Nunca fui de turismo de massas. Em excursões só participei até ao liceu. A última deve ter sido a de finalistas. Nunca me imaginei a passear em excursão. O meu marido muito menos. Passeios em grupo fazíamos mas era coisa para no máximo uns quatro ou cinco casais e respectivos filhos. Mas, mesmo isso, era algo cansativo pois coordenarmo-nos todos em horários e preferências requeria uma certa ginástica.
Também nunca fui àqueles destinos turísticos a que toda a gente ia. Era como ler um livro ou ver um filme de que toda a gente falava: perdia logo a vontade. Punta Cana. Porto de Galinhas. Esses lugares de que tanto ouvia falar. Zero interesse.
Viajar para mim, para ser bom, era irmos só nós, em total liberdade. Quando digo 'nós' refiro-me a nós dois e os miúdos ou apenas os dois.
Mas mudei.
Agora, se penso em passear, já não tenho aqueles sonhos de viagens para mais longe. Agora o que desejaria poder fazer era ir de carro por aí. Gosto muito, cada vez mais, do meu país.
Não sei como pode haver quem não o ame de paixão. Penso que só gente cuja alma se deformou ou vendeu poderá não sentir profundo e reconhecido amor por este país tão lindo.
Um país é a terra e as paisagens, é a língua, são os hábitos, são as pessoas. E, neste nosso país, eu gosto de tudo. Andar a calcorrear serras e vilas e aldeias, percorrer a beira dos rios ou degustar a beira do mar, provar os belos petiscos, observar as gentes, prestar atenção ao modo como falam -- para mim é tudo um prazer.
Talvez pudesse ir também até mais longe, andando por outros países adentro. Mas, sinceramente, parece que deixei de sentir a mesma atracção do que quando julgava que ia encontrar noutros lugares algumas pitadas de fascínio não existentes por cá. Não sei explicar. Parece que me vou modificando sem que perceba até quando continuarei a modificar-me.
Ponho-me a pensar: o que quero fazer quando houver total liberdade de movimentos?
Não vou falar do óbvio: estar com os meus, com aqueles que o meu coração amo. Esses são a minha primeira e segunda e terceira e quarta e quinta prioridade. E parei na quinta para não maçar quem me lê. Mas, satisfeitas essas primeiras necessidades, de os abraçar e beijar e dar de comer e estar com eles, tendo eu tempo para ir em liberdade, talvez gostasse de fazer passeios temáticos.
Conhecer bibliotecas. Conhecer edifícios de arquitectura espectacular. Conhecer jardins. Conhecer parques. Conhecer cidades na foz dos rios. Conhecer restaurantes principescamente decorados (e com boa comida). Conhecer esplanadas com uma grande vista de mar. Conhecer lagoas secretas. Conhecer as tocas dos lobos.
Penso nisso mas penso de forma indefinida, como se fossem hipóteses longínquas, viagens imaginárias.
Passeios que me obrigassem a pesquisar, a planear. O oposto do que sempre fiz. Nunca planeámos quaisquer passeios. Íamos. E lá, todos os dias, pensávamos no que íamos ver ou a fazer a seguir. Agora não. Agora pensaria assim: vamos conhecer jardins extraordinários. Mas pensaria antes de ir. Teria que tentar descobri-los, pesquisar. Fazer um roteiro, escolher percursos, as estradas mais bonitas. Escolher hotéis bonitos.
[Já sei que hotéis seria o meu marido a descobrir os melhores. Não sei como faz mas é sempre ele que desencanta hotéis incomuns e muito bons. Hotéis de charme. Hotéis invulgares e muito acolhedores, em locais onde sabe bem estar. Sempre ele, não percebo como porque aparentemente não tem paciência para grandes pesquisas.]
Mas quando poderei passear assim?
Dantes tinha também a ideia de comprar coisas nos sítios por onde passava. Agora penso que já não. Fotografar, isso sim. Mas comprar acho que não.
Não sei como vai ficar o mundo. Tantas terras que viviam do turismo. Como viverão sem as gentes que vinham de fora e que deixavam o seu dinheiro no comércio e alojamento locais?
Tantas incertezas.
Também não sei como vou ficar eu. Pode acontecer que seja tudo passageiro, pancada psicológica que se varrerá mal tenha ordem de soltura. Mas não creio.
Tenho para mim que estou cada vez mais eremita.
Talvez acabe por me desinteressar de ir conhecer outros lugares, cada vez mais circunscrita ao meu pequeno espaço, ao meu jardim, às minhas árvores, aos pássaros desconhecidos que se escondem nas árvores ou cantam no beiral para que o meu despertar tenha a companhia da sua música, talvez acabe por me circunscrever às minhas casas.
Às vezes penso que gostaria de ainda vir a ter também uma casa pequena, de pedra, numa aldeia na montanha. Não sei bem como poderia ajeitar a minha vida para ter tempo para poder ir, às vezes, para essa casinha, para esse refúgio que teria uma estreita escada interior que iria dar a um quarto com uma janela com vista para as serranias em volta. Por vezes penso nisso. Dantes pensava numa casa em cima da praia. Agora penso numa casinha de pedra na aldeia, talvez nas Beiras. Um quintalinho nas traseiras, uma pequena horta. Penso que aí seria inevitável ter um gato. Não sei que ideia é esta minha. Penso que sou uma pessoa de casas. Mas, na verdade, sei lá de que é que sou.
Ao certo o que sei é que estou aqui na sala, a ouvir música e a escrever estas coisas. A viajar. É isso: a viajar até vocês. Vocês são o destino das minhas viagens.
Levantei-me cedo. Ainda antes de me vestir, abri a janela, os estores e os vidros. Ouvi logo os passarinhos. Têm andado tão arredados. Regressaram com o sol, animados e cantadores.
Sol e eu já de blusinha colorida e fresca. E calças brancas, claro. Depois, na rua, percebi que ainda havia fresco no ar. Por cima, vesti uma túnica de jersey quentinho. Fiquei melhor. Brincos brancos para ter uma luzinha de cada lado e da mesma cor que as calças. Sou assim, tento sempre que haja alguma liaison entre as coisas.
O pequeno almoço foi igual ao de sempre. Não sou capaz de torradas, café com leite, coisas assim. Sou de frutas frescas, kefir e frutos secos.
Quando fui à horta, estava tudo ainda envolto em alvura, uma névoa muito leve, o frio da noite ainda presente.
[Não tinha a máquina, não registei a maravilha que presenciei. As fotografias que aqui estão são as que fiz à tarde.]
Logo depois chegou o casal que veio cá ver o jardim e de quem esperamos ideias iluminadas. Olharam, mediram, conversaram, observaram. Gostei que tivessem ouvido os chilreios. No fim, oferecemos-lhes laranjas, tangerinas, louro, alecrim. Falam com a língua adoçada de quem à língua portuguesa soube juntar o afecto sorridente, a mestiçagem e a proximidade dos corpos que o calor sempre induz.
Quando estávamos no jardim a despedir-nos deles, ouvimos um sonoro e alegre 'olá, bom dia'. Eram os anteriores proprietários. Estavam de bicicleta, ela de mangas curtas, ele de calções. É sempre conversa animada e solta.
Ficaram contentes por ver as magnólias. E admirados com a força da trepadeira, toda florida. Contaram coisas. Os quatro de máscara, claro, mas, ainda assim, conversando ao sol. Quase parecia que estávamos a ver um tempo normal. Vivem agora numa casa que a anterior proprietária construiu tal como eu vivo na casa que eles construíram. Ela que adora jardinagem e que pôs tanto de si no jardim que agora é meu, tem agora a seu cargo o jardim que outra que não ela escolheu. A vida avança assim, nem sempre com uma lógica facilmente perceptível.
Simpatizo com eles. Há neles qualquer coisa de parecido connosco.
Só depois fomos fazer a nossa caminhada. Já não era cedo. A bom ritmo, a aproveitar o piso não estar molhado, não haver vento, chuva, frio. Caminhar ao sol é muito bom.
Quando comecei a fazer o almoço já eram quase duas da tarde. Tinha deixado maruca a descongelar. Fiz, pois, uma das minhas refeições preferidas: peixe cozido com batata normal e batata doce, cenoura, feijão verde, ovo. Temperei com azeite e sumo de um limão que fui apanhar.
Voltei a lembrar-me de quando estava na faculdade e só ia a casa ao fim de semana. Só me apetecia peixe cozido. Pedia à minha mãe que tentasse ter pescada de anzol, peixinho fresco. E batatas cozidas temperadas com azeite. Curiosamente é também o prato preferido da minha menininha linda: peixe cozido com batatas. Um questão genética, pelos vistos.
Depois de almoço, fui para o cadeirão de relax que está na sala de cima, ao sol. Estive a ler um livro de poemas manuscritos e, mais do que a ler os poemas em si, estive a ver a caligrafia dos poetas. É sempre com surpresa que vejo a letra das pessoas. Pessoas que penso terem personalidade forte aparecem com letrinha miudinha, atormentada, por vezes infantil. Outros, que escrevem poemas duros, crus, aparecem com letra de menina, desenhadinha, como se ainda se esforçassem por não desiludirem a mestre-escola. Outras, que pensava serem mulheres desempoeiradas, mostram uma letra atravessada por quebras, olhares desconfiados, receios. Uma com uma letra agressiva, talvez deprimida, uma letra pequenina, apertada, sem espaços, uma letra angustiada. Sempre que vi uma caligrafia a saber respirar, com um andamento fluido e sereno, até respirei de alívio. Curiosamente a letra de que mais gostei, não que seja bonita ou cuidadosamente desenhada, mas porque mostra alguém que tem prazer nas palavras e, certamente, na vida, é um poeta que bastante aprecio (e que já aqui esteve de visita várias vezes).
Não sei se adormeci, estou em crer que, quanto muito, apenas me deixei estar de olhos fechados. Pensei: vou tentar meditar. Respirar. E creio que imediatamente desliguei. Mas creio que por breves instantes. Não sei bem.
Estive também a ver um diário de Susan Sontag, mas não muito. Pensei que, com um dia tão bonito, era um erro estar dentro de casa.
Voltei para o jardim. Da casa dos vizinhos misteriosos vinha conversa animada, conversa de rapaziada, não percebo o que dizem mas percebo que brincam uns com os outros. Há risos, às tantas um deles a cantar.
Uma rola passeava. Aproximei-me. Olhou para mim e deixou-se estar. Fiquei muito admirada. Apenas quando passei a linha vermelha invisível, que apenas ela sabe onde está, levantou voo, devagar.
Depois andei de cabeça no ar, como tanto gosto. Na rua, ouvi vozes. Acerquei-me. Um jovem casal seguia com um bebé num carrinho, um mais crescidinho de bicicleta com rodinhas e uma pequenina de triciclo. Os cães da casa do lado ladraram à passagem daquela turminha. Não me viram. Andava em silêncio a fotografar flores, pássaros, observei as sombras a ocuparem progressivamente todo o jardim.
Começou a esfriar. Voltei para casa.
Fizemos duas videoconferência com a família. O mais crescido está com o cabelo mais comprido, mais ondulado. O mano contou sobre as suas boas notas. Depois quiseram mostrar o seu abraço que mais não é que um golpe de judo em que acabam os dois a cair. A bisavó espanta-se com a robustez do sofá. A menininha linda prega-me partidas, tira-me o som, manda mensagens, mostra os joelhos esfolados, o mano do meio conversa com a bisavó, pergunta pelo seu antepassado presidente, o mais novo mostra-nos que está sem paciência para tanta conversa. Tenho vontade de abraçá-los.
Mas já estamos a meio do mês de Fevereiro. O tempo quase desaparece, tão rapidamente corre. Não tarda tê-los-ei aqui a correr e a espantar as rolas.
A minha filha perguntou se tínhamos ido à praia. Não. Creio que não se pode ir. Não sei. Mas fiquei com saudades do mar. Tenho estado a escrever e com a cabeça nisso. Será que se pode?
Depois, a minha filha esteve a enviar-nos fotografias de quando os miúdos eram pequenos. Estávamos na casa que o meu filho estava a recuperar, íamos para lá ao fim de semana, uns pintavam muros, outros arranjavam as paredes da cave. As crianças adoravam, sentiam que faziam parte daquela intensa actividade que envolvia os crescidos. As fotografias mostram-nos felizes. Na altura ainda eram apenas quatro. Já não me lembrava há quanto tempo tinha sido, pensei que há menos. Afinal, chegou o esclarecimento: já há seis. Seis anos. Tão depressa. E, no entanto, tantas coisas se passaram nas nossas vidas neste curto espaço de tempo.
Viver todos os pequenos instantes para que, quando olhamos o passado, não sintamos que os desperdiçámos -- isso é o que sempre pensei. E agora, nestes meses de confinamento, parece que se formam hiatos em que não consigo perceber a dinâmica do tempo. Talvez que, mais do que dinâmica, se deva pensar em inércia. Talvez seja isso.
Agora que escrevo já é domingo. Lembro-me de quando ao domingo de manhã púnhamos a música alto e bom som e cantávamos a plenos pulmões, eu dançando na maior alegria, os miúdos brincando, entretidos. Ou viriam amigos passar o dia a nossa casa ou iríamos nós a cada deles. A ver se amanhã repito a graça. Apetece-me música alto, apetece-me dançar.
No entanto, tantos anos já passaram desde esses dias (depois passámos a estar ao fim de semana no campo e os entretenimentos passaram a ser mais bucólicos) que se calhar estou mais para danças menos frenéticas e mais devagar, devagarinho.
Depois de me terem falado num funeral que teve que ser feito longe pois, na cidade, não havia 'vaga' tão cedo, alguém conta de um seu conhecido também com covid, mal, nos cuidados intensivos. No fim da reunião, um dos participantes tentou encurtar a reunião dizendo que tinha várias chamadas da mesma pessoa, estava preocupado. Ligou-me algum tempo depois: um amigo tinha caído inanimado, um enfarte fulminante. Os médicos batalharam e conseguiram reanimá-lo mas estava muito mal, nos intensivos. Um outro colega tinha-me contado, de manhã, que a mãe estava mal, nos intensivos, tudo nela a ir-se abaixo. Não covid: apenas tudo a correr mal.
Hoje uma pessoa perguntava sem esperar resposta: o que é isto? está tudo a desaparecer?
Também não saberia responder. A quantidade de pessoas a quem têm morrido o pai ou a mãe -- uma até, com pouco intervalo, ambos -- já nem sei dizer. Um bocado assustador.
Ouvi ao telefone o meu marido com um colega: tinha estado mal, em sofrimento. Tinha ido para o hospital, estava sem oxigénio, ficou lá. Agora está em casa mas mal, com oxigénio. Um homem novo a falar como um velho sem força.
Tento não pensar em nada disto, não ouvir noticiários que explorem a desgraça. Mas a desgraça chega até mim pela voz de colegas e amigos. Não sei se contei. No outro dia, ao telefone com um amigo, perguntei-lhe pela mãe. Sempre foi muito cuidadoso e preocupado com a mãe. Respondeu: morreu há poucos dias. Fiquei sem saber o que dizer. Perguntei se tinha sido covid. Disse que não. Apagou-se, disse ele. Estava sentada a ler, morreu.
Não sei explicar isto.
Só quero que venha o bom tempo. Hoje nem consegui ir ao jardim. Choveu todo o dia. Muito escuro, ventoso, frio. O tempo assim é uma tristeza.
No trabalho, os tempos não vão tranquilos. Gente doente, gente em isolamento, equipas reduzidas. Difícil traçar planos, difícil exigir alguma coisa. Apetece também dizer que façam o que puderem, apetece deixar toda a gente em paz.
Na televisão ouço falar no dia dos namorados e fico a pensar: coitados dos namorados que não vivem juntos. Depois penso que também não é extraordinário para os que vivem juntos. Algum espaço é bom. O confinamento não é bom para ninguém. E há o carnaval. Tantas vezes que me lembro do carnaval na Galiza. O que nos espantámos com o que aquela gente se divertia, famílias inteiras mascaradas da mesma maneira. Riam, andavam pela rua a cantar, a rir. No ano em que o descobrimos, os miúdos ainda adolescentes, connosco, ficámos num hotel por cima das rias. Víamos a água debaixo de nós, o chão era de vidro.
Tanto que me apetecia agora sair por aí, de carro, ouvindo música, descobrindo terras.
Agora não saio daqui e não sei quando poderei sair. Ainda bem que há cuidado, tem que ser. António Costa pede regras. São fáceis. Qualquer matemático sabe estabelecer as métricas: x infectados por dia quando os hospitais estiverem a y% da sua capacidade. A dificuldade está em saber a quantos internados correspondem a montante os x infectados uma vez que, se bem percebo, isso é variável consoante as estirpes. E são estas variantes e estirpes que baralham a equação. Então, é jogar pelo seguro. Mas, como não se pode confinar-desconfinar-confinar semana sim, semana não, o melhor é garantir que a sociedade funciona com um mínimo de perturbação e um mínimo de gente em circulação.
Por exemplo: teletrabalho obrigatório para todas as funções que o permitam. Não é ao gosto do freguês, como era. É mesmo obrigatório. Quanto às escolas, é, pelo menos, fazer secundário e universidades remotos até ao fim do ano lectivo. E é inspeccionar os sistemas de ar condicionado e obrigar a ter injecção de ar exterior. É impedir que várias pessoas estejam em espaços fechados não ventilados com ar do exterior. Obrigar a que as janelas e portas estejam abertas, caso não haja garantia que o espaço está a ter extração de ar e injecçção de ar limpo. É fazer anúncios, anúncios, anúncios. É substituir as notícias e as reportagens catastrofistas por reportagens didácticas, facilmente perceptíveis. Por exemplo: como fazer exercício em casa, como fazer uma alimentação racional em confinamento. Reportagens agradáveis, bem feitas, que saibam bem ver. No outro dia vi uma da BBC. Um gosto.
Bem. Estou cansada.
Ontem, quando fui apanhar uma laranja, vi uma coisinha branca no chão. Não percebi o que era. Baixei-me. Era metade de uma casquinha de ovo. Pequenina. Olhei para o lado. Se calhar, dali nasceu um passarinho. Tentei fotografar mas estava a chover, as fotografias saíram-me desfocadas.
Gostava ainda de contar que ontem tinha para o jantar lombos altos de atum congelado. Não bifes: não, mesmo lombos altos. Então fiz assim. Deixei a descongelar. Quando andava a fotografar o ovinho, reparei que estava uma lima caída. Muito madura. Então, numa taça de vidro transparente (e isto é relevante pois fica bonito e deve ser visto em toda a sua transparência) juntei o sumo da lima que, por sinal, era muito sumarenta, azeite, um pouco de sal, um pouco de orégãos e... claro... mel, uma colher de chá de mel. Com um garfo, bati até que virou uma bela emulsão dourada. A importância da tacinha ser de vidro incolor e transparente está aqui: a cor e a textura da emulsão ficaram lindas.
Despejei-a sobre os lombos do atum, já descongelado, que tinha colocado numa taça funda. Ficaram mergulhados. De vez em quando, virava-os. Com um garfinho de plástico, daqueles de criança do ikea, piquei-os grosseiramente, apenas para que a emulsão melhor os atravessasse. De cada vez que fiz isso, mergulhei um dedo e lambi-o. Estava deliciosa.
Umas horas depois, hesitei se não deveriam ficar assim, crus. O meu marido disse que não. Eu preferia cru mas tudo bem. Claro que poderia ter deixado um lombo cru para mim mas tenho destas coisas meio parvas, gosto que tenhamos a mesma coisa para comer.
Entretanto, num tacho, juntei água, um pouco de sal, umas cenouras, feijões verdes, batata normal e batata doce cor-de-laranja, tudo aos bocados. Cozi. Depois temperei um azeite.
Então, numa frigideira, deitei a emulsão e deixei que aquecesse. Juntei os lombos e selei vagamente em cada lado, baixo, cima, dos lados.
Acompanhámos com salada de alface e rúcula.
Perdoem-me a imodéstia mas acreditem: estava mesmo bom. Mesmo bom.
Mas tudo tem um lado mau. Tinha aquecido pão. Então, para além da comida que tinha no prato, comi uma bolinha molhada no molho. Aos bocadinhos, aos bocadinhos, sempre a desejar parar. Não sei quantos quilos terei a mais no fim disto tudo. A ver se consigo fazer umas refeições só de chá e fruta para ver se perco o que ganho nestes exageros.
É que, ainda por cima, descobri umas bolachas de chá e aveia cobertas de sementes que estavam quase a perder a validade. São simplesmente deliciosas. Mas imagino as calorias. Melhor nem pensar.
Portanto, é isto que tenho a reportar. A seca do costume.
Que venha o sol e os dias grandes a ver se consigo sair desta invernia que me envolve a escrita.