Mostrar mensagens com a etiqueta Arvo Pärt. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arvo Pärt. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, julho 08, 2022

O silêncio do calor e o perfume dos orégãos

 



Passei o dia in heaven. Silêncio total. Nem os cães do outro lado da estrada ou ao longe se fazem ouvir. 

Poder teletrabalhar é daquelas coisas boas que aconteceu na minha vida. Vou às instalações da empresa sempre que é preciso e, quando não é, trabalho a partir de casa. Se isto tivesse sido opção em todos os anos que desperdicei enfiada no trânsito talvez a minha vida tivesse sido bem melhor.

Digo isto e, mal acabo de escrever, faço uma pausa. A questão é que não estou absolutamente certa disto. É certo que foram horas e horas perdidas mas é também certo que nos habituamos a tudo. Tinha a vantagem de ouvir boa rádio enquanto conduzia, tinha a vantagem de poder fazer compras e tratar do que tinha a tratar à hora de almoço. Agora eliminei muito desse tempo absurdo gasto no trânsito mas preenchi-o com trabalho. Agora, quando tenho que tratar de alguma coisa, quase me sinto culpada, parece que estou a baldar-me. E ganhei hábitos ainda mais arreigados do que os anteriores: ligam-me tarde e más horas ou enviam-me mails seja a que hora for e estou sempre disponível. Mesmo que não me apeteça, estou disponível. Um disparate.

Mas, dizia eu, passei o dia in heaven. À hora de almoço finalmente consegui ir tratar do que queria: apanhar orégãos. Um calor de ananases. Claro que o meu marido ficou todo arreliado, dizia que não era hora nem estava temperatura para isso. 

Mas tinha que ser. Com este calor, os orégãos já estão a querer secar e, para ficarem bons e se aguentarem cheirosos e com sabor campestre durante todo o ano, têm que ser apanhados em flor, mas em flor perfumada e viçosa. Tal o calor que estava, vesti um fato de banho, apliquei protector solar 50 e fui à procura dos meus chapéus. Tinha dois, um dos quais um belo chapéu basco de abas muito largas e com uma fita encarnada que trouxe de Bayonne há alguns anos. Não os encontrei. Quando pintámos a casa, faz um ano, tivemos que retirar tudo o que estivesse à vista. Provavelmente escondi-os e agora não faço ideia onde. Ou isso ou a mulher do pintor que volta e meia lá ia e parecia não ser lá muito boa da cabeça achou que a ela é que eles ficavam bem (aliás, ficaram de ir acabar algumas coisas e nunca mais apareceram nem atenderam o telefone, nem a nós nem ao vizinho da ponta da rua que no-lo tinham recomendado).

Portanto, fui ao cabide dos bonés e escolhi um. Já agora, para poderem visualizar a cena, acrescento que nos pés usava uns chinelos de conforto, daqueles que as enfermeiras usam. Habitualmente uso-os em casa. Portanto, tudo a condizer. E foi, assim, naqueles preparos que avancei para o campo. Uma camponesa fora da caixa, digamos assim. 

Um calor, um calor. Andava dobrada, na ceifa, a escolher as hastezinhas mais jeitosas, pezinho a pezinho, e a sentir a transpiração a descer do boné para a testa. Tive que ir lá acima umas três vezes não apenas para depositar os orégãos numa mesa como para tirar o boné, lavar a cara, beber água.

Por volta das seis e tal, a jornada profissional quase concluída, enverguei de novo o fantástico outfit com a diferença que agora fui descalça: fui regar as árvores da frente, dar uma arrumadela na casa e dispor os orégãos em cima de um lençol (lavado!) em cima da mesa para ficarem a secar. 

E ainda voltei lá abaixo (calçada, claro) para apanhar mais um ramo deles para levar para a minha mãe. Seca-os também e creio que dá alguns aos meus tios e provavelmente também alguns às vizinhas e amigas. Mas este ano há poucos, apanhei muito menos que nos outros anos. Não sei porque será. Não encontro tomilho e os orégãos devem ser metade do ano passado. Só espero que não tendam a desparecer.

Quando lá voltar a ver se vou fazer nova monda pois creio que os que estão agora a secar não chegarão para nós e para distribuir.

Conclusão: chegámos aqui bastante tarde e ainda fomos dar uma volta com o urso peludo que tem estado meio abananado pelo calor. 

Entretanto, iam chegando fotografias dos meus filhos. Do lado do meu filho, jantaram na praia e depois foram para o areal. Estava calor e lá é que devia estar-se bem. Do lado da minha filha, jantavam no terraço com vista para o rio. Talvez se fizesse sentir alguma aragem.

E foi isto. 

Esta sexta-feira vai ser difícil. Vou ter umas reuniões complicadas, o tipo de reuniões que gostaria de evitar. As reuniões desta quinta serviram para as preparar. Há decisões que penso que ninguém gosta de tomar. Mas isto é como quando comprava peixe à posta no mercado. Se queria levar postas do meio, tinha que levar também um bocado do rabo e da cabeça, com mais espinhas. Isso era tanto mais assim quando se tratava do safio. Assim é a minha profissão: tem componentes aliciantes, desafiantes, tem outras compensadoras e depois tem estas, aborrecidas, enervantes.

E agora vou descansar. Amanhã respondo aos comentários. Hoje já não dá. Daqui a nada são três da matina e daqui a nada tenho que estar a pé e de cabeça fresca.

_________________________________________

E porque gosto muito de casas e de estar em casa e gosto do silêncio e da quietude, deixem que partilhe este vídeo

The Silence Of Rumah Fajar

Meaning “The House of Dawn” in Bahasa Indonesia, Ruham Fajar is located in Bali and designed by Studio Jencquel. Offering outstanding views of Gunung Agung, the Balinese most sacred volcano, the residence encompasses the local culture from the main door entrance to the materiality it has been chosen. Dive into this amazing project with the natural sound of Bali’s environment as its soundtrack. 


------------------------------------------------------

Fotografias feitas in heaven aqui na companhia de Joana Gama que interpreta Für Alina de Arvo Pärt

----------------------------------------------------------

Desejo-vos uma sexta-feira a saber a happy friday
aúde. Alegria. Paz.

quarta-feira, junho 08, 2022

Algumas receitas para uma feliz sobrevivência

 

Espero que, muito rapidamente, a indústria avance com processos de electrólise invertida ou de dessalinização ou de formação artificial de nuvens ou o escambau ou o diabo a quatro. Tecnologia e técnicos que saibam da poda há-os por cá. Têm é que ser lançados programas de investimento virados para isto. E tem que ser rápido. Entre o business case, a mobilização do capital, o desenho e projecto da solução, o procurement, a construção, os testes e tudo o que é preciso até que uma fábrica comece a produzir vão anos (ainda mais com a escassez de materiais que há). E há que ter operadores e técnicos de manutenção - e não os há. Ou rapidamente o país aposta intensivamente em escolas técnicas ou arranja maneira de 'importar' gente com esse tipo de formação. Tudo isto leva tempo.

A subida da temperatura média, a seca, o facto de vários dos nossos rios virem de Espanha (e, como seria de esperar, Escassez de água leva Espanha a reduzir caudais dos rios que entram em Portugal) fazem perspectivar que o que, em tempos, parecia um cenário apocalítico longínquo já comece a bater-nos à porta. Temos que interiorizar que sem água não há vida e que, se não há água, temos que fazê-la. Tal como temos que produzir energia a partir dos recursos naturais e renováveis, temos também que produzir água a partir do que há à mão de semear e que, tão cedo, não se esgota.

Espero que consigamos viver em paz, salvar o planeta, salvarmo-nos a nós da insanidade de alguns e vivermos, de forma sustentável (ou sustentada?), com recursos sabiamente geridos. Se é com carne produzida em fábrica de carne a fazer de conta, se é com insectos ou legumes que hoje desconhecemos, se é com algas e outros produtos do fundo do mar, eu não sei. Mas o engenho e a arte têm que se virar rapidamente para a nossa subsistência e para a do terroir que nos coube em sorte.

No meio disto teremos que nos blindar para podermos cuidar dessas premências e não corrermos o risco de, nos entretantos, ser invadidos e destruídos por assassinos tresloucados. O que até há uns três meses nem nos passava da cabeça, afigura-se agora ser de extrema relevância. Um doido varrido pode deitar a perder anos de desenvolvimento e anos de esperança de vida (das pessoas e do planeta).

Casa Do Penedo, 1972, Celorico de Basto

E, last but not least, teremos que continuar a ser felizes e a tentar inebriar-nos com a arte, com a elegância, com a beleza, com a doçura dos bons momentos, com a melodia das palavras, com o voo dos corpos e dos pássaros, com a memória do passado e o sonho no futuro, com a ternura do afecto, com as mil e uma pequenas coisas da natureza.

_____________________________________

No estúdio com Claire Tabouret


Um vestido feito de vidro -- Iris van Herpen


Georgijs Osokins interpreta  Fragile e conciliante do Lamentate de Arvo Pärt 



Um quarto dos poemas é imitação literária / Herberto Helder dito por Fernando Alves



"Petite Mort", Pas de Deux numa coreografia de Jiri Kylian


___________________________________________

As fotografias pertencem a World Beauties And Wonders

__________________________________________

Desejo-vos um dia tão bom quanto possível
Saúde. Imaginação. Vontade. Paz.

sexta-feira, outubro 15, 2021

A moda dos Retiros

 


Alguém me falou numa reportagem que, no outro dia, passou na televisão sobre retiros. Fui à procura, pus a antar para trás e vi uns bocados, o suficiente para achar que por cada boa ideia que aparece há sempre quem logo a transforme em treta.

Quando era pequena, ouvia os meus pais falarem de alguns colegas que iam para retiros, coisa da igreja. Falavam disto como se fosse clube de uns quantos e como se de coisa esotérica se tratasse. Se calhar, a minha mãe, havendo lá conhecidos e amigos, se sentisse tentada a ir, creio que mais pelo convívio do que pela espiritualidade. Mas o meu pai era visceralmente avesso a essas coisas e não havia atenuante ou aliciante que o fizesse ultrapassar a brotoeja que essas coisas lhe causavam.

Quando, sem o saber, vivi numa casa de raparigas da Opus Dei, apercebi-me que faziam muitos retiros. Convidavam-me, por vezes de forma algo insistente, para os frequentar. Eram umas raparigas cinzentas, com saias pelo joelho, camisas abotoadas até ao pescoço. Eram todas boas alunas, beatas, sonsas. Cercavam-me para que participasse nas actividades da Casa -- o jantar com o Prior, o debate sobre o aborto, o Retiro, etc Claro que nunca participei em nada e até hoje ainda estou para perceber porque quiseram lá ter-me. Pensaram que me convertiam? Mas porque estariam interessadas nisso? Não percebi e não percebo. De vez em quando, à sexta-feira, lá iam todas para só regressarem no domingo à noite. Iam para o retiro. Antes preparavam farnel. Era o tipo de coisas que a animava. Vinham de lá em êxtase.

Quando comecei a trabalhar, o meu primeiro chefe, pessoa simpática e muito dada à igreja, organizava formação a casais e dinamizava retiros. Muitas vezes tentou aliciar-me. Dizia que, se eu vencesse as minhas barreiras, ia gostar. Nunca quis vencê-las pelo que, obviamente, nunca pus os pés em tal coisa. Quando lhe perguntava em que exactamente consistiam esses retiros, ele sorria, dizia que conversavam, que trocavam experiências. Se eu contava ao meu marido, ele gozava, sorria com malícia: 'Ui... cenas de grupo...', como se a cena religiosa fosse, afinal, para esconder cenas de sexo em grupo, orgias desenfreadas. Por isso, quando o meu chefinho tentava aliciar-me, eu tinha que me esforçar para não me rir, imaginando-o em animadas cenas de sexo em grupo.

Mais recentemente, uma colega que pratica ioga começou a ir, pelo menos uma vez por ano, para um retiro na serra, num mosteiro. Deixava o telemóvel à porta, não podia levar computador nem falar com ninguém enquanto lá estivesse. Ela gostava, dizia que era uma tranquilidade imensa. De vez em quando vai para Barcelona, também para retiros destes.

Conheço uma pessoa que, há uns três anos, foi para um retiro na Índia. Não gostou. Diz que era mercantilismo puro, um retiro turístico, mais fancaria do que espiritualidade. No fim, apresentou reclamações e jurou para nunca mais.

Conheço um outro, rapaz dado a desportos radicais e com uma profissão paga a peso de ouro, que foi fazer um mês de retiro na Tailândia, longe de tecnologias, longe da civilização.

Muitas vezes já aqui o referi: o isolamento num mosteiro ou seja onde for a mim não me choca. Acho que até me atrai.

Poder não me preocupar com nada, poder estar em paz, em silêncio, jardinar, regar, ouvir os passarinhos, não ter que me preocupar com o que fazer para o almoço ou para o jantar ou, em alternativa, estar na cozinha a cozinhar para uma dúzia ou uma vintena de pessoas, estar longe de notícias ou intrigas, ter tempo para ler ou para, simplesmente, estar ao sol -- tudo isso me agrada.

Mas não me imagino posta em círculo, de vestido até aos pés e todas a outras também de vestido até aos pés, não me imagino a fazer ou a ouvir rezas, não me imagino a ouvir alguém com conversas da treta como se fosse coisa das profundidades, não me imagino organizada em grupinhos e tarefinhas como se tivéssemos regredido ao tempo da escola infantil. Não me imagino. 

No documentário, um marmanjão armado em monge dizia as maiores banalidades com a cabeça rapada e o traje de alguém acabado de chegar do Tibete mas cujo sotaque rasteiro revelava que não fazia a mínima ideia de onde fica esse tal de Tibete. Depois apareceu outro falando de energias e de outros conceitos que, no contexto, são, no mínimo, etéreos e infantis. E depois uma outra falava de coisas também naquela base da maluqueira fofinha envolta em cenas zen. 

Não é a minha praia.

Primeiro, tinha que ser misto. Retiro só de mulher para mim não teria graça. Nem percebo que cena é essa de estarem só mulheres, todas um ar vagamente retrohippie, certamente todas vegetarianas ou vegans, todas parecendo levitar na maionese. Não percebo qual a graça. Deve ser uma seca mas uma seca das valentes. 

Para além disso, retiro para ser bom de verdade, teria que ter massagem. Se penso em estar num retiro, penso logo nisso: massagem, de preferência ao ar livre, ao sol. De preferência perto de laranjeiras em flor. Música de fundo, sim. Podia ser canto gregoriano, sim, que é sexy para valer. Mas podia também ser blues ou jazz. 

Obviamente, nem pensar em camaratas só de mulheres ou quartinhos individuais tipo cela. Isso também não estaria com nada. Até poderiam ser quartinhos individuais mas só se noutro quartinho individual estivesse alguém que eu pudesse visitar a meio da noite. Não está no espírito da coisa? Temos pena.

Ao ver o documentário e ao ver a procura danada que têm ocorreu-me que ora aí está um belo nicho de mercado para quem queira investir: um Retiro

      • sem conotações de espécie alguma 
      • onde ninguém se saia com teorias de cão de caça 
      • onde seja proibido as pessoas porem-se em círculo, de mãos dadas. 
Ou seja,

      • um lugar tranquilo, 
      • com actividades para quem queira 
      • ou lugares para descanso ou passeio para quem esteja afim é de mandar as actividades para o espaço, 
      • com liberdade total para cada um (desde que não colida com a liberdade dos outros)
      • em contacto com a natureza

Escrevo isto e penso nas Termas de Entre-os-Rios para onde fomos durante uns anos quando os miúdos eram pequenos e tinham alergias respiratórias. Eles iam fazer aqueles tratamentos e eu andava com eles. Ou iam para o parque infantil e nós íamos tomar conta deles. Na verdade, pouco tempo de descanso eu tinha. Mas gostava. Gostava daquela comida com sabor a campo e a norte, gostava daquela paisagem verde e linda, gostava dos rios, gostava de tudo ali. Volta a meia penso que gostava de lá voltar, a passar férias. Tenho ideia que tinham tratamentos para outras coisas, jactos de água, quiçá banhos de imersão. Tudo isso me parece bom. 

Deve haver outros sítios assim, mas mais cosmopolitas, melhor apetrechados. Mas era o lado nada cosmopolita de Entre-os-Rios que me agradava. Ao fim de semana, chegavam ao parque das Termas vendedores ambulantes que traziam toalhas bordadas, bolos regionais. E eu gostava de andar por ali. 

De vez em quando, os miúdos estavam saturados dos tratamentos e, então, baldávamo-nos e íamos passear a Amarante ou á Quinta da Aveleda ou por aí. Depois regressávamos e havia aquelas refeições saborosíssimas.

Um retiro deve ser assim. 

Um lugar simples, agradável, tranquilo, sem ninguém a maçar-nos ou a querer entreter-nos.

E que tenha jardins, recantos, zonas de sol mas também de penumbras e sombras, lagos, caminhos bons para passear, perfumes, silêncios, pássaros, regatos, segredos inconfessáveis, pecados sem arrependimento. E em que se possa dormir até à hora que se quiser. E boa comida. 

________________________________________________________________

As fotografias foram obtidas na net e mostram sítios onde se deve estar bem. 

Arvo Pärt - Solitudine - stato d'animo

__________________________________________________

Desejo-vos um dia feliz

Saúde. Boas notícias. Esperança. Tranquilidade.

sexta-feira, julho 30, 2021

Pedro Tamen.
A morte de um Poeta

Estamos aqui parados
até que a luz nos veja

 


Pensava que não ia ser capaz. Fui fugindo e escrevendo outras coisas. Ainda não sei se vou ser capaz. Não me sinto à-vontade para escrever quando ainda estou sob a emoção de uma perda ou quando sinto que o motivo da escrita ultrapassa a minha capacidade para escolher as palavras certas.

Mas, por tudo o que devo a Pedro Tamen, acho que devo tentar mostrar o agradecimento e a pena que sinto pela sua partida. 

De vez em quando há mortes que são duras. Pensei isso, por exemplo, quando soube que tinha morrido o Bernardo Sassetti. Já foi há nove anos e continua a custar-me. Continuo a pensar que há um lugar que ficou e ficará para sempre vazio. Diz-se que o tempo tudo cura. Mas há ausências que o tempo não cura. 

Gosto de dizer, porque o penso, que há pessoas que não morrem porque vivem em nós não pela sua presença física mas pelo rasto que deixam. Quem escreve, existe pelas suas palavras e elas sobrevivem quando os seus autores perecem. 

Tenho aqui ao meu lado os livros de poesia de Pedro Tamen. De todas as vezes que os li, li independentemente da pessoa física que os escreveu. Mas eu sabia que era alguém que ainda estava vivo e de quem eu podia esperar mais poemas. 

Também várias vezes aqui o disse: na era pre-covid em que eu andava pelas livrarias, se via algum livro traduzido por ele, não hesitava. Livros traduzidos por Pedro Tamen eram garantia de ser do meu agrado. Não era apenas a escrita na tradução, era também a intrínseca qualidade literária das obras que ele traduzia. 

Ninguém é eterno embora sejam eternas as palavras dos (bons) poetas. Mas há um lugar que fica eternamente vazio quando alguém como Pedro Tamen morre. 

(Mas não vale a pena continuar a tentar. Não sou capaz. Não sei o que dizer. Sei o que sinto mas não dizer o que sinto.)


Vou, pois, limitar-me a transcrever um seu poema.

O que não se sabe não existe.
Quando, por vitória do fogo
ou jorro surdo, inesperado, de água,
um golpe de asa, leve e mal sentido,
te leva os olhos a recantos calados
aos ouvidos que até então te dera
o acaso imóvel, teu parco nascimento,
quando um murmúrio desperta duvidoso
o que em certeza tinhas construído
e um véu que não sabias ao não saber
se abre, e, mais ainda, quando
consegues ver a mão que desvelou
o país das narinas, dos dedos, das pupilas,

então existe, o mundo cresce em ti
e em ti decresce a gruta que apalpavas.

Outras voltas darás, de novo à espera,
até que um dia, súbito, te entendas
ao entenderes de vez à luz de um raio
que era preciso saberes que mais existe
e que o que existe deveras não se sabe.


__________________________________________________________

Na despedida de Pedro Tamen
pinturas de J. M. W. Turner na companhia de Georgijs Osokins que interpreta Fragile e conciliante de Arvo Pärt 

___________________________________________________________

Um dia feliz

sábado, setembro 05, 2020

Palavras perdidas de mim



De todos os inconfessos prodígios, um. 
    De todos os secretos e estranhos vislumbres, um. 
        De todos os silenciosos e loucos devaneios, um.

De todos os sorrisos, o nem sequer imaginado. 
    De todas as palavras, as ainda não ditas, as que talvez nunca venham a ser ditas. 
        De todos as preces, a ainda não escutada, a que talvez nunca venha a ser escutada.

De todos os anseios, um. O mais louco.
    De todas as loucuras, uma. A mais improvável.
        De todas as improbabilidades, uma. A mais ansiosa.

De todas as verdades, a ainda não desvendada. 
    De todos os caminhos, o que não poderá ser percorrido. 
        De todas as companhias, a mais intangível, a mais inconcebível.

De todas as viagens ao fim da noite, uma, a mais atormentada.
    De todos os inocentes esconderijos, um, o mais longínquo, o mais frágil.
        De todas as cicatrizes, a mais secreta, a mais invisível, a mais oculta e negada.

Pedra a pedra, 
  palavra a palavra, 
    loucura a loucura, 
      silêncio a silêncio, 
        espanto a espanto,
           mágoa a mágoa, 
             contrariando o caminho, apagando indícios, negando os passos, desenhando refúgios,

atravesso a noite tentando desligar-me do sentido da escrita, do sentido de tudo, de tudo.

Que as palavras percam os seus significados, que as frases ignorem os seus propósitos. A escrita pela escrita, a escrita no vazio, palavras caídas ao acaso na mente em branco, palavras que não me pertencem, palavras perdidas de mim, palavras que talvez vão pousar no coração de alguém. Talvez. Talvez.

---------------------------------------------------------------------------


____________________________________

Ilustração obtida na Marie Claire francesa 
ao som da eterna Bethânia: Eu não existo sem você
____________________________________

A todos desejo um bom sábado

sábado, abril 20, 2019

Onde se ouve a Sta UJM, sob um assombroso céu cor-de-rosa, a falar do deus fantástico que vive nas suas casas e a dizer palavras que beijam como se tivessem boca





Quando esta sexta-feira fomos, então, ver das roçadoras e quando o diligente funcionário explicava o seu funcionamento -- puxa o cordão, quando sentir que prende é que lhe dá a guinada, e descansa depois de usar não sei quanto tempo e etc. -- pensei que duvidava muito que o meu marido soubesse de todos esses cuidados. Por isso, mal o senhor se afastou, perguntei: não será que a nossa não está estragada e que tu é que não sabias estes preceitos todos? Ele olhou com ar de quem não sabia se devia ficar ofendido comigo se, ele próprio, estava nessa mesma na dúvida e disse: vamos embora.

E assim foi. Quando chegámos, depois de termos ido a casa dos meus pais, eu fui passear e ele foi-se a ela. E, claro, ela funcionou. Quando me aproximei, ele só disse: sem comentários. E eu apenas disse: aquela pergunta que fiz foi a chamada pergunta de cento e cinquenta euros. E ele riu-se.


Já cortou algumas coisas e já está mais do que avisado para amanhã se focar no tojo e nas silvas e poupar os orégãos. Mas temo. Os orégãos estão pequeninos e ele, com os óculos de protecção que me parece que turvam a visão e com a falta de cuidado que o caracteriza, não vai prestar atenção.

E eu, como disse, andei a passear e a fotografar e a fazer vídeos. O primeiro ficou com dezassete minutos e o YouTube diz que, para o carregar, tenho que provar que sou eu e, para tal, tenho que lhe dar mais informações do que me apetece dar-lhe e, por isso, mais um vídeo que vai para o lixo. O terceiro, feito aqui à porta da sala, para mostrar um céu cor-de-rosa que se formou durante uns instantes, ficou bem, acho eu. Só que a meio, o meu marido, ao ver-me em cima de uma pedra, a olhar para o céu e a falar sozinha, chamou por mim, pelo meu nome, a perguntar-me o que se passava. E eu, querendo que não se ouvisse isso, desviei a máquina e fiz sinal para que se calasse e, agora, ao ouvir, parece que soluço. Fica estranho, não gosto. Portanto, o céu cor-de-rosa, tão lindo, também não vai para o ar. Fico-me pelas três fotografias que fiz antes de filmar e que aqui partilho.

A robínia está florida, dá estes belos cachos de flores brancas. E o céu cor-de-rosa visto através das flores brancas pareceu-me de uma beleza assombrosa.


Portanto, de toda a minha produção cinematográfica, salvo apenas o vídeo lá mais abaixo do abrigozinho verde de que tanto gosto.

E, tirando isso, nada. Tudo tranquilo. O meu pai na forma do costume, como a minha mãe diz, ela sempre bem disposta apesar dos pesares, e uns a sul com amigos, outros em campeonatos de futebol. 

A Páscoa para nós não tem grande significado. No nosso pensamento racional não encaixa o significado místico que se atribui à ressurreição. Se é para ser metáfora de que manteremos sempre viva a presença dos que amamos mesmo quando partem então, sim, é bonito e verdadeiro e nisso acreditamos -- mas é coisa de todos os dias, não de um dia único que, segundo os rituais do catolicismo é precedido de encenações e restrições e celebrações de milagres.

Num àparte direi que a religião católica tanta roupagem coloca sobre os acontecimentos históricos que acaba por esbater a sua importância e por desvirtuar a singeleza das ilações que deles se poderiam retirar. Lembro-me sempre que o divórcio que em mim se operou relativamente à igreja católica teve lugar num dia em que as catequistas, por alturas da Páscoa, levaram à escola um vídeo sobre a traição, sobre o calvário, sobre a crucificação, sobre a ressurreição. E tudo era muito realista, muito assustador. E lembro-me de ter pensado que aquilo não era coisa que se mostrasse a crianças. Teria eu uns nove anos. E a religião sempre me foi apresentada como uma expiação para pecados que eu não sabia que tinha cometido, como um desfiar permanente de culpas, de interditos --  tudo coisas a que sou naturalmente avessa. Nunca me foi apresentada como um espaço de recolhimento interior, como a possibilidade de superação das nossas limitações através de um querer ilimitado que nasce dentro de nós. Nunca me foi apresentada como uma transcendência como a que se pode verificar no milagre permanente que testemunhamos na observação atenta da natureza.

Mas, enfim, chega de conversa.

Eis o pequeno vídeo deste meu pequeno recanto verde aqui in heaven. A Sophia e o O'Neill frente a frente e eu no meio falando no anjo fantástico que habita as casas em que vivo e dizendo palavras que nos beijam como se tivessem boca. E ouvem-se os passarinhos que é das coisas boas e alegres desta vida por vezes tão cheia de agruras e sustos e tristezas.

[A minha voz é o que é, involuntariamente sempre a meio caminho de se desvanecer num sussurro. Começo a convencer-me que nada há a fazer.] 

A senhora em repouso in heaven e a poesia em verde com anjos e palavras que beijam


___

[Tentarei, durante este sábado, responder aos comentários de ontem. Hoje não consigo]

A todos desejo dias felizes

______________________________

sexta-feira, março 15, 2019

Porque é que as nossas memórias não são de fiar






Há momentos marcantes na minha vida e penso que os guardo, com todos os pormenores, na minha memória. Poderia agora enumerar alguns mas são vários e, se me ponho e enunciá-los, fica isto longo demais.

Mas, por exemplo, não guardo qualquer ideia do primeiro dia de escola: nem da infantil, nem da primária, nem do liceu nem da faculdade -- momentos que, supostamente, são simbólicos e marcantes na vida das pessoas. Nada. Da ida dos meus filhos para a escola, dos primeiros dias, também não tenho ideia precisa até porque começaram a ir tão cedo e isso me custou tanto que a minha cabeça escondeu essa lembrança. Mas recordo, e recordo ainda com dor, o primeiro dia em que o meu filho foi para o infantário, teria uns sete ou oito meses, nem sei bem. Olhou para mim com o beicinho a tremer, a conter o choro. Tão bebé e mais corajoso que eu. Saí de lá de rastos, a chorar e, sempre que me lembro do rostinho dele, ainda sinto que as lágrimas me vêm aos olhos. Também me lembro do dia em que cheguei a casa com a minha filha, que tinha ido buscar à escolinha, e com ele que tinha ido buscar ao infantário. Ele vinha a chorar, incomodado. Aliás, frequentemente notava que ele vinha com olhos de choro. Diziam-me que tinha estado bem, que era impressão minha. Fui ver a fralda e tinha a mesma fralda que tinha levado de manhã. Fiquei desvairada. Peguei neles os dois e voltei lá a fumegar, furiosa. Desanquei aquela gente desalmada, ia em brasa, lembro-me de nem as deixar falar. E comuniquei que ele não ia voltar. E não voltou. Nem sei se lá chegou a estar um mês. Mas o que me custa pensar que não esteve bem enquanto lá esteve... Ainda hoje me faz sofrer pensar nisso.


A minha memória é selectiva, provavelmente como todas só que os critérios de selecção talvez sejam um bocado atípicos. 

Por vezes a minha mãe fala de momentos que acha que seriam de alguma forma marcantes para mim e eu, para seu espanto, não retive nem pitada. Em contrapartida, lembro-me de insignificâncias que a mim própria me espantam. 

No entanto, acontece-me por vezes lembrar-me de coisas mas com a sensação que perdi alguns pormenores, saber que já aqui falei disso e ficar intrigada: então quando escrevi lembrava-me tão bem e agora a coisa parece que ficou vaga...? E vou à procura, leio o que escrevi e tudo volta de novo. E, ao ler, evoco, então, pormenores que, na altura, ao escrever, me tinham escapado.


Fico, então, a pensar se as coisas se teriam passado exactamente assim como as recordo ou se, com o tempo, a imaginação compôs alguns hiatos. 

Mas isto para dizer que gostei muito de ver o vídeo que mais abaixo partilho convosco. Afinal essa sensação tem razão de ser e é mesmo assim. O nosso cérebro é mesmo a tal fronteira que ainda não conseguimos transpor completamente. Um mistério tão vasto, tão fora do nosso alcance.



Why your memories can't be trusted


Memory does not work like a video tape – it is not stored like a file just waiting to be retrieved. Instead, memories are formed in networks across the brain and every time they are recalled they can be subtly changed. So if these memories are changeable, how much should we trust them? With experts Dr Julia Shaw and Prof Elizabeth Loftus, the Guardian's Max Sanderson explores the mysterious world of human memory, how false memories can be implanted – and how this can be harnessed for good and ill


...............................................................

E permitam que vos convide a continuar a descer para irem saber quem é Sophie de Oliveira Barata.

.........................................................................

E thanks God it's friday. E que seja boa.

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Casas: as minhas, as dos outros





Quando eu era pequena, quer os meus pais, avós, tios ou quase todos os demais conhecidos viviam em casas que eu achava normais. Entrava-se e toda a casa ficava relativamente à vista. Mas havia uma casa que eu achava misteriosa e da qual nunca percebi os contornos. Tinha divisões em baixo, depois uma escada sempre a meia luz e, em cima, um corredor comprido com muitas divisões de portas sempre fechadas. Lembro-me de algumas vezes estar numa das divisões com a amiga da minha mãe, uma mulher da mesma idade que era modista. Tenho ideia de que estava também a meia-luz embora me tenha ficado a ideia de janelas altas, com portadas de madeira. Essa mulher era a mãe de um menino um ano mais velho que eu, o meu primeiro amigo, o meu grande e inseparável amigo até eu ter dez anos. Tal como a mãe, ele era reservado, silencioso. A minha mãe era muito loura, de olhos muito azuis, muito alegre. A amiga tinha o cabelo escuro, olhos escuros e parecia viver sem prazer. No entanto, isto pode ser a impressão de uma criança pequena. A casa era como ela, sombria, silenciosa e eu gostava sempre de ter oportunidade de lá ir, em especial lá acima, para tentar perceber o que lá se escondia.


Mais tarde, conheci uma outra casa fascinante. Teria eu onze ou doze anos. Uma das minhas colegas de turma era muito rica. Vivia numa casa extraordinária. Vivia no último piso de um dos prédios mais emblemáticos da cidade, prédio que pertencia aos pais. Nos outros andares havia direito, esquerdo e centro e todos enormes; mas, no último piso, onde ela morava, estava tudo ligado. Tinha apenas um irmão. Uma casa imensa para dois adultos e duas crianças. E as criadas. E tinha um terraço enorme e uma estufa e um solário. Eu adorava ir para lá. Tinha uma vista espantosa de toda a cidade. Por dentro, a casa era tão grande que havia uma central com botões correspondentes a cada divisão. Quando alguém queria uma água ou um sumo, tocava uma campainha que soava na central que havia na copa. As empregadas andavam fardadas e, na realidade, eram as verdadeiras chefes da casa. A mãe ou nunca estava em casa ou nunca saía dos seus aposentos. Tinha perdido um filho, anos atrás, e parece que nunca tinha recuperado. O pai era um homem de negócios e também nunca o vi em casa. O irmão dela levava amigos lá para casa e ela também. Mas cruzávamo-nos apenas vagamente pois a casa era francamente gigante. Lembro-me de uma sala que ficava a meio da casa, uma esquina em redondo como redondo era o ângulo do prédio. Nunca eu tinha estado numa sala daquele tamanho. Sempre vi aquela sala sem pessoas, só móveis muito bonitos e bibelots fantásticos que vinham de outros países. E nós por ali andávamos à vontade, usando a casa como se não tivesse dono. Por volta das quatro ou cinco da tarde, não sei, tocava uma campainha e nós interrompíamos o que estávamos a fazer e íamos lanchar à copa. Havia uma mesa grande mas havia também um balcão alto com bancos altos. Era aí que preferíamos lanchar.


Uma outra nossa amiga, que morava entre a minha casa e esta casa gigante, vivia numa casa muito grande de tipo solar, numa quinta também enorme onde havia um extenso laranjal. Aí não íamos tanto. Havia lá muitos cães e eu tinha um bocado de medo. A quinta estava toda murada. A casa grande dava para um grande pátio para o qual davam também as casas dos empregados. Aí havia sempre bulício. Nunca vi o pai. Quer o pai quer a mãe eram bem mais velhos que os meus pais. Tinham seis filhos, todos irreverentes, mal comportados, bem dispostos. Se bem me lembro, a mãe tinha sido deputada na antiga assembleia nacional. Não sei se nessa condição ou na condição de aristocrata e rica, só se fazia deslocar com motorista. Só me lembro de a ver a chegar ou a sair com motorista. Em casa, não me lembro de a ver. Era uma casa em dois pisos, com muita patine, e também aqui, eram as empregadas que tomavam conta da casa e das crianças. Tinha bancos de pedra junto às portadas, tinha grandes tapeçarias, mobílias que deveria ser valiosas. Lembro-me de um grande louceiro, mesmo grande, grande, imponente, com pratos de louça e peças de prata e de uma mesa enorme nessa casa de jantar. Passava-se de umas divisões para outras, parecendo que não acabavam e isso para mim era um grande motivo de curiosidade e interesse.


Depois disso tenho conhecido outras casas fantásticas. De uma, em Sintra, um belíssimo palacete, já uma vez falei num daqueles folhetins que, volta e meia, me dá para escrever. É uma casa de família e ali poderia ser feito um belo filme. De facto, é uma casa tão extraordinária que poderia ser a personagem central de um romance, de um drama, de uma série de televisão. Aí, uma vez mais, passa-se de umas divisões para outras como se fosse uma casa infinita. Quando sou convidada para lá ir, encanto-me. Por minha vontade pedia carta branca para passar lá um dia inteiro por minha conta.

Mas, enfim, escuso de continuar a falar de casas que, de alguma forma, me impressionaram.


Mas, tenho que confessar, talvez por outros motivos, as minhas casas também me impressionaram. Esta, da cidade, foi assim: por causa dos livros, eu andava à procura de uma casa maior, de preferência com seis divisões. Pelos meus filhos, habituados a uma vida de cidade, com amigos e amores, com desportos e actividades sempre por perto, queríamos uma casa na cidade e não no campo. Procurámos procurámos, procurámos. Uma vez, estavam a fazer um prédio na rua onde eu morava. Um dia, ao chegar, estava um carro mal estacionado com indicação de que o dono estava na obra. Fui avisá-lo. Apareceu um homem mais ou menos da minha idade, com um bom ar, simpático. Percebi que era o construtor. Perguntei-lhe se as casas desse prédio em construção eram grandes. Disse-me que eram T4 normais. Perguntei-lhe se tinha ou sabia de casas grandes. Disse-me que sim, uma que tinha sido dele e que estava a reconstruir. Mais tarde haveria de me contar que era a casa onde tinha vivido com a primeira mulher e com a filha e que estava a reconstruir para que a mulher da altura, a segunda, não se importasse de ir para lá (mas que não sabia se nem mesmo assim ela quereria). Mas, naquele primeiro dia, não sei dizer bem porquê, interessei-me logo. Perguntei-lhe onde era. Disse-me e disse-me também que ia lá estar no dia seguinte à tarde. No dia seguinte, apareci lá. A casa estava em reboco, tudo a ser feito de novo. A casa tinha uma deslumbrante vista para o rio e era, realmente, uma belíssima casa. Senti imediatamente que era a casa pela qual eu estava à espera. O que tive que penar pela casa, as surpresas que tive, algumas muito boas, o inacreditável que foi todo o processo até que ele assimilou que a mulher jamais viria viver para aqui e aceitou vender-me a casa, é digno de outro filme. No dia da escritura, chorou ao vender-nos a casa. A mulher acompanhou-o mas não estava nem aí.


A casa no campo foi outra. Sempre tive vontade, ou melhor, necessidade, de ter uma casa no campo. O meu marido nem por isso. Durante anos procurámos. Ou eram caríssimas, ou horrorosas, ou a milhas, ou em lugares recônditos ou com vizinhança nula ou péssima. Já todos, o meu marido e os meus filhos, odiavam que eu persistisse, já nenhum deles tinha mais paciência para continuar a procurar. Até que um dia vi um anúncio. Chamou-me a atenção. Consegui convencê-los a ir ver. Estava de chuva, não queriam ir. Fomos ter com a dona da agência, uma pequena agência local. Quis mostrar-nos primeiro uma outra. Na verdade, um monte, literalmente um monte. Era vendido com o projecto de uma moradia que ela e o marido, que tinham também uma empresa de construção, fariam nascer. Mas eu estava com a ideia no tal anúncio. Lá fomos, num dia muito cinzento e muito molhado. E foi, de novo, amor à primeira vista. Era uma casa muito, muito antiga, com um acrescento recente e legal, uma casa no meio de pedras e mato rasteiro. Os miúdos entraram a correr e um disse: 'aqui é o meu quarto' e outro disse 'e aqui é o meu'. E eu comecei logo a pensar em desfazer-me daqueles móveis escuros e a pensar que tudo aquilo precisava de uma grande volta. E que ali, onde estavam pedras e mato rasteiro, haveria um dia um pequeno bosque. E foi outra luta. Papéis, papéis. Muito, muito tempo. Mas não desisti(mos). É agora o pedaço de terra que sinto como meu, como se tivesse nascido dele.


E talvez por ter esta ligação estreita a casas ou à recordação de algumas, sonho recorrentemente com casas. Sonho que chego a um lugar e que há uma casa fantástica que eu desejo que seja minha e que a vou visitar e que é enorme, sem princípio, meio e fim, com muitas divisões, que tudo ali me encanta, que me ponho à descoberta e que tem recantos maravilhosos e surpreendentes. Adoro ter este sonho. Nem quero acordar, para estar, maravilhada, a descobrir divisão após divisão, móveis lindos, louças e quadros magníficos, janelas grandes, muitas portas.

Mas, se hoje fizesse uma casa de raiz ou fosse escolher uma casa para iniciar uma vida nova, escolhia uma casa diferente das minhas. Talvez escolhesse ter casas como estas dos vídeos abaixo.





--------------------

As pinturas são de Gerhard Richter e acho que vão bem com Arvo Pärt, aqui com Pari Intervallo 

-----------------------------------

Era para ter falado dos 'Livros Perdidos' mas cheguei tarde a casa, tive mil coisas para fazer, é tarde e espera-me um dia e pêras. Por isso, com vossa licença, vou já direitinha para a cama, apenas não rezando a todos os santos para isto não estar pejado de gralhas porque sei que não seria a reza a editar o texto.

--------------------------------

E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira.

sexta-feira, janeiro 04, 2019

Porque é que Sócrates detestava a democracia?





Não há coisa mais democrática que as redes sociais: toda a gente opina por igual e vai um e diz que gosta e vai outro e bota-lhe um smile e outra um LOL e outra um friso de DDDD, e vai link para aqui e link para a acolá. O povo a fazer as suas escolhas.

Na cabeleireira, lugar que encaro com fascínio, ouço uma conversa entre a cliente e a menina que faz nails em gel e em gelinho: Pah, fui lá, vi as fotografias dela e pus logo lá um like mas já reparaste que a gaja a mim nunca põe um like? Mas eu ponho, sou assim, para ela ver que a mim não me afecta. A outra aprova: 'Bofetada de luva branca'. E, enquanto ali estou, as conversas giram sempre neste registo. Presumo que nada saibam de política nem dos escândalos do Facebook. E, quando votam, sem nada saberem de concreto sobre o que os candidatos têm para oferecer e sem poderem em consciência fazer um rigoroso juízo de valor sobre desempenhos anteriores ou sobre eventuais consequências (boas ou más) das promessas dos candidatos, o voto delas vale tanto quanto o das pessoas bem informadas.


Veja-se o que aconteceu no Reino Unido: uma votação assente em manipulação da informação prestada aos eleitores (lembram-se do escândalo da Cambridge Analytica?), sobretudo incutindo-lhes medo, levou a que estes tomassem a irresponsável decisão de saírem da União Europeia. No dia seguinte, depois do lindo resultado, a Google ia aterrando com os britânicos a perguntarem o que era o Brexit. Ou seja, tinham votado sem saberem no que se iam meter. Mas como o seu voto é soberano, andam agora a querer cumprir essa determinação, mas completamente às aranhas. Parte dos que os meteram nisto já se pisgaram e os outros não se entendem. Uma coisa desconcertante de tão estúpida que é.

Ou a malta que votou no Trump? Os mais desfavorecidos foram os que mais o apoiarem. Um sujeito que parece atrasado mental de tão boçal que é e que, por incrível que possa parecer, ainda tem muitos apoiantes. O mesmo acontece com Marine le Pen: os imigrantes, nomeadamente os portugueses, são fervorosos apoiantes. Acham que a mãezinha os vai poupar a eles, banindo 'os outros'. Um pouco por todo o lado, os populistas e a extrema direita vão ganhando terreno com o voto popular e democrático dos mais incultos, dos mais facilmente manipuláveis.

É a democracia a funcionar.


A comunicação social séria vai soçobrando pois assenta num modelo de negócio que está a ficar obsoleto neste mundo imediatista que gira em torno do uso intensivo e pseudo-gratuito das plataformas colaborativas e partilhadas. Por isso, o que poderia ser um contraditório rigoroso e eficaz também está a desaparecer -- e a cambada que começa no populismo para acabar no totalitarismo vai alastrando.

Não me perguntem qual a alternativa à democracia porque não saberei responder. Melhor do que a democracia não conheço. Talvez uma democracia filtrada e regulamentada mas, muito sinceramente, não sei se isso não é a contradição dos termos. Se calhar é. 

Além do mais, há outra coisa: muitos democratas tendem a ser pouco pragmáticos, tendem a encarar assuntos relacionados com democracia e liberdade como tabus. Se alguém tenta reflectir sobre o tema, logo se erguem, doutorais, de pedras na mão, querendo expulsar do templo os que, genuinamente, gostariam de encontrar uma forma eficaz e 'democrática' de preservarem a democracia.


Penso que nas escolas, todas as escolas, e na sociedade em geral deveria ser suscitada esta reflexão.

Tal como a tecnologia barata ubíqua e de utilização desregulada pode devorar a liberdade e a qualidade de vida dos cidadãos também a vida actual -- com muitos políticos oportunistas ou fracos como moscas mortas, e com a opinião pública condicionada pela praga das redes sociais  -- pode minar os pilares da democracia.

Mas, enfim, é tarde, está um frio dos diabos, a casa está envolta num denso nevoeiro, e eu não serei a pessoa mais instruída para dissertar sobre o tema. Fico-me, pois, por aqui.


Queiram, antes, ver este vídeo que o P. me enviou e que bem interessante é.


Why Socrates Hated Democracy



We’re used to thinking hugely well of democracy. But interestingly, one of the wisest people who ever lived, Socrates, had deep suspicions of it. 

.....................................................................................

Escolhi fotografias do alemão Matthias Haker que mostram belíssimos edifícios abandonados pois, em tempos, pareceram perfeitos, eternos, foram estimados e nada parecia anunciar o abandono e a decrepitude a que agora estão votados. Se existe a perspectiva de democracia correr o risco de vir a ter o mesmo destino (mesmo que só por vezes e em alguns lugares) então, naturalmente, fico apreensiva. Muito.

De Arvo Pärt o Cantus in Memory of Benjamin Britten com Tilda Swinton no vídeo

............................................

sexta-feira, abril 06, 2018

'O homem pendurado na ponte'
-- e o Waze, a Google, o Facebook, a Microsoft, a Amazon, etc.

Este é o mundo que, alegremente e às cegas, estamos a construir.
(Melhor dizendo: a destruir)





Afinal, não foi só lá longe. Leio que a Cambridge Analytica pode ter usado dados de 63 mil utilizadores portugueses. Claro. Porque haveriam os portugueses de ficar a salvo do regabofe? E o que se vai sabendo é apenas a ponta do iceberg -- já o disse e repito-o. Agora qual a dimensão do iceberg, isso não sei. Nem ninguém sabe.

Não há como ter certezas de nada porque não há como controlar. Apenas se pode saber que o que se sabe é apenas uma pequena parte do que há para saber. 

Da mesma forma que.

Estava, na quarta-feira, ao fim do dia, na fisioterapia. Desculpei-me: 'Peço desculpa por ter chegado a esta hora'. O fisioterapeuta já desistiu de protestar. Ou não chego a horas ou nem chego a ir. Saturada dos engarrafamentos, aborrecida por chegar tão tarde, acrescentei: 'Um trânsito... Tudo parado... Deve ter havido acidente na ponte porque parece que tudo o que vai lá dar está parado e, por isso, à volta, tudo parado está'. Ele esclareceu: 'Não foi um acidente. Foi um incidente'. Não percebi. Ele disse: 'Quando há coisas assim, dizem incidente'. Nunca tinha ouvido tal. Perguntei: 'Mas sabe o que se passou?'. Ele disse: 'Vi a fotografia'. Continuei sem perceber. Ele explicou: 'Um doente mostrou-me. Um tipo num cabo da ponte. Um suicida.'. Fiquei ainda mais tolhida pela incompreensão. 'Um doente mostrou-lhe?! Mas mostrou-lhe o quê??'. Ele disse: 'Quem está lá parado fotografou e pôs nas redes sociais'. Fiquei gelada.

A insensibilidade humana é assustadora.

Li agora 'O homem pendurado na ponte', escrito pelo Ferreira Fernandes. Arrepia.


Portanto, no Waze também. Claro. São os utilizadores que fazem o upload das imagens e podem pôr o que quiserem. Um homem em pleno e triste processo de desistência de viver, um homem pronto a cair no vazio -- e algumas pessoas, indiferentes à presença da dor alheia, fotografaram-no e, sem qualquer respeito por aquela pobre pessoa desesperada, exibiram-na perante o mundo. Apenas por estarem dentro dos carros, não foram fazer uma selfie com aquele homem que conduziu o carro até à ponte, parou, saíu e trepou para um cabo para acabar com o sofrimento. Assim fotografaram-no apenas.
Quem cometeu tão torpe acto são as mesmas pessoas que escrevem comentários malvados, que destilam veneno, que agem a coberto do anonimato para amedrontarem gente de bem, que mostram invejas, raivas, vontades de vinganças. As mesmas que falam de si próprias como sendo gente boa, amigas de gatinhos e do ambiente. As mesmas que se alimentam das redes sociais e que as alimentam.
Digo isto, usando eu o blogger. Mas escrevo aqui como poderia escrever um diário só para mim, um livro de contos, memórias, crónicas para um jornal inventado, cartas de amizade, cartas de amor. 

E, sabendo eu que, apesar da minha aversão a redes sociais ou a auto-exposições, a minha pegada é, certamente, imensa, tento manter-me consciente em relação aos riscos que corremos. E corremos muitos riscos. Muitos mesmo.

E não os corremos apenas pela profusão da informação pessoal que inunda as redes sociais -- e que pode ser usada contra a liberdade e contra a democracia -- mas também pela proliferação de ferramentas que usam inteligência artificial.

Leio:


Boicote foi assinado por mais de 50 académicos e surgiu uma semana antes de uma reunião das Nações Unidas sobre armas autónomas

Investigadores especialistas em inteligência artificial de quase 30 países estão planear um boicote a uma universidade na Coreia do Sul em reação a uma parceria de um laboratório da instituição com uma empresa ligada ao setor da defesa: há o medo de que o projeto possa criar "robôs assassinos", revela o Times Higher Education. (...)


Leio também:


In this open letter to Google’s CEO, over 3,000 employees urged the company not to work on a Pentagon ‘AI surveillance engine’ used for drone warfare (...)


Amid growing fears of biased and weaponized AI, Google is already struggling to keep the public’s trust. By entering into this contract, Google will join the ranks of companies like Palantir, Raytheon and General Dynamics. The argument that other firms, like Microsoft and Amazon, are also participating doesn’t make this any less risky for Google. Google’s unique history, its motto “don’t be evil”, and its direct reach into the lives of billions of users set it apart. (...)



A classe política e a sociedade em geral parecem continuar indiferentes ao que está a passar-se. Não vejo verdadeiras preocupações, vontade de regular, vontade de vigiar. As coisas vão acontecendo e ninguém parece perceber que é preciso actuar enquanto ainda é tempo.

O mundo está a caminhar para um precipício desconhecido e que intuo ser deveras perigoso e quase ninguém parece ter vontade de parar para pensar. Ninguém parece ter vontade de recuar até ao tempo da inocência.


.............................