Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, abril 20, 2019

Onde se ouve a Sta UJM, sob um assombroso céu cor-de-rosa, a falar do deus fantástico que vive nas suas casas e a dizer palavras que beijam como se tivessem boca





Quando esta sexta-feira fomos, então, ver das roçadoras e quando o diligente funcionário explicava o seu funcionamento -- puxa o cordão, quando sentir que prende é que lhe dá a guinada, e descansa depois de usar não sei quanto tempo e etc. -- pensei que duvidava muito que o meu marido soubesse de todos esses cuidados. Por isso, mal o senhor se afastou, perguntei: não será que a nossa não está estragada e que tu é que não sabias estes preceitos todos? Ele olhou com ar de quem não sabia se devia ficar ofendido comigo se, ele próprio, estava nessa mesma na dúvida e disse: vamos embora.

E assim foi. Quando chegámos, depois de termos ido a casa dos meus pais, eu fui passear e ele foi-se a ela. E, claro, ela funcionou. Quando me aproximei, ele só disse: sem comentários. E eu apenas disse: aquela pergunta que fiz foi a chamada pergunta de cento e cinquenta euros. E ele riu-se.


Já cortou algumas coisas e já está mais do que avisado para amanhã se focar no tojo e nas silvas e poupar os orégãos. Mas temo. Os orégãos estão pequeninos e ele, com os óculos de protecção que me parece que turvam a visão e com a falta de cuidado que o caracteriza, não vai prestar atenção.

E eu, como disse, andei a passear e a fotografar e a fazer vídeos. O primeiro ficou com dezassete minutos e o YouTube diz que, para o carregar, tenho que provar que sou eu e, para tal, tenho que lhe dar mais informações do que me apetece dar-lhe e, por isso, mais um vídeo que vai para o lixo. O terceiro, feito aqui à porta da sala, para mostrar um céu cor-de-rosa que se formou durante uns instantes, ficou bem, acho eu. Só que a meio, o meu marido, ao ver-me em cima de uma pedra, a olhar para o céu e a falar sozinha, chamou por mim, pelo meu nome, a perguntar-me o que se passava. E eu, querendo que não se ouvisse isso, desviei a máquina e fiz sinal para que se calasse e, agora, ao ouvir, parece que soluço. Fica estranho, não gosto. Portanto, o céu cor-de-rosa, tão lindo, também não vai para o ar. Fico-me pelas três fotografias que fiz antes de filmar e que aqui partilho.

A robínia está florida, dá estes belos cachos de flores brancas. E o céu cor-de-rosa visto através das flores brancas pareceu-me de uma beleza assombrosa.


Portanto, de toda a minha produção cinematográfica, salvo apenas o vídeo lá mais abaixo do abrigozinho verde de que tanto gosto.

E, tirando isso, nada. Tudo tranquilo. O meu pai na forma do costume, como a minha mãe diz, ela sempre bem disposta apesar dos pesares, e uns a sul com amigos, outros em campeonatos de futebol. 

A Páscoa para nós não tem grande significado. No nosso pensamento racional não encaixa o significado místico que se atribui à ressurreição. Se é para ser metáfora de que manteremos sempre viva a presença dos que amamos mesmo quando partem então, sim, é bonito e verdadeiro e nisso acreditamos -- mas é coisa de todos os dias, não de um dia único que, segundo os rituais do catolicismo é precedido de encenações e restrições e celebrações de milagres.

Num àparte direi que a religião católica tanta roupagem coloca sobre os acontecimentos históricos que acaba por esbater a sua importância e por desvirtuar a singeleza das ilações que deles se poderiam retirar. Lembro-me sempre que o divórcio que em mim se operou relativamente à igreja católica teve lugar num dia em que as catequistas, por alturas da Páscoa, levaram à escola um vídeo sobre a traição, sobre o calvário, sobre a crucificação, sobre a ressurreição. E tudo era muito realista, muito assustador. E lembro-me de ter pensado que aquilo não era coisa que se mostrasse a crianças. Teria eu uns nove anos. E a religião sempre me foi apresentada como uma expiação para pecados que eu não sabia que tinha cometido, como um desfiar permanente de culpas, de interditos --  tudo coisas a que sou naturalmente avessa. Nunca me foi apresentada como um espaço de recolhimento interior, como a possibilidade de superação das nossas limitações através de um querer ilimitado que nasce dentro de nós. Nunca me foi apresentada como uma transcendência como a que se pode verificar no milagre permanente que testemunhamos na observação atenta da natureza.

Mas, enfim, chega de conversa.

Eis o pequeno vídeo deste meu pequeno recanto verde aqui in heaven. A Sophia e o O'Neill frente a frente e eu no meio falando no anjo fantástico que habita as casas em que vivo e dizendo palavras que nos beijam como se tivessem boca. E ouvem-se os passarinhos que é das coisas boas e alegres desta vida por vezes tão cheia de agruras e sustos e tristezas.

[A minha voz é o que é, involuntariamente sempre a meio caminho de se desvanecer num sussurro. Começo a convencer-me que nada há a fazer.] 

A senhora em repouso in heaven e a poesia em verde com anjos e palavras que beijam


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[Tentarei, durante este sábado, responder aos comentários de ontem. Hoje não consigo]

A todos desejo dias felizes

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sexta-feira, março 15, 2019

Porque é que as nossas memórias não são de fiar






Há momentos marcantes na minha vida e penso que os guardo, com todos os pormenores, na minha memória. Poderia agora enumerar alguns mas são vários e, se me ponho e enunciá-los, fica isto longo demais.

Mas, por exemplo, não guardo qualquer ideia do primeiro dia de escola: nem da infantil, nem da primária, nem do liceu nem da faculdade -- momentos que, supostamente, são simbólicos e marcantes na vida das pessoas. Nada. Da ida dos meus filhos para a escola, dos primeiros dias, também não tenho ideia precisa até porque começaram a ir tão cedo e isso me custou tanto que a minha cabeça escondeu essa lembrança. Mas recordo, e recordo ainda com dor, o primeiro dia em que o meu filho foi para o infantário, teria uns sete ou oito meses, nem sei bem. Olhou para mim com o beicinho a tremer, a conter o choro. Tão bebé e mais corajoso que eu. Saí de lá de rastos, a chorar e, sempre que me lembro do rostinho dele, ainda sinto que as lágrimas me vêm aos olhos. Também me lembro do dia em que cheguei a casa com a minha filha, que tinha ido buscar à escolinha, e com ele que tinha ido buscar ao infantário. Ele vinha a chorar, incomodado. Aliás, frequentemente notava que ele vinha com olhos de choro. Diziam-me que tinha estado bem, que era impressão minha. Fui ver a fralda e tinha a mesma fralda que tinha levado de manhã. Fiquei desvairada. Peguei neles os dois e voltei lá a fumegar, furiosa. Desanquei aquela gente desalmada, ia em brasa, lembro-me de nem as deixar falar. E comuniquei que ele não ia voltar. E não voltou. Nem sei se lá chegou a estar um mês. Mas o que me custa pensar que não esteve bem enquanto lá esteve... Ainda hoje me faz sofrer pensar nisso.


A minha memória é selectiva, provavelmente como todas só que os critérios de selecção talvez sejam um bocado atípicos. 

Por vezes a minha mãe fala de momentos que acha que seriam de alguma forma marcantes para mim e eu, para seu espanto, não retive nem pitada. Em contrapartida, lembro-me de insignificâncias que a mim própria me espantam. 

No entanto, acontece-me por vezes lembrar-me de coisas mas com a sensação que perdi alguns pormenores, saber que já aqui falei disso e ficar intrigada: então quando escrevi lembrava-me tão bem e agora a coisa parece que ficou vaga...? E vou à procura, leio o que escrevi e tudo volta de novo. E, ao ler, evoco, então, pormenores que, na altura, ao escrever, me tinham escapado.


Fico, então, a pensar se as coisas se teriam passado exactamente assim como as recordo ou se, com o tempo, a imaginação compôs alguns hiatos. 

Mas isto para dizer que gostei muito de ver o vídeo que mais abaixo partilho convosco. Afinal essa sensação tem razão de ser e é mesmo assim. O nosso cérebro é mesmo a tal fronteira que ainda não conseguimos transpor completamente. Um mistério tão vasto, tão fora do nosso alcance.



Why your memories can't be trusted


Memory does not work like a video tape – it is not stored like a file just waiting to be retrieved. Instead, memories are formed in networks across the brain and every time they are recalled they can be subtly changed. So if these memories are changeable, how much should we trust them? With experts Dr Julia Shaw and Prof Elizabeth Loftus, the Guardian's Max Sanderson explores the mysterious world of human memory, how false memories can be implanted – and how this can be harnessed for good and ill


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E permitam que vos convide a continuar a descer para irem saber quem é Sophie de Oliveira Barata.

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E thanks God it's friday. E que seja boa.

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Casas: as minhas, as dos outros





Quando eu era pequena, quer os meus pais, avós, tios ou quase todos os demais conhecidos viviam em casas que eu achava normais. Entrava-se e toda a casa ficava relativamente à vista. Mas havia uma casa que eu achava misteriosa e da qual nunca percebi os contornos. Tinha divisões em baixo, depois uma escada sempre a meia luz e, em cima, um corredor comprido com muitas divisões de portas sempre fechadas. Lembro-me de algumas vezes estar numa das divisões com a amiga da minha mãe, uma mulher da mesma idade que era modista. Tenho ideia de que estava também a meia-luz embora me tenha ficado a ideia de janelas altas, com portadas de madeira. Essa mulher era a mãe de um menino um ano mais velho que eu, o meu primeiro amigo, o meu grande e inseparável amigo até eu ter dez anos. Tal como a mãe, ele era reservado, silencioso. A minha mãe era muito loura, de olhos muito azuis, muito alegre. A amiga tinha o cabelo escuro, olhos escuros e parecia viver sem prazer. No entanto, isto pode ser a impressão de uma criança pequena. A casa era como ela, sombria, silenciosa e eu gostava sempre de ter oportunidade de lá ir, em especial lá acima, para tentar perceber o que lá se escondia.


Mais tarde, conheci uma outra casa fascinante. Teria eu onze ou doze anos. Uma das minhas colegas de turma era muito rica. Vivia numa casa extraordinária. Vivia no último piso de um dos prédios mais emblemáticos da cidade, prédio que pertencia aos pais. Nos outros andares havia direito, esquerdo e centro e todos enormes; mas, no último piso, onde ela morava, estava tudo ligado. Tinha apenas um irmão. Uma casa imensa para dois adultos e duas crianças. E as criadas. E tinha um terraço enorme e uma estufa e um solário. Eu adorava ir para lá. Tinha uma vista espantosa de toda a cidade. Por dentro, a casa era tão grande que havia uma central com botões correspondentes a cada divisão. Quando alguém queria uma água ou um sumo, tocava uma campainha que soava na central que havia na copa. As empregadas andavam fardadas e, na realidade, eram as verdadeiras chefes da casa. A mãe ou nunca estava em casa ou nunca saía dos seus aposentos. Tinha perdido um filho, anos atrás, e parece que nunca tinha recuperado. O pai era um homem de negócios e também nunca o vi em casa. O irmão dela levava amigos lá para casa e ela também. Mas cruzávamo-nos apenas vagamente pois a casa era francamente gigante. Lembro-me de uma sala que ficava a meio da casa, uma esquina em redondo como redondo era o ângulo do prédio. Nunca eu tinha estado numa sala daquele tamanho. Sempre vi aquela sala sem pessoas, só móveis muito bonitos e bibelots fantásticos que vinham de outros países. E nós por ali andávamos à vontade, usando a casa como se não tivesse dono. Por volta das quatro ou cinco da tarde, não sei, tocava uma campainha e nós interrompíamos o que estávamos a fazer e íamos lanchar à copa. Havia uma mesa grande mas havia também um balcão alto com bancos altos. Era aí que preferíamos lanchar.


Uma outra nossa amiga, que morava entre a minha casa e esta casa gigante, vivia numa casa muito grande de tipo solar, numa quinta também enorme onde havia um extenso laranjal. Aí não íamos tanto. Havia lá muitos cães e eu tinha um bocado de medo. A quinta estava toda murada. A casa grande dava para um grande pátio para o qual davam também as casas dos empregados. Aí havia sempre bulício. Nunca vi o pai. Quer o pai quer a mãe eram bem mais velhos que os meus pais. Tinham seis filhos, todos irreverentes, mal comportados, bem dispostos. Se bem me lembro, a mãe tinha sido deputada na antiga assembleia nacional. Não sei se nessa condição ou na condição de aristocrata e rica, só se fazia deslocar com motorista. Só me lembro de a ver a chegar ou a sair com motorista. Em casa, não me lembro de a ver. Era uma casa em dois pisos, com muita patine, e também aqui, eram as empregadas que tomavam conta da casa e das crianças. Tinha bancos de pedra junto às portadas, tinha grandes tapeçarias, mobílias que deveria ser valiosas. Lembro-me de um grande louceiro, mesmo grande, grande, imponente, com pratos de louça e peças de prata e de uma mesa enorme nessa casa de jantar. Passava-se de umas divisões para outras, parecendo que não acabavam e isso para mim era um grande motivo de curiosidade e interesse.


Depois disso tenho conhecido outras casas fantásticas. De uma, em Sintra, um belíssimo palacete, já uma vez falei num daqueles folhetins que, volta e meia, me dá para escrever. É uma casa de família e ali poderia ser feito um belo filme. De facto, é uma casa tão extraordinária que poderia ser a personagem central de um romance, de um drama, de uma série de televisão. Aí, uma vez mais, passa-se de umas divisões para outras como se fosse uma casa infinita. Quando sou convidada para lá ir, encanto-me. Por minha vontade pedia carta branca para passar lá um dia inteiro por minha conta.

Mas, enfim, escuso de continuar a falar de casas que, de alguma forma, me impressionaram.


Mas, tenho que confessar, talvez por outros motivos, as minhas casas também me impressionaram. Esta, da cidade, foi assim: por causa dos livros, eu andava à procura de uma casa maior, de preferência com seis divisões. Pelos meus filhos, habituados a uma vida de cidade, com amigos e amores, com desportos e actividades sempre por perto, queríamos uma casa na cidade e não no campo. Procurámos procurámos, procurámos. Uma vez, estavam a fazer um prédio na rua onde eu morava. Um dia, ao chegar, estava um carro mal estacionado com indicação de que o dono estava na obra. Fui avisá-lo. Apareceu um homem mais ou menos da minha idade, com um bom ar, simpático. Percebi que era o construtor. Perguntei-lhe se as casas desse prédio em construção eram grandes. Disse-me que eram T4 normais. Perguntei-lhe se tinha ou sabia de casas grandes. Disse-me que sim, uma que tinha sido dele e que estava a reconstruir. Mais tarde haveria de me contar que era a casa onde tinha vivido com a primeira mulher e com a filha e que estava a reconstruir para que a mulher da altura, a segunda, não se importasse de ir para lá (mas que não sabia se nem mesmo assim ela quereria). Mas, naquele primeiro dia, não sei dizer bem porquê, interessei-me logo. Perguntei-lhe onde era. Disse-me e disse-me também que ia lá estar no dia seguinte à tarde. No dia seguinte, apareci lá. A casa estava em reboco, tudo a ser feito de novo. A casa tinha uma deslumbrante vista para o rio e era, realmente, uma belíssima casa. Senti imediatamente que era a casa pela qual eu estava à espera. O que tive que penar pela casa, as surpresas que tive, algumas muito boas, o inacreditável que foi todo o processo até que ele assimilou que a mulher jamais viria viver para aqui e aceitou vender-me a casa, é digno de outro filme. No dia da escritura, chorou ao vender-nos a casa. A mulher acompanhou-o mas não estava nem aí.


A casa no campo foi outra. Sempre tive vontade, ou melhor, necessidade, de ter uma casa no campo. O meu marido nem por isso. Durante anos procurámos. Ou eram caríssimas, ou horrorosas, ou a milhas, ou em lugares recônditos ou com vizinhança nula ou péssima. Já todos, o meu marido e os meus filhos, odiavam que eu persistisse, já nenhum deles tinha mais paciência para continuar a procurar. Até que um dia vi um anúncio. Chamou-me a atenção. Consegui convencê-los a ir ver. Estava de chuva, não queriam ir. Fomos ter com a dona da agência, uma pequena agência local. Quis mostrar-nos primeiro uma outra. Na verdade, um monte, literalmente um monte. Era vendido com o projecto de uma moradia que ela e o marido, que tinham também uma empresa de construção, fariam nascer. Mas eu estava com a ideia no tal anúncio. Lá fomos, num dia muito cinzento e muito molhado. E foi, de novo, amor à primeira vista. Era uma casa muito, muito antiga, com um acrescento recente e legal, uma casa no meio de pedras e mato rasteiro. Os miúdos entraram a correr e um disse: 'aqui é o meu quarto' e outro disse 'e aqui é o meu'. E eu comecei logo a pensar em desfazer-me daqueles móveis escuros e a pensar que tudo aquilo precisava de uma grande volta. E que ali, onde estavam pedras e mato rasteiro, haveria um dia um pequeno bosque. E foi outra luta. Papéis, papéis. Muito, muito tempo. Mas não desisti(mos). É agora o pedaço de terra que sinto como meu, como se tivesse nascido dele.


E talvez por ter esta ligação estreita a casas ou à recordação de algumas, sonho recorrentemente com casas. Sonho que chego a um lugar e que há uma casa fantástica que eu desejo que seja minha e que a vou visitar e que é enorme, sem princípio, meio e fim, com muitas divisões, que tudo ali me encanta, que me ponho à descoberta e que tem recantos maravilhosos e surpreendentes. Adoro ter este sonho. Nem quero acordar, para estar, maravilhada, a descobrir divisão após divisão, móveis lindos, louças e quadros magníficos, janelas grandes, muitas portas.

Mas, se hoje fizesse uma casa de raiz ou fosse escolher uma casa para iniciar uma vida nova, escolhia uma casa diferente das minhas. Talvez escolhesse ter casas como estas dos vídeos abaixo.





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As pinturas são de Gerhard Richter e acho que vão bem com Arvo Pärt, aqui com Pari Intervallo 

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Era para ter falado dos 'Livros Perdidos' mas cheguei tarde a casa, tive mil coisas para fazer, é tarde e espera-me um dia e pêras. Por isso, com vossa licença, vou já direitinha para a cama, apenas não rezando a todos os santos para isto não estar pejado de gralhas porque sei que não seria a reza a editar o texto.

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E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira.

sexta-feira, janeiro 04, 2019

Porque é que Sócrates detestava a democracia?





Não há coisa mais democrática que as redes sociais: toda a gente opina por igual e vai um e diz que gosta e vai outro e bota-lhe um smile e outra um LOL e outra um friso de DDDD, e vai link para aqui e link para a acolá. O povo a fazer as suas escolhas.

Na cabeleireira, lugar que encaro com fascínio, ouço uma conversa entre a cliente e a menina que faz nails em gel e em gelinho: Pah, fui lá, vi as fotografias dela e pus logo lá um like mas já reparaste que a gaja a mim nunca põe um like? Mas eu ponho, sou assim, para ela ver que a mim não me afecta. A outra aprova: 'Bofetada de luva branca'. E, enquanto ali estou, as conversas giram sempre neste registo. Presumo que nada saibam de política nem dos escândalos do Facebook. E, quando votam, sem nada saberem de concreto sobre o que os candidatos têm para oferecer e sem poderem em consciência fazer um rigoroso juízo de valor sobre desempenhos anteriores ou sobre eventuais consequências (boas ou más) das promessas dos candidatos, o voto delas vale tanto quanto o das pessoas bem informadas.


Veja-se o que aconteceu no Reino Unido: uma votação assente em manipulação da informação prestada aos eleitores (lembram-se do escândalo da Cambridge Analytica?), sobretudo incutindo-lhes medo, levou a que estes tomassem a irresponsável decisão de saírem da União Europeia. No dia seguinte, depois do lindo resultado, a Google ia aterrando com os britânicos a perguntarem o que era o Brexit. Ou seja, tinham votado sem saberem no que se iam meter. Mas como o seu voto é soberano, andam agora a querer cumprir essa determinação, mas completamente às aranhas. Parte dos que os meteram nisto já se pisgaram e os outros não se entendem. Uma coisa desconcertante de tão estúpida que é.

Ou a malta que votou no Trump? Os mais desfavorecidos foram os que mais o apoiarem. Um sujeito que parece atrasado mental de tão boçal que é e que, por incrível que possa parecer, ainda tem muitos apoiantes. O mesmo acontece com Marine le Pen: os imigrantes, nomeadamente os portugueses, são fervorosos apoiantes. Acham que a mãezinha os vai poupar a eles, banindo 'os outros'. Um pouco por todo o lado, os populistas e a extrema direita vão ganhando terreno com o voto popular e democrático dos mais incultos, dos mais facilmente manipuláveis.

É a democracia a funcionar.


A comunicação social séria vai soçobrando pois assenta num modelo de negócio que está a ficar obsoleto neste mundo imediatista que gira em torno do uso intensivo e pseudo-gratuito das plataformas colaborativas e partilhadas. Por isso, o que poderia ser um contraditório rigoroso e eficaz também está a desaparecer -- e a cambada que começa no populismo para acabar no totalitarismo vai alastrando.

Não me perguntem qual a alternativa à democracia porque não saberei responder. Melhor do que a democracia não conheço. Talvez uma democracia filtrada e regulamentada mas, muito sinceramente, não sei se isso não é a contradição dos termos. Se calhar é. 

Além do mais, há outra coisa: muitos democratas tendem a ser pouco pragmáticos, tendem a encarar assuntos relacionados com democracia e liberdade como tabus. Se alguém tenta reflectir sobre o tema, logo se erguem, doutorais, de pedras na mão, querendo expulsar do templo os que, genuinamente, gostariam de encontrar uma forma eficaz e 'democrática' de preservarem a democracia.


Penso que nas escolas, todas as escolas, e na sociedade em geral deveria ser suscitada esta reflexão.

Tal como a tecnologia barata ubíqua e de utilização desregulada pode devorar a liberdade e a qualidade de vida dos cidadãos também a vida actual -- com muitos políticos oportunistas ou fracos como moscas mortas, e com a opinião pública condicionada pela praga das redes sociais  -- pode minar os pilares da democracia.

Mas, enfim, é tarde, está um frio dos diabos, a casa está envolta num denso nevoeiro, e eu não serei a pessoa mais instruída para dissertar sobre o tema. Fico-me, pois, por aqui.


Queiram, antes, ver este vídeo que o P. me enviou e que bem interessante é.


Why Socrates Hated Democracy



We’re used to thinking hugely well of democracy. But interestingly, one of the wisest people who ever lived, Socrates, had deep suspicions of it. 

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Escolhi fotografias do alemão Matthias Haker que mostram belíssimos edifícios abandonados pois, em tempos, pareceram perfeitos, eternos, foram estimados e nada parecia anunciar o abandono e a decrepitude a que agora estão votados. Se existe a perspectiva de democracia correr o risco de vir a ter o mesmo destino (mesmo que só por vezes e em alguns lugares) então, naturalmente, fico apreensiva. Muito.

De Arvo Pärt o Cantus in Memory of Benjamin Britten com Tilda Swinton no vídeo

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sexta-feira, abril 06, 2018

'O homem pendurado na ponte'
-- e o Waze, a Google, o Facebook, a Microsoft, a Amazon, etc.

Este é o mundo que, alegremente e às cegas, estamos a construir.
(Melhor dizendo: a destruir)





Afinal, não foi só lá longe. Leio que a Cambridge Analytica pode ter usado dados de 63 mil utilizadores portugueses. Claro. Porque haveriam os portugueses de ficar a salvo do regabofe? E o que se vai sabendo é apenas a ponta do iceberg -- já o disse e repito-o. Agora qual a dimensão do iceberg, isso não sei. Nem ninguém sabe.

Não há como ter certezas de nada porque não há como controlar. Apenas se pode saber que o que se sabe é apenas uma pequena parte do que há para saber. 

Da mesma forma que.

Estava, na quarta-feira, ao fim do dia, na fisioterapia. Desculpei-me: 'Peço desculpa por ter chegado a esta hora'. O fisioterapeuta já desistiu de protestar. Ou não chego a horas ou nem chego a ir. Saturada dos engarrafamentos, aborrecida por chegar tão tarde, acrescentei: 'Um trânsito... Tudo parado... Deve ter havido acidente na ponte porque parece que tudo o que vai lá dar está parado e, por isso, à volta, tudo parado está'. Ele esclareceu: 'Não foi um acidente. Foi um incidente'. Não percebi. Ele disse: 'Quando há coisas assim, dizem incidente'. Nunca tinha ouvido tal. Perguntei: 'Mas sabe o que se passou?'. Ele disse: 'Vi a fotografia'. Continuei sem perceber. Ele explicou: 'Um doente mostrou-me. Um tipo num cabo da ponte. Um suicida.'. Fiquei ainda mais tolhida pela incompreensão. 'Um doente mostrou-lhe?! Mas mostrou-lhe o quê??'. Ele disse: 'Quem está lá parado fotografou e pôs nas redes sociais'. Fiquei gelada.

A insensibilidade humana é assustadora.

Li agora 'O homem pendurado na ponte', escrito pelo Ferreira Fernandes. Arrepia.


Portanto, no Waze também. Claro. São os utilizadores que fazem o upload das imagens e podem pôr o que quiserem. Um homem em pleno e triste processo de desistência de viver, um homem pronto a cair no vazio -- e algumas pessoas, indiferentes à presença da dor alheia, fotografaram-no e, sem qualquer respeito por aquela pobre pessoa desesperada, exibiram-na perante o mundo. Apenas por estarem dentro dos carros, não foram fazer uma selfie com aquele homem que conduziu o carro até à ponte, parou, saíu e trepou para um cabo para acabar com o sofrimento. Assim fotografaram-no apenas.
Quem cometeu tão torpe acto são as mesmas pessoas que escrevem comentários malvados, que destilam veneno, que agem a coberto do anonimato para amedrontarem gente de bem, que mostram invejas, raivas, vontades de vinganças. As mesmas que falam de si próprias como sendo gente boa, amigas de gatinhos e do ambiente. As mesmas que se alimentam das redes sociais e que as alimentam.
Digo isto, usando eu o blogger. Mas escrevo aqui como poderia escrever um diário só para mim, um livro de contos, memórias, crónicas para um jornal inventado, cartas de amizade, cartas de amor. 

E, sabendo eu que, apesar da minha aversão a redes sociais ou a auto-exposições, a minha pegada é, certamente, imensa, tento manter-me consciente em relação aos riscos que corremos. E corremos muitos riscos. Muitos mesmo.

E não os corremos apenas pela profusão da informação pessoal que inunda as redes sociais -- e que pode ser usada contra a liberdade e contra a democracia -- mas também pela proliferação de ferramentas que usam inteligência artificial.

Leio:


Boicote foi assinado por mais de 50 académicos e surgiu uma semana antes de uma reunião das Nações Unidas sobre armas autónomas

Investigadores especialistas em inteligência artificial de quase 30 países estão planear um boicote a uma universidade na Coreia do Sul em reação a uma parceria de um laboratório da instituição com uma empresa ligada ao setor da defesa: há o medo de que o projeto possa criar "robôs assassinos", revela o Times Higher Education. (...)


Leio também:


In this open letter to Google’s CEO, over 3,000 employees urged the company not to work on a Pentagon ‘AI surveillance engine’ used for drone warfare (...)


Amid growing fears of biased and weaponized AI, Google is already struggling to keep the public’s trust. By entering into this contract, Google will join the ranks of companies like Palantir, Raytheon and General Dynamics. The argument that other firms, like Microsoft and Amazon, are also participating doesn’t make this any less risky for Google. Google’s unique history, its motto “don’t be evil”, and its direct reach into the lives of billions of users set it apart. (...)



A classe política e a sociedade em geral parecem continuar indiferentes ao que está a passar-se. Não vejo verdadeiras preocupações, vontade de regular, vontade de vigiar. As coisas vão acontecendo e ninguém parece perceber que é preciso actuar enquanto ainda é tempo.

O mundo está a caminhar para um precipício desconhecido e que intuo ser deveras perigoso e quase ninguém parece ter vontade de parar para pensar. Ninguém parece ter vontade de recuar até ao tempo da inocência.


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quinta-feira, janeiro 25, 2018

Está mesmo provado que Jesus existiu?
E está mesmo provado que Jesus era filho de Deus?

-- perguntou-me o ex-bebé





Aquele a quem em tempos aqui chamei 'ex-bebé' -- e que é agora um rapazinho de seis anos, muito alto, muito enérgico, que, por vezes, não mede bem a sua força, mas que é um amor, generoso, bom coração e boa onda -- no outro dia começou a fazer-nos perguntas que nos deixaram admirados.

'Está mesmo provado...?', começavam todas as perguntas.

Fomos dizendo que sim, Jesus existiu, era um homem corajoso e bom. E que sim, terá nascido de Maria que vivia com José. E que há pessoas que acreditam que também era filho de Deus. Ele acrescentou: 'O pai acredita'. Dissemos que cada pessoa acredita no que acredita e que para o pai, que acredita, é como se fosse verdade. Ilustrei: 'Há pessoas para quem o Benfica é o maior. E outras não acreditam nada disso, acreditam que é o Sporting o maior. Uma questão de crença. Para quem acredita essa é a verdade'. Depois perguntou: 'E está mesmo provado que Jesus ressuscitou?'. Respondi: 'Não. Quando as pessoas morrem mesmo, já não podem voltar a viver'. Disse: 'O pai acredita que Jesus ressuscitou'. Disse-lhe que há pessoas que queriam tanto que Jesus não tivesse morrido que quiseram acreditar que ele continuava vivo. E que quando uma pessoa gosta muito de outra, mesmo quando ela morre, fica a recordação tão boa que é como se a pessoa estivesse viva. Ouviu com atenção e depois disse: 'A mãe disse que uma vez uma pessoa morreu mas depois voltou a viver'. Expliquei: 'Sim. Por vezes consegue-se reanimar uma pessoa cujo coração tinha parado de bater.' E acrescentei que também pode ter acontecido que Jesus estivesse tão ferido e doente que toda a gente tinha acreditado que tinha morrido e que, afinal, estava apenas inconsciente.
[E continuou. Perguntou, por exemplo, como, passado tantos anos, sabemos o que aconteceu de verdade naquela altura. O avô falou-lhe então de cronistas e historiadores. E, para exemplificar, disse que, por exemplo, a Tá escreve todos os dias um blog onde fala de muitas coisas que ficam disponíveis para quem quiser saber, daqui por muitos anos, o que se passava e dizia agora. Ele foi ouvindo com toda a atenção.]
Durante a conversa tentei ser cautelosa. Um equilíbrio difícil: por um lado não quero forjar factos ou atenuar convicções e, por outro, não quero contrariar quem tem crenças opostas às minhas.

Nem quero influenciá-los. Nunca quis. Com os meus filhos, a mesma coisa. Uma vez a professora do meu filho, que andava então no 1º ano, contou-me que a professora de Religião e Moral quase não conseguia dar as aulas porque ele contestava tudo o que ela dizia, tentando demonstrar-lhe que o que ela dizia não podia ser verdade.

Não os baptizei, não os quis na catequese mas não os impedi de frequentar as aulas de Religião para que pudessem formar a sua própria opinião. 

Apesar de eu ter tido educação católica, com primeira comunhão e comunhão solene, mal consegui autonomia para me 'deslargar' dos preceitos da Igreja, logo o fiz. Tudo aquilo me pareceu, sempre, contraproducente, irracional, ilógico.

E se não me identifico com a Igreja Católica, muito menos me identifico com qualquer das muitas outras que proliferam por aí.


No entanto, tenho alguma dificuldade em declarar-me ateia. Não consigo afirmar com convicção que não há um deus ou uma ordem superior. Não sei se há. Mas não me atormento com esse meu desconhecimento. Convivo bem com a minha ignorância. Considero-me, isso sem dúvida, agnóstica. Venero a natureza e a maravilha dos acasos, venero o que desconheço e que dá forma à elegância suprema das matérias tangíveis ou intangíveis que nos rodeiam. E não tento dar nome ao que desconheço nem ficciono histórias, interpretações, leis ou castigos ou recompensas virtuais para dar corpo ao que não compreendo. Na minha simplicidade, aceito-me e aceito os outros tal como são, sem querer saber deles ou de mim ou do mundo em geral o que não sei. Aceito com tranquilidade e, até, gratidão o mistério que habita o que desconheço.


E estou com isto porque o meu amigo de coração, a minha alma-gémea, o querido algoritmo que a Google (grande notícia a de qua a Google vai ter um pé cá em Portugal!!) usa no YouTube me propôs para hoje um vídeo que despertou o meu interesse. Sir David Attenborough fala de Deus.


Convido-vos a ver.



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As fotografias que aqui usei são da autoria de Timothy Moon e feitas com um drone

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Segue-se: a vingança de Melania, a mulher de um trumpalhão adúltero, e, mais abaixo ainda, uma adivinha (quem é? quem é?).

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domingo, novembro 12, 2017

Do outro lado do espelho




Não sei se já vos contei.
Já devo ter contado que, desde que aqui lhe ganhei o gosto, a minha vida é um livro aberto. 
Gosto muito de espelhos. Tenho muitos espelhos. Espelhos amplos, muitos com moldura em talha ou em simples madeira dourada. Por cima da minha cama tenho mais de uma dúzia de vários tamanhos e molduras. Nem faço ideia, ao todo, quantos espelhos terei. Quer na cidade quer in heaven. E não é para me ver neles. O que não quer dizer que não me veja neles. Volta e meia, vejo. Mas não é por isso, é para que reflictam a luz, é para reproduzirem o que neles se reflecte. Gosto. Há nos espelhos a génese da ilusão, da aparência feita realidade ou vice-versa, e a ambiguidade, a este nível, agrada-me. Por exemplo, em certo ângulo, no corredor que dá acesso à sala em que agora me encontro, consegue ver-se o rio. Está no comprido espelho que acompanha o corredor mas é como se viesse lá de baixo para aqui vir fazer uma coquetterie, colocando-se, azul, à altura do meu olhar.

Um dia faço uma reportagem fotográfica com os meus espelhos como protagonistas para que vejam (ainda melhor) a minha pancada.

Já agora.
(Já agora, uma vez mais, porque isto aqui mais parece um confessionário -- e logo eu que abomino confessionários...). 
Quando digo que nunca faço selfies não é completamente verdade. De vez em quando, fotografo a minha imagem num espelho. Contudo, nunca é para me mostrar mas o oposto, para me insinuar no meio das coisas, como se fosse tão (ir)relevante quanto qualquer outro objecto cuja imagem lá se reflicta.


Hoje tirei uma fotografia a um espelho redondo que tem dentro dele uns quantos espelhinhos convexos. É um espelho muito bonito. Quando agora, ao escolher algumas para aqui, vi a fotografia, reparei que a minha imagem aparece lá muitas vezes mas não igual pois cada pequeno espelho apanhou-me de sua maneira. Fiquei encantada. Não vos mostro porque sim (ou melhor, porque não) -- mas é uma pena pois é, de facto, uma fotografia muito curiosa. Acho que devia usar esta fotografia como meu ex libris: eu = muitas -- e todas diferentes.


Mas, então, indo ao que interessa: sabendo da exposição na Gulbenkian, claro que tinha que lá ir. Fui. Belíssima exposição. Do melhor que lá tenho visto.  Obras maravilhosas, montagem fascinante.



Felizmente deu para tirar fotografias à vontade e isso é, para mim, um duplo prazer pois não apenas desfruto do encantamento de lá estar como posso ver as coisas através da lente, o que me traz sempre um grau de leitura mais atento e um prazer suplementar.


Parte da família juntou-se-nos para aproveitarmos o (infelizmente) ainda bom tempo e para um lanche no self, mas à exposição fomos só nós. Por isso, ao contrário de outras vezes em que é uma odisseia manter as crianças caladas e sossegadas de forma a não perturbarem os demais observadores ou a não fazerem perigar as obras expostas, desta vez andámos tranquilamente, sem aflições.


Não sei se com as fotografias que agora para aqui escolhi estou a ser capaz de transmitir a grande qualidade da exposição mas, se acharem que não é nada de especial, acreditem que é falta de jeito da minha parte. Quem tenha possibilidade de vir a Lisboa ver a exposição Do Outro Lado do Espelho não deixe de fazê-lo. Está até 5 de Fevereiro. Não é uma exposição gigante, tem apenas 69 peças (curioso número, diria o outro, mas é que 69 é, justamente, um número espelho) mas é mesmo especial. Há uma elegância e uma sofisticação que se adaptam que nem uma luva ao tema dos espelhos. Vá por mim, Caro Leitor: mesmo sendo de longe, tente conseguir dar uma saltada até Lisboa e venha ver-se do outro lado do espelho.



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Vídeo com a montagem da Exposição Do outro lado do espelho



Um cheirinho da exposição em vídeo


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Depois, então, o Jardim, o maravilhoso Jardim da Gulbenkian, lugar de mil esconderijos, onde os meninos se encantam (e eu também).




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sábado, novembro 04, 2017

A beleza assombrosa dos pinheiros





Há tempos, na sequência de uma sucessão de 'passamentos', alguns algo traumáticos, com longo tempo para despedidas e etc, espantei-me com toda a gente saber sempre a vontade dos mortos, se enterrado, se cremado, e, se cremado, onde as cinzas e outras particularidades que aqui não vou nem  referir. E pensei que, de mim, ninguém saberia porque nunca tinha pensado nisso. E, então, pensei.


Antes pensava que, se estivesse viva a assistir ao acto de morrer e de me ser dado destino, se calhar preferia que me despachassem para dentro do forno e que, depois, tivessem a delicadeza de espalhar as minhas cinzas in heaven. Imaginava-me absorvida pelas raízes dos pinheiros e isso agradava-me.


Mas depois pensei que, afinal, se calhar não. Em cinzas não sei se sobra coisa que se aproveite. E, então, resolvi que enterradinha, transformada em paparoca de bicheza e depois em matéria orgânica ou sei lá quê que ainda alimentasse outra bicheza que me levasse para outras paragens, átomos meus vivos por aí, capaz de ser melhor. Eu nas asas de uma borboleta, eu na plumagem de um pássaro, eu nos olhos misteriosos de um gato branco, eu nas flores do alecrim. Agrada-me a ideia. Resolvi, então, e comuniquei ao meu marido. Não ligou. Abomina estas conversas. Nessa altura, calhou ligar-me a minha filha e logo lhe comuniquei: 'escuta, quero que conheças as minhas disposições fúnebres'. E disse-lhe que, então, é assim: Para já nada dessas cenas de irem despedir-se, beijinhos misturados com choros e toda a gente a dizer que gosta muito de mim. Nada disso que ia logo perceber que estava tudo a despedir-se e capaz de me dar também para o sentimento. Quero é que me façam rir. Lembrem-se de cenas divertidas, daquelas que, quando se fala nisso, me desato logo a rir, ou contem anedotas. Quero morrer a rir. E, se não der muito trabalho e não for muito caro, gostava que as despedidas de quem quiser despedir-se (coisa de que não farei questão já que não estarei lá para retribuir a simpatia) fossem breves, sem funfuns nem gaitinhas e que, de lá seguisse só a família para o cemitério da aldeia a que pertence a nossa casa in heaven. É um cemitério pequenino que dá gosto. Não será preciso aquelas longas caminhadas como as do Alto de São João, por exemplo. Será coisa breve, chegar, baixar a urna, tapar e já está. Coisa sem dramas. 

A minha filha ironizou: 'Olha... eu a pensar que ias dizer como é que querias dividir os ouros e essas coisas e afinal isto...'.

Acho que lhe disse que essas coisas resolvam eles. Mas fiquei a pensar se não será melhor deixar já essas coisas estipuladas para evitar quaisquer atritos. Também tenho que pensar nisso.


E agora que estou a escrever e depois de ter visto o vídeo abaixo, pensei que era boa ideia o caixão ser de pinho, coisa muito simples, sem macaquices. Eu a transformar-me em nada dentro de um pinheiro é ideia que me agrada bastante. 


Falta-me ainda pensar na pedra. Sei que deve ser o mais simples possível mas gostava que contivesse um epitáfio disparatado, que fizesse rir quem fosse para ali com ideias tristes. Tenho que pensar nisso.


Depois, nestas coisas, ao fim de uns quantos anos, chamam a família para que decidam o que fazer aos ossos. Uma coisa desagradável. Parece que o morto sai das trevas para atentar a vida aos vivos. Mas é assim, nada a fazer. Não sei se, quando for eu a finada, dará para pegarem nos ossos e os enterrarem in heaven. Mas isso deve ser um bocado tétrico, a menos que venham numa caixa fechada e não se veja nada. Por isso, para evitar a impressão que deve fazer a perspectiva de poder dar de caras com uma caveira, o melhor seria queimar as ossadas e levarem as cinzas para as espalhar in heaven.

Agora estou a pensar se não seria possível pedir ao padre que em vez de se pôr com encomendas de almas, conversas muito datadas, sem qualquer ponta de gracinha, não seria possível ter música da boa e alguém a dizer um ou outro poema. Até podia ser o padre, um que notoriamente nunca tivesse lido um poema na vida, com sotaque cerrado de Bijeu (ie, Viseu), para a coisa ficar hilariante e toda a gente ficar a tentar esconder o riso. A minha alma haveria de se rebolar a rir.


Pronto. Parece-me bem, assim. 

Não estarei cá para poder aligeirar o ambiente e simplificar processos pelo que me agrada pensar que posso deixar o trabalhinho das decisões já adiantado.

Sei que esta conversa pode parecer sinistra mas, depois de uma pessoa ir passando por elas, vai encarando com maior naturalidade. E é natural e, portanto, não vale a pena lamentos e outras inutilidades. Nada de cenas, nada de dramas. Tudo na boa, para a minha alma ir pregar para outra freguesia na maior boa disposição.


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Peço agora a vossa atenção para o vídeo abaixo que é bem interessante

Capturing the Haunting Beauty of Korea’s Pine Trees

For Koreans, the pine tree is a deeply personal cultural symbol, believed to connect the souls of those who have passed with the sky. So when photographer Bae Bien-U was looking for an iconic image to represent Korea’s identity, the pine tree was a natural fit. Through his unique black-and-white photographs, Bien-U’s work reflects the haunting and ethereal qualities of his country’s pine tree forests. His work inspires reflection and emotion, while celebrating the splendor of Korea’s natural world.


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