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terça-feira, abril 23, 2019

Um dia ainda vou fazer uma dieta verde.
E aprender a fazer papel à moda da China antiga.





Não sou vegan ou vegetariana e para provar que, sobre o tema, sou completamente ignorante até confesso que, ao escrever isto, nem estou a lembrar-me da diferença entre uma coisa e outra. Podia ir informar-me mas não me apetece. Como carne, como peixe, ovos, queijo. Mas cada vez como menos carne. Tenho lido que não é saudável nem para quem come, especialmente carnes vermelhas, nem para o planeta, e sou sensível a ambas as causas.

Sempre gostei de comida crua: saladas, frutas, sumos, frutos secos, mel. E queijo fresco e iogurte (agora quase todos os queijos). Quando andava na faculdade, alimentava-me bastante assim. E sempre que se proporciona, não hesito. 

Mas, como não sou de fundamentalismos, não há dietas ou regimes que consiga seguir à risca. Nada. 
Até porque tambem gosto muito de ervilhas com ovos escalfados, bacalhau com grão, gosto de comidinha apurada embora saudável, gosto de caracóis, gosto de choco frito, de sardinhas assadas, de pescada cozida com todos, gosto de petiscos cantoneses, gosto cozido à portuguesa, gosto de bacalhau à Brás, gosto de chamuças, gosto de quase tudo.
Mas a verdade é que sinto que, com o tempo, caminharei cada vez mais para a simplicidade absoluta.  Em tudo, nomeadamente na comida. Talvez venha mesmo, um dia, a tornar-me completamente crudívora. Completamente ou quase.

E atrai-me, cada vez mais, a vida simples, no campo, os trabalhos manuais, o silêncio, a quietude. Em contrapartida, a chamada vida social, que nunca me atraíu muito, é para mim cada vez mais um esforço. E, quando regresso à vida de trabalho e à perspectiva de reuniões e mais reuniões, necessito de, à noite, espairecer e mergulhar na calmaria dos bosques, da vida vivida em harmonia.

E os vídeos da série que agora aqui partilho são um bálsamo para mim. Por vezes têm legendas, por vezes não. Mas não me importo se não percebo o que a jovem faz. Gosto de ver. Dá-me vontade de me pôr também a fazer coisas assim. 

千年长安千年纸,原来最原始的纸张是这样造出来的
O milenar papel chinês



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E queiram descer para ver como Greta Thunberg, uma jovem com síndrome de Asperger, está a agitar as consciências em todo o mundo

quinta-feira, março 21, 2019

Desconversa light






Parece que há quem pense que de Lisboa -- do Restelo ao Parque das Nações, de Carnaxide até à Graça, da Ajuda até aos Olivais, e etc -- não se avista nenhuma serra. Se calhar pensam que, em Lisboa, apenas se vêem montras e trotinetas. Mas vêem-se: serras. Mais do que uma. Já para não falar das que se avistam lá mais longe, a sul. Mas não faz mal. É até bom saberem que têm muito por descobrir. Em vez de se porem a suspeitar de tudo, achando que invento quando falo de serras e rios e céu e luz, mais valia que se alegrassem por ficarem a saber que têm um mundo de coisas insuspeitas pela frente, tanta coisa para aprender. Agora que é engraçado, é. É que não se acanham de lançar suspeitas. Comprova-se a toda a hora que a ignorância é muito afoita. 


E todo o santo dia me aconteceu disto: bizarrias, maluqueiras, gente que convida outros para coisas que não sabe dizer que coisas são, gente que diz que os outros não se sabem explicar e os ditos outros que se queixam que eles não percebem nada de nada, gente que disfarça inseguranças com galhardias, gente que confunde poder com prepotência mas que, quando confrontada, mete o rabo entre as pernas e recua, a ganir, para a casota. Coisas desconexas, descabeladas, coisas que andam às arrecuas. E eu? Dentro do cenário. Desalinhada e inserida. E, às escondidas, divertida. O mundo de verdade é um mundo imperfeito, disparatado, cheio de suculentas surrealidades. Podendo, por vezes, parecer que não, a verdade é que sim: gosto.

Haverá quem diga que lá estou eu com fantasias. Mas não. Teria mais graça se pudesse contar que engoli um apito e que outra coisa não fiz ao longo do dia do que soltar involuntários assobios ou que, estando eu a fazer meditação no vértice de uma pirâmide de cristal turquesa, veio uma borboleta pousar no meu mamilo direito. Mas não. Coisa boa só acontece aos outros, a mim só banalidade.

O que vale é que, de vez em quando, me dá para pular a cerca, a cerca gastronómica quero eu dizer, e penetro em lugares desconhecidos e peço iguarias que não sei o que são e descubro coisa boa, sabores novos, e são sabores marroquinos, sabores indianos, sabores coreanos e se vejo ingrediente com nome nunca lido, então, é esse que quero. E é doce, picante, agridoce e sabe a flor, a fruta, a especiaria e nem tento saber o que é. E esses sabores bons derretendo-se-me na boca dão-me vontade de primavera. 

Ou perfumes. Se passo em perfumaria e vou com tempo, gosto de experimentar. Aromas com nomes exóticos. Ou não exóticos mas apenas evidenciando a minha incompetência para conhecer essências fundamentais. Gosto de experimentar. Gosto de sair de lá perfumada por mil perfumes diferentes. Coisa soft, só um pinguinho de coisa boa. Tudo junto não fica muito. Fica apenas cheirinho bom. E aspirar esse cheirinho também me dá vontade de primavera.

Ou abrir livro de poesia, ler verso solto, poema limpinho deitado na página branca. Gosto. Não pode ter palavra de prosa, falta de música, realidade a mais. Se encontro isso, deixo logo para trás. Tem que ser palavra luminosa, bonita, com melodia elegante, som de sombra, sopro de voo, coisa ainda não nomeada. Disso eu gosto, fico parada a ler, devagarinho, deixando o som da palavra pousado ao de leve no coração ou na palma da mão. Poesia escrita em livro é palavra inscrita em árvore. E pensar nisso dá-me vontade de primavera.

Podia também agora falar da lua que hoje está branca e que é outra vez a maior, a mais branca, a mais esbelta, a mais quente, a mais próxima, a mais redonda do ano. Mas não. Não vou falar. Lua cheia virou coisa banal, commodity, já anda na boca de qualquer um, título de notícia em canto de página, fotografia a metro. Olhei para ela e ela não me disse nada. Portanto, desviei o olhar à procura de alguma outra coisa que me desse vontade de primavera.

E há muitas. Algumas estão dentro de mim e não conto a ninguém. Outras são indefinidas. Vontade de. Vontade de ter vontade. E a primavera vem. Já cá está. Só falta agora os dias ficarem grandes. Um destes dias aventuro-me a ir andar em cima do rio ao pôr do sol. Das vezes que andei, em Madrid, por exemplo, ou a subir a uma serra na Suiça, tive um medo que me deixou transida. Andar nas alturas, aquilo a parecer que não vai caber nas argolas, um susto. Mas pode ser que consiga livrar-me de vertigens para desfrutar o bom que deve ser, na primavera, ao fim do dia, andar de teleférico sobre o rio, em Lisboa. E, sim, em Lisboa também há teleféricos. Até há leões. E galos. E formigas. Ver formigas a andar em carreirinha também é bonito.

Mas formiguinhas dentro de casa não. Só na rua. Formiguinhas, apressadas, organizadinhas, são como nós ao fim do dia, em noite de cidade cheia de carros. 

Mas é isto. Penso que o dia que passou veio em pack, um pack promocional: equinócio, primavera, árvore e felicidade. Tudo bom. Só faltou vir com minutos ilimitados.

Mas pronto, tirando isto, nada mais tenho a desacrescentar. Só se for que hoje não me meto na disputa na caixa de comentários, que agradeço, pois, a esta hora, já sou como a maré a recuar.  Por isso, vou ficar por aqui e fechar os olhos para pensar em figurinhas de cores quentes e alegres, malandrecas e bué primaveris, se calhar quase estivais.

O pior é que não chove.


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Isabel, desta vez não me esqueci: o autor das pinturas é Yoo Youngkuk

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E pensavam que aquilo do apito ou da borboleta era fantasia?

Acertaram. Fantasia e da boa.




Um dia feliz a todos. 

quarta-feira, novembro 22, 2017

Contemplar. Escutar. Viver.




De vez em quando, estar no trânsito é uma bênção. Conduzir de manhã, o ar fresco a entrar pela janela e, na rádio, a música, a boa música. Por vezes interrogo-me sobre o que é isso da boa música. Música boa acima de qualquer subjectividade. Se, por exemplo, ouço Satie, o frio a tornar ainda mais limpo o céu tão azul, as árvores de um tom dourado, eu penso que há uma felicidade também acima de qualquer escolha. A felicidade absoluta que nasce de momentos assim, independentes das circunstâncias.


Desta vez a flauta, música oriental. E César Viana falando tranquilamente. E falava de música, de flautas com nomes misteriosos e de actividades surpreendentes como 'olhar as cerejeiras em flor', como 'contemplar o Monte Fuji'. E eu ouvi-o com encantamento.

Em tempos tive um colega e amigo que tinha uma mulher pianista e muitos filhos, uns músicos, outros pintores. Tinha uma imensa biblioteca, quase sem sítio para se sentarem, tantos os livros, tanta a tralha dos filhos. Espalhava lápis pela casa para que, quem deles precisasse, tivesse sempre algum à mão. Apesar da confusão que devia ser a casa dele, era, contudo, uma pessoa tranquila, quase silenciosa, e que tinha como passatempo olhar pássaros. Nessa altura, eu ainda sabia pouco da vida. Achava que viver era sinónimo de estar sempre a fazer qualquer coisa, e coisa com préstimo, palpável. Não percebia, pois, que alguém passasse horas a olhar para pássaros. Nem os fotografava, nem os desenhava. Nada. Apenas os olhava.

Hoje sinto saudades das nossas conversas e do prazer sereníssimo que transparecia das suas palavras. Fazia passeios em função dos pássaros que ia ver. Descrevia-os, descrevia os lugares diferentemente belos consoante a época do ano, falava das migrações, dos hábitos de nidificação ou acasalamento, falava de como sabia onde descobrir os pássaros. Tentava educar-me. 


E eu, assim, no carro, com as minhas recordações, entregue ao que ouço na rádio, longe, longe dos assuntos dos meus dias, longe, longe de problemas -- crises, desvios nos resultados, rácios da dívida, ebitdas, desmotivações, reestruturações -- longe, longe. 

E, então, enquanto ouço o som sereno da flauta, vou pensando como gostaria tanto de estar in heaven a olhar as árvores, a olhar o pouco musgo que vai rompendo, a geometria abstracta dos ramos quase nus das figueiras, o desenho harmonioso das sombras nas paredes brancas, a ondulação dos montes ao longe. E a ouvir o canto feliz dos pássaros.

Quando o trânsito flui, vejo com apreensão a aproximação do meu destino. Por vezes, chego à entrada da garagem e deixo-me ficar mais um pouco a ouvir a música ou as palavras dos entrevistados.  Falo da Antena 2, claro.


Foi o caso desta terça-feira de manhã. Momentos tão bons.

Depois desci às catacumbas onde a rádio não entra, estacionei e, de elevador, subi à torre onde as janelas não são janelas e não foram feitas para abrir. Quando entrei no escritório, esqueci a música e as maravilhosas actividades de que César Viana falou. E entrei no meu mundo tão cheio de problemas para resolver, tão intranquilo, tão preso às circunstâncias.

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Entretanto, recebi um mail de um Leitor que me deixou agradecida e generosamente recompensada. Sem lhe ter pedido autorização, tomo a liberdade de aqui o partilhar com todos vós:

Obrigado pela prosa feita poema. Uma pequena dádiva em jeito de agradecimento:


Sei que estás aqui, sempre estiveste.
A tua aura flanando sobre mim é que me veste.

Em todos os lugares encontro a marca dos teus passos.
No sonho me aconchego no enleio dos teus braços.

É inútil esconderes-te no seio dos segredos,
pois tenho a pele lavrada pelo tateio dos teus dedos.

Caminho nas nuvens seguindo o teu roteiro,
guiado pelo perfume do teu cheiro.

Risco no azul navegações de asas
em torno da febre que me consome
e é de ti toda esta fome
que me queima como brasas.



Kahlil Gibran sobre a Beleza


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Fotografias feitas in heaven

Lá em cima, César Viana tocando shakuhachi interpreta Yamato Choshi.

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quinta-feira, março 17, 2016

O nome daquele que não tem nome



Como aprender a conhecer o amado?
Jamais o encontrarás no bosque
se não conheceres a árvore
Jamais o encontrarás
se o procuras em abstracções


Essa flauta toca
quer alguém a escute ou não
Quando falamos de amor
é dessa música que falamos
Penetra a espessura
dos corpos
atravessa as paredes
É como se fosse uma teia
com milhões de sóis.

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Fotografia feita no outro dia in heaven agora que a primavera se anuncia com mil flores

Poemas de Kabir no livro cujo título é o deste post em versões de Jorge Sousa Rego

Emmanuel Pahud  toca Jean-Philippe Rameau (Piece de Clavecin en Concert n°5)
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quarta-feira, janeiro 13, 2016

Viver no Céu -- Onde a água é vida nascente jorrando de todos os poros da terra [Segundo de seis postais ilustrados do Gerês]




A água, cantante, límpida, fresca é omnipresente. Jorra dos montes, de entre as rochas, vem das escarpas, desliza pelas matas, forma pequenos riachos, vai em regatos ao longo das estradas, engrossa os rios, enche as enseadas junto às barragens.


De manhã, entre a neblina e as nuvens, por vezes pouco se vendo, ouvia-se o cantar fresco das +aguas escorrendo, rompendo a terra, banhando as rochas, mergulhando no rio. 


E eu acerco-me, abeiro-me, com cuidado não vá escorregar, sinto os pés a entrarem no território das águas. quero sentir a água, mergulho as mãos, sinto a leveza boa, a frescura límpida da água. Tão bom, tão bom, que sensação tão, tão boa.


E depois descubro um lugar onde a água é verde esmeralda, de uma limpidez assombrosa, uma cor vibrante, apetece-me mergulhar-me lá eu toda, sentir o corpo coberto por esmeraldas líquidas. Quanta beleza, deus meu, quanta beleza.


Como posso sair deste lugar que me acolhe e abraça? 

Tão belo, tão belo o meu país.


Sentem vocês, meus Caros Leitores, como é fresca e límpida esta água que nasce nestas terras puras?


quarta-feira, outubro 02, 2013

PSD: no Conselho Nacional os Ribaus Esteves, os Marco Antónios, e até os Aguiar Brancos e outros que tais vão correr com o António Capucho, com o Paulo Rangel, com o Rui Rio e com outros? É chegado o tempo dos cães com pulgas expulsarem os barões? (sem ofensa para os verdadeiros cães com pulgas, claro). 'Todos os animais são iguais - mas alguns são mais iguais que outros'? É esta a versão Passos Coelho da noite das facas longas? Não sei. Só pergunto que eu desta matéria não sei de nada. Eu cá sou mais coisinhas simples. Andar à noite nos cais, por exemplo.


E sobre o assunto em epígrafe pouco mais tenho a dizer. É tema que não me assiste. Confesso que gostava que se pegassem todos uns com os outros, que o Capucho, o Rui Rio, o Paulo Rangel e outros militantes decentes se deslocassem para a galeria enquanto a poeira não assenta e deixassem a maltosa (os acima citados mais o Seara, mais o Pedro Pinto, mais o Menezes, mais o Abreu Amorim e mais toda essa gente fina que por lá pulula) engalfinhar-se toda, uns nos outros.

O José Luís Arnaut já veio apontar o dedo ao Passos Coelho e avisar que se querem partir para a caça às bruxas devem pensar bem antes pois a culpa toda da hecatombe a que se assiste no PSD se deve à sua liderança e não a A, a B ou a C.. 

O PSD é uma boa amostra do que é o País: gente capaz e gente incapaz, videirinhos e gente decente.

O drama é que ultimamente o piorio alapou-se e a gente capaz quase tem que andar escondida.

Mas é coisa lá deles, não tenho nada a ver com isso.

No entanto, a bem do País, era bom que houvesse um golpe (palaciano ou de faca e alguidar, tanto se me dá) que afastasse o rebotalho e deixasse que a gente de bem voltasse a ter lugar nos órgãos dirigentes do partido.

Mas adiante que tenho mais que fazer que gastar prosa com o PSD.

*

Há pouco (ver post abaixo) contei-vos o castigo que foi vir a conduzir durante séculos, no pára-arranca, com uns sapatos novos, altíssimos, depois de um dia inteiro montada neles.

Pois bem. Mal cheguei a casa tive um prazer dos danados, quase uma coisa como aquela que a Adília Lopes, Irmã Barata, Irmã Batata, nunca experimentou: descalcei-os, mexi os dedinhos dos pés, tão bom, que alívio... Depois mudei de roupa, calcinha desportiva, pólo, impermeável fino, e, maravilha das maravilhas, uns ténis confortáveis, pés à larga, adequados à caminhada. 


E, agora, música, por favor




Noite cerrada, chuvinha miúda, e lá vai ela, direitinha à beira do rio.

Não uso sombrinha (excepto se chover a rodos), a franja retém a maior. Gosto de sentir a chuva na pele, sabe-me bem, lava-me a alma, refresca-me o espírito.

Àquela hora nem vivalma no cais. Apenas as cordas dos barcos rangem, lamentos profundos, quase um choro. O rio está negro, a cidade quase parece não existir, a neblina e a noite envolvem-na.

Um pouco mais à frente um vulto mesmo sobre as águas. Talvez pesque ou talvez apenas sinta o cheiro intenso que vem das águas. A água bate com força nas colunas do cais, cheira a mexilhões, a limos, a algas frescas, a maresia intensa, tão bom, tão bom.

Lembro-me de, quando era pequena, querer sempre que o meu pai me levasse com ele quando ia à pesca à noite. Ele não queria, era uma guerra, que não havia por lá nenhuma menina, que aquilo eram só homens, que não, que não. Por fim, vá, anda lá, mas é a última vez, não tem jeito nenhum.

Já crescidinha e ainda queria ir. Talvez até aos treze, catorze anos. Uma tentação. Depois o meu pai deixou de se interessar pela pesca, a minha mãe ficava um bocado aborrecida quando ele chegava com um balde cheio de robalos, horas e horas a amanhar peixe, tanto peixe; e agora vamos andar só a comer robalos?

Mas, enquanto ele foi, era à noite que eu mais gostava de o acompanhar. 

No cais havia uns buracos redondos no chão. Os pescadores apontavam uma luz para a água e enfiavam, por esses buracos, um artefacto com uns ganchos para apanhar lulas. Elas eram atraídas pela luz e ficavam presas. Era só puxar a corda e tirá-las para o balde.

Eu gostava de andar a cirandar pelo cais, escuro, apenas aqui e ali uma vaga luz amarela. Sombras muito longas, silêncio e o marulhar das ondas, e gostava de ir ver o que os outros pescadores apanhavam. O meu pai ficava furioso comigo, não me queria por ali no meio dos pescadores, sabe-se lá quem são, sabe-se lá o que pensam, não te quero por aí.

Mas, então, conseguia lá eu estar quieta...?

Ainda se eu fosse maria-rapaz. Mas não era. Sempre fui muito feminina. Cabelos compridos, soltos, ou, quando era mais miúda, em tranças para ser mais fácil manter-me com ar penteado. Roupas femininas. Modos femininos. Mas sempre a preferir os ambientes frequentados pelo sexo masculino. Mas não era por isso, é porque os homens, quando juntos, são mais pacíficos, as mulheres são mais quezilentas, gostam da intriga e eu não. Mas, então, o ambiente de cais à noite é mesmo à minha medida. Os pescadores são gente calada, pensativa. Gostam de olhar o mar, ou ficam sossegados a olhar a ponta da cana, a ver se 'pica'. 

E eu, quando era pequena, andava por ali a vê-os, a ver os peixes que já tinham apanhado e depois ia contar ao meu pai, aquele ali tem estado a pescar maçacotes, o outro lá à ponta apanhou uma sargueta das grandes. Depois o meu pai olhava o relógio, já é tarde, se eu tivesse vindo sozinho podia ficar... mas contigo... e logo agora que está a dar é que tenho que me ir embora. E eu dizia que não tinha sono, para ficarmos mais um bocado, para apanharmos mais uns quantos. Falava no plural, eu, era como se fosse trabalho de equipa, eu ia tirando o isco, ia à caixinha escolher outra chumbada porque uma tinha ficado presa no fundo, coisas assim.

E depois, quando chegávamos a casa, já a minha mãe estava a dormir e o meu pai ia com sentimento de culpa por ter condescendido a levar-me, não são horas para uma menina andar a pé, a chegar da pesca a uma hora destas, vês lá mais alguma? Mas o que eu gostava daquilo.

Agora, quando ando por aqui à noite, a cheirar-me a mar escuro carregado de peixes, lembro-me dessas outras noites. Parece que foi há tão pouco tempo. O meu pai muito jovem, cabelo liso, preto, com o vento a dar-lhe na franja muito lisa, todo ele com porte desportivo. Ainda tem o cabelo assim, liso, mas agora é um bocado grisalho. Só que já não pode ir para a beira do cais, mal consegue andar. Não lhe falo nisto porque receio que se sinta ainda mais triste.

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Nem sei porque agora me deu para esta conversa tão pouco animada, deve ser ainda influência das dores nos pés. A música, que é linda, flauta feita com as mãos interpretada por Mitsuhiro Mori, foi-me enviada por um Leitor a quem muito agradeço. Gostei, sim senhor, acertou. Muito obrigada.

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  • A imagem do Cacos Coelho provém do blogue We Have Kaos in the Garden.
  • Para perceberem a 'cena' das dores nos pés é descerem, por favor, até ao post a seguir a este.
  • Para o caso de quererem ver e ouvir mais um maravilhoso vídeo do Cine Povero, desta vez com o Mário Viegas a dizer Ruy Belo, convido-vos a virem até ao meu Ginjal e Lisboa, a love affair.

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Resta-me desejar-vos, meus Caros leitores, uma bela quarta feira. Saúde e alegria. E sorte, que dá sempre jeito.