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sexta-feira, julho 10, 2026

Ver estrelas... ou obrigadinha mas não...

 

Dantes tinha um hábito que, nos últimos anos, fruto das circunstâncias, se perdeu. Consistia no seguinte: sempre que estava de férias, marcava massagem no hotel. Quase que recordava os hotéis pela qualidade das massagens. 

Por exemplo, não me lembro nada de como era um certo hotel na Costa Vicentina mas jamais me esquecerei da épica massagem dada por um massagista homem, indostânico, que vimos a chegar numa motoreta, e que, quando cheguei à salinha, me mandou despir com ele presente, eu sem saber se haveria de fugir, se aguentar firmemente. Aguentei. Despi-me de costas para ele, temendo virar-me não fosse ele estar a olhar par amim. Um filme. Mas estava com um lençol ao alto, cobrindo-se a ele próprio até que depôs o lençol em cima de mim. Não me esqueço da minha inquietação. As massagens, até então, sempre tinham sido dadas por mulheres, tudo segundo um protocolo de reserva e privacidade que nada tinha a ver com este massagista. Pensei que era chato desistir pois podia estar a descriminar o homem só por ser homem, só por vir de uma outra cultura. E não me arrependi, foi uma bela massagem, decente, eficiente. Mas não repetiria pois, do que me recordo, acho que não consegui estar devidamente descontraída.

Pôr o corpo nas mãos de alguém é sempre, de certa forma, um tiro no escuro. Uma de que me lembro bem foi com uma jovem. Segundo me disse depois, era a primeira semana que fazia massagens. A massagem era para ter durado cinquenta minutos e levou quase duas horas. O vagar com que se aplicava, o vagar com que punha o óleo, tudo muito lentamente, quase milímetro a milímetro de pele. Eu estava na boa mas só pensava que, ao ritmo a que ela estava, nunca mais de lá eu saía. Finalmente, uma vez que a massagem incluía massagem na cabeça, fez a linda proeza de também me pôr óleo na cabeça. Escusado será dizer que saí de lá com o cabelo todo oleoso, a precisar de ser urgentemente lavado. Mas não me queixei, provavelmente até a elogiei. Não quis assustá-la ou desmotivá-la. Quando cheguei ao quarto, o meu marido já estava apreensivo pois eu nunca mais aparecia e não lhe parecia possível que eu estivesse aquele tempo todo a levar uma massagem.

Mas, peripécias à parte, lembro-me com saudade de quando escolhia as massagens, se eram de pedras quentes, se eram de relax, se eram de vitalidade, se eram sei lá do quê -- e só ver a descrição de cada uma já era parte do prazer de as levar.

Agora onde temos ficado nos últimos tempos, o hotel é bom mas é um hotel de charme, mais pequeno, sem algumas dessas mordomias que eu gostava de desfrutar. Portanto, massagens em férias não tem havido. 

No entanto, apesar de experimentar diferentes tipos de massagens: azeite, chocolate, pedras, etc, sou conservadora: só as levo em lugares 'normais', asseados, em que há garantias mínimas de que serei atendida por uma mulher, boa profissional. Por muito afamadas que possam ser algumas outras massagens, jamais eu ousaria tentá-las. Há aquilo de se dizer 'nunca digas nunca' mas, neste caso, tenho a certeza que o mais longe que a minha temeridade me permite é o que já permitiu e não voltará a permitir: a massagem dada por aquele homem, segundo protocolos atípicos. Não correu mal, foi uma boa massagem. Mas podia ter sido desconfortável. E isso eu não quero. 

Têm fama as massagens dadas por indianos na cabeça de homens. Vejo e imagino que seja até hipnótico, se calhar agradável. Mas eu não meteria a minha indefesa cabeça nas mãos de um tipo daqueles. Vejo o que eles fazem: massageiam, sim, mas também esfreguem, batem, rebatem, viram, reviram. E, quando mete barba, só falta arrancarem a cabeça, tantas as tropelias que lhe fazem. E depois sabe-se lá que óleos são aqueles, que águas são aquelas, que intenções são aquelas. Por muito bem que possa saber, eu não deporia a minha vulnerável cabecinha nas mãos de uma enérgica criatura como esta que aqui abaixo vemos.

A massagem indiana cósmica na cabeça faz-me ver estrelas


Desejo-vos uma boa sexta-feira

sexta-feira, agosto 06, 2021

Depois das cenas mais duras do que puras que vivi durante o dia, só mesmo a Miranda para me fazer rir agora à noite

 


Bem. Se há dias em que tenho pena de não poder ser mais explícita hoje é seguramente um deles. Estive num sítio que faz favor. Não foi em lazer. Foi trabalho. Trabalho puro e duro. Mais duro do que puro. Barra pesada, para dizer a verdade. Se eu aqui contasse não iam acreditar. Cenas do caneco. Mais concretamente: coisas de gargalhada e coisas tétricas, em igual dose. 

Vim de lá às sete e tal. 

Viagem de regresso ainda longazita. Voltei a um dos meus good old habits: aproveitar a viagem para os telefonemas familiares. Quando cheguei e vi as horas, receei que o meu marido me chamasse a atenção para isto de que ando, ando, e qualquer dia estou outra vez a trabalhar muito para além do razoável, quiçá fazendo com que o meu coração se vire outra vez do avesso. Felizmente, estava no jardim a pintar o muro e acho que nem reparou nas horas. 

Vestiu uns calções de praia com que sempre gostei imenso de vê-lo, uns brancos, com umas riscas de tamanho irregular em azul claro e verde claro, que fazem um quadriculado também irregular. Já não têm cordão e por isso já não os usa na praia. Hoje estava com eles com um cinto por cima, todo fashion. Tinha uma tshirt branca justa que usa por baixo das camisolas quando faz caminhadas. No fim de semana tinha começado a pintura do muro e tinha este mesmo outfit. Os netos quando o viram da rua, estava ele de costas, disseram que não podia ser ele, que o avô não estava em tão boa forma. Não costumam vê-lo assim. Quando confirmaram que era ele, até o elogiaram. Não mostrou ficar sensibilizado com o elogio mas sei que ficou. Ao vê-lo assim até pensei fotografá-lo -- de costas, bem entendido -- para fazer a vontade à Lucy. Mas pensei que, se me punha com coisas, ainda ele se distraía do muro e se aborrecia por eu estar a chegar a casa tão fora de horas. Portanto, fiz-me de despercebida e estive foi a gabar a excelência da pintura.

Gostava que ele pintasse também o portão da horta mas não posso pedir muitas coisas ao mesmo tempo senão arrelia-se. Tem que ser coisa a coisa. Mas isso, em mim, é contranatura pois, ao ir vendo as coisas a serem arranjadas, vou tendo novas ideias. Mas se lhe digo: 'Olha lá, e se, aqui em baixo, puser uma carreira de vasinhos?'. Ele passa-se. 'Mais vasinhos é sinónimo de comprar mais vasos, mais flores, andar a pôr terra, andar a regar. Por isso, pára.' Digo assim, como se esta conversa não tivesse acontecido mas aconteceu. E ele mandou-me mesmo calar. Calar e parar. Calo-me mas fico a magicar. Será que ali ficariam bem os tais vasinhos azuis com florzinhas azulinhas? Ou aquelas lindas, etéreas, que no verão ficam cor de rosa, aquelas que estão no jardim dos franceses ali à frente, e que ainda não encontrei em lado nenhum? 

Só tenho coisas que me ralem.

Mas, dizia eu, estive num lugar em que vi e ouvi de tudo e em que tive saudades daqueles meus colegas de tempos épicos em que entrávamos em qualquer lugar, nós, um grupo de quatro ou cinco, e toda a gente sabia que éramos um grupo unido e forte. E, mal saíamos dali, não apenas tomávamos todas as decisões que eram necessárias como nos divertíamos à brava. Agora é tudo gente que se leva muito a sério, ninguém se diverte, ninguém ri com o lado caricatural das coisas.

Os problemas de hoje são, por vezes, o oposto do que eram antes e as pessoas que têm a incumbência de os resolver são também o oposto do que eram. O mundo mudou muito. Está cada vez mais chato.

Por isso, foi com imenso agrado que constatei, uma vez mais, que o algoritmo do YouTube tem bué de inteligência artificial. Descobre o meu estado de espírito e, se é assim-assim, aplica-me o devido antídoto. 

Já me fartei de rir. Era mesmo disto que eu estava a precisar, caraças. Não conhecia a Miss Miranda e esta, sim, esta é cá das minhas.


Estou fã dela. Com este vídeo aqui abaixo até me fez lembrar daquela vez em que, num hotel, me inscrevi, como sempre faço, para uma massagem. Tudo normal até ao dia em que, em vez de uma massagista, se me apresenta um massagista. Tipo indiano ou nepalês. Não sou de ficar a dar risadinhas ou a trocar palavras. Aparento comedimento. Mas, por dentro, numa atrapalhação. Fiquei sem saber se havia de fugir, se deveria aguentar-me ali, estoicamente. Optei pelo estoicismo. 

Nos outros hotéis ou institutos ou whatever, as massagistas saem, dizem para nos despirmos e taparmos com uma toalha e, só ao fim do tempo suficiente, voltam a entrar. Ali, contudo, não. O massagista mandou que eu me despisse. Pensei: Mas vou fazer striptease à frente dele? Está maluco. Perguntei-lhe: Aqui?. E ele que sim. Corajosa, virei-me de costas para ele. Depois pensei: Mas agora vou-me virar de frente e caminhar de frente para ele? É o vais. Hesitei. À distância de vários anos, lembro-me que pensei que deveria era voltar a vestir-me e dizer que massagens só com mulheres ou com gays. Como ele não tinha ar de gay, nada a fazer. Mas depois pensei 'que se lixe, não há-de ser nada'. Quando me virei, estava ele a segurar a toalha ao alto, ele por detrás da toalha. Respirei de alívio e, se estivesse descontraída, provavelmente teria soltado uma gargalhada. Deitei-me e ele baixou a toalha. O que se passou quando eu não estava de olho nele, não sei. Mas, do que vi, foi discreto. Mas que eu estava atrapalhada, lá isso estava.

[Fui agora à procura e encontrei o post. É praticamente como acima o descrevi. Já não me lembrava do delicioso pormenor do soutien. Delicioso. A ver se esta porcaria do corona se evapora para lá voltar a ver se ele ainda lá está]

Aqui a cena não é com um 'terapeuta', é com um médico.


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enquanto Billie Eilish interpreta Lost Cause

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Já adormeci dez vezes e nem consegui ver quase nada do House. Agora nem Netflix tenho conseguido ver. Por isso, só espero que não haja bandos de gralhas

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Uma feliz (thanks god it's ) friday

domingo, abril 30, 2017

Estar a levar uma massagem tão, mas tão boa... e adormecer.





Há alturas em que me ponho a marcar passo, quase vencida pelo politicamente correcto. Ainda não escrevi a primeira letra e já as ouço a remorderem que a vida não é só isto, coisas boas e sorrisos, ou que sou uma exibicionista ou que rebéubéu, pardais ao ninho. Embora, em geral, me esteja nas tintas para comentários verdes de raiva -- pois acho que, quem não gosta tem bom remédio, basta não ler o que escrevo -- a verdade é que, volta e meia, parece que me sinto reprimida avant la lettre.

Na verdade não sei se hoje estou assim pelo tema sobre o qual me apetece escrever ou se o ter lido uma notícia triste me deixou desconsolada. Vão desaparecendo as pessoas que, de uma maneira ou de outra, atravessaram a nossa vida. Este sábado foi um cronista que me acompanhou durante anos e me proporcionou belíssimos momentos de leitura, reflexão e gáudio. A minha mãe dizia-me que o meu tio, quando lá vai a casa, está o tempo todo a falar de pessoas conhecidas e de episódios passados e que, de vez em quando se esquece dos nomes e pergunta à minha mãe se se lembra. E que, por vezes, conclui que cada vez há menos vivos nesse grupo de quem fala. E a minha mãe disse-me: 'E é. Vão morrendo'. Fiquei sem saber o que responder porque isto é mesmo assim, a vida parece uma bateria que, apesar de várias recargas, um dia, inexoravelmente, chega ao fim e já não há recarga que lhe valha. Contudo, por muito que racionalmente se pense assim, a verdade é que deve dar muito medo quando se vê que os anos já estão a entrar naquela zona de risco em que, face à esperança média de vida, o que vier a mais já é ganho e em que se começa a sentir uma nostalgia antecipada por se saber que, muito provavelmente, já não se acompanhará a vida toda daqueles que amamos.

Mas, enfim, é o que é.

De resto, falar sobre isto, não é propriamente registo que me agrade.

Portanto, para trás das costas as angústias que, de quando em vez, tentam abeirar-se de mim -- e vou mas é contar aquilo que tinha em mente. Uma coisa boa.


Massagem.

A lista de opções é longa. Massagem só aos pés, outra só às costas, outra qualquer coisa linfática, outra muscular para desportistas (esta que ainda se divide em massagem de preparação ou para depois, para relaxar os músculos mais retesados depois da prova desportiva), outra de reiki, outra de aromaterapia, e várias outras. Perante tanta coisa que me parece boa e outras que desconheço e, por isso, me atraem, fico com dificuldade em escolher. Arrisquei: uma geral, se puder ser um misto de tudo isso, melhor, uma que me deixe descansada.

E lá fui à hora combinada. Já estava à minha espera. Talvez uns trinta e tal anos, quarente e poucos. Olhos verdes, sorriso doce. Toda de branco, descalça.

Despi-me, deitei-me de barriga para baixo, a cara no buraco que há na marquesa. Como habitualmente fui tapada com uma toalha que ia sendo puxada para deixar à vista a zona do corpo que estava a ser trabalhada.

Uma música conhecida que eu, estupidamente, não identifiquei.  Agora, ao escolher uma que se assemelhasse, foi em Lizst que pensei. Talvez. E, ao contrário do que é habitual, desta vez as cortinas para o exterior não estavam corridas. Contudo, dado o ângulo, nada se veria da rua, em especial dos barcos. Mas eu via o mar, os veleiros. Um sensação boa.

E, então, começou a espalhar-me óleo quente e perfumado. Fez, de facto, um pouco de tudo. Começou pelos pés e, logo ali, comecei a flutuar.

Depois foi subindo e vértebra a vértebra, músculo a músculo, foi descontraindo, amaciando. O ar perfumado, a música, a vista -- tudo perfeito. Mas tinha um plus: ela dançava enquanto fazia a massagem. Não tanto com os pés mas com os braços, com as mãos. Ao som da música, ela passava os braços e as mãos pelo meu corpo, ora energicamente, ora com suavidade. Dançava e o meu corpo era, ao mesmo tempo, o plateau e o seu instrumento musical.

Depois de barriga para cima. Uma toalha dobrada a fazer de almofada para a cabeça ficar mais alta. A mesma coisa. Mas aí, embora geralmente eu estivesse de olhos fechados, ia abrindo ao de leve para a ver. Ela nem me via a olhá-la, de tal forma estava concentrada na dança, na música, uma coisa extraordinária, os olhos praticamente fechados, as mãos quase como se tocando piano ou harpa.

Por fim, puxou de um banco com rodas, baixou a marquesa e colocou-se, sentada, atrás de mim. Nessa altura já eu estava toda coberta pela toalha. Puxou-a um pouco para baixo para deixar o colo à vista. E começou então uma massagem que abrangia os braços, os ombros, o pescoço, o colo, a nuca.

E, como será fácil imaginar, aconteceu aquilo que adivinham. Sou de sono fácil. Não durmo muitas horas mas o meu sono, quando caio na cama, é imediato e profundo. Idem, no carro, quando não sou eu que conduzo. Ou no sofá, se estou sem nada que fazer. Imagine-se ali, naquele ambiente, naquela situação de relax total.

Comecei, pois, a sentir que estava a passar para o lado de lá, já meio a dormir. Mas tentei evitar. Sobretudo, parecia-me um desperdício estar a levar uma massagem tão boa e deixar-me de dormir.

Mas ela avançou, massagem na cara, na testa, dos lados, nas maçãs do rosto, no queixo, depois na cabeça, devagar, devagar, com as duas mãos. E aí não teve jeito: caí mesmo num sono profundo. Apaguei.

Acordei momentos depois, não sei quanto tempo decorrido. Falando-me como quase em segredo e tocando-me na mão, pareceu-me ter recebido um subtil sinal de que devereia despertar. Devo ter aberto os olhos, estremunhada. Ela sorriu lá na língua dela que me pareceu ser de leste travestida de espanhol: 'Muito sono...?'

E eu, furiosa comigo mesma, que não era que o sono fosse muito... mas que a massagem era tão relaxante...

Ela sorriu, perguntou se eu tinha gostado.
Sessenta minutos de reiki, aromaterapia, massagem localizada e geral, dança ao som de piano... como não gostar? Pena mesmo é que durante os últimos minutos não tivesse dado por nada.

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E agora que já assistiram à minha sessão de massagem, caso estejam a sentir um certo apelo místico, queiram descer e assistir à refrega polemista que se avizinha. César das Neves desafia duas doutas vozes e afirma, contra todas as celeumas, que ele sabe, porque sabe, que Nossa Senhora apareceu mesmo, em pessoa, aos três pastorinhos. 

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terça-feira, setembro 13, 2016

Mas olha lá, ó UJM, mas isso deve ser uma canseira...
E massagens tailandesas... não me digas que não há...?!
[ 1º de uma série de 11 posts com títulos parvos]


Bem, vou guardar para o fim o melhor da festa. 

Entra-se nestas praias e lá está a seta a indicar as massagens tailandesas. E num canto da praia lá estão as tendas e, curiosamente, apesar de haver pouca gente na praia, em cada tenda lá está sempre algum(a) cliente a ser massajado.

Eu, que tanto gosto de uma bela massagem, nunca me passaria pela cabeça pôr-me ali na praia naquilo, muito menos a ser massajada por um homem (porque, com excepção da que está em cima da vítima na fotografia aqui abaixo e que me parece ser uma mulher, o que lá vejo são homens).

Mas, enfim, acho graça ver e admito que seja uma experiência agradável.




Eu, moça mais cheia de finesse, escolho lugares mais recatados para levar uma bela de uma massage. No hotel, pois claro. Tinha marcado para as seis da tarde uma massagem relaxante, anti-stress.

Viémos da praia, fomos ainda um bocado para a piscina interior (nadar, fria e alterosa como está a água do mar, só em piscina e, se for aquecida, tanto melhor) e, a seguir, para um deliciosamente turbulento jacuzzi a 36º.

Estava eu naquele bem bom, coberta e recoberta por água borbulhante, num espaço que é envidraçado, quando vejo, a passar para a zona dos tratamentos, um homem todo vestido de branco. Disse ao meu marido: 'Não me digas que o massagista é um homem...' Tanta massagem que já levei e sempre calhou serem mulheres. 'Ai... não me estou a ver, caraças... não quero, bolas, tu não me digas...'. O meu marido disse 'faz de conta que é um médico'. Olha, como se fosse a mesma coisa, como se os médicos me dessem massagens. 

Por estas e por outras é que se vê que, ao contrário do que se possa pensar, sou uma maria-atada. Estava verdadeiramente acobardada -- que nem sei se acobardada é o termo, talvez atrapalhada, sei lá.

Portanto, perto das seis, subi ao quarto, tomei um duche, vesti-me e desci para a zona dos tratamentos. O meu marido foi para o exterior, apanhar o sol da tarde. 

Lá estava o terapeuta à minha espera, como o senhor da recepção me avisou ('o terapeuta está na zona dos tratamentos'), calças brancas, casaco branco. Indiano. Vá lá que não era tailandês senão ainda me sentia mais parva depois de estar a achar que não era capaz de me pôr deitada a levar massagens de um tailandês. Indiano, com uma pinta encarnada na testa.

Entrámos. Aquele lusco-fusco, aquela música suave, indiana neste caso. Falava em inglês. Perguntou se eu tinha lesões com as quais ele tivesse que ter cuidado. Depois disse para eu tirar a roupa. E ele ali. Em todas as outras vezes, a massagista diz para uma pessoa se despir e se deitar na marquesa, coberta por uma toalha. Elas saem e só regressam passado um bocado, quando já estamos deitadas e cobertas. Este não: que eu me despisse -- e ele ali. Fiquei sem saber o que fazer à minha vida. Se estivesse descontraída e com à vontade, ter-lhe-ia dito, com ar de brincadeira, que se virasse para lá, que não me apetecia fazer strip tease para ele. Mas nem para isso tive discernimento. De olhos baixos, encabulada, despi a saia e a blusa e fiquei de cuecas e soutien. Quando levantei os olhos para subir para a marquesa é que vi que ele estava a segurar a toalha de braços no ar, ou seja, ele escondido atrás da toalha. Gostei. Fiquei mais tranquila. Que me deitasse de barriga para baixo, disse. Depois pousou a toalha em cima de mim. E eu a pensar: bonito serviço, agora vou levar uma massagem de soutien. Mas ele não se atrapalhou. Com delicadeza, desabotoou o soutien e afastou as partes para o lado. A seguir avisou-me que, se durante a massagem, eu achasse que estava a fazer muita pressão, que o avisasse.

Colocou-me um rolo debaixo de cada pé. Colocou os meus braços ao longo do corpo mas um pouco afastados. E eu a pensar, ai mãezinha, caraças que não me sinto nada à vontade...

Bem. A seguir, despejou, pingo a pingo, um óleo morno ao longo da minha coluna, ao longo dos meus ombros e dos meus braços. Depois espalhou-o devagar e pousou as duas mãos nas minhas costas, primeiro devagar, depois em pressão crescente. Agradável. E deu, então, início ao que me pareceu uma dança de movimentos sobre o meu corpo, ora pressionando, ora pontilhando, ora deslizando sobre mim toda a zona dos seus antebraços, ora vigorosa ora delicadamente. 

Para quem não conheça, a marquesa de massagens tem uma abertura, que estava contornada com uma toalha enrolada para dar alguma altura, para pormos a cara. E, portanto, enquanto eu estava de cabeça para baixo, pela abertura, podia observar o movimento das suas pernas. Estava descalço e quase parecia dançar. Escusado será dizer que se eu, ao entrar, tinha algum músculo mais embrulhado, no fim, com aquela maravilhosa massagem, estava levezinha, descontraída, capaz de voar.

Felizmente a que escolhi era, sem que eu antes o soubesse, só nas costas porque, senão, ao ter que me pôr de papo para o ar, lá voltaria, outra vez, a minha atrapalhação. Mas não havia razão para isso, eu é que sou mesmo uma maria-palerma, uma maria-saloia: foi tudo na maior decência e profissionalismo, pois claro, poderia lá ser de outra forma...? 

No fim, outra vez as duas mãos abertas pousadas nas minhas costas, imóveis, primeiro com pressão e, progressivamente, a pressão a desaparecer, apenas um toque muito suave. Quando acabou, como sempre, até tive pena, tão bem me estava a sentir.

Disse-me que já me poderia levantar mas antes, com a mesma delicadeza, abotoou-me o soutien. Levantei-me, esperando que se tivesse, outra vez, escondido atrás da toalha mas, de novo, fui de olhos baixos e apressadamente enfiei a roupa pelo que não faço ideia. No fim, acompanhou-me à porta e perguntou-me se me sentia bem e se tinha gostado. Puxa, se gostei. Gostei mesmo.

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E pronto, foi esta a minha primeira vez: o dia em que um indiano fez dançar as suas mãos sobre o meu corpo.

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E queiram seguir por aí abaixo, porque há mais, muito mais.
(Até tenho vergonha de dizer mas... há mais 10 posts.)

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sábado, setembro 06, 2014

Mais um dia à beira dos mares do sul. Um dia com uma massagem dentro. E uma medalha para um hóspede muito zen e muito lindo.


No post abaixo já vos mostrei os livros que trouxe para as minhas breves férias algarvias. Aqueles que vieram para cá já meio depenicados, assim vão voltar. Muita actividade deu nisto: pouco tempo para me cultivar.

Mas isso é no post a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. ou melhor, quase nenhuma. 

Assuntos não faltam mas dariam pano para mangas e eu estou sem tempo para altas costuras. 


Andámos na ramboiada até tarde, chegámos ao hotel já passava da meia noite. 

(Tenho um monte de mails a que não consegui responder nem vou responder até domingo. E no domingo vamos lá ver. Nem consigo responder aos comentários. Parece impossível mas é verdade. As minhas desculpas.)

Agora já vou a caminho das duas e, por isso, tenho que acelerar.

Caminhar na areia, mesmo em areia molhada, é um pouco pior do que em piso normal mas, mesmo assim, todos os dias andamos um pouco mais. Desde pequena que gosto de andar, sempre andei muito a pé. Mesmo quando o normal seria fazer certos trajectos de autocarro, eu preferia ir a pé. Aliás, até certa idade, o que eu gostava mesmo era de correr. Muito corria eu. 

Caminhamos de manhã e depois, menos distância, à tarde. Por junto, já estamos perto dos 10 kms diários. Pelo meio nadamos, levamos massagens de jactos de pressão, estamos no jacuzzi. Almoçamos na varanda do quarto. O mesmo todos os dias. Nunca tive umas férias assim. Costumamos variar de praias, arranjar programas diferentes. Desta vez tem sido a total indolência. Pela primeira vez, não fomos a Sagres nem às praias de Vila do Bispo. Nem este sábado vamos conseguir lá ir.

Mas lá conseguimos arranjar motivação para irmos até Porto de Mós, outra das belas praias de Lagos.

Esta tem falésia, rochas, limos, um cheiro maravilhoso a mar.




Quem não conheça, mais vale ligar o GPS. Lagos ainda é muito portuguesa. E, portanto, sinalização é coisa que não lhe assiste. Não há placas, tabuletas, indicações. Nem para lá nem para sair de lá. Mas vale a pena a aventura: é uma praia grande, desafogada, com zonas muito abrigadas e linda. Convém lá ir com maré vazia pois as zonas mais bonitas apenas são acessíveis na maré vazia.




A falésia está assinalada como frágil e susceptível de deixar cair bocados. Não vi ninguém lá debaixo - felizmente. Mas, por cima, andavam sempre gaivotas. Ao fim da tarde a falésia fica dourada, linda.

Mais tarde, começaram a aparecer umas nuvens, nada que incomodasse. O mar ficou prateado, muito bonito e via-se até Sagres.




Depois voltámos ao hotel para eu vir receber o meu tratamento espiritual. Desta vez a massagem era completa, isto é, incluia a cabeça, e estava em promoção e só isso me fez logo achar que era oportunidade para fazer um bom negócio. 

Pois digo-vos que foi do melhor que há. Aquela música suave que parece vinda de um riacho protegido por doce canavial, a luz quase inexistente - o ambiente é meio caminho para a gente começar a entrar em transe ainda antes da massagem começar.

A massagem começou pela testa, foi subindo, a cabeça de uma ponta a outra. Fiquei logo a levitar. Depois corpo, parte da frente. Quando ela me sussurrou que eu me virasse de barriga para baixo, estive uns segundos a reposicionar-me e a perceber onde é que estava o meu corpo para eu o tentar mexer. Lá me virei. Recomeçou. De baixo para cima. Começou nos dedos dos pés, e veio trepando. Limpou-me os chacras todos, um por um. Até os das mãos, dedo por dedo. Finalmente chegou ao pescoço e desatou cada um dos nós que eu ainda tivesse (depois de tanta massagem na piscina com cascata, jacto de pressão e jacuzzi, acho que já não tinha nenhum, acho até que os músculos estavam já um algodãozinho, mas, enfim, acho muito bem que ela tivesse tentado). Depois passou para a nuca, voltou a percorrer a cabeça todinha. Nessa altura já eu estava a sentir o que deve ser viver no paraíso.

No fim, segredou-me bem junto ao ouvido. Acabou. Deixe-se estar o tempo de que precisar, levante-se só quando se sentir pronta. 

Tive vontade de lhe dizer que podia recomeçar porque eu ainda estava muito longe de estar pronta para o que quer que fosse - mas a verdade é que não fui capaz de dizer nada. Depois, aos poucos, fui tentando abrir um olho, depois outro. Consegui. Depois tentei mexer-me, os dedos dos pés. Esperei um pouco mais. Finalmente lá compreendi que não podia ficar ali até ao dia seguinte. Levantei-me, vesti-me e fui ter ao quarto. Ia como se fosse levada por uma nuvem de algodão, asas nos pés, asas na cabeça.

Bem. Com isto já eram horas de jantar. 

Lagos estava aquela multidão nas ruas e restaurantes que nos tem deixado muito admirados. Em Setembro e uma tal multidão. Muita música, muita juventude a cantar na rua, muitas lojinhas, um ambiente mesmo engraçado.




A noite estava mais quente do que nos dias anteriores. 

Come-se bem e, comparativamente com o que se paga noutros países, os preços em Portugal não estão excessivos.




Nas ruas há de tudo. Pintores de rua que fazem retratos, outros que fazem caricaturas. Outras fazem rastas ou intercalam pedrinhas coloridas ou flores de missanga nas tranças, outros fazem tatuagens. Nunca lá vi a cortar cabelos na rua pelo que talvez fosse ramo em que eu poderia tentar a minha sorte, cortes rápidos a 5 euros, homens e mulheres. Por enquanto só corto o cabelo a mim e à família, talvez esteja na altura de sair da minha zona de conforto.

Não era costume por aqui verem-se muitos espanhóis e este ano há também muitos, deve ter a ver com os preços. Houve uma altura que saía mais barato fazer férias em Espanha do que em Portugal. Agora isso já não acontece. Para além disso, para o mesmo nível, a qualidade em Portugal é superior. 

É impressionante como as espanholas se arranjam a toda a hora, até ao pequeno almoço, Aparecem para o pequeno almoço no hotel todas flausinas, penteadésimas, lábios pintados e tudo. 

Vejo também mais portugueses do que é habitual e isso é bom sinal. Com destinos turísticos tão bons em Portugal, porquê ir para os Varaderos desta vida, levando dinheiro para fora do país? 

Mas predominam ainda os ingleses e os alemães. 

Este ano a minha medalha de ouro para o hóspede de hotel mais especial vai para um homem jovem, ar vagamente indiano, talvez goês, lindo, mas tão lindo. Alto, um corpo perfeito. Depois da piscina, vai para o ginásio (que tem uma parede de vidro que dá para a piscina interior) e faz para aí uma hora a doer, passadeira a abrir, abdominais, sei lá. Sai do ginásio transpirado, cansado, com uma toalha sobre os ombros, vai tomar duche. Parece estar sempre a sorrir. Mas não é só por ele que é especial. É casado com uma mulher bem mais pequena que ele, aspecto mais normal do que ele, simpática e morena mas com profundos olhos azuis. Têm um filho pequeno, lindo como o pai e com os profundos olhos azuis da mãe. Ele derrete-se com o filho. Mas com eles está também a irmã gémea da mulher. Iguais, iguais, iguais. Então andam o excelentíssimo Apolo, as duas gémeas e o menino. O belo Apolo sorri o tempo todo, zen, zeníssimo, lindo. Devia ser emoldurado.


Bem, tenho que parar por aqui, já é tarde e o personal trainer com quem durmo não me dá tréguas, daqui a nada já está a abrir a cortina e a fazer com que o sol me bata em cheio na cara.


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Relembro: para verem os livros que trouxe a passear comigo é descerem, por favor, até ao post já a seguir.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado. .


segunda-feira, março 17, 2014

Massagem para homens. Opção completa. Com bónus no final. É já a seguir, na porta dos fundos. [Aviso aos meus filhos: passem à frente, sff, para depois não virem queixar-se]


Sem mais, aqui deixo a Massagem à moda da Porta dos Fundos. Que entre a massagista e o seu assistente, o Gonzaga.


[Esta até me faz lembrar uma amiga minha que é médica e que conta que há lá um médico ou um enfermeiro negro, agora não me lembro, um calmeirão com quase dois metros e que, quando aparece um infeliz para o toque rectal e elas acham que ele vai armado em valentão, elas, na brincadeira, chamam por esse colega. Os doentes, coitados, quando vêem o calmeirão a colocar a luva e a ajeitar a luva ao dedão, quase abalam a fugir hospital abaixo. Mas depois desatam-se todos a rir e explicam que é brincadeirinha, só para predispor bem. A seguir, o dedinho da médica já parece coisa de crianças].

Enfim. Que comece a massagem completa, então.



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terça-feira, março 19, 2013

Uma massagem de pedras quentes para ficar nas nuvens. E, por falar em alturas, a alvura da neve, a beleza da natureza e a beleza das cidades junto à Serra da Estrela (e o Chipre e o Gazprom e o anormais do Eurogrupo lá tão longe)


Ainda não vi um único telejornal ou sequer ouvi um noticiário. Há pouco contaram-me ao jantar que as coisas por essa Europa fora estão confusas, perigosas. Gente estúpida à frente dos países e das instituições é no que dá. Nestas coisas é bom não esquecer as mais elementares leis da física. Uma delas, transposta para a realidade económica e financeira dos tempos presentes, pode dizer-se assim: quando há quem muito perde há forçosamente quem muito ganha.

Pseudo-liberais de meia tigela tomaram conta do burgo? Do melhor que há para os grandes senhores do dinheiro, do petróleo, das armas, as máfias, os traficantes, os especuladores. 

E agora? O que fazer quando tudo arde?

Ir para a rua, ocupar o espaço, impedir que o saque continue. Depor os fantoches, os ignorantes, os vendidos.


Mas digo isto à distância. Fui para fora cá dentro e, para que o pouco me saiba a muito, vivo-o ao máximo.

A ideia era descansar mas não tenho grande paciência para estar de perna estendida. Como sempre preparava-me para vir carregada de livros. Sabendo do que a casa gasta, alguém com mais bom senso que eu forçou a escolha. Acabaram por vir apenas dois e, desses dois, ainda só peguei num deles que mal vai nas primeiras páginas. Um petisquinho com que a ver se amanhã me deleito mais um pouco: A Polaquinha de Dalton Trevisan.

O dia hoje foi todo ele de passeio. Longos passeios a pé e também de carro. Saímos cedo, logo a seguir ao pequeno almoço e apenas regressámos perto das seis. Banhos e o que eu gosto de estar metida na água, nadar, sentir a água quente a vestir-me a pele. E depois, ah depois, uma coisa de ir aos céus. Massagem com pedras quentes.

Eu conto.

Entrei. Escuro, apenas umas quantas velas. As paredes escuras, uma música suave, flauta, violino, bambu, uma música lenta, baixo, quase um sonho. Por cima da marquesa um véu encarnado, transparente, a luminosidade vermelha muito ténue.

A massagista diz que me dispa e me deite de barriga para baixo, braços ao longo do corpo. Sai. Depois, entra, tapa-me com um lençol. A seguir põe-me pedras quentes na base das costas, nas palmas das mãos. Começa então. Destapa-me uma perna, põe óleo, massaja, primeiro com as mãos, depois com seixos macios e quentes. Depois a outra perna. Depois volta a tapar as pernas e sobe. Depois um braço, depois o outro. Depois as costas e massaja vigorosamente, com as mãos, com as pedras quentes, depois suavemente, depois a nuca, desfaz um a um qualquer nó que possa haver. Depois diz, num sussurro, que me vire devagar. Coloca-me seixos quentes sobre o externo. E recomeça. Um pé, dedo a dedo, depois toda a perna. Por fim, põe um pequeno seixo quente entre cada dedo e um maior na sola do pé. Depois passa um pano para os prender. Depois a outra perna. A seguir prende seixos quentes entre mim e a marquesa, de cada lado do corpo. Passa então para os braços, a mão, dedo a dedo, o braço, depois volta a colocar-me um grande seixo quente na mão e passa para o outro lado. Depois os ombros, o colo, depois o rosto, pedras quentes rodam à volta dos olhos, da boca, na testa, no pescoço, depois sobem pela cabeça, depois são as mãos que actuam, rápidas, precisas, profissionais. Uma hora e quinze minutos.

Se me tivessem aparecido, naquele momento, ali à frente, o Gaspar, o Passos ou até mesmo o Relvas acho que não ia conseguir abrir a boca para lhes dizer o que acho deles, para os mandar ir bugiar, nada, nada, irritação igual a zero; acho que ficava a olhar para eles, muito zen, esperando que se dissipassem. 

A massagista é uma jovem beirã. Tem braços fortes. As mãos poderiam amassar pão, ou amassar queijo, ou barro. Massaja-me vigorosamente quase como se amassasse e moldasse a minha carne e poderia estar a transformar o meu corpo num vaso que eu nada diria. Aliás, eu estava nas nuvens, incapaz de falar. 

Antes da massagem começar, eu tinha-lhe dito que me acordasse, caso visse que eu tinha adormecido e fosse necessário virar-me. Mas não adormeci. Podia lá eu perder uma sensação tão boa...?

Saí de lá como estivesse a flutuar, pés nas nuvens, cabeça na lua. 

.....

Mas, antes, a neve. Limpa, branca, o céu muito azul, o ar muito puro. Já tinha saudades desta beleza imaculada.




O país é o mesmo em que vivo, um país entregue a gente muito má. Mas aqui tudo é tão inocente, tão lindo, parece outro.




Mergulho as mãos na neve. O gelo é belo, fresco, incorrupto. Tiro fotografias que envio para que os meninos vejam a neve nas minhas mãos.




O país é tão pequeno mas tão diverso. Tudo tão perto e, no entanto, que distantes as maldades da gente estúpida que teima em destruir a vida das pessoas. Aqui tudo parece imune à destruição. A natureza é mais forte que a mesquinha vontade dos pequenos homens.




A água irrompe de todo o lado, desce as encostas, trepida, uma música limpa, límpida, branca, pura, e pelo ar transforma-se em gelo. Até que chega ao rio.




E o rio é transparente, muito inocente, quase infantil, um rio pequeno, brincalhão, saltando e correndo como um menino.

....

Centenas de fotografias. Tanta a beleza, tanta, que país tão belo o meu. Tanta beleza para amar. Mas aqui, neste espaço, tenho que me conter. Sei que, quem aqui vem, quer pequenos traços, instantes. Devia acabar aqui que, como sempre, isto já vai longo.

Mas mostro-vos ainda a beleza excessiva, inexplicável.




As grandes rochas que brincam umas com as outras, que se encavalitam, se aninham, abraçadas, instáveis, um equilíbrio instável como um casamento eterno.




E as casas que carregam um peso brutal nas costas - ou que não: que se abrigam, protegidas sob a imensidão da terra, essa mãe que nos abraça entre os seus braços fortes e quentes.

Mas, claro, há também a beleza das cidades. Uma cidade é a casa dos cidadãos, o seu espaço, e estas são, sem dúvida, cidades muito amadas.




Arranjadas, tratadas com desvelo, todas elas carinho. E há as pinturas nas paredes que as transformam em arte.




E as igrejas. Tão bonitas. Tantas, tão bonitas. O silêncio e a beleza das igrejas da minha terra. Vazias,  quase sempre vazias, mas sempre tão limpas, tão bem cuidadas, abrigos serenos, lugares de paz e recolhimento.




A arte sacra, a imaginação, a ingenuidade. Que ternura sinto, que encantamento, que tranquilidade.

E depois, já noutra cidade, na rua, a devoção ingénua, as flores, o inesperado colorido num recanto entre a pedra ancestral.




Mas, depois, a imponência, a desmesura, a fé transformada em obra. Por mais de cem anos se construíu em granito, em anfiteatro. Uma beleza sóbria, digna, envolvente. A Sé. O senhor apareceu ofegante, 'eu sou o guarda da Sé'. E explicou-me e todo ele era orgulho. Quatro estilos, a única. Em anfiteatro, a única. E eu disse, 'é linda' e ele assentiu, em silêncio, muito orgulhoso.




E cá fora, depois, Cargaleiro logo reconhecido, meu vizinho. Que contraste e que alegria. Depois da imensidão da pedra, da desmedida das alturas, eis que o pequeno gesto, a cor e o desenho quase infantil, quase doce.




Gostava de poder mostrar-vos tudo, tantas fotografias, mas tanta beleza não caberia aqui. 

(E já é tardíssimo, passar as fotografias para o computador, escolhê-las, reduzi-las, um tempão!, sempre tão tarde... Tenho que apagar a luz antes que seja posta fora do quarto, ainda vou passar a noite no corredor...)

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Se me permitem, gostaria ainda de vos convidar a visitarem-me no Ginjal e Lisboa. Hoje é dia do Elmano Sadino, e, porque o Poeta assim o pede, para além dos poemas escritos temos, também, a sua poesia dita pelo Jel (d'Os Homens da Luta) e pela Odete Santos e, ainda, o making of do Bocage.

A música é linda, parece água a correr: Chopin nas mãos de Nelson Freire. Mais uma grande interpretação.


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E, por hoje, nada mais. Apenas desejar-vos um dia muito feliz, de preferência rodeados de beleza e de bondade.