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segunda-feira, dezembro 18, 2023

Fernando Alvim e o défice de atenção
[LABIRINTO - CONVERSAS SOBRE SAÚDE MENTAL]

 

Creio que já falei aqui de uma colaboradora que tive que era deveras obesa. Chegou a fazer cirurgias para reduzir o peito e para reduzir o estômago. Mas se, mais ou menos, víamos o efeito logo a seguir, a verdade é que um ou dois anos depois já não víamos diferença nenhuma, continuava obesa.

Quando vi os filhos fiquei um pouco chocada pois as crianças eram também obesas. Dizia-me ela que os miúdos só queriam comer pão de forma daquele muito branco e sem côdea, só queriam beber coca cola, comer gomas. Eu dizia-lhe que não desse isso aos filhos, que isso as engordava, que tivesse cuidado. Ela ria-se e dizia que eles saíam a ela, eram uns gulosos, e se recusavam a comer outro tipo de comida.

Entretanto, o rapazinho era muito problemático. Dizia ela que o menino era hiperactivo e tinha défice de atenção e que tinha que tomar ritalina. Pensei -- mas não disse -- que se calhar a quantidade de calorias que a criança ingeria tinha alguma coisa a ver com isso. Contudo, se andava a ser clinicamente seguido, certamente a obesidade tinha sido tida em atenção e, se calhar, o défice de atenção tem causas distintas, ou seja, não tem a ver com terem energia a mais, fruto do excesso de calorias.

Naqueles dias em que as crianças estão de férias mas os pais não, ela pedia se podia ter lá os miúdos com ela. Claro que sim. Ela levava os tablets para os miúdos estarem entretidos. Eu ia lá vê-los e falar com eles e tentava que fizessem desenhos, escrevessem histórias, mas os miúdos não estavam nem aí. Mas até aí eu ainda compreendia. Mas ficava era muito estupefacta com os pacotes de bolachas, daquelas altamente amanteigadas ou com chocolates e recheios, bebidas completamente desaconselháveis e toda a espécie de farnel hipercalórico que a mãe lhes punha em cima das mesas. Com o máximo de diplomacia, eu perguntava à mãe se não podia evitar aqueles alimentos em tal quantidade e ela, com o ar mais natural, dizia que tinha que ser para ver se estavam sossegados e sem levantarem ondas, senão não conseguiria aguentá-los quietos durante tanto tempo. Eu ficava estarrecida.

Com os meus filhos fui fundamentalista e eles ainda hoje se queixam disso. Não havia internet para me informar mas tinha livros de medicina infantil que não largava e seguia à risca todas as recomendações. Não havia produtos com aditivos suspeitos na alimentação deles. Só lhes dava comida tida por saudável. Por mais que se sentissem infelizes por eu não lhes dar o que eles viam os amigos comer, eu não abria mão com medo que um cagajésimo de miligrama de algum produto menos saudável viesse a fazer-lhes um mal terrível para o resto da vida. Em contrapartida, queria que comessem todos os dias os alimentos tidos por recomendáveis. Quando eram bebés ou pouco mais que isso, para onde eu ia, ia com caixinhas de comida feita em casa pois era a única maneira de ter a certeza que as vitaminas, os sais minerais, as proteínas, os hidratos, etc, estavam todos na dose certa e que tinham sido cozinhados como mandavam as boas regras. Os meus pais e o meu marido e o resto da família achavam que se poderia abrir uma ou outra excepção e eu, por vezes, com pena das crianças, violentava a minha consciência e lá deixava que acontecesse uma extravagância, dizendo a mim própria, que era uma vez sem excepção. 

Por exemplo, os meus cunhados eram o oposto. Iam com os filhos, ainda bebés, sem levarem nada a não ser cerelac. Não me esqueço de um dia em que resolvemos ir fazer um grande picnic perto da praia. Outros tempos. Fomos antes ao mercado comprar peixe e o resto da comida e fomos fazer uma sardinhada. Era um grupo enorme. Um dos meus sobrinhos teria um sete ou oito meses, nem sei, talvez menos. Éramos talvez tantos miúdos quantos graúdos. Entre irmãos e primos era um grupo grande de miudagem. Pois bem, o bebé foi entregue ao cuidado dos diversos primos. Os rapazinhos talvez jogassem à bola ou trepassem às árvores e as miúdas ocuparam-se do bebé. Era literalmente um boneco na mão das primas, todas pequenas. Pois deram-lhe à boca sardinhas assadas, pão com molho de sardinha, batatas, deram-lhe melão. E ele tudo comeu. Ao lanche já não me lembro o que comeu mas qualquer coisa foi, certamente o mesmo que os outros, e, como ficámos até tarde, mais para a noite, fizeram-lhe uma papa cérelac. Comeu tudo que se regalou, sem protestar. E este regime liberal mal não lhe fez pois, que se saiba, é um adulto saudável. 

De todos, comparando-o com a irmã e com os vários primos, o mais irrequieto de todos sempre foi o meu filho. Muitas vezes eu pensava que ele era hiperactivo. Muitos vezes penso que ainda é. A quantidade de actividades que ele faz, parecendo ter sempre necessidade de fazer coisas para se cansar sempre me deixou espantada.  Mesmo quando estava na minha barriga, deixava-me até incomodada com a violência das cambalhotas que cá dava dentro. E quando estava já enorme, mais para o fim da gravidez, a violência dos esticões que dava fazia-me sentir que me ia pontapear o estômago para fora da boca. E, quando nasceu e ficou a dormir no porta bebés, virava-se de tal maneira que punha uma perna quase de fora, parecendo, por diversas vezes, que ia virar o porta bebés ou cair de lá. Eu não conseguia perceber a força que ele tinha para, tão pequeno, fazer aqueles movimentos. Por isso, apesar de ainda tão bebé, tive que pô-lo logo na cama de grades que era da irmã e tivemos que comprar à pressa uma cama grande para a minha filha. E depois, quando tinha dez meses, começou a fazer birras diabólicas durante a noite, puxava os vómitos e vomitava-se, levantava-se e recusava-se a deitar-se e uma vez, não sei como, trepou e atirou-se da cama, pregando-nos um susto do caraças ao darmos com ele caído no chão. Exausta, sem conseguir dormir, sem sabermos já o que fazer (ainda por cima, sempre se recusou a usar chucha), resolvemos fazer uma experiência: pô-lo a dormir na cama grande da irmã. E ela, coitada, foi dormir para o sofá cama. Pois foi remédio santo. Passou a dormir que foi uma maravilha. Eu punha almofadas no chão não fosse ele, irrequieto como era, cair da cama. Mas caía e levantava-se. Nunca mais deu noites desgraçadas, nunca, nunca mais. E, claro, tivemos outra vez que encomendar à pressa uma cama para a minha filha. 

Mas se era hiperactivo, défice de atenção não tinha, nem tem. Focava-se totalmente, concentrado no que lhe agradava. Por isso, nunca considerei que fosse caso para preocupação. 

Mas ocorreu-me isto, certamente a despropósito, ao ver a entrevista do Fernando Alvim no âmbito da rubrica Labirinto, as interessantes entrevistas do Observador sobre temas de saúde mental. 

Quando trabalhava, se o horário coincidia, vinha na companhia do Alvim na sua Prova Oral. Quando dava na televisão também não perdia. Ainda agora, se calha virmos no carro àquela hora, é certo e sabido que nos colocamos na Antena 3 para virmos de gosto na companhia do grande Alvim. É ímpar. É genuíno. Muito bom. E o seu testemunho é importantíssimo para sensibilizar as pessoas para a necessidade de identificar e tratar as perturbações de comportamento que têm origem em alterações a nível da saúde mental.

Fernando Alvim e o défice de atenção. "É muito difícil estar concentrado numa coisa"

Cresceu como um miúdo agitado, sempre a fazer muitas coisas, mas só em adulto, há muito pouco tempo, o apresentador foi diagnosticado. Um acaso que, diz, lhe mudou a vida. 

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Agradeço os comentários e os mails. Têm sido muito importantes para mim.

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Desejo-vos uma boa semana

Saúde. Coragem. Força. Paz.

sexta-feira, novembro 04, 2022

José Carlos Pereira, médico e actor: “A partir do segundo copo, já não existia limite”

 

Um dos meus grandes amigos tinha um problema de alcoolismo. Contudo, se isso era inegável para todos, ele não o reconhecia como problema. Ou melhor, reconhecer até reconhecia mas achava que durava enquanto ele quisesse. Em situações em que estivéssemos juntos, víamos todos onde é que aquilo ia parar. Bebia um copo, depois outro, depois outro. E nós víamo-lo a ficar com os olhos vermelhos e brilhantes, cada vez mais bem disposto e brincalhão... e queríamos pará-lo. Mas era impossível. No fim ainda bebia whiskey e, se fosse preciso, não um mas mais copos. 

Preocupávamo-nos que conduzisse assim. Mas dizia que não ia deixar o carro para trás. Por exemplo, se ia na Marginal, dizia que ia devagarinho, com cuidado para ir entre os dois traços. Quando estava sóbrio ria-se pois claro que não há dois riscos, há um único, o risco de separação das faixas. Portanto, deveria ir -- devagarinho, dizia ele -- a meio da estrada. Foi apanhado algumas vezes. Uma das vezes foram devagar a escoltá-lo até casa. Noutras vezes foi multado. Não havia, na altura, a severidade que há hoje em relação aos excessos de alcoolemia. 

E tinha uma coisa. Guardava sempre umas notas junto aos documentos. Quando o mandavam parar e lhe pediam que mostrasse os documentos, apareciam as notas. Às vezes funcionava. 

Claro que ficávamos chocadíssimos com isto mas, quando estava alcoolizado, facilitava e abrandava os rigores morais e a única coisa que queria era chegar a casa. Uma vez o truque das notas não resultou e acabou na esquadra. Claro que o advogado o tirou de lá. Contou que na altura ficou preocupado e envergonhado mas logo aquilo passou a ser mais uma das várias peripécias com as quais se divertia.

Uma vez, estávamos, um grupo grande, a almoçar num restaurante ali na zona de Alvalade. Bebeu que deus a dava. Caipirinha atrás de caipirinha. Não era o único, mas ele mais que todos. Depois vinho. E escolheram um tinto dos bons. Vieram garrafas sobre garrafas. Inteligente e divertido como era, nessas alturas ficava hilariante. Aquela mesa era uma festa. Mas, ao fim de muitas, naquele dia a coisa deu-lhe para o sentimento. Lembro-me que lhe deu para nos contar que tinha passado o dia do enterro da Princesa Diana em casa, numa tristeza, a ver televisão, comovido. Um outro, gozão: 'Mas o quê, Senhor Doutor, chorou? Chorou...? Foi mesmo de ir às lágrimas...?' e ele, já comovido, 'Ah, sim, quase, quase...' e quase a chorar. E nós todos a rirmos. Às tantas, ar aflito, disse-me em segredo: 'Tou aflito para mijar...'. E eu: 'Então, porque é que não vai?'. E ele: 'Acho que não consigo lá chegar...'. E eu: 'Olha, agora esta. Se está aflito tem que ir'. E ele, todo tarará: 'Qual o melhor caminho...?'. E eu: 'Vá por aqui, encostado à parede. Vire só lá ao fundo na direcção da casa de banho, se for preciso apoie-se a alguma mesa'. Encheu-se de coragem, lá foi, devagarinho, dobrado de aflito que estava. Os nossos colegas riam-se mas a mim fazia-me muita impressão. 

Até que adoeceu. Apanhou um susto e que susto. Teve o apoio de toda a gente, deixou de beber. 

Tinha um outro colega que bebia bem, sempre, mas que, à sexta-feira, era demais. Nesses dias, aparecia de almoço só lá para as quatro ou cinco da tarde. Vinha sempre radiante e estar com ele nesses restos de tarde era uma festa. Por vezes, excedia-se e fazia disparates dos valentes. Uma vez chamou os responsáveis de áreas que dependiam directamente dele e disse-lhes: 'Estou farto de vos ver sempre nas mesmas funções e nos mesmos gabinetes. Reúnam-se entre vocês e troquem. Troquem à vontade. Na segunda não quero ninguém nem nas mesmas funções nem nos mesmos gabinetes.' Contou, perdido de riso, que os outros o ouviam sem acreditar no que ouviam, boquiabertos, preocupados. Eu ouvia-o a contar a proeza, todo feliz com a parvoíce que tinha feito, e fiquei também preocupada. Claro que isto se espalhou e foi com muita apreensão que se tentou mitigar o impacto do disparate. Nessas alturas, dizíamos-lhe que era sorte que no edifício onde estávamos não houvesse controlo de alcoolemia. Dizia que não teria problema. Sabia conter a respiração e enganar 'o balão'. No caso deste não sei se seria um caso de adição pois apenas o víamos fora das marcas à sexta-feira. Em ambiente social, ao fim de semana, sei que também bebia bem mas não tenho ideia que fosse dependente disso.

Poderia contar outros casos de bebedeiras épicas ou, pelo contrário, o caso de um infeliz, alcoólico em último grau, que pediu indemnização para sair. Durante algum tempo, hesitámos. Sabia-se que acabaria mal, longe da nossa vista. Temíamos que usasse o dinheiro da indemnização nos copos. Um dia apareceu lá a mãe, uma senhora bem idosa, a pedir que o deixássemos sair para ele ganhar força de vontade para se tratar. Lá foi. E perdemos-lhe o rasto.

Sobre drogas, poderia falar de um caso próximo mas dado ser, de facto, próximo, não vou falar. Escrevi, há algum tempo, um folhetim em que um dos personagens era inspirado nele. Estava viciado, agarrado, e conseguiu esconder de grande parte da família. Quando a situação assumiu proporções deveras graves, afastou-se do meio lisboeta em que se perdia e onde já se tinha afogado em dívidas (afastou-se... ou foi afastado quase à força), deixou a profissão, isolou-se no campo, casou-se e agora não para de fazer filhos. E creio que é feliz. 

Mas a adição, qualquer adição, é, a partir de certo momento, uma prisão, uma pedra amarrada aos pés. Quem sofre de adições sofre muitas perdas e, a dada altura, começa a perceber que as perdas são penosas demais e que o prazer que se obtém implica cada vez mais riscos e mais perdas.

Uma vez mais partilho uma entrevista da série Labirinto - Conversas sobre Saúde Mental do Observador

Aqui Sara Antunes de Oliveira entrevista o actor e médico José Carlos Pereira que chegou a ser capa de revistas pelo estado alcoolizado em que era visto nas noites lisboetas e pelos atrasos nas gravações. Uma vez mais, temos uma pessoa a falar aberta e humildemente dos problemas que viveu.

E a mensagem é, de novo, a mesma: há saída. É preciso pedir e aceitar ajuda, é preciso persistência, é preciso querer muito. 

José Carlos Pereira e a adição. “A partir do segundo copo, já não existia limite”

Começou a beber socialmente, até perceber que já não se divertia sem álcool ou drogas. Sofreu com a dependência e com o rótulo. Hoje está focado em não voltar atrás.


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Um dia bom
Saúde. Ânimo. Paz.

terça-feira, novembro 01, 2022

O grande Raminhos e o seu TOC

 


Volto à saúde mental. Uma expressão que muito me agrada é aquela de que o cérebro é a última fronteira. Nada sabemos do que o habita. Ou melhor, saber até sabemos. Mas não conhecemos inteiramente o que há para além do que se sabe. Isso não sabemos. E isso é muito.

  • Somos o que a nossa mente é? 
  • E a mente é o que o cérebro processa? Ou é o que é, independentemente das faculdades dos neurónios e das sinapses?
  • E se há ligações no cérebro que, por doença ou acidente, não estão a funcionar bem? Deixamos de ser quem, na verdade, somos?
  • É a nossa maneira de ser, a nossa personalidade, que se altera ou, simplesmente, há algo que tem que ser tratado?

Por felicidade minha -- felicidade ou sorte, não sei -- até hoje ainda não sofri de depressão, não sofro de distúrbios obsessivos compulsivos e, se sinto ansiedade, parece-me legítima e controlável. 

Mas conheço quem já tenha sofrido ou sofra destas perturbações. E sei como sofrem... Um sofrimento terrível, muitas vezes dúvidas sobre se alguma vez vão conseguir ter uma vida normal ou ser capazes de experimentar a felicidade. Ouço as pessoas falar: acordar já com ansiedade mesmo não sabendo exactamente porquê, ter medos, por vezes medos abstractos, indefinidos, medos incapacitantes. 

Ou ter ataques de pânico, crises que se confundem com quase-morte. 

Há algum tempo alguém me contava que tinha tido mais um ataque e que, estando em casa sozinho, com medo de estar sem ter quem o acudisse e medo que fosse um problema de saúde 'a sério', ataque cardíaco, por exemplo, saiu e foi para o carro. Assim, se sucumbisse, talvez alguém o visse e socorresse.

De pessoas que têm assiduamente problemas deste tipo, medos, ansiedades, crises que parecem mesmo de saúde física -- e não de foro "mental" [como se o 'foro mental' não fosse também de ordem física...] -- pode dizer-se que essa é a sua maneira de ser, uma maneira de ser depressiva ou ansiosa, ou são pessoas que apenas estão doentes e a necessitar de tratamento?

Conheço uma pessoa que é obsessiva compulsiva e que, por exemplo, se está na dúvida sobre se desligou o computador, pede-nos a nós que vamos verificar senão ele já sabe que lá terá que voltar umas três vezes a fazer essa verificação. Já se conhece bem, já identificou o seu problema e já consegue lidar com ele, verbalizando as suas dificuldades. Mas não o consegue ultrapassar. Conta que, por exemplo, já se programa para sair mais cedo de casa do que seria necessário pois sabe que é mais que certo que volte várias vezes a casa para verificar se fechou a porta ou se desligou o gás ou a água. Conta que sabe que é absurdo mas que, se não o fizer, a meio do caminho dá meia volta e vai a casa fazer essa verificação.

E tive um colega que, quando havia reunião, nos pedia para fazer a acta, mesmo que tal não fosse necessário. Levava três cadernos e algumas canetas, cada uma de sua cor. E, consoante o que lhe parecia ser o tema dominante, escrevia em seu caderno, usando canetas de cores com sentidos por ele pré-definidos. Raramente participava na conversa tão concentrado estava no registo do que se passava. Antes de começar a escrever, era como um ritual: colocava à frente dele, muito alinhados, os três cadernos e as canetas. Nunca ninguém quis saber daqueles apontamentos. Dizia que tinha estantes cheias de cadernos. Contudo não o dizia com orgulho. Era quase como se fosse uma penitência à qual não conseguia fugir. Dizíamos-lhe que não era preciso, que deixasse para lá, que não se preocupasse em escrever a acta. Qual quê. Parecia que tinha que ser, que era uma compulsão. Claro que era alvo de gozação pelas costas e pela frente. Mas não conseguia parar. Uma vez pediu para sair da empresa, queria negociar a saída. Saiu, claro. Depois disso já publicou vários livros que acho que ninguém deve ler. Dizem-me que são livros chatos, intragáveis, ilógicos. Deve continuar a escrever, certamente de forma muito sistemática, mesmo que que não exista um propósito. 

Ainda existem muitos estigmas sobre as doenças mentais. Quem as sofre teme ser visto como maluco. Para os outros, alguém que se trata em psiquiatras ou psicólogos pode ainda ser visto como um fraco ou como um perturbado, inapto para funções mais exigentes. Ou confunde-se a doença com traços de personalidade. Muito desconhecimento, muito preconceito.

E falo isto sem conhecimentos, apenas pelo que ouço, pelo que leio. 

O que sei é que geralmente quem tem este tipo de problemas sofre muito mais do que sofresse de gastrite, de enxaquecas, de angina de peito ou de rinite alérgica. É que, nestes casos, a doença é reconhecida facilmente como doença e não há pudor ou receio em tratar. Já no caso de uma doença mental não apenas não é ainda frequentemente reconhecida como doença como, sendo-o, há algum receio de tratar-se, receio de adquirir habituação aos medicamentos, receio de ficar com as faculdades limitadas, receio de ficar conotado com uma personalidade fraca ou disfuncional.

Por isso, é importante partilhar testemunhos. Quem sofre não é o único a sofrer. Quem sofre deve poder saber que há tratamento, que há uma saída.

No outro dia já aqui partilhei a entrevista de João Vieira de Almeida sobre a depressão. Hoje partilho a entrevista ao Raminhos sobre o seu transtorno obsessivo compulsivo, a dúvida metódica transformada em paroxismo, em inferno. Uma vez mais, trata-se de uma entrevista da série Labirinto do Observador. Muito sincero, muito lúcido, muito explícito. 

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Raminhos: “‘Eh pá, não penses nisso’ é o pior que se pode dizer a alguém que lida com ansiedade"

Sentiu logo o estigma quando lhe falaram em medicação: "é porque sou maluco". António Raminhos fala sobre o seu transtorno obsessivo-compulsivo, que chegou a impedi-lo de sair de casa, no 'Labirinto — Conversas Sobre Saúde Mental'.


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Esculturas de Bruno Walpoth na companhia de Joyce DiDonato com Lascia ch'io pianga

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Um bom dia feriado
Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, outubro 24, 2022

João Vieira de Almeida, do absoluto sucesso ao buraco mais negro da depressão
Um impressionante testemunho


Felizmente não conheço a depressão. Mas conheço quem a sofreu. E conheço quem a sofreu e soube que esse era o nome do vazio que se instalara dentro de si e conheço quem o sente mas não sabe que nome dar ao que sente.

Ainda este domingo, ao caminhar à beira-rio com a minha mãe, ela me falava de uma conhecida que passa parte dos dias na cama, sem vontade de se levantar e incapaz de sentir motivação para o que quer que seja. 

E, agora que escrevo, recordo uma irmã de uma das minhas tias por afinidade. Era uma família grande, tudo gente muito divertida. Ela era casada e tinha dois filhos. A minha tia, uma das suas irmãs, dizia que não conseguia compreender aquela tristeza. O marido, homem forte e alegre, sofria por não conseguir afastar aquele pesado manto de tristeza de sobre a sua mulher. Ouvia a minha tia a conversar com a minha mãe, ambas sem perceberem, tentando encontrar razões, e lembro-me de prestar atenção, tentando também eu compreender. Sei que se tratava, a minha tia falava de médicos e de tratamentos, mas desconheço o tipo de acompanhamento, presumo que não tenha tido acompanhamento psicológico. Lembro-me de ouvir dizer: 'Coisas de cabeça... É o pior......' Creio que chegou a estar internada. Vivia perto das minhas avós num bairro tranquilíssimo, os filhos eram calmos, o marido era uma simpatia, tinha uma vida sem sobressaltos. Até que um dia se suicidou. Em todos ficou aquele misto de estupefacção e de resignação. Ninguém conseguia perceber porque sofria ela tanto mas também se admitia que talvez um dia não aguentasse mais. 

Mas o que agora para mim foi um balde de água fria, a surpresa absoluta, foi saber que o João Vieira de Almeida, o grande líder da poderosa VdA, atravessou o labirinto, conheceu o abismo.

Quem vive no mundo dos negócios, quem está ligado a empresas com recursos para pagar aos melhores, conhece a VdA. Fazem-se pagar, e bem, mas a verdade é que não desiludem. O actual escritório é um portento: a arquitectura e a decoração são extraordinárias. Passar nas imediações é ver aquele bando de mulheres ultra bem vestidas e de homens altamente executivos, todos confiantes e seguros de si.

Não é o único grande e importante escritório de advogados do país. Mas é um dos melhores, um dos mais carismáticos, um que tem uma presença fortíssima no mercado.

E, no entanto, o líder, o incensado grande líder, um dos considerados 50 homens mais poderosos do país, dá-nos aqui um impressionante testemunho daquilo por que passou. E com que tocante sinceridade e com que imensa humildade o descreve.

O vídeo é o último dos que partilhei abaixo. E aqui uma palavra de louvor ao Observador por esta série de entrevistas sobre a Saúde Mental e uma palavra à Sara Antunes de Oliveira que conduz a conversa com precisão e delicadeza.

Decidi começar por vídeos anteriores para que se conheça a face pública do João Vieira de Almeida (filho do carismático Vasco Vieira de Almeida).

E transcrevo o que dele se escreve no site da firma:

JOÃO VIEIRA DE ALMEIDA

João Vieira de Almeida, Senior Partner da VdA, preside ao Conselho de Administração.

Enquanto Sócio de Corporate e M&A, tem assessorado muitas das operações mais emblemáticas em Portugal, sendo reconhecido pelo mercado como assessor de primeira linha de grandes organizações. É membro de vários Conselhos de Administração e Presidente da Mesa de Assembleias Gerais de empresas.

Reconhecido pelo seu estilo de liderança ímpar, e por antecipar proactivamente os desafios do futuro do setor, prossegue vigorosamente uma visão assente no conceito “One Firm Firm”, tendo-lhe sido atribuído mérito sobre o desenvolvimento e afirmação da VdA, desde um escritório de 6 advogados a uma firma de mais de 450 pessoas, com uma forte presença internacional.

O compromisso irredutível do João para com a cultura e valores da firma, com particular foco no espírito de equipa, na inovação e no empreendedorismo, consolidou estas dimensões como forças motrizes que caracterizam a VdA, aliadas a uma cultura aberta e inclusiva, onde todos os colaboradores têm a justa oportunidade de desenvolver o seu potencial, num ambiente profundamente colaborativo.

Distinguido em 2018 pelo The Lawyer como European Managing Partner of the Year, tem implementando as melhores práticas internacionais de gestão na VdA, que constitui hoje um case study de Harvard e tem sido amplamente reconhecida por sucessivos prémios nacionais e internacionais, incluindo a distinção de FT Most Innovative Law Firm in Continental Europe, que lhe tem sido atribuída consecutivamente nos últimos anos.

Pelo que refere, João Vieira de Almeida agora está bem, embora se mantenha vigilante. E continua a procurar a tranquilidade e o equilíbrio que lhe vem das montanhas. E fala abertamente da sua experiência e vê-se que fala com tocante sinceridade quando refere os que sofrem o que ele sofreu sem o apoio e os meios de que felizmente usufrui. 

Há saída para a depressão e é importante que os que a atravessam acreditem nisso e procurem ajuda. Não há que esconder o que se passa ou tentar atravessar sozinho o sofrimento de um vazio tão negro.

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 João Vieira de Almeida em 2013


Em 2016 a falar de estratégia para o país


Em 2018, com a sua banda


A fantástica Sede da VdA


Em 2020, a brave lawyer and leader


João Vieira de Almeida e a depressão. “Chegava ao escritório e as primeiras horas estava a chorar”



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Uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Serenidade. Ânimo. Paz.