E, antes disso, ainda acrescento que já peso menos dois quilos e picos, ou seja, já estou na média para a minha idade e altura, mas que a balança inteligente e sobredotada (comunica-me os resultados por telemóvel, faz gráficos e diz-me em que ponto da escala me situo em relação a cada indicador) diz que ainda tenho alguma gordura corporal a mais. Não é muito, creio que uns 4 ou 5% a mais (tenho o telemóvel a carregar noutro sítio, não me apetece levantar-me para ir ver o valor certo), mas não quero. Só que ver-me livre dela não está a ser pêra doce. O ChatGPT diz que tenho que fazer mais exercício ou consumir menos calorias. La Palice não diria melhor. Só que é uma dor de alma não poder comer o queijinho pelo qual me pelo, tenho que me limitar a um esquálido quadradinho de chocolate preto sem pingo de açúcar. E a fruta, que eu se fosse eu comeria às carradas, agora está mesmo limitada a 3 míseras peças por dia.
E o pior é que sei que, mesmo quando estiver no ponto, para assim me manter, terei que me manter assim, à míngua. Ora eu sou tudo menos vocacionada para me forçar a provações.
Enfim.
Bora mas é tangar.
No es por ti - Grupo Corpo (Lecuona)
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E agora é mal empregado colocar aqui um texto tão objectivo, tão exacto, como o que vou tomar a liberdade de transcrever na íntegra. Mas as coisas são o que são. O autor é Rui Bebiano, de que já antes aqui fiz referência, e escreve no blog A Terceira Noite que eu sigo religiosamente.
De forma simplificada, são dois os motivos principais que levaram à rejeição da moção de confiança e à próxima saída de Luís Montenegro do cargo de primeiro-ministro. O primeiro, mais invocado, tem a ver com práticas profissionais que colidem com o dever de exclusividade de quem detém cargos de responsabilidade no governo, por motivos acrescidos quem dele seja a figura principal. O segundo motivo, menos mencionado apesar de também importantíssimo, prende-se com o facto de a empresa envolvida, a Spinumviva, ser apenas familiar, não tendo sequer sede própria e corpos gerentes, dedicando-se basicamente ao tráfico de influências realizado sob a capa de «aconselhamento» em negócios privados.
Nada disto deveria ter acontecido, e, a ser revelado como foi, deveria ter conduzido de imediato à apresentação da demissão do cargo que LM ocupa. Todavia, não só tal não foi feito, como depois da triste novela pública vivida ao longo destes dias, o mesmo LM declarou pretender apresentar-se de novo a eleições e afirmou nada ter feito que «qualquer português não fizesse». Se assim acontecer, o PSD irá arrastar o país para uma situação de impunidade legal e ética premiada. Sabemos que em países como os Estados Unidos da América de Trump isto está a tornar-se trivial, mas, caramba, nós ainda vivemos no democrático país de Abril. Por isso de modo algum pode acontecer.
Contei-o na altura: estávamos a preparar a janta. Eu estava a fazer umas coisas, depois interrompi para deitar um olho ao mais velho que estava a tomar banho sozinho enquanto a minha filha ficou a tratar da salada, depois ele foi para o quarto para se limpar e vestir e a minha filha foi para a casa de banho, ajudar no banho do mais novo.
Voltei à cozinha e, vendo uma tigela com os tomates cherry, de lá gritei à minha filha: 'Olha lá, lavaste os tomatinhos?'.
Para nosso espanto, acto contínuo, responde o pimentinha mais velho lá do quarto: 'Claro!'
Desatámos as duas numa risota e ainda hoje, quando vemos 'tomatinhos', nos rimos.
Lembrei-me disto (confesso que a despropósito) ao ver, no The Guardian, a fotografia abaixo, uma fotografia magnífica. Explico o que é, transcrevendo:
Villagers put tomatoes under the sun, creating a blanket of deep red, to dry them in Hejing county in the Mongolian autonomous prefecture of Bayingolin. (Photograph: Xinhua)
Estamos na altura do tomate maduro e eu, que sou uma meditarrânica dos quatro costados (apesar de ter um avô que parecia nórdico e de um outro que sempre achei que tinha uns certos traços asiáticos), gosto de o comer de todas as maneiras: em salada com cebola temperada com azeite e orégãos, em sopa de tomate, em ovos mexidos com tomate, em arroz de tomate, em ensopado de enguias e sei lá que mais.
E se gosto de ver campos de tomates ou ir atrás de atrelados cheios de tomates... Lembro-me também do meu avô cultivar tomates alongados, uma coisa meio rara naquela altura, e entrelaçar com a rama umas résteas que não eram de cebolas ou alhos mas de tomates, que ele deixava suspensos numa casa pouco iluminada que havia no quintal e onde ele guardava alfaias, cebolas, alhos, batatas e onde tinha também as galinhas a chocar ovos. Lá se aguentavam os tomates ao longo de meses, tendo nós tomates frescos e maduros todo o ano. Também o meu pai, quando lhe deu para ter uma horta, entusiasmo que não durou muito, cultivou uns pés de tomateiro nuns canteiros. Armava-os com umas canas fininhas, tal como armava os pés de feijão verde. E eu gostava de ver as frutinhas a crescerem e gostava de os ir apanhar para sentir aquele belo perfume. Ainda hoje, se compro tomate de rama, quando os arranco, cheiro-os para ver se trago de volta aquele perfume tão bom dos tomates recém-apanhados.
Claro que, apesar de gostar imenso de tomate, não gosto a ponto de me imaginar mergulhada num banho deles como acontece em Espanha, Buñol. Mas, enfim, vendo a alegria dos banhistas completamente tingidos pela bela cor da tomatina não posso dizer que daquele sumo não beberei.
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E, por falar em encarnado (e já nada a ver com tomates, claro está), que entre a música do mestre Ernesto Lecuonano colada ao corpo do casal do Grupo Corpo que aqui interprta uma coreografia de Rodrigo Pederneiras
Ou o Encarnado da bela trilogia de Kieślowski
E os belos rouges de chez-moi ao pôr-do-sol
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E uma bela terça-feira a todos quantos por aqui me acompanham
Olho como se já os tivesse visto. Talvez numa pintura. Hopper, talvez.
Não. Talvez não propriamente Hopper. Estes que vejo não estão suspensos no tempo, no meio do vazio. Vejo que se mexem.
As gaivotas também devem estar curiosas. As palmeiras são mais coloridas do que habitualmente mas isso não quer dizer nada já que o céu também está pouco real, tão liso, tão azul.
Olho-os sabendo que eles não me vêem. De resto, sou invisível.
Estão em camadas. À medida que as camadas estão mais altas, mais se aproximam do azul. Apanham sol, parecem estar silenciosos. Mas pode ser que estejam a conversar. Também não vêem as gaivotas. Pelo menos não vejo que algum olhe para o céu.
Mais à frente, já vai entre as árvores douradas. As pessoas são agora pequenos pontos que se perdem naquele espaço branco que se move devagar.
Depois aparece inteiro e é imenso, um gigante com desenhos coloridos no dorso. Torna pequena a grande cidade que bordeja o rio. Ele próprio é uma cidade móvel com pessoas minúsculas lá dentro. Tento vê-las mas já não consigo. Perdem relevância à vista da dimensão deste gigante dos mares.
Do lado de cá, um casal olha a fotografia no telemóvel, indiferente à estrela da noruega que ali vai, saindo do rio, a caminho do oceano.
Passa sob a ponte, o Padrão dos Descobrimentos parecendo agora um brinquedinho de pedra pousado na beira do rio. Na esplanada, ao sol, as pessoas conversam, bebem um copo, olham o rio. Ninguém vê a cidade branca que ali vai a deslizar sobre as águas azuis.
Depois torna-se cada vez mais pequeno, um ponto branco que cruza o horizonte.
Esqueço-me, olho o rio noutra direcção, olho as pessoas, sinto o sol na minha pele, desfruto o calor bom deste outono tão ameno, sinto-me agradecida, serena. O tempo passa devagar e essa lentidão perfumada de maresia faz-me muito bem.
Quando olho de novo, tentando ver se ele ainda está visível, sinto que estou a ter uma visão. Dezenas de velas deslizam agora ao longo da linha do horizonte, parecem pássaros azuis com asas feitas de sombras do mar. Não sei se foram ali para se despedir do gigante ou se, agora que ele partiu, vêm brincar em liberdade sobre as águas cintilantes.
Depois fomos comer um gelado. O meu com dois sabores, Amarena Fabbri e figo. Sentados na esplanada, olhando quem passa, conversando, degustando os sabores, deixámos que a tarde esfriasse para ganharmos coragem para recolher a casa.
Vou escrever com jeitinho, para não revelar mais do que devo e, no fim, logo vejo se vai para o ar ou se fica no limbo.
Vamos lá.
Noche azul que en mi alma reflejó
La pasión que soñaba acariciar
Vuelve de nuevo a dar paz a mi corazón
No ves que me muero de dolor
Quando andava a estudar, para além da minha colega alentejana que, sendo tão diferente de mim, era tão minha amiga, eu tinha uma outra muito boa amiga. Era minha colega de curso e namorava um rapaz de medicina que era uns dois ou três anos mais velho. Acabou o curso, ele, ainda nós estávamos a estudar.
A vida que ela teve depois não se deseja a ninguém, tudo o que poderia haver de mau ela testemunhou e viveu. Tantas, tantas vezes a apanhei desesperada, lavada em lágrimas, metida em situações horríveis, do pior que há. E quando se pensava que nada de pior lhe poderia acontecer, acontecia. Muitas vezes não era directamente a ela mas a pessoas muito próximas, que viviam com ela, horrores inimagináveis. Era uma corajosa pois sobreviveu, inteira, a tudo. Uma vez, depois de ter estado algum tempo sem a ver, encontrei-a na Avenida da Liberdade. Por essa altura já ambas tínhamos, cada uma, dois filhos, ambas tínhamos sido mães muito cedo, até certa altura as vidas paralelas. Estivemos para aí uma hora de pé, no passeio -- nem nos ocorreu procurarmos um banco -- e ela arrasada, a contar os sofrimentos, as coisas horríveis que estava a viver. Eu, que sou frágil (ou assim me imagino), interrogava-a quase a medo: 'E tu assististe a tudo? Até ao fim? E conseguiste?' E ela tinha assistido, a tudo, até ao fim, tinha conseguido. Já estava calejada, pronta para qualquer coisa, sem fatalismos, já então sempre preparada para o pior.
Pouco tempo depois, estava eu a almoçar nas Amoreiras, encontrei uma amiga comum. Perguntou-me se eu tinha sabido do que tinha acontecido à nossa amiga. Pensei que se estava a referir àquilo que ela me tinha contado, naquele encontro na Av. da Liberdade. Mas não. Era algo ainda pior. Desta vez tinha sido o marido o atingido pelo infortúnio. Uma coisa horrível. Nem conseguia imaginar como podia ter acontecido aquilo a uma pessoa com tanta energia, sempre tão alegre. Nem conseguia imaginar como estaria ela a reagir a uma desgraça daquelas com o seu tão grande amor. Pensei que ninguém merecia tamanha pouca sorte, tamanha dose permanente de acontecimentos infelizes, irreversíveis, dolorosos.
Mas, na altura a que se refere aquilo que vou contar, ainda ela era despreocupada e feliz, não imaginando o que iria ser a sua vida.
Eu tinha o tal namorado novo, estava apaixonadíssima, andava sempre abraçada e aos beijos, eram permanentes manifestações de grande amor. Ela tinha conhecido o meu namorado anterior, tinha testemunhado a minha atribulada situação de acumulação, e presenciava com divertimento, agora, o estado de arrebatamento em que eu andava. Ela e o namorado eram mais moderados, especialmente ela, já que ele era um speedado, magro, corpo elástico, um bacano, sempre com anedotas e graças, todo piruetas no andar, na conversa, na alegria contagiante. Ela andava encantada com ele, embora um bocado ciumenta. Homens assim, divertidos, inteligentes, bem humorados e brincalhões são uma tentação para as mulheres. Ninguém tem grande paciência para um telhudo, ensimesmado, macambúzio, metido a erudito. Ele era o oposto disso e ela temia o efeito daquela efervescência dele junto de jovens médicas e enfermeiras, em especial nas noites em branco, de 'banco'. Mais tarde viria a ter mesmo razões para sofrer com isso -- grávida, a estudar, a dar aulas e a tratar da casa e ele de cabeça virada, pronto para mandar o casamento para o alto, com um caso tresloucado com uma colega médica. Depois mudou de ideias e manteve-se casado, mas essa sua atitude durante a gravidez da mulher, deixou algumas marcas no casamento. Mas, na altura a que se reportam os factos de que vou falar, era apenas uma ciumeirinha boba a que ela sentia por ele.
Encontravamo-nos os quatro com frequência. Como ele começou a fazer aqueles estágios hospitalares, era sobretudo ao fim da tarde ou à noite que nos juntávamos. Eram noites de risota, noites sem sono, uma alegria, uma pândega pegada, especialmente por causa dele.
Um dia, contava eu aquela maluqueira de termos ido à maternidade para me queixar de dores de pescoço e diz ela: Ah, nem me fales em espasmos. Sabem lá vocês o que nos aconteceu...
Ela vivia então num daqueles quartos que algumas senhoras nas redondezas nas universidades (senhoras penso que geralmente solteiras ou viúvas), alugavam a estudantes. Por essa altura não me lembro se eu vivia também num quarto ou se vivia, por engano (já aqui o contei), na moradia feminina da Opus Dei. O meu namorado vivia com os pais (embora pouco lá parasse) e o namorado dela vivia numa residência masculina, talvez nas Forças Armadas, não me lembro bem.
E então, dizia eu, havia uma senhora que alugava quartos e ela estava num. Quando a senhora saía ao fim da tarde e ele já estava livre das aulas ou do hospital e não estava ninguém em casa, ele enfiava-se lá à socapa (era proibido, as senhoras não deixavam entrar rapazes para os quartos, quanto muito podiam ficar na sala). Para ele a transgressão era uma festa: subir pela escada a pular degraus, entrar à pressa, esgueirar-se pelo corredor e enfiar-se no quarto -- e, sem tempo a perder, truca-truca.
Só que um dia, estavam eles naquilo, pensando que tinham tempo para a função e para saírem de fininho antes que alguém chegasse a casa, quando ouvem a chave na porta e a voz da senhora que entrava com outra pessoa.
E aí, a minha amiga, apavorada, coitada, teve um ataque de espasmos vaginais. Não me lembro se ela falou em vaginite, ou talvez tenha sido ele, acho que sim, mas não garanto que tenha sido isso que lhe aconteceu. Só me lembro de ela contar que tão violentos eram os espasmos que ele ficou lá preso, entalado, ela cheia de medo de ser apanhada, cheia de medo de que ele não se conseguisse tirar de dentro dela, que a senhora os apanhasse naquela linda figura, e cheia de dores e contracções, com a preocupação de não falarem, e ele aflito, enfiado, sem conseguirem controlar a situação.
Lembro-me do meu espanto, nunca me ocorreria que isso pudesse acontecer, e ele a rir-se, gozão, gozão, e ela a contar: 'Vocês nem queiram saber... O pânico, o pânico...'
Depois, lá devem ter respirado fundo, ele lá a deve ter conseguido acalmar, lá conseguiram apartar-se. E, com o coração a mil, ali ficaram assarapantados, sem saberem como sair dali sem serem descobertos. Por fim, a senhora lá saíu com a outra e eles lá conseguiram raspar-se.
Quando contavam a aventura, ele brejeiro, malandro, apimentava a coisa, transformava aquilo numa cena macaca, daquelas de que se iriam rir até ao fim da vida. Mas ela dizia, 'Não sejas parvo, não sejas ordinário. Vocês nem queiram saber o pânico que senti, já nos imaginava a ser levados para o hospital, agarrados um ao outro, na mesma maca, ele em cima de mim, um vexame, sabem lá a sensação horrível, eu a querer que ele saísse e apertada, apertada, ele completamente preso. E não sejas parvo, não gozes que também estavas em pânico'.
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Entretanto, as nossas vidas profissionais levaram-nos por caminhos diferentes e as desgraças que lhe sucederam depois acabaram por quase afastá-la do mundo em que eu me movimentava. Acabei por lhe perder o rasto.
Há algum tempo, num centro comercial, pareceu-me vê-la ao longe. Ela ia numa direcção e eu na oposta. Ainda pensei voltar atrás, correr, confirmar se era mesmo ela. Mas senti algum medo. Temi que lhe tivessem sucedido mais horrores, temi ouvir da boca dela aquilo que eu tinha sabido por outros. Mas pareceu-me bem, pareceu-me diferente, como se fosse outra, como se tivesse entrado num novo mundo. Tomara que sim.
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Estive a reler o que escrevi. Vou publicar. Pode ser que entre os meus leitores esteja ela. Se ela lesse, reconhecer-se-ia. E saberia que me lembro muito dela e dos tempos que vivemos tão intensamente, tão alegres, ela ainda tão ingénua em relação ao que a vida tinha guardado para a castigar sem que ela tivesse feito nada para o merecer. E lembro-me muito bem das suas duas filhas, tão queridas, tão amadas e a quem ela tanto tentou proteger. Tomara que também estejam bem.
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Apeteceu-me intercalar aqui fotografias de bailarinos cubanos dançando nas ruas de Cuba. Talvez seja porque, apesar das dificuldades que enfrentam, conseguem conservar a elegância e a força para seguir em frente, para voar. O seu autor é Omar Robles.
Admiro as pessoas que, mesmo quando teriam razões para se deprimirem ou afundarem em desesperança, conseguem manter a vontade de rir, de conversar, que são generosas em qualquer circunstância, que não perdem tempo com diferendos fúteis, com quezílias menores, admiro as pessoas que conseguem manter a alegria e a vontade de abraçar a vida e os outros.
Talvez por isso seja nos cubanos que pensei não apenas para as fotografias mas também para a música: Ernesto Lecuona. Lá em cima, Placido Domingo cantou Noche Azul. E agora o Grupo Corpo dança No es por ti, cantado por Zoraida Marrero numa coreografia de Rodrigo Pederneiras.
Não sou dada a orações (ou talvez seja mas não me apetece assumir), sou mais dada a exorcizar tristezas, medos, perplexidades ou anseios através de devaneios, danças, alegrias, através do corpo a corpo. E, especialmente se falo de memórias que, de alguma forma, me trazem alguma melancolia, se há coisa que me apeteça ver são bailarinos como estes aqui abaixo a dançarem música como esta.
Por isso, porque acho que ficam bem aqui, a festejarem a vida apesar das complexidades, labirintos e alçapões que, por vezes, a compõem, aqui vos deixo na companhia deste casal e desta música.
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E, por falar em cubanos, antes de me ir apetece-me ainda ouvir um poema de José Ángel Buesa:
No post abaixo falei do Homem Irracional, o último filme de Woody Allen, e nas ténues fronteiras que separam conceitos morais como os do bem ou do mal.
Mas isso é a seguir. Aqui, agora, com vossa licença, volto à vaca fria: as eleições do próximo domingo.
Mas como há pouco, ao chegar a casa, me encantei com a beleza de noite que estava - uma noite azul, um céu limpo e estrelado, uma lua quase dourada, escandalosa - é com Noche Azul que vos convido a virem comigo.
Não é só aqui em casa, é um pouco por todo o lado onde se respira algum gosto pela democracia de verdade e vontade de avançar no sentido do futuro, que sinto algum desânimo, como se uma doença contagiosa estivesse a alastrar, deixando todos um pouco prostrados. Teme-se que a praga Passos Coelho e Paulo Portas continue a invadir as nossas vidas. Começo a sentir em alguns quase a convicção de que este é o destino dos portugueses: não ser felizes.
A evidência é que viver desune
o tecido da esperança: não viemos
ser felizes neste lugar que é tempo
nem sabemos se um dia acreditámos
no que dissemos quando mergulhados
no mar interrompido pelos nossos braços
sem o saber nadámos
para nenhuma água ou para um cais deserto
Nos últimos dias tenho-me envolvido em acesas discussões com amigos, colegas e familiares, sobre a situação política actual.
Embora profissionalmente me mova num meio muito conservador, não encontro uma única pessoa que manifeste ponta de simpatia pela coligação PSD+CDS. Toda a gente que conheço, mesmo os que sempre foram simpatizantes de partidos de direita, fala deles com algum desdém.
Um votante fiel ao CDS agora diz-me que acredita, e di-lo com um toque de esperança, que acha que o PS é que vai ganhar. Pelo meio aponta críticas ao PS, desenterra conversas do passado, fala-me de escritórios de advogados ligados ao regime, mas eu equilibro com os escritórios ligados aos pafs que têm ganho fortunas com as privatizações a eito da era Passos Coelho. Ele concorda. Para minha surpresa, penso que, pela primeira vez na vida, vai votar no PS.
Encontro também gente que descrê do PS por achar que o aparelho está minado pelos interesses que corroem o Estado e que, em geral, os partidos portugueses anquilosaram e que verdadeiramente não têm sabido adaptar-se aos tempos. Esses, embora sejam pessoas que se esperaria que fossem mais ligados à direita do que à esquerda (um deles até já esteve ligado a um governo PSD), mostram-se decididos a votar no Bloco de Esquerda ou no Livre. Com estes, confesso que fico parva. Afirmam que a democracia tem que se regenerar e que, para isso, é preciso que o PaF perca as eleições e que o PS leve um abanão. Falo-lhes no desperdício de votos quando se vota em pequenos partidos que, pelo método de Hondt, não atingem o mínimo para eleger deputados e que, na prática, são votos deitados para o lixo, mas dizem-me que, votando em Lisboa, os votos no BE ou no Livre não são desperdiçados.
Depois há os que sempre votaram PCP e que, haja o que houver, se mantêm fiéis. Claro que a gente pode perguntar-lhes onde têm andado a Avoila, o Mário Nogueira, o Arménio e toda essa gente que, durante os governos do PS, não se calou por um segundo e que, agora - durante, todo este tempo de descalabro da governação Passos Coelho em que se assistiu a um sistemático e violento ataque aos trabalhadores - tem andado tão comprometedoramente calada. Nunca perceberei a bipolaridade do PCP que, defendendo o bem do povo, sistematicamente se une à direita para dar cabo do PS.
Mas, depois, o que eu encontro, e em larga maioria, é gente que, apesar de algumas críticas ao PS, acredita que António Costa, sendo um homem inteligente e sério, será melhor primeiro-ministro do que Passos Coelho.
Por isso, não consigo acreditar no que as sondagens dizem. Vejo as capas dos jornais e o que vejo é a propagação de mentiras, balelas, ligo a televisão e vejo o Marques Mendes em prime time e o que diz são balelas, uma reconstrução da história recente, tretas, balelas, e ao domingo é o Marcelo, e a comunicação social, toda ou quase toda ela, está atulhada de avençados manipuladores. E eu, vendo isto, interrogo-me se toda a gente andará tão adormecida ou embriagada que engula tanta balela. E acho que não.
Pelo contrário, acho que há todas as condições para que o PS consiga uma vitória inquestionável. Acho.
Mas o que me anda a fazer uma grande confusão é não ver gente conhecida, gente prestigiada, personalidades públicas, artistas, gente da televisão, desportistas (que já vi a Rosa Mota, mas queria ver mais) a apoiar publicamente o PS.
Onde anda essa gente?
Tudo colado aos sofás a praguejar contra os PàFs?
A pregar contra a direita mas sem levantar o rabo do bem-bom?
Será possível que nem perante uma ameaça destas - de Portugal continuar a retroceder, de ter uma posição cada vez mais marginal na Europa, de lambe-botas da Alemanha, de continuar na senda da venda ao desbarato do País e na senda do empobrecimento dos portugueses - os socialistas, os filiados e os apoiantes, vão continuar maria-ameliamente incapazes de ir para a rua, de darem as mãos numa luta que impõe mobilização a sério?
Caraças. Os direitolas todos unidos, em peso nas televisões, nas capas dos jornais, tudo a aldrabar, a prometer mundos e fundos, a espalhar atoardas e embustes... e os apoiantes do PS, armados em meninas, a chorarem pelos cantos? Caraças.
Por isso, só espero que acordem rapidamente. Já só têm uma semana. Apareçam, chamem a comunicação social, dêem entrevistas, mostrem força, convicção.
E, depois, quando tiverem a vitória nas mãos, façam uma gestão acertada dela, não desperdicem a confiança dos apoiantes, pensem com os olhos no futuro, sem concessões a interesses espúrios, sem provincianismos interesseiros, sem mediocridade mas, sim, com competência, humanismo e grandeza.
Mas isso é depois. Agora o que é preciso é ir buscar a vitória. Fazem, portanto, o favor de se despacharem e mostrarem que não têm sangue de baratas. Derrotem os PàFs. Mas derrotem à séria.
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As pinturas em azul (que acho lindas) são do pintor argentino Juan Lecuona.
Noche Azul é da autoria do compositor cubano Ernesto Lecuona e é interpretada no piano por Thomas Tirino. O vídeo mostra imagens de La Habana à noite
O poema "Não viemos aqui para ser felizes" é de Gastão Cruz in Óxido
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E agora, se estiverem para aí virados, desçam até ao post seguinte onde falo do inquietante novo filme de Woody Allen.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.