Sob a superfície dos dias procuro o que não se vê, o oculto sob as águas verdes do lago, o obscuro entre a folhagem, as palavras não ditas, as que ainda não encontraram a expressão à luz do dia. Tacteio emoções, afloro aproximações. Receio e recuo.
Espreito as sombras, tento adivinhar os pensamentos ainda em esboço, procuro a luz nos espaços entre as ideias que ainda não se formaram, colo frases às imagens, a voz aos sonhos.
Passo o olhar pelas árvores que ondulam na rua, passo o olhar em distantes fotografias, passo as mãos nas páginas nuas de livros que me trazem novas toadas, desconhecimentos, intimidades longínquas, experimentações.
Fecho os olhos, ouço a música, releio em pensamento palavras novas.
Depois olho outros livros que me falam da imensidão do infinito, de espaços sem fronteiras, quase esferas, paradoxos, equações impossíveis, espirais à solta num espaço vazio.
E penso outra vez: a elegância da ciência, a estética das descobertas.
O prazer de cruzar fronteiras.
O prazer de querer e não querer atravessá-las, o prazer dos primeiros passos.
Outro livro: 'a minha vida' de Isadora Duncan. Cruza-se a inquietação e a paixão de uma mulher livre com os espaços infinitos, os números primos, os irracionais e os imaginários, as redes complexas, os poemas novos.
Não sei se há um denominador comum nos meus gestos, nas minhas divagações, nas minhas palavras, na forma como desenho interrogações para as quais não procuro resposta. Talvez apenas estenda linhas paralelas no espaço, talvez espere que alguém agarre na outra ponta e estabeleça um alfabeto comum. Há paralelas que se tocam -- leio-o e acredito. Novas geometrias, marés, voos, camadas de sonho, fractais de uma abstração simétrica, perfeita.
Detenho-me em silêncio. Vocês aí tão longe.
Conjecturas, dualidades, palavras estranhas para quem não procura senão a simplicidade do perfume de uma flor.
Fecho os olhos. Penso. Peço.
Conta-me do percurso do perfume da rosa dentro de mim, conta-me se são também paralelas as estradas que as palavras percorrem quando falam de perfumes e se são convergentes os olhares que se desconhecem. Conta-me os teus sonhos, fala-me de mundos transcendentais, de loucuras de uma pureza sem igual, de teorias de uma elegância nunca imaginada, fala-me de céus muito azuis, de águas muito límpidas, fala-me das tuas mãos.
Falo como se falasse para alguém que segurasse as pontas das linhas que lanço no espaço mas não sei se esse alguém existe. Talvez exista um ser igualmente estranho. Intangível como eu.
E, entretanto, enquanto aqui estou à espera de um sinal, fala-me, Daniel Jonas, de uma certa Casa Despida. Eu ouço.
Uma vez mais a casa despida. Lentas fotografias, moles molduras, álbuns blindados, o pó de tudo, o silêncio prevalecente da despedida. Uma casa mais eu deixo. Por vezes parece que sou eu quem fica e ela que me deixa.
E tu, Eugénia de Vasconcellos, responde-lhe que não é possível Tanta luz. Eu ouço-te e o Daniel também. Fala, que te queremos ouvir. Fala enquanto danças ao sol procurando onde guardar tanta saudade.
Na hora mais madura do sol,
tanta luz, e na curva da duna
nem uma nesga de sombra
onde guardar a saudade:
o tempo passou.
E olha, bela Eugénia, diz como acaba esse Não faz meu coração fronteira com o teu?
Diz que estamos aqui para te ouvir.
O sol declina
e o esplendor não veio a derramar doçura.
Este dia e as horas deste dia são
um número a menos dos que me cabem contar.
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Tamara Rojo dances the first two waltzes of Frederick Ashton's one-act ballet Five Brahms Waltzes in the Manner of Isadora Duncan, 2004.
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Os poemas de Eugénia de Vasconcellos e a primeira parte do título desta mensagem pertencem ao livro 'o quotidiano a secar em verso' da Guerra e Paz. O poema de Daniel Jonas e a segunda parte do título da mensagem pertencem ao livro 'Bisonte' da Assírio e Alvim.
Lá em cima Avishai Cohen Quartet interpreta Into the Silence - Live @ Blue Note Milano (com os meus agradecimentos ao Leitor que tão generosamente mo deu a conhecer)
As fotografias mostram Isadora Duncan.
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E caso tenham estômago para o absurdo e deslocado Passos Coelho que, no meu texto, se faz acompanhar por uns despudorados anjinhos papudos, queiram, por favor, descer até aqui abaixo antes que alguém o mande pôr-se ao fresco.
Antes que comece o tempo das contagens no final desta amorfa campanha eleitoral, e antes de me ir estender a ler e, quiçá deixar que o sono chegue e me tome nos seus doces braços, venho aqui para vos dizer que não sei como é aí, onde me estão a ler, mas, por aqui, esteve uma temperatura amena, o céu quase limpo e as poucas nuvens apenas serviram de véu, como que querendo atenuar o excesso de luz.
Parece que se adivinha a primavera. A beira do rio tinha muita gente, o parque agora de tarde também. Parece que as pessoas, sentindo o cheiro a bom tempo, procuram o sol.
Ontem, quando cheguei a casa da minha mãe, não apenas as persianas estavam todas levantadas como alguns vidros também abertos. Disse-me que era para deixar entrar o bom tempo. Também eu, aqui em casa, abro as janelas, ponho-me à janela a ver as cores limpas e suaves deste dia luminoso.
Antes, andei rente ao rio, fotografando. As pessoas recortam-se contra um pano de boca de cena sem igual: do outro lado, sobre um chão azul, Lisboa, a bela. Não resisto e capto as suas imagens, actores perfeitos num tableau ímpar, magnífico.
Fotografo as pessoas, a paisagem, e o meu coração expande-se de ternura pela visão de beleza que me proporcionam. Parece-me quase impossível tanta harmonia, tanta tranquilidade.
Ocorrem-me muitas vezes pensamentos terríveis: os que tentam alcançar um mundo em paz e se afogam, não chegando a ver de perto como é também difícil o seu sonho (mas que, sendo difícil, oferece a serenidade que um céu não atravessado por disparos e morte sempre tem para oferecer). Por aqui, em paz e liberdade, os namorados podem brincar, os pais podem passear com os filhos, os donos passear com os seus cães e eu posso deliciar-me, sempre e sempre, contemplando este cenário maravilhoso.
Nos dias de vendaval e invernia os pescadores escasseiam: o fraco pescado não compensa as inclemências do frio e da chuva. Mas, mal o sol desponta, logo os cais se enchem de pessoas pacientes ou necessitadas que, por ali, tentam que um peixe pique o engodo. Não precisam de patranhas, de pentear cabeleireiras, de andar de feira em feira, de dizer balelas e distribuir beijinhos a granel: basta que fiquem imóveis que algum (peixe) palerma há-de morder o anzol.
É um mundo maioritariamente masculino, este dos pacientes. (Pacientes no sentido de terem paciência e não de estarem doentes). Mas há também mulheres pacientes. Gosto de ver as pescadoras. Um dia hei-de ir conversar com uma delas. Não sei se, para elas, haverá o lado lúdico que vejo nos homens ou se há apenas persistência.
Sabe muito bem estar à beira de água, ouvir o som das águas, sentir o calor do sol ameno, ouvir o voo livre das gaivotas, o deslizar dos barcos. Também eu tenho sempre vontade de me deitar ao sol, sentir o prazer de existir junto a um lugar de tanta beleza. Nem sempre o consigo mas é uma sensação de felicidade mesmo boa. Mesmo apenas passar e ver quem sabe descansar o corpo ao sol, já me sabe bem.
Outras vezes, penso que haveria eu de pegar num livro e sentar-me ali, em sossego e pôr-me a ler, com vagar. Mas não me dá para ler livros em lugares assim. Acho que qualquer veleiro que passasse me haveria de distrair, haveria de me dar vontade de voar e ir pousar nele. Tenho como que uma urgência em não deixar de ver aquilo que considero bonito e fugaz: um barco que passa, uma gaivota que dança nos céus, um traço de luz que ilumina uma rua ou o rio, uns cabelos esvoaçando, uma ponte quase invisível ao fundo.
E depois há os gatos. Estão gordos. Uma senhora, vá lá perceber-se porquê, em vez de os deixar andar na vadiagem, comendo peixes que tenham dado à costa ou que tenham sido desprezado pelos pescadores ou rapinando o que lhes apetecer, parece ter feito de razão de viver a engorda dos gatos. Leva-lhes comida enlatada e esparguete. Chama pelos gatos pelo nome: a Milu, a Estrela, a Maria, sei lá. Em tom de reprimenda, chama-lhes a atenção caso não respondam logo à chamada. Até às gaivotas já eu a vi a deixar esparguete cozido com qualquer coisa. Um dia eu estava a fotografar uma gaivota que vinha pousar e ela disse-me, à laia de ralhete: 'assim ela não vem comer'. Fiquei estupefacta.
Não sei se não se devia proibir isto. Os gatos estão a ficar obesos, já andam ronceiramente, pesados. Antes via-os esgueirando-se paredes acima, alcançando num ápice os telhados, saltando de pedra em pedra à beira de água. Agora não, agora deitam-se ao sol, arrastam-se entediados.
Tenho sempre vontade de dizer à senhora que não devia fazer isto. Mas não tenho coragem. Ela vem carregada com caixas, sacos, tem uma mala grande com rodas, por ali vem, chamando por eles, orgulhosa da sua boa acção.
No outro dia, quando me viu a fotografar um gato, disse-me com ar vaidoso: 'Têm uma página no facebook'. Eu talvez tenha dito 'Ai é?' porque não me ocorreu dizer mais nada pois o que tinha vontade de dizer era que só faltava mesmo mais essa.
Mas, enfim, fazer o quê? Se eu dissesse alguma coisa a senhora talvez me achasse insensível por não compreender a sua obra caridosa. Chova ou faça sol, lá vai ela naquela sua missão.
Seja como for, os gatos apesar de anafados, são lindos. Têm um ar inteligente. Gosto de os olhar, gosto de ver como me olham com indiferença. Não sei o que pensam eles da sua benfeitora ou o que pensam de mim que por ali ando, sempre encantada com eles. Talvez não pensem nada, talvez nos achem seres inferiores e, na volta, se calhar até têm razão. Não estou a ver os gatos a irem votar para escolher alguém em que, verdadeiramente, não se revêem. Enfim.
...
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
['Os gatos', Manuel António Pina]
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A quem chegou só agora aqui e ainda não viu a Little Blue Girl, Pearl de seu nickname, sugiro que desçam até ao post já aqui abaixo.
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No post abaixo falei do Ébola e da forma - que parece óbvia - como este terrível vírus deve ser travado. Hans Rosling (outra vez ele), com os seus gráficos, é claro quanto a isto.
Mas isso é a seguir. Aqui, agora, quero falar de um tema que já é de há uma semana ou mais e do qual não falei porque o meu tempo é escasso e os temas sobre os quais me apetece falar nem sempre são os que flutuam sobre a espuma dos dias.
Leitor atento (e atencioso) a quem muito agradeço enviou-me um texto publicado num blogue de que eu nunca tinha ouvido falar.
[Há milhares de blogues! Não sei como se consegue ter uma ideia de quantos, quais, de que é que vale a pena. Provavelmente não se consegue mesmo, vão-se descobrindo pouco a pouco. Volta e meia vou parar a alguns que pouco mais têm do que passarinhos e gatinhos e florzinhas e ideiazinhas de perlimpimpim - e fico espantada. Penso cá para mim: Mas porque é que alguém se dá ao trabalho de fazer uma coisa assim? Mas não deveria pensar. A blogosfera é uma porta aberta para um mundo infinito e toda a gente é livre de dizer o que lhe vai na alma; e um passarinho a ter pensamentos floridos pode dizer mais a algumas pessoas do que um texto chato e comprido sobre o salário mínimo como o que me palpita que vou escrever.]
Adiante.
O artigo que me foi enviado chama-se A direita punitiva desconhece o fundamento do salário mínimo nacional, é da autoria de Isabel Moreira e o blogue o Aspirina B.
É um tema que me é caro, o da mão de obra barata. (Dito assim até parece um trocadilho a la Teresa Guilherme mas não é um trocadilho, é a verdade)
Song for my brother
Avishai Cohen with strings
No âmbito do programa de formação anual que tínhamos na empresa, participei durante uns anos num Jogo de Gestão que creio ser patrocinado, na altura, pela Cegoc e por mais umas quantas empresas. Mais tarde fiz o Jogo de Gestão da Católica que era parecido, senão igual, ao anterior.
O princípio é sempre o mesmo. Cada equipa é como se fosse uma empresa e as equipas devem ser constituídas por elementos que tenham as valências de gestão que existem nas empresas. Na minha equipa tinha vários colegas meus.
O jogo consiste em tomar decisões a vários níveis sobre a gestão da empresa, sendo que nos é dado que estamos a actuar no mercado de um certo produto (automóveis, por exemplo) e relativamente ao qual nos é fornecido material de base como estudos de mercado, estudos estatísticos relativos à população, etc. Temos, no decurso de cada jogada, que decidir que produtos vender (gama alta, média, baixa, por exemplo), que quantidades se admite que se venda de cada produto, quanto se gasta em publicidade, quantos vendedores se quer ter, quanto se paga ao pessoal, se vamos gastar dinheiro em formação ou não, se vamos formar turnos ou reduzir pessoal, investir ou não investir, com capitais próprios ou financiamento bancário, etc, etc. Ao fazermos isso, vamos obtendo como que uma antecipação de resultados, aquilo que nas empresas designamos por um forecast.
Depois de todas as equipas em jogo (que, portanto, é como se fossem empresas a actuar no mesmo ramo de negócio) fazerem as suas jogadas, o computador simula as consequências e a seguir recebemos os resultados.
Quando recebemos os resultados vemos se conseguimos se ficámos atascados em stock, ou se, pelo contrário, vendemos tudo e entrámos em ruptura (nesse caso, os clientes vão à procura de alternativas e perdemos quota de mercado), se tivemos lucro, se os trabalhadores estão satisfeitos ou se fizeram greve (e nesse caso reduziram a produção), qual a percepção que o mercado tem de nós, etc. Tudo medido e sopesado, é feito um ranking das empresas e inicia-se nova jogada.
Escusado será dizer que gosto imenso destes jogos. Para além do objectivo do jogo em si, há a alegria de jogar, toda a gente opina, discute, quase anda à tareia, e conta anedotas, e eu, claro, farto-me de rir.
Um dos meus colegas é um somítico do caraças e portanto, quando jogava, só queria cortar nos custos (menos vendedores, menos pessoal, ordenados baixos, menos prémios de produtividade, menos formação); outro é um optimista enervante e vá de expandir à maluca, mais fábricas, mais escritórios de venda, campanhas na televisão como se não houvesse amanhã (e caras como elas são!); eu, por exemplo, tendo a preferir ter um produto gama alta, dinheiro para investigação, formação e marketing para cima, vendas em números reduzidos mas preço de venda alto.
Todas as estratégias são possíveis assim como a combinação delas. Claro que cada uma delas não é boa de per se pois tem que ser vista em perspectiva face ao posicionamento das outras empresas. Se eu apostar num produto tipo linha branca e as outras empresas também, ficará o mercado inundado de fancaria, a preço da uva mijona, sobrando stock que nunca mais acaba.
Ou seja, a melhor estratégia será a que vai crescendo, com inteligência e consistência, a partir das diversas interacções das empresas presentes no mercado.
Uma coisa é certa: raramente é bem sucedida uma empresa que aposte na indiferenciação, nos custos espremidos, na exploração da mão de obra barata. Para isso, haverá sempre concorrência com fartura e os trabalhadores só não mudam de empresa se não puderem, e têm baixos níveis de motivação e de produtividade. Quando íamos na cantiga do meu colega forreta, tínhamos sempre os trabalhadores à perna, greves e baixos níveis de produtividade e tínhamos sempre os nossos concorrentes com produtos mais apetecíveis e vendedores mais motivados.
Em contrapartida, com o meu colega mãos largas, ficávamos com produto excedente e um endividamento de três em pipa que nos impedia de ter dinheiro para as matérias primas ou pagar ao pessoal.
Estes jogos são réplicas da realidade.
Sei bem do que falo.
É bem sucedida uma empresa em que haja um bom equilíbrio entre todas as peças que contribuem para o resultado e para a sustentabilidade da empresa.
É essencial haver uma estratégia bem definida e flexibilidade para a ir adaptando, é essencial que todos saibam bem qual o seu papel e se sintam valorizados, é essencial que se entenda que uma empresa é um organismo vivo, em que a vontade e o saber das pessoas é o que mais conta.
Se o produto pode ser diferenciado, deverá sê-lo; se não, então é o serviço que deverá ser valorizado.
Empresas que apostam no sacrifício dos trabalhadores, nos trabalhos forçados, nos baixos salários e nas fracas condições, são empresas condenadas ao fracasso. Podem conseguir contratos, à peça, para outras marcas, mas são empresas a prazo, empresas que, faltando-lhes as encomendas dos clientes para quem trabalham a façon, se vêem obrigadas a fechar portas.
Admito que no pequeno comércio, em que a subsistência mal é garantida para o patrão quanto mais para os empregados, não haja como pagar mais do que o salário mínimo. Mas isso apenas deveria acontecer em situações quase marginais, de comércio de subsistência.
Sei também como é perversa esta coisa do outsoursing, dos call centers e de todos esses negócios terceiro-mundistas em que se exploram as pessoas até à última pinga de suor. As empresas, querendo aliviar os seus próprios custos, suprimem os seus postos de trabalho trocando-os por subcontratação. Claro que isso só é rentável para quem contrata se pagar menos do que o custo de ter pessoal próprio. Ora, atendendo a que a empresa contratada também tem a sua margem de lucro, isso só é possível se se pagar muito pouco a quem trabalha.
E há as enormes cadeias de supermercados em que, apesar de todos os bons rácios económicos, pagam miseravelmente às pessoas que estão nas caixas de supermercado. Poderia fazer algum sentido se pensasse que é uma forma de, por exemplo, os estudantes ajudarem ao pagamento dos seus estudos, um part time. Contudo, o conceito foi subvertido e o que acontece é termos lá gente formada que tem que se sujeitar a isso por não arranjar outro trabalho.
Ter parte da população a viver com um salário mínimo tão miserável não é apenas uma questão humanitária, ou, pelo menos, não é apenas uma questão directamente humanitária em relação aos abrangidos: é uma questão mais ampla. Quem recebe tão pouco, não paga impostos. Logo, outros terão que pagar por eles. Quem recebe tão pouco, pouco consome, logo o pequeno comércio local sairá lesado, quem recebe tão pouco, se puder emigra (e, logo, não paga cá impostos), quem recebe tão pouco, se estiver em idade de ter filhos, se calhar não os tem. Enfim, mil outros argumentos eu poderia aqui referir para evidenciar como um país não se desenvolve com parte da população a viver no limiar da pobreza e todos, mesmo os que mais ganham, pagam por isso.
Uma sociedade que vive assente em atitudes miserabilistas e com uma vistas curtas não é uma sociedade justa e feliz.
Um país que se deixou esventrar, acabando com a sua indústria a troco de patacos ou que, em vez de aproveitar os fundos europeus para se modernizar, os usou para os meter ao bolso, é um país de gente idiota.
Empresários de faz de conta, gestores de meia tigela, governantes ignorantes, uma elite política abandalhada. E uma comunicação social maioritariamente nas mãos de vendedores de produtos da loja de 1€ que esvaziam a cabeça do público de manhã à noite. Quando vejo a programação da televisão generalista, lixo e mais lixo, quando vejo os analfabetos que as televisões por cabo convidam para opinar sobre tudo e mais alguma coisa, quando vejo que fecha uma empresa aqui, outra ali, e toda a gente já acha normal, quando vejo a gentezinha fútil e de cabeça oca que pulula nas comissões de inquérito do parlamento ou que discursa como se soubesse alguma coisa da vida, tenho vontade de que alguém faça uma série de disparates que abane este miserável e estagnado status quo.
Não falo em violência física mas actos simbólicos que atrapalhem ou envergonhem os visados, como aqueles que também já caíram em desuso, de se cantar o Grândola ou o Acordai ou desatar a rir quando todos esses idiotas falam (ou coisas do género).
As elites são uma desgraça. Aos anos de negrume seguiram-se anos de euforia, aos anos de euforia seguiram-se anos de quebranto, a esses sucederam-se os de mediania, depois os de mediocridade. E abulia. E para aqui estamos, a cabeça entre as orelhas, mais espantalhos do que gente, aceitando tudo, tudo.
Simon O'Connor
Comecei a escrever isto a propósito do miserável aumento do salário mínimo de que um badameco falando em nome da Comissão Europeia (nos estertores de um cherne fora de prazo) disse ser umsinal errado - e de que os papagaios de serviço passivamente logo se fizeram eco.
Em vez de termos um primeiro-ministro e um presidente da república que mandassem esses palermas de Bruxelas meterem-se na vida deles e na da prima deles e que tivessem vergonha na cara pois não sabem o que é viver com 500 euros por mês - e que o dissessem com todas as letras e em linguagem muito pouco de salão - o que tivemos? Pois bem, uma vergonha: meio mundo a papaguear, a carpir ou a tirar partido do que umas nulidades pagas a peso de ouro resolveram bolsar.
Raios partam esta praga de inúteis que nos rodeia.
Bem podíamos era escrever por todo o lado Save the portuguese a ver se alguém nos acudia já que nós próprios parece que gostamos de ser os carneiros mal mortos deste filme de quinta categoria.
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Isto já para não falar nos sindicalistas ineficazes e igualmente inúteis que nos calharam na rifa.
E já também para não falar neste hábito de comadres que temos, cada um para seu lado, uns a fazerem, outros a desfazerem.
by Banksy
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Adiante.
Estive a tirar fotografias a livros novos que estão aqui a desafiar-me e tinha ideia de apresentá-los um a um, transcrevendo um bocadinho de cada; mas passa da uma e meia da manhã e eu não descansei o suficiente durante o fim de semana e ando cheia de sono. Por isso, por agora, fica apenas a fotografia geral.
A Crise
- Não é caso para ter razão, disse o racionalista.
- Também não é caso que faça impressão, respondeu o impressionista.
- Talvez seja caso para duvidar, disse o agnóstico.
- É mas é caso para acreditar, gritou o crente.
- Se for caso é casual, comentou o materialista.
E quando o criado chegou à mesa com o vinho,
já todos estavam à pancada.
- Eu bem disse que isto acabava mal, suspirou o pacifista.
[de Nuno Júdice inO fruto da gramática]
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Relembro: o tema que se segue não é muito mais animador mas, ainda assim, acho que deve ser levado em atenção. O ébola deveria ser atalhado nas próximas semanas. Hans Rosling explica porquê.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.