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sábado, março 05, 2022

Putin é um inimigo da Humanidade -- quem o diz é Mikhail Khodorkovsky, ex oligarca russo

Путин — враг человечества — Михаил Ходорковский, бывший российский олигарх

 

Não quero saber de mails ou comentários (vários deles nem publico) a desvalorizar o que está a acontecer, invocando conflitos anteriores em que o mundo não se insurgiu assim.

Não quero saber porque respondo pelo que faço, não pelo que outros fizeram noutras circunstâncias. 

Nem tenho que me justificar por eu e o resto do mundo estarmos a condenar a incompreensível e violenta invasão russa e não termos sido tão veementes em anteriores circunstâncias.

Relativizar os bárbaros crimes que Putin está a levar a cabo não me parece razoável. Crimes sempre houve e podemos recuar ao condado portucalense ou a antes disso, muito antes, recuar até à malta das tribos, à malta das grutas, à malta que ainda mal andava em duas patas. Recuar até antes de haver gente. Sempre houve guerra. Faz parte dos genes, se calhar. Ou, segundo creio, é um efeito secundário da testosterona.

Mas crimes passados não podem justificar crimes futuros. Por muito que os passadistas, os fatalistas, os pessimistas, os derrotistas queiram, eu não o aceito.

Alguma vez temos que crescer, usar a cabeça.

Discordâncias resolvem-se a bem, por negociação. A paz, o direito à vida digna e livre tal como o direito à auto determinação são valores que estão de um dos lados de uma linha vermelha. Quem a pise, quem desencadeie a guerra, quem faça perigar os direitos das pessoas e dos países merece inequívoco repúdio.

Por isso, agora a guerra tem que parar, Putin tem que ser apeado e travado. 

Depois, em ambiente de paz, que se discutam áreas de influência, desnuclearização, equilíbrio entre polos contrários, (in)dependências da indústria de armamento, reconstrução de um país em ruínas e de famílias em chagas -- o que se queira. Mas primeiro a guerra tem que acabar, a invasão tem que acabar. 

Putin tem que ser neutralizado. Não sei como mas tem que haver maneira. Acredito que isso esteja a ser estudado a acredito que há quem saiba como fazê-lo.

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Entretanto, algumas vozes antes fiéis e próximas de Putin começam a falar, alto e bom som, contra Putin, o mitómano desvairado.

‘Enemy of humankind’: Ex-Russian oligarch, Mikhail Khodorkovsky, a former Russian oil tycoon, speaks out about Putin

CNN's Nina dos Santos speaks with Mikhail Khodorkovsky, a former Russian oil tycoon and Kremlin critic who says Russian President Vladimir Putin is "the enemy of humankind."


Mikhail Borisovich Khodorkovsky (Russian: Михаил Борисович Ходорковский, IPA: [mʲɪxɐˈiɫ xədɐrˈkofskʲɪj]; born 26 June 1963) is an exiled Russian businessman, philanthropist[6] and former oligarch,[7] now residing in London.[8] In 2003, Khodorkovsky was believed to be the wealthiest man in Russia, with a fortune estimated to be worth $15 billion, and was ranked 16th on Forbes list of billionaires.[9] He had worked his way up the Komsomol apparatus, during the Soviet years, and started several businesses during the period of glasnost and perestroika in the late 1980s. After the dissolution of the Soviet Union, in the mid-1990s, he accumulated considerable wealth by obtaining control of a number of Siberian oil fields unified under the name Yukos, one of the major companies to emerge from the privatization of state assets during the 1990s (a scheme known as "Loans for Shares").
(...)
In 2014, Khodorkovsky re-launched Open Russia to promote several reforms to Russian civil society, including free and fair elections, political education, protection of journalists and activists, endorsing the rule of law, and ensuring media independence.[22][23] He has been described by The Economist as "the Kremlin's leading critic-in-exile"
(...)

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 Mikhail Khodorkovsky calls on fellow Russians to oppose Vladimir Putin and his war in Ukraine.

Михаил Ходорковский призывает соотечественников выступить против Владимира Путина и его войны на Украине.


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Permitam-me, ainda, que vos recomende a leitura de As guerras perdem-se de Ana Cristina Leonardo

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Força, Russos, libertem-se e oponham-se a Putin, façam-no parar
Идите, русские, освободитесь и выступите против Путина, заставьте его остановиться

domingo, agosto 31, 2014

'E se os bárbaros vierem desta vez?' e 'A palavra no osso' - Ana Cristina Leonardo no seu melhor no Actual e o Expresso de parabéns por saber valorizá-la. Os leitores agradecem.


Eu sei que, no post abaixo - no qual falei na oposição a sério ao Governo feita este sábado por Marques Mendes na SIC (e agora até me estou a lembrar que o PS e o PCP bem que poderiam aprender com ele em vez de andarem na brincadeira, como andam) - disse que o post seguinte seria sobre o que andei a fazer durante o dia e que ia mostrar fotografias e tudo.

Mas, como também referi, pelo meio ainda ia dar uma espreitadela ao Expresso. E assim fiz. E aqui estou para dizer uma coisa que me faz adiar para amanhã a reportagem fotográfica prometida.









E o que quero dizer é que gostei muito da crónica da Ana Cristina Leonardo 'E se os bárbaros vierem desta vez?'. Muito justamente o seu espaço no suplemento Actual do Expresso chama-se Isto anda tudo ligado pois de liaisons, geralmente pouco inocentes, se constroem os textos de Ana Cristina. 


Desta vez, começa por ir buscar a abertura de 'Este país não é para velhos' para citar Cormac McCarthy e para depois perguntar, ela própria, Como se enfrenta o Mal sem arriscar a alma?

Um pouco mais adiante, Ana Cristina  prossegue: É impossível para quem esteja minimamente atento ao que acontece no mundo, não ter dado conta dos profetas da destruição. Perseguições e limpezas étnicas e religiosas, mortandade desenfreada, violações de mulheres, raptos de jovens e crianças, execuções sumárias, gente enterrada viva, conversão ou morte! Como uma onda gigante que se adivinhou muito ao longe e que vem galgando o mar já próxima das margens. No terreno onde tudo isto germina jorram poços de ouro negro, estende-se uma manta de petróleo. Convém não esquecer. Perante isto há quem olhe atónito a televisão, leia, incrédulo, as notícias, vá sabendo coisas de que preferia continuar ignorante. Há cerca de 70 anos, a Europa despertava do pesadelo nazi levado a cabo em nome da superioridade rácica. Hoje o que se ouve são gritos de 'Allah Akbar'. A burocracia da morte foi substituída pelo tumulto guerreiro mas depois de Auchwitz ninguém terá perdão se desviar o olhar.


Mais uma crónica marcante de Ana Cristina Leonardo. 

Têm sido variadas e todas muito boas as suas crónicas. No outro dia escreveu uma outra cheia de sul, de sol, de cheiro a figos, de sons da infância. Sendo eu neta de algarvios que rumaram a norte mas que conservaram lá as suas raízes, revi-me naquelas palavras. São assim, como ela as descreveu, as recordações que tenho das estadias nas casas das tias e primas que por lá ficaram. Lembro-me das casas caiadas rodeadas de campo, da quietude noctívaga das casas, do latido abafado dos cães, da sombra de um gato a equilibrar-se num muro, da robustez das figueiras, do leite viscoso dos figos, do aroma inebriante das alfarrobas na zona de Loulé, lembro-me de uma casa grande e fresca numa rua de Faro, do olhar reptiliano das gaivotas e do gingado nervoso das andorinhas-do-mar, de faróis, do horizonte iluminado por traineiras, da rouquidão dos motores que passam ao largo apontando à barra, lembro-me de outras casas, de outras vozes, de outros calores. Estava lá tudo, na bela crónica de Ana Cristina.

Esta semana assina também uma excelente recensão: deu-lhe o título A palavra no osso e fala do livro Ouro e Cinza de Paulo Varela Gomes. Ultimamente têm sido bissextas as suas incursões nesta área e é pena. Esta de hoje não apenas está muito bem escrita como dá uma visão muito clara do que deve ser o livro e, lendo a sua opinião, dá vontade ir conhecê-lo. Quando regressar à cidade, irei certamente comprá-lo.


Transcrevo parte do seu texto: O rigor da informação presente na frase serve-nos de trampolim: (...), não existe na escrita de Paulo Varela Gomes uma palavra a mais nem uma palavra a menos. Apenas a palavra (eticamente) justa. Ao rigor da sintaxe alia-se o rigor semântico. Em contracorrente, o edifício de palavras construído por P.V.G. não corre o risco de se desmoronar no vazio. Aqui não há crochet, há carpintaria. Não há frases em bicos de pé, há proposições com sentido. 


Os seus textos e os de Pedro Mexia, quer nas crónicas quer nas breves (e irregulares no caso dela) recensões críticas são das razões que me fazem ter vontade de ler o Expresso, fidelizam-me como cliente do jornal em papel.

Depois de no outro dia ter criticado a falta de critério na selecção de alguns colaboradores para o Expresso Diário não posso agora deixar de felicitar o Expresso pela valorização de Ana Cristina Leonardo como crítica literária. E, se me é permitido, aqui deixo uma sugestão:  bem que a sua crónica semanal Isto anda tudo ligado poderia ter mais espaço e estar em lugar de maior destaque.



Critico quando acho que devo criticar, louvo quando acho que devo louvar. E isto aplica-se a tudo e a todos.


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A música lá em cima é Big My Secret de Michael Nyman e faz parte da banda sonora de The Piano. Acho que liga bem com a Ana Cristina Leonardo.

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E por tudo e por todos, permitam que vos diga que, caso queiram saber o que achei da charla semanal de Marques Mendes na SIC e do que acho dos socialistas e comunistas que nem a brincar sabem fazer oposição, deverão descer até ao post já a seguir.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores um belo dia de domingo.



sábado, junho 14, 2014

In heaven com o perfume do alfazema (e, porque 'isto anda tudo ligado', também com a Ana Cristina Leonardo, no Expresso, a propósito de Herberto Helder e do 'vírus da poesia')


A quem goste de casas de sonho, vidas de luxo, mordomos eficientes, fiéis e jeitosos, mesas postas como deve ser, cãezinhos amorosos e muito glamour, recomendo que, depois deste, desça até ao post seguinte onde mostro três das casas de Valentino, o célebre, rico e bem penteadinho estilista.


Mas isso é mais lá para baixo. Aqui, agora, a conversa é outra.


Lavender hills, se faz favor




Eu não tenho mordomo nem demais criadagem (e bastante falta me faziam), cãezinhos fofos, castelos fabulosos, iates em Veneza, mas tenho uma casa no campo. É onde estou agora.

Chegámos com uns abrasadores 37,5º, mal se conseguia estar na rua. Mas a casa estava fresca. As paredes são espessas e, fechada, a casa conservou a frescura da última vez que cá estivemos.


Estive a ler o Expresso e agora que estou a escrever isto e a tentar recordar-me do que li - apesar do tema da escravatura que claro que me impressionou, parece até impossível, e apesar das trafulhices do 'impoluto' Ricardo Salgado do GES que mereceriam um post inteiro - aquilo de que, assim de repente, me apetece falar é do artigo da Ana Cristina Leonardo em que escreve sobre o mercantilismo em volta da edição do último livro de Herberto Helder, começando a crónica por recordar Cesariny que se terá, a dada altura, desfeito de um quadro da Vieira da Silva, dizendo que o tinha trocado por uma carcaça, relacionando ela isso com o valor que talvez tenha no mercado negro um livro esgotado de HH. 


A propósito, tenho pena que o Expresso recorra tão pouco ao trabalho de Ana Cristina Leonardo. Já aqui o disse: posso nem sempre ter concordado com o que escreveu - o que é normal (o consenso permanente é malsão) - mas reconheço nela uma acutilância e qualidade de escrita bem acima de alguns dos que agora escrevem na secção de livros do Actual. 

Para além disso, temo que esta sua escassa participação se traduza numa redução dos seus rendimentos. Há tempos ela falou que, por causa da crise, teve que mudar de casa e a semana passada falou que tomara que não lhe cortem a luz. Para meu próprio sossego, ao ler coisas assim, prefiro pensar que são metáforas mas, aqui o confesso, fico sempre com medo que seja verdade. Pessoas ligadas à cultura deveriam sempre ser acarinhadas e nunca descartadas. As televisões estão cheias de porcaria, pimbalhada e estridências, e eu penso que, em vez dessas inenarráveis tretas, haveria público para muitos mais programas culturais. E os jornais e as revistas também - mas é certo que cada vez as pessoas compram menos papel e, na internet, as pessoas querem ler sem pagar. Há aqui questões por resolver e penso que a resolução que se anda a procurar vai sempre pelo caminho mais fácil - que não é, forçosamente, o melhor.
Agora estou a lembrar-me que Herberto Helder também escreve, neste seu último livro, que tomara ter dinheiro para comprar a próxima garrafa de gás, ele que, segundo também escreve, tem uma reforma de pilha-galinhas. Também não sei se são metáforas, se é uma escrita por simpatia, se é a triste realidade.

Dizia eu que li o Expresso e li-o todo, de ponta a ponta, (saltando as páginas de desporto e, em parte, as de política internacional) mas, pelo meio, adormeci e dormi o sono dos justos. Tenho a sorte de adormecer facilmente e deve ser um sono profundo porque, mesmo que seja curto, é reparador. Acordo sempre como nova.

Apenas por volta das 8 da noite fui capaz de ir lá para fora e, mesmo assim, ainda estava calor. Disse 'da noite' mas disse mal: estava sol e as abelhas andavam doidas em volta de um bocado de água junto à mangueira. Estive a regar algumas flores mas não reguei um décimo do que devia. Devíamos também cortar a erva que, em alguns sítios, cresceu e se transformou em matagal, devíamos aplicar bondex nas portadas, nas portas e nos bancos de madeira, que já estão tão secos. Meses de chuva e agora um calor destes estragam as madeiras. O alumínio não é tão bonito mas, ao menos, não dá trabalho a manter. E antes de se aplicar o bondex dever-se-ia lixar tudo mas onde é que há tempo e energia para uma coisa dessas, a preceito? O tempo é sempre tão escasso e, quando cá chegamos, vimos a precisar de descanso. Nem sei quando o poderemos fazer. Amanhã de manhã já estou de volta à cidade, vai ser um fim de semana cheio de programas familiares. As férias são poucas e, mesmo assim, também sempre cheias de afazeres. De qualquer forma, com calores destes também não é possível estar-se na rua a fazer trabalhos assim.

Os figos ainda estão pequenos, as ameixas também. Já só há uma ou outra nêspera no alto das árvores, nem se consegue lá chegar e, aquelas a que consegui chegar, doces como mel, já estavam bicadas pelos pássaros.

De tarde, com o calor que estava, o perfume das flores estava bem presente, era um perfume doce, uma misturas de vários odores. Os loendros, as sardinheiras, os tamarindos, os pinheiros, os cedros, o tomilho, o rosmaninho, todos os perfumes se misturam. As abelhas não largam as flores e eu ando de volta delas a tentar fotografá-las mas, mal as consigo focar, elas levantam da flor em que estão e vão para outra.

Mas, de todas as flores, nesta altura, a que mais perfume liberta para o ar, a mais suave, a mais sublime na sua perfeição tão simples, é o alfazema. É um perfume tão limpo, tão bom, um perfume que dá vontade apanhar com as mãos, guardá-lo nas gavetas, entre os livros, e, sobretudo, enviá-lo entre estas palavras para que chegue, com toda a minha estima, lilás, inocente e fresco, até vós.


Alfazema in heaven


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Ainda não é hoje que aqui partilho convosco o artigo sobre o braço da NSA na Europa e sobre o que lá se passa. A ver se amanhã o consigo pois penso que talvez achem interessante saber um pouco dessa realidade paralela - eu, pelo menos, achei.


Relembro:  caso gostem de ver casas espectaculares e ver o que é uma verdadeira vida de rico, desçam, por favor, até ao post a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo fim de semana!

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sábado, abril 05, 2014

Jorge Fallorca foi para longe do mundo. Talvez uma sombra o aguardasse. Talvez um trilho se tivesse escoado sob os seus pés. Talvez tenha ido para onde ainda se ouvem as correrias e os gritos da infância.








Hoje, enquanto estava a almoçar, fiquei durante um bocado sozinha e aproveitei para publicar os comentários deste blogue e, nessa altura, vi, na galeria de blogues que tenho aqui ao lado, que a Ana Cristina Leonardo tinha uma notícia muito triste no seu Meditação na Pastelaria. Jorge Fallorca tinha morrido. 


Ocorreu-me que ela deveria estar muito triste com essa notícia. Já lá vi algumas trocas de comentários e havia ternura e companheirismo entre eles. Para ele, ela era a Leoparda. Agora quis deixar-lhe uma bola de berlim mas não consigo entrar na caixa dos comentários. Gostava de lhe dizer que sinto muito que ela tenha perdido este seu amigo. Custa muito perder um amigo. De cada vez que se perde um amigo, perdem-se alguns esteios que nos seguram em tempos conturbados. Neste post ela não escreveu nada, limitou-se a publicar a fotografia dele e o ano do nascimento e o da morte. Não deve ter conseguido escrever nada ou sentiu que qualquer palavra ficaria aquém do que sentia. Percebo muito bem isso.

Fiquei eu também muito triste. Aliás, fiquei mesmo muito impressionada.



Às vezes acontecem coisas comigo que me deixam muito surpreendida e, de certa forma, algo inquieta. Coincidências, certamente. Nem gosto de falar nisto porque estas coincidências não têm explicação e eu gosto de perceber o que me acontece.

Na quinta-feira, por várias vezes, me veio à cabeça o que seria feito dele. Estava a trabalhar e isto não me saía da ideia. Ocorreu-me que há já algum tempo não via actualizações no seu O Cheiro dos Livros
Depois, quando cheguei a casa, fui ali, à lista dos blogues que tenho aqui no UJM e que está organizada descendentemente em relação às actualizações e confirmei que há já algum tempo ele não o actualizava.
Veio-me aquela inquietação de quando não sei nada de alguém por quem ganhei estima e aquela estranheza por, a despropósito, passar esta sombra no meu horizonte. 
Por isso, hoje a notícia deixou-me ainda mais transida. 

É que uma pessoa, apesar de estar fisicamente longe das pessoas e de não as conhecer pessoalmente, parece que lhes ganha afecto. 

Novata na blogosfera e pouco conhecedora dos seus habitantes, foi com surpresa que um dia reparei que no Um Jeito Manso tinha muitas visitas a partir de um certo blogue de que nunca tinha ouvido falar e cujo endereço era a junção de nem sempre a lápis. Fui ver e reparei que era o blogue do Jorge Fallorca e que as visitas resultavam de ele lá ter colocado um link para o meu. Deitei-me à descoberta, li e fui lendo por ali abaixo e tanto gostei que logo o coloquei na minha galeria dos Amigos e Ilustres Desconhecidos


De vez em quando, esporadicamente, recebia um comentário seu e outras vezes era eu que lá deixava um comentário. Enternecia-me especialmente quando ele, orgulhoso, mostrava os bebés, fofos, lindos.

A última vez que lá deixei um comentário, ainda não há dois meses, mostrava-se ele entre a matriarca, a 'bisa', e os dois bebés que dormiam, uma ternura tocante.

Em Outubro passado descobri um livro seu, Longe do Mundo, numa pequena livraria e foi como se tivesse descoberto uma parte de alguém de quem me estava a habituar a estimar. Escrevi, então, um post sobre isso, um post que escrevi com muito apreço e carinho. Tinha lido o livro e estava muito agradada com a sua escrita e tocada pela vida que ele ali tinha deixado impressa.

Dei a esse post o seguinte título:

"Logo vais ter as mãos suspensas no luar: a memória da tarde", "O vento suspende os pássaros no ar", e outras palavras longe do mundo.

Estou a escrever isto e estou mesmo triste. Há pouco, não querendo ainda acreditar, fui ao google e li por aí que talvez a sua morte não fosse inesperada, estava doente. 

Mas fico com muita pena. Era novo, escrevia tão bem, era uma pessoa tão delicada, tão simpática, tão próximo da simplicidade da vida. Custa-me muito saber que Jorge Fallorca morreu. 


Evito falar de mortes por aqui. Quando morre alguém conhecido, a internet enche-se de RIP, de parêntesis com a data do nascimento e a da morte, e eu não digo nada, não gosto de me aproximar da morte nem que apenas em palavras. Mas há partidas que me tocam especialmente e de que não consigo deixar de falar.

Aqui há tempos morreu o Manuel Medeiros a quem eu me tinha afeiçoado e que me tinha incluído na sua roda alargada de amizades e eu, quando soube, fiquei também tristíssima. Tempos antes tinha escrito um texto em que fingia que estava mal e eu assustei-me e transmiti-lhe a minha preocupação (eu e o Onésimo). Dois dias depois, rindo-se e desculpando-se, escreveu um texto delicioso, explicando o que se passava. Um fino sentido de humor e uma delicadeza atenta. Mas pouco tempo depois foi-se mesmo embora o Livreiro Velho e eu fiquei sem esse amigo recente.

Mas os seus blogues continuaram aqui na minha galeria e ainda bem porque continuam bem vivos.

Assim acontecerá com o blogue de Jorge Fallorca a que eu, aqui na minha galeria, dei o nome de Andando por aí com música e palavras. Vou fazer de conta que foi só ali - talvez sentar-se debaixo da figueira, esperando que se encha de perfumada folhagem e cantarolante passarada - e que já vem.


Recordo hoje algumas das suas belas palavras que transcrevi no post acima referido e que hoje me parecem tão tristemente apropriadas.


A casa extingue-se na tarde. 

Por momentos tenho a ilusão do silêncio,
e apenas o estalido dos salgueiros me lembra que estou vivo.

Que uma sombra me aguarda.

Quando tudo retoma o seu lugar, um trilho escoou-se sob os meus pés.

...

Tacteio o ar para esquecer a aridez do tempo.

Nos corredores ainda se ouvem as correrias e os gritos da infância,

mas tudo não passa de uma ilusão para adiar a noite.





Tomara que a família saiba a maneira de atenuar a tristeza pela sua partida.


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A música acima é Vita Brevis de Rodrigo Leão. As imagens são de Kim Keever


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom fim de semana.

domingo, março 23, 2014

As crónicas semanais de José Tolentino Mendonça, Pedro Mexia, Ana Cristina Leonardo e outros que me mantêm presa ao Expresso. Com eles apetece primaverar. As suas palavras não se limitam a alegrar canteiros bem ordenados, a sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente. Que coisa são as nuvens, fraco consolo e isto anda tudo ligado. Ah pois é.


Depois de, no post abaixo, vos mostrar uma mãe aflita, a patinar em seco, tentando explicar à filha o que significa 'virgem' e de, no seguinte, ter entrado na Maison Chanel para ver o enigmático Lagerfeld a preparar o desfile primavera/verão 2014, aqui, agora, parto para outra.

Poderia fazer a vontade aos leitores que entram no Um Jeito Manso escrevendo nos motores de busca frases como: 'revelada orientação sexual de deputados e ministros' ou 'artigo sobre a homossexualidade dos que votaram contra a co-adopção'. 


Desde há vários dias que estas questões me aparecem, algumas referindo os nomes em concreto. Claro que, logo no dia seguinte ao ex-dirigente do PSD Carlos Reis ter protestado contra a votação do PSD e CDS, confrontando alguns políticos com a sua coerência pessoal dado que, segundo ele, são homossexuais, recebi, de alguns leitores, o texto em questão com os nomes bem explícitos. Não publiquei nada na altura tal como não me pronuncio agora


Os nomes que lá aparecem são nomes de quem sobejamente se afirma a homossexualidade mas, assumi-lo publicamente, é coisa que é com cada um e não serei eu que aqui me farei eco disso. Aliás se eu sou favorável à co-adopção isso tem a ver com a minha consciência e não com a minha orientação sexual e, portanto, não é disso que vou aqui falar hoje.

Também não me pronunciarei sobre uma questão que ultimamente me aparece muito nas estatísticas do blogue: a magreza, que prenuncia doença, de uma certa figura pública. É doença, sim, mas não me parece que seja tema para aqui falar. Só se for para dizer que admiro a coragem dos que, apesar de ser notória a magreza e de saberem que poderão passar a ser olhados com uma certa comiseração, continuam a exercer as suas funções, tomando, inclusivamente, posição em assuntos controversos e, por isso, sujeitando-se a críticas e censuras incómodas.

Gostaria, pelo contrário, de falar de alguns artigos sobre a dívida portuguesa: é pagável? é para esquecer? fazer o quê? varrer o assunto para baixo da carpete? ... what...? - mas agora não me apetece.


*


Estou in heaven, na maior paz. Isto está a maravilha de sempre, a natureza delicada e pujante (se é que possível conciliar conceitos aparentemente contraditórios) que sempre me surpreende na primavera. E, quando estou assim, mergulhada em quietude e beleza, não me apetece nem um bocadinho falar em dívida descontrolada ou em estúpidos que não sabem lidar com situações complexas.

Além do mais, é quase uma da manhã, estou perdida de sono e estou a fazer tempo para o Downton Abbey que nunca mais começa. Ainda hei-de perceber a anormalidade das cabeças dos responsáveis pela programação das televisões que enchem os horários mais acessíveis com porcaria e mais porcaria e deixam as coisas boas para horas absolutamente impróprias. A estupidez instalou-se em todo o lado, senhores.

Por isso, se me permitem, em vez de falar de coisas chatas, vou antes primaverar.


Uma vez mais vou buscar as luminosas palavras do Pde. José Tolentino Mendonça.

As suas crónicas semanais quase justificariam o Expresso e fazem com que não me sinta burra de todo por comprar um jornal que aloja opinadores que atentam contra a inteligência de quem os lê como é o caso de um tal João Vieira Pereira de quem nem consigo pronunciar-me, um Henrique Raposo que escreve como um rapazola armado em esperto, um Duque cuja opinião varia consoante o sentido do vento, um Daniel Bessa cujos textos têm a consistência da enxúndia, um Henrique Monteiro que fala do que não sabe com uma soberba que induz em erro os incautos, um Ricardo Costa que disserta sobre evidências ou que se arma em zandinga, ou um José Mário Silva que não tem gosto literário apurado ou que, ao fazer uma crítica, revela coisas que o autor certamente gostaria de reservar para o momento certo (como é o caso da absurda recensão que faz do último livro de Dulce Maria Cardoso, o 'Tudo são histórias de amor').


No entanto, para ser justa, terei que dizer que não é só José Tolentino Mendonça que me cativa dentro da casa que é o Expresso. Pedro Mexia, sempre: é um príncipe na forma como escreve. Clara Ferreira Alves é outra âncora. Miguel Sousa Tavares também. João Garcia, Nicolau Santos, Fernando Madrinha são sempre portos seguros onde não se pode deixar de ir. Desde há pouco tempo, o Expresso tem uma das mais lúcidas vozes do jornalismo português: Pedro Santos Guerreiro. Um prazer ler o que escreve e provavelmente a ele voltarei amanhã. 


E não deixo também de ler as crónicas de Ana Cristina Leonardo, 'Isto anda tudo ligado'. Anda triste com isto tudo, ela, e compreendo-a, também eu me sinto muitas vezes cercada por mediocridade; além disso, do que percebo, as coisas não estão fáceis para ela. Por vezes, ao ler o que escreve, fico preocupada por ela. Depois de ter tido um lugar de destaque no Expresso, a sua presença tem vindo a reduzir-se. Não percebo porque não aparece mais na crítica literária. Nem sempre concordei com ela mas, apesar de uma ou outra divergência, reconheço que é culta, inteligente, que tem uma forma irreverente de estruturar as ideias. Por isso, lê-la não nos deixa indiferentes. O Expresso deveria reconsiderar alguns critérios: há nomes que atraem leitores e Ana Cristina Leonardo é seguramente um deles.


Quando penso em negócios a que eu gostaria de deitar mão, um deles é o de ter uma revista literária. A LER caminha cada vez mais para ser carta fora do baralho. O mercado de língua portuguesa tem espaço para uma nova revista. Tenho bem claro na minha cabeça o que seria uma revista boa e rentável e tenho também bem claro quem é que eu contrataria. Não contrataria nem o kitsch Valtinho, nem o inconsistente José Mário Silva, nem o Casanova, esse chato pedante. Mas contratava os acima referidos da área da escrita literária e talvez também o António Guerreiro. Gostava de quando ele escrevia no Expresso. E mais uns quantos, alguns bem improváveis (que aqui não divulgo porque o segredo é a alma do negócio e sei lá se um dia não me abalanço mesmo a isso).



Mas adiante, que já se faz tarde e eu ainda para aqui na conversa.

*

Green Kalahari, se faz favor.

Que Abdullah Ibrahim solte as suas mãos sobre o piano e deixe que a música nos envolva



*

Esquecemo-nos que as estações se conjugam como um verbo e que, por isso, a pimavera não é apenas um fenómeno exterior, um substantivo que descreve anualmente a natureza à nossa volta, mas é uma realidade que posso dizer de mim: 'eu primavero'. 



Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo passa por um incrível processo de rejuvenescimento. 

A vida parece uma rebentação, um contágio imparável, um sobressalto. 

Quando, de repente, tínhamos tudo para nos pensarmos completos, gastos ou acabados, descobrimos que a vida é o aberto. A verdadeira sabedoria, aquela que nos faz tocar o coração da vida, é a sabedoria do inicial, do verde tenro, do primaveril, do incessante. 

Desde que nascemos estamos não só prontos para morrer, mas estamos sobretudo preparados para nascer, as vezes que forem precisas.

Primaverar é persistir numa atitude de hospitalidade em relação à vida. Ao lado do previsto, irrompe o imprevisível que precisamos aprender a acolher. 


Misturado com aquilo que escolhemos, chega-nos o que não escolhemos e que temos, na mesma, de viver, transformando-o em oportunidade e desafio para a confiança.


A primavera não tem uma linha demarcada: transborda sempre e temos de preparar-nos para isso. Ela não fica a alegrar apenas os canteiros muito bem ordenados. A sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente, para lá da vida que pensamos domesticada pelos nossos cálculos.


Pobres de nós: achamos que conseguimos dominar completamente o mundo com os nossos cinco sentidos! Precisaríamos, na verdade, de cinco mil para perceber um pequeno quinhão do que somos.

Há quanto tempo não caminhamos assobiando, ou seguimos com um fio de erva nos lábios, sem mais, sem pressas nem pretensões, acreditando simplesmente no valor de ser e que, por isso, nos dão a possibilidade de estar, de vaguear, de medir o momento apenas com o peso e a leveza da própria marcha?



Quando vamos de um lado para o outro estamos, normalmente, presos aos motivos que justificam a deslocação. 

Mas - temos que reconhecê-lo - uma viagem assim é demasiado curta. Há uma outra viagem que só começa quando as perguntas sobre o que fazemos ali deixam de interessar. 

Estamos, ponto final. Viemos.







Não é o saber ou a utilidade que a definem, mas o próprio ser, a expressão profunda de si. 



A sabedoria dos que primaveram não consiste, assim, num reconhecimento prévio, mas em alguma coisa que se descobre na habitação do próprio caminho.






***


O texto acima, em itálico, é formado por excertos da crónica 'PRIMAVERAR' de José Tolentino Mendonça da Revista do Expresso deste sábado.


As fotografias foram feitas este sábado in heaven onde a primavera rebenta fora de canteiros, livre, iluminada, feliz como os inocentes pássaros e coelhos que são os verdadeiros donos deste espaço.


***

Recordo: por aí abaixo há vídeos bons de ver.

***

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo. 
E primaverem, meus Caros, primaverem. 


terça-feira, dezembro 17, 2013

Listas (da 'Poética do et caetera' de Pedro Mexia a 'Uma lista mas sem exemplo, o Umberto Eco que me perdoe' da Ana Cristina Leonardo), listas para todos os gostos. E logo eu que não sou nada dada a listas.




*

Não sei o que deu nas pessoas, parece que desataram todas a pensar em listas. 

Neste Actual do Expresso pelo menos o Pedro Mexia e a Ana Cristina Leonardo estiveram para aí virados nas suas crónicas hebdomadárias (palavra mais engraçada esta: hebdomadária). 


Diz Pedro Mexia que, chegados ao fim do ano, toda a gente faz ou comenta listas. Mas depois diz uma coisa que me tira logo o tapete para o que eu me preparo para dizer. Diz ele do alto da sua sapiência: Os espíritos sofisticados detestam listas, acham-nas hierarquizantes, conformistas, mercantis. E depois, num assomo de auto-indulgência (e lá está: mais um fishing for compliments) diz que as defende sempre e continua o texto arranjando uma claque do caraças: Homero, Proust, Umberto Eco, Barthes, etc, etc, e até aos autores da Bíblia ele vai buscar apoiantes.

À Ana Cristina Leonardo parece que deu uma coisinha má e faz uma lista de efemérides, uma para cada dia do mês de Dezembro até ao dia 25 em que, com graça, acaba com uma interrogação, uma data por confirmar, a do nascimento do Menino Jesus.

Agora ligo o computador e percorro a galeria lateral e vejo a Joana Lopes a invocar as listas de efemérides para chegar à  Liv Ullmann.

E há as listas dos livros bons para oferecer, a lista das músicas que têm que se ouvir, os livros de que jamais se deverá esquecer, as listas de recados, as listas de palavras. 

E logo eu que acho que nunca fiz uma lista na vida.

Sou atípica, eu sei: não faço anotações nos livros, não tomo apontamentos, não faço listas, não guardo nem nunca guardei bilhetes de cinemas, de museus, de comboios, bilhetinhos de amor, nada, nada, nada.

Acho que já o confessei. Vou para as reuniões de mãozinhas a abanar. Chego lá e vai tudo com valises cheias de dossiers, pastas com pastas dentro, iPads, portáteis, tudo. E eu como se fosse fazer turismo.

Sentam-se à volta da mesa, cada um puxa do seu arsenal - e eu nada.

Depois escrevem, escrevem, e eu nada. Por vezes lá há um ou outro assunto que me parece merecer registo. Então pego numa folha A4 daquelas que há em cada lugar e escrevo um ou outro tópico, não mais que uma meia dúzia de palavras por junto. A maior parte das vezes quando a reunião chega ao fim dobro e rasgo discretamente e fica ali mesmo. Outras vezes, raras, raras, dobro bem, meto na carteira. Quando chego ao gabinete faço um ou outro telefonema ou um ou outro mail, o assunto é esclarecido ou posto em marcha e a folhinha rasgada.

Atrás de mim tenho armários fechados até ao tecto. Praticamente vazios. Já mudei de empresa e de local de trabalho várias vezes. Ao princípio, quando me mudava, enchia vários caixotes. Havia trabalhos de que achava que não me devia separar até ao resto da minha vida (trabalhos no âmbito de uma linha de apoio do Banco Mundial, reestruturações de envergadura, relatórios Mckinsey ou Boston Consulting Group ou outros relativamente a projectos complexos em que participei, etc, etc). Aos poucos fui achando que tudo aquilo era datado, irrelevante e fui deixando para trás. Os meus caixotes foram-se reduzindo. A última vez trouxe apenas dois mal cheios e quase tudo coisas pessoais, uma pedra que apanhei na praia, um bocado do tronco de uma árvore, uma caixa metálica com o Fernando Pessoa, um bonequinho com um grande coração nas mãos, uma caixa com canetas (que nunca uso), umas meias de reserva, coisas assim.

Aqui em casa é a mesma coisa. 

Listas? Zero. 

Detalho. Listas de presentes? Zero. Listas de compras para a casa? Zero. Listas de tarefas para cumprir? Zero. Listas de ideias para pôr em prática? Zero. Lista de palavrinhas? Zero.

A única coisa que me interessa é o que me ocorre no momento. Apontamentos ou listas são para mim sempre coisa do passado e do passado só me interessa o que me fica de cabeça, o que a minha memória possa temperar livremente.

Mas vá lá. Já que toda a gente anda numa de listas, não vá haver por aí algum picuinhas que ainda ache que estou a fingir que tenho um espírito sofisticado, vou fazer, por uma vez, uma tentativa.

Lista de palavras: suculenta, sibilina, esfínge, palaciano, intravenosa, oscilante, dormente, arrojada, truculento, desnudada, artemes, artemísia, diana a caçadora, brincos de princesa, brocado, macio como a carne de um diospiro, bagos de romã, grevílea robusta, musgo macio como uma fresca penugem, gruta, silêncio, falacioso. 

Não tem graça. Vou parar. Não dá, isto não é para mim. Serve para quê? Para daqui por uns anos olhar para estas palavras como flores secas cheias de pó? 

Que as pessoas normais as façam. Eu desisto. Não sou normal - e não, não estou fishing for compliments porque estou bem assim, aqui sentadinha a assistir às listas e às conversas das pessoas normais. Eu sou mais dada a ouvir e imaginar blackbirds, a inventar manchas ocasionais de cor, impressões passageiras - e sempre disponível para o que der e vier, sem laços, livre de listas ou outras amarras.


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As pinturas são de Joan Snyder. A fotografia é de Franco Fontana.

A canção é Blackbird e aqui é interpretada por Sarah McLachlan


domingo, outubro 13, 2013

"Barómetro Literário" do Expresso. O PSI 20 dos escritores portugueses segundo os críticos literários do Actual, Clara Ferreira Alves, o dito José Mário Silva, Pedro Mexia, Luísa Mellid-Franco e Ana Cristina Leonardo. Muito bem. Gostei. E belas ilustrações de Gonçalo Viana. Estão de parabéns.






Depois de ter já aqui algumas vezes desfiado o meu desagrado pelos fretes que as revistas e suplementos literários fazem às editoras ou ao público mainstream (que consome tudo o que é vendido com roupagens propagandísticas bem engendradas), eis que hoje o Expresso me surpreende agradavelmente.

Por causa das doze páginas que o Viegas deu ao Valter não comprei este mês a Revista Ler tal como não compro Jornais de Letras ou o que quer que seja que estenda passadeira vermelha a artistas que se convencem que são escritores mas que, hélas, não passam nem por lá perto.


No outro dia fiquei passada com o José Mário Silva no Actual, todo ele a enroupar aquele fulano que gosta de andar nu e assim deveria ser mostrado. Quando um crítico literário louva os Valtinhos desta vida, eu, a partir daí, deixo de considerar a sua opinião e, por arrastamento, descreio dos jornais ou revistas que contratam críticos de gosto tão duvidoso. Não é por nada mas como é que, a partir daí, posso fiar-me no que dizem?

Claro que, em relação ao Expresso, não posso ser tão purista pois, não tendo eu tempo para ler jornais diários, tenho que me desforrar ao fim de semana e, além do Actual, gosto de ler todo o resto (excepto o que se refere a desporto).


Posso achar que o Ricardo Costa gosta de se armar em profeta - e de, a partir daí, se ver na necessidade de provar que tem ou vai ter razão ou de justificar porque é que não a teve - e que, pior ainda que isso, tem pouco sentido crítico, não é intuitivo, se um palerma qualquer diz uma parvoíce qualquer, ele não duvida. Posso também achar que é de gosto muito duvidoso ter lá uma criatura como o Henrique Raposo, que é vulgar e de um reaccionarismo primário, ou um Daniel Bessa que defende uma coisa e o seu contrário, tudo sempre fora de tempo e dando palpites sempre ao lado, ou um Henrique Monteiro que escreve banalidades com ar proficiente, demonstrando que é tão influenciável que até chateia - mas, enfim, tem também uma Clara Ferreira Alves, agora um Pde José Tolentino Mendonça, um Nicolau Santos, um João Garcia, um Fernando Madrinha, um Pedro Adão e Silva e outros cujas opiniões gosto de ler, mesmo que nem sempre concorde com o que escrevem.


Por isso, reportando-me agora apenas à crítica literária, não é uma andorinha como o José Mário Silva que estraga a primavera e, portanto, de forma fiel, lá continuo todos os sábados a ler o Expresso.


Mas, dizia eu, esta semana surpreenderam-me e redimiram-se. Com um trabalho como o de hoje o Expresso fez um favor aos seus leitores.

A ideia do Expresso foi dar oportunidade aos críticos literários residentes de, no que à literatura portuguesa diz respeito,  separarem o trigo do joio, indicando quais, em sua opinião, são os escritores mais sobrevalorizados e quais os mais subvalorizados. 


E, ao fazê-lo, revelaram a sua própria qualidade de críticos literários. 

Os leitores do Actual do Expresso agradecem esta separação de águas.

Não apenas é interessante confrontarmos a nossa opinião pessoal com a deles como ficamos a perceber melhor quais os seus referenciais.



Clara Ferreira Alves coloca Alexandre O'Neill e 'Subvalorizar "novíssimos"' no grupo dos que deveriam merecer mais atenção. 


E, de forma clara, aponta o dedo aos jogos de interesse que proliferam nos pequenos meios literários que sobrevalorizam uns, impedindo a valorização de outros que a mereceriam. 



Refere explicitamente que a LER é um produto de lobby, o de Francisco José Viegas com o seu index de inimigos e desagrados


Concordo com ela.


Por outro lado, coloca Miguel Torga e Valter Hugo Mãe no grupo dos que são sobrevalorizados. Sobre Miguel Torga não sou tão justiceira como ela mas, sobre o segundo, faço minhas as suas palavras: é um dos exemplos mais cómicos do cabotinismo literário lusitano.


Com José Mário Silva não me identifico, excepto talvez no que se refere a Carlos de Oliveira que acha que é subvalorizado face ao que vale. Não me revendo nas suas restantes opções, passo à frente.



Pedro Mexia deixa-me curiosa com as suas escolhas sobre os que acha que mereceriam melhor reconhecimento: Rui Knopfli e Teresa Veiga. Conheço mal o primeiro, não tenho, pois, ideias formada sobre ele, e não conheço Teresa Veiga. Tenho um único livro dela e acho que ainda não li. Tenho que ir averiguar. Prezo a opinião de Pedro Mexia (apenas uma vez achei que estava a fazer um frete mas percebi depois que, a ele, a amizade por vezes tolda-lhe a isenção e, enfim, sendo isso raro e sendo por uma boa causa, por aquela vez passou).


Quanto aos que acha que valem menos do que o valor que lhes é atribuído, acho que Pedro Mexia foi um cavalheiro: sobre Luis Sttau Monteiro cingiu-se à peça 'Felizmente há luar' e, ao referir Florbela Espanca, falou da sua vida complexa e tempestuosa que despertou uma atenção tal que ajudou a sobrevalorizar a sua obra. Concordo.


Luísa Mellid-Franco escolhe Fernando Campos e Pedro A. Vieira como os mereceriam mais atenção mas não posso opinar: não conheço a obra de um e outro. 


Nos que considera sobrevalorizados coloca António Lobo Antunes (com excepção para os três primeiros livros). Eu juntaria às excepções os livros de Crónicas. Os restantes livros são como diz Luísa Mellid-Franco: circulares, déjà vu. Junta J. Rodrigues Santos como um dos que não merece a fama que tem. 


Custa-me ver António Lobo Antunes ao pé do gnomo no jardim, parece-me que, apesar de tudo não há comparação. Mas, enfim, embora guardando as devidas distâncias, concordo que o primeiro é sobrevalorizado no que toca aos romances a partir dos três primeiros e concordo que o segundo não pode ser considerado escritor.





Finalmente Ana Cristina Leonardo. Gostei das suas escolhas. Nos que considera que deveriam ser melhor divulgados, refere Teresa Veiga, tal como Pedro Mexia o fez. E junta Ferreira de Castro, o que me agradou muito. Li a obra inteira de Ferreira de Castro ainda era menina e moça e acho que foi com ele que conheci a vida dos que, vivendo em condições difíceis, conservam a dignidade, dos que têm a sabedoria da vida em tempos de neve, nas serras, entre pedras, mãos calejadas, aventuras e sobrevivência a par de uma vida dura. E a Selva, que tenho em luxuosa edição, capa de pele e ilustrações de Júlio Pomar, que me ensinou o que é natureza humana quando a sobrevivência tem lugar na solidão de uma natureza cuja vida rebenta por todo o lado, a toda a hora. Gostei muito que Ana Cristina Leonardo se tivesse lembrado de Ferreira de Castro.



Como concordo com as duas estrelas de pechispeque que a falta de exigência vigente confunde com estrelas de verdade: José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe. Sobre o primeiro gostei, salvo erro, do Nenhum Olhar e gosto de um ou outro poema. Mas de todos os outros penso que são puro pastiche, lugares comuns, kitch, coisa armada nem sei em quê, uma repetição saturante. Sobre o segundo, o homem do sexo lavável (vá lá, ao menos é limpinho), faço minhas todas as palavras de ACL (nomeadamente quando diz que, se toda a literatura é fake, convém que não se note logo).

Ana Cristina Leonardo é uma arretada do caraças (e agora falo também da sua vertente pessoal, que conheço através do seu Meditação na Pastelaria). Tirando as vezes em que se atira, sem dó nem piedade, à jugular do colega de profissão, Eduardo Pitta - faz-me impressão aquele destratamento impiedoso para com um colega; acho que poderia ser crítica sem ser tão cruel ou, se sente mesmo necessidade de o mutilar, então que o fizesse em privado - geralmente estou de acordo com ela e até acho piada à forma desabrida e destemida como dá o peito às balas. Acho que conserva aquele despudor e aquela irreverência próprios das adolescentes difíceis - e isso tem graça.



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Como referi no título da mensagem, está também de parabéns o ilustrador Gonçalo Viana. Belo trabalho. 


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A música é Sou tua numa interpretação de Marta Dias com António Chainho. Gosto muito da voz de Marta Dias. Escolhi-a porque queria uma música portuguesa pouco conhecida e interpretada por alguém que não fosse maisntream - e foi logo dela que me lembrei


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E, por agora, por aqui me fico. Tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo.

segunda-feira, agosto 26, 2013

Face à briga literária, com o Expresso transformado em cenário de guerra, entre Arnaldo Saraiva e Filipe Delfim Santos a propósito de um livro sobre a correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões o que eu tenho a perguntar é o seguinte: esta gente das literaturas, críticos e editores literários, é tudo gente cheia de birras, ódios de estimação, pancada da grossa ou quê...? É que mais parecem umas vizinhas a dizerem mal uns dos outros, credo. Neste meiozinho literário há alguém que goste de alguém ou vivem todos à beira de se esganarem uns aos outros? [Vidé também o António Guerreiro e a Ana Cristina Leonardo em relação ao Eduardo Pitta]


Em tempos foi o António Guerreiro, no Expresso, a atirar-se à bruta ao Eduardo Pitta, a atirar-se à bruta e a gozar descaradamente, uma coisa excessiva. Parecia um ajuste de contas em público, uma coisa feia de se ver. 


Já a Ana Cristina Leonardo não perde oportunidade de fazer o mesmo, dar tareia a sério no mesmo Pitta lá no seu Meditação na Pastelaria, blogue que sigo aqui na minha galeria de 'Amigos e Ilustres Desconhecidos', baptizado como 'Rebelde com causas'. Acho graça à Ana Cristina Leonardo, tão emotiva, tão impulsiva, mas há que reconhecer que, em relação ao Eduardo Pitta, há ali um odiozinho de estimação que chega a fazer impressão (independentemente de eu lhe poder dar alguma razão aqui ou ali).


Jorge de Sena e João Gaspar Simões -
- nem eles sonhavam o bate-boca a que a sua correspondência viria a dar lugar

Agora no outro dia foi o Arnaldo Saraiva que escreveu um texto longo no caderno Actual do Expresso a dissertar e rebater e a dizer que não disse e que o que a senhora disse, que ela não o deveria ter dito, ou que não foi bem isso que ele disse, e que os outros disseram o que não deviam ter dito, e parece que a coisa azedou por causa de umas alusões homossexuais lá na tropa e mais não sei o quê e que ele até desmentiu, e que o editor não sei que mais, e que a a senhora é isto e aquilo e mais um par de botas e por ali anda o Jorge de Sena e a Srª D. Mécia e o João Gaspar Simões e mais o editor e o escambau no meio daquele azedume todo.


A gente chegava ao fim daquele texto e pensava, ó c'um catano, qu'esta gente parece qu'anda uma vida inteira a coligir raivinhas e azedumes para, anos depois, os vir bolsar em público...

Pois bem, este sábado eis que a coisa se estragou de vez. Outra vez artigo de duas páginas, desta vez saindo à liça o dito editor literário Filipe Delfim Santos a dizer das boas ao Arnaldo Saraiva. E lá aparecem outra vez que este disse, que o outro respondeu, e que isto, aquilo e o outro, e mais farpas, alfinetadas, e ainda uns gaspões, umas dedicácias, e ainda uns cauteleiros fardados, e que as frustrações de um e outro que queriam ser o que não são e que os académicos andam afastados da realidade e mais um palavreado que não acaba.


A gente lê estes desfiares de raivinhas, fúrias descabeladas, rangeres de dentes, e imagina-os a escreverem, pulsação acelerada, doidos da vida a não se quererem ficar atrás, enrubescidos, furibundos, orgulhozinhos feridos, a ajustarem contas como se disto dependesse a sua vida. E a gente lê e pensa: mas está tudo doido?!

E pergunto eu na minha santa ignorância: será que não poderiam limitar-se a fazerem duelos aí numa qualquer viela? Ou a escreverem cartas ofensivas uns aos outros? Coisas assim civilizadas em vez destas peixeiradas em público? Em vez desta barrela de roupa suja que parece que nunca mais acaba?

Ó senhores que ninguém me poupa...!


segunda-feira, agosto 20, 2012

50 livros que toda a gente deve ler, segundo o Actual do Expresso - e uma sugestão para que a lista seja mais completa. E um pouco de 'dá-lhe beijos um cão' de Manuel S. Fonseca (uma das mais livres e modernas vozes do Actual)


Música, por favor



Pablo Casals, de quem amanhã ou depois vos falarei,  interpreta "The Swan (O cisne)" de Saint-Saens em 1925

(A pessoa que colocou o video no YouTube refere que I put the silent film footage of the famous Russian Ballerina, Anna Pawlowa (1881.2.12 ~ 1931.1.23), dancing her most famous work, "The Dying Swan", choreographed for her by Michel Fokine in 1905. This footage was filmed by Pathe Freres company on June 18th, 1907)

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50 Livros que toda a gente deve ler


Volto ao suplemento Actual do Expresso desta semana. 50 livros que toda a gente deve ler. Ana Cristina Leonardo, Clara Ferreira Alves, Henrique Monteiro, José Mário Silva, Luísa Mellid-Franco e Pedro Mexia pronunciam-se e João Cristóvão ilustra (e ilustra muito bem!).



Franz Kafka, autor de O Processo, um dos 50 recomendados


Sobre esta lista de 50 livros já Eduardo Pitta se pronunciou notando a falta de Os Lusíadas e do Livro do Desassossego e reparando que apenas 5 dos 50 são de autores de língua portuguesa. Também eu tinha notado isso.

Nestas alturas de veraneio é costume os jornais ou revistas aparecerem com sugestões de leituras para férias e, portanto, aparecem aqueles livros mais ligeiros, publicações recentes, coisa para se pegar entre uma sesta e uma ida à praia.

Não é isso que aparece aqui nesta lista de 50 livros. Aqui aparecem, sobretudo, os clássicos, as grandes obras. E compreende-se.



Da esquerda para a direita: Virgina Woolf, Marcel Proust, Emily Brontë, James Joyce


Um ou outro dos chamados a sugerir ousou um pouco e avançou para terrenos menos neutros, menos conservadores. Mas, de forma geral, os livros que aqui aparecem são os pilares (Odisseia), os grandes russos (Guerra e Paz, Crime e Castigo), os grandes murais, as epopeias, as grandes vivências humanas (Os Miseráveis, A Montanha Mágica, Ulisses, A Divina Comédia,...), os grandes dramas românticos (O Monte dos Vendavais, Madame Bovary, Retrato de uma Senhora), etc, etc, etc.

Em português de Portugal temos apenas O ano de Ricardo Reis de Saramago, Os Maias de Eça de Queirós, a Poesia de Álvaro de Campos, a Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Tão pouco.



Fernando Pessoa (ou, mais concretamente, dado que foi o escolhido, Álvaro de Campos) e Eça de Queirós


Claro que construir uma lista dos 50 melhores livros de sempre é uma ingrata tarefa, é uma coisa redutora, forçosamente injusta. Mas custou-me muito ver tantos livros extraordinários deixados de fora e, sem chauvinismo o digo, uma tão fraca representação portuguesa quando a nossa literatura é tão rica.

Mas o mal (se é que de mal se pode falar numa coisa destas) não está nos jurados mas na missão. Um conjunto de apenas cinquenta livros é forçosamente uma amostra pequena demais. Quem tem que escolher tão poucos, tende, forçosamente, a jogar pelo seguro, pelo indiscutível.

Além do mais, penso que ajudaria o leitor (ou o potencial leitor pois penso que é, sobretudo, a potenciais leitores que um artigo destes mais interessa) se houvesse uma arrumação em géneros, já que quem não é muito dado a leituras, vai lá mais facilmente se for dirigido.

No entanto, que não se pense que estou a achar negativa a iniciativa de recomendar os melhores livros. Não, pelo contrário. Acho este exercício muito interessante e acho que deveria ser aprofundado. Sugeriria que se estabelecessem, pois, tipos ou géneros e, dentro de cada um, então se seleccionassem uns quantos, uns dez talvez. Penso que seria útil que, ao longo das semanas, fossem saindo, com formato idêntico ao desta edição - isto é, convidando vários entendidos em que, cada um, faria a resenha do que escolhesse.

Por exemplo: os 10 melhores policiais; os 10 melhores livros de poesia universal; os 10 melhores livros de poesia em língua portuguesa; as 10 melhores biografias ou autobiografias; os 10 melhores romances russos; os 10 melhores romances portugueses; etc, etc.



A árdua tarefa de escolher um livro ou a árdua tarefa de arrumar livros


Acho que seria uma preciosa ajuda para quem deseja constituir de uma forma avisada uma biblioteca bem estruturada.

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Boudu caminha ao lado do Sena em passos lascados, saltos de cabra velha, um Baco de barbas hirsutas e anárquicas. 



Boudu vai matar-se.

O cão que beijando-o o lambia, o único húmido focinho a que ele dava beijos, fugiu-lhe ou perdeu-o ele na sua labiríntica liberdade. O desgosto atira-o ao rio.

Seria a morte de Boudu, se Monsieur Lestingois, tão refinado livreiro como voyeur, não estivesse, para desespero da ciumenta criada sua amante, a espreitar por um óculo as damas das margens do Sena. O livreiro lança-se ao rio e desafoga o vagabundo. 

Lestingois é um reformista nato. Olha para Boudu, magnífico animal, e antevê a obra civilizadora: transformar a besta em cavalheiro.

Boudu tem uma electricidade neurológica caótica: inferniza a mesa do jantar, cospe com naturalidade nas doces páginas da 'Fisiologia do Casamento' de Balzac e, saudade dos beijos de cão, tenta beijar a boca de Anne-Marie, a amante do seu salvador. 



Boudu em acção
(representado pelo actor Michel Simon que, segundo referido no texto,
é ele mesmo anarquista, pornógrafo e misantropo


Beijará sim, fazendo soar trombetas, a boca de Madame Lestingois, bem precisada de uma brisa no decote e de uma musiquinha de realejo nos ouvidos.

No fim, o admirável troglodita (...) regressará, sem adeus e muito menos agradecimento, à sua desabrigada liberdade. Monsieur Lestingois consola-se a olhar o rio, o carinhoso braço direito apertando a criada, o esquerdo a terna esposa, um degrau de felicidade acima no firmamento balzaquiano.


Este excerto - extraído da crónica semanal O cinema dá o que a vida rouba com o saboroso título 'Dá-lhe beijos um cão', que se refere a um filme de Renoir - apesar de ser um pequeno e salteado excerto, mostra bem a qualidade de escrita de Manuel S. Fonseca, um dos mais interessantes cronistas do suplemento Actual do Expresso, um dos que, em minha opinião, melhor escreve, sempre com uma liberdade e uma frescura que se repete de semana para semana, ou melhor, que vem em crescendo de semana para semana. Manuel S. Fonseca escreve também no blogue Escrever é Triste e os seus textos são sempre uma maravilha. 

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E, para já, nada mais. Uma nova semana de Agosto está a começar e eu desejo-vos que, para vós, comece muito bem. Uma boa segunda-feira!