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quarta-feira, julho 19, 2017

Se queres usar uns sapatinhos queques, ao menos garante que não têm a biqueira ratada.
[Que é como quem diz: se queres armar-te em simpática a dar em público os parabéns a alguém, garante que não é uma manobra ao lado]


Confesso. Comigo não dava. Preciso de espaço. Não consigo suportar o excesso de proximidade física. Entrar numa loja e saltar-me uma empregada ao colo a querer impingir-me o que quer que seja, não dá. Ou estar a falar com alguém que se aproxima demais e não pára de me agarrar no braço ou molestar-me com o odor do seu hálito -- não aguento.

Imagine-se agora o que seria estar horas sentada encostada a alguém, um de cada lado, braço com braço, perna com perna, e vários atrás. Horrível. O que vale é que, por aquelas bandas, têm fama de ser lavadinhos. Se fossem franceses, com aquela fobia que parte deles ainda tem ao banho diário, havia de ser um cheirinho a balneário frequentado por judocas transpirados...

No entanto, como espectáculo, não há como o Parlamento do Reino Unido. Uma paródia num permanente registo de tête a tête. Quando tenho dias cabeludos nos quais, em vez de partir para a desgraça, me armo em Madre Teresa, chego a casa capaz é de partir a louça toda. Contudo, sendo putativamente racional, era o que faltava dar prejuízo a mim própria e, portanto, sublimo. E, quando assim é, há remédios que não falham nunca: ou os Monty Python ou o parlamento do Reino de Sua Provecta Majestade.

Acho um piadão àquele Speaker* e acho um piadão à forma como reagem às provocações ou aos deslizes de uns e outros, seja de que lado da bancada for. As interjeições, a pateada e a risota parecem divertidas cenas de um teatro shakespeareano. E eu, nada e criada num país verde e azul que gosta de se travestir de cinzento, pardacento e bolorento, adoro ver como é possível transformar uma coisa que os portuguesas encaram com pacóvia reverência num exercício livre e não desprovido do seu lado lúdico.

Adiante. Nesta cegada do Brexit, ando divertida a ver a saia justa em que os ingleses se meteram quando se deixaram levar pela cantada dos populistas. E, mais concretamente, acho o máximo a forma como a desajeitada Theresa May anda a fazer um papelinho com o qual meio mundo se diverte. 

Leio, por exemploTheresa May em dificuldades na primeira semana de negociações com UE. Bloomberg fala em "erros básicos e tropeções" que têm manchado a reputação do Reino Unido.
Mas isto não são horas para eu me aventurar por terrenos que não domino e, portanto, não vou falar nem do Brexit nem das barraquinhas passadas e futuras onde a Senhora Dona Madame se meteu.

Limito-me a mostrar um grande plano dos sapatos da dita Theresa May durante uma reunião com o primeiro ministro da Estonia no nº 10 Downing Street. Acontece que a senhora é uma vaidosona de primeira, gosta de andar montada em griffes, sempre com sapato e toilette a dar no olho... e, afinal, anda com sapatos ratados. A única desculpa perdoável será se, durante a reunião, o primeiro-ministro tiver andado debaixo da mesa, sabe-se lá com que intuitos para além do de lhe ratar os sapatos.


Theresa May durante a conversa com Jüri Ratas


Claro que a senhora comete gaffes de vária ordem e é alvo fácil para partidas e piadas que levam o Parlamento às lágrimas. Podia escolher vários momentos épicos para aqui partilhar convosco. Mas vai este que acho o máximo: arma-se em simpática e dá os parabéns ao seu grande rival Jeremy Corbyn pelo nascimento de uma neta. Mas upsss... não tinha nascido nenhuma neta... Acontece que o sentido de humor dela também tem graça e isso salva-a do ridículo




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Já agora um momento que, se em Portugal, seria o momento anti-Morgado**: Theresa May e uma desconcertante alusão sexual a propósito do aniversário de Peter Bone.




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* Order! Order! -- grita o Speaker



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** Sobre o Morgado, poema de Natália Correia:


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E um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

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domingo, julho 31, 2016

Coisas simples




Por cá, depois de uma mão cheia de caranguejos, entrámos agora no tempo dos leões. A partir desta semana que aí vem, é também sempre a abrir.

Por isso, o fim do dia foi reservado às compras. Entre presentes e supermercado e uma ou outra coisita para mim que nao sou esquisita e as pechinchas mexem comigo, chegámos a casa quase à meia-noite. Como sempre, o meu marido a achar que eu sou a culpada de tudo. Como estava estafada não dei muita luta, apenas quis perceber. 'Culpada? Mas culpada de quê?!?!'. Responde: 'Se não quisesses ver tudo antes de comprar, despachávamo-nos em metade do tempo'. Não respondi. Ando há anos a tentar que perceba que não é possível fazer uma selecção acertada sem antes conhecer a totalidade dos artigos. Ora, se até agora não consegui, não era hoje, a esta hora, que ia conseguir. Se vamos escolher roupa para a menina mais linda do mundo, ao entrar na loja tenho que ver o que há para a idade dela e só depois seleccionar. Ele é o oposto. Entra já com vontade de sair. Depois, chega ao pé da zona da roupa para a idade dela, pega em 3 ou 4 coisas e por ele ia direito para a caixa. Como se pudesse ser assim. Claro que agradeço as sugestões dele e fico com elas. Mas vejo atentamente cada coisa, vou retirando aquilo de que gosto, depois vou-lhe passando coisas para ele porque, com os braços cheios já não consigo tirar mais nada, e, só depois da ronda completa, examino a pré-selecção e faço, tentativamente em conjunto com ele, a selecção final. Por vontade dele, só para não ter que olhar para a roupa, levava tudo. Mas não pode ser. A seguir repete-se o processo para outro leãozinho. Ele já passado. 

Quando vamos pagar ainda me lembro de ver se há coisinhas para o cabelo dela, para fazer totós, elásticos com lacinhos ou brilhantes, qualquer coisa assim. Fica danado. Que me deixe ficar quieta ali na caixa. Mas como vou, pergunta se é para pedir talões de oferta, se vai tudo no mesmo embrulho. Anda comigo há mil anos e ainda tem dúvidas sobre estas coisas. Quando saímos ainda vem a protestar. Mas não interessa. Faz parte. A verdade é que hoje o dia rendeu imenso. Presentes despachados, compras feitas e até sapatos resolvidos. 

Ele andava há que tempos à procura de uns sapatos castanhos escuros, simples. Só descobria ou com sola clara ou com pespontos claros ou com a ponta quadrada ou com a ponta arrebitada. Sapatos simples, clássicos, normais: nada. É como quando quer comprar calças em cinzento escuro, corte clássico, normalíssimas, e só encontra com tecidos estranhos, com pregas, com cortes afunilados, com toda a espécie de pormenores que lhe desagradam, e calças normais está quieto. Pois bem. Hoje descobriu uns sapatos tal como os queria. Aleluia. 

Eu andava na mesma. Há 4 anos comprei uns sapatos de pele fina castanha, rasos, fechados à frente mas com recortes, super confortáveis e frescos. Desde então, tenho procurado uns do mesmo género para substituir aqueles pois as palmilhas estavam a ficar velhas e os próprios sapatos começavam a querer dar de si.
Eu acho que não, que estão ainda bons mas, quer a minha mãe quer o meu marido, sempre a chatearem, a perguntarem se eu ia usar os sapatos até se desfazerem. 
Mas não descobria nenhuns que me agradassem. Pois bem, hoje, na mesma sapataria que ele, uns sapatos quase iguais aos outros, confortáveis, do mesmo género. E comprei também umas palmilhas de pele para ver se prolongo a vida aos meus sapatinhos idosos.

E ao ir ao supermercado, encontrei kefir, coisa que nem sempre encontro, ou porque não há ou porque mudaram as coisas de sítio e não as encontro nem descubro nenhum empregado a quem perguntar. Que sorte tive hoje... Mal posso esperar por amanhã ao pequeno almoço para o misturar com sementes, frutos secos, cereais. Love, love, love.

Também trouxe um gel de banho de leite e rosas que nunca tinha experimentado. Quando agora cheguei a casa, estive a refrescar-me e usei-o. Ah que cheirinho mais bom. Fiquei eu suavemente perfumada e ficou a casa de banho igualmente cheirosa. A seguir entrou o meu marido e perguntou todo intrigado: 'Que raio de cheiro é este?', e quem o ouvisse falar até parecia que o cheiro não era bom. Faz sempre estes espantos quando mudo de gel de banho. Ele há anos que usa do mesmo, um que não tem cheiro. Até nisto é o meu oposto. Eu mudo sempre, de marca e de perfume.

Bem. Nem sei a que propósito vem isto. 

Se calhar é porque não ouvi notícias nem estou com paciência para me ir informar. Estive o dia todo fora do mundo noticioso.

Durante o dia estive no campo, no remanso. Andei passeando ao sol, entre as cigarras, a terra exalando um cheiro bom, a calor, a rosmaninho e pinheiro, a sombra de eucalipto e alecrim.

As ameixas desapareceram. O costume. Os sacanas dos pássaros comem-mas todas. Os figos ainda não estão bons. Tomara que fiquem maduros, Adoro figos. O meu filho veio do Algarve e trouxe-nos figos torrados com amêndoas lá dentro e eu lambo-me com eles. Diz que engordam mas olha, perdoa o mal que fazem o bem que sabem.

Trouxe mais orégãos. Têm um cheiro fresco. Claro que ando por ali feita turista, a fotografar, encantada como se estivesse a ver tudo pela primeira vez: as árvores que plantei e podei, os muros que imaginei e que já deviam ser pintados mas aos quais acho graça assim, embelezados pelas marcas do tempo.

Também li. Comecei pelo Science is Culture, um prazer de leitura, e depois passei para A Sibila da Agustina, livro que me apetecia reler pois na altura em que o li não estava preparada para degustar a suculência da escrita daquela sumptuosa e desbragada mulher. Há coisas que apenas com alguma vivência no corpo e na alma se conseguem apreciar como deve ser.

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E pronto não vos maço mais com esta conversa mole. Isto é a minha forma de descansar, sabem. O meu marido já dorme a sono solto -- e eu nisto. Mas ainda só mais uma coisa.


"Uma laranja para Alberto Caeiro", poema e voz de Natália Correia sobre música de António Victorino D'Almeida‎.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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sexta-feira, agosto 14, 2015

Eis-me sem explicações crucificada em amor: a boca o fruto e o sabor


Pensa que poderia ouvi-lo ao longo de muitas horas, muitos dias. E, pensando isto, interroga-se: muitos anos? Mas deixa a pergunta a pairar, a pairar dentro de si.






Pensa que gostaria de passear com ele, pensa na tal aldeaziña galega, um lugar de mar e frios, pensa que gostaria de se agasalhar. Pensa nele e pensa que há qualquer coisa no seu olhar desabrigado que pede aconchego. 

Pensa nele e pensa que quer que ele lhe fale de reinos perdidos, de florestas, de templos, de outras civilizações, de castelos, de palácios, e quer que ele descreva tudo como se para lhe fazer lembrar outros tempos em que ambos estiveram juntos.

Talvez pudessem passar umas semanas na vila que se debruça sobre a enseada onde o mar se acolhe em sossego.



Uma casa no meio da aldeia. Ou um pouco afastada, talvez. E a casa terá um quintal grande, árvores, pássaros nas árvores. E terá uma varanda virada para o quintal e ambos sentar-se-ão lá, agasalhados, talvez uma manta sobre as pernas ou a envolver-lhes os ombros, talvez se sentem num cadeirão de dois lugares e irão lendo livros enquanto se chegam um ao outro para se aquecerem, e irão olhando as árvores, o sol que se põe, a noite que começa a cair, o gato que salta do outro lado para se pôr ali, sossegado a olhar para eles.



Outras vezes estarão abraçados junto à varanda que dá para o mar, olharão os veleiros que passam, as gaivotas, olharão os reflexos de luz nas águas. Pouco dirão porque estarão emocionados, tantas vidas noutros mundos para agora estarem ali, unidos, o corpo, a alma, o coração. Ele dirá de vez em quando ‘olha a cor do mar’ e ela dirá ‘e a do céu’. E ele estreitá-la-á mais, como se querendo impedi-la de se perder dele. 

Às vezes, enquanto escolhe o que há-de vestir ou enquanto se põe de lado para se ver melhor ao espelho, a mulher verá como ele a olha, umas vezes sorrindo, outras muito sério. Perguntar-lhe-á ‘o que é?’ e ele encolherá os ombros, ‘nada’ e ela irá sentar-se junto a ele, o braço enfiado no dele, encostará a cabeça ao seu ombro, far-lhe-á uma festa no rosto. Nada dirão. 

Depois, ao jantar, uma pequena vela sobre a mesa, um vinho bom, a mão de um tocando a mão do outro, ela pedir-lhe-á, ‘um poema’ e ele dirá um e outro, tantos quantos ela pedir. Mas ela não pedirá muitos, receará que ele diga que não sabe mais. 

Um dia, quando ele menos esperar, dirá ela um poema, talvez aquele de que tanto gosta:

Eis-me sem explicações 
crucificada em amor: 
a boca o fruto e o sabor.

Imagina que ele sorrirá, admirado. Talvez veja nisso uma declaração de amor ou, mais do que de amor, de desejo. Ela dirá ‘é um poema pequeno, é o único que consigo fixar, a minha cabeça não dá para mais’. Ele sorrirá, ‘então, se por incapacidade de memorização, teve que ser selectiva, permita que lhe diga que seleccionou muito bem’. E logo de seguida, ele, com a sua boa memória, repetirá:

‘      Eis-me sem explicações 
       crucificada em amor: 
       a boca o fruto e o sabor.

Ah, este eu não posso dizer, este só pode ser dito por uma mulher’.

E aproximar-se-á e dirá em voz muito baixa, quase como se segredasse, ‘deixe-me ver a que fruto sabe a sua boca’ e beijá-la-á e ela deixará que, devagar, ele seinta o sabor do sumo do fruto da sua boca.
E, enquanto pensa nisso, diz em voz muito baixa, 'o sumo do fruto da minha boca'. Depois diz 'prova-o'.
À noite, na cama, lendo cada um o seu livro, de vez em quando um pousará o seu e pedirá que o outro leia em voz alta. Adormecerão muitas vezes assim, a voz de um embalando o outro.

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Adormeceu.

Mais tarde, a mulher abre os olhos, respira fundo. Volta a fechá-los, volta a imaginá-lo. Volta a vê-lo silencioso e sério.

Levanta-se, vai até à janela, espreguiça-se. Deixa-se estar ainda sob o efeito do pensamento.

Sacode o cabelo, agita os ombros, afasta o homem da sua cabeça, do seu corpo.

Afinal foi apenas uma curta entrevista.


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  • Lá em cima era Richter a interpretar Scriabin (Sonata no. 2, Op 19 (movement 1))
  • O pequeno poema é de Natália Correia.
  • As imagens mostram Muros e uma das suas casas. 
  • A mulher que escolhi para dar corpo à jornalista é, uma vez mais, Kristin Scott Thomas.
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Hoje os meus filhos, depois do trabalho, foram para os concertos do Sol da Caparica. Daqui a nada chegará ela, que virá pernoitar por cá. Os seus dois rapazinhos já aqui estão a dormir depois de terem jantado como uns leões esfomeados, a seguir feito ginástica, depois jogado à bola, a seguir ao Jogo da Glória (com várias tentativas de batota pelo meio), terem andado a desafiar o avô com 'truques', tendo ele que se recordar dos seus tempos de jovem quando praticava karaté, depois ceado forte e feio como se não comessem há muitos dias e, para rematar, me terem posto a inventar histórias de ursos em grutas guardadas por bombeiros e etc. -- até que adormeceram de súbito.
Os outros dois pimentinhas ficaram com a outra avó e virão para cá no sábado já que o Sol da Caparica continua e os pais não o querem perder.
Por isso, como é bom de ver, depois de um dia de trabalho, com uma empreitada destas, estou mais do que perdida de sono e já nem sei muito bem o que é que estive para aqui a inventar.

Portanto, com vossa licença fico-me já por aqui que daqui a nada tenho que estar a pé e estou mesmo a ver que vai ser o bom e o bonito para os arrancar de cá a horas decentes.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. 
Divirtam-se e sonhem. Sonhar é bom.

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segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Eis-me sem explicações, não calando a voz do chão que grita dentro de mim e que, nestas paredes e nestes caminhos, irá para além de mim. Sou feliz in heaven.


No post abaixo questionei-me sobre o que é o amor e, a propósito de uma mulher que despertou paixões várias, Gala, mostrei um poema de um homem que muito a amou, Paul Éluard.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.







Aqui chegados, a casa estava fria, quase húmida de tão fria. Reparei que o galo, a galinha e os seus galitos parecem ter-se zangado. Costumo dispô-los uns atrás dos outros e agora uns estão para um lado e outros para outro. Devem sentir a nossa falta, parecem amuados, temos vindo pouco, o tempo não chega para dar corpo a todos os afectos.




Desta vez a salamandra animou-se, ainda agora fui espevitá-la. Vem de lá um calorzinho bom, um perfume a cedro, a azinheira, a pinheiro, a pinhas: são as minhas árvores queridas que nos dão sombra, perfume, cor e também calor.

Estava no sofá, reclinada, a ler uma entrevista a T.S. Eliot, quando reparei que o fogo se reflectia no vidro da janela, parecia uma fogueira no jardim, quase como se da pedra enorme que tenho aqui no chão à porta nascesse uma chama.




Sinto-me feliz com coisas assim: sabia que os meus filhos estavam juntos, divertindo-se em família, todos mascarados, as crianças numa alegria, e sabê-los amigos enche-me de felicidade. E eu aqui, sabendo isso, e sabendo que o meu pai está a ser bem tratado e talvez recupere ligeiramente, que a minha mãe está a descansar um pouco, sentindo o afago bom do calor perfumado da salamandra, vendo o dia a cair do lado de fora, lendo, rodeada de afecto, senti-me agradecida. Sei como são frágeis os acasos que fazem uma pessoa ter motivos para estar feliz, frágeis, efémeros. Tantas pessoas que os não têm e que tanto o mereciam. Por isso, sempre que me sinto abençoada, sinto-me também agradecida, quase como se, sentindo-me agradecida, conseguisse a benesse de por mais tempo me ser concedida a graça de o continuar a ser.

Antes de me deixar estar aqui na sala, descansada, a ler, tinha andado a passear. Que bom é passear por aqui, in heaven. Reparo em cada pequeno pormenor. Uma árvore mais verde, um bocado de musgo solto - e penso, um gato, um coelho talvez, ou a chuva ou o vento - e está mais fofo e aveludado, uma pedra que parece mais coberta de terra.




Os cedros estão carregadinhos de pontos dourados. Gosto muito de cedros, crescem muito, dão belas sombras, são elegantes, os ramos tombam como capas, como mantos.

O que antes era uma terra de mato rasteiro tem agora pequenos bosques perfumados. Baixo-me para descer as escadas de pedra cobertas de musgo e folhagem que mal se vêem debaixo das ramagens das árvores. Depois sinto que fiquei com folhas presas no cabelo e hesito em tirá-las. 

As figueiras continuam despidas, ramos escuros que desenham arabescos no ar. Mas, na ponta de cada um, um pequeno rebento. São as folhas que começam a pressentir-se.




Fico sempre emocionada quando assisto a este milagre. Todos os anos as figueiras se despem para o inverno, e ficam nuas, ramos que poderiam prenunciar o seu fim. Mas depois a natureza faz renascê-los e dos ramos começam a surgir provas de vida.

Daqui por algum tempo as folhas começarão a desenhar-se, depois as árvores ficarão frondosas e os figos crescerão até que, pesados, deixarão que uma gota de mel se solte.

Continuo.

Gosto de andar com a máquina fotográfica. Guardo o registo do que me parece ser mágico, quase indizível. Tantos tons de verde, ramos nus, cinzentos, misturando-se com folhagens verdes de várias tonalidades. No meio tenho bancos, uns de pedra, outros que desenhei, pequenas conversadeiras que forrei a azulejo. Pensava: vai apetecer-me sentar-me no meio das árvores a ler um livro ou a conversar, deve haver ali um sítio onde seja bom estar. E apetece, tenho é pouco tempo para poder fazer tudo aquilo que quero.




Quando andava a passear em silêncio, vi o gato preto que por aqui anda por vezes. Ele não me via e eu andei ainda mais silenciosamente. Mas, então, ele apercebeu-se da minha presença. Virou-se para mim, olhou-me com aquele seu olhar verde e intenso. Arrepiei-me. Fiquei estática a olhar para ele e ele para mim. Depois, quando eu começava a ganhar consciência e me preparava para o fotografar, fugiu. Este gato desafia-me, teme-me, encanta-me sendo tão arisco e ágil, perturba-me pela forma como me olha.

Mais à frente, outra alegria. Quase poderia dizer que eram dois botões, de um tom de pétala de rosa deixada ao embalo do sol. Maravilho-me com coisas assim, com a beleza muito pura.




Na parte de fora da pequena capela, lembrei-me de ter Adão e Eva. A Igreja (a Igreja antiquada e com a qual não me identifico) acha que cometeram um pecado e, por isso, deixa-os de fora. As crianças que nascem desse pecado têm que ser purificadas antes de poder ser aceites no seu seio. Eu não considero que os actos de amor ou de prazer possam ser pecado e, por isso, não baptizei os meus filhos. Nasceram puros porque nasceram de actos de amor.


E juntei falas a Adão e a Eva.
Adão, encantado por Eva, usa as palavras de David Mourão-Ferreira e diz

A vestir-te
o corpo
nu
ou a sede
que é minha
ou a seda que és tu


E Eva faz suas a s palavras de Natália Correia para dizer

Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto o sabor

Mais à frente, rodeei as azinheiras por um muro em redondo onde fiz pintar estrofes ou pequenos poemas.

Trocar tudo por ti, se for preciso

Pensei nesta espécie de canteiro como um poço do amor de onde se erguesse a vida traduzida em árvores. São cinco poemas de amor. O senhor que aplicou os azulejos suou as estopinhas para conseguir fazer a curvatura do murete mantendo os azulejos encostados de forma a que as palavras ficassem bem desenhadas. Gosto de andar aqui e ler os poemas e sentir que o amor está bem marcado na minha vida, impresso na pedra.

Sou eu que aqui me encontro. Um dia desaparecerei e talvez as ervas e os musgos tudo invadam. Talvez as árvores tombem cansadas de carregarem as suas pesadas ramagens. Ou talvez os meus filhos e os seus filhos e os filhos dos seus filhos tentem manter este espaço e continuem a achar que é o seu heaven. Não sei. Mas acredito que muito de mim continuará a existir para além de mim, aqui nestas paredes, nestes poemas, nestes desenhos, nestes caminhos, nestes recantos. Como disse, era uma terra inóspita, só pedras e mato, e agora sou eu aqui envolta em palavras, em árvores, em luz, perfumada pelos cheiros íntimos desta terra que me adoptou e que eu sinto que me ama de uma forma silenciosa e fértil, doce, maternal.


Para dizer que sou eu aqui, diante de mim

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A límpida e maravilhosa música é Llongau Térou-bi interpertada por Catrin Finch e Seckou Keita

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Relembro que, descendo até ao próximo post, encontrarão as minhas dúvidas sobre que coisa é o amor e um poema muito belo, dito e cantado, de um homem que muito amou uma mulher que o viria a fazer sofrer, Éluard e Gala.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.
E sejam muito felizes. 
E façam por amar e ser amados, está bem?

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terça-feira, junho 03, 2014

Robert de Niro e o seu pai gay


Esta minha semana é daquelas jeitosas. Começou bem e amanhã e o dia seguinte, no mínimo, vão pelo mesmo caminho: de sol a sol e isto porque os dias estão grandes. Ainda é segunda à noite e já estou a precisar de fim de semana - não sei se é pelo dia de hoje se é só de pensar no que me espera. 

Cheguei tarde, cansada, ainda tive que fazer uma máquina de roupa e pô-la a secar, fazer o jantar para amanhã, arrumar roupa e sei lá que mais. Amanhã começo com reuniões logo cedo e vão até ao fim do dia sem mais que uma meia hora mal medida para almoçar e isto para depois, na quarta, começar ainda mais cedo e ter reunião prolongadas e complicadas. E acho que vou assim até ao fim de semana, fim de semana esse no qual se espera uma daquelas cenas que mete camping por toda a casa.

Mas adiante que a vida é curta e não dá para estes compassos de espera que não levam a nada. E, sobretudo, haja saúde!

No post a seguir a este faço uma pergunta: alguém me informe, por favor, se a troika ainda cá está ou não? É que não sei se andei distraída ou se estou passada da cabeça ou se o o meu país está a ser governado por mentirosos compulsivos e descarados.  A sério: alguém que me esclareça, pleaaaase.

Mas isto é a seguir. aqui, agora, a conversa é outra.

Robert de Niro é cá dos meus. se ele entra, então eu já estou de pé feito para me pôr a caminho a vê-lo. Seja como rebelde, seja como um amante de dar gosto, seja como durão a sério, seja como um durão de fazer rir, Robert de Niro é sempre de nos prender do princípio ao fim de um filme.

Pois bem. Não fazia ideia que foi filho de pintor e, muito menos, de um pintor gay.

Não que tenha mal ser-se pintor, nem ser-se gay, nem, o cúmulo, um pintor gay. Achei foi graça que Robert de Niro tivesse um pai pintor e gay.


Embora, pensando bem, não seja capaz de dizer que graça é que isso tem. Se fosse padre e travesti seria mais engraçado.

[Estou com estes disparates, nem sei porquê. Se calhar é porque estou a escrever isto e, como costume, com um olho no burro e outro no cigano, ou seja,  a ouvir o Prós e Contras sobre a Igreja e a Sexualidade e, a par de conversas de jeito, estou divertidíssima a ouvir umas mulheres jovens exaltadíssimas a falar de sexo, desejo e orgasmos, como se fosse a descoberta do século, e isto numa voz muito betinha e catequista. Dá vontade de bater palminhas e dizer iupi!, que bom.]

Adiante.

O certo é que Robert de Niro resolveu fazer um documentário sobre esse pai de feições fortes, um belo homem, que se divorciou quando descobriu que era gay e de quem a mulher nunca foi muito capaz de verbalizar, junto do filho, o que se passava. Tal como Robert de Niro Sr nunca foi capaz de falar sobre isso com o filho, Robert de Niro Jr.

Mas o filho quis preservar para os seus filhos e netos a memória desse pai diferente e fez, com muito afecto, este documentário a que chamou Remembering. O seu tributo a um artista que nunca obteve o reconhecimento que o filho acharia merecido.

Transcrevo da Vanity Fair:

In a wonderful new interview with Out Magazine, the acting legend becomes so emotional when discussing his late father, and the occasionally difficult relationship he had with him, that at times he can’t quite get words out over the lump in his throat. (For example, when asked how it feels to become more famous than your namesake, De Niro cries and needs a few seconds to collect himself.) When he is able to articulate his feelings though, De Niro provides a fascinating snapshot of his childhood years and the formative father-son relationship. An excerpt:

When you were younger, it sounded like you had problems connecting with each other. We were not the type of father and son who played baseball together, as you can surmise. But we had a connection. I wasn’t with him a lot, because my mother and he were separated and divorced. As I say in the documentary, I looked after him in certain ways.
In what ways? I think of my own kids. I try to communicate with them, but it’s hard. I joke about it with them. They have their issues as teenagers. I give them their space, but when I have to step in and be firm about something, I am. But my father wasn’t a bad father, or absent. He was absent in some ways. He was very loving. He adored me... as I do my kids.

In another emotional moment, De Niro speculates whether his father was conflicted about his sexuality.

Yeah, he probably was, being from that generation, especially from a small town upstate. I was not aware, much, of it. I wish we had spoken about it much more. My mother didn’t want to talk about things in general, and you’re not interested when you’re a certain age. Again, for my kids, I want them to stop and take a moment and realize that you sometimes have to do things now instead of later, because later may be 20 years from now — and that’s too late.

Despite the actor’s efforts to help his father, even after De Niro, Jr. reached some degree of fame, Out notes that Robert De Niro, Sr. died as a starving artist. 

As a tribute to his father, De Niro, Jr. has preserved his father's final home in New York City. 

The film, which De Niro produced, airs June 9.







REMEMBERING THE ARTIST by Robert de Niro




(Que bela voz tem o Robert de Niro)

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Recordo: se descerem até ao post seguinte, encontrarão a questão que se impõe: afinal a troika já se foi embora ou não? 

Quem é que anda a mentir no meio disto tudo? 

E, façam o favor de fazer a caridade de não me virem esclarecer que andam todos. Era o que faltava que me viessem atirar baldinhos de água fria para a cabeça. Gosto muito de viver na ilusão, ora essa.

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Tirando isso, ainda não é hoje que vos mostro imagens do fim de semana maravilhoso que tive (e que já me parece que foi há séculos, tal o dia que tive esta segunda feira) nem partilho convosco um bocado do livro que comecei a ler, o Os Factos, autobiografia de um romancista, de Philip Roth.


Só umas flores, o loendro cheiroso de que falava Natália Correia, apenas para ver se o seu perfume doce chega até vós.



E, já agora, para as acima referidas jovens casadoiras ou casadas e cheias de filhos que descobriram com grande exaltação que o sexo, afinal, não é só para procriar mas, também, para unificar, aqui deixo o dito poema de Natália Correia (e só espero que, lendo o poema, não vão logo a correr para a beira da cama, pôr-se de joelhos a rezar cinquenta Avé-Marias)

O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.

Bem, agora é que é desta. Estou com uma soneira que nem dá para acreditar e amanhã a alvorada é quase de madrugada. Por isso, fico-me já por aqui.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira!

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terça-feira, outubro 01, 2013

A palavra aos Leitores de Um Jeito Manso. 1º: "Os impostos são só para os outros?", interroga-se José Vítor Malheiros ('O objectivo das empresas com morada na Holanda é a dupla não-taxação: não pagar nem cá nem lá'). 2º: E "As premonições de Natália Correia", segundo Fernando Dacosta in "O Botequim da Liberdade"


Recebo com frequência mails em que os meus Leitores fazem o favor de me enviar a sua opinião, artigos ou fotografias que consideram relevantes, músicas, etc. Nem sempre consigo tempo para agradecer e nem sempre tenho tempo para compor os textos de modo a poder divulgá-los (a forma como as coisas me chegam, por vezes, se transposta tal e qual para o editor do blogger, sairia toda desformatada, pelo que tenho que ter algum cuidado de edição)

Mas hoje, agradecendo aos Leitores que mos enviaram, resolvi divulgar dois deles por me parecerem que, lidos em sequência, permitirão uma leitura interessante. 

Aliás, há dias li uma breve referência ao estudo referido no 1º artigo e imaginei que ia dar que falar. Para minha surpresa, abateu-se sobre ele um manto de silêncio. Felizmente José Vítor Malheiros deu-lhe relevo e eu, aqui no UJM, faço-me eco de tão oportunas palavras. Se todos os jornalistas divulgassem informação como esta, talvez as pessoas não aceitassem tão facilmente os sacrifícios que lhes são impostos em nome de pecados que não cometeram.




Os impostos são só para os outros?


de José Vítor Malheiros publicado no Público de 17 de Setembro de 2013




O relatório tem como título “Avoiding Tax in Times of Austerity” e como pós-título “Energias de Portugal (EDP) and the Role of the Netherlands in Tax Avoidance in Europe”, foi publicado há dias e já deu origem a várias notícias de jornal. O seu autor é a SOMO, uma organização holandesa sem fins lucrativos, dedicada ao estudo do desenvolvimento sustentável e que há quarenta anos monitoriza o funcionamento das multinacionais e o impacto da sua acção no desenvolvimento económico, no ambiente e nos direitos humanos.


O que diz o relatório? Explica como é que as grandes empresas portuguesas fogem aos impostos em Portugal criando empresas-fantasma na Holanda (mailbox companies, assim chamadas por terem pouco mais do que uma caixa de correio), fazendo passar por elas os seus fluxos financeiros, beneficiando não só das condições fiscais vantajosas que a Holanda oferece às empresas estrangeiras como conseguindo por vezes, como fez a EDP, acordos especiais com o fisco holandês que lhes garantem uma “dupla não-taxação”.

“Dupla não taxação”? Sim. Estas empresas não pagam ou quase não pagam impostos nem cá nem lá, graças a uma hábil utilização das leis fiscais, à conivência das autoridades fiscais holandesas que ganham com o negócio das empresas-fantasmas cerca de mil milhões de euros por ano e, claro, à benevolência generalizada, em Portugal e na UE relativamente aos abusos do grande capital.

A expressão “double non-taxation” aparece 15 vezes nas 30 páginas do relatório e é o Santo Graal do “planeamento fiscal agressivo” - o eufemismo utilizado para descrever a fuga, legal ou ilegal, aos impostos.

O relatório da SOMO não tem nenhuma novidade de fundo. Os advogados que aconselham as empresas sobre as melhores maneiras de fugir aos impostos, os activistas que combatem a mesma fuga aos impostos, os políticos e os jornalistas da área conhecem bem esta situação, que é objecto de discussão em organizações internacionais há anos. Por isso, o relatório foi objecto de algumas notícias mas não suscitou a indignação generalizada que teria sido justa. E, no entanto, esta é uma das razões principais da crise que vivemos, da desigualdade crescente das nossas sociedades, da erosão da democracia que todos sentimos. Graças aos buracos nas leis nacionais e às lacunas nas leis internacionais, as grandes empresas conseguem fugir às suas obrigações fiscais e defraudar o Estado enquanto usam as infraestruturas que os cidadãos pagam com o seu trabalho. A fuga aos impostos é o roubo por alguns do património de todos.



É por isso que é chocante a mentira que Passos Coelho gosta de repetir segundo a qual “não há dinheiro”. Não há dinheiro para a saúde ou para a educação. Não há dinheiro para pensionistas ou para desempregados. Não há dinheiro para as universidades ou para as pequenas empresas. Mas há dinheiro para compensar a fuga aos impostos das grandes empresas. Mais: os mesmos políticos que repetem que não há dinheiro são os que nunca levantam um dedo nos fóruns internacionais para combater a evasão fiscal. E os empresários que mais falam de patriotismo e que pregam que temos de trabalhar mais são os mesmos que vivem à conta dos impostos que nos roubam. Dezanove das empresas do PSI 2 têm empresas de fachada na Holanda. E o Governo adula as grandes empresas que fogem aos impostos enquanto esmifra os trabalhadores por conta de outrem. Como a famosa milionária americana Leona Helmsley (que foi presa por fuga ao fisco) o Governo acha que só os pobres é que devem pagar impostos.



A Comissão Europeia estima que o total perdido devido à fuga aos impostos é de um milhão de milhões de euros por ano. Quando se olha para o que as empresas roubam à comunidade através dos seus advogados pagos a peso de ouro e dos políticos corruptos que metem no bolso percebe-se de onde vem a dívida pública. Quando nos roubam é natural que fiquemos com um défice. Só a parte legal dessa fuga aos impostos é estimada em 150.000 milhões de euros. Mais do que o orçamento total da União Europeia.




Não há dinheiro para pagar pensões quando as grandes empresas dão o golpe do baú todos os anos, perante o sorriso seráfico de Maria Swap Albuquerque. A SOMO diz aliás a certa altura que “apenas podemos especular sobre as razões por que as autoridades fiscais portuguesas não levantam junto das autoridades fiscais holandesas” a questão da fuga aos impostos das empresas portuguesas.

Imagine por um momento que tínhamos um Governo honesto, empenhado em fazer cumprir a lei, em combater este regime de crime social tolerado. Qual seria a importância da nossa dívida? Seria possível continuar a destruir o Estado Social com o argumento da falta de dinheiro? Seria possível continuar a vender ao desbarato o património público? Não. É por isso que podemos ter a certeza de que, com este governo, a actual situação de saque legal e fuga das empresas para paraísos fiscais como a Holanda irá continuar.

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"As premonições de Natália Correia" 



A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista.

A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá,  talvez vingança!

Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente.

Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda  querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica.

Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão.

Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?

As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida.

Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir.


Excertos de citações de Natália Correia contidas no livro de Fernando Dacosta, O Botequim da Liberdade.

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sábado, setembro 14, 2013

Natália era ávida de voos assim. Pelos seus mistérios levantava-se a meio das noites, a meio dos interditos, e subia, como oficiante deslumbrada, a todos os chamamentos. ....... [Onde Fernando Dacosta, no seu livro "O Botequim da Liberdade", recorda o tango na Apolo dançado por Natália Correia e amigos]



Nesse ano Natália dança o tango.







Na Sociedade Alunos de Apolo, das mais antigas colectividades de Lisboa (para onde nos aliciou), todos se entregam aos acordes da música argentina, ritmados por passes que, em alguns, atingem virtuosismos comovidos.

Ela ondula entre eles, com eles, castelã magnífica rodando, volteando devagar em ritual criado por si (para si), que faz dádiva aos que a seguem para lá dos focos de luz.




Uma mulher ainda jovem entra na pista e, concentrada, dança com um bebé ao colo, ternamente apertado nos braços, sorrindo ao sorriso da criança, que a olha de chupeta e pezinho a balouçar, a balouçar.




Maravilhada, Natália reclina-se e dá um beijo na testa do petiz, a mulher (a mãe) pára, e os pares detêm-se e, de súbito, todos a aplaudem, e dão-se as mãos, e deslizam em grupo, e soltam olhares de contentamento, como se deixasse, finalmente, de haver solidão na Terra.

Todos se falam, se compartilham - por farnéis, bebidas, chistes, afectos, todos reverenciam Natália, a deusa, a mátria, a feiticeira, a companheira ali emergida de luminosidades lunares.




Ao fundo, a pequena orquestra - pianola, acordeão, guitarra, saxofone - torna a Apolo uma nave a deslizar, a levitar.

Natália era ávida de voos assim. pelos seus mistérios levantava-se a meio das noites, a meio dos interditos, e subia, como oficiante deslumbrada, a todos os seus chamamentos.




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  • O texto, 'Tango na Apolo, é um excerto do livro "O Botequim da Liberdade" de Fernando Dacosta sobre a forma 'como Natália Correia marcou, a partir de um pequeno bar de Lisboa, o século XX português'.

  • As fotografias acima são de Jan Saudek (de quem já aqui mostrei ontem fotografias) excepto a da mulher amamentando que é da própria Sarah Saudek
  • O primeiro tango é Mariposa da autoria de Ernesto Lecuona interpretado pelo Grupo Corpo

  • O último tango é a versão instrumental de Hernando's Hideaway colocada sobre a interpretação de Shakira do Tango do Pecado

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O Botequim

A última grande tertúlia de Lisboa - que marcou cultural e politicamente várias décadas portuguesas - teve lugar no Botequim, bar do Largo da Graça criado e projectado por Natália Correia.



Natália Correia e a sua cigarrilha,
uma imagem de marca




Nele fizeram-se, desfizeram-se revoluções, governos, obras de arte, movimentos cívicos; por ele passaram presidentes da República, governantes, embaixadores, militares, juízes, revolucionários, heróis, escritores, poetas, artistas, cientistas, assassinos, loucos, amantes em madrugadas de vertigem, de desmesura.

A magia do Botequim tornava-se, nas noites de festa, feérica. Como um iate de luxo, navegava-se delirantemente em demanda de continentes venturosos, de ilhas de amores a encontrar. O futuro foi ali, como em nenhuma outra parte do País, festivamente antecipado. Nunca houve, nem por certo haverá, nada igual entre nós


[Excerto do texto da contracapa do referido livro sobre o Botequim e sobre  Natália Correia que nasceu fez esta sexta feira 90 anos]


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Resta-me, por hoje, desejar-vos um belo fim de semana.

segunda-feira, setembro 09, 2013

Natália Correia, a Poeta imperial feita de carne e fogo, e Eugénio de Andrade, o Poeta 'insolente e límpido'. No Expresso desta semana, Clara Ferreira Alves e José Tolentino Mendonça escrevem sobre ambos. E eu, com a inconsciência que me caracteriza, ponho-me também para aqui a dar opiniões (e mostro fotografias, poemas e vídeos)


Abaixo deste texto poderão encontrar notícias de um fim de semana cheio de mergulhos no colchão e de refeições animadas na casa dos galos. A seguir, poderão ainda ler a minha opinião sobre a notícia relativa à conta de Paulo Portas num banco alemão e, depois, um outro texto com imagens de Kate Moss, a mulher que inspira artistas de cujas obras a Christie's vai fazer um leilão.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra.

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Já aqui não tenho comigo o Expresso desta semana, deixei-o, de tarde, em casa dos meus pais. Antes disso, lá o consegui ler com algum esforço e, em alguns pontos, com alguma superficialidade. Contudo, não queria hoje deixar passar o artigo de Clara Ferreira Alves sobre Natália Correia e o luminoso texto de José Tolentino Mendonça sobre Eugénio de Andrade. A conversa era sobre dois poetas de quem muito gosto e, por isso, aqui estou a juntar à deles a minha opinião.


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Natália Correia era uma mulher toda ela carne, sangue, altas temperaturas, excessos. Olhava-se para ela e era um corpo material, belo, um rosto de grande olhos e lábios desenhados, voz cheia, gestos marcados.

Clara Ferreira Alves traça um retrato que refere estes pontos e refere a sua intervenção na política e na sociedade, nomeadamente quer como deputada, quer no seu território de tertúlias, o Botequim.


Mulher de quatro maridos, de poemas sensuais, de opiniões fortes - quando se pensa nela não se pensa em lirismos bucólicos, em ingenuidade, em leveza, em transparências. Eu, pelo menos, não penso.

Para mim, a sua poesia é fêmea, menstrua, grita, chora, interpela, abraça, deseja, esbraceja, proclama. É uma poesia quente, com perfume a mulher.





Tenho ideia dela: exuberante e potente na expressão das suas ideias, um furacão de irreverência, de vontade, de sentimento, de desdém pela mediocridade.

A sua poesia é farta como farta era a sua carnadura, a sua voz, era o seu olhar. Escrevia e dizia poesia como um rio fértil ou como um incêndio

Fisicamente, a imagem mais marcada que dela me ficou é a de uma mulher de boquilha, fumando como se desafiasse o mundo.

Cosmocópula


I

Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras


II

O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro




[Natália na voz de Natália]



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De amor nada mais resta que um Outubro 

e quanto mais amada mais desisto: 
quanto mais tu me despes mais me cubro 
e quanto mais me escondo mais me avisto. 

E sei que mais te enleio e te deslumbro 
porque se mais me ofusco mais existo. 
Por dentro me ilumino, sol oculto, 
por fora te ajoelho, corpo místico. 

Não me acordes. Estou morta na quermesse 
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie 
nem teus zelos amantes a demovem. 

Mas quanto mais em nuvem me desfaço 
mais de terra e de fogo é o abraço 
com que na carne queres reter-me jovem. 

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E depois há o oposto. Eugénio de Andrade. Um príncipe. Um menino. Narcisista, etéreo, generoso, egoísta, vivendo num mundo de luz, sonhos, gatos, todo ele desprendido, todo ele repentes, emoções, recordações. 

Com a reverência de quem frequenta também os caminhos da poesia, José Tolentino Mendonça traça dele um luminoso retrato: insolente e límpido, Poeta.


Sou de há muito admiradora amantíssima de Eugénio de Andrade. Gosto de o ler, gosto de o ouvir, gostava da sua voz e gostava dos seu jeito quando aceitava mostrar-se na televisão.

Fisicamente há nele qualquer coisa de um Jorge Luis Borges, acho-os muito parecidos e, no jeito de falar, também: um lado de quem não vê o mundo como ele é, de quem sonha o mundo tal como o viu no tempo em que a inocência o mostrava limpo, branco.


A sua poesia traz a saudade da sua mãe, das mãos da sua mãe, e traz a elegia dos corpos desejáveis dos rapazes, dos rapazes correndo na praia ou no campo como animais, como cavalos jovens, o sexo elevando-se como uma haste, e traz a pureza de uma sombra de verão caindo lisa sobre uma parede caiada, e traz o perfume das maçãs dispostas sobre as mesas, a simplicidade das coisas verdadeiras. 

As palavras como gotas de música, como um olhar límpido, como o desejo que nasce puro e etéreo.



Não voltarei à fonte dos teus flancos 

ao fogo espesso do verão 
a escorrer infatigável 
dos espelhos, não voltarei. 

Não voltarei ao leito breve 
onde quebrámos uma a uma 
todas as frágeis 
hastes do amor. 

Eis o outono: cresce a prumo. 
Anoitecidas águas 
em febre em fúria em fogo 
arrastam-me para o fundo



[Eugénio na voz de Eugénio, to a green god]





Entre a folha branca e o gume do olhar 

a boca envelhece 

Sobre a palavra 
a noite aproxima-se da chama 

Assim se morre dizias tu 
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura 

Na porosa fronteira do silêncio 
a mão ilumina a terra inacabada 

Interminavelmente 


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Natália Correia/Eugénio de Andrade: verso e reverso.

Dois Poetas maiores.
Nunca falaremos demais deles. Nunca leremos demais os seus poemas.
Nunca nos mostraremos suficientemente agradecidos pelo que nos deixaram.

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Quero desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana, a começar já por esta segunda feira.

Que a poesia e a beleza encham os vossos dias.