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segunda-feira, abril 29, 2013

Onde Sotto Aguiar é vencido pela Drª Sá Borges - a quem ele, quando fala dela com os colegas (todos homens, claro), costuma tratar depreciativamente por Santa Sá


Poderia repetir banalidades: nem tudo o que parece, é. Ou: não julguemos os outros pelas aparências. Ou não tomemos por evidências o que não são senão aparências (ou: não tomemos por aparências o que são, de facto, evidências). Poderia também dizer que, sempre que alguma coisa acontece, é porque há razões para isso, razões que o justificam, que o desculpabilizam. Ou poderia dizer que é o destino. Ou coincidências. Ou que não há coincidências. Ou tretas dessas.

Mas não digo. Não sou dada a teorias, muito menos a teorias sem fundamento, a conversas politicamente correctas, a banalidades sem qualquer valor prático. Constato, evito julgar.

(Reservo os meus julgamentos para comportamentos que causam malefícios objectivos a muita gente por parte de quem deveria, antes, tudo fazer para lhes levar benefícios: maus políticos, maus governantes, por exemplo.)

De resto, interrogo-me muitas vezes: o que não se sabe é como se não existisse?

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Turn me on, se faz favor




E, no entanto.

Aqui há uns dias, a conversa azedou de vez. 

Sotto Aguiar defendia uma posição, a Drª Sá Borges defendia exactamente o contrário: discutiram acesamente, sem tréguas, a luta reacendeu-se várias vezes, os colaboradores ouviam as vozes irritadas, andavam intrigados com tanta discussão.

Depois, ele sempre com ar agastado, sem uma palavra, ela sempre serena como se nada a molestasse. No entanto, provavelmente para não dar o braço a torcer - porque era impossível que não visse que estava a defender um disparate - foi ele quem, obstinadamente, levou a dele adiante.




Ela achou uma leviandade mas acatou. Ele ficou contente. Estas lutas eram um suplemento de motivação para ele, traziam-lhe a adrenalina que ele tanto apreciava; além disso, levar a melhor sobre aquela maçadora fazia-o sentir mais poderoso.

Contudo, na primeira oportunidade, agindo de acordo com a determinação dele, ela provocou uma situação que toda a gente reconheceu como absurda. Quando lhe perguntaram porque tinha feito tal disparate, uma coisa inconcebível, perfeitamente contrária à prática usual da empresa, ela tranquilamente respondeu que, embora contrariada, tinha actuado de acordo com a decisão dele. Fez-se silêncio na sala, Sotto Aguiar gelado, posto a ridículo, os outros constrangidos, ela como se não fosse nada com ela.

Mais tarde, e tal como ela esperava, ele apareceu no gabinete dela, fechou a porta, vinha transtornado. Acusou-a de deslealdade, de desonestidade, que ela o tinha descredibilizado, que não era a primeira vez, que era lamentável que houvesse atitudes assim entre colegas, que, apesar de já esperar tudo dela, aquela tinha sido demais, que o tinha ridicularizado, que aquilo tinha sido escusado - enfim, estava vermelho de raiva, furioso, acusava-a de tudo. Ela ouviu e, com a frieza que lhe é reconhecida nestas situações, manteve-se serena. Sorria até, como se achasse graça a tanta exaltação, como se estivesse a assistir a uma representação que não lhe dissesse respeito.

Depois levantou-se e disse, Há pessoas com fraca capacidade de abstracção, que só percebem perante evidências. Ao menos agora já percebeu?

Sotto Aguiar levantou-se também, pronto para sair desarvorado. Não vale a pena, com pessoas assim não vale a pena. Fique com o que fez, que lhe faça muito bom proveito, disse ele, e, se pudesse, despedia-a nesse mesmo instante, punha-lhe um processo, qualquer coisa. Se fosse um homem talvez lhe desse um murro na cara. Assim, levantava-se e deixava-a a curtir a sua estúpida pequena vitória.

Sorrindo, sempre sorrindo, ela ficou entre ele e a porta e, com aquela voz calma e superior que tanto o irritava, disse-lhe, Mas para quê esse nervosismo todo, doutor? Há vida para além disto, sabe? Nem as vitórias aqui são muito importantes, nem as derrotas o são. Relativize, doutor, relativize. Receba umas e outras com humildade.

Sotto Aguiar pensou, Esta gaja está a precisar de uma lição, ah está, está! Numa altura destas, ainda tem a lata de vir para aqui com filosofias baratas. É parva, a gaja, é mesmo muita parva!

Mas, inesperadamente, quando ia a sair disparado, ela puxou-o pela mão e disse, Espere. Deixe-me fazer uma coisa que já ando para fazer faz tempo.

Ele olhou-a admirado mas apenas por um instante. Encostando todo o seu corpo ao dele, ela pôs-lhe uma mão na nuca, puxou a cabeça dele para ela e beijou-o na boca.

No primeiro momento, ele ficou sem reacção mas logo a seguir correspondeu. Passou-lhe os braços em volta do corpo e beijaram-se apaixonadamente. 

Quando acabaram, ele olhou-a interrogativamente nos olhos e ela a ele. Depois riram-se. Ela, à laia de esclarecimento, repetiu, Tinha que fazer isto, era uma coisa que estava para ser feita há muito tempo.

Ele puxou-a com força, abraçou-a quase com violência, beijou-a com ardor, a língua numa sofreguidão.

Quando pararam, ela disse tranquilamente, Calma… o mundo não vai acabar hoje, doutor, temos muito tempo… Ele riu-se.

Depois ela perguntou-lhe, Mas onde é que íamos? Dizia você que…?

Ele não disse nada, preso ao olhar sedutor dela. Mas ela prosseguiu, Lealdade, desonestidade, patati-patatá...? Não era...? E toda ela era malícia, desafio, irreconhecível.




Ele riu e já a queria agarrar de novo, vingar-se, o corpo num desatino, Sá… não me provoque… E agarrou-se outra vez a ela, ofegante, aos beijos.

Depois ela disse, Mais baixo, respire baixo, olhe que ainda nos ouvem. 

Ele riu-se, Só espero que a Noémia não apareça por aí à minha procura.

Sá imitou-a, Sôtôr tem a sua mulher ao telefone…

Ele riu-se outra vez, Sá… você está mesmo a querer festa…

Sá riu-se e olhou-o abaixo da cintura. Quero, quero mesmo, e basta olhar para si para ver que está prontinho para ela.

Sotto Aguiar deu uma gargalhada. Mas quem havia de dizer…? Quem a viu e quem a vê…

Ela riu. Quem a vê? Mas acha que já viu alguma coisa…?, maliciosa de novo, provocante.

Rendido, Ai é? Há mais? Se há, eu quero ver! E já se estava a preparar para a agarrar de novo

Sá empurrou-o devagarinho, Calma, SôTôr… Primeiro vai ter que me dizer o que é que fez para o merecer…

Sotto Aguiar sorriu ao de leve, já não estava habituado a estes jogos de sedução, nem estava a reconhecer na maliciosa mulher que tinha à sua frente a Santa Sá, como, jocosamente, se referia a ela quando conversava com os colegas. Além do mais, ainda tinha um secreto receio de que isto fosse mais algum golpe dela para o apanhar em falso, para depois gozar com ele, para o atirar ao tapete.

Mas depois resolveu entrar no jogo, Não fiz mas ainda vou fazer. Quando é que podemos começar?


*

A música lá em cima é Turn me on e é interpretada por Norah Jones e Jamie Cullum.

O texto de hoje vem no seguimento de textos anteriores, sendo que o último deles pode ser visto aqui.

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Se me permitem, gostaria de vos convidar para virem comigo até ao meu Ginjal e Lisboa onde, continuando num formato atípico, dedico o dia de hoje a Jorge de Sena, a vida e a obra, nas palavras dele e de outros. A música está a cargo de um grande intérprete, o pianista de jazz Brad Mehldau.

*

E apenas me resta desejar-vos uma bela semana a começar já por esta segunda feira. 
Divirtam-se, está bem?

sexta-feira, abril 26, 2013

Onde se percebe que o realizado e virtuoso Dr. Sotto Aguiar afinal...


No texto a seguir a este falo do discurso tomba-cravos de Cavaco e da preocupação e estranheza que tudo isto me está a causar mas interrompo para, a seguir, falar da praia, de conchas translúcidas como asas que pousam sobre as palavras fantásticas de Clarice Lispector.

Mas isso é a seguir. Agora, aqui, a conversa é outra. Volto ao virtuoso Dr. Sotto Aguiar.


Música, por favor




Achamos que somos diferentes dos outros. Nós, um poço de virtudes, os outros, um manancial de imperdoáveis defeitos. E, se reconhecemos em nós, alguma pequena imperfeição, já nos apressamos a encontrar justificações. A família que não nos apoiou, uma mãe castradora, um pai ausente, irmãos invejosos, chefes autoritários e castradores, colegas desleais. Os outros. Sempre os outros.

Esta falta de isenção e objectividade tem estado na origem de muitas injustiças e muitas irresponsáveis desculpabilizações.

É que os outros somos também nós.

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Sotto Aguiar é um executivo de sucesso, é certo. Tem rendimentos elevados, tem poupanças sólidas, sabiamente divididas por várias instituições, dinheiro a salvo no estrangeiro, uma boa casa na cidade, outra no campo, outra na praia e tem, até, um apartamento em Inglaterra, onde os filhos vivem actualmente. No campo tem cavalos, na praia tem um barco.

No trabalho é reconhecido, elogiado, recompensado. Socialmente está perfeitamente integrado, quer através do desporto que pratica, o golfe, quer através dos grupos de reflexão de que faz parte, quer, ainda, da igreja de que é fiel seguidor. Aquilo de que publicamente se queixa é apenas da brutalidade de impostos que paga e da estupidez atávica deste governo. Sendo um liberal democrata, diz que nunca viu tanta estupidez em tão pouco tempo e defende, alto e bom som, o afastamento deste primeiro ministro. Tirando isso, a vida corre-lhe bem e sente-se um homem realizado.

E, no entanto.




E, no entanto, tanta perfeição também cansa. Sente falta de alguma irreverência, de alguma transgressão. Lembra-se de como era em miúdo, ele e os irmãos, ele e os amigos, as partidas, as noitadas. Nunca nada de transcendente mas, ainda assim, a ilusão de alguma aventura. Agora nada. Sempre chamado a mostrar como se faz, como se pensa, apresentado como um modelo, irrepreensível. Uma seca.

A mulher, também ela, saturada de tanta boa vida, saturada de andar sempre de boa cara, saturados uns do outro. Mal se falam mas acha que nem é por nada, talvez apenas por falta de terem o que dizer, e mal se tocam, o carinho e o afecto já fossilizados. Os contactos quase se resumem as questões funcionais, questões cuja decisão compete a ambos, ou, então, a uma tentativa de disfarçar perante terceiros ou, mesmo, perante os filhos, a falta de chama.

Contudo, continua a gostar dela. Não a trocaria por ninguém, ela é a mulher da sua vida, conhece-a como se conhece a si próprio, sabe o que ela pensa, sabe o que ela sente. Tem ideia que isto talvez seja apenas uma fase normal num casamento (uma fase que tarda em passar). Além do mais, não quereria desestabilizar a harmonia familiar, o ambiente em que quer que os filhos se desenvolvam (e isto apesar dos filhos já não viverem com eles e de já terem mais que idade para perceber situações deste tipo).

Mas porque também não é agradável esta convivência surda e apática, Sotto Aguiar prefere chegar tarde a casa para não ter que enfrentar aqueles fins de dia de pesado silêncio. Não tem paciência para ler, não tem paciência para tanto debate político na televisão, não tem paciência para nada. Ela também anda a chegar tarde, provavelmente pelas mesmas razões, mas apanha-a a olhá-lo de lado como se desconfiada, e ele sem paciência também já para isso.




Gostava de ter com quem conversar, quem se interessasse pelos seus problemas, quem lhe fizesse um mimo, quem se aconchegasse nele. Mas, infelizmente, isso não acontece. Por isso, as noites e o fim de semana em casa são, na verdade, uma seca, uma grande seca, um grande vazio.

Mas, como é sabido, a natureza é avessa ao vazio.

Desde que a Drª Sá Borges, a quem toda a gente trata por Drª Sá ou, simplemente, Sá, entrou, vinda de outra empresa - uma contratação de luxo - e já lá vão alguns anos, Sotto Aguiar sentiu qualquer coisa. Uma rivalidade, talvez. Ou uma embirração. Ou vontade de a apanhar em falso, talvez. Ou uma certa insegurança, é capaz de ser isso. Muito senhora de si, ela, muito intransigente. Muito eficiente. Mas tudo como que envolto numa simpatia que ele acha que é forçada. Mas talvez não seja forçada, talvez ela seja mesmo assim, uma sonsa que disfarça uma certa dose de malvadez. Ou não. Não sabe bem. O que sabe é que, em suma, é uma grande chata. Mas, ao mesmo tempo, contendo um permanente desafio em si mesma. Mulheres bonitas e inteligentes não deixam ninguém indiferente, desculpa-se ele perante si próprio.

Mas ela nunca facilitou. É frequente quase desautorizá-lo em público com os seus apartes, com as suas correcções – embora, com aquele ar de boa pessoa, disfarce as alfinetadas com um sorriso angélico, transbordante de inofensivo charme (e ele sabe que isso só evidencia que é bastante inteligente, na verdade uma adversária temível).

Anos de picardias disfarçadas de sã camaradagem. De vez em quando, contudo, a coisa estalava e os desentendimentos ficavam à vista. Não raramente, quando discutiam, os colaboradores ouviam as vozes que se elevavam, a irritação. Quando se separavam, ele furioso, em silêncio jurando vingança, ela, superior, sorrindo como se nem tivesse percebido a situação desagradável e ele, com isso, ainda mais furioso, a ranger entredentes, ainda as pagas, não perdes pela demora, a vingança serve-se fria, espera pela pancada.

Não raras vezes, quando se reunia a sós com ela e a conversa e as divergências subiam de tom, aquele perfume, aqueles olhos, aqueles lábios, aquelas pernas, aquele decote começavam a fazer o seu caminho rumo aos domínios mais escusos do seu inconsciente. Não o demonstrava, anos de tarimba, e continuava a discutir, a desmontar raciocínios, a tentar vencê-la, mas, enquanto isso, sentia a involuntária reacção do seu corpo. E pensava, que ela não me tope, caraças. Ia ser a grande vitória dela, porra. Mas ela nunca o percebia. Vive para o trabalho, não tem mundo, bonita mas uma santinha, nem lhe deve passar pela cabeça uma coisa destas, tranquilizava-se ele.

E, no entanto.


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Sotto Aguiar é, aqui, Pierce Brosnan. A música é What other guy de Adam Cohen.

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Relembro que, se continuarem a descer, abaixo deste, há o texto que escrevi há pouco sobre as comemorações do 25 de Abril, sobre a minha ida à praia e sobre o livro que estou a ler, crónicas de Clarice Lispector.

Caso queiram continuar ainda um pouco mais na minha companhia (há gostos para tudo, não é?), convido-vos a virem comigo até ao meu Ginjal e Lisboa onde, hoje, pela mão de Manuel Alegre (who else no 25 de Abril?)  me interrogo sobre o início (e o fim) de todas as coisas. A música que se lhe segue é ainda uma grande interpretação de Chick Corea.


*

Por hoje, é isto. E já é sexta feira. 
E o que vos desejo, meus Caros Leitores, é que seja, para vós, um grande dia.
E que tenham saúde, alegria e esperança.

quarta-feira, abril 24, 2013

Dr. Sotto Aguiar, um executivo de sucesso, lindo e bom pai de família


No post abaixo, escrito ainda no Dia do Livro, falei-vos sobre o meu vício por livros e mostrei-vos a minha mesa repleta, transbordante de palavras, quase sem sítio livre para acolher as que agora vos escrevo.

Mas isso é no post a seguir a este. Aqui, agora, a conversa é outra. 


Música, por favor




Há mulheres que idealizam os homens como uns seres especiais, com comportamentos e ambições muito diferentes dos seus. É também frequente que os imaginem com manhas, ardis, falhas de carácter, gostos bizarros nem sempre publicamente confessáveis. Especialmente as mulheres solteiras ou divorciadas tendem a tipificá-los ou a pensarem neles como um membro indistinto de uma seita pouco recomendável. Pouco sinceros, pouco carinhosos, fracos companheiros, protegendo-se uns aos outros, etc. – é frequente ouvi-las dizer dos homens em geral.

Contudo, é um erro. Uns são assim, outros são o oposto disso, outros são assim em parte – tal como as mulheres. Os homens, tal como as mulheres, gostam de se sentir apoiados, acarinhados, gostam de partilhar ideias, sentimentos, gostam de sentir que a sua companhia é apreciada, têm momentos de fragilidade, têm o seu orgulho que deve ser respeitado. E há, claro, também os que se encontram desajustados do mundo em que vivem, revoltados, aflitos ou violentos  – mas, isso, tanto há homens como mulheres.

Claro que os homens têm as suas idiossincrasias resultantes das características físicas próprias do seu sexo: os seus neurónios estabelecem menos ligações simultâneas que os das mulheres, por exemplo. Mas também as mulheres têm as suas particularidades. 

As mulheres não devem, pois, temer os homens, evitá-los, ter cuidados especiais quando lidam com eles, as mulheres devem ser como são - tão simples quanto isso.

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O Dr. Sotto Aguiar é um executivo típico. Raciocínio rápido, verbo requintado, um bom condutor de equipas, pragmático, homem de poucas flores. Pratica golfe, participa naqueles torneios de golfe tantas vezes patrocinados pelas consultoras ou pelos bancos, tem corrido o mundo por causa disso. Contudo, correria de qualquer maneira já que, ou a trabalho ou de férias, é frequente ir para fora.

Aparece sempre impecavelmente vestido, fato de escorreito corte, camisa com monograma bordado, gravata de boa marca. Como grande parte dos homens de uma certa casta ou que a ela aspiram, usa cordão com medalha ou crucifixo.

E, claro, usa aliança. É casado, muito bem casado, e tem quatro filhos. São de ir à missa todos os domingos. Os filhos andaram nos melhores colégios privados, daqueles bem caros que têm vincadas conotações católicas; agora estudam ou estagiam no estrangeiro. Tem, em cima da secretária, uma fotografia da mulher sorrindo no meio de quatro bonitas crianças que parecem quase da mesma idade, que se empurram, rindo.

Se lhe perguntam se a mulher trabalha, Sotto Aguiar responde, com orgulho, que ela retomou há pouco tempo o trabalho de advocacia (e, por discrição ou pudor, ou para não diminuir o mérito da ocorrência, omite que ela voltou ao escritório de advocacia que começou por ser do pai e é agora um dos maiores da capital), que tinha interrompido aquando do nascimento dos filhos para se dedicar de corpo e alma a eles. E prossegue, dizendo que ela os acompanhava a tempo inteiro, que os levava às suas actividades, que os apoiava nos estudos e remata, sentenciando, que, se há tantos problemas com jovens, tal se deve à falta de acompanhamento familiar. Claro que, quando ele, muito senhor da sua verdade, faz estas afirmações, se há mulheres entre a audiência, ficam a morder-se por dentro para não lhe dizerem que o que não falta são mulheres que conseguem fazer isso tudo apesar de trabalharem ou que ela pôde fazer isso porque o pai foi um dos fundadores do escritório ao qual regressou.

Mas, para quem o ouça, a mulher é o exemplo de perfeição feminina pelo que, qualquer contraponto ou argumento seria muito mal recebido. De vez em quando atende o telefone para a ouvir protestando sobre algum incidente no escritório e ele, sempre tão avesso a pormenores e insignificâncias, muda o tom de voz para a aconselhar a pensar bem ou a falar com um dos sócios, ou para a incentivar a falar com um dos filhos sobre alguma pequena rebeldia percebida mesmo à distância, ou, mesmo, para concordar com a ementa para o jantar. Por vezes, percebe-se que a conversa talvez seja desagradável mas ele continua imperturbável e ninguém, nunca, percebe qualquer risco na superfície do casamento.

Na empresa, alguns dos seus colaboradores temem-no, dizem-no exigente e bruto, outros dizem que é preciso é saber explicar-lhe com franqueza as dificuldades e todos concordam que não é má pessoa, talvez apenas demasiado distante.




A Noémia, a secretária, é sua fã, devota mesmo, e trata de toda a sua vida profissional e pessoal, desde marcar a casa de férias, comprar os bilhetes de avião e reservar hotéis, tratar das inscrições dos filhos, marcar consultas para ele e para o resto da família, tratar-lhe dos pagamentos de seguros, impostos, etc.  Noémia adora a mulher do SôTôr, diz dela que é uma Senhora com S grande, impecável, simpática, muito atenciosa, pergunta-lhe sempre como está, nunca se esquece de lhe ligar no dia dos anos, pergunta-lhe pelo pai, é muito prestável, pergunta se é preciso alguma coisa, sempre. Impecável. E os miúdos, que já não são miúdos, são amorosos, muito educados, não tem nada a apontar-lhes. Já trabalha com o Sôtôr há muitos anos e é muito exigente, pronto, é, mas não tem razão de queixa e ele já nem precisa de falar que ela adivinha logo o que ele quer. E basta olhar para ele quando chega para perceber se vem bem disposto, se traz alguma preocupação. 

Quando lhe dizem na brincadeira, E é muito giro… Noémia concorda, que sim, que é, que faz um casal muito bonito com a mulher, e a conversa fica por aí.

Mas é que é mesmo muito bonito. E, como todos os homens bonitos, com um belo físico, Sotto Aguiar, apesar de ser reservado, tem aquele à vontade cheio de auto confiança que atrai imediatamente as atenções.

Dizem que as meninas se derretem com ele, dizem que ele exerce a sua sedução especialmente sobre as jovens consultoras que calham apresentar-lhe propostas ou trabalhos mas não se lhe conhecem maus passos - o que o torna ainda mais exemplar pois, bonito e charmoso como é, algum inofensivo pecadilho, ser-lhe-ia perdoado. Mas nem isso. Saberá a mulher a sorte que tem?, é pergunta que, por ali, é feita muitas vezes.

Nesse dia de manhã, Sotto Aguiar chegou apressado, vinha a ler um mail ou mensagem no iPhone e cumprimentou a secretária de forma mais lacónica que o habitual. E, sem parar, disse, Leva-me um café, leva?

Alguma coisa o trazia já preocupado de casa.




Quando Noémia entrou no gabinete com o café confirmou: ele não lhe prestou atenção, nem a viu, estava noutra. Ela saíu, discreta e silenciosa.


*

Relembro que, se descerem um pouco mais, poderão saber quais os meus últimos livros, ver a minha mesa, saber das minhas confissões sobre o tema.

Relembro também que, caso tenham ainda paciência para continuar comigo, gostaria muito que fizessem uma visita ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje há um poeta que fala sobre outro poeta, Vasco Graça Moura sobre Eugénio e eu, doida por palavras, pego nelas e vou pela beira do rio fora, eu e o meu amor (conforme poderão ver no auto-retrato que lá coloquei). 

A música hoje, por aquelas bandas, é um belo momento: Chick Corea e Keith Jarrett interpretando Mozart.

Apareçam...
*

E, por agora, nada mais. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira.
Alegria e esperança é o que vos desejo.

(Se eu amanhã apenas aparecer por aqui já no raiar do dia 25 não se admirem. Amanhã o meu programa é em grande, não sei a que horas estarei em condições de escrever)

sexta-feira, abril 19, 2013

Isabel, a mulher ciumenta, faz coisas impensáveis


No post a seguir a este, falo da patética conferência de imprensa de uns quantos tristes que não tinham nada para dizer. Na altura em que escrevi, ainda não tinha visto as imagens. Entretanto, já as vi. Quatro almas perdidas. O astro Maduro, muito pequenino e hesitante ao lado de Marques Guedes, parecendo o seu pequeno filho, parecia pedir licença para dizer umas pequenas larachas.  Mais que um astro maduro, o Luís Miguel pareceu-me uma insignificante e nada promissora estrela-bebé. 

No meio das suas balbúcias, pareceu-me perceber que dizia que ia cortar nos investimentos financiados por Bruxelas, aldrabonamente (e como que ainda um bocado a medo) chamando a isso poupar. Pensei que não tinha ouvido bem. Mas, a seguir, ao ouvir a Quadratura do Círculo, a suspeição concretizou-se pois ouvi António Costa dizer que era mesmo isso que aqueles doidos se preparam para fazer. Revoltante. Numa altura em que um dos dramas é não haver investimento, estes maduros vão cortá-los...? Começa mal, a estrelinha-bebé.

A menos que estejam na brincadeirinha. 

Vá lá: apareçam lá, seus marotos. Digam lá. Isto é coisa daquele de cabeça rapada dos apanhados (como é que ele se chama, senhores? Laureano? Não, não é Laureano. Não me lembro mas acho que acaba em 'ano'). Daqui a nada, vai saltar de trás do Passos Coelho para dizer que isto foi tudo uma brincadeira, que é para os apanhados... é isso, não é? Só pode ser. Não acredito que isto seja um Governo com ministros a sério.

Bom, mas disso falo no post abaixo. Aqui, agora, falo de Isabel, a mulher ciumenta.






Somos rápidos a julgar os outros. Gostamos de os julgar segundo a nossa pequena maneira de ser. Se a nossa experiência de vida é limitada, tendemos a rejeitar e a considerar anómalos, aberrantes, todos os comportamentos que nunca vimos em nós próprios. Por causa disso, muitas injustiças foram cometidas ao longo dos tempos.

Isabel é uma mulher exemplar. Foi boa aluna, é boa profissional, é, sem dúvida, boa pessoa. Olha-se para ela e vê-se alguém que todas as mulheres reconhecem como um exemplo e que todos os homens olham com admiração e respeito. E tem charme e tem inteligência e tem educação e tem bons princípios. Uma mulher transparente, sem telhados de vidro, sem segredos.

Nunca ninguém lhe viu um comportamento disparatado ou inconveniente, uma roupa desalinhada, ninguém se lembra de a ouvir pronunciar uma palavra desagradável, nunca sobre ela recaíu a mais leve suspeição.

Nem perante si própria Isabel se vê de outra maneira.

Hoje de manhã, antes de sair de casa, já arranjada, perfumada, não resistiu a ir revistar de novo os bolsos das calças e dos casacos de Afonso. Ele tinha saído uma meia hora antes, é madrugador. Saíu dizendo secamente Até logo e ela nem respondeu.

Como sempre, não descobriu nada. Furiosa disse em voz baixa, pensas que és muito esperto. Mas, de facto, também ela pensa que ele é muito esperto. Fá-la pela calada, sem deixar rasto, o cínico. Pensou que um dia ainda vai segui-lo. Estaciona de longe perto da empresa onde ele trabalha e, quando o vir sair do parque, vai atrás dele. Se calhar é isso mesmo que terá que fazer.

Depois, quando ia a sair de casa, lembrou-se de uma coisa e voltou atrás. Foi ao computador consultar o extracto bancário, tentar perceber se houve algum gasto estranho nos últimos dias. Nada. Pensou que nada garante que não tenha uma conta de que ela não tenha conhecimento. Um arrepio de desconfiança subiu por ela. Será? É que, se assim for, as coisas são ainda mais graves. Como descobrir isso?

Saíu incomodada. Estúpido. O caminho todo Estúpido, estúpido, ainda mas pagas, ah pagas.




No entanto, quando entrou no escritório, foi sorridente e elegante que a viram.

Mal se sentou à secretária fez uma chamada. Via-se que estava determinada. Isabel é uma mulher assertiva, voluntariosa. Telefonemas assim são frequentes.

Passado um bocado, um colega entrou no seu gabinete. Vinha com um dossier na mão. Isabel levantou-se da secretária e dirigiu-se à mesa de reuniões onde o colega abria um dossier e procurava uns documentos.

A reunião durou até à hora de almoço. Porta fechada, falando em voz baixa, nada se ouvia do exterior. Sessões de trabalho ou reuniões tão demoradas não são frequentes com Isabel. Cá fora os colaboradores estavam admirados, temem sempre que se aproxime alguma reestruturação, alguma desgraça.

Saíram ao mesmo tempo e, passado um bocado, um dos colaboradores que estava de pé junto a uma janela, confirmou, Saíram com cara de caso e agora vão almoçar juntos. Mau. Qualquer coisa se passa.

Chegaram a meio da tarde, Isabel com ar normal, Isabel tem sempre um ar normal, sorridente, o colega com ar de quem tinha muita coisa que fazer.




Os colaboradores, na copa, enumeraram hipóteses. Uns temem o que aí possa vir, outros relacionam com outras movimentações noutras áreas da empresa, uns consultores que para lá andam, elementos que foram pedidos há dias. Tentam adivinhar através dos seus semblantes. Uns dizem Ele vinha chateado, ela não. Mas logo outros relembram Ela nunca mostra má cara, é uma pessoa calma. Uma aventou, Ou então é para não percebermos, para fingir que não há nada de especial. Ninguém disse mais nada.

Ao fim da tarde, Isabel recebeu uma chamada do marido. Tinha surgido uma coisa, uns alemães que cá estavam, um jantar. Isabel encolheu os ombros incomodada. Num tom irónico disse, A sério?! Depois de ouvir o que ele dizia, respondeu, Não percebo porque é que ligaste, ias jantar, curtias à tua vontade e à noite aparecias em casa como se não fosse nada contigo, e desligou o telefone. Parvo. Acha que sou parva. Um dia ainda tem uma surpresa.

Depois pensou. Hoje é que o vou apanhar. E mal conseguiu pensar noutra coisa.

Ao fim do dia, o colega voltou a entrar no gabinete, fechou a porta. Mas Isabel já não estava nem aí. Já tinha desligado o computador, estava com pressa, a sede do predador antes de apanhar a vítima. O colega saíu atrás dela, dossier na mão, ar de quem tinha ido em vão, levemente aborrecido. Isabel não deve ter reparado ou, se reparou, não quis saber.

Quando se sentou no carro, ajeitou o retrovisor, viu-se ao espelho. Sentia-se enervada. Por momentos, pensou As figuras tristes que aquele estúpido me obriga a fazer. Eu enfiada no carro, a espiá-lo. Sorriu ao de leve, imaginando-se uma cena de cinema, lábios en rouge, de gabardina, uma espia, une femme fatale.




Mas depois, ao estacionar um pouco afastada da porta da empresa onde Afonso trabalha, sentiu que o coração batia descompassado, que tinha a boca seca, que quase tinha pena de si própria. E quase teve vontade de chorar.


*

A música lá em cima é Who will comfort me de Melody Gardot. As imagens retratam Isabelle Huppert.

Caso queiram reler os dois 'episódios' anteriores desta história 'Isabel, uma mulher ciumenta' poderão procurar nas etiquetas do lado direito do monitor ou, então, deverão clicar aqui.

*

Hoje consegui escrever no Ginjal e muito gostaria de poder contar com a vossa visita. Pela mão de Maria do Rosário Pedreira vejo as estrelas numa parede por onde escorre um rio que alguém lá pintou. A música é Mendelssohn virtuosamente interpretado por Yuja Wang.

*

Relembro que sobre a triste e decadente actualidade político/económica é só descer um pouco mais.

*

E, com isto, já é outra vez sexta feira. 
E o que vos desejo, meus Caros Leitores, é que aproveitem bem o dia, todos os dias, todos os instantes de todos os dias. 
O tempo escorre por nós como um rio apressado.

quarta-feira, abril 17, 2013

Isabel, a mulher ciumenta, não perdoa







Isabel espera que os outros saiam. Apanhou o cabelo, faz alterações no documento, folheia pastas, pensa, escreve, olha a janela, olha o computador.




Não tem pressa. Pensa. Afonso vai chegar tarde, vai inventar uma desculpa mesmo que ela não lhe pergunte nada; e ela, para ele não perceber os seus ciúmes, vai fingir que não presta muita atenção ou que acredita. Pensa que se ele não perceber a sua desconfiança, mais facilmente o pode apanhar.

Se ele chega por volta das nove da noite ela vai chegar apenas um pouco antes. Não quer ficar em casa à espera, a imaginar onde andará ele. Vadio.

Durante a madrugada costuma levantar-se, espreitar os bolsos dos casacos dele, tenta ver as mensagens e os mails no telemóvel dele. Mas os bolsos estão sempre vazios, Afonso é um homem de hábitos, nunca guarda nada nos bolsos e, se guarda, quando chega a casa, despeja-os. No telemóvel também nunca descobriu nada. Afonso apaga as mensagens e os mails mal os lê. Isabel tenta ver as chamadas feitas e recebidas mas pensa que ele também apaga o seu rasto pois já tomou nota de alguns números, para onde telefonou depois, do seu telemóvel, depois de o ter posto incógnito, e sempre foi ter a colegas de trabalho, nada de mais.

Afonso, como todos os homens calados, sabe muito e é difícil de apanhar. Mas Isabel não descansa, está no encalço da outra e não há nada de mais infalível que uma melhor ciumenta.




Lembra-se das noites sem dormir, a tentar recordar-se de pistas, de gestos suspeitos. Lembra-se de episódios.

Lembra-se de uma vez terem ido ao cinema e de ele ter recebido uma chamada e ter saído da sala, apenas regressando quase no fim do filme, lembra-se da agressividade dele quando ela lhe perguntou se ele não tinha vergonha, lembra-se de ter chorado no carro sem que ele tentasse consolá-la. Lembra-se de chegar a casa lavada em lágrimas e de ele se ter ido deitar sem uma palavra.




Antes, quando ouvia casos de outras mulheres ciumentas, ria-se, achava que faziam coisas ridículas, arriscadas, dizia que ela jamais desceria a esse ponto. Achava-se superior.

Agora nem pensa. É uma obsessão: tem que descobrir quem é ela. Não sabe o que fará depois, não sabe se o confrontará com os factos, se lhe atirará uma coisa à cabeça, se fará telefonemas ameaçadores à outra, se o ameaçará a ele com um divórcio litigioso. Não sabe nem isso agora ocupa os seus pensamentos. Agora quer apenas conhecer quem é aquela que traz Afonso assim, tão desligado dela e da sua vida anterior.

Isabel sente que o seu coração agora está negro, negro como a noite.

Os colegas vão saindo, vão-se despedindo. Isabel permanece como se estivesse concentrada no trabalho.

Quando mais ninguém resta naquela ala, recebe uma chamada. Atende naquela inquietação adolescente, naquele nervosismo. Enquanto fala, solta o cabelo. Se alguém estivesse por perto, admirar-se-ia com o leve sorriso, com a alusão de malícia que assoma aos seus olhos.




Desliga o computador, arruma a secretária. Pega na carteira e vai à casa de banho, vê-se no espelho, ajeita o cabelo.

Sai mas logo volta atrás. O coração bate, sabe o que vai acontecer, ah sabe... Volta a ver-se ao espelho, volta a ajeitar o cabelo. Depois retira o perfume da carteira e deita umas gotas na nuca. Volta a ver-se ao espelho. Vadio. Não te desculpo. Vadio. Quando te arrependeres, já vai ser tarde.


***

A pedido de algumas famílias, hoje não é a voz rouca de Carla Bruni que nos acompanha, hoje é Melody Gardot com  Your Heart is as Black as Night.

Isabel é ainda Isabelle Huppert.

Porque tenho que me levantar muito cedo, hoje não consigo escrever nada no Ginjal.


NB: Caso desejem conhecer a minha resposta ao Leitor que me deixou um comentário dizendo que Pedro Lomba é um homem de génio e que é sobrequalificado para o lugar, desçam, por favor, até ao post abaixo. E, para um recado (inconveniente, confesso) para alguns intervenientes nas cenas de amanhã, é descerem ainda um pouco mais.

***

E, por hoje, já chega, não é?
Desejo-vos, meus Caros leitores, uma bela quarta feira. Muita saúde e boa disposição é o que vos desejo.


terça-feira, abril 16, 2013

Isabel, uma mulher ciumenta


Deixei de responder aos comentários para ver se consigo ir deitar-me mais cedo (já que, só tarde, de noite, consigo pegar no computador). No entanto, como se tem visto, não tem resultado. Acabo por escrever mais. Em vez de um post, agora são dois. Tenho, pois, que rever esta estratégia.

Mas, enquanto não revejo, aqui estou, de novo, prevaricando. Este já é o segundo post da noite aqui no Um Jeito Manso (e isto depois de já ter escrito também no Ginjal). Uma doença, isto, provavelmente. Enfim.

Se quiserem conhecer os meus comentários depois de ter transcrito parte dos artigos do New York Times e da entrevista de Soros a El País que arrasam a política destrutiva que está a ser seguida na Europa relativamente aos países intervencionados, nomeadamente em Portugal, deverão ler o post a seguir a este.

Mas agora, aqui, a conversa, é outra.
Abstraio-me do que se passa em Boston e deixo-me levar pela leveza dos pensamentos à toa.


(Música, por favor: que entre o amor)



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Os indícios tantos. Uma mensagem no telemóvel que não se lê quando chega, talvez para fingir que se desvaloriza, talvez para não ter que dizer de quem é, o desinteresse nela e na casa que já mal se disfarça, as desculpas para chegar sempre tarde a casa, os telefonemas em voz baixa, afastado, de que diz, depois, que era do trabalho, maçadas, gente que não sabe decidir nada sozinha.




Isabel vive nesta tortura. O marido tem outra. Não tem dúvidas. 

Poderia confrontá-lo mas o medo da verdade é muito. Prefere descobrir que está enganada. Por isso, vigia-o em silêncio, oculta as suas dúvidas.

Sente-se rejeitada, ofendida, tem medo de ser abandonada. De facto, alguma fragilidade. A todos os níveis: com o seu ordenado, agora tão reduzido, como suportaria a casa, como se aguentaria? Pior: como fariam em relação à casa? Se ficasse ela com a casa, teria que o indemnizar. Um caso sério. Ou porem a casa à venda, dividirem o dinheiro, comprar um apartamento pequeno. Mas, numa altura destas, as casas ficam anos por vender. Nem quer pensar. E teria que explicar à família: o Afonso arranjou outra. Iam querer saber quem, quando, como, desde quando, como tinha ela descoberto, como tinha ele reagido. Sabe como é. Toda a gente gosta de enfiar as mãos nas vísceras alheias. Não quer. O abandono silencioso posto a descoberto. Não, não é isso. A vulnerabilidade posta a descoberto, assim é melhor.

No outro dia, na copa da empresa, enquanto bebiam café, uma colega falava com outra, um sinal que não engana é quando deixam de querer fazer sexo. Isabel fez que não ouviu mas sentiu um arrepio. Há tanto tempo.




Dali foi à casa de banho e ficou parada em frente ao espelho. Continua a pintar o cabelo todos os meses. Continua a conjugar a cor dos sapatos com o resto da toilette, a cor da carteira com a cor dos sapatos, a cor do bâton com o tom da blusa. Porque não?

No emprego, olha à volta: as mais jovens andam de mini-saia, calções, leggings, discutem maquilhagens, os perfumes da zara, idas ao cinema, idas à praia, falam dos namorados; as mais velhas falam dos filhos, dos netos, de doenças, de medicamentos , de receitas e truques de culinária. Ela ouve, finge que presta atenção, mas não tem paciência para nada daquilo. Sobretudo, tenta que não lhe perguntem o que fez no fim de semana ou que não lhe perguntem pelo marido.

Então muda de assunto, sorri, faz perguntas, fala de filmes. Parece uma mulher casada normal, simpática, sem segredos.




Tantas vezes, o computador com um contrato aberto, faz de conta que analisa os documentos, que pensa. E, de facto, pensa: quando foi que se desencontraram? De quem foi a culpa? Será que não lhe deu a devida atenção quando ele precisava? Será que não foi tão ousada quanto ele gostaria? Será que a outra lhe dá o carinho ou a atenção de que ele precisa? Será que com a outra ele fala? Com ela falou sempre tão pouco.

Se ele lhe dissesse tenho problemas no meu trabalho e gostava de falar disso contigo, ela ouvi-lo-ia, tentaria ajudar. Mas nunca disse. Ou se dissesse gostava de ir de férias contigo, para longe, gostava de fazer amor contigo numa praia deserta, talvez ela acedesse. Mas nunca disse.


Isabel recebe uma chamada. Baixa o tom de voz, vira a cabeça na direcção da janela, o corpo abranda, sorri enquanto fala. Quando desliga, volta a recuperar a postura mais rígida, quer parecer a profissional executiva que todos reconhecem, talvez os outros pensem que foi uma chamada de trabalho. Faz uns riscos num papel, talvez pareça que toma apontamentos para não se esquecer do que falou, eficiente.




Mas de vez em quando distrai-se. E, como se estivesse muito tranquila, sorri olhando a janela. Tomara que a vida se suspendesse naquele instante.

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As fotografias mostram Isabelle Huppert. Lá em cima, a canção é 'L'amour' cantada por Carla Bruni.

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Volto a lembrar que, para assuntos sérios, economia e política e assim, é descer até ao próximo post.

E convido-vos ainda a virem comigo também até ao meu Ginjal e Lisboa onde hoje estou resistente, encabeçando um grupo de gaivotas que não cedem aos interesses dos povos do norte. A panfletária-mor foi Luiza Neto Jorge, podem crer. A música continua a estar a cargo de uma grande intérprete, uma mulher dotadíssima, Yuja Wang, tocando Rachmaninoff.

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E desejo-vos, meus Caros leitores, uma bela terça feira. 
(E, se for esse o caso, deixem-se de ciúmes e sejam felizes)