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quinta-feira, janeiro 11, 2024

Sobre hospitais públicos e privados. Episódios. Histórias. E sobre o DN, o JN, a TSF, e o The Guardian, o Madame le Figaro, o Correio da Manhã Jornal

 

Nem valerá a pena a gente pôr-se para aqui a dissertar sobre as pregas e os plissados da vida. Não há nada de novo a dizer. Desde o início dos tempos que se sabe que, por fora, de repente, vê-se uma coisa mas, ao pé, com tempo, se percebe que há a parte que é ocultada pelos efeitos, e isto já para não falar nos avessos.

Tenho experiência de frequentar hospitais públicos e privados. Já passei noites no exterior sem saber nada dos doentes que tinham sido devorados pela dinâmica hospitalar, já andei entre macas onde gente grita e tosse e escarra e vomita e chora e grita, eu própria já passei uma noite e uma manhã no meio de gente em camas encostadas umas às outras, gente que gritava que estava a urinar-se ou outras cujas fraldas eram mudadas à frente de todos, onde os doentes mentais gritavam e choravam a noite inteira desestabilizando ainda mais a desgraça que ali se vivia. 

Já tive os meus pais internados em hospitais públicos e em hospitais privados.

A grande e terrível diferença está nas urgências e nos serviços de observação. Nos hospitais públicos que conheço a falta de espaço, a falta de meios e a falta de organização são gritantes e a dignidade dos doentes e o respeito pelos acompanhantes são totalmente ignorados. 

Uma vez internados, as diferenças esbatem-se. A disparidade que subsiste terá mais a ver com a privacidade, especialmente quando, nos privados, se está num quarto individual. Mas não tenho razão de queixa nos internamentos (dos meus pais) em hospital público. Para os doentes, em particular quando estão mesmo doentes, na prática nem dão muito pelo local nem se importam com existirem ou não frescuras.

Estar num hospital privado, em quarto individual, é quase como estar num hotel com todos os serviços incluídos. Sobretudo há a preocupação do serviço ao utente e à família. Há sempre alguém que atende o telefone, alguém que está disponível quando queremos uma informação sobre o nosso familiar ou um médico que nos explica a situação e as perspectivas. E isso faz muita diferença pois ter um familiar internado e não conseguir encontrar ninguém que nos informe cabalmente é frustrante.

Mas, como tudo, é relativo. E, sobretudo, é para quem pode pagar (sobretudo, que tenha um seguro com um grande plafond ou tenha ADSE e poupanças). 

Contudo, uma coisa é comum: o sofrimento de quem está doente e a angústia dos familiares.

Vejo muitas vezes os familiares de um doente internado na mesma ala da minha mãe, que está num hospital privado. Tenho impressão que estão lá quase todos os dias e, não sei porquê, estão muito na sala de espera. Vejo sempre um homem que talvez seja um pouco mais novo que eu. E vejo um rapaz e uma rapariga que presumo que sejam irmãos. Os jovens conversam, riem-se, outras vezes falam com ar sisudo, parecem reflectir e recebem e fazem chamadas. Parecem esquecidos do homem que imagino que seja o pai. Acho que nunca os vi a dirigirem-se a ele, nem nunca vi o homem a falar com eles ou ao telefone. O mutismo daquele homem faz-me muita impressão. Já calhou partilhar o elevador com eles. Os jovens conversando, o homem em silêncio, um ar muito triste. De vez em quando vejo-os a irem ao quarto mas pouco depois saem. Imagino que seja a mulher do homem e mãe dos jovens que esteja internada. Como nada sei, só posso presumir e, dada a ala que é e dado o pouco tempo que estão no quarto, presumo que a pessoa esteja maioritariamente a dormir o que nem sempre é muito bom sinal.

No outro dia falei de um homem que saiu e voltou pouco depois com um jovem que pensei ser o filho. São outros, não estes de que agora falo.

Mas a angústia dos que temem perder o seu ente amado é a mesma. Nada sei da história de cada uma daquelas pessoas que ali está internada. 

Cada um terá a sua história.

No outro dia, por alturas do Natal, num fim de semana, no átrio cá em baixo, o átrio vazio, três tias podres de betas falavam muito alto (como as ultra betas sempre fazem). Uma dizia que não ia subir e as outras duas: 'Olha agora...', 'Olha-me esta...!', 'Deixe-se disso, venha lá...'. E a beta zangona: 'Não vou! Depois do que ele disse, que não queria ver-me, acha que ia aparecer...? Nem pensar, né...?', e as outras: 'Esqueça lá isso, não ligue, venha lá...'. Nisto chegou um super beto, alto, porte real, pinta de beto de Restelo, Estoril ou Cascais, ultra-pintarudo: 'Atão? Temos reunião aqui em baixo?'. E as outras: 'Imagine que esta agora não quer subir...'. E ele: 'Ah essa tem graça, conte-me lá...'. E a beta azeda: 'Disse que não me quer ver. Acha que eu ia?' e as outras: 'E ela a dar... Ouça: esqueça. Venha lá.'. Face ao impasse, o betalindão sacou de um cigarro, fez um sorriso complacente de macho alfa e disse: 'Vocês entendam-se que eu vou até lá fora fumar um cigarro'. 

Entretanto, despachei-me da obtenção da credencial de acesso e subi enquanto o grupinho continuava naquela. Apesar de preocupada, achei um piadão.

São episódios que, mais betice ou mais pobreza, mais tristeza ou mais euforia (porque nem sempre os hospitais são locais de sofrimento, também são locais em que se nasce e em que as famílias vão em festa) pontuam sempre estes locais, fait divers com que podemos sempre distrair-nos das nossas preocupações. Os tais refegos que nem sempre se veem, que nem sempre têm relevância, mas que, de uma maneira ou de outra, fazem parte da vida daqueles locais.

Lembrei-me agora de falar disto pois, com este problema dos jornalistas com salários em atraso, tenho pensado na minha própria experiência como leitora e nas diferentes motivações que me animam quando procuro a imprensa.

Os tempos são outros, não podemos recuar aos tempos da fundação dos brilhantes títulos (DN, JN, etc) nem podemos, sequer, recuar aos tempos a seguir ao 25 de Abril. 

Falo por mim. Já não leio jornais em papel. 

E o jornal que mais leio é o The Guardian. De longe, é o jornal que, para mim, melhor cobre a informação sobre uma variedade alargada de temas que me interessam. E tem boas fotografias, vídeos interessantes. De longe, o que mais me agrada.

Depois, se me apetece a leveza, alguma fofoca, alguns temas sobre moda ou decoração ou culinária, vou para o Madame le Figaro. Há superficialidade, claro, mas há também elegância e diversidade. E também preciso disso na minha vida.

Há outros nos internacionais mas aqueles dois são os primeiros do dia e os que, mesmo quando não tenho tempo ou cabeça para nada, não passo sem espreitar.

Depois, nos portugueses, percorro, geralmente en passant (até porque, ao não ser assinante, metade não consigo abrir), o Expresso, o Público, o DN. Mas basta ver um que os outros geralmente não diferem muito. Um que agora gosto de espreitar é o CM. Desgraças e parvoíces. Mas acho uma certa graça pois há ali muito do submundo que tem muito da vida real, a vida que se vê nos hospitais públicos, nos locais onde a vida se pode ver despida de selfies e instagrams. Como também não consigo abrir os conteúdos pagos, não consigo ir ao detalhe. Mas fico estupefacta com os que se matam, se esfaqueiam, os que desaparecem, gente que vive anonimamente até que um dia vai parar a uma morgue, um homem de 180 kg que teve que ser retirado pela janela, por bombeiros, uma igreja à venda numa cidade. Coisas assim. Não leio artigos de opinião nem notícias que envolvam política ou coisa do género. Ainda assim, pasmo comigo mesmo. Mas sinto que tenho que conhecer melhor este mundo que é bem paralelo em relação àquele que frequento.

Fazendo agulha para o tema do momento, a crise mediática de momento. Lamentando muito o que está a passar-se com os trabalhadores do Global Media Group, tenho que dizer que, nos tempos que correm, ou há qualidade, diversidade, diferenciação ou não vale a pena. Não reconheço isso no DN e o JN nunca frequentei. A TSF foi durante muito tempo uma rádio de referência. Com a saída de Fernando Alves desapareceu a minha principal ligação à TSF.

Agora um aspecto quero referir: o que está mal, muito mal nisto é que empresas e marcas importantes sejam vendidas, quase às cegas, a fundos que ninguém conhece e que nada têm a ver com as empresas que compram, que estão ali apenas para ganhar dinheiro, seja por vender edifícios seja por dispensar pessoas, reduzindo custos, seja pelo que for e não para desenvolver o negócio. Depois de tantos exemplos nefastos de fundos opacos com capitais em offshores, como se explica que ainda se continuem a fazer negócios destes sem que nenhuma entidade valide previamente a lisura, a transparência, a legitimidade, o cumprimento fiscal, etc?

Penso que nada há a fazer, a nível público, para salvar estas empresas pois, a salvar estas, ter-se-ia que salvar todas as outras de qualquer outro sector, e não vejo que nem o DN, nem o JN, ou a TSF ou as outras do grupo sejam estratégicas para o país. Penso que o que há a fazer é apenas, e não é pouco, obrigar os accionistas e os gestores a cumprir a lei,  caindo a pés juntos sobre os prevaricadores.

Mas, caraças, que sirva de exemplo para:

 1- Negócios futuros, seja em que âmbito for. Tudo deve ser escrutinado antes de qualquer operação se concretizar,

 2 - Para o jornalismo que compreende que tem que se reinventar e apostar na qualidade e na diferenciação, senão inevitavelmente soçobrará.

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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Alegria. Paz.

domingo, outubro 01, 2023

O olhar perto chão no adeus aos Sinais de Fernando Alves, o Senhor Rádio

 

Quando ia trabalhar, tentava sempre ouvir os Sinais. Cheguei a ficar estacionada fora do edifício (porque no parque subterrânea perdia o sinal de rádio) para ouvir o apontamento do dia. Se não conseguia, tentava ouvir à hora de almoço.

Não eram apenas as palavras em si, tão bem escolhidas, e a forma como o Fernando Alves as entretecia mas também a voz e a maneira de as dizer. Qualquer coisa de poético. Frequentemente, arrepiava-me.

Claro que a sua intervenção na TSF ia muito além dos Sinais. E, fosse nas reportagens fosse nas entrevistas, ele era sempre exímio. Tudo o que ele fazia dava vontade de ouvir várias vezes. 

A sua voz e os seus trabalho  eram dos mais esplêndidos da rádio.

Reformou-se. Compreendo. Sei bem o que isso é.

E a TSF em particular e a rádio em geral perdem uma parte relevante da sua graça. Claro que virão novos jornalistas e que o rejuvenescimento, em si, não é mau. Mas o Fernando Alves é todo um património, um património que leva muito tempo a edificar. E tudo envolto numa toada que encanta -- e com esse talento nem todos têm a sorte de nascer.

Para que aqui fique como um saudoso pro memoria, transcrevo o último texto que disse no seu pessoalíssimo Sinais

Sugiro que cliquem no link para poderem ouvi-lo dito por ele.

O olhar perto do chão

No seu mais recente livro, "Montevideu", que nos é apresentado como "uma ficção verdadeira", Enrique Villa-Matas descreve-nos um dos seus vários encontros com Tabucchi a quem muito admirava desde "Mulher de Porto Pim", esse livro que, assim o vê o catalão, trata "com leveza poética" questões "difíceis e complicadas". Os dois haveriam de tornar-se amigos, partilhando experiências em várias cidades, em conferências literárias ou movidos pelos fios invisíveis de um acaso feliz.

Certa vez, sentados numa esplanada nas margens do Arno, em Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas que tinha chegado à fala com um tipo estranho, um vagabundo que muito impressionara o amigo, em Paris.

Villa-Matas guardava do vagabundo uma imagem vincada. Todos os dias, ele sentava-se no chão, à porta de uma livraria, no Boulevard Saint-German. Em frente, havia um quiosque de jornais. O que retivera a atenção de Villa-Matas, nesses longínquos dias parisienses? O modo elegante como o vagabundo se comportava, cumprimentando quem entrava e saía da livraria. Por vezes, levantava-se, fumando, com o olhar perdido no horizonte, um magnífico havano. Durante a maior parte do tempo, permanecia sentado no cartão de vagabundo, lendo um clássico. Durante algum tempo, enquanto viveu em Paris, o catalão viu com muita frequência o estranho vagabundo. Anos depois, em Florença, conversando com Tabucchi, este confidencia que, certa vez, chegara à fala com o homem. Estava sozinho em Paris, vagueou pelas ruas e deu com aquele homem sentado no chão lendo o seu clássico. O vagabundo convidou-o a que se sentasse a seu lado, no chão, apreciando o mundo desse patamar ao nível dos pés. Tabucchi não hesitou. Sentou-se ao lado do vagabundo, ficaram ambos durante algum tempo em silêncio, observando os que passavam por eles com total indiferença.

Na noite estival de Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas o modo como o vagabundo quebrou o silêncio. Ele nunca mais esqueceria aquelas palavras. Disse-lhe o vagabundo: "Estás a ver, amigo? Daqui uma pessoa pode vê-lo muito bem. Os homens passam e não são felizes".

Partilho convosco esta passagem do magnífico livro que me ocupa por estes dias, na última crónica que assino nesta rádio. A meu modo, vou ocupar as horas, em grande medida, um pouco à maneira do vagabundo desta história. Não penso sentar-me no chão, à porta de uma livraria. Mas procurarei, muitas vezes, bancos de jardim, à sombra. E assim me deixarei ficar, absorto, tomando notas para uma improvável emissão futura, feita de silêncios e de palavras elementares, assim me pouse no ombro a ave clandestina. Ambição chã. Ficarei a ver passar os transeuntes com o seu ar triste, como só os vagabundos sabem detectá-lo. Até sempre.

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Tomara que alguém da rádio o convença a voltar 

(nem que seja 'apenas' para continuar com os Sinais).

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

Saúde. Afecto. Paz.

sexta-feira, junho 30, 2023

O Presidente Marcelo não vê a Grande Entrevista?

 

Conforme referi no post anterior sobre a felicidade, segue-se um texto da autoria do meu marido.


Vejo com alguma frequência a "Grande Entrevista" com Vítor Gonçalves na RTP3. O entrevistador prepara as entrevistas com cuidado, a maioria das vezes deixa os entrevistados falarem sem os interromper e os entrevistados são geralmente personalidades interessantes.

Vi as entrevistas do Ministro da Economia, do novo CEO da Delta, da Joana Vasconcelos e, ontem, do Governador do Banco de Portugal. 

Certamente que o sr. Presidente Marcelo teria aprendido algumas coisas com estes quatro entrevistados se as tivesse visto. 

Sobre economia teria aprendido que, afinal, há sectores industriais em Portugal em forte progressão, que afinal os salários médios têm aumentado, que existem politicas económicas suportadas no PRR e com objetivos definidos. 

Com o CEO da Delta aprenderia que o bom senso, o ouvir os outros. o criar grupos coesos com objetivos comuns deve fazer parte da ética do dia a dia de quem dirige e deve ser exemplo para a sua "equipa". 

Com a Joana Vasconcelos podia aprender que para se ser reconhecido e respeitado em muitos Países de vários Continentes não resulta de estar sempre nos media a dizer não importa o quê. 

Finalmente, com o Governador do Banco de Portugal poderia ter aprendido que afinal os salários disponíveis para os 20% mais pobres da população entre 2019 e 2022 cresceram 21% e que nos mesmo período a percentagem de crescimento do salário dos 20% mais ricos foi significativamente menor (6%). Também devia saber que, julgo, no mesmo período o número de empregos criados com salários bastante superiores ao salário médio foi praticamente o triplo (122 mil) dos salários criados no turismo cujo valor é bastante inferior ao salário médio, e que, felizmente, o incumprimento relativamente aos bancos não disparou, situando-se o crédito mal parado próximo da média europeia.

Teria feito bem ao Sr. Presidente assistir a estes programas e atentar na forma de estar destes quatro entrevistados, naturalmente, cada um com as suas ideias mas todos eles sensatos e merecedores do nosso respeito. O Sr. Presidente também poderia retirar das entrevistas assuntos importantes que vale a pena divulgar para que tenhamos orgulho naquilo que fazemos bem e seria um contributo para que os media revelassem este sucessos em vez de nos massacrarem com os dizeres sem relevância de muitos dos nossos políticos (incluindo o Sr. Presidente).

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Duas pequenas notas


1. Nos media somos matraqueados com a crise. Sugiro que investiguem se existe um grupo de pessoas que migra de festival para festival, de concerto para concerto, de arraial para arraial, de jogo de futebol para jogo de futebol, de restaurante para restaurante. Como está tudo sempre cheio/esgotado ou são sempre os mesmos que passam por lá ou então a crise não será tão abrangente como nos querem fazer crer.

Isto já para não falar no que as agências de turismo dizem que nunca se viajou tanto, para tão longe, para destinos tão caros.  

2. Ouvi hoje o noticiário das 20:00 da TSF. Falaram do incidente no aeroporto do Porto em que foi dada autorização para aterrar a um avião numa pista em que um outro avião se preparava para levantar. Podia ter sido uma tragédia. Pasme-se: o relevo que a Senhora que estava a ler as notícias deu não foi ao potencial acidente. Salientou, isso sim, que as conversas com os controladores são gravadas e, assim, se poderia esclarecer as causas do incidente. Até neste tipo de notícias a comunicação social toma  a nuvem por Juno. É triste e trágico!

quarta-feira, dezembro 22, 2021

Uma das grandes diferenças entre o MasterChef Australia e o MasterChef Portugal é que o primeiro nos inspira e nos desperta para um mundo de possibilidades

 


Gosto de cozinhar. Mas, pela minha maneira de ser ou pela permanente falta de tempo para o tanto que sempre tenho que fazer, nunca me dá para fazer cozinhados muito elaborados. Também não sou de consultar ou, muito menos, seguir receitas. Sou de improvisar e de me deixar guiar pelo instinto. 

Por isso, não sei de técnicas ou truques. Simplesmente, vou fazendo, arriscando, provando, ajustando.

Contudo, também aqui como em tudo na minha vida, aquilo que aprecio não é, em geral, aquilo que faço. 

Já o contei: se vissem as pinturas que adquiri e tenho nas paredes, cores neutras, abstractas, não acreditariam nas coisas que pinto, coloridas, provocantes. São o oposto. É como os blogs. Aprecio-os discretos, contidos, com pouco espalhafato, neutros na cor, minimalistas na forma e no conteúdo. O oposto do meu. Não sei porque é isto. 

Ao comentar esta desconformidade, pessoa entendida e que muito prezo escreveu uma coisa sobre mim que me agradou. Transcrevo:

Tem que ver o lado positivo das coisas. Essa contradição permite-lhe juntar um gosto que apesar de não praticar é alimentado teoricamente e uma prática que igualmente aprecia embora a teoria lhe diga o contrário. Perfeito!:)

Tendo a levar a sério o que ele escreve pelo que não tenho por que duvidar que, desta vez, se tenha enganado. Portanto, aceito e agrada-me. Ou seja, acredito que não seja uma doida varrida mas, sim, alguém que consegue conjugar vertentes contrárias.

Isto para dizer que gosto de provar e de ver fazer pratos com criatividade, sofisticação e cuidado na confecção e... no entanto, quando vou para a cozinha é meia bola e força.

Quando falo com a minha mãe, ela refere-me frequentemente esta ou aquela que vão ao programa desta ou daquela. Nunca sei de que fala. Cada vez me falta mais a paciência para prestar atenção ao que dá na televisão. Programas nacionais, então, evito. Parece que está tudo contaminado pela maledicência, pela superficialidade, pela ausência de rigor e de lógica. 

Isto não é um bolo
Mas é televisão e, pelos vistos, também a rádio. 

No outro dia, ia de manhã no carro, estava no Fórum TSF e entrevistavam a Graça Freitas. De uma forma muito objectiva e clara, ela falava dos riscos acrescidos da Ómicron e da conjugação com os riscos acrescidos da época festiva, em que as pessoas tendem a juntar-se em casa, isto é, em ambientes fechados. Dizia ela que é bom conviver mas que não devem ser descuradas as várias camadas de protecção: em primeiro lugar a vacinação, mas também a máscara, o afastamento (possível), o arejamento, a higienização das mãos. E tudo num registo pedagógico de bom senso e afabilidade. Pois bem. A seguir, abriram a antena para o público e, para meu espanto, apareceram uns estupores que falaram com voz irritada como se tivessem ouvido outra coisa, muito diferente do que ela tinha dito. Um dizia que era tempo de acabar com tanta mentira, que há não sei quanto tempo que andam a prometer que vão acabar com a epidemia e que afinal nunca mais acaba. Outro dizia que a Drª Graça e outras pessoas parece que vivem numa cúpula a falarem de usar de máscara como se fosse possível na casa dos pais em Trás-os-Montes convencer alguém a andar de máscara ou a abrir a janela, com o frio que está. E falavam com voz irritada, zangados com a Graça Freitas e contra incertos. Nada do que diziam tinha a ver com o que ela, acertadamente, tinha aconselhado. Limitavam-se a dizer baboseiras, despejando irritação para cima de quem merece agradecimento e não palavras desagradáveis. 

Parece que as pessoas, ou algumas delas, andam parvas, maldosas, venenosas. 

Mas até nos blogs. Volta e meia leio coisas que me deixam perplexa. Penso: mas esta gente lê ou ouve ou vê o mesmo que eu? 

De pessoas ou conversas assim eu guardo distância. Fujo. Se necessário, até que desamparem a loja, fico anos isolada, a deixar crescer o cabelo e a barba, numa toca no meio do deserto. Gente rancorosa é tóxica, corrói a alma, a carne e os ossos de quem está por perto. Xô.

Bem. Mas isto para dizer que há um programa que não perco (excepto quando adormeço...), que me deixa de queixo caído, que me deixa maravilhada, que me deixa com pena de não ter tanta imaginação e habilidade e conhecimentos -- o Master Chef Australia.

Uma coisa extraordinária. Uma permanente superação. Num ápice aquelas pessoas têm ideias, decidem o que fazer, como fazer, num ápice a mestria ganha asas. Aparecem pratos artísticos, aparentemente gostosos, gulosos, elaboradíssimos, verdadeiras obras de arte. 

Bolas. Se estou bem acordada, nem tolero que a minha atenção seja desviada para o que quer que seja. Ver aquilo ali é a gente assistir a milagres que acontecem once in a life time. Que me desculpem os muito crentes mas vou mesmo dizer uma heresia: assistir aos milagres que ocorrem nas bancadas do Master Chef Australia é mais emocionante do que ver aparecer a Nossa Senhora a pairar numa azinheira.

Em contrapartida, no outro dia, pela segunda vez, calhei passar pelo Master Chef de Portugal. Nem dá para perceber. O que é que aconteceu para aquilo ser assim? Não havia melhores candidatos? Somos um país de pés de chumbo culinariamente falando?  É que tudo aquilo, ao pé do de Austrália, é coisa brega, indigente, paupérrima, coitadinha. 

Porque é que chamam àquilo MasterChef? Engodo para atrair gente distraída como eu?

Não me parece nada bem. Devia haver limites para a publicidade enganosa.

Não sei como funciona isso pois supostamente deveria haver padrões de qualidade e exigência uniformes ou, pelo menos, equivalentes. Mesmo a nível de júri. O trio australiano tem pinta, tem graça, tem espontaneidade, tem entusiasmo, imprime ritmo e uma permanente boa onda. O trio português não descola, não tem pingo de piada, não tem jeito, não agarra nem chama audiências. Nem voz têm, parece que falam com a voz agarrada ao rabo. Não têm culpa, claro. E há ainda outra coisa: lamento dizê-lo mas parece que não sabem alimentar-se de forma racional, pouco calórica. E até acho que devem ser simpáticos. Não precisavam era de ali estar. 


Dito isto. Ainda não comprei parte dos mantimentos para o jantar da véspera nem sei bem o que comprar. Também ainda não separei os presentes por destinatário, não tenho embalagens nem papel de embrulho, nem vejo quando vou tratar disso. Para agravar a situação, sinto preguiça. Apetecia-me ter férias para poder dedicar-me ao espírito natalício, mas dedicar-me como deve ser, com vontade de pôr luzinhas em grinalda à minha volta e tudo. Apetecia-me não ter que fazer nem resolver nada a nível profissional durante uns dias, apetecia-me que não me colocassem não sei quantos problemas por dia, apetecia-me ser artista para fazer pratos surpreendentes, apetecia-me que cá em casa fossem todos de boa boca para eu não me sentir inibida a inventar misturas malucas, apetecia-me que não fossem uns gozões da pior espécie para não sentir receio de que, se a coisa desse para o tordo, fizessem pouco de mim durante anos (como acontece só porque uma vez me esqueci de uma colher dentro de um bolo). Olhem, apetecia-me nem sei bem o quê. Essa é que é essa.

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Desejo-vos um dia bem passado
Alegria. Saúde. Máscara. Cuidado. E força nisso.

terça-feira, fevereiro 18, 2020

O alarmismo militante na TSF


De novo, ao ir almoçar, sintonizei a TSF. Ainda não aprendi que dali não sai uma leitura serena da realidade... 

Com ar de alarme, a jornalista informava que havia mais um doente suspeito de ter coronavírus e rematava -- naquele seu usual tom de sobressalto -- que 'já são dez os suspeitos de coronavírus em Portugal!'.

Passei de imediato para a Antena 2. É que o que se passa é que, até ver, todas as suspeições têm sido infundadas. Portanto, a notícia séria deveria ter sido: 'Sendo que até aqui, felizmente, nenhum caso de coronavírus se confirmou, está agora um caso em análise'. E ponto. A notícia era essa. 

Eu, que gosto imenso do Fernando Alves com os seus Sinais ou do Uma questão de ADN da Teresa Dias Mendes tal como dantes gostava de ouvir o Pessoal e Transmissível do Carlos Vaz Marques, não suporto estes noticiários, estes empolamentos e empolgamentos absurdos, esta tentativa de lançar o alarme. 

Não haverá quem controle isto? Não haverá uma voz experiente que explique que isto é manipulação, é mau jornalismo?

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Pelo contrário, a mensagem a reter é esta:


E, como sempre, mantenha as mãozinhas lavadas. 
(Mas também não vale a pena arrancar a pele... ok?)

quarta-feira, junho 19, 2019

Gestos, essa arquitectura do nada





As minhas sobrancelhas não têm história. São como são de nascença, sem depilação, sem desenhos por cima, sem reformatação, sem coloração. 

Quando vejo que se usam sobrancelhas bem definidas, até a atirar para o farto, bem penteadas e marcantes, sobrancelhas que são, em si, um statement, e olho para as minhas, tão o oposto, tão discretas, tão claras e despercebidas, penso que um dia hei-de experimentar escurecê-las um pouco, engrossá-las -- tudo na base do efémero, claro, com um lápis castanho para poder sair com a lavagem -- só para ver se a minha personalidade muda. E depois olharia de frente e inclinaria levemente a cabeça a ver se impunha respeito. Li que sim, que produz bom efeito.

Deveria fazê-lo primeiro em casa, ao espelho, ensaiar a pose, testar se resulta.

Só que sou fútil por natureza. Se reconfigurasse as sobrancelhas e me olhasse com sobranceria ao espelho estou em crer que, em vez de me sentir intimidada pelo respeito que o olhar e a atitude imporiam, haveria de me pôr a prestar atenção a pormenores que não vinham nada ao caso: que talvez o tom de castanho devesse ter sido mais arruivado em vez de tão soturno, que talvez as devesse ter alongado mais em vez de manter a curvatura original, que devia era ter disfarçado a cicatriz, que devia era ter apanhado o cabelo, quiçá posto um chapéu, talvez aquele chapéu basco com a fita encarnada. 

Portanto, porque intimamente ainda não acreditei que seja interessante impressionar alguém com base em situações não naturais e espontâneas, ainda não mexi nas minhas sobrancelhas. Também receio que, sem querer, ao mudar algo em mim, sem querer desvende um ser misterioso que me habita e que só estava à espera de uma oportunidade para se revelar.

Mas, agora que escrevo isto, penso que mal também não fazia e que talvez fosse mesmo interessante perceber se me sentiria diferente se me olhasse ao espelho e me visse com umas sobrancelhas à Frida. Como se sente uma mulher que tem umas sobrancelhas espessas e insolentes como asas de bicho peludo, descarado, mal intencionado?

Vou ali fazer isso e já venho. Um momento, por favor. Só espero é que não aconteça nenhum bruxedo.

Tenho medo. Tenham medo.

Já fui e já estou de volta, quase horrorizada. Para começar, não encontrei nenhum lápis castanho ou, sequer, preto. Encontrei um verde e um azul escuro. Optei pelo azul que é marinho. Pintei-as e juntei-as. À medida que as ia pintando, quase horrorizada ia vendo que parecia estar a deixar de ser eu. 

Quando as acabei e ficaram azuis espessas e escuras, juntas ao meio, eu era outra. Impossível ser eu, manter a mesma maneira de ser, com tais sobrancelhas. Fiquei com um ar mais do que rural, um ar primitivo. A mulher primitiva que, com ar sério, me olhava não era eu, era alguém saído de outro tempo, com uma outra maneira de ser, perigosa, castigadora. Ainda pensei fotografar mas não consegui. Peguei numa toalhita e limpei tudo. Aquela podia ter sido eu há muitos anos, a viver numa gruta, talvez na minha misteriosa gruta, alimentando-me de bagas e frutas e dormindo no meio de lobos. Aliás, talvez seja isso. Talvez fosse isso que vi quando me vi ao espelho, uma mulher lobo, com umas sobrancelhas azuis prestes a voar.

E tudo isto é uma conversa que parece não ter sentido, eu sei -- mas, por acaso, até acho que tem. O nosso corpo condiciona a nossa maneira de estar. Talvez não seja por acaso que, em algumas línguas, ser e estar se dizem da mesma maneira. E, portanto, quero eu dizer, o nosso corpo condiciona a nossa maneira de estar e, logo, de ser. E poderia dar alguns exemplos. Só não os dou porque, sem querer, iria descrever-me fisicamente e, francamente, tenho mais que fazer -- e vocês certamente também.


E apeteceu-me escrever isto depois de ouvir a crónica de Fernando Alves, 'O segredo está nas sobrancelhas' que me foi enviado e que muito agradeço. Tanta a gentileza.

[Um dia ainda gostava de ouvir um texto meu lido pelo Fernando Alves. Será que iria ficar presa à voz dele, esperando o desenlace, o arrepio final, o poema a varrer-me a pele? Como se as palavras estivessem a nascer dele?]

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E, claro, fui conhecer o poema por ele referido 


Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.
Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galería de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.

[Júlio Cortázar]


E dias felizes para quem aí está desse lado. 

[E saibam que estou a olhar para vocês com a minha cabeça levemente inclinada na vossa direcção]

quarta-feira, junho 12, 2019

Sinais. Ruben. Olhares. Árvores. Memórias.
E um tango com o perfume de uma mulher.





Há gente que a gente não conhece e de quem, no entanto, já se habituou à companhia. Dois deles são da rádio. Não são só esses mas desses eu hoje quero falar. Poucas vezes consigo ouvir os Sinais do Fernando Alves mas, quando posso, não perco e, mesmo antes dele começar, já antecipo o arrepio que sempre sinto quando aquela voz encorpada roça aquelas suas melódicas palavras que caminham para o final no qual tudo converge, como braços de rio a avançar para uma doce enseada. E não desconheço a mecânica dos rios, não, usei mesmo aquela imagem por deliberação porque assim as palavras dele, correndo, sobressaltando-nos ou levando-nos nos braços e, no fim, não se perdendo no mar mas, antes, tudo se resolvendo e aquietando, represado em nós.


Hoje consegui ouvir. Falava de olhares, de uns olhos azuis e de uns outros, verdes que ficavam amarelos, falava de duas mulheres, uma que recordava e outra que ouvia, e falava também de um poema de Octavio Paz.

Cheguei aqui para ouvir outra vez, o arrepio a querer de novo percorrer-me a pele. E, então, aparece-me o Nónio, que quer que me registe se quero ouvir os Sinais. Um desconsolo. As belas palavras e profunda voz do Senhor Rádio a serem condicionadas por uma treta contra a qual os jornalistas deveriam manifestar-se. Gostava de aqui poder partilhar convosco o que senti ao ouvi-lo. Não posso, não quero ser condicionada desta forma tão escancaradamente absurda. 


E queria, a propósito do que ouvi e de outras coisas cá minhas, falar de olhares, de como, para mim, é indispensável o contacto visual com o olhar do outro. Pelo olhar me desnudo, pelo olhar procuro a alma do outro. E queria contar como os meus olhos mudam de cor e como me desreconheço quando espero um tom do fundo do mar e os vejo, no espelho, da cor de pedras reluzindo ao sol e não sei se é o espelho que lhes dá a luz ou se são os meus olhos que inventam cores novas quando se vêem ao espelho. E queria contar que os meus olhos míopes parece que não precisam de ver para me darem a conhecer o que dizem os olhos dos outros e adivinham até o temor dos que não deixam que os meus os olhem de frente e em profundidade, como que receando que eu mergulhe fundo demais. Mas isto, se calhar, não é bem assim, isto, se calhar, sou eu que sou dada a rêveries, a inofensivas loucuras.

Mas, pronto, não tendo eu para aqui partilhar convosco os Sinais, não falo. 


E foi também no carro que tive uma má notícia: tantas vezes a nossa companhia ao sábado junto à hora do almoço, Ruben de Carvalho -- que se divertia à grande com Jaime Nogueira Pinto, os fantásticos Radicais Livres -- tinha-se libertado das amarras da vida. E escrevo assim não porque a hora careça de metáfora mas porque não gosto de usar a palavra certa. A palavra certa assusta-me quando a a ceifa atinge pessoa que me faz boa companhia. Parece que receio que contagie, que seja mau presságio. Evito.

Muitas vezes tínhamos que levantar o som, apurar o ouvido, eles falavam ao mesmo tempo, riam-se, tinham o prazer da concordância, sempre contentes por se lembrarem das mesmas coisas ao mesmo tempo, avindos apesar de tudo. Histórias, episódios, apartes -- e sempre ambos a completarem-se, rindo da sintonia. Riam um do outro, o da esquerda e o da direita, gozando com a própria irreverência face à ortodoxia. Radicais e livres. E agora o Jaime Nogueira Pinto não terá o seu amigo para desfiar memórias e opinião a par e par e nós, no carro, não teremos o prazer de o ouvir trocando postalinho com o seu companheiro. 


Se calhar vai chegar o dia em que vou começar a sentir que o meu mundo vai ficando mais pobre, sem muitos daqueles que acompanham os meus passos. Ainda não quero dizer isso porque não sou fatalista, não gosto de curtir tristeza. Mas custou-me mesmo que ele se tivesse ido embora e, ainda por cima, sem dar aviso, sem que eu fosse criando mentalização para o que estava para vir. E falo de forma egoísta, não falando no sofrimento dos que lhe são próximos, falando apenas de mim, no carro, a ouvi-lo. Mas acredito que, quem fala na rádio, fala como se falasse para cada um que o ouve e é dessa tertúlia agradável e culta que vou sentir muita falta.

Mas é assim mesmo a vida, cheia de coisas destas, de olhos que se fecham, coisas nem sempre esperadas, coisas que nem sempre causam arrepio bom na pele.

Mas continua. Sempre continua, a vida. 


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Os teus olhos  -  Octavio Paz

Tus ojos son la patria del relámpago y de la lágrima, 
silencio que habla, 
tempestades sin viento, mar sin olas, 
pájaros presos, doradas fieras adormecidas, 
topacios impíos como la verdad, 
o toño en un claro del bosque en donde la luz canta en el hombro de un árbol y son pájaros todas las hojas, 
playa que la mañana encuentra constelada de ojos, 
cesta de frutos de fuego, 
mentira que alimenta, 
espejos de este mundo, puertas del más allá, 
pulsación tranquila del mar a mediodía, 
absoluto que parpadea, 
páramo.

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E para não chegar ao fim num tom dolorido, com saudades de olhares longínquos, com a melancolia de amores perdidos uns dos outros, com a nostalgia de vozes que gostaríamos de ter perto de nós, vou lá acima trocar o Nocturno pelo Redemption e vou colocar as minhas palavras sob a copa das minhas tão amadas árvores que me abrigam quando estou in heaven

Ou melhor: vou acabar a dançar. E vou buscar um dos tangos mais enternecedores e mais sedutores de que tenho memória. E com uns olhos que, na realidade, vêem mas que ali, não vendo a fingir, vêem mais do que todos os olhos que com ele deslizam no salão, a menina deslizando nos seus braços, rendida, transportada.



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Entretanto, por gentileza de um Leitor num comentário abaixo e a quem muito agradeço, recebi a indicação de aqui se consegue ouvir a crónica do Fernando Alves:

http://podcast.static.tsf.pt/sin_20190611.mp3



sábado, abril 13, 2019

Vamos embora, disse ele. Mas eu fiquei. A ouvi-lo.





Já estava um bocadinho atrasada mas o dia estava tão bonito que isso não foi tema. Quando cheguei ao pé do meu marido, ele disse-me: 'Não te disse? Tu disseste cinco para a uma e eu disse que se fosse à uma e cinco seria uma sorte'. Expliquei a razão do meu atraso. Quando estava a sair, tinha sido interceptada por alguém que teria muito para dizer mas cujas palavras interceptei. Então, ele contou: 'Mesmo agora passou por aqui o ex-ministro [e referiu a pasta] e hesitou, como se me conhecesse e viesse cumprimentar-me'. 'E tu?'. 'Eu desviei-me, disfarcei'. Mas logo a seguir apareceu o presidente [e disse o nome de uma associação patronal] e aconteceu  mesma coisa, vinha cumprimentar-me. A mesma coisa, exactamente'. 'Mas estavam juntos?'. 'Não, primeiro um, e entrou para o restaurante. A seguir o outro. E entrou também'. Achei graça e ele também tinha achado. E, assim conversando, dirigimo-nos ao simpático restaurantezinho que descobrimos há pouco tempo.


Pedimos aqueles gostosas entradinhas de que ambos tanto gostamos e estavamos no petisco e a conversar quando reparei que ele estava de olhos postos não sei onde que não em mim. Não gosto. Zanguei-me: 'Estou a falar e tu a prestares atenção não sei a quê'. E ele disse: 'É que acho que entrou a [e disse o nome de uma conhecida deputada europeia] e não pude deixar de reparar'. E, quando me virei para olhar, já ela vinha avançando para uma mesa perto de nós. Jeans, botins, maleta de viagem. Por uma vez não a achei pior nem mais baixinha do que se vê na televisão. Pelo contrário. Bonita, aspecto simpático. Sempre ao telemóvel mas, como é apanágio dela, sempre com um ar vagamente sorridente.


Quando saímos, comentando o ar primaveril e ele brincando com o facto de no prazo de menos de uma hora ter estado ao pé de três pessoas tão 'famosas', olho para o lado e quem vejo? Uma conhecida senhora com uma toilette primaveril, bouquet primaveril na mão e um sorriso encantado de quem tinha acabado de ser presenteada. Fiquei com vontade de ir cumprimentá-la: 'Ora viva! Então como está, Santa Mana?' mas comportei-me.


A seguir separámo-nos e seguimos em direcções opostas, cada um para o seu trabalho. Pensei que teria precisado de um almoço mais prolongado e de ter visto mais celebridades para aguentar melhor a sessão em que ia participar a seguir. Não gosto de me maçar antes de estar no meio das maçadas mas, neste caso, conhecendo do que a casa gasta, não pude deixar de me pôr a pensar no possível antídoto ao que me esperava nas próximas horas. Ia na Antena 2 mas apeteceu-me espevitar. Pus na TSF. E, então, para minha alegria, estava a começar os Sinais. Para se perceber como sou tão absurdamente primária, confesso aqui que, instantaneamente, me esqueci da reunião que ia ter e de tudo o mais à superfície da terra. Encantada, ouvi. Encantada. Como tantas vezes, com aquele arrepio que me percorre a pele. Felizmente o meu piloto automático funciona bem pois a verdade é que desligo. Desligo mesmo. Involuntariamente entrego-me à emoção que me toma: isto quando ouço os Sinais, um andante de Debussy, uma fuga de Bach, o canto de um pássaro, quando contemplo o voo de uma gaivota, a beleza de uma árvore, uma pintura, quando leio uma poesia, quando recordo um momento especial.

Vamos embora, intuí que se chamasse a crónica. Que bom poder testemunhar o prazer das palavras ditas por quem as tão bem sabe escrever e dizer.

Vamos embora -- disse o senhor Rádio, Fernando Alves de seu nome


E depois a reunião foi longa, longa, agitada, e, a meu ver, inconsequente. Mas o tempo o dirá. Penso, para me dar descanso, que não tenho que tentar evitar todos os meus passos que vejo à minha volta. Como nos disse uma vez um senhor da aldeia a quem pedimos que plantasse choupos num lugar que ele dizia inapropriado: 'Mas querem que eu ponha aqui os choupos, eu ponho. Em havendo dinheiro...'. 

E depois, já noite, vim para casa. Como habitualmente, vim conversando. Com a minha mãe, com a minha filha. Depois, já cá em casa, fizemos planos para o fim de semana. Mas, entretanto, em conversa com o meu filho, os planos levaram uma reviravolta. 

E, entretanto,  adormeci. 


E agora estou a ver de novo Out of Africa, um dos filmes que nunca me cansarei de ver. E estou a reparar como um dos actores é igual, igual, igual, a um colega meu. Porque é que nunca antes tinha reparado? Porque nas outras vezes que vi o filme ainda não o tinha conhecido? Ou porque o actor entretanto mudou de feições e de maneira de ser para se pôr igual ao meu colega? Mistério.

E agora estou a ver aquela cena de que tanto gosto, uma intimidade profunda, uma cumplicidade que é tão boa de (vi)ver.



E é isto. Vamos embora.

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Um bom sábado a todos.
Que a alegria vos acompanhe.

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terça-feira, setembro 20, 2016

Da obra vil e tão repugnante que não vale uma poia de cão largada no passeio, o que dirá aquele que diz não ser da coisa obrada o empreiteiro mas que, porque deu a palavra, a vai apresentar?


Por vezes venho a pensar escrever qualquer coisa e, às tantas, porque vejo que outros o fizeram antes de mim, faço a agulha e aponto noutra direcção. Com quem me acontece isso mais frequentemente é com o Valupi ou com a Penélope, ambos do Aspirina B. E escrevem com tal galhardia que me fazem pensar: ó céus que se me anteciparam outra vez e com tal talento que nem vale a pena pretender vindimar vinha já tão bem vindimada. Chapeau.

Hoje foi outro desses dias. Conto.

Estava eu no carro de manhã quando ouço um daqueles momentos de rádio que valem ouro e que justificam a razão de, àquela hora, eu sintonizar a TSF e não outro posto. Fernando Alves, o Senhor Rádio, leu, com aquela sua inconfundível voz, uma pequena crónica que, de imediato, achei ser uma peça de antologia. Pensei: logo vou colocar no blog o link para esta pérola (ou, vá lá, para esta flor excrementícia).


À noite, à vinda para casa, um engarrafamento. Acidente numa das vias mais movimentadas à hora de ponta e o caldo está automaticamente entornado. Fiz telefonemas, ouvi a Antena 2, desesperei; até que me pus a ver os blogs da galeria lateral do UJM. E, bolas!, gaita!, outra vez!
O Distinto Valupi lá se tinha, uma vez mais, antecipado.

Contudo, agora aqui chegada, pensei que desta vez não me ia ficar até porque me quedaria pena de, neste meu sítio, que é quase um repositório de 'cenas' que vou pensando ou registando, não ficar com o apontamento deste fantástico momento de humor, ironia, sarcasmo -- e arte de bem escrever e de bem dizer. Fernando Alves não diz um nome, Não diz que o empreiteiro da obra que não vale uma poia de cão é José António Saraiva, não diz que a dita obra vil é o asco em forma de livro que dá pelo nome de 'Eu e os políticos' onde o pequeno arquitecto verte para papel o que ouviu off the record ou o que inventou, nem diz que o apresentador da obra que nada poderá dizer que se não suje é o inteligente Passos Coelho. Mas não precisa de dizer.


A quem ainda não ouviu, sugiro que clique para ouvir. É imperdível.

Toleima do apresentador obstinado


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Já agora:

 Pela veemência da repulsa são também dignos de visita:

'Que se afunde com a bosta' de Daniel Oliveira que li na Estátual de Sal
e, no Escrever é triste,
'Um livro que nunca lerei' de Henrique Monteiro
e o delicioso 'Toma' de Rita Roquette de Vasconcellos

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quinta-feira, março 24, 2016

A mulher do casaco amarelo


No post abaixo já falei de arte, já trouxe um poema do novo livro de Herberto Helder que, como uma daquelas estrelas de que o João fala,
Como as estrelas nascem e morrem, muitas das que hoje vemos podem já não ser estrelas. Estamos a olhar para o passado quando olhamos o céu.
continua a emitir luz lá dos longes onde agora está, e já mostrei um vídeo enviado pelo Leitor P. Rufino que, nisto da arte, tem gostos muito diferentes dos meus.

Mas agora, antes de me ir, apetece-me escrever mais uma coisa.

Apetece-me dizer que hoje, à hora de almoço, ouvi os Sinais de Fernando Alves e que ele disse que se lhe tinha rompido o dique ao ver a fotografia da mulher do casaco amarelo, essa mulher vítima dos atentados de Bruxelas, essa mulher com um olhar de medo, salpicos de sangue no rosto, que olha para todos nós, que não pára de olhar para todos nós, incrédulos como ela. 


Agora fui ver essa fotografia e aqui está: essa mulher que tinha saído de casa toda bem arranjada e que agora ali está, descomposta, meio despida, sem um sapato, como que abandonada, esquecida da vergonha que, noutras circunstâncias, teria por estar assim, talvez sem perceber se está viva da mesma maneira como estava antes de o mundo parecer cair-lhe em cima. 


A mim não me saltaram as lágrimas, não sou de lágrima fácil. Perante situações assim, tendo a ficar imóvel, como se sentisse que a contenção é a reacção mais inteligente porque, quem sabe, um dia poderá vir em que tenho que as ter de reserva para o tanto que delas talvez venha a precisar. 

Frequento quotidianamente locais que são de risco. Os meus filhos e o meu marido também. No entanto, não penso nisso. Ajo como se o mundo estivesse em vias de deixar de ser perigoso, como se, pela força da minha vontade, o mundo pudesse voltar a ser apenas uma terra fértil e pacífica, um pedaço de universo onde os rios fossem largos, limpos, cheios de luz e depois se estreitassem entre bosques altos e verdes, onde as florestas tivessem sombras perfumadas, pássaros coloridos, clareiras onde os habitantes se reunissem em rituais, danças, amores. Penso isso. Entrego-me a pensamentos bons, ouço músicas que me levam nos braços, imagino palavras bondosas, laços invisíveis entre pessoas generosas e, assim, vou mantendo afastadas de mim as sombras do medo.

Muitas vezes tenho vontade de sair por aí, perder-me no mundo, ir para onde possa ser útil, a resgatar feridos, a tratar crianças, a ensinar adolescentes, a ajudar a construir qualquer coisa. Mas sei que não poderia estar longe dos meus e sei que nada se faz por voluntarismo, que é preciso que as atitudes sejam concertadas, que haja inteligência na condução dos assuntos. Gestos isolados de nada servem. Por isso, não sei se cobarde ou se lucidamente, limito-me a continuar a viver como sempre, olhando o mundo, sendo sincera na forma como vivo, tentando compreender os outros, tentando ser feliz e que os que vivem perto de mim também se sintam felizes. Acomodo-me, pois, nas minhas inúteis e boas intenções e isso faz-me sentir bem comigo mesmo. Sentimento igualmente inútil mas, enfim, inofensivo. Ao menos isso.

Mas é verdade: vê-se a fotografia daquela mulher e pensa-se que isto não está a correr bem, que em algum momento o mundo caiu num precipício perigoso de onde pode ser difícil sair.

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E queiram, por favor, descer até ao post a seguir, caso vos apeteça ir em busca de territórios mais leves.

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terça-feira, fevereiro 23, 2016

Não há vida para além do Orçamento? - pergunto.
E pergunto à TSF, à SIC, à TVI, à RTP, todos esses que, com tanta conversa da treta levada a cabo por tanta gente desqualificada, ainda não perceberam que andam a dar tiros nos pés, uns atrás dos outros.


Nas televisões todas, o mesmo: enxames, resmas, paletes de comentadores, os jornalistas também transformados em comentadores, toda a gente a opinar, à boca cheia (e, a maior parte, com a cabeça vazia) sobre economia e finanças. Fulanos e fulanas que não devem ser capazes de somar 2 e 2 para ali estão, ensarilhados na aritmética mas armados em técnicos de finanças públicas. Todos opinam, todos baralham e dão de novo, pontapés nas rubricas em catadupa, uma confusão pegada sobre as regras mais elementares da aritmética -- mas não faz mal, no meio da confusão, vale tudo. Em suma (e desculpem a franqueza): uma porcaria de comunicação social que não se pode ver, uma intoxicação, uns fazedores de trapalhadas mentais - em geral e em suma, uma cambada.

E à hora de almoço, de carro, ouvi a abertura do noticiário da TSF e quem é que lá foi plantado (provavelmente a ver se pega de estaca)? Passos Coelho! Quem mais?! Mais de 4 minutos! Bacoradas do princípio ao fim, um exercício verbal que deveria ser analisado por um psiquiatra para ver se o fulano é um mentiroso vulgar ou se é esquizofrénico ou se qualquer outra coisa ainda pior.


Aguentei só para ver até onde ia a pouca vergonha dele e a da TSF. Quase 5 minutos. Desliguei de imediato e passei para música. É que uma pessoa podia não concordar mas enriquecer a perspectiva ou aprender qualquer coisa, ouvindo-os. Mas não: desinformação pura do lado da TSF e um puro exercício de falta de vergonha do lado do Passos Coelho.

E o que eu digo é: se o PSD não correr rapidamente com esta sinistra figura, de uma coisa podem estar certos -- nas próximas eleições, o partido valerá tanto como o CDS. Ou seja, desaparece tal como o CDS. Tende para a mais absoluta irrelevância. 


E se a rádio e a televisão persistirem neste banho de PàFs, bem os seus trabalhadores podem começar a ver se arranjam outro tipo de emprego -- porque isto não vai acabar bem. As audiências devem tender a diminuir à força toda. Estes gestorzinhos de meia tigela ainda não devem ter percebido que, com estas opções perdedoras (quem é que ainda está para ouvir o desqualificado Passos Coelho ou estes comentadores a metro?), não tarda estão sem audiência e, sem audiência, não há publicidade e, sem publicidade, não há receitas.

[Apre que nunca pensei que houvesse tanta gente incapaz neste país.]

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira. 
(E daqui a nada já cá volto. Tenho um outro post praticamente pronto mas estou perdida de sono, não sei se aquilo está, ao menos, bem formatado. Mas me aguardem.)


terça-feira, abril 21, 2015

Gente como nós



Clique, por favor, para ouvir

O que naufraga


[Sinais de Fernando Alves]


(...) o que é que vão fazer? Já sei que a resposta vai ser "lutar contra as máfias do tráfico de pessoas", que vivem à custa da exploração daquela pobre gente, com travessias de imenso risco. 

Até aí estamos todos de acordo. E depois? Está a Europa disponível para acolher no seu solo os muitos milhares de africanos que chegam às costas da Líbia (onde hoje não há Estado)? E quantos? E como os distribui? Ou será que se está apenas a aproveitar esta indignação para, através do pretexto da luta contra as máfias, tentar, afinal, evitar que os africanos entrem no continente europeu? Será que a Europa está disponível para dar uma solução de vida a essa gente? Ou será que apenas pretende um modelo como aquele que existe em Ceuta, com centenas de pessoas penduradas nas redes de metal que encerram a primeira praça da nossa expansão? Não será isso, lá no fundo, o "sonho" europeu?

A Europa tem de ter a coragem de dizer, alto e bom som, sem eufemismos, que não tem condições para receber milhares de cidadãos oriundos de Estados africanos (e outros) que se revelam incapazes de dar condições de vida decentes a essas pessoas. E tem de ter a frontalidade de dizer que, apesar dessa gente passar por lá fome, violência e imensas provações, não está disposta a abrir-lhes as suas portas. Mas tem de assumir isto, caramba! Andar com discursos piedosos a "fingir que faz" é de uma imensa hipocrisia política. 


O que a Europa podia fazer, e não faz, é promover políticas decentes e eficazes de cooperação para o desenvolvimento nos Estados emissores de emigrantes, que fossem estímulos para a fixação das populações. Basta consultar as conclusões das cimeiras entre a UE e os países africanos para se ter um completo e bem elaborado catálogo do que neles se proclamou, assinou e não se cumpriu.



[Excerto de 'Gente a sul da sorte' do blogue Duas ou Três Coisas do Embaixador Seixas da Costa]

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'Genocide' in the Mediterranean: ANOTHER migrant ship tragedy on Europe's shores as packed



 

'Genocide' in the Mediterranean: ANOTHER migrant ship tragedy on Europe's shores as packed boat washes up on Greek island - just hours after 900 died 'like rats in cages' off coast of Libya. Over 900 feared dead after boat overturned Libya in one of the worst maritime disasters since end of World War Two. At least three migrants killed when a vessel sailing from Turkey ran aground on the Greek holiday island of Rhodes Malta's. PM Joseph Muscat demands the EU tackle civil war in Libya that allows traffickers to operate with impunity. Compounded by rise of ISIS which has threatened to send 500,000 migrants to Europe as a 'psychological weapon' .'Genocide' charged as boat capsizes in Mediterranean (...)

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Another tragic day off the Italian coast: 400 migrants die, witnesses report


 

Tuesday (April 14, 2015) marked "another tragic day":http://www.euronews.com/2015/04/13/fr... off the coast of Italy. Migrants arriving in the port of Reggio Calabria, at Italy's southern tip, told the charity "Save the Children":https://www.savethechildren.net/ that some 400 people died when their boat capsized en route from Libya. Italy: Hundreds of migrants still missing off Lampedusa after latest boat tragedy


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Italy: Hundreds of migrants still missing off Lampedusa after latest boat tragedy




Dozens of bodies have been recovered from the Mediterranean Sea and brought ashore on Lampedusa after one of the worst tragedies involving African migrants trying to reach Europe. The mayor described the scenes on the quayside as "horrific, like a cemetery". Hundreds of people are missing after their boat sank about a kilometre from the Italian island. It is thought the boat capsized after migrants poured to one side of the vessel to escape a fire on board.

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Lampedusa: Way to Paradise or Hell for African migrants? 



As the turmoil of revolutions brought economic instability to many African countries, their citizens began to look across the sea, to Europe, for a chance to improve their lives. The Italian island of Lampedusa is often seen as “a gateway” to the EU paradise. Getting there, though, can be sheer hell. The journey is hard to arrange: it’s costly and travelers are at the mercy of boatmen, often unscrupulous traffickers. The waters are treacherous and have already claimed hundreds of lives. The authorities are determined to intercept would-be illegal immigrants before they can reach the EU border. Yet, in spite of all the hardship and danger, desperate African men and women continue to take their chances. Those who survive and reach the island for which they risked their lives, soon discover that, without papers or knowing the language, the future in a foreign country may be even more uncertain than in their own.

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Quem tem responsabilidades, directas ou indirectas, no estado insustentavelmente caótico a que chegaram os países de onde foge esta gente, gente como nós, que faça alguma coisa. E mesmo os que não têm qualquer responsabilidade que se unam para ajudar aqueles países de origem a ser um lugar bom para se viver, Não é humanamente suportável que se permita que tantos milhares de sonhos se afoguem no inferno da fronteira para o paraíso imaginado.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom dia.

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