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terça-feira, junho 16, 2015

Sérgio Figueiredo sobre José Sócrates na prisão -- um texto que é um murro no estômago [E ainda Francisco Louçã que, sobre este mesmo assunto, diz que 'esta justiça mete medo'; e, para aquele que um dia disse ser um animal feroz, Faces of the Wild e Va, pensiero].


Va, pensiero, sull'ali dorate;
va, ti posa sui clivi, sui colli,
ove olezzano tepide e molli
l'aure dolci del suolo natal!





Quando José Sócrates recusou usar pulseira electrónica, logo um conjunto de apreciadores de animais rastejantes ou invertebrados veio dizer que o que ali se via era vitimização. Pessoas há que, talvez desabituadas de assistir a actos de coragem ou de simples dignidade, tentam encontrar uma vantagem mercantil no que é, tão só, uma manifestação de carácter.

Várias vozes insuspeitas se têm levantado contra a prepotência que leva a que, sem culpa formada e supostamente para investigar, numa deriva que parece delirante, se mantenha um homem encarcerado como se de um perigoso condenado se tratasse.

Muitas vezes aqui o tenho dito: não sei se Sócrates é culpado de alguma coisa punível por lei. Torço para que não seja. Se for, ficarei furiosa com ele -- e comigo, por ter acreditado nele. Mas -- e sei que estou a repetir-me -- até que a Justiça se exerça, ele, tal como eu ou você, Caro Leitor, somos, à face da lei, inocentes. Portanto, independentemente de se vir a apurar a sua culpabilidade ou a sua inocência, o que agora me assusta é a forma despótica como ele tem sido tratado.

E, quando falo nele, falo por ser o preso preventivo que conheço dadas as funções que ocupou. Provavelmente esta mesma prepotência é exercida contra muito mais pessoas, muitas da quais, se calhar, depois, não são condenados nem sequer acusadas. E, portanto, insurjo-me por ele, porque o conheço, mas insurjo-me igualmente por todos os que se encontram ou encontraram na mesma situação.

Imagino-me, a mim, numa situação destas e fico apavorada: poderia acontecer que um qualquer inspector suspeitasse de mim, me pusesse sob escuta, ouvisse todas as minhas conversas, tudo, as minhas conversas mais pessoais, as minhas conversas de trabalho, tudo, tudo, e depois resolvesse que, para poder espiolhar ainda melhor a minha vida, me deveria prender? Poderia acontecer que eu me visse desprovida de tudo, da companhia dos meus, dos meus mais básicos pertences? Poderia isso acontecer-me? 

Sendo eu uma vulgar cidadã, teria uma vantagem sobre Sócrates: quando me deslocasse não teria as televisões a seguir-me e os meus amigos e familiares não seriam inquiridos à porta da prisão. (Quanta devassa a que estas pessoas têm estado a ser sujeitas...)

Como se sobrevive a uma desgraça destas? Quem não tenha posses, sem trabalho, a ter que pagar a advogados, como sobrevive? E como se sobrevive à humilhação de se saber injuriado nos jornais e não se poder defender? Como se sobrevive, sabendo o sofrimento da família, dos pais, dos filhos? 

Não sei.

Se a lei permite isto, então a lei tem que ser mudada. Os cidadãos não podem estar desprotegidos a este ponto. Não me interessa quem foi o ministro ou o governo que aprovou a lei em vigor. Tudo se corrige, em especial as burrices.

Nem me interessa que distorçam o que digo -- nomeadamente que venham dizer que o estou a defender ou que quero tratamento privilegiado -- não me interessa mesmo nada. Leiam bem, leiam com atenção. Eu digo o que acho que devo dizer. Sou a favor da justiça, da liberdade, da democracia. Não consigo ficar calada quando assisto a violações de qualquer destes pilares de um mundo decente.

Como é que não há muitas mil vozes que se levantem para clamar por isto? E que cobardia é esta que parece ter tomado conta dos socialistas que, assistindo a uma coisa destas, se deixam ficar calados? Acharão que ganham mais votos se calarem a voz sobre a vergonha que se está a passar neste nosso desgraçado País?
Coitados. Não sabem que a Pátria não paga a traidores? Nunca pagou. Nunca pagará.

O que sei é que as vozes que mais alto se têm levantado provêm de outros quadrantes políticos.

Por exemplo, disse no outro dia Francisco Louçã no Público num artigo a que deu o título Há alguém por aí para enfrentar a triste degradação da justiça? e que Eduardo Pitta resumiu no seu blog Da Literatura.


«[...] Sugiro ao leitor que se mova então pela única certeza que podemos ter: este processo está a ser conduzido sem respeito pela justiça ou até pela decência. Não há acusação e passaram meses, não há acesso da defesa aos documentos e provas e isto ainda se pode prolongar mais uma eternidade [...] o caso Sócrates importa menos do que esta regra geral: esta justiça mete medo. [...] E isso já é com os candidatos – os das legislativas e sobretudo os das presidenciais. Digam-nos o que querem fazer ou fiquem de lado, porque se estão calados então não têm solução para os problemas de Portugal. É uma questão de regime, é mesmo convosco, senhores candidatos e senhoras candidatas.»

O, mia patria, sì bella e perduta!
O, membranza, sì cara e fatal!



Mas de tudo o que tenho lido, o que talvez me tenha impressionado mais foi o artigo de Sérgio Figueiredo desta segunda-feira. Diz que, depois de ter falado com Sócrates, saíu da cadeia em silêncio, e acredito. Há momentos em que não há palavras. E esse seu silêncio pesado transparece nas suas palavras. Transcrevo parte do seu texto.

(...)

2. Não devo nada a ninguém. Muito menos a Sócrates. Ao contrário de outros, outrora amigos, eternos da onça, que se escondem entre as frases ocas que proferem e as visitas que não lhe fazem. Partido cobarde, partido escondido, partido assustado. Nem é sequer o partido relativo, dirigentes de O"Neill, engravatados todo o ano, que se assoam à gravata por engano.

Não há engano entre os socráticos, apenas cálculo mental. Contas sem valores. Quantos mais votos contam, quanto mais puxam pela cabeça, mais o rabo se lhes descobre. Mais impressionante que a coragem de Sócrates em permanecer dentro de uma cela, entre delinquentes, é a falta dela em António Costa e na maioria dos dirigentes socialistas, que deliberadamente confundem justiça com amizade. Esperava mais, porque já lhe vi mais.

Salvo raríssimas exceções, mostram a sua raça num silêncio ensurdecedor que envergonha mesmo aqueles que detestam Sócrates. Miguel Sousa Tavares, Pedro Marques Lopes e até o "comuna" Pedro Tadeu, como se autodefine, insuspeitos colunistas, que não pertencem à família, nem de perto nem de longe, escreveram nesta semana a indignação da forma que nunca se ouviu em qualquer camarada do Rato. Um barco cheio deles, com um comandante à deriva - ou preso, porque o último líder do PS está no Alentejo e, espera-se!, a aguardar pelo dia em que responderá por corrupção e outros crimes graves.



3. No fim de contas, a entrevista não aconteceu. Às 22 perguntas que a TVI tinha para fazer José Sócrates não quis responder. Não tinha tratado pessoalmente do assunto, mas acabei por ser eu a confrontá-lo com elas. Entrar numa prisão não é uma experiência agradável. Visitar um ex-primeiro-ministro preso é um momento único, difícil de esquecer. Ou simplesmente difícil. Estivemos, eu e o meu camarada de redação António Prata, uma hora lá dentro. Conversa dura, ouvindo o que não queríamos, dizendo o que não podia ficar por dizer.

Conversa feroz, animal enjaulado. Ninguém ousa sentir o que um prisioneiro sente. Sei o que senti e imagino o que António Prata viveu. Saímos de lá em silêncio - a única palavra que repetia para si próprio, mas em voz alta, é aqui irreproduzível. Saímos mais pesados, sem entrevista, mas saímos. Uma hora depois. Não seis meses.

Sócrates pode ser mentiroso, pode ser odiado, pode ser odioso, pode ser intratável, pode ser malvado, pode ser acusado, julgado e condenado, pode ser corrupto - pode ser tudo o que magistrados têm o dever de provar e um juiz de julgar, seja o que for. Não é, porém, de nada disto que se trata quando um homem, naquelas condições, se recusa ir para o conforto da casa e a companhia dos filhos. É coerência, se estiver inocente. É coragem, em qualquer dos casos. Aquilo que fugazmente vi não paga arrogância ou o preço da vitimização.

Não temos pena. Apenas pânico - se a investigação judicial falhar e a acusação não produzir provas consistentes. E pejo - pelo nojo dos políticos surdos-mudos em que em breve vamos ter de votar.




Va, pensiero, sull'ali dorate
____


O texto completo da autoria de Sérgio Figueiredo, intitulado A entrevista que não aconteceu, foi publicado no DN.


A música mostra Luciano Pavarotti & Cambodian and Tibetan Children's Choir interpretando Va, Pensiero de Verdi.

E, pensando naquele a quem, apesar de estar encarcerado, ainda chamam animal feroz, escolhi para ilustrar este post fotografias da autoria de Devin Mitchelle e que pertencem à série Faces of the Wild e que descobri no Bored Panda.
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Permitam que vos convide a descer até ao post seguinte onde poderão ver meio mundo de cabelos em pé com o que se vai sabendo do 'negócio' da privatização da TAP e, mais abaixo, um vídeo impressionante com Berlim em Julho de 1945 (para que o que aconteceu nunca seja esquecido).

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira. 
Da minha parte espero manter-me sempre como nas palavras de Sophia: 
face erguida, vontade transparente, inteira onde os outros se dividem. 
Desejo que vocês, meus Caros Leitores, também.

..

quarta-feira, setembro 18, 2013

O belo número de Setembro da Revista Ler. (Belo a começar logo na capa: o José Pinho da Ler Devagar valoriza qualquer capa).


No post abaixo falo da minha estranheza, das suspeitas que começam a formar-se na minha cabeça: falo da ministra Maria Luís Albuquerque, a Miss Swaps, e das contradições e factos esquisitos que começam a saber-se acerca dela. E apelo a que alguém vá atrás do seu passado próximo (por exemplo de 2000 e tal para cá) para ver se ficamos a perceber melhor que gente é esta que nos anda a sugar o sangue e o tutano, a arrancar o couro e o cabelo, a destruir o país.

Mas isso é lá em baixo. Aqui a conversa é outra, é da boa.

&

Música, por favor, há temas que pedem música.


Natalie Merchant interpreta The letter




&


Vocês nem imaginam as vezes que eu já tinha ido à procura da Ler de Setembro. Costuma sair tão cedo e este mês, já íamos a meio do mês e nada.

Pois bem, hoje já tinha finalmente chegado e já cá canta. O amigo de estimação da Ana Cristina Leonardo já tinha dito: Mantendo o formato habitual, a revista sofreu uma profunda remodelação gráfica: mais imagem, crónicas ligeiramente mais curtas, janelas de poesia aqui e ali. Tudo muito cool. 


Ou seja, a Ler tinha sofrido um revamping mas, pela descrição, fiquei com os dois pés atrás. Céptica, devo dizer. E mais curiosa fiquei. Cool? O que seria isso de cool aplicado a uma revista destas?

Pois bem. Só posso dizer-vos que a primeira impressão é óptima. Ainda tem o cheiro da tinta e está uma maravilha. A abrir logo uma poesia de João Vário, daquela colecção de poesia dirigida por Pedro Mexia para a Tinta da China da qual faz parte o livro da Rosa Oliveira, o Cinza, que é também muito bom. Como amuse bouche não poderia ser melhor. Uma página inteira, uma letra grande que impressiona. Fiquei logo agarrada.


Aliás, toda a paginação, todo o grafismo, a poesia aqui e ali, as cores, a dimensão das fotografias, a leitura mais fácil - tudo muito bom. Se me permitem continuar na onda do Eduardo Pitta e usar uma palavra muito usada pela gente da imagem e da comunicação, diria que está clean.

Como sabem eu sou toda dos sentidos (ou seja, em primeiro lugar, um animal - e dos primitivos - e, só depois, entra em cena o meu lado racional). A minha primeira impressão começa logo no toque, na imagem, no cheiro. E só não incluo aqui a audição e o sabor porque, enfim, não sou tão maluca que me ponha a lamber os livros e as revistas ou a ouvir vozes. Adiante.


José Pinho, Ler Devagar

Apeteceu-me fazer acompanhar o José Pinho
por algumas das minhas pulseiras
(tenho destas coisas incompreensíveis)
Também não sei se não fiquei tão bem impressionada por ter a olhar para mim um senhor tão bonito, com um olhar tão penetrante, ainda por cima rodeado por livros, ainda por cima sabendo eu que é o pai da Ler Devagar. Está aqui mesmo ao meu lado, com um meio sorriso, olhar fixo em mim.

Digo isto e fico a pensar: ao dizer uma coisa destas estou a demonstrar o quê? Auto-estima ou presunção? Pois não sei (nem isso me importa). Sei é que ele não tira os olhos de mim. Essa é que é essa.

Mas tem ar de ser malandreco, é bem capaz de fazer isto com qualquer uma. E qualquer um.

Vocês experimentem pousar a revista na mesa ao lado do computador e vejam se não ficam com a mesma sensação.

Seja como for, ainda apenas li a entrevista que a Ana Sousa Dias lhe fez em diagonal, enquanto estava na fila ao regressar ao fim do dia. Felizmente estava uma bicha do catano, demorei séculos a chegar a casa, a luz cada vez mais frouxa, e deu para me deliciar a folhear a revista, a ler algumas coisas. Por exemplo, estou cheia de vontade de ir a Óbidos ver as livrarias dele, do dito José Pinho. 


Que vida tão boa deve ser a dele. Que feliz que ele deve ser. Ralações, maçadas, limpar o pó dos livros, arrumar as prateleiras, tentar descobrir livros tresmalhados, e despesas e tudo isso mas, Deus meu, quem já esteve na Ler Devagar sabe como aquilo é outro mundo, um mundo absolutamente maravilhoso. Uma coisa que parece um sonho.


Adiante.




Li também a crónica do Pedro Mexia sobre o seu encontro com um homem invisível, o Herberto Helder - a sua antítese em termos de exposição mediática (enquanto o primeiro aparece em todo o lado, apresentação de livros, debates, moderações, Governo Sombra, escrita na Ler e no Expresso e o escambau, o segundo é bicho raro, pouco sai da toca ou, se sai, não anda por onde possa ser objecto de atenção jornalística).



Pessoalmente, no que aos escritores diz respeito, prefiro o seu anonimato mediático (digamos assim), o serem incógnitos perante os seus leitores. Os escritores deveriam ser invisíveis, transparentes, andar no meio de nós e a gente não os ver, ou viverem escondidos no fim do mundo e a gente ter uma curiosidade danada, sem saber se é homem, mulher, novo, velho, feio, bonito. É que não interessa nada disso, interessa é que os seus sentimentos e pensamentos saiam destilados em belas palavras.

Um destes dias vi o Gonçalo M. Tavares. Nunca consegui ler um livro dele, coisa insólita demais para o meu estado de evolução na espécie. No meio das coisas estranhas que escreve, aparecem frases com uma certa piada mas, no conjunto, tenho mais que fazer que tentar perceber o sentido daquilo, já que beleza não é por aí além. A escrita dele não me transporta e eu não tenho energia anímica para ter que ser eu a andar a arrastá-la de página em página. Mas, então, lá estava ele, um sujeito quase normal mas com algumas diferenças. Vi-o e achei que o que ele escrevia estava bem para ele. Não é boa coisa a gente poder tirar a prova dos noves. Mais vale permanecer na ignorância.

Adiante.

Amanhã vou levar a Ler e esperar que, no regresso, esteja outra vez um trânsito infernal, mas daqueles mesmo parado para eu poder ler devagar. Não há nada melhor que a gente ler devagar (grande nome para uma livraria.

... E cá continua ele com os seus belos olhos verdes a ver se me impressiona. Ora esta.

Vou-me mas é deitar.

*

Se não se importarem de deixar o mundo dos livros para entrarem no perigoso mundo dos embustes, é descerem até ao post seguinte. Mas, se forem, talvez depois seja melhor lavarem as mãos e os olhos que eu não sei se aquilo não faz mal à pele e à mente e não atenta contra a nossa higiene (mental, claro).

*

Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira.

PS: Não deixem de ver os comentários dos meus posts pois acontece ter por lá links fabulosos que Leitores, a quem muito agradeço, generosamente oferecem.

segunda-feira, agosto 20, 2012

50 livros que toda a gente deve ler, segundo o Actual do Expresso - e uma sugestão para que a lista seja mais completa. E um pouco de 'dá-lhe beijos um cão' de Manuel S. Fonseca (uma das mais livres e modernas vozes do Actual)


Música, por favor



Pablo Casals, de quem amanhã ou depois vos falarei,  interpreta "The Swan (O cisne)" de Saint-Saens em 1925

(A pessoa que colocou o video no YouTube refere que I put the silent film footage of the famous Russian Ballerina, Anna Pawlowa (1881.2.12 ~ 1931.1.23), dancing her most famous work, "The Dying Swan", choreographed for her by Michel Fokine in 1905. This footage was filmed by Pathe Freres company on June 18th, 1907)

*


50 Livros que toda a gente deve ler


Volto ao suplemento Actual do Expresso desta semana. 50 livros que toda a gente deve ler. Ana Cristina Leonardo, Clara Ferreira Alves, Henrique Monteiro, José Mário Silva, Luísa Mellid-Franco e Pedro Mexia pronunciam-se e João Cristóvão ilustra (e ilustra muito bem!).



Franz Kafka, autor de O Processo, um dos 50 recomendados


Sobre esta lista de 50 livros já Eduardo Pitta se pronunciou notando a falta de Os Lusíadas e do Livro do Desassossego e reparando que apenas 5 dos 50 são de autores de língua portuguesa. Também eu tinha notado isso.

Nestas alturas de veraneio é costume os jornais ou revistas aparecerem com sugestões de leituras para férias e, portanto, aparecem aqueles livros mais ligeiros, publicações recentes, coisa para se pegar entre uma sesta e uma ida à praia.

Não é isso que aparece aqui nesta lista de 50 livros. Aqui aparecem, sobretudo, os clássicos, as grandes obras. E compreende-se.



Da esquerda para a direita: Virgina Woolf, Marcel Proust, Emily Brontë, James Joyce


Um ou outro dos chamados a sugerir ousou um pouco e avançou para terrenos menos neutros, menos conservadores. Mas, de forma geral, os livros que aqui aparecem são os pilares (Odisseia), os grandes russos (Guerra e Paz, Crime e Castigo), os grandes murais, as epopeias, as grandes vivências humanas (Os Miseráveis, A Montanha Mágica, Ulisses, A Divina Comédia,...), os grandes dramas românticos (O Monte dos Vendavais, Madame Bovary, Retrato de uma Senhora), etc, etc, etc.

Em português de Portugal temos apenas O ano de Ricardo Reis de Saramago, Os Maias de Eça de Queirós, a Poesia de Álvaro de Campos, a Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Tão pouco.



Fernando Pessoa (ou, mais concretamente, dado que foi o escolhido, Álvaro de Campos) e Eça de Queirós


Claro que construir uma lista dos 50 melhores livros de sempre é uma ingrata tarefa, é uma coisa redutora, forçosamente injusta. Mas custou-me muito ver tantos livros extraordinários deixados de fora e, sem chauvinismo o digo, uma tão fraca representação portuguesa quando a nossa literatura é tão rica.

Mas o mal (se é que de mal se pode falar numa coisa destas) não está nos jurados mas na missão. Um conjunto de apenas cinquenta livros é forçosamente uma amostra pequena demais. Quem tem que escolher tão poucos, tende, forçosamente, a jogar pelo seguro, pelo indiscutível.

Além do mais, penso que ajudaria o leitor (ou o potencial leitor pois penso que é, sobretudo, a potenciais leitores que um artigo destes mais interessa) se houvesse uma arrumação em géneros, já que quem não é muito dado a leituras, vai lá mais facilmente se for dirigido.

No entanto, que não se pense que estou a achar negativa a iniciativa de recomendar os melhores livros. Não, pelo contrário. Acho este exercício muito interessante e acho que deveria ser aprofundado. Sugeriria que se estabelecessem, pois, tipos ou géneros e, dentro de cada um, então se seleccionassem uns quantos, uns dez talvez. Penso que seria útil que, ao longo das semanas, fossem saindo, com formato idêntico ao desta edição - isto é, convidando vários entendidos em que, cada um, faria a resenha do que escolhesse.

Por exemplo: os 10 melhores policiais; os 10 melhores livros de poesia universal; os 10 melhores livros de poesia em língua portuguesa; as 10 melhores biografias ou autobiografias; os 10 melhores romances russos; os 10 melhores romances portugueses; etc, etc.



A árdua tarefa de escolher um livro ou a árdua tarefa de arrumar livros


Acho que seria uma preciosa ajuda para quem deseja constituir de uma forma avisada uma biblioteca bem estruturada.

*

Boudu caminha ao lado do Sena em passos lascados, saltos de cabra velha, um Baco de barbas hirsutas e anárquicas. 



Boudu vai matar-se.

O cão que beijando-o o lambia, o único húmido focinho a que ele dava beijos, fugiu-lhe ou perdeu-o ele na sua labiríntica liberdade. O desgosto atira-o ao rio.

Seria a morte de Boudu, se Monsieur Lestingois, tão refinado livreiro como voyeur, não estivesse, para desespero da ciumenta criada sua amante, a espreitar por um óculo as damas das margens do Sena. O livreiro lança-se ao rio e desafoga o vagabundo. 

Lestingois é um reformista nato. Olha para Boudu, magnífico animal, e antevê a obra civilizadora: transformar a besta em cavalheiro.

Boudu tem uma electricidade neurológica caótica: inferniza a mesa do jantar, cospe com naturalidade nas doces páginas da 'Fisiologia do Casamento' de Balzac e, saudade dos beijos de cão, tenta beijar a boca de Anne-Marie, a amante do seu salvador. 



Boudu em acção
(representado pelo actor Michel Simon que, segundo referido no texto,
é ele mesmo anarquista, pornógrafo e misantropo) 


Beijará sim, fazendo soar trombetas, a boca de Madame Lestingois, bem precisada de uma brisa no decote e de uma musiquinha de realejo nos ouvidos.

No fim, o admirável troglodita (...) regressará, sem adeus e muito menos agradecimento, à sua desabrigada liberdade. Monsieur Lestingois consola-se a olhar o rio, o carinhoso braço direito apertando a criada, o esquerdo a terna esposa, um degrau de felicidade acima no firmamento balzaquiano.


Este excerto - extraído da crónica semanal O cinema dá o que a vida rouba com o saboroso título 'Dá-lhe beijos um cão', que se refere a um filme de Renoir - apesar de ser um pequeno e salteado excerto, mostra bem a qualidade de escrita de Manuel S. Fonseca, um dos mais interessantes cronistas do suplemento Actual do Expresso, um dos que, em minha opinião, melhor escreve, sempre com uma liberdade e uma frescura que se repete de semana para semana, ou melhor, que vem em crescendo de semana para semana. Manuel S. Fonseca escreve também no blogue Escrever é Triste e os seus textos são sempre uma maravilha. 

*

E, para já, nada mais. Uma nova semana de Agosto está a começar e eu desejo-vos que, para vós, comece muito bem. Uma boa segunda-feira!

segunda-feira, julho 25, 2011

Ana Cristina Leonardo, a anti-Pitta, e Pedro Mexia: ou como um texto se enreda sobre si próprio e outro flui com elegância e eficácia

Já aqui confessei que sou leitora assídua do Expresso. Hoje vou referir-me, em particular, ao caderno Actual.

É também sabido que sou apreciadora do estilo de Pedro Mexia - e que este statement fique já à laia de declaração de interesses.

Na sequência da polémica desencadeada pelo ataque brutal que Ana Cristina Leonardo (ACL) desferiu em Eduardo Pitta e sobre o qual já aqui já me pronunciei, vou hoje fazer um exercício - passar da teoria à prática.

Ou seja, mais concretamente, vou referir-me à recensão crítica que ACL escreveu na edição deste sábado sobre 'Nas trevas exteriores' de Cormac McCarthy e a que deu 5 estrelas, fazendo um contraponto com a recensão sobre o 'Quarto Livro de Crónicas' de António Lobo Antunes, escrita por Pedro Mexia que lhe deu 4 estrelas.

Sobre o livro de Cormac McCarthy não poderei pronunciar-me mas o do António Lobo Antunes já li e aliás, quando o comprei, em Abril, falei do livro e do autor. Ou seja, posso aferir a justeza das apreciações de Pedro Mexia enquanto não tenho termo de calibragem quanto ao texto de ACL.

Ana Cristina Leonardo

O que sei é que a referida recensão de ACL, apesar de bem escrita, não é apelativa. Há um excesso de citações que interrompem o seu raciocínio, não acrescentando muito à sua compreensão pois, não apenas algumas são excessivamente longas como, ao ser o texto descontextualizado, aparece-nos perdido, desenquadrado no meio do texto de ACL.  Outras citações, as que não são retiradas do livro, aparecem-nos de forma algo forçada, como se houvesse uma preocupação de enxertar no texto, amplamente adjectivado, alguma erudição.

Ou seja, chegamos ao fim do texto e não nos sentimos municiados com os argumentos favoráveis que nos conduzam à leitura do livro, não houve empatia entre nós e a escrita de ACL, não percebemos bem porque lhe atribuíu ela as ***** nem isso, de resto, nos interessa muito.

É um texto mal escrito? Não, de forma alguma. Mas é um palavreado que nos deixa pouco mais que indiferentes.

Pelo contrário, peguemos no texto de Pedro Mexia.

Pedro Mexia

Numa escrita corrida, fluida, bem estruturada, empática, transporta-nos para o mundo das crónicas de Lobo Antunes. Toda a ternura, todo o espanto, toda a humildade, toda a vaidade, todas as contradições, todos os retratos do quotidiano das pessoas comuns que habitam as ruas e a vida do escritor, se encontram plasmados na recensão de Pedro Mexia. Não precisou de implantar no seu texto longas citações do livro sobre o qual escreveu para nos transmitir, com matemática precisão, o ambiente, o tom, a toada, o feeling, que o livro transmite ao leitor.

[E, num à parte, quero dizer que fiquei agradada pelo desprendimento, revelador de bom carácter, de Pedro Mexia ao escrever tão favoravelmente sobre este livro de António Lobo Antunes depois do desaguisado que há algum tempo houve entre eles]

Ou seja, e agora voltando a Ana Cristina Leonardo: enfureceu-se com o critério, o rigor, a escrita de Eduardo Pitta mas esqueceu-se que não basta ter lido atentamente, ter um gosto apurado, ter um critério exigente. É preciso saber transmiti-lo de forma simples, directa, eficaz, empática.

Por isso, e apesar de ser leiga na matéria, permita que, como cliente do jornal para o qual escreve, lhe transmita um sincero conselho: leia, com humildade, o texto de Pedro Mexia e tente tirar daí ensinamentos para a sua própria escrita.

Não entenda este conselho como destinado ao seu enriquecimento pessoal: não, escrevo-o por puro egoísmo, na qualidade de leitora do Expresso - prefiro ler textos mais escorreitos, mais focados, que consigam, de uma forma mais estruturada, dar-nos uma visão clara da obra sobre a qual versam.

sábado, julho 23, 2011

Ana Cristina Leonardo e Eduardo Pitta - um inusitado e violento ataque dos lados da Pastelaria

Como poderão ver no piso baixo, acabei de falar dos meus tapetes ao sol, dos meus belos figos, alguns já maduros, e antes tinha falado do mi-nis-tro vi-tor gas-par das man-gas ma-i-o-res do que ele. Estava a querer evitar, era o que era, mas pronto: tem mesmo que ser.

Sob as mais diversas combinações, continuo a ter várias entradas no blogue, através da conjugação dos nomes de Ana Cristina Leonardo e Eduardo Pitta e, assim sendo, vou mesmo dizer o que penso sobre a polémica que por aí anda.

Ana Cristina Leonardo, penso que alguns anitos atrás

Escreveu Ana Cristina Leonardo no seu blogue, Meditação na Pastelaria, aqui e, de novo, aqui uma violenta crítica a escritos recentes de Eduardo Pitta.

Eu, na minha profissão, sempre tenho respeitado um princípio: a afirmação do mérito próprio deve atingir-se por si mesmo e nunca por atropelar ou pisar quem quer que seja. E isto aplica-se quando se quer vender um produto e serviço (em que tal não deve ser feito através de campanhas negativas contra um concorrente), quer dentro da própria empresa (em que o espírito de equipa deve prevalecer sobre a exposição individual).

Quem trabalha comigo sabe que não gosto de 'estrelas', de pessoas que gostam de brilhar sozinhas, que não gostam de ajudar os outros ou de dividir o mérito com os colegas. Os triunfos que se atingem assim são esporádicos, efémeros e, a prazo, a pessoa acaba desprezada, pouco estimada.

Claro que, tratando-se de duas pessoas que trabalham isoladas, e até (em boa verdade) em concorrência uma vez que escrevem para jornais distintos e são ambos cronistas e críticos literários, poderá dizer-se que o que acima referi não se aplica. Mas aplica.

Para nós, leitores, não nos interessa saber se são ou não concorrentes. Interessa-nos, sim, ler bons textos. E a polémica até pode ser salutar pois pode complementar pontos de vista e nós, leitores, lendo um, e depois outro, poderemos ficar com uma opiniao mais 'rica' e diversa. E a 'imagem' de um e de outro formar-se-á junto dos leitores através do produto da sua escrita, da clareza da sua exposição e, até, da sua argumentação, se em confronto.

Ora, para tudo isso, é escusado, mas escusado mesmo, que se use o acinte, o desdém, a humilhação.

A mim custa-me muito pensar que alguém, por vaidade, por impetuosidade ou por excesso de egocentrismo, num rasgo de auto-afirmação e total indiferença para com a dignidade alheia, provoque tristeza, vergonha, sofrimento,  a outra pessoa.

Eduardo Pitta, o alvo da fúria de ACL

O que conheço de Eduardo Pitta (à parte a sua poesia em livro) é o que leio no seu blogue Da literatura - e gosto.

É uma escrita directa, sempre em cima do acontecimento, com fotografias bem escolhidas - e é uma escrita que se lê muito bem. Os parágrafos são bem estruturados, a exposição é clara, o vocabulário não é pretensioso, é o adequado às circunstâncias e há espaço para respirarmos entre cada parágrafo. Os seus textos sobre obras literárias ou sobre escritores, como o mais recente sobre Karen Blixen (que li no blogue), são textos agradáveis de ler, que transmitem de forma directa a sua opinião sobre o que escreve. Sou leiga na matéria (como provavelmente a grande maioria dos leitores) e, por isso, não saberei detectar com cirúrgica precisão os 'pecados' que deixam a Ana Cristina Leonardo de cabeça perdida.

Pelo contrário, a escrita de Ana Cristina Leonardo (e refiro-me ao que leio no Expresso e no blogue Meditação na Pastelaria) é frequentemente uma escrita sôfrega; imagino que seja uma pessoa tumultuada na expressão das suas opiniões, deve ser de fortes paixões, as palavras galopam febris e mais céleres que a mão. A escrita deve ser veloz, como veloz deve ser o pensamento quando está tomado pela emoção. E, tomada que está pela emoção, nem pensa nos efeitos colaterais - imagino eu, que não a conheço. E, então, assistimos frequentemente a parágrafos que se quase se encavalitam uns nos outros, e parêntesis e novos parêntesis (porque as palavras lhe devem estalar na cabeça), um turbilhão que, por vezes, se torna cansativo e, neste caso, em que atirou a matar a Eduardo Pitta, se torna incómodo de ler.

Refere ela, nos inúmeros comentários que os seus posts suscitaram, que o que escreveu contra Pitta nao foi, de facto, contra Pitta mas, sim, a favor dos escritores que ela achou que tinham sido maltratados; diz que não foi, pois, vingança, não foi maldade, que, apenas, as análises de Eduardo Pitta são medíocres, nada à altura dos temas e dos autores sobre os quais escreve.

Mas, Ana Cristina Leonardo poderia tê-lo referido de uma forma elucidativa, clara e, em vez disso, lançou uma enorme poeira e um enorme ruído, distraindo-nos do seu pretenso objectivo, ao rebaixar de forma cruel uma pessoa que escreveu o que escreveu no exercício da sua profissão, profissão que, certamente, exerce da forma mais digna que sabe e pode.

Por isso, Ana Cristina Leonardo, se por acaso me ler, saiba que acho que lhe faltaram aqueles toques de humanidade, de empatia, de generosidade, que fazem com que as pessoas se afirmem por si, sem precisarem de passar por cima dos outros.

Gosto de ler o que escreve, é culta, tem sentido de humor, tem graça. Perceba, por favor, que não precisa de ser tão dramaticamente dura para aqueles que acha que são menos íntegros, menos dotados, menos cultos, menos preparados do que a Ana Cristina. A vida é tão cheia de curiosidades, sabe?, há gostos para tudo, nem sempre o que é óbvio para uns, o é para outros. Quem lhe garante que a sua análise dos seus autores dilectos é a mais adequada, quem lhe garante? Apenas uns quantos, Ana Cristina. E esses poucos não são quorum suficiente para lhe dar certezas tão absolutas.

E, olhe, não leve a mal isto que escrevi (como poderá ver no post abaixo, eu sou muito rural)

sexta-feira, julho 22, 2011

Boas notícias da cimeira de Bruxelas - e eu a banhos (salvo-seja) no Atlântico



Parece que em Bruxelas, a fada madrinha Angela Merkel, o mago Sarkozy e mais uns quantos figurantes lá cozinharam uma poção ligeiramente mágica. Não sei se será suficientemente mágica para acalmar a bruxa má Moody's, a prima igualmente má Fitch e a outra, tão pérfida como as outras duas, Standard & Poors, que andam a rondar, de dente afiado, unhas afiladas, olho arregalado, a ameaçar decretar incumprimento (ah, os CDS's ali paradinhos à espera, à espera...).

Não sei se o que foi resolvido foi tão bom quanto deveria ser para afirmar a Europa como uma unidade económica e financeira sustentável mas, pelo menos, parece que deram um passo e isso não deve ser subestimado. A Itália estava a ser excessivamente atacada e, do lado de lá, os Estados Unidos já estavam demasiado enervados e fizeram questão de dar públicos sinais (nomeadamente através de Hillary Clinton) de que isto de a Europa se continuar a portar como a tia aristocrata que não sabe reagir perante a adversidade já estava a chatear.

Do que consegui perceber, desta cimeira saíu, de entre outras, a determinação de as taxas de juro baixarem para níveis mais suportáveis e a dilatação do prazo de amortização (esta determinação destinava-se em primeira instância à Grécia mas, aparentemente, foi estendida a Portugal e à Irlanda) e isso, sem dúvida, é um alívio para a nossa economia que se encontra exangue.

Li também que, finalmente, se começa a desenhar um plano de relançamento económico, relembrando o plano Marshall, e isso é um sinal de esperança. Não é só a Grécia, nem é só Portugal, que, na Europa, estão carentes de um sopro que oxigene a economia mas são, seguramente, dos que mais paralisados estão, devido às severas medidas que o plano de salvação impõe. Um país exaurido, com a economia paralisada, afogado em dívidas, precisa que lhe atirem uma bóia de salvação, precisa de um suplemento vitamínico e, pode ser que a realocação e antecipação de fundos, venha a trazer esse alento.

Por isso, apesar de estarmos ainda longe de uma acalmia e apesar de ainda não sabermos como se vão comportar os mercados, temos razão para encarar o futuro com um bocadinho mais de optimismo (mas, por enquanto, só um bocadinho, muito inho, muito inho).

Mas, à pala disso, eu, meus amigos, já estou a banhos.

Já vos contei, acho eu, que sou bicho do mato, não gosto de praias pejadas de gente. Odeio estar deitada na areia com desconhecidos deitados ao meu lado, a ouvir as conversas, pernas a passarem-me quase por cima da cabeça. Odeio estar na praia e dar de caras com colegas, com conhecidos. Odeio estar na praia e, em vez de cheiro a limos e algas e maresia, só me cheirar a protector solar. Por isso, no verão, fujo de tudo o que sejam praias in, fujo, nomeadamente, do Algarve. Lá mais para a frente iremos para as praias da zona de Sagres, sul da costa vicentina, por aí, mas, por enquanto, é Atlântico puro e duro, batido, rochoso, mais para contemplar (e, para os afoitos, para surf) do que para banhos.

Hoje de tarde, mar bem batido, uma maravilha

Quando o mar se retira, ficam uns mini-laguinhos nas rochas, cheios de limos

Apetece-me meter-me nesta água límpida mas a superfície é demasiado escorregadia e as ondas não dão tréguas. Impossível.

Mas há o cheiro a mar, a iodo, a limos, de que tanto gosto - aqui é a natureza ainda não domesticada, não sofisticada, não se ouvem mulheres de voz grossa e timbre de tia (Querida...! Está fantástica...!), as mulheres aqui não vêm para a praia com brincos, não estão tisnadas como frangos no churrasco, não usam cabelos com nuances, não são todas iguais umas às outras.

Mãe e filhos
Aqui as poucas mulheres que se vêem são quase todas gordas, vêm para a praia com chapéus de sol, com grandes sacos muito carregados, com brinquedos para as crianças, com para-ventos e cadeiras, e, na água, ainda se vêem miúdos de bóia, devem ter sete ou oito anos e andam de bóia, coisa que já não se vê nas praias populosas do sul, em que as crianças aprendem cedo a nadar.

Avós e neto - uma ternura. E parece que se recua no tempo, não acham?
(Aqui, num recanto, em que, entre rochas, se consegue entrar na água)

Tudo isto me maravilha. Enterneço-me, empolgo-me.

O nosso país, apesar de tão pequeno, consegue mostrar-nos tais contrastes...!

Eu, por mim, é nestes sítios assim, de uma beleza natural em bruto, longe de qualquer sinal de ostentação, que me sinto bem.


PS: Há pouco vi que tinha uma entrada no Um Jeito Manso através da seguinte pesquisa no Google: 'Ana Cristina Leonardo e Eduardo Pitta'. Nem de propósito. Ando desde ontem 'escrevo, não escrevo', sobre a tareia monumental que a Ana Cristina Leonardo tem vindo a dar ao Eduardo Pitta. Quando comecei a escrever este post estava na dúvida mas acabei de escrever sobre a cimeira e sobre a praia. E agora já é tarde demais (ou cedo, consoante a perspectiva) e já não vou fazê-lo. Mas talvez amanhã o faça.

sábado, abril 23, 2011

António Guerreiro e Eduardo Pitta: organização do Festival Literário da Madeira repudia, na forma e no conteúdo, crónica de António Guerreiro no Expresso de há 2 semanas

Há uns 15 dias referi aqui  aqui o meu desagrado pela crónica de António Guerreiro no Actual do Expresso em que ele de forma rude, mordaz, ofensiva mesmo, resolveu atacar Eduardo Pitta, a pretexto das suas crónicas no Da Literatura sobre o Festival Literário da Madeira.

Pois ontem gostei de ler, no caderno Principal, na secção Cartas, uma de Paulo Ferreira em nome da organização do Festival, na qual manifestava também o repúdio pela crónica de António Guerreiro e informava que, não apenas a participação de Eduardo Pitta foi muito apreciada no Festival, como já lhe endereçaram o convite para a 2ª edição do FLM.

Ainda bem.

Pessoalmente, espero que António Guerreiro não volte a usar o espaço que tem à sua disposição no Expresso para ataques ou ajustes de contas pessoais. Não é coisa agradável de ler.

domingo, abril 10, 2011

António Guerreiro desfere violento ataque a Eduardo Pitta no Expresso (a propósito dos actuais festivais de literatura dedicados aos 'saltibancos' da escrita)

Li en passant as descrições do Festival Literário da Madeira. Ao ler sobre gossips & drinks, cocktails, piadas, debates, ao ver que, a seguir, iam para o computador descrever o que se tinha passado nos blogues, provavelmente no twitter, talvez nos facebooks, pensei que era um bocado aquelas reportagens feitas sobre a viagem dos 'famosos' à eurodisney ou a estâncias de neve ou a praias no nordeste brasileiro: alguém paga a viagem, os agraciados famositos riem-se para a reportagem, sai na revista, todos contentes, ganham uns, ganham outros. Aqui não são os artistecos das novelas: são os escritores e, portanto, a matéria tem outra elevação.

Eduardo Pitta
O Eduardo Pitta descreveu pormenorizadamente o FLM e o José Mário Silva não apenas descreveu, ele-mesmo, como agraciou o amigo Pitta pelas suas descrições e, mais que certo, todos se agraciaram uns aos outros (um círculo fechadote....) e, do que me é dado perceber, há um pequeno círculo que se encontra regularmente nos encontros literários, feiras e outras ocasiões e já sabem que a Inês Pedrosa chega sempre atrasada, que outros são engraçados, outros bons contadores de histórias, e todos se veneram (e talvez de desprezem) e todos se treslêem. Nada de especial.

No entanto, pergunto-me - na minha ignorância - como encontram recolhimento para se dedicarem a tempo inteiro à actividade da escrita. Imagino sempre que, para escrever, será necessário tempo, disponibilidade mental e emocional, tempo de setup, palavras escritas e palavras apagadas, ambiente propício, luz adequada, uma boa mesa, uma cadeira confortável - nada que seja compaginável com gossips, conversetas fáceis e avulsas, átrios de hotel, jantares e bailaricos até às tantas.

Um belo pé de dança, ao que parece

Mas o que ainda mais espantada me deixou foi o violento ataque desferido este sábado, no Expresso, pelo António Guerreiro, no Ao pé da letra,  ao Eduardo Pitta. Desde rei da irrisão involuntária, clown, bouffon, a misto de Pierrot e Arlequim, de tudo António Guerreiro o designa (e só não uso o verbo insultar porque António Guerreiro, que domina com inteligência o mister da palavra, consegue empregar apenas expressões usadas por Eduardo Pitta nas suas descrições).

Porquê?

O que leva um colega de profissão a, publicamente, desferir tão cruel ataque? São isto as tricas, invejinhas e ciúmes entre jornalistas e críticos literários de que se ouve falar?

Não gostei de ler. Acho que o decoro aconselha a que, havendo ajustes de contas a fazer, se escolha o recato, entre paredes, não assim, em público.

António Guerreiro
A vida é curta demais para ser desperdiçada com arruaças que apenas servem para magoar os outros.

Didn't like, Mr. Guerreiro, I didn't like it at all

quinta-feira, março 03, 2011

A beleza da desobediência


A copa do meu pinheiro ao cair da noite
Regresso quando tudo é mais exacto.
O recorte da serra, o tijolo do muro,
a sombra do teu corpo.

A noite um puro arbítrio.


A amendoeira começa a florir

Queria que ficasses
naquele olhar
a caminho da curva
do meu ombro


A vinha virgem agarra-se à parede, aparentemente trémula mas, de facto, bem forte

As pedras perseguem-nos
e, com elas, melancolias e mitos.

Vestígios de um tempo inscrito
nas vozes solitárias.



Instante muito breve
entre o espelho
e o azulejo.

O tempo branco
de fugires da tela.


[Poemas do recente livro Desobediência - Poemas Escolhidos de Eduardo Pitta]