ido passear a cadela da patroa:
Tente se colocar no lugar da cearense Mirtes Renata, mãe de Miguel. Reforçarei os maus tratos óbvios porque ‘pensar perturba’ como disse Martin Luther King. Ainda mais sob a ótica do discurso do absurdo daqueles que governam atualmente o país. Cenário de pandemia de Coronavírus. Apenas serviços essenciais devem funcionar. Porém, a empregada doméstica Mirtes precisa trabalhar. Ela ‘poderia’ ficar em casa. A tal liberdade custaria o salário que não seria pago. Não tem com quem deixar o filho, Miguel Silva, de 5 anos. Com a autorização da patroa Sari Corte Real e do patrão e prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker, a mulher pobre e negra sai, diariamente, da segurança do isolamento social com uma criança. Pega dois ônibus lotados, espremida e em pé para dedicar seu dia ao conforto dos outros. Não usa máscara dentro de casa dos patrões. Precisa ter contato com entregadores que não param de chegar. Passeia na rua com o cachorro.
Sem o direito à proteção, Mirtes pega o novo Covid-19 do patrão. Passa para o filho e para a mãe idosa. Enquanto o os familiares abastados se recuperam na casa de campo — também mantida limpa por outros empregados — Mirtes segue na labuta se arriscando pelo pão. Todos sobrevivem. Ela lava, passa, cozinha e passeia com o pet, porque ‘bicho também é gente’. Final feliz?
Em um dia desses, Mirtes prefere não levar Miguel para a rua. Ele fica no apartamento com a patroa Corte Real enquanto a empregada cuida do animal, aparentemente sem nenhuma estimação. Daí, a criança quer atenção. O máximo que consegue é ser desovado, sozinho, em um elevador pela mulher do prefeito. Miguel é pequeno, se perde e cai do nono andar. Morre horas depois no hospital. Acidente?
Diz Eberth Vêncio, sofrendo com isto tudo:
Durante os meus exercícios diários de sobrevivência no caos interior, especulo que as relações interpessoais e a comunicação instantânea, globalizada, estão adoecendo a humanidade em patamares impensáveis. Insanidade mental é uma pandemia obscura. Ansiedade. Depressão. Pânico. Suicídio. Parece que o estilo de vida contemporâneo nos atropela com informações e velocidade. Por consequência, uma régua imaginária nivela, por baixo, a inteligência e a capacidade de discernimento e de indignação de muitos, frente às famigeradas mazelas cotidianas. Aprisionados em redes sociais da web, consumimos informações várias, às vezes relevantes, quase sempre supérfluas, inverídicas, cruéis, carregadas de intolerância e de falta de empatia.
Há um desconfortável fetichismo pelo mau gosto e pelo mórbido espetáculo de notícias escabrosas que nos chegam pelos telejornais, pelos canais da internet, pelos instrumentos viciantes de Mark Zuckerberg, que testam a nossa capacidade mental para amortecer as tragédias diárias que ribombam em todos os cantos do planeta. O filho da empregada que caiu do nono andar em Recife. O adolescente fuzilado, dentro de casa, por militares no Rio. A transmissão, on time, on demand, do sufocamento, até à morte, de um homem negro, por policiais de Minneapolis.
Se eleito flor, reggae me. Prometo colorir o silente jardim dos teus olhos com pétalas adocicadas de luz e claves de sol. Hei de esparramar música, sementes, toras, seiva e raízes neste seu terreno fecundo. Duvido que haja amor melhor no mundo por tanto tempo amortecido. Atenção, dormentes órgãos do sentido: ajam depressa; façam para mim algum sentido!
Considera devotar mais tempo a ti mesma nas próximas eleições da tua vida. Para quem não crê no acaso, errar é sempre uma escolha malsucedida. Eu só tropeço durante o ocaso, em caminhos que eu mesmo traço. Eu adestro as pedras, mas, ando sentindo um troço ruim aqui dentro. Acho que é o coração cansado de escoicear, de dar pinotes, ávido por estilhaçar as janelas do peito e fugir a pé com as mãos abanando. Deus não dá asas, mas, cobra. Da próxima vez, redobra os cuidados, tenta com um pouco mais de ternura, faze a coisa toda de outro jeito: vota no vate, garota. Evita que tanto concreto cotidiano endureça as palavras na garganta das tuas veias frias, transtornando-as, transformando-as num cano sinuoso e rígido por onde escoa esgoto de mágoa. Se todos fizessem uma única rima, por mais pobre e risível, seria razoável até mesmo ao homem mais rico, soberbo e inflexível, acreditar que com poesia se mudaria o mundo.
Quisera brindar em tributo ao teu corpo com uma taça de carménère. A vida é curta. Teus cílios longos são velas abertas acenando na suave brisa. É o mar de amar. É a chaga do desejo que nunca cicatriza. Vive de acordo com as tuas convicções. Visando à bonança, colhe com suavidade as tuas tempestades particulares.
Se eleito flor, reggae me com cuidado. Pode ser o amor.
Não me importunem. Não sou “A Bela da Tarde”. E se eu fosse a Catherine Deneuve? E se eu fosse a Anitta? E se eu fosse o Pabllo Vittar? E se eu duplicasse as consoantes do meu nome? E se eu fosse a Rita Cadilac? E se eu estacionasse o meu carro sobre a sua língua comprida e infame numa faixa de pedestres?
Não sou mais um desses “porcos” que as algumas feministas esbravejam por aí. Não voto nos candidatos da extrema-direita. Estou extremamente feliz por não ter nascido canhoto. Canhotos sofrem; mulheres, idem. Não sou truculento. Não digo palavras chulas a uma mulher, a não ser que ela implore por elas. Concordo em ganhar menos dinheiro do que a minha companheira. Aliás, sonho em ser dono de casa. Não exijo transar sem camisinha. Não gosto de pegar geral, de pagar prostitutas; não é que eu seja um caloteiro; acontece que eu não curto frequentar bordéis e viajar para congressos com acompanhantes viçosas de nível universitário. Sou otário, mas, não me furto em me meter numa briga de marido e mulher. Não consinto com o abuso sexual, com o estupro de mulher alguma, em nenhuma circunstância, quem dirá, as feias, minhas parceiras de feiura e desencanto. Deixo um lastro de sarcasmo por todo canto, onde quer que eu escreva, notem isso, farejem isso, cavem no quintal dos seus olhos o real sentido dessas palavras, pelo amor de Deus, caprichem na interpretação de texto, isso aqui não é bula de remédio.
Analfabetismo tem cura; burrice, não. Sinto que a humanidade está dando marcha à ré. O mundo não apenas continua cruel, como está ficando chato à beça. Depois do advento das redes sociais, então, anda enfadonho, insuportável. Na internet, as pessoas parecem mais infernais que o habitual. Os vírus da ignorância são os micróbios da vez, incuráveis, controláveis por potentes antivírus baixados pelo computador.
A humanidade é viciada em polêmicas. Isso me irrita de forma abissal. A controvérsia da vez diz respeito ao assédio sexual contra as mulheres. E dá-lhe blá-blá-blá. Existe, por exemplo, uma onda crescente de denúncias contra celebridades nos Estados Unidos, em especial, figuras carimbadas do cinema norte-americano. Em contraponto, recentemente, o jornal “Le Monde” publicou um manifesto assinado por cem francesas influentes, dentre elas, a veterana atriz Catherine Deneuve. Como continua linda a Belle de Jour. A reação das feministas foi furiosa e imediata. Se eu fosse mulher, se eu fosse francesa, se eu fosse convidado, assinava também, mas, com ressalvas. Não acredito em beijo roubado. Não concordo que um homem possa tocar o corpo de uma mulher sem (con)sentimento.
Relutei algumas vezes em escrever este texto. O tema é vespeiro. Porém, eu me senti encorajado ao lembrar de uma entrevista da atriz-cantora Bibi Ferreira num programa de TV. Quando lhe questionaram o que mais a incomodava na velhice, Bibi respondeu que era o fato de passar despercebida pelos homens, de não se sentir desejada. Estou convicto que era disso que o manifesto das francesas falava: romance, conquista e autoconfiança. Nenhum ser humano sensato haverá de defender a violência contra meninos, meninas e mulheres. Logo, se eu fosse um servente de obra, não gritava palavrões, mas, assoviava, sim, para uma moça bonita caminhando pela calçada. Não me importunem. Eu não sou a Catherine Deneuve. Eu sou apenas um homem ordinário que, assim como as mulheres, não gosta de apanhar nem com uma flor.
O texto original (ao qual abusadoramente tirei alguns bocados) é da autoria de Eberth Vêncio e cacei-o na Revista Bula.
As fotografias são, tal como no post abaixo, da autoria dos safados Mario Testino e Bruce Weber, dois fotógrafos que, ao que consta, importunaram alguns dos jovens que fotografaram.
Leonard Cohen, um sedutor que seduzia até de olhos fechados, interpreta I'm your man
...........................................
E queiram descer até ao Amor em abundância, pseudo-aforismos auto-confessionais à moda da vossa Sta UJM
Não confio em gente que cria passarinho em gaiola. Eu conheço essa dor. Tenho tantos sentimentos aprisionados dentro do peito, que nem lhe conto. Eles são tristes e sozinhos, mesmo assim, não sentem vontade nenhuma de cantar. Eu queria muito lhe comer com os olhos e lamber com a testa. Tenha dó. Faça festa. É dura a espera para os que têm fome. De que vale uma gaiola de ouro, se o passarinho não canta? O amor — eu já tinha ouvido falar nisso antes — é um fio desencapado.
Não confio em gente que conversa comigo olhando para os lados. A verdade está nos olhos, gracinha. Não insista. Não tenho lado. Um dia ainda me atiro inteiro em seus braços, baby.
Pode parecer um paradoxo, um conflito interior da maior magnitude, mas, eu não confio em gente que guarda rancor nos cofres da memória. Não minta pra mim, que meu peito não é de aço. Ele não possui chave nem segredo. Também sofro de injustiças, iniquidade e medo. Será que um dia eu cresço? Na minha idade, já devia demonstrar mais equilíbrio. Quase não rio, e isso não tem nada de intransitivo, de impessoal, pois, mesmo morando no centro-norte do país, onde o índice pluviométrico é pífio, eu continuo a chover de tanta melancolia. Você diz que eu deveria conjugar corretamente o verbo, ao invés de julgar as pessoas? Ora, não me faça estudar gramática a essa altura da vida.
Não confio em gente que não dá a mínima para o que as outras pessoas estão sofrendo. A frieza, a falta de brio os fazem selvagens de arrombar introitos. Eu devoro a solidão sem sujar as mãos, e há pouca coisa que os editoriais possam fazer para amenizar a carnificina. Como diria o poeta, eu sou um poço de sensibilidade. Portanto, feche os olhos, tape o nariz, abra um sorriso e salte aqui dentro, docinho.
_________________
Excertos do texto homónimo de Eberth Vêncio na Revista Bula
Vinicius canta Amor em Solidão
As imagens mostram "The street of loneliness de Carolina Soledad Salvatierra Seguel e "Two People: The Lonely Ones" de Edvard Munch
Hoje aquele a quem eu, até ele ser tão grande, chamava aqui ex-bebé perguntou-me se eu sabia falar brasileiro. Disse-lhe que sim, que brasileiro é português só que dito de uma forma engraçada. Pediu que exemplificasse. Tentei mas não foi fácil, porque logo já eu estava a falar usando vocábulos como neném ou babá, que careciam de explicação. E a verdade é que, ao esforçar-me por falar com paladar brasileiro, parece que me desfocava e, passado pouco tempo, já me faltava assunto. E, para falar de assuntos correntes, não me dava jeito nenhum falar em brasileiro. O mais crescido, saíu em minha ajuda.
E, no entanto, e já para não falar nas telenovelas brasileiras que dantes, quando era novidade, não perdia, há quanto tempo eu me habituei a ler em brasileiro. E gosto. Tem uma graça que acrescenta tempero à língua, parece que qualquer história ganha logo um dançarolar que anima por dentro o corpo de quem lê ou ouve.
Andei o dia todo por fora, com uns e outros, a animação habitual, tudo gente que não se adensa nos pesares da vida, antes seguindo em frente com risos, humor, descontruindo todas poses de bom comportamento. O meu pai, hoje tranquilo e meio dormindo no meio do reboliço, o meu tio sempre sorridente, a minha mãe toda jovem, vestida numa de navy, alegre no meio de tanta efusividade e bem humorança, a minha filha bonita e alegre, os pimentinhas comilões, brincalhões, o meu marido a ver futebol como se nada se passasse, eu a fotografar e a degustar os bons momentos.
Claro que, no meio, tenho momentos em que tenho que me ausentar da situação para não ganhar stress nem fazer figuras tristes.
Exemplifico.
Comprámos umas chuteiras para o dito ex-bebé. Há uns meses, o avô prometeu-lhe umas chuteiras quando ele passasse a ser capaz de fazer uma determinada coisa. E nem mais se lembrou disso. Eu, se ouvi, nem registei. Pois bem. Esta semana, o menino (que já fez cinco anos e está enorme) conseguiu ultrapassar a dita meta e apareceu-me ao telefone, com ar pesaroso: 'Ó Tá, já consegui fazer e o avô ainda não deu-me as chuteiras...'. Não sabia sequer de que estava ele a falar. O irmão, ao lado, dizia, 'Tá, iguais às do Rui Patrício'. Pensei que eram protecções para as pernas. Mas depois ouvi 'com pitons'. Então percebi que eram ténis para chutar - claro. Quando relatei ao meu marido, lembrou-se: 'Eh pá, pois foi, mas há quantos meses foi isso... Eh pá... nem me lembrava. Temos que ir comprar as chuteiras para o puto'. Lá fomos. A mãe disse o 29 mas, como cresce todos os dias, decidimos que seria melhor o tamanho 30. Hoje, na casa da bisavó, ao experimentá-las, achou que lhe apertavam. Dissemos: 'Pronto, não tem problema, vem connosco à Decathlon, escolhe, prova. Depois levamo-los a casa'. Que me lembre é a segunda vez que vamos só os dois com eles os dois à Decathlon, coisa que, para eles, é melhor que a Eurodisney.
Senhores!
Mal saem do carro, vão a correr direitos às tendas que estão em exposição cá fora, e andam de tenda em tenda, depois escondem-se lá nos compartimentos, e ali ando eu e o meu marido a ver se não os perdemos de vista, com aqueles dois escapulindo-se de umas para outras -- e se são uma data delas de todo o tamanho e feitio.
Para saírem de lá, teve o avô que os içar e levá-los pelo braço, um de cada lado. Depois, mal entram naquela big loja, desatam a correr, primeiro diireito aos caixotes de rede da entrada em que há mochilas, bolas, apetrechos de cada cor e finalidade. Dizemos 'Esqueçam, viemos cá só para trocar as chuteiras, vamos!'. Então, contrariados, lá saem dali mas, logo se esquecem, e desatam a correr, cada um direito a uma bicicleta, e desatam a pedalar por ali afora. Quando queremos que larguem as bicicletas no sítio certo, mal desmontam numa, logo se montam noutra e pedalam ao desafio, a grande velocidade. E ali ficamos nós a olhar para eles, porque não vamos pôr-nos a correr atrás deles ou aos gritos. Um desatino. Até que o avô os intercepta, os iça, e à força os leva dali para fora.
Então desatam a correr e vão para as bicicletas de ginásio e montam numa, noutra, noutra, cada um para seu lado.
Nessas alturas apetece-me apanhá-los, nem que seja à força, pôr-lhes uma trela e levá-los à rédea curta.
Até que o avô os ameaça e lá se reintroduz o tema: 'Mais vale irmos já para a zona do futebol (antes que sejamos expulsos)' e logo eles perguntam se é onde há montes de bolas e balizas e aí vão eles a correr, e logo se põem a jogar futebol a sério, grandes remates, grandes defesas.
Nessa altura, deixo o meu marido a orientar a coisa -- e reparo que ele já está com ar a caminho do esvaído -- e vou à procura de bonés, de que eles estão com falta.
Como a loja é imensa e há bonés em vários lugares, fui calmamente (para descansar a cabeça) e fiz uma pré selecção. Ao fim de algum tempo reaproximei-me: um fazia defesas atirando-se ao chão, o outro rematava como se estivesse a jogar a final da Taça, o meu marido fazia de conta que não os conhecia embora, claro, estivesse de olho. Levava eu 5 bonés de feitios diferentes e cores diferentes e queria que optassem pelo modelo e pela cor, que eu logo ia ver se encontrava o modelo na cor pretendida. Qual quê? De súbito, logo cada um me tirou um boné das mãos, o pôs na cabeça e se recusou a provar qualquer outro. Eu bem queria ver se lhes estava bom mas no way: 'Pára, Tá', como se eu tivesse entrado em campo para lhes pôr o boné, talvez para não apanharem sol, mas, cumprido o desiderato, devia era pôr-me fora do campo para não interromper as afincadas jogadas.
Finalmente, nem sei como, lá fomos para as chuteiras. Já não queria da cor das do Rui Patrício, preferiu pretas com riscas em cinza prateado. E as únicas que disse que lhe ficavam bem eram o 32. Não percebo se da semana passada para este domingo lhe cresceu o pé de 29 para 32, se quê. Mas dúvidas metafísicas não têm lugar nestas situações. Vieram as 32.
O caminho até à caixa e à saída foi a mesma odisseia. Corridas de bicicleta e tudo. Saíram de lá içados pelo braço, como se o avô fosse um segurança a expulsar dois meliantes.
Cá fora, mal os largou desataram, de novo, a correr para as tendas. Chego a este ponto, já sem reagir. Parece que se me baixa a tensão, fico quase sem acção. E dá-me sede, acho que estas coisas me desidratam. E fico também com uma espécie de impaciência em que, por mim, me deitava numa espreguiçadeira de exposição ali mesmo ao pé das tendas e eles que brincassem até se fartarem. Só que já passava das sete e meia da tarde e já estava a pôr-se frio.
O avô, meio furioso (mas a fúria dele com os netos é mais do que relativa), acocorou-se pela tenda adentro onde os dois pestinhas se tinham escondido num compartimento fechado ao fundo, abriu o fecho, e, de gatas, puxou-os dali para fora. As figuras que uma pessoa faz. Não há explicação. E, uma vez cá fora, lá os levou, de novo içados pelos braços, até dentro do carro.
Depois, no carro, apanhámos o relato do prolongamento da final e a ida para penaltis. Entusiasmo! Aí, à chegada, não queriam sair do carro para ficarem a ouvir o relato até ao fim. Lá os convencemos que, em casa, viam melhor, na televisão. E, então, lá saíram a correr do carro em direcção a casa.
Quando nos vimos a caminho de casa, em silêncio, já o Braga tinha ganho, deu-me um sono avassalador. Mas dali ainda fomos a casa do outro lado da descendência e lá houve mais jogo de futebol; mas, enfim, dado o espaço mais confinado e dado que uma menina é sempre um factor de estabilização, foi pacífico. Além disso, foi rápido.
Seja como for, cheguei a casa tarde e estafada. A primeira coisa que fiz, depois de pôr a máquina de roupa a lavar, foi cortar o cabelo. Um pedação, que um bom corte de cabelo tira-me muita canseira de cima. Depois um belo banho. A seguir um jantar ligeiro, depois ainda passei alguma roupa a ferro, estendi a meias a roupa, que aqui em casa funcionamos em equipa, e mais algumas arrumações.
E já estive a tratar das nails e agora estou aqui no sofá, reclinada, meio a dormir, cheia de preguiça.
Já passei os olhos pelas novidades que são nenhumas e tudo coisa sem graça e, do que li, o que me me chamou a atenção foi um texto muito engraçado -- em brasileiro, justamente. Chama-se: 'Não adianta limpar os pés se vai pisar meu coração' e foi escrito por Eberth Vêncio, cujo nome sem sei se é nome mesmo se é invenção de um dia de criatividade aguda.
Transcrevo apenas uns excertos porque isto hoje já está para além de longo, mas o artigo todo não deverá ser perdido porque é gostoso mesmo.
Adão foi o primeiro. Mordeu-me a maçã do rosto. Então, quebrei-lhe as costelas que ainda restavam usando o mesmo fórceps com que fui extirpada do seu tórax de macho alfa-dominante. Por justa causa — eu reconheço — fomos expulsos do Paraíso (Motel Paraíso, 666 Jardim do Éden — Cidade do Pecado). Não seja besta. Numerologia não me assusta. Babaquice, sim. Começava ali a minha saga em busca de um amor que valesse a pena. Eu não me dispunha a ser uma espécie de mulher objeto, sujeita a homens abjetos que me colocassem num pedestal, numa estante ou para desfilar montada numa glande. Eu cagava pra eles. Daquele dia em diante, ao invés de ser caça, quem caçava era eu.
Ayrton, por exemplo, era um sonhador, do jeito que eu gostava. Aos domingos, pilotava foguetes para Marte, adorava as minhas curvas, a minha entrega, a minha arte. Vangloriava-se em dizer que dirigia muito melhor quando a pista estava molhada. Então, tascava-me uma chuva de beijos, sem medo de derrapar sobre as estrelas da Via Láctea. (...)
Cristóvão veio com a seguinte falácia: se tinha descoberto a América, seria moleza descobrir, aportar no meu Ponto G. Eu não concebia possuir uma cartilha para otários entre as coxas. Aliás, sob estímulos cuidadosos, cada centímetro da minha pele urraria até ficar rouco. Rapidamente, saquei que o sujeito era uma espécie de aventureiro, um analfabeto afetivo que não conseguiria colocar sequer um de seus ovos em pé sobre a mesa. Vazei. Deixei-o à deriva num mar de lágrimas. Cabe aqui um adendo. Aliás, vou além disso, farei uma advertência: Senhores do Ministério, eu faço mal à saúde dos calhordas. Os homens fúteis, quando caem por mim, choram até desidratar. Eu não me importo, não sou a mãe deles. Eu sou uma mulher simples que se alimenta de amor e carinho. É só isso.
E por falar em fome e sede, dei a Cesar o que não era de Cesar, então, ele retribuiu tocando fogo na cama. Oferecia-me denários de prata em rituais de idolatria. Confesso que achava aquilo um exagero. Ele pensava que eu fosse uma espécie de deusa em busca de reconhecimento. Não, eu não era. Eu era uma mulher cheia de caminhos. (...)
Sócrates foi um namorado culto, inteligente, um verdadeiro sábio que passava a vida a pensar, fatigando os neurônios ao analisar o comportamento humano. Certa noite, sob as estrelas, enquanto acendíamos vagalumes com fagulhas-de-olhar, perguntei se o nosso amor duraria para sempre, mas ele fez assim com os ombros e disse que só sabia que nada sabia. Achei aquilo o máximo. Beijei-o com ternura e fé. Eu gostava de homens mais velhos. Depois de Vinícius — que me amou eternamente até o último sarau de poesia em Copacabana — foi o amante mais atento que já pisou meu coração.
____
E porque muitos, muitos são mesmo os meus caminhos, que entre o Grupo Corpo para que a jornada de hoje se complete.
Mortal Loucura
___
Lá em cima é a Felicidade segundo Vinicius, Toquinho e Maria Creuza.
As fotografias que escolhi não sei se têm alguma coisa a ver, acho que talvez tenham mas se calhar é porque estou praticamente a dormir. São da autoria da professora polaca Anna Rozwadowska que gosta de inventar e costurar fatos para os filhos e que, a seguir, os fotografa.
___
Claro que tenho lido e apreciado e me tenho sentido agradecida por todos os comentários e mails mas, dada a minha agenda preenchida, não tive possibilidade de lhes responder e, agora que me deu para me pôr mais à fresca a curtir os ares prazerosos da primavera, também já não consigo. É tarde e estou a dormir. Não levem a mal. Obrigada a todos e aceitem, por favor, as minhas desculpas.
___
E desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. Be happy!