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domingo, julho 05, 2026

Nomeio-te, logo existes

 

Com a família cá, ditosos são sempre esses dias. Mesmo com o calor tropical, a leveza envolve-nos. Houve quem viesse para o almoço, houve quem viesse para o lanche e houve quem ficasse para o jantar e houve até um que veio depois de jantar.

E agora, depois de se ver o futebol, três deles já dormem. Desta vez não houve disputa sobre quem ficava na cama grande: aceitaram pacificamente que a mana, grande como já está, é justa dignatária do privilégio. 

E eu já estou cheia de sono. E já sei que acordarei cedo, chilreiam que é um gosto, e talvez com uma visita ao quarto. Por isso, vou ser breve.

Antes do jantar, enquanto os meninos estavam nos banhos, sentei-me um pouco e reparei que a grinalda de bolas coloridas, que se acendem a partir da luz solar, finalmente se acenderam. Era um botãozinho que tinha que ser mudado. Ficou tão bonito. Gosto imenso de luzinhas, acho que dão um ambiente muito feliz. Só não encho tudo de luzinhas porque sou impedida.

E ainda fiz uma ou outra fotografia. Gosto imenso de fotografar. Mas, antes de fotografar, gosto de ver. Gosto de estar entre o verde, entre as sombras que mudam, junto à luz que vagueia embelezando tudo, trazendo o requinte do dourado aos espaços, gosto de sentir que sou parte integrante do lugar e do tempo, estou ali como uma árvore ou uma flor está, como um bicho, sou o pó das estrelas que um dia voltará às estrelas.

Já várias vezes aqui trouxe os hábitos japoneses com que tanto me identifico. Volto ao assunto. Sigo esses hábitos sem saber que podem não ser apenas excentricidades minhas, que há palavras para nomear esses momentos de pura felicidade. Partilho-os.

6 palavras japonesas que vão mudar a sua visão da natureza

Há momentos na natureza que muitas vezes ignoramos.

A forma como a luz solar se filtra pelas folhas. A beleza silenciosa da chuva. A mudança das estações. 

Em japonês, muitos destes momentos têm palavras próprias. Algumas descrevem o que vemos, enquanto outras oferecem uma forma diferente de ver.

Neste vídeo, exploramos seis conceitos japoneses:

• Shinrin-yoku (Banho de Floresta)

• Komorebi (Luz do Sol Através das Folhas)

• Suiu (Chuva Verde)

• Fukinsei (A Beleza da Irregularidade)

• Kachō Fūgetsu (Aprender Através da Natureza)

• Mono no Aware (A Beleza da Impermanência)

Espero que estas ideias o incentivem a abrandar, a observar mais e a apreciar a beleza silenciosa que sempre esteve à nossa volta. 


Desejo-vos um feliz dia de domingo

domingo, maio 24, 2026

Ainda não faço ideia

 

Sábado animado, a começar com uma ida ao mercado comprar peixe de mar. O meu filho gosta de fazer grelhados, ofereceu-se para tratar do assunto. Com o calor que está, se eu pedisse isso ao meu marido, mandava-me passear ou dizia que fosse eu destilar. Mas o meu filho gosta, e domina a arte do fogo. Sabe atear as brasas, sabe colocar o peixe no momento certo, sabe o momento de retirar. 

E o peixe, que era gigante, estava fresquíssimo, ainda com aquela goma de quem foi apanhado há pouco, cheio de sangue, todo ele feito de mar. Fez-me lembrar quando amanhava o peixe das pescarias do meu avô ou do meu pai, durante o período em que ele resolveu ser pescador (amador, à linha).

Mas, claro, o menino mais novo protestou, quase amuou. E o seguinte também torceu a cara. Preferem carne. Além do mais, lá na praça, pedi para não escamarem para que a pele não se pegasse à grelha, e um deles gosta de comer a pele do peixe. Um outro diz que gostou mas não sei se não estava apenas a querer simpático pois não o vi a repetir e a comer com o mesmo entusiasmo de quando é entrecosto, bolonhesa ou cozido à portuguesa. A menina gostou. E o mais velho não compareceu, foi passar o fim de semana com amigos para festejar um aniversário.

De resto, o tempo anda estranho. Depois da subida a pique das temperaturas, à tarde o céu toldou, estava até húmido. Quente mas húmido.

De manhã o meu marido viu um pássaro quase sem conseguir andar. Conseguiu que ele fosse para o lado da horta, estaria mais a salvo. Mas, quando me contou, pensei que, se calhar, deveria ter dado água ao bichinho. Com estes calores, se calhar desidratam-se. Mas ainda bem que o cão não estava por perto, senão ia haver confusão. Nem quero pensar.

Estas flutuações de tempo parece que não estão a fazer-me muito bem. A noite passada tive uma insónia. Não sei porquê. De vez em quando, talvez uma noite de quinze em quinze dias, não sei, quase não durmo. E, quando quase não durmo, levanto-me com dores musculares. 

Poderia pensar: é a idade, a p... da idade. Mas gosto de ir ao fundo do problema: o que se passa no meu organismo para, de vez em quando, o sono se desregular? E o que se passa no meu corpo para, quase sempre que mal durmo, me levantar com dores no corpo? Já fui à consulta da IA e o ChatGPT e o Gemini são unânimes pelo que já sei que devo tentar que me prescrevam algumas análises para ver se não estou para aqui com magnésio a menos ou ferro a mais. O corpo humano é uma fábrica que requer condução cuidada, cautelosa afinação de parâmetros.

Quero ver se não me deito muito tarde pois a privação de sono notoriamente destrambelha-me para aqui qualquer coisa. Depois de passar uma vida inteira a dormir pouco e a andar sempre nas horas, fresca como uma alface, agora, de vez em quando é isto, um vidrinho.

E estava há pouco a espreitar o youtube quando me apareceu o vídeo abaixo. Parecia-me a Maria João Pires e fui logo ver, com curiosidade. Afinal não é. Mas é uma mulher com piada. Quatro casamentos e nenhum deu certo. E a graça e a objectividade com que fala disso... E fala de outra coisa, essa em que me revejo. Diz que ao fim de muitos anos, organizaram um fim de semana de reencontro de colegas de escola. E que a atenção que agora dedicam umas às outras é muito diferente de quando eram miúdas em que sabiam lá se alguma passava fome ou se tinha problemas em casa. Também comigo acontece não ter a mínima ideia de quem eram aquelas pessoas, quando andávamos na escola. Talvez por ser míope, habituei-me a não me pôr a olhar para as pessoas pois parece até coisa de mau gosto. Portanto, não vejo, passo ao lado. Depois, sou despassarada, distraída, interesso-me por algumas coisas, ignoro as demais. Acresce que, nessa altura, andava sempre apaixonada ou a gerir diferentes paixões. Pouco tempo me sobrava. Tinha o meu grupo de amigas e amigos com quem andava sempre no laré e em festas e idas ao cinema e à praia, e o resto era um vasto grupo de pessoas que por ali andava. Agora tenho curiosidade, sinto simpatia.

Partilho, pois, o vídeo. Dá para escolher legendas em português. (E vejam lá se, assim de repente, não parece a Maria João Pires)

Ainda não faço ideia

Reflections of Life

Passamos grande parte da nossa vida na esperança de que um dia saberemos finalmente exatamente o que estamos a fazer. Que chegaremos a alguma resposta clara e definitiva. Mas talvez parte de ser humano seja aprender a viver com serenidade dentro da incerteza.

Há momentos em que a vida nos pede para olharmos honestamente para nós próprios, para os padrões que repetimos, as histórias que carregamos e os momentos em que nos perdemos demasiado no nosso próprio mundo. Pode ser um trabalho desconfortável, mas também pode abrir as portas a novas perspetivas, em qualquer idade.

Talvez a sabedoria não esteja em ter todas as respostas. Talvez esteja simplesmente em mantermo-nos abertos, prestar atenção e questionar qual a melhor forma de utilizar o tempo que temos. Para nós próprios, uns para os outros e para a pequena parte que cada um desempenha no todo maior.

Com Célia Beaumont. Filmado em Mossel Bay, África do Sul.


Desejo-vos um belo dia de domingo

quinta-feira, maio 21, 2026

Escrever para acordar a voz das raízes que se perderam

 

Estou a ver, na RTP1, um programa sobre 'o extraordinário percurso da comunidade portuguesa em França' e vejo diversas pessoas que têm apelidos portugueses misturados com franceses. E está a assaltar-me aquela dúvida que por vezes me ocorre. Mas não tenho a quem fazer perguntas.não tenho.

A minha avó paterna, que tinha casa e terrenos no Algarve, tinha por lá sobrinhos, primos direitos do meu pai. Portanto, seriam filhos de algum irmão ou irmã dela, que não conheci. Sei que tinham vivido em França e que até tinham dado um nome francês a uma das filhas. 

Eram quatro irmãos, essa, a mais velha, de nome francês, e que, segundo os meus pais, era uma mulher de armas, ambiciosa, que ia comprando terrenos e tendo grandes campos de amendoeiras, alfarrobeiras, oliveiras. Foi a ela que a minha avó, sem informar os filhos, vendeu, por tuta e meia, tudo o que tinha no Algarve, perto de uma zona em franco desenvolvimento, não longe das praias. O meu pai, quando soube, passou-se, ficou revoltado, ofendido. Ela manteve-se na dela: não via nele ou meu meu tio vontade de, no verão, irem acompanhar a apanha das amêndoas ou das alfarrobas ou a feitura do azeite. E que já encomendava essa supervisão à sobrinha. Ora, se ela dava valor, por que não entregar-lhe a ela os terrenos e as casas? O meu pai nem queria ouvi-la dizer isso, perguntava-lhe se ela ainda não tinha percebido que o valor daqueles terrenos e casas era muito, mas muito mais, que o valor do que de lá se extraía. Ela não queria saber. O meu avô dizia que as propriedades eram dela, ela é que decidia. Sempre foi uma espinha cravada na garganta do meu pai. 

Para além dessa prima, havia uma outra que se pensava que pudesse ter algum atraso. Quando lá estávamos, não dizia nada, olhava para nós, sorria e balouçava-se na cadeira. A irmã dizia que ela sabia governar uma casa, fazia de tudo, não tinha atraso nenhum. Nunca se percebeu. A minha avó dizia que ela não gostava de falar, era tímida demais, gostava de era de estar em casa, lá na dela, sem visitas. Nunca a ouvi dizer palavra que fosse. Os meus pais diziam que ela devia ser autista. Mais tarde, teve cancro e veio tratar-se no IPO. A minha mãe foi visitá-la mais que uma vez e, para sua grande surpresa, julgando que ia estar em silêncio ao lado dela, ela falou, e foi uma conversa estruturada, normal. Não efusiva, um pouco introvertida, mas normal. A minha mãe vinha dessas visitas perplexa.

E havia dois rapazes. O mais novo era magro, ágil, brincalhão, muito vivo. Lembro-me de o ver a cavalo, queria pegar em mim para me levar com ele e eu fugia, temia que ele me arancasse um braço se me içasse pelo braço. Lembro-me dele a apanhar figos a cavalo. A irmã mais velha, falava quase como se fosse mãe dele, dizia que era um maluco, que não tinha juízo nenhum. Emigrou para Austrália. A minha prima diz que se ela e os pais se encontraram uma vez com ele no Algarve, dizia que queria comprar uma casa cá para vir passar a férias. Não sei onde vive nem o que faz. Dele só sei como era tratado: Janico.

E havia o que era o grande amigo do meu pai e da minha mãe. Era da idade do meu pai. Tinha muita pinta. Casou com uma mulher lindíssima. Os meus pais passaram também a gostar muito dela. Vestia-se de uma maneira cuidada, lembro-me de a ver numa fotografia com um vestido branco com bolas escuras, uma gola branca, uma capeline branca, parecia uma estrela de cinema. No verão, eles vinham a casa dos meus pais ou da minha avó e os meus pais iam a casa deles. Depois tiveram um bebé que, naturalmente, era também muito bonito. Mandavam fotografias deles com o bebé. Tenho ideia que a minha avó era madrinha ou do baptizado do sobrinho ou de casamento pois não a tratavam por tia mas por madrinha. E enviavam-lhe, por correio, fotografias, feitas em fotógrafo profissional, com dedicatória 'à madrinha'. Até que aconteceu a pior desgraça possível: o bebé morreu. Ela foi dar com o menino, de meses, morto no berço. A família ficou toda consternada. Lembro-me bem do desgosto de todos. Para ela, então, a mãe do bebé, o desgosto foi fatal, nunca mais foi a mesma. À luz de hoje, presumo que tenha tido uma depressão profunda. E, nessa altura, isso não se tratava. Dizem que nunca mais foi capaz de rir. Uns dois ou três anos depois nasceu uma menina. Também linda, uma bonequinha. Mas nem o facto de ter um novo bebé trouxe alegria à mulher do meu primo. Pouco depois adoeceu. Morreu em pouco tempo, parece que com um tumor na cabeça. Mas toda a gente dizia: 'Morreu de desgosto'.

O primo do meu pai viu-se viúvo, com uma filha pequenina. Valeu-lhe a mãe ou a avó da mulher, nem sei qual o parentesco. Do que me lembro dela, era uma mulher de idade. E a menina tratava-a por avó. Lembro-me de passarem férias em nossa casa, já eu era mais crescidinha.

E, pouco depois, incapaz de continuar na casa onde lhe tinham morrido um filho e a mulher, esse primo do meu pai foi para Paris com a menina e creio que com a tal 'avó'. 

Sempre ouvi dizer que formou lá uma empesa, que era bem sucedido. Já eu não vivia em casa dos meus pais, talvez fosse quando estava na faculdade, sei que ele esteve lá a passar uns dias. Tinha uma mulher francesa, segundo os meus pais, uma francesa toda giraça, muito moderna, cabelo rapadinho, e já tinha uma nova filha. Disseram que a primeira menina já estava uma pré-adolescente muito engraçada e que a nova menina era também muito bonita. 

De vez em quando, se falavam deles, diziam que estavam integradíssimos na sociedade francesa, que ele era um empresário muito respeitado, as empresas tinham-se desenvolvido, e que as filhas certamente se teriam tornado umas mulheres elegantes e interessantes. Nem o nome delas eu sei.

E desse primo do meu pai também só sei que era tratado por Necas. Nem sei qual o apelido.

E já não tenho a quem perguntar. Deixei que morressem todos os que poderiam esclarecer sobre aqueles que, na minha família, vivem afastados.

Por isso, até poderia estar a ver ali na televisão alguns primos e não o saberia.

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Desejo-vos um bom dia

sexta-feira, maio 15, 2026

Um pesadelo -- e, no fim, para rematar, dois mandamentos que encerram o conteúdo de 'Os Dez mandamentos da Lei da Pança'

 

Hoje tive um dia mais ocupado e disperso do que é costume. Para além disso, um pesadelo acordou-me ainda muito cedo e era daqueles que, de tal forma se enrodilham em volta dos neurónios, já não me deixou voltar a adormecer. Por isso, durante o dia, nos momentos em que estive parada, estive a combater o sono. Mas não consegui: há bocado adormeci aqui no sofá, de forma pesada. A ver se não me vai causar insónia.

O pesadelo foi mais um daqueles que não tem por onde se pegue mas que teve uma ponta final que me deu conta do juízo. Conto. Tinha sido um daqueles dias na empresa que começavam da pior maneira: mal punha o pé dentro, logo alguém se acercava para me atazanar a cabeça com problemas, sem me dar tempo a pousar, a beber café, a ligar o computador. Portanto, tinha largado a carteira e o telemóvel e tinha sido puxada por esse colega para ir ver um assunto urgente. Mas o tema em causa não era no nosso piso: fomos pelo corredor, mas era um corredor comprido que parecia que circulava em torno de muitos gabinetes, até que chegámos a um elevador, no que devia ser a extremidade do edifício; e tínhamos ido para outro andar. A pessoa com quem ele queria que eu falasse estava ocupada e ele sentou-se à espera. E eu pensei que de líder ele não tinha nada pois a pessoa, que hierarquicamente dependia dele, tinha continuado, nas calmas, como se não visse que nós estávamos à espera e como se nem tivesse consciência que ambos éramos pessoas muito ocupadas, para estar ali especados, à espera. E eu com vontade de beber café e a pensar que devia ter trazido o telemóvel. O meu colega, entretanto, tinha começado a contar-me sobre os filhos, sobre o seu amor ao teatro, e falava, falava, falava. E eu a ver o tempo a passar. Às tantas, fartei-me daquele número e resolvi voltar para o meu gabinete. Mas apanhei um elevador que me levou para uma zona que eu não conhecia e que não tinha saída. E não vou estar a descrever o raio do labirinto em que me vi metida. Só que andava por lugares em que toda a gente com que me cruzava me era desconhecida. E eu pensava que àquela hora já o meu marido deveria estar lá em baixo à minha espera pois tínhamos combinado ir almoçar juntos. E eu, sem telemóvel, não tinha como avisá-lo. 

E o sonho basicamente foi isto. Mas eu não dar com a saída, andar acima e abaixo, às tantas já andava em monta-cargas, imagine-se, e não dar com o caminho para o meu gabinete, não poder comunicar com ninguém, fez com que acordasse completamente desatinada.

Provavelmente tem a ver com um colega me ter dito que a empresa agora já ocupa mais uma ala do edifício, aliás, se bem percebi, o edifício contíguo, que têm estado a admitir montes de gente, que, se eu lá fosse, se calhar, tirando uns três ou quatro, já não ia conhecer ninguém, que ele, que lá trabalha todos os dias, passa a vida a cruzar-se com gente que não sabe se é de lá ou se são consultores ou alguém de fora que veio para alguma reunião.

Ainda no outro dia, um outro que trabalhava directamente comigo, um dos resistentes, me contava que ia sair dentro de poucos meses, que já tinha tratado de tudo. Eu fiquei muito espantada pois ele está ainda bem longe da idade da reforma. Mas disse-me que começou a trabalhar cedo, tem muitos anos de descontos, e que, sobretudo, que as coisas tinham perdido a graça, que aquilo mais parecia o recreio da escola ou, por vezes, uma esplanada, que 'a malta gosta é de conviver, todos lá muito na curtição deles, ao fim do dia, e ainda o dia não terminou, é vê-los a juntarem-se para irem para o rooftop', que parece que a história e a tradição da empresa se estavam a esvair rapidamente. Quando pergunto por um ou outro, já tudo saiu. Não sei se é a empresa a querer rejuvenescer à força toda, se é a malta mais velha que se cansou. 

Mas deve ser por isto que depois, de noite, a minha cabeça se perde em meandros que já não conheço.

Tinha dito que ia tentar partilhar o resto do estudo de ontem sobre a Terceira Idade mas, muito francamente, pouco tempo e pouca disponibilidade mental tive para avançar nisso. E amanhã também não vai ser fácil, mas logo vejo.

Também estou a hesitar sobre se devo partilhar aqui alguma da 'descodificação' dos papéis velhos, velhíssimos, alguns com mais de um século, que trouxe de casa dos meus pais e que pertenceram a bisavós, um de cada lado e que o Claude -- apesar das manchas do papel ou da tinta esbatida ou da caligrafia muito diferente da actual -- descortinou com uma perna às costas. São documentos que têm muito a ver com a história da minha família.

Talvez partilhe amanhã, pela graça -- e porque nada têm de pessoal ou reservado --  o 'Padre Nosso d’um bêbado' e 'Os Dez mandamentos da Lei da Pança' que um tio-avô ou a mãe dele, minha bisavó -- certamente algum dos dois -- , escreveram, com uma caligrafia espantosa, em 1911. Não sei se é coisa de lavra deles ou se reproduziram alguma coisa que ouviram algures. Por hoje, limito-me a transcrever o remate desses mandamentos:

"Estes 10 mandamentos se encerram em dois: - Comer até arrebentar, beber até cair."

Ora bem!

Pintura by ChatGPT
(pedida para ilustrar os ditos 10 mandamentos)

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Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, maio 12, 2026

O que faremos quando formos velhos?

 

Tenho estado a estudar o tema da terceira idade em Portugal, tentando perceber como compara com países de referência. Ainda estou a analisar informação, a tentar obter mais dados sobre algumas vertentes desta realidade. Como habitualmente acontece, já vou na n-ésima versão do documento pois há sempre muitas perspectivas para olhar para um assunto complexo e, se omitimos alguma que seja determinante, podemos subverter toda análise.  Talvez amanhã o publique.

Estando a pirâmide demográfica deformada pelo progressivo envelhecimento da população, seria de esperar que esse fosse um dos eixos de acção de qualquer governo e que uma abordagem integrada, bem estruturada, para acompanhar e apoiar os que vão vendo deteriorar-se a sua autonomia, estivesse bem delineada e fosse do conhecimento geral.

E, no entanto, não há. Ideias vagas, talvez. Uma linha de acção concreta, projectos em desenvolvimento e do conhecimento geral não há. 

Quem tem ou teve familiares idosos, em especial em situação de vulnerabilidade, sabe as dificuldades pelos quais todos passamos. É não apenas muito doloroso, em especial para os mais frágeis, como muito desgastante (e dispendioso) para todos.

Não me esqueço como, num dia em que estava a chegar ao norte para um encontro entre empresas do Grupoe e em que, para incentivarem o convívio, tinham contratado um autocarro -- e, portanto, eu não tinha meio de locomoção própria -- recebi uma chamada do hospital em que a minha sogra estava internada. Diziam que ia ter alta nesse dia, ao meio-dia, que a fossemos buscar. O meu pânico foi total. Tinha estado com ela na véspera e não via como poderia ir ela para casa. De maneira nenhuma. Do que víamos, imaginávamos que lá estivesse ainda mais um mês, imaginávamos que não sairia sem ter sessões de fisioterapia, imaginávamos que seríamos informados com antecedência. Ao telefone disse que ela não estava minimamente em condições de ir para casa, não tínhamos condições, não tínhamos quem ficasse a acompanhá-la ou a tratar da sua higiene. Não serviu de nada. Desatei a telefonar ao meu marido, aos meus cunhados. Todos desorientados, todos a perguntarem-me se eu não tinha dito que era impossível, se não seria melhor ligar outra vez para lá a pedir para a reabilitarem minimamente antes de a mandarem para casa. 

Mas foi mesmo para casa nesse dia. E o drama que foi daí em diante ninguém queira saber. Mais tarde, com ela ainda dependente, adoeceu o meu sogro e tudo ainda se complicou mais.

A opção foi sempre a de ficarem em casa e arranjar-se uma empregada interna. Mas a tragédia que foi. Eles não aceitavam bem ter uma estranha a viver lá em casa, não gostavam. Creio que passaram por lá umas doze ou treze mulheres, e, de cada vez que uma se ia embora, era outra vez o mesmo drama para arranjar outra. Por fim, recorríamos a uma agência a quem tinha que se pagar um mês a mais, pelo agenciamento. Saiu muito caro e só correu bem com a última. Mas o correr bem foi muito relativo. Ao fim de semana, logicamente a senhora não trabalhava e era preciso arranjar solução para isso. Depois a senhora também adoeceu, esteve internada e em tratamento durante meses, e foi preciso contratar uma outra, pagando ao mesmo tempo à primeira. E depois era a fisioterapia, e era a trabalheira louca quando era preciso ir ao médico ou fazer exames. Tudo muito complicado, para qualquer coisa eram horas, dias, e tudo muito dispendioso.

Mas, apesar de tudo, creio que foi melhor estarem casa do que irem para um lar.

Com o pai aconteceu praticamente o mesmo, a nível de alta hospitalar. Quando ainda andávamos a dar voltas à cabeça e a deitarmos contas à vida a pensarmos o que faríamos quando ele tivesse alta, julgando-a não imediata, eis que dizem que o podemos ir buscar. A casa ainda não estava adaptada a ter um acamado que não se podia locomover e ainda não sabíamos como lidar com a situação. A minha mãe estava boa, forte e vigorosa, mas à primeira tentativa percebemos que nem com a ajuda uma da outra conseguíamos pô-lo sentado na cama para lhe dar de comer. Não é só uma questão de força, é também de jeito, de prática. Para o meu pai era também terrível, uma ferida aberta na sua dignidade. Via que eu e a minha mãe nem conseguíamos levantá-lo para ajeitarmos a almofada e ele, coitado, mesmo que quisesse ajudar, não conseguia, era um corpo morto. Felizmente, conhecia-se uma senhora que não morava longe e que, justamente, trabalhava num lar. Estava pois muito habituada e era possante, pegava-lhe pelo cós das calças, virava-o, puxava-o. Coitado do meu pai. Quando penso no que ele sofreu... Então, antes de ir trabalhar, a senhora ia tratar da higiene do meu pai, quando saía do trabalho passava por lá e, à noite, voltava para o preparar para a noite. Entretanto, eu e a minha mãe andávamos a ver se arranjávamos uma solução mais permanente. Batemos à porta da Misericórdia e dos Socorros Mútuos e de mais não sei quê. Já não me lembro se não tinham disponibilidade ou o quê. Por sorte, lembrámo-nos de contratar uma fisioterapeuta que ia lá a casa todos os dias, perto da hora do almoço, fazia exercícios e deixava-o na posição de tomar a refeição. Só que, pouco depois, o meu pai piorou e voltou para o hospital, praticamente em coma, com o sódio e o potássio completamente descompensados. Esse internamento deu tempo a modificarmos a casa de banho, a arranjar uma cama articulada e uma cadeira de rodas. E, pouco depois, a senhora reformou-se do lar e passou a estar disponível para dar assistência mais assídua ao meu pai e foi isso que nos valeu. 

O meu pai esteve em casa até ao dia em que morreu, mas os sobressaltos por que passámos, nomeadamente com a sonda gástrica que ele, sem querer, puxava e que só podia ser posta por um enfermeiro -- e onde é que arranjávamos enfermeiros em tempo útil? -- ou com tantos outros problemas foram do mais desgastante que se pode imaginar. E, claro, o que se gasta nestas situações não está ao alcance de muita gente.

Por isso, interrogo-me: o que acontece a quem não pode pagar a uma empregada, a um fisioterapeuta, a enfermeiros e médicos particulares? É certo que a médica de família e os enfermeiros do centro iam lá de vez em quando mas não com a assiduidade requerida e, sobretudo, nunca em situações críticas ou de de urgência.

Com a minha mãe foi diferente. Quando teve o cancro no cólon e teve que ser operada, foi recuperar-se (e descansar da situação de cuidadora) para uma residência assistida, talvez a mais luxuosa e dispendiosa do país. Ao princípio ainda gostou mas, pouco depois, já estava farta. Para ela aquilo eram só velhos de boca aberta, que já não diziam coisa com coisa ou muito dependentes, e ela ainda estava boa. 

Queixava-se que não tinha companhia e que não tinha nada que fazer. No entanto, fazia lá ginástica, tinham actividades diversas, ia ao cabeleireiro, etc. Mas achava tudo aquilo deprimente e, sobretudo, acho eu, ali sentia que não tinha um propósito. Portanto, pouco depois, regressou. Estava bem era em sua casa, com a sua autonomia, a sua ida às compras, o seu jardim, durante uma fase a ida à universidade sénior ou a ida a passeios com as amigas. Por prudência, mantivemos o contrato com a senhora que acompanhou o meu pai: continuou a ir lá a casa de manhã e à noite para garantir que estava tudo bem, fazia-lhe as compras, levava o lixo, de certa forma vigiava a sua condição. E ia uma empregada de vez em quando, fazer as limpezas maiores (porque, as do dia a dia, a minha mãe fazia questão de ser ela a fazer tudo). No último ano, por não fazer a medicação, piorou e esteve internada uns dias e, do hospital, resolveu seguir para a mesma residência onde tinha estado anos antes, uma vez que têm enfermagem em permanência e médico todos os dias, e isso dava-lhe segurança. Aí foram só problemas. Já não estava bem e punha defeitos em tudo, só descansou quando voltou para casa. Só na recta final, quando se sentiu muito fraca, quis ir para uma residência, para uma onde estavam amigas. Mas acho que nem um mês lá esteve, foi internada a seguir. Mas, uma vez mais, não apenas o ambiente não era o que ela gostava, estava desenraizada, fora do seu ambiente, como o valor que pagava não está ao alcance de grande parte dos reformados, a menos que recorram às poupanças. 

Quem não dispõe de boas reformas ou não tem confortáveis poupanças e não pode ficar em casa, por não estar bem ou por já não ter total autonomia, como faz?

Daí haver tantos lares clandestinos. Devem ser os que as pessoas com menos posses conseguem pagar.

Por isso, perante esta situação, de que é que os Governos estão à espera para traçar um caminho que dê segurança e conforto à população mais velha ou a caminho disso?

E isto não é um problema dos outros. Não: é de todos. De uma maneira ou de outra, é assunto que tarde ou cedo toca a todos.

Se amanhã já conseguir dar por concluído o trabalho que tenho em mãos, partilhá-lo-ei. 

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Desejo-vos dias felizes

domingo, abril 19, 2026

Um dia muito preenchido que até incluiu uma cãoversão

 

São quase duas da manhã e tenho estado a ver se me mantenho acordada para, pelo menos, espreitar as notícias. Mas, de cada vez que começo a ler, desato a dormir. Não muito tempo, escassos minutos, mas o suficiente para, se entrar noutro jornal, as notícias anteriores já estarem desfasadas. Não sei se os acontecimentos desataram a romper os limites da física, furando as equações que regulam o espaço e o tempo, ou se anda tudo de tal forma confuso que já ninguém atina com nada, nem os jornalistas nem os próprios agentes da notícia. Desisto, pois. Se é para ficar baralhada mais vale que o fique de dia não vá a confusão desencadear algum daqueles meus sonhos mais surreais que uma cena a la Dali. 

O dia hoje foi bem preenchido, cheio de imprevisibilidades. Deitei-me ontem a pensar que o sábado ia ser uma coisa, provavelmente tudo mais para o calmo, e, afinal, foi bem o seu oposto, ou melhor, completamente o oposto. Para melhor. 

Mas que ginásticas tive que fazer... Felizmente, sou mulher prevenida e, portanto, quem foi chegando encontrou sempre acolhimento como se a sua vinda tivesse sido planeada, incluindo tendo o que comer. E, bem vistas as coisas, não sei como... mas ainda sobrou. 

Razão tenho eu em não ligar quando me perguntam se não é comida a mais ou se não acho que estou a exagerar. Sempre achei que mais vale sobrar do que faltar.

Ao longo do dia, grandes mudanças de cenários, incluindo ao almoço, que estava a decorrer muito normalmente --  a mesa cheia, conversa animada, sempre várias vozes que se cruzam -- até que, tendo-se recebido a notícia, não sei como, de que um dos meninos que jogava hoje, por sinal, a não muitos quilómetros dali (mas, que portanto, não estava ali connosco), seria titular, de repente, toda a gente, to-da (toda, menos o meu marido que não alinha muito em coisas assim de última hora, ainda para mais a correr), resolveu que era giro lá irmos todos vê-lo e, portanto, que era indispensável acabar o almoço com urgência. Então, foi um ver se te avias, tudo a despachar o resto do almoço à pressão, tudo a meter-se no carro, depois lá tudo a correr para chegar ao campo (literalmente a correr, pois o jogo já tinha começado há um bocado). Claro que ninguém me obrigou, também poderia não ter ido, mas não consigo recusar-me a uma coisas dessas, em especial quando é para ver, mesmo que de longe, um dos meninos. 

E eu gostava que, depois do jogo, ele se nos juntasse mas não pôde, foi na camioneta do clube com o resto da equipa. Protocolo é protocolo.

E se tivesse sido essa a única peripécia não teria sido mau. Mas não, hoje o dia foi todo ele uma coisa assim. E incluiu também uma conversão: o cão feroz, perante quem não conhece, arma sempre um chinfrim dos diabos, ladra, salta e parece que só não trinca se não o deixarem. Mas hoje, em vez de ser isolado para não incomodar o pessoal ou para não dar azo a alguma calamidade, foi levado para terreno neutro, foi travar conhecimento fora de território que considere seu. Não sei se por isso ou se, sobretudo, por não terem mostrado medo, a verdade é que, passado um bocado, talvez uma meia hora, não sei bem, decorridas cautelosas interacções, a fera estava convertida e pode andar a conviver, nos maiores amores, com quem, antes, não conhecia. E assim se manteve até à noite, tranquilo, amistoso.

Claro que, quando chegou a casa vindo do passeio nocturno, desta vez mais tarde do que o habitual, se atirou para o chão e ferrou. Dia agitado, muitas emoções.

E eu agora também vou dormir. Não escrevi nada de jeito, mas tal a lentidão com que estou, se é que não fechei os olhos pelo meio, já são quase duas e meia.

Este domingo de manhã logo tiro a limpo se o Estreito de Ormuz (ou de Vermute, como um dos malucos da Casa Branca no outro disse lhe chamou) afinal está aberto ou fechado. 

sexta-feira, abril 03, 2026

Uma casinha na árvore

 

Hoje, quando a menina mais linda estava a andar de balouço, ouviram-se uns estalidos algo ameaçadores. O meu filho olhou e verificou que o tronco, enxertado no chorão, no qual foi construída uma armação para se suspender o balouço, está seco, parece que bichado, diz que não tarda vai partir-se.

Fiquei a olhar com pena. Pensei que, com jeito, talvez conseguíssemos retirar aquela montagem e substituí-la por uma nova, resistente. Mas é preciso muita força, aqueles troncos são muito pesados. E é preciso jeito. Se calhar também técnica. Não temos nada disso. 

Vejo aquelas pessoas que, perante qualquer situação, olham e facilmente engendram soluções engenhosas para as resolver ou melhorar. Não sou assim. Aliás, acho que, cá por estas bandas, ninguém é assim. Imagino que, perante um desafio mais complexo, olhem todos, digam que não sabem, que dá muito trabalho, que, para fazer, teria que ser bem feito, que esqueça, que não é para amadores, para totiços como nós.

Mas fico com pena. Agora, a nível da maltinha miúda já estão todos a ficar grandes e, em boa verdade, os rapazes nunca ligaram muito ao balouço, só mesmo as meninas. Só que é bonito, é uma graça, é daquelas coisas que a gente associa à infância, à liberdade de quase voar. Sempre gostei de andar de balouço, de dar balanço, de ir bem alto. 

(Para dizer verdade, temos um segundo balouço, mais estruturado, sem ser de estar preso à árvore. Mas também, praticamente, ninguém lhe dá uso. Mas existe, é amarelo e bonito, e traz alegria ao lugar -- e isso também importa.)

Mas, voltando ao tema: talvez por ter essa pequena frustração de não ser habilidosa nem ter habilidos por perto, goste tanto de ver vídeos em que uma pessoa sozinha faz mil coisas: uma cabana, uma casa subterrânea, uma casa dentro de um tronco de árvore. Antes aparecia-me uma jovem asiática que ia para o campo, aparecia com plantas, frutos, bagas diversas, flores, paus. E fazias tinturas, ou fazia saladas, ou construía abrigos, ou fazia umas comidas curiosas. Nunca mais me apareceu. Mas eu ficava ali vendo-a com a sua destreza a fazer as coisas mais inacreditáveis.

Hoje apareceram-me, como seria expectável, toda a espécie de vídeos sobre o Trump, sobre os seus dislates, sobre o facto de ter despachado a vil e engraxadora Pam Bondi, especulando já sobre quem vai ser a próxima. Mas estou zen, ou, melhor, perdida de sono, não estou para políticas, maçadas, inquietações.

Tive cá o pessoal. Um lanche ajantarado nesta altura do ano sabe bem melhor, podemos estar na rua, os dias estão já de bom tamanho, a temperatura está agradável, o tempo fica com ar de férias. Aliás, eles estão mesmo de férias e isso sente-se, a descontração é outra. Ainda agora estive a ver as fotografias. Sorridentes, as cores bonitas que o sol da tarde torna mais douradas. E a malta miúda sempre a crescer. E eu a ficar mais pequena no meio deles. 

E estava a ganhar coragem para agradecer os comentários mas acho que não vou conseguir. Para escrever isto, que não é nada, já parei várias vezes, a fechar os olhos enquanto escrevo. Tenho que ir dormir.

Mas mostro o vídeo que reteve a minha atenção -- embora, confesso, tenha também semi-adormecido cinquenta vezes pelo meio. Mas é daqueles que eu olho e penso: não é difícil, se a gente tentasse, se calhar, conseguiria fazer coisas assim. Mas não tentamos, se calhar porque sabemos que não conseguiríamos. 

Esta coisa das cabaninhas, das casinhas nas árvores, dos abrigos no meio da floresta estimula a minha imaginação. Talvez me faça lembrar a minha infância quando passava tardes inteiras com um amigo, um ano mais velho que eu, na altura em que um ano mais velho fazia alguma diferença, na pequena cabana de madeira que avô tinha construído ao fundo do jardim. Conversávamos, conversávamos. A minha avó ia lá levar-nos o lanche e comentava com o avô dele: 'Mas o que é que estas alminhas tanto têm para conversar...?'. E a verdade é que tínhamos. Eram tardes felizes, só nossas, nós e o nosso mundo. Planeávamos coisas, eu perguntava-lhe coisas pois ele sabia muito mais que eu e ele tinha uma paciência infinita. E, quando não sabia, dizia que não sabia e eu gostava, ficávamos os dois, por uns instantes, calados, certamente a pensar como haveríamos de descobrir a resposta. Durou até ao fim da escola primária, altura em que fui para o liceu e deixei de ir, à tarde, para casa da minha avó. Mas a memória dessa afinidade perdura até hoje.

Encontrei uma árvore oca gigante e construí uma casa secreta no seu interior

Descobri uma árvore oca gigante no meio da floresta e decidi transformá-la num abrigo secreto para sobrevivência. Neste vídeo, verá todo o processo de construção de um refúgio dentro de um enorme tronco de árvore, utilizando apenas ferramentas básicas e materiais naturais. Desde a limpeza do espaço interior até à criação de uma área habitável quente e segura, este projeto mostra como as capacidades primitivas e a criatividade podem transformar a natureza na base de sobrevivência perfeita.

Este não é apenas um abrigo — é uma casa secreta construída para viver em áreas selvagens durante longos períodos. Se gosta de bushcraft, vida fora da rede elétrica e construções de sobrevivência extremas, esta viagem irá inspirá-lo com técnicas práticas e momentos de paz na floresta.

Veja até ao fim para ver como uma árvore oca se transforma num santuário aconchegante e escondido na natureza.

@Minh Anh Survival Bushcraft


Desejo-vos uma boa sexta-feira

quinta-feira, março 26, 2026

Bora lá dar uma curva...?

 

Há pouco tempo fomos desafiados para irmos, em grupo, numa viagem muito bonita, a uma cidade gigante que não conheço e gostava de conhecer. Ficámos balançados. Um bocado longe, uma viagem longa. O meu marido não adora andar de avião mas, dado o lugar que era e que a companhia não podia ser melhor, estava tentado a aderir. Por essas alturas andava o Trump com a conversa das negociações com o Irão e com ameaças pouco veladas. Como sempre, eram os seus pontas de lança para a facturação em terras estrangeiras, o genro, o sinistro Jared Kushner, e o pato bravo Steve Witkoff, que lá andavam a fazer de conta. Por um lado, à luz da lógica e do direito internacional, os Estados Unidos não cairiam na tentação de se meterem numa aventura suicida. Mas, por outro lado, com um doido varrido sentado na Casa Branca nunca se sabia. Ao conversar com a minha filha, lembro-me de comentar: 'vamos lá ver se o maluco do Trump não se mete numa grande confusão e não dá cabo da viagem'. 

Com a hesitação, não demos o passo em frente. E, nos dias seguintes, foi o que se sabe, a deriva, o desvario de Trump. Arrastado por Netanyahu e sem avaliar o que ia fazer ao mundo, o maluco avançou de peito feito, julgando que era a mesma coisa que tirar o Maduro da cama.

Ao contrário de quem nos desafiou, que compraram as viagens todas, para cá e para lá e para os percursos intermédios, não chegámos a avançar e, por isso, não ficámos com os bilhetes na mão. Os aeroportos em causa não estão fechados pelo que não há lugar ao reembolso mas, estando toda a região e redondezas sob uma instabilidade total e perigosa, não é seguro ir para aquelas bandas.

Durante os últimos anos, desde que o meu pai teve o AVC, ou seja, talvez há uns 17 ou 18 anos, deixámos de fazer passeios grandes. Creio que o último foi a Amesterdão e a Paris, em que estando o meu pai já doente, nos pareceu que eram destinos relativamente perto e que, numa emergência, facilmente arranjaríamos voos de volta. Tirando isso, que me lembre, só por Espanha e isso fomos várias vezes, sobretudo adoro San Sebastian, ou, a França, só quase de raspão. Começámos a gostar de descobrir Portugal. Ah, não. Ainda fomos até ao sul de França e até Itália, já nem me lembrava. Mas o facto é que não me sentia bem, indo para longe. Nesse período também os pais do meu marido estiveram mal, internados, em tratamentos complicados, a ter que ir a consultas. E o meu pai tinha o seu estado a deteriorar-se inexoravelmente. Depois foi a minha mãe que foi operada ao cólon, também com um cancro. Tudo me tolhia. De vez em quando, algum ia para as urgências, ficava na corda bamba, e custava-me pensar que não conseguiria andar descansada a passear longe do país, quando a todo o momento a coisa poderia descambar. Quando todos se foram e ficou só a minha mãe, que eu julgava que era saudável, pensei que finalmente poderíamos sentir-nos livres para fazermos o que quiséssemos. Mas aí foi ela que derrapou, todos os dias tinha qualquer coisa, sempre como se estivesse muito mal mas sem dar pistas que dessem para perceber o que tinha. De médico em médico mas, segundo ela, nenhum acertava. E era sempre uma urgência, uma crise grave. Nessa altura obviamente não era possível irmos para longe. Aliás, até irmos para o campo era uma crise. Chegava a não lhe dizer nada pois parecia-me que já era psicológico, se sabia que eu ia, mostrava-se ainda mais ansiosa, temia que eu não chegasse a tempo para a levar para as Urgências. Uma vez tivemos que regressar à pressa, eu num sufoco, pois ela achava que estava muito mal, tinha que ir para o hospital, e, naquelas suas decisões, recusou-se a chamar uma ambulância, quis que eu fosse buscá-la a casa e eu a pensar que poderia não chegar a tempo. 

Agora que já não há ninguém que nos prenda, há outra coisa: mudámos. Já não somos os mesmos. E há o cão. O pobre coitado sofre imenso quando está longe de nós. Custa-nos deixá-lo durante muito tempo. Mas nem é o cão. Somos nós. Talvez nos tivéssemos tornado comodistas. Talvez nos custe afastar-nos muito de casa. E depois também parece que já não há aquele interesse em ir ver o que nunca se viu. Dantes, quando fazíamos uma viagem, tínhamos os guias Michelin, tínhamos os livros de viagens, planeávamos o que iríamos ver recorrendo a isso. Íamos de facto descobrir o que não conhecíamos, Agora é diferente. Se tenho curiosidade em saber como é alguma coisa, pesquiso, está tudo disponível. 

É como quando eu ia a Madrid: adorava. As exposições, as ruas, os parques, as lojas. Tudo me parecia novidade, diferente. Agora já tudo me parece déjà vu. Mesmo aquele estímulo que eu tinha, de andar produzida, de descobrir lojas boas com modelos que não encontrava cá, agora já não tenho. Não só não preciso de mais roupa como já há cá praticamente todas as lojas que há lá.

Contudo, admito que seja uma fase. Talvez esteja a curtir o momento, aquela fase boa em que posso estar em casa, em que posso não ter horários, em que posso existir ouvindo os pássaros, olhando o jardim, lendo um livro, indo passear até à beira-mar, olha as ondas. Talvez que dentro de algum tempo pense: 'pronto, agora também já chega, bora lá passear.'. Pode ser. A vida é feita de mudança.

Mas, até lá, aqui estão quarenta lugares considerados belos de mais para não serem conhecidos. Bora lá vê-los...?

40 Patrimónios Mundiais da UNESCO que tem de visitar antes de morrer 
- Vídeo de Viagem em 4K

Descubra as maravilhas mais deslumbrantes do mundo no nosso vídeo: “40 Patrimónios Mundiais da UNESCO que Precisa de Visitar Antes de Morrer”. Estes marcos icónicos e tesouros escondidos representam a cultura, a história e a natureza na sua melhor forma. De cidades antigas a paisagens naturais de cortar a respiração, esta lista vai inspirar a sua próxima aventura!

Quer seja um viajante, um amante de história ou alguém que procura riscar itens da sua lista de desejos, estes destinos são imperdíveis. 

 

Caso queiram ir direitinho a algum destino, aqui ficam os links para o ponto do vídeo (directamente no youtube):

00:00  – Introdução
01:09 – Calçada dos Gigantes, Irlanda do Norte
02:10 – Alhambra, Espanha
03:27 – Baía de Ha Long, Vietname
04:37 – Capadócia, Turquia
05:48 – Mont-Saint-Michel, França
06:54 – Chichen Itza, México
08:02  – Parque Nacional do Serengeti, Tanzânia
09:13 – Machu Picchu, Peru
10:23 – Grande Muralha da China, China
11:29 – Petra, Jordânia
12:34 – Parque Nacional de Yellowstone, EUA
13:38  – Taj Mahal, Índia
14:40 – Templos de Quioto, Japão
15:48 – Cataratas do Iguaçu, Argentina/Brasil
16:54 – Angkor Wat, Cambodja
18:00  – Terraços de Arroz de Banaue, Filipinas
19:07 – Costa Amalfitana, Itália
20:36 – Ilhas Galápagos, Equador
22:01 – Grande Barreira de Coral, Austrália
23:13 – Veneza, Itália
24:14 – Meteora, Grécia
25:49 – Bagan, Myanmar
27:04 – Lagos de Plitvice, Croácia
28:35 – Ilha da Páscoa, Chile
29:38 – Santorini, Grécia
31:01 – Parque Nacional de Banff, Canadá
32:07  – Cidade Velha de Dubrovnik, Croácia
33:30  – Parque Nacional de Yosemite, EUA
35:02 – Pirâmides de Gizé, Egito
36:03 – Stonehenge, Inglaterra
37:07 – Great Smoky Mountains, EUA
38:14 – Mesquita Azul, Turquia
40:01 – Cataratas Vitória, Zâmbia/Zimbabwe
41:02 – Bora Bora, Polinésia Francesa
44:18 – Louvre e Paris Histórica, França
45:55 – Floresta Amazónica, África do Sul América
47:39 – Alpes Suíços, Suíça
53:34 – Antártida
55:40 – Aurora Boreal (Luzes do Norte)
57:13  – Pamukkale, Turquia
01:00:07 Considerações Finais

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Desejo-vos um belo dia

domingo, março 08, 2026

E, agora, uma boa notícia...

 

O dia teve uma componente muito boa, com a família reunida. Os meninos estão naquela fase meio volátil da adolescência e pré adolescência em que, tirando o mais novo, já todos entraram na altura da vida em que já estão a deixar para trás a pele da infância mas em que ainda não ganharam a segurança e independência da vida adulta, e em que todo aquele bulício e confusão de antes está a dar lugar a grupos de interesses distintos ou a que uns se isolem para falar com os seus amigos. Já lá estivemos, sabemos como é. O tempo vai passando e a vida tem que saber ir apanhando o comboio das idades que vão mudando.

Mas o dia, já à noite, teve uma componente desagradável, factores externos que, independentemente da nossa vontade, vieram-nos bater-nos à porta. Já tentámos enxutá-los e só espero que fiquem definitivamente bem longe de nós. A vida também tem destas coisas, sobressaltos, inconveniências. E nós, que tanto gostamos de paz e descanso, que não causamos problemas a ninguém, temos que estar preparados para saber reagir a contratempos que, sem se saber bem como, parece que querem bater-nos à porta. Mas, enfim, a vida nem sempre se apresenta com a suavidade angélica do céu na terra - isto admitindo que o céu é o lugar de paz que se imagina e não o espaço que, por vezes, é atravessado por bombas, mísseis e drones.

Portanto, adiante.

Entretanto, na tentativa de reencontrar a paz de espírito, vim espreitar o youtube. Notícias, não. Não quero ver mais ataques, ouvir sirenes, ver nuvens de fumo, prédios destruídos, gente sem casa ou em fuga. Tudo terrível de mais. Não é bom alhearmo-nos pois o sofrimento ou as injustiças alheias devem merecer-nos atenção, respeito e preocupação. Mas é tanta coisa má, tanta, por todo o lado, a toda a hora, que chego a um ponto e penso: chega, já não consigo mais. 

E, como se soubesse que eu estava a precisar de coisas fofas, eis que o algoritmo me presenteia com o vídeo que aqui partilho.

A história é simples. Um dia, num hospital, a anestesista foi ao encontro da criança que ia ser operada ao coração. Para sua surpresa, a criança, pequena, estava sozinha. Era um menino que estava institucionalizado e, por qualquer motivo, nenhum adulto o tinha acompanhado. Enquanto olhava o menino que estava a ser operado, foi-se formando uma ideia na cabeça da médica. Mal acabou, ligou ao marido. Apesar de já terem 6 filhos, resolveram adoptar o menino. Só que o menino tinha irmãos, cinco... Então convenceu familiares e amigos e vizinhos e cada um adoptou um dos irmãos. Agora todos convivem e, na verdade, é tudo de uma ternura tocante. A bondade por vezes encontra o seu espaço, abre caminhos, transforma vidas.

Médico adota menino que chegou sozinho à clínica e depois arranja lares para os 5 irmãos

Quando um rapazinho apareceu sozinho para um procedimento importante no Nebraska, uma anestesiologista interveio. Como relata Steve Hartman, ela não se ficou por aqui


Desejo-vos um feliz dia de domingo

domingo, janeiro 25, 2026

Dá-lhe um nome. E isso viverá para sempre

 

Começo a perceber que se calhar a matriz da minha natureza se ajusta bem à cultura japonesa. 

O meu avô paterno tinha ares orientais e, à medida que foi envelhecendo, mais oriental foi parecendo. E era uma pessoa admiravelmente serena. Nunca o vi alterado. A minha avó era o oposto dele, uma pessoa geralmente ansiosa, preocupava-se com tudo, aborrecia-se facilmente, implicava com alguma frequência com ele. Ele encarava a maneira de ser dela com uma absoluta tranquilidade. 

Embora trabalhasse numa empresa, os seus momentos livres eram passados ou na sua horta ou à pesca. A minha avó aborrecia-se com ele porque trazia terra nos sapatos ou porque trazia muito peixe para ela amanhar. Ele não se importava. Acho que até sorria. Se estava em casa, sentava-se a ler. Sempre calmo. Eu adorava-o. Quando estava em casa desses meus avós, era atrás dele que eu gostava de andar. E ele gostava da minha curiosidade, das minhas perguntas. Chamava-me a atenção para as florezinhas dos morangueiros, depois para o olhinho vermelho que despontava, depois o frutinho já formado. E, quando estava madurinho, apanhava-os, passava-os por água e dava-mo. Ao longo de dias eu observava o devir da natureza.

O meu tio, irmão do meu pai, herdou esses traços orientais. O meu pai sempre foi mais parecido com a mãe. E eu, segundo dizem, fisicamente, tenho muito do meu pai. Portanto, enquanto a minha prima também tem alguns traços orientais, eu nada. Mas, se calhar, na minha apetência para a contemplação das nuances da beleza que se podem encontrar na natureza haja um pouco dessa veia.

Ainda ontem, a meio da tarde, parecia que havia uma aberta, fomos caminhar para uma zona de arvoredo que há não muito longe daqui. O meu marido foi contrariado, olhava o céu carregado e sentia o vento a acelerar e dizia que não estava tempo para nos metermos no meio do arvoredo. Mas eu queria ver as poças de água, gosto de ver as árvores reflectidas na água, e gosto de ver a água tingida pelas cores ocre da terra. Lá fomos. Afinal havia mais que poças, havia quase um lago. Lindo. Umas cores transcendentalmente lindas, variadas, uns reflexos maravilhosos. Tentei fotografar, filmar. Só que desatou a chover com uma força enorme e o vento e a chuva faziam um rugido um bocado assustador. Claro que nos viemos logo embora, até porque havia muitos bocados de árvores caídas e porque o nosso cão estava um pinto, assustado com o trovejar. 

Mas vim maravilhada, uma daquelas sensações em que nos sentimos transportados para espaços de beleza, em que nos sentimos imersos num mundo limpo, despoluído, absolutamente natural, benéfico, puro, imaculado.

Se digo estas coisas, o meu marido diz: 'És maluca. Debaixo de um temporal e, em vez de te despachares, ainda queres parar para tirar fotografias.'. Reconheço o ponto de vista dele mas não consigo de deixar de pensar que todos os dias as coisas são diferentes, os verdes nunca são os mesmos, os reflexos nunca são iguais, e que quero testemunhar isso, quero captar isso.

Mais de 16 milhões de cores, aprendi hoje. Imagine-se. Na prática, uma infinidade. 

O vídeo que aqui partilho (legendado) é mais um daqueles que me encantam do princípio ao fim. O nome dos momentos, o nome das cores, a forma como mudam de umas para outras, o efeito que tem um tecido transparente arejando sobre outra superfície. Tudo isso me parece transcendente de tão simples e perfeito e efémero que é.

Mesmo que pensem que 'não são destas coisas' -- e que o vosso pensamento esteja mais virado para as preocupações da actualidade, como as fantochadas do Ventura ou como a situação cada vez mais complexa nos Estados Unidos, a violência a alastrar nas ruas, a revolta e o desespero de muitos que os leva a enfrentar as perigosas milícias do ICE, ou com os receios de que comece a desenhar-se uma nova crise financeira com a retaliação de alguns países face à estupidez e à prepotência desbragada de Trump que está a traduzir-se na venda de títulos de dívida americana ou de fundos ou, até, a quererem a devolução do ouro --, mesmo assim sugiro que tentem ver o vídeo. Acho-o não apenas muito belo como nos mostra como o mundo pode ser tão mais rico se estivermos despertos e disponíveis para aprofundar e diversificar a visão das coisas. 

A filosofia japonesa da cor e da imperfeição

Em português, o céu ao amanhecer pode ser simplesmente chamado de "azul" que se transforma em "laranja". No Japão, esta transição fugaz tem inúmeros nomes.

Porque é que o Japão deu mais de mil nomes às cores do silêncio? Neste vídeo, exploramos a profunda filosofia por detrás das cores tradicionais japonesas. Da estética proibida do período Edo ao antigo "algoritmo" de sobreposição de seda, descubra como o Japão não criou apenas cores — captou momentos antes de desaparecerem.

Aprofundamos em:

As Coordenadas da Memória: Porque é que nomes como "Moegi" (Amarelo Broto) funcionam como cápsulas do tempo.

48 Sombras de Castanho e 100 Sombras de Grey: A história da rebelião contra as proibições de luxo no século XVII.

Kasane (Sobreposição): O sistema ótico de mistura de luz, muito antes do design digital.

A Beleza do Desbotamento: Porque é que o Índigo (Azul Japão) se torna mais valioso com o tempo.

"Dá-lhe um nome. E ele viverá para sempre."


Desejo-vos um belo dia de domingo

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Croniqueta de um domingo normal, bom

 

No exterior somos muito apologistas de iluminação solar mas andávamos com dificuldade em acertar: ou não davam a luz suficiente ou estragavam-se à primeira oportunidade. Até que vimos uns projectores na Amazon que nos pareceram promissores. E comprovou-se: até ver, acendem mesmo quando o dia está miseravelmente sombrio, detectam sempre o movimento e iluminam a longa distância. 

Por isso, resolvemos adquirir mais. Isto apesar de, por dentro, sentir sempre uma ferroada: estupor do Bezos. E depois há isto, o meu lado de auto-desculpabilização: penso que não é por eu ceder uma vez, de vez em quando, que estou a contribuir para a felicidade do estupor. Por isso, perdida por cem, perdida por mil, encomendámos também um candeeiro para dentro de casa. O meu marido andava a protestar com a luz fraca na zona em que habitualmente fazemos as refeições. No tecto, mantivemos o plafond dos anteriores proprietários. É um candeeiro de cristal que já era dos pais da senhora. Ela não quis desmontá-lo pois temeu que se desmanchasse todo. Como o acho bonito e reconheço o seu valor, deixei-o ficar. Mas não ilumina muito. Para compensar, temos um candeeiro de pé alto que dá uma luz quente, acolhedora. Mas, reconheço, não ajuda extraordinariamente, em termos de intensidade luminosa. Então, pôs-se ele a tentar descobrir um que lhe parecesse adequado. E descobriu. Este que encomendámos hoje. A ver se não desilude. Depois logo digo. Ou mostro.

Para o almoço não sabíamos o que haveria de ser. Como íamos jantar fora, estávamos com preguiça em puxar pela cabeça. Então, lembrei-me de fazer uma coisa adequada à preguiça que sentia. Cozi uma batata doce daquelas cor de laranja, uma batata normal, duas cenouras pequenas, um punhado de feijões verdes e dois ovos. E, numa frigideira, caramelizei duas cebolas roxas (às rodelas finas, claro). Depois juntei-as ao conduto. Comemo-lo com sardinhas de lata. E podem crer que nos soube bem, e olhem que não estou aqui para enganar ninguém.

Saímos de casa relativamente cedo pois o meu filho, que marcou o restaurante, disse que, se não fossemos cedo, aquilo ficaria muito cheio. Mas às sete e picos já estava cheio. E, quando saímos, por volta das nove, ainda mais cheio estava. Quando chegámos já lá estavam eles e já tinham uma sugestão de pedido. Tudo para partilhar. Quando ouvi a lista pareceu-me comida para um exército. O meu marido nestas coisas acha sempre que não é demais, pensa sempre que aquele pessoal, em especial o pessoal miúdo, é de muito alimento. De resto, o pessoal miúdo também já não é tão miúdo assim. E tinha razão pois, afinal, foi tudo, não sobrou nada. As travessas chegam e quase instantaneamente ficam vazias. E eu própria comi demais. A comida era gulosa e com estas coisas de picar, petiscar, provar e tal e coisa uma pessoa parece que perde um bocado a noção dos limites. Ainda por cima tenho sempre bom apetite. Mas parece que já estou um bocado desabituada de comer muito ao jantar. Agora estou a beber um chá a ver se a digestão se faz mais facilmente pois sinto que comi demais. Quem me manda a mim ser tão lambona, caraças? Amanhã ponho-me a pão e água a ver se compenso o exagero de hoje, que não quero retroceder na forma. Hoje vesti um casaco cintado, de veludo bordeaux, de que gostava muito, mas que já tinha ficado arrumado, a modos que arquivado, no roupeiro das boas memórias. Sem grandes esperanças, antes de sair, lembrei-me de o experimentar -- e até quase me comovi quando constatei que já cabia outra vez nele e que até conseguia abotoá-lo todo, todinho. Portanto, com muita disciplina e muito sentido de abnegação, haverei de manter-me bem comportadinha, afastada dos quilinhos a mais, retomando as minhas roupinhas pré menopausa (que eu, cá para mim, o aumento de dimensões aconteceu nessa altura).

E é isto. Nada mais de declarar.

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Desejo-vos uma boa semana

Saúde, harmonia, paz e alegria

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Abrir as hostilidades lendo as mentes

 

Neste momento já não é o primeiro dia do ano e, portanto, escuso de fazer um post muito alinhado. Pensei fazer um post sobre a natureza, sobre uma extraordinária borboleta, ou sobre o que ler faz ao cérebro, e claro que só faz bem, ou sobre acontecimentos marcantes ou sobre os avisos, que se sucedem, sobre os riscos da Inteligência Artificial.

Mas o meu dia foi muito bom, mas com a primeira metade um pouco cansativa. Nestes dias, ponho o despertador para me levantar cedo e, de imediato, entro em erupção criativa a nível culinário. Só me apetece fazer coisas, um buffet completo. O meu marido entra em stress, diz que é um disparate, que eu deveria simplificar. E pergunta-me o que vou fazer. Digo que só sei quando fizer. Ele pensa que estou a desconversar mas não é. é mesmo. Faço sem antes ter pensado no que ia fazer. Pergunta-me: 'Mas nunca fizeste isso. Leste em algum sítio?'. Não. É tudo, ou quase tudo, na base do improviso. E tudo na base de muitas etapas preparativas. Tudo feito com grande prazer. Mas, como é para muita gente, a coisa complica-se. Por exemplo, fiz um lombos de salmão em papelotes com puré de batata e ovo e espinafres salteados, o peixe pincelado com uma emulsão de mostarda, sumo de lima e sal. Várias etapas: cozer as batatas (normais e doces) e os ovos, saltear os espinafres, fazer o molho, e depois dispor tudo nas folhas de papel vegetal. Muitas. A bancada de um dos lados ficou toda ocupada, até com papelotes sobrepostos. Depois tudo para o forno. Mas isto foi uma das coisas. Uma de muitas. Até fiz uma pizza. Tudo. E foi bem apreciada. Acho que nem a provei. Fiquei foi com vontade de fazer mais. Pode ser que depois conte. Hoje não.

A tarde foi tranquila, boa. Uns jogam, outros veem televisão, tudo tranquilo e animado, um ou outro com uma pancada de sono tal o reveillon, mas, enfim, a alegria do costume. 

Mas o que eu quero dizer é que hoje não estou numa de falar nem de coisas sérias, nem de coisas fofas nem de assuntos que merecem respeito. Estou é capaz de ir dormir.

Por isso, vou abreviar e vou antes partilhar um vídeo com aquele fulano que parece ter dons extraordinários. Supostamente não são dons, são habilidades. Mas é uma coisa que parece do outro do mundo de tal forma é do caraças. 

Fico super curiosa, gostava de perceber como é que uma coisa destas é possível. E, pelo que se vê, deixa estupefactas pessoas habituadas a ver e ouvir de tudo, como é o caso, por exemplo de Anderson Cooper. E é com isto, com estas cenas mentalistas, que, aqui no blog, abro as hostilidades em 2026.

O mentalista Oz Pearlman impressiona Andy e Anderson | CNN Véspera de Ano Novo 2026

"O quê?! Como isso é possível?" O mentalista Oz Pearlman aparentemente lê as mentes de Anderson e Andy ao vivo na Times Square na véspera de Ano Novo.


Desejo-vos, de novo, um bom 2026

E um dia feliz, este de hoje e todos os que se seguirem

sábado, dezembro 27, 2025

Ementa do almoço de Natal com fotografias, não da comida mas de quem a comeu

 

Ora bem, então vamos lá. Almoço de Natal com todos. Momentos de felicidade em família.

 

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Camembert derretido

Coloquei uma massa folhada redonda sobre a folha de papel vegetal em que vinha. Barrei grosseiramente com marmelada. Era o doce que tinha em casa, mas podia ser uma qualquer compota. Por cima, a meio, coloquei o camembert inteiro. Por cima, coloquei outra peça dessa folhada. Aconcheguei o queijo com a massa da cobertura. Depois, com a faca fiz golpes desde o rebordo até ao queijo, como se quisesse fazer uma franja com tirinhas de cerca de 2 cm de largura. Bati a gema de 2 ovos e pincelei toda a superfície. Salpiquei de sementes de sésamo. Tinha a ideia de fazer uma gracinha que tinha visto no Instagram que consistia em colocar um mirtilo no interior da ponta de cada franja mas, quando fui buscá-los ao frigorífico, vi que afinal eram amoras. Para o efeito não era bem a mesma coisa mas, ainda assim, usei-as. Portanto, descolei a ponta de algumas franjas e coloquei uma amora. Voltei a fechar. Depois, torci cada franja. Voltei a pincelar com ovo e a colocar mais sementes. Forno pré aquecido. Fica lá, dobre o papel vegetal, numa grelha do forno, a cerca de 170° durante uns 40 minutos. Quando está na mesa, com uma faquinha retira-se a cobertura (que se come, bem entendido). E abre-se o queijo em cima. Arranca-se cada torcidinha que se mergulha no queijo derretido.

Tiropita XXL de salmão 

Sobre o papel vegetal, coloquei uma massa folhada rectangular. Barrei com uma embalagem inteira de queijo Philadelphia de ervas. Por cima, cobri com quartos de maçã lamelada (lamelada grosseiramente e pouco fina). Usei 2 maçãs. Por cima, dispus fatias de salmão fumado (200 gr). Por cima, piquei cebolinho. E tapei com uma segunda folha de massa folhada. Uni as pontas da base e do topo a toda a volta. Pincelei com gema de ovo e salpiquei com orégãos e com sementes de sésamo. E forno com ela. Também à volta de uns 40 minutos. Nota: a maçã derrete, apenas dá um certo toque de acidez e ténue doçura.


Peixe

Prato de bacalhau, porque a tradição ainda é o que é. Ravolis com bacalhau.

Num tacho com água abundante, escaldei duas grandes postas de bom bacalhau.

Separei o bacalhau, para depois tirar pele e espinhas.

No caldo do bacalhau, cozi ravolis recheados com ricotta e espinafres. 

Entretanto, num outro tacho, refoguei duas cebolas, duas cenouras picadas, quatro ou cinco grandes dentes de alho. Ficou ali a refogar, juntando, de vez em quando, caldo de cozer bacalhau e, posteriormente, as massas. Quando as cenouras estavam cozinhadas, juntei um frasco de grão cozido, incluindo o respectivo caldo. Deixei cozinhar um pouco. Depois desliguei. 

Juntei três ovos previamente cozidos. Depois, triturei muito bem até ficar um creme caldoso e macio. Com um ramo de hortelã, agitei esse creme para assimilar o seu perfume. 

Num tabuleiro grande despejei o caldo de grão e ovo. Depois juntei os raviolis e, por cima, o bacalhau desfiado.

Carne

Arroz de forno com borrego desfiado por cima

De véspera, coloquei uma perna e uma mão de borrego em vinho branco, pimentão doce, sal, orégãos, alecrim, salsa, louro, cebolas e alho, e banha. Esfreguei bem a carne neste pré-tempero. Marinou enquanto pôde.

Passadas umas horas, coloquei tudo num panelão para dar uma boa entaladela na carne. Amaciou como devia ser. Depois passei-o para o forno. Lá ficou a assar, até a carne se despegar dos ossos e ficar com ar de se ir desfazer na boca. 

Depois, separei o molho da carne. Mais tarde desossei.

Depois fiz o arroz

Fiz assim: num panelão, refoguei em azeite com um pouco de banha, duas cebolas grandes, uns quantos dentes de alho, louro, salsa. Depois, juntei dois bons nacos de bom bacon, pouco gordo, bem fumado, um bom paio inteiro (ao qual tirei a pele) cortado aos bocados, meio chouriço de carne de boa qualidade, picado. Deixei cozinhar. Juntei o arroz e deixei que absorvesse os sabores. Cheirava bem na cozinha que nem vos digo... 

Depois juntei um pouco de vinho branco e mexi-o bem para evaporar um bocado. Como fiz 3 copos de arroz basmati, precisava de 6 copos de caldo. Usei o caldo da canja e o molho que sobrou de assar o borrego diluído em água. Não tenho referido mas, obviamente, vou sempre rectificando o tempero, nomeadamente o sal. Quando vi que estava quase no ponto, verti para um grande tabuleiro. Foi arroz a mais, não coube todo.  Cobri com o borrego desossado. Foi ao forno para terminar.

Pie ou lá o que for

Na véspera, porque precisava do caldo de galinha para o arroz, fiz canja de galinha. Água abundante, 2 cebolas grandes, 2 cenouras grandes e carne e miúdos de galinha. Depois separei o caldo e desossei os bocados da galinha 

Também tinha estufado os miúdos do borrego em vinho branco. Separei um pouco.

Misturei os bocados da galinha e dos miúdos, as cebolas e as cenouras e dei uma trituradela básica, pouco apurada. Depois juntei as claras que sobraram ao ter separado as gemas para pincelar as cenas acima referidas, salsa picada e o sumo de uma lima (limão também estaria bem). Ao lume, liguei tudo bem. Depois deixei arrefecer um pouco.

Numa tarteira de silicone, coloquei uma peça de massa quebrada, usando o papel vegetal para depois ser mais fácil desenformar. Piquei a massa com um garfo. Despejei, então o recheio, já só apenas morno. Cobri com outra folha de massa quebrada e uni a massa de cima e a de baixo. Cortei um pouco a de cima, porque sobrava. Pincelei com ovo. E forno com ela. E lá ficou até parecer bem. Talvez também uns 40 minutos, mas não garanto.

Acompanhamento 

Tomate cherry

Num tabuleiro coloco azeite, alho picado, alecrim e orégãos. Junto os tomatinhos (lavados, claro). Misturo tudo. Vai ao forno até que fiquem assadinhos, sumarentos.

Salada 

Junto alface com bolinhas de mozzarella. Tempero com azeite e sumo de limão.

Sobremesas

A minha nora trouxe farófias que fez, óptimas. Trouxe também rabanadas que fez com a mãe, e tarte de amêndoa. A minha filha fez bolo com cobertura de chocolate. Tudo bom demais.

Claro que tinha também fruta - laranja e dióspiros, às rodelas, e uvas pretas, brancas e rosé.

Vinho

O meu marido abriu um rosé. Andamos numa de rosé. Perfumado, leve, fresco. Mesmo bom. Não sei qual mas tenho ideia que o escolheu com cuidado.