quinta-feira, janeiro 25, 2024
quarta-feira, janeiro 24, 2024
sexta-feira, julho 08, 2022
O silêncio do calor e o perfume dos orégãos
Passei o dia in heaven. Silêncio total. Nem os cães do outro lado da estrada ou ao longe se fazem ouvir.
Poder teletrabalhar é daquelas coisas boas que aconteceu na minha vida. Vou às instalações da empresa sempre que é preciso e, quando não é, trabalho a partir de casa. Se isto tivesse sido opção em todos os anos que desperdicei enfiada no trânsito talvez a minha vida tivesse sido bem melhor.
Digo isto e, mal acabo de escrever, faço uma pausa. A questão é que não estou absolutamente certa disto. É certo que foram horas e horas perdidas mas é também certo que nos habituamos a tudo. Tinha a vantagem de ouvir boa rádio enquanto conduzia, tinha a vantagem de poder fazer compras e tratar do que tinha a tratar à hora de almoço. Agora eliminei muito desse tempo absurdo gasto no trânsito mas preenchi-o com trabalho. Agora, quando tenho que tratar de alguma coisa, quase me sinto culpada, parece que estou a baldar-me. E ganhei hábitos ainda mais arreigados do que os anteriores: ligam-me tarde e más horas ou enviam-me mails seja a que hora for e estou sempre disponível. Mesmo que não me apeteça, estou disponível. Um disparate.
Mas, dizia eu, passei o dia in heaven. À hora de almoço finalmente consegui ir tratar do que queria: apanhar orégãos. Um calor de ananases. Claro que o meu marido ficou todo arreliado, dizia que não era hora nem estava temperatura para isso.
Mas tinha que ser. Com este calor, os orégãos já estão a querer secar e, para ficarem bons e se aguentarem cheirosos e com sabor campestre durante todo o ano, têm que ser apanhados em flor, mas em flor perfumada e viçosa. Tal o calor que estava, vesti um fato de banho, apliquei protector solar 50 e fui à procura dos meus chapéus. Tinha dois, um dos quais um belo chapéu basco de abas muito largas e com uma fita encarnada que trouxe de Bayonne há alguns anos. Não os encontrei. Quando pintámos a casa, faz um ano, tivemos que retirar tudo o que estivesse à vista. Provavelmente escondi-os e agora não faço ideia onde. Ou isso ou a mulher do pintor que volta e meia lá ia e parecia não ser lá muito boa da cabeça achou que a ela é que eles ficavam bem (aliás, ficaram de ir acabar algumas coisas e nunca mais apareceram nem atenderam o telefone, nem a nós nem ao vizinho da ponta da rua que no-lo tinham recomendado).
Portanto, fui ao cabide dos bonés e escolhi um. Já agora, para poderem visualizar a cena, acrescento que nos pés usava uns chinelos de conforto, daqueles que as enfermeiras usam. Habitualmente uso-os em casa. Portanto, tudo a condizer. E foi, assim, naqueles preparos que avancei para o campo. Uma camponesa fora da caixa, digamos assim.
Um calor, um calor. Andava dobrada, na ceifa, a escolher as hastezinhas mais jeitosas, pezinho a pezinho, e a sentir a transpiração a descer do boné para a testa. Tive que ir lá acima umas três vezes não apenas para depositar os orégãos numa mesa como para tirar o boné, lavar a cara, beber água.
Por volta das seis e tal, a jornada profissional quase concluída, enverguei de novo o fantástico outfit com a diferença que agora fui descalça: fui regar as árvores da frente, dar uma arrumadela na casa e dispor os orégãos em cima de um lençol (lavado!) em cima da mesa para ficarem a secar.
E ainda voltei lá abaixo (calçada, claro) para apanhar mais um ramo deles para levar para a minha mãe. Seca-os também e creio que dá alguns aos meus tios e provavelmente também alguns às vizinhas e amigas. Mas este ano há poucos, apanhei muito menos que nos outros anos. Não sei porque será. Não encontro tomilho e os orégãos devem ser metade do ano passado. Só espero que não tendam a desparecer.
Quando lá voltar a ver se vou fazer nova monda pois creio que os que estão agora a secar não chegarão para nós e para distribuir.
Conclusão: chegámos aqui bastante tarde e ainda fomos dar uma volta com o urso peludo que tem estado meio abananado pelo calor.
Entretanto, iam chegando fotografias dos meus filhos. Do lado do meu filho, jantaram na praia e depois foram para o areal. Estava calor e lá é que devia estar-se bem. Do lado da minha filha, jantavam no terraço com vista para o rio. Talvez se fizesse sentir alguma aragem.
E foi isto.
Esta sexta-feira vai ser difícil. Vou ter umas reuniões complicadas, o tipo de reuniões que gostaria de evitar. As reuniões desta quinta serviram para as preparar. Há decisões que penso que ninguém gosta de tomar. Mas isto é como quando comprava peixe à posta no mercado. Se queria levar postas do meio, tinha que levar também um bocado do rabo e da cabeça, com mais espinhas. Isso era tanto mais assim quando se tratava do safio. Assim é a minha profissão: tem componentes aliciantes, desafiantes, tem outras compensadoras e depois tem estas, aborrecidas, enervantes.
E agora vou descansar. Amanhã respondo aos comentários. Hoje já não dá. Daqui a nada são três da matina e daqui a nada tenho que estar a pé e de cabeça fresca.
_________________________________________
E porque gosto muito de casas e de estar em casa e gosto do silêncio e da quietude, deixem que partilhe este vídeo
The Silence Of Rumah Fajar
Meaning “The House of Dawn” in Bahasa Indonesia, Ruham Fajar is located in Bali and designed by Studio Jencquel. Offering outstanding views of Gunung Agung, the Balinese most sacred volcano, the residence encompasses the local culture from the main door entrance to the materiality it has been chosen. Dive into this amazing project with the natural sound of Bali’s environment as its soundtrack.
quarta-feira, junho 08, 2022
Algumas receitas para uma feliz sobrevivência
Espero que, muito rapidamente, a indústria avance com processos de electrólise invertida ou de dessalinização ou de formação artificial de nuvens ou o escambau ou o diabo a quatro. Tecnologia e técnicos que saibam da poda há-os por cá. Têm é que ser lançados programas de investimento virados para isto. E tem que ser rápido. Entre o business case, a mobilização do capital, o desenho e projecto da solução, o procurement, a construção, os testes e tudo o que é preciso até que uma fábrica comece a produzir vão anos (ainda mais com a escassez de materiais que há). E há que ter operadores e técnicos de manutenção - e não os há. Ou rapidamente o país aposta intensivamente em escolas técnicas ou arranja maneira de 'importar' gente com esse tipo de formação. Tudo isto leva tempo.
A subida da temperatura média, a seca, o facto de vários dos nossos rios virem de Espanha (e, como seria de esperar, Escassez de água leva Espanha a reduzir caudais dos rios que entram em Portugal) fazem perspectivar que o que, em tempos, parecia um cenário apocalítico longínquo já comece a bater-nos à porta. Temos que interiorizar que sem água não há vida e que, se não há água, temos que fazê-la. Tal como temos que produzir energia a partir dos recursos naturais e renováveis, temos também que produzir água a partir do que há à mão de semear e que, tão cedo, não se esgota.
Espero que consigamos viver em paz, salvar o planeta, salvarmo-nos a nós da insanidade de alguns e vivermos, de forma sustentável (ou sustentada?), com recursos sabiamente geridos. Se é com carne produzida em fábrica de carne a fazer de conta, se é com insectos ou legumes que hoje desconhecemos, se é com algas e outros produtos do fundo do mar, eu não sei. Mas o engenho e a arte têm que se virar rapidamente para a nossa subsistência e para a do terroir que nos coube em sorte.
No meio disto teremos que nos blindar para podermos cuidar dessas premências e não corrermos o risco de, nos entretantos, ser invadidos e destruídos por assassinos tresloucados. O que até há uns três meses nem nos passava da cabeça, afigura-se agora ser de extrema relevância. Um doido varrido pode deitar a perder anos de desenvolvimento e anos de esperança de vida (das pessoas e do planeta).
E, last but not least, teremos que continuar a ser felizes e a tentar inebriar-nos com a arte, com a elegância, com a beleza, com a doçura dos bons momentos, com a melodia das palavras, com o voo dos corpos e dos pássaros, com a memória do passado e o sonho no futuro, com a ternura do afecto, com as mil e uma pequenas coisas da natureza.
_____________________________________
No estúdio com Claire Tabouret
Um vestido feito de vidro -- Iris van Herpen
Georgijs Osokins interpreta Fragile e conciliante do Lamentate de Arvo Pärt
Um quarto dos poemas é imitação literária / Herberto Helder dito por Fernando Alves
"Petite Mort", Pas de Deux numa coreografia de Jiri Kylian
sexta-feira, outubro 15, 2021
A moda dos Retiros
Alguém me falou numa reportagem que, no outro dia, passou na televisão sobre retiros. Fui à procura, pus a antar para trás e vi uns bocados, o suficiente para achar que por cada boa ideia que aparece há sempre quem logo a transforme em treta.
Quando, sem o saber, vivi numa casa de raparigas da Opus Dei, apercebi-me que faziam muitos retiros. Convidavam-me, por vezes de forma algo insistente, para os frequentar. Eram umas raparigas cinzentas, com saias pelo joelho, camisas abotoadas até ao pescoço. Eram todas boas alunas, beatas, sonsas. Cercavam-me para que participasse nas actividades da Casa -- o jantar com o Prior, o debate sobre o aborto, o Retiro, etc Claro que nunca participei em nada e até hoje ainda estou para perceber porque quiseram lá ter-me. Pensaram que me convertiam? Mas porque estariam interessadas nisso? Não percebi e não percebo. De vez em quando, à sexta-feira, lá iam todas para só regressarem no domingo à noite. Iam para o retiro. Antes preparavam farnel. Era o tipo de coisas que a animava. Vinham de lá em êxtase.
Mais recentemente, uma colega que pratica ioga começou a ir, pelo menos uma vez por ano, para um retiro na serra, num mosteiro. Deixava o telemóvel à porta, não podia levar computador nem falar com ninguém enquanto lá estivesse. Ela gostava, dizia que era uma tranquilidade imensa. De vez em quando vai para Barcelona, também para retiros destes.
Conheço um outro, rapaz dado a desportos radicais e com uma profissão paga a peso de ouro, que foi fazer um mês de retiro na Tailândia, longe de tecnologias, longe da civilização.
Muitas vezes já aqui o referi: o isolamento num mosteiro ou seja onde for a mim não me choca. Acho que até me atrai.
Poder não me preocupar com nada, poder estar em paz, em silêncio, jardinar, regar, ouvir os passarinhos, não ter que me preocupar com o que fazer para o almoço ou para o jantar ou, em alternativa, estar na cozinha a cozinhar para uma dúzia ou uma vintena de pessoas, estar longe de notícias ou intrigas, ter tempo para ler ou para, simplesmente, estar ao sol -- tudo isso me agrada.
Mas não me imagino posta em círculo, de vestido até aos pés e todas a outras também de vestido até aos pés, não me imagino a fazer ou a ouvir rezas, não me imagino a ouvir alguém com conversas da treta como se fosse coisa das profundidades, não me imagino organizada em grupinhos e tarefinhas como se tivéssemos regredido ao tempo da escola infantil. Não me imagino.
Não é a minha praia.
Primeiro, tinha que ser misto. Retiro só de mulher para mim não teria graça. Nem percebo que cena é essa de estarem só mulheres, todas um ar vagamente retrohippie, certamente todas vegetarianas ou vegans, todas parecendo levitar na maionese. Não percebo qual a graça. Deve ser uma seca mas uma seca das valentes.
Para além disso, retiro para ser bom de verdade, teria que ter massagem. Se penso em estar num retiro, penso logo nisso: massagem, de preferência ao ar livre, ao sol. De preferência perto de laranjeiras em flor. Música de fundo, sim. Podia ser canto gregoriano, sim, que é sexy para valer. Mas podia também ser blues ou jazz.
Ao ver o documentário e ao ver a procura danada que têm ocorreu-me que ora aí está um belo nicho de mercado para quem queira investir: um Retiro
- sem conotações de espécie alguma
- onde ninguém se saia com teorias de cão de caça
- onde seja proibido as pessoas porem-se em círculo, de mãos dadas.
- um lugar tranquilo,
- com actividades para quem queira
- ou lugares para descanso ou passeio para quem esteja afim é de mandar as actividades para o espaço,
- com liberdade total para cada um (desde que não colida com a liberdade dos outros)
- em contacto com a natureza
Deve haver outros sítios assim, mas mais cosmopolitas, melhor apetrechados. Mas era o lado nada cosmopolita de Entre-os-Rios que me agradava. Ao fim de semana, chegavam ao parque das Termas vendedores ambulantes que traziam toalhas bordadas, bolos regionais. E eu gostava de andar por ali.
Um retiro deve ser assim.
Um lugar simples, agradável, tranquilo, sem ninguém a maçar-nos ou a querer entreter-nos.
E que tenha jardins, recantos, zonas de sol mas também de penumbras e sombras, lagos, caminhos bons para passear, perfumes, silêncios, pássaros, regatos, segredos inconfessáveis, pecados sem arrependimento. E em que se possa dormir até à hora que se quiser. E boa comida.
________________________________________________________________
As fotografias foram obtidas na net e mostram sítios onde se deve estar bem.
Arvo Pärt - Solitudine - stato d'animo
__________________________________________________
Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Boas notícias. Esperança. Tranquilidade.
sexta-feira, julho 30, 2021
Pedro Tamen.
A morte de um Poeta
Estamos aqui parados
até que a luz nos veja
A morte de um Poeta
Estamos aqui parados
até que a luz nos veja
Pensava que não ia ser capaz. Fui fugindo e escrevendo outras coisas. Ainda não sei se vou ser capaz. Não me sinto à-vontade para escrever quando ainda estou sob a emoção de uma perda ou quando sinto que o motivo da escrita ultrapassa a minha capacidade para escolher as palavras certas.
Mas, por tudo o que devo a Pedro Tamen, acho que devo tentar mostrar o agradecimento e a pena que sinto pela sua partida.
De vez em quando há mortes que são duras. Pensei isso, por exemplo, quando soube que tinha morrido o Bernardo Sassetti. Já foi há nove anos e continua a custar-me. Continuo a pensar que há um lugar que ficou e ficará para sempre vazio. Diz-se que o tempo tudo cura. Mas há ausências que o tempo não cura.
Gosto de dizer, porque o penso, que há pessoas que não morrem porque vivem em nós não pela sua presença física mas pelo rasto que deixam. Quem escreve, existe pelas suas palavras e elas sobrevivem quando os seus autores perecem.
Tenho aqui ao meu lado os livros de poesia de Pedro Tamen. De todas as vezes que os li, li independentemente da pessoa física que os escreveu. Mas eu sabia que era alguém que ainda estava vivo e de quem eu podia esperar mais poemas.
Também várias vezes aqui o disse: na era pre-covid em que eu andava pelas livrarias, se via algum livro traduzido por ele, não hesitava. Livros traduzidos por Pedro Tamen eram garantia de ser do meu agrado. Não era apenas a escrita na tradução, era também a intrínseca qualidade literária das obras que ele traduzia.
Ninguém é eterno embora sejam eternas as palavras dos (bons) poetas. Mas há um lugar que fica eternamente vazio quando alguém como Pedro Tamen morre.
(Mas não vale a pena continuar a tentar. Não sou capaz. Não sei o que dizer. Sei o que sinto mas não dizer o que sinto.)
sábado, setembro 05, 2020
Palavras perdidas de mim
domingo, maio 03, 2020
sábado, abril 20, 2019
Onde se ouve a Sta UJM, sob um assombroso céu cor-de-rosa, a falar do deus fantástico que vive nas suas casas e a dizer palavras que beijam como se tivessem boca
Quando esta sexta-feira fomos, então, ver das roçadoras e quando o diligente funcionário explicava o seu funcionamento -- puxa o cordão, quando sentir que prende é que lhe dá a guinada, e descansa depois de usar não sei quanto tempo e etc. -- pensei que duvidava muito que o meu marido soubesse de todos esses cuidados. Por isso, mal o senhor se afastou, perguntei: não será que a nossa não está estragada e que tu é que não sabias estes preceitos todos? Ele olhou com ar de quem não sabia se devia ficar ofendido comigo se, ele próprio, estava nessa mesma na dúvida e disse: vamos embora.
Num àparte direi que a religião católica tanta roupagem coloca sobre os acontecimentos históricos que acaba por esbater a sua importância e por desvirtuar a singeleza das ilações que deles se poderiam retirar. Lembro-me sempre que o divórcio que em mim se operou relativamente à igreja católica teve lugar num dia em que as catequistas, por alturas da Páscoa, levaram à escola um vídeo sobre a traição, sobre o calvário, sobre a crucificação, sobre a ressurreição. E tudo era muito realista, muito assustador. E lembro-me de ter pensado que aquilo não era coisa que se mostrasse a crianças. Teria eu uns nove anos. E a religião sempre me foi apresentada como uma expiação para pecados que eu não sabia que tinha cometido, como um desfiar permanente de culpas, de interditos -- tudo coisas a que sou naturalmente avessa. Nunca me foi apresentada como um espaço de recolhimento interior, como a possibilidade de superação das nossas limitações através de um querer ilimitado que nasce dentro de nós. Nunca me foi apresentada como uma transcendência como a que se pode verificar no milagre permanente que testemunhamos na observação atenta da natureza.
Eis o pequeno vídeo deste meu pequeno recanto verde aqui in heaven. A Sophia e o O'Neill frente a frente e eu no meio falando no anjo fantástico que habita as casas em que vivo e dizendo palavras que nos beijam como se tivessem boca. E ouvem-se os passarinhos que é das coisas boas e alegres desta vida por vezes tão cheia de agruras e sustos e tristezas.
[A minha voz é o que é, involuntariamente sempre a meio caminho de se desvanecer num sussurro. Começo a convencer-me que nada há a fazer.]
A senhora em repouso in heaven e a poesia em verde com anjos e palavras que beijam
[Tentarei, durante este sábado, responder aos comentários de ontem. Hoje não consigo]
sexta-feira, março 15, 2019
Porque é que as nossas memórias não são de fiar
Há momentos marcantes na minha vida e penso que os guardo, com todos os pormenores, na minha memória. Poderia agora enumerar alguns mas são vários e, se me ponho e enunciá-los, fica isto longo demais.
Why your memories can't be trusted
Memory does not work like a video tape – it is not stored like a file just waiting to be retrieved. Instead, memories are formed in networks across the brain and every time they are recalled they can be subtly changed. So if these memories are changeable, how much should we trust them? With experts Dr Julia Shaw and Prof Elizabeth Loftus, the Guardian's Max Sanderson explores the mysterious world of human memory, how false memories can be implanted – and how this can be harnessed for good and ill
...............................................................
E permitam que vos convide a continuar a descer para irem saber quem é Sophie de Oliveira Barata.
.........................................................................
E thanks God it's friday. E que seja boa.
segunda-feira, janeiro 28, 2019
Casas: as minhas, as dos outros
Quando eu era pequena, quer os meus pais, avós, tios ou quase todos os demais conhecidos viviam em casas que eu achava normais. Entrava-se e toda a casa ficava relativamente à vista. Mas havia uma casa que eu achava misteriosa e da qual nunca percebi os contornos. Tinha divisões em baixo, depois uma escada sempre a meia luz e, em cima, um corredor comprido com muitas divisões de portas sempre fechadas. Lembro-me de algumas vezes estar numa das divisões com a amiga da minha mãe, uma mulher da mesma idade que era modista. Tenho ideia de que estava também a meia-luz embora me tenha ficado a ideia de janelas altas, com portadas de madeira. Essa mulher era a mãe de um menino um ano mais velho que eu, o meu primeiro amigo, o meu grande e inseparável amigo até eu ter dez anos. Tal como a mãe, ele era reservado, silencioso. A minha mãe era muito loura, de olhos muito azuis, muito alegre. A amiga tinha o cabelo escuro, olhos escuros e parecia viver sem prazer. No entanto, isto pode ser a impressão de uma criança pequena. A casa era como ela, sombria, silenciosa e eu gostava sempre de ter oportunidade de lá ir, em especial lá acima, para tentar perceber o que lá se escondia.
Mas, enfim, escuso de continuar a falar de casas que, de alguma forma, me impressionaram.
Mas, tenho que confessar, talvez por outros motivos, as minhas casas também me impressionaram. Esta, da cidade, foi assim: por causa dos livros, eu andava à procura de uma casa maior, de preferência com seis divisões. Pelos meus filhos, habituados a uma vida de cidade, com amigos e amores, com desportos e actividades sempre por perto, queríamos uma casa na cidade e não no campo. Procurámos procurámos, procurámos. Uma vez, estavam a fazer um prédio na rua onde eu morava. Um dia, ao chegar, estava um carro mal estacionado com indicação de que o dono estava na obra. Fui avisá-lo. Apareceu um homem mais ou menos da minha idade, com um bom ar, simpático. Percebi que era o construtor. Perguntei-lhe se as casas desse prédio em construção eram grandes. Disse-me que eram T4 normais. Perguntei-lhe se tinha ou sabia de casas grandes. Disse-me que sim, uma que tinha sido dele e que estava a reconstruir. Mais tarde haveria de me contar que era a casa onde tinha vivido com a primeira mulher e com a filha e que estava a reconstruir para que a mulher da altura, a segunda, não se importasse de ir para lá (mas que não sabia se nem mesmo assim ela quereria). Mas, naquele primeiro dia, não sei dizer bem porquê, interessei-me logo. Perguntei-lhe onde era. Disse-me e disse-me também que ia lá estar no dia seguinte à tarde. No dia seguinte, apareci lá. A casa estava em reboco, tudo a ser feito de novo. A casa tinha uma deslumbrante vista para o rio e era, realmente, uma belíssima casa. Senti imediatamente que era a casa pela qual eu estava à espera. O que tive que penar pela casa, as surpresas que tive, algumas muito boas, o inacreditável que foi todo o processo até que ele assimilou que a mulher jamais viria viver para aqui e aceitou vender-me a casa, é digno de outro filme. No dia da escritura, chorou ao vender-nos a casa. A mulher acompanhou-o mas não estava nem aí.
A casa no campo foi outra. Sempre tive vontade, ou melhor, necessidade, de ter uma casa no campo. O meu marido nem por isso. Durante anos procurámos. Ou eram caríssimas, ou horrorosas, ou a milhas, ou em lugares recônditos ou com vizinhança nula ou péssima. Já todos, o meu marido e os meus filhos, odiavam que eu persistisse, já nenhum deles tinha mais paciência para continuar a procurar. Até que um dia vi um anúncio. Chamou-me a atenção. Consegui convencê-los a ir ver. Estava de chuva, não queriam ir. Fomos ter com a dona da agência, uma pequena agência local. Quis mostrar-nos primeiro uma outra. Na verdade, um monte, literalmente um monte. Era vendido com o projecto de uma moradia que ela e o marido, que tinham também uma empresa de construção, fariam nascer. Mas eu estava com a ideia no tal anúncio. Lá fomos, num dia muito cinzento e muito molhado. E foi, de novo, amor à primeira vista. Era uma casa muito, muito antiga, com um acrescento recente e legal, uma casa no meio de pedras e mato rasteiro. Os miúdos entraram a correr e um disse: 'aqui é o meu quarto' e outro disse 'e aqui é o meu'. E eu comecei logo a pensar em desfazer-me daqueles móveis escuros e a pensar que tudo aquilo precisava de uma grande volta. E que ali, onde estavam pedras e mato rasteiro, haveria um dia um pequeno bosque. E foi outra luta. Papéis, papéis. Muito, muito tempo. Mas não desisti(mos). É agora o pedaço de terra que sinto como meu, como se tivesse nascido dele.
E talvez por ter esta ligação estreita a casas ou à recordação de algumas, sonho recorrentemente com casas. Sonho que chego a um lugar e que há uma casa fantástica que eu desejo que seja minha e que a vou visitar e que é enorme, sem princípio, meio e fim, com muitas divisões, que tudo ali me encanta, que me ponho à descoberta e que tem recantos maravilhosos e surpreendentes. Adoro ter este sonho. Nem quero acordar, para estar, maravilhada, a descobrir divisão após divisão, móveis lindos, louças e quadros magníficos, janelas grandes, muitas portas.
Mas, se hoje fizesse uma casa de raiz ou fosse escolher uma casa para iniciar uma vida nova, escolhia uma casa diferente das minhas. Talvez escolhesse ter casas como estas dos vídeos abaixo.
sexta-feira, janeiro 04, 2019
Porque é que Sócrates detestava a democracia?
Não há coisa mais democrática que as redes sociais: toda a gente opina por igual e vai um e diz que gosta e vai outro e bota-lhe um smile e outra um LOL e outra um friso de DDDD, e vai link para aqui e link para a acolá. O povo a fazer as suas escolhas.
Na cabeleireira, lugar que encaro com fascínio, ouço uma conversa entre a cliente e a menina que faz nails em gel e em gelinho: Pah, fui lá, vi as fotografias dela e pus logo lá um like mas já reparaste que a gaja a mim nunca põe um like? Mas eu ponho, sou assim, para ela ver que a mim não me afecta. A outra aprova: 'Bofetada de luva branca'. E, enquanto ali estou, as conversas giram sempre neste registo. Presumo que nada saibam de política nem dos escândalos do Facebook. E, quando votam, sem nada saberem de concreto sobre o que os candidatos têm para oferecer e sem poderem em consciência fazer um rigoroso juízo de valor sobre desempenhos anteriores ou sobre eventuais consequências (boas ou más) das promessas dos candidatos, o voto delas vale tanto quanto o das pessoas bem informadas.
Tal como a tecnologia barata ubíqua e de utilização desregulada pode devorar a liberdade e a qualidade de vida dos cidadãos também a vida actual -- com muitos políticos oportunistas ou fracos como moscas mortas, e com a opinião pública condicionada pela praga das redes sociais -- pode minar os pilares da democracia.
Why Socrates Hated Democracy
We’re used to thinking hugely well of democracy. But interestingly, one of the wisest people who ever lived, Socrates, had deep suspicions of it.
sexta-feira, abril 06, 2018
'O homem pendurado na ponte'
-- e o Waze, a Google, o Facebook, a Microsoft, a Amazon, etc.
Este é o mundo que, alegremente e às cegas, estamos a construir.
(Melhor dizendo: a destruir)
-- e o Waze, a Google, o Facebook, a Microsoft, a Amazon, etc.
Este é o mundo que, alegremente e às cegas, estamos a construir.
(Melhor dizendo: a destruir)
Estava, na quarta-feira, ao fim do dia, na fisioterapia. Desculpei-me: 'Peço desculpa por ter chegado a esta hora'. O fisioterapeuta já desistiu de protestar. Ou não chego a horas ou nem chego a ir. Saturada dos engarrafamentos, aborrecida por chegar tão tarde, acrescentei: 'Um trânsito... Tudo parado... Deve ter havido acidente na ponte porque parece que tudo o que vai lá dar está parado e, por isso, à volta, tudo parado está'. Ele esclareceu: 'Não foi um acidente. Foi um incidente'. Não percebi. Ele disse: 'Quando há coisas assim, dizem incidente'. Nunca tinha ouvido tal. Perguntei: 'Mas sabe o que se passou?'. Ele disse: 'Vi a fotografia'. Continuei sem perceber. Ele explicou: 'Um doente mostrou-me. Um tipo num cabo da ponte. Um suicida.'. Fiquei ainda mais tolhida pela incompreensão. 'Um doente mostrou-lhe?! Mas mostrou-lhe o quê??'. Ele disse: 'Quem está lá parado fotografou e pôs nas redes sociais'. Fiquei gelada.Li agora 'O homem pendurado na ponte', escrito pelo Ferreira Fernandes. Arrepia.
Portanto, no Waze também. Claro. São os utilizadores que fazem o upload das imagens e podem pôr o que quiserem. Um homem em pleno e triste processo de desistência de viver, um homem pronto a cair no vazio -- e algumas pessoas, indiferentes à presença da dor alheia, fotografaram-no e, sem qualquer respeito por aquela pobre pessoa desesperada, exibiram-na perante o mundo. Apenas por estarem dentro dos carros, não foram fazer uma selfie com aquele homem que conduziu o carro até à ponte, parou, saíu e trepou para um cabo para acabar com o sofrimento. Assim fotografaram-no apenas.
Quem cometeu tão torpe acto são as mesmas pessoas que escrevem comentários malvados, que destilam veneno, que agem a coberto do anonimato para amedrontarem gente de bem, que mostram invejas, raivas, vontades de vinganças. As mesmas que falam de si próprias como sendo gente boa, amigas de gatinhos e do ambiente. As mesmas que se alimentam das redes sociais e que as alimentam.
Investigadores especialistas em inteligência artificial de quase 30 países estão planear um boicote a uma universidade na Coreia do Sul em reação a uma parceria de um laboratório da instituição com uma empresa ligada ao setor da defesa: há o medo de que o projeto possa criar "robôs assassinos", revela o Times Higher Education. (...)
In this open letter to Google’s CEO, over 3,000 employees urged the company not to work on a Pentagon ‘AI surveillance engine’ used for drone warfare (...)
A classe política e a sociedade em geral parecem continuar indiferentes ao que está a passar-se. Não vejo verdadeiras preocupações, vontade de regular, vontade de vigiar. As coisas vão acontecendo e ninguém parece perceber que é preciso actuar enquanto ainda é tempo.
O mundo está a caminhar para um precipício desconhecido e que intuo ser deveras perigoso e quase ninguém parece ter vontade de parar para pensar. Ninguém parece ter vontade de recuar até ao tempo da inocência.






























