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terça-feira, junho 23, 2026

Susie e Bella, duas amigas

 

Um dia atarefado com coisas cá minhas, mas incomodada com o calorão abafado que a mim me pesa e tira o fôlego. Em dias assim, as coisas custam-me. No domingo, ao fim do dia, reguei alguns vasos e tinha pensado deixar para esta segunda-feira os vasos dos terraços e as buganvílias; mas não consegui. Não sei se a pressão atmosférica faz baixar a minha tensão arterial ou se é outra coisa, o que sei é que a minha energia parece ficar tolhida.

Ainda assim, fui ao ginásio. Muita gente que nunca vi antes. Algumas pessoas vão com personal trainers e sujeitam-se a verdadeiras torturas. Outros sujeitam-se às torturas por si mesmos. Hoje um homem, com uns gémeos de uma grossura irreal, dobrava-se ao meio, as pernas presas, e elevava e baixava o tronco pegando numa grande bola que parecia pesar uma tonelada. Ao vê-lo naquele esforço insano, dei por mim a pensar: 'Só espero que nunca morra nenhum enquanto eu aqui estou'. Um outro, bem mais velho, com idade para ser pai do outro, estava deitado, um altere em cada mão, abria os braços e depois fechava-os sobre o peito. E eu pensei: 'Se lhe falha a força e uma daquelas coisas lhe cai em cima, esborracha-o'. E não sei se já falei de uma a quem eu e o meu marido nos referimos por cavalona: deve medir um metro e oitenta ou mais, é escultural, usa uns trajes que lhe salientam os glúeos, um top curto, soutien na realidade, e atira-se às máquinas com um afinco que me deixa de boca aberta. Usa um rabo de cavalo ao alto e desloca-se entre as máquinas com passada larga e uma pressa carregada de violência que parece ser apenas vontade de que ninguém lhe ocupe o lugar. Há também rapazes e raparigas, praticamente das mesmas idades, que, em vez de olharem uns para os outros, de flirtarem ou, pelo menos, tentarem perceber se há ali alguma potencial afinidade, não senhor, no intervalo de cada exercício enfiam os rostos nos telemóveis, por vezes sorriem com o que veem, escrevem mensagens mas, sobretudo, deslizam o dedo nos ecrãs. 

Se eu tivesse lata, pedia licença para fotografar ou filmar todos esses meus parceiros, e gostava de lhes fazer perguntas. Mas não tenho. Fico calada, a olhar de soslaio.

Faços os meus exercícios modestos e lembro-me de uma coisa que li no livro da Siri Hustvedt: não é possível escrever sobre o que vai passar-se a seguir. Por isso, eu sei o que fazia e como era quando tinha a idade deles. Eles não sabem como serão e o que farão quando tiverem a minha idade.

Bem. Filosofia à parte.

O que sei é que, com este calor e a preguiça que desce em mim, agora à noite apeteceu-me uma coisa soft, light, tranquila. E nada como as conversas simpáticas, afáveis, com tempo, de Bella Freud com os seus convidados. Desta vez, a conversa é com uma amiga de longa data, a serena Susie Cave que eu apenas conhecia de ser mulher de Nick Cave. 

Aqui, Susie, impecavelmente vestida, calçada e penteada, conversa sobre o amor que bateu forte logo que os olhares dela e de Nick se cruzaram, fala de como começou a sua carreira de modelo, fala sobre o desgosto que quase a devorou quando um dos filhos morreu, fala do seu trabalho como designer de moda e como isso foi a mão que a salvou do abismo. É uma conversa pausada que condiz com o belo rosto de Susie e com o olhar carinhoso de Bella. Sabe bem ouvi-las.

Susie Cave fala sobre Steven Meisel e o seu encontro com Nick Cave | Fashion Neurosis com Bella Freud

Susie Cave é uma modelo e estilista britânica. A sua carreira começou quando foi descoberta durante umas férias em Nova Iorque pela famosa agente de modelos Bethann Hardison, que a encaminhou imediatamente para Steven Meisel, aconselhando-a a regressar à escola, uma vez que tinha apenas 14 anos. A sua beleza marcante e presença etérea rapidamente lhe valeram um lugar em campanhas de alta costura e capas de revistas, incluindo, mais recentemente, uma campanha de perfumes da Gucci e a capa da revista Another Magazine em 2020. Em 2015, Susie lançou a sua marca de moda, The Vampire's Wife, que ficou conhecida pela sua mistura de estética gótica e romântica. A Vogue descreveu o seu inconfundível vestido como o "vestido do momento", e a The Vampire's Wife rapidamente conquistou um público fiel, atraindo celebridades como Florence Welch, Cate Blanchett e Kate, Princesa de Gales, entre as suas clientes. Os designs de Susie são um reflexo do seu estilo pessoal — romântico, misterioso e profundamente artístico — consolidando-a como uma voz singular na indústria da moda. É casada com Nick Cave, vocalista da banda The Bad Seeds. Neste episódio de Fashion Neurosis, Susie Cave e Bella Freud conversam sobre como foi descoberta pela lendária Bethann Hardison e o seu encontro com Steven Meisel aos 14 anos; a primeira vez que viu o seu futuro marido, Nick Cave, num dos desfiles de Bella; e como o luto pode ser canalizado através da criatividade.


Desejo-vos um belo dia

terça-feira, junho 10, 2025

As ralações que este cãobeludo nos dá...

 

Claro que, depois de ter estado a dormir ferradamente no sofá, segundo o meu marido cerca de uma hora, cheguei à cama sem sono. Só consegui adormecer de madrugada. É impressionante como uma hora bem dormida durante o dia pode roubar umas quatro horas de sono durante a noite. Não percebo. 

Além disso estava preocupada. Como já aqui contei, o nosso fofo e felpudo cãobeludo arranjou uma grande infecção no quadril de uma pata posterior. Por isso, anda com um daqueles horríveis colares isabelinos. Como é óbvio, aquele funil incomoda-o pois bate em todo o lado. Não sei se por isso ou se por efeito secundário do antibiótico, não comeu nada de nada no domingo e praticamente também não bebeu água. A casa estava cheia de animação pelo que não deu para lhe prestarmos grande atenção mas, ao deitar-me e ao ver que a tigelinha da ração estava intacta e a da água também quase, fiquei apreensiva. 

Como vem sendo hábito, nestas situações recorro ao Chatgpt. Disse que mais do que 24 horas sem tocar na comida e na água pode ser sinal de preocupação. O meu marido também já tinha chegado à mesma conclusão. Por isso, pensámos que se, de manhã, estivesse tudo na mesma, poderia haver crise.

Além do mais, como ele andava desorientado com aquela coisa a bater em todo o lado, tínhamos já arranjado tigelinhas mais pequenas, que coubessem dentro do funil, já tínhamos tentado pô-las mais altas. Mas sem sucesso. Por isso, a esse nível já não sabia o que mais fazer.

E aconteceu mesmo: de manhã continuava a não ter comido nada. 

Tentei dar-lhe à mão. Nada. Estava murcho, apático, nada do que ele é. Continuou em jejum.

Entretanto, fomos ao ginásio já a pensar que de tarde teríamos que voltar ao veterinário. Sem comer e sem beber e com tanto calor, ainda ficava frágil e desidratado. 

Mas eis que, ao regressarmos a casa, a nuvem negra tinha desaparecido: a tigela da comida estava vazia e a da água já tinha um bocado a menos. Respirámos de alívio.

Quem não tem animais de estimação pode achar um exagero eu preocupar-me tanto com a doença do cão. Para muitas pessoas, um cão ainda é um instrumento que ladra para estar no exterior a afugentar estranhos. E ainda haverá quem os tenha presos por uma corrente e não perceba que isso é uma violência, uma maldade muito grande. Mas quem os tenha e os saiba estimar, compreenderá que é um ser vivo que faz parte da nossa vida, da nossa família, um amigo a quem deveremos estar gratos e que depende de nós, pelo qual somos responsáveis.

Fiquei, pois, felicíssima.

Desinfectar a pele infectada e aplicar a pomada continua a ser complicado pois teme à brava o spray, aquilo faz um barulhinho que o assusta e é frio. Mas o meu marido segura-o bem e aquilo que nem lhe dói. Incomoda-o e creio que agora lhe dá comichão, mas está menos inchado, já a cicatrizar.

Lembrei-me de pôr água numa daquelas tigelinhas pequeninas de plástico do IKEA, daquelas coloridas que se usam para fazer as papas dos bebés. Pus no chão. Andou ali de volta a ver como haveria de fazer a abordagem, entornou algumas vezes até que atinou. Agora já bebe dali nas calmas e está farto de beber. 

Ele come sempre ração de manhã e ao fim da tarde. Mas, à noite, não comeu. Contudo, quando estávamos a jantar, ele já todo arrebitado, pôs-se a dar saltos à minha volta, depois ia até à cozinha ao pé da ração e voltava para o pé de mim, depois ia para o pé da ração, dava saltos e voltava para o pé de mim, a olhar fixamente para mim. Pensei: está a querer que seja eu a dar-lhe a ração. O meu marido disse: alguma é. Fui buscar a tigela e pus um bocado de ração na minha mão e pus a minha mão em concha por dentro do colar. Bem... comeu, comeu, comeu tudo num instante. E ficou a olhar para mim. Percebi que queria mais. Fui ao saco buscar uma mão cheia e dei-lhe. Devorou. A dar ao rabo, feliz da vida. 

Depois de jantar, fizemos o tratamento e fomos fazer uma caminhada para dar tempo a que a pomada seja absorvida antes que ele chegue a casa e se deite. Ia feliz, só aos saltos, a brincar connosco. E eu também feliz. Está a voltar a ser ele.

Tirando isso, fomos às compras e tive expediente diverso a tratar. Adquirimos mais algum equipamento e maquinaria e o meu marido tem tido muito com que se ocupar. Diz que, de cada vez que compramos mais máquinas, mais sobra para ele. Mas gosto de o ver assim. Quando digo isso, ele responde: 'Isso sei eu, achas sempre muito bem pores-me a trabalhar...'. Brinca pois não sou eu que o ponho a trabalhar, é ele mesmo que cada vez está mais proactivo e diligente neste tipo de actividades de exterior.

E só espero que esta noite consiga dormir bem pois este dia feriado começa bem cedo, tenho que estar a pé muito antes do que me é habitual. Mas é por bom motivo!

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Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, abril 28, 2025

8.000.000 visualizações.
E, para os assinalar, é à V., que me 'desmascarou', que dedico estes redondos oito milhões

 

Ontem, tive uma surpresa. Estava a querer referir quantas visualizações tinha em média e, para não me enganar, fui ver as estatísticas. E, para meu pasmo, constatei que, no total, já tinha passado as 8.000.000 visualizações. Há tempos, ao ver que estava a caminho disso, tinha pensado que tinha que arranjar maneira de assinalar a ocasião. E, afinal, distraí-me, e, à hora a que estou a escrever, já vai em 8.029.700 e, portanto, é absurdo estar agora com foguetórios e grandes invenções festivas quando o dia em que transpus o patamar dos oito milhões já lá vai. 


De qualquer maneira, este domingo, ao pegar no telemóvel para ver as novidades, reparei que tinha uma mensagem de um amigo com quem tinha estado na véspera. E tive uma outra surpresa, uma surpresa de se lhe tirar o chapéu. Dizia-me ele que mão mais que amiga lhe tinha feito chegar o que eu aqui tinha escrito horas antes, e agradecia a referência amigável e a empatia de festejarmos juntos. 

Como é bom de ver fiquei de queixo caído. 

Quando aqui escrevo, sou só eu. Por exemplo, agora que já são quase duas da manhã, estou sozinha na sala e é como se estivesse sozinha no mundo. É quando me apetece escrever. Durante o dia, lavei e estendi roupa, apanhei sol, li, fotografei, falei ao telefone, vi televisão. E, só quando a casa adormece, ligo o computador e dou largas ao meu gosto por escrever. 

Hoje retomei a leitura de o 'Caderno Proibido', um diário escrito às escondidas. Não é o meu caso pois, em vez de esconder um caderno no fundo de uma gaveta, abro a janela e deixo que as palavras voem por onde quiserem, que pousem no vosso colo, que cheguem até às vossas mãos. Mas, quando escrevo, é quase a sensação de que escrevo só para mim, como se ninguém me fosse ler, sem correr o risco de ter que me justificar perante ninguém, pois abstraio-me de tal maneira que nem me lembro que alguém que me conheça ou que se identifique com o que escrevo pode reconhecer-se e vir contrapor opiniões ou mostrar desagrado.

Desde sempre quis que o blog fosse anónimo. Estando eu a trabalhar num grande grupo empresarial, nunca quis que as minhas opiniões pessoais causassem desconforto na organização. Sou intrinsecamente livre e não estava para que, quem me lesse, tentasse condicionar-me com observações do tipo: 'trabalha onde trabalha e escreve estas coisas...' ou que viessem aconselhar-me a ter algum cuidado na manifestação de opiniões contrárias a certas linhas de actuação. Nem queria que, ao falar de algumas situações ou de alguns chatos que tinha que aturar em contexto profissional (e que existem em qualquer contexto profissional), pudessem parecer actos de deslealdade perante pessoas ou acontecimentos concretos. E habituei-me a este registo. Continuo a não divulgar junto da maioria dos familiares e amigos que que tenho este blog e que todos os dias continuo a vir aqui partilhar opiniões, memórias, fotografias. Parece até que sinto um certo pudor em contar. Tenho ideia que as pessoas 'normais' não escrevem tanto ou tão abertamente como eu e não quero constrangê-los, não quero que pensem que têm que ter cuidado a lidar comigo porque sou um bocado anormal.

Mas, porque me esqueço que, ao escrever aqui, posso ser identificada, alheio-me completamente e as minhas mãos voam no teclado, escolhendo as palavras que muito bem entendem. Bem sei que diariamente há cerca de duas mil e tal ou mais (por exemplo, este domingo, 5.002) visualizações. Pessoas concretas leem o que escrevo. Mas é como se fosse uma realidade abstracta, pessoas que estão por aí (vi agora que hoje, para além de uma maioria de Portugal, houve quase outro tanto do Reino Unido, mas também umas centenas dos Estados Unidos, um número significativo de Áustria, da Alemanha, do Brasil...). Para além de alguns leitores que me escrevem (e que não conheço pessoalmente), a larguíssima maioria são anónimos, desconhecidos.

E, no entanto, regularmente acompanham-me. De certa forma, justificam esta minha persistência. Sinto-me agradecida. E espantada... Têm muita paciência. Sou escalena, irregular na escolha dos assuntos, nem sempre sou bem comportada. Há muita tolerância nos que, aí desse lado, leem o que escrevo. Do fundo do coração, agradeço-vos.

Mas depois... há estas surpresas. Perguntei ao meu amigo se me poderia dizer quem era a pessoa que lhe tinha enviado o meu post. Disse um nome (vou referir apenas a inicial, V.) e acrescentou, 'minha filha'. 

Num primeiro momento, senti-me comovida. Qual a probabilidade de eu falar numa pessoa, sem dizer nome ou outro dado concreto e justamente a filha reconhecer que eu estava a falar do pai...? Logo a filha... caraças... É muito jogo... 

E, depois da comoção, fiquei estupefacta com outro aspecto. Sempre me espantei com isto: muitos leitores muito jovens. Admitindo que as pessoas quando criam a conta no google escrevem mais ou menos a idade correcta, então é com um enorme agrado que vejo que grande parte de quem me lê é gente jovem.

É o caso da filha do meu amigo. Mas se a filha identificou que eu estava a falar do pai, como percebeu ele que era eu a autora? Pois... a filha segue-me há algum tempo, sabe qual a minha formação, por sinal a mesma que a dela, e mais um ou outro tópico. Bingo. (Se há coisa que a gente gosta é de encontrar soluções mesmo quando há muitas variáveis e restrições em jogo, não é, V.?)

E, portanto, fui identificada. Não me importei nada. Pelo contrário. E tanto assim é que, ao assinalar a ultrapassagem das oito milhões de visualizações deste blog, é justamente à V. que eu dedico este valor, a ela pela sua perspicácia, a ela em nome de todos os outros leitores que, espalhados pelos quatro cantos do mundo, me aturam há tanto tempo.

A V. deve ter a idade dos meus filhos, talvez menos (como sou cusca, já googlei e já a vi: tens uma filha toda gira, I., e, pelo que li, deve ter uma pedalada intelectual que vai lá, vai... Parabéns!). Por isso, ao contrário do que costumo, que é tratar por você quem não conheço, vou tratá-la por tu. 

Afinal se trato o teu pai por tu, não ia tratar-te a ti por você, não é, V.?

Conheço o teu pai desde que éramos miúdos, V.. Sempre foi impecável, 100% impecável, muito inteligente, discreto e educado, sensível, empático. Creio que nunca nos aborrecemos um com o outro. Nem sei se alguma vez alguém se aborreceu com ele. Creio que não. Sempre o admirei. Ao contrário de mim, que sempre me achei uma despistada e efervescente de primeira, a ele sempre achei estudioso, bem comportado, meticuloso, uma pessoa com a cabeça no lugar. Saberás que participámos ambos num concurso televisivo numa altura em que, por só haver dois canais de televisão, os programas tinham outro relevo. Tempos de festa, de grande animação. Sempre fomos solidários, amigos. Fizemos também uma longa viagem por terras de África, numa altura em que, adolescentes, descobríamos a alegria de andarmos à solta, quase como se estivéssemos por nossa conta. Gratas memórias. Depois a vida levou-nos por caminhos distintos, mas agora, ao reencontrarmo-nos, sentimos que a estima ainda está viva, intacta. Quando soube do acidente, fiquei preocupada. Ficámos todos. Os amigos formam uma rede de afecto que apoia quem está a passar por momentos mais delicados. Mas no sábado já o vimos fino, alegre, em forma, e, entre nós, comentávamos como está tão bem e a grande sorte que tinha tido. Ter um acidente assim e ter escapado 'apenas' com a lesão que teve é nascer uma segunda vez.

A vida é assim mesmo, extraordinária. Reserva-nos surpresas. No caos que é a multiplicação de acasos parece haver uma curiosa ordem, uma harmonia que nos conduz a encontros virtuosos, a momentos de profunda satisfação. O teu pai, que é crente, talvez pense que é deus que nos vai encaminhando através de caminhos que nem sempre compreendemos. Eu, agnóstica, vou mais pelo milagre das inexplicações perfeitas, pela indecifrável e aleatória conjugação de arranjos e combinações que, como que por magia, por vezes convergem em inesperados e felizes encontros.

E é isto. À V. e a Todos, uma vez mais, o meu sentido agradecimento. 

E vamos continuando a ver-nos por aqui, não é?

Saúde e alegria! 

domingo, abril 27, 2025

Dia de encontros felizes

 

Já vim do Instagram onde é tudo mais na base do toca e foge. Sendo eu caudalosa como sou, vejo-me e desejo-me para poder encaixar qualquer coisa numa legenda de uma fotografia. Se faço vídeos, a maltinha cá de casa e arredores mói-me a cabeça, que aquilo não tem jeito nenhum, que ninguém faz coisas assim (ora os vídeos são longos demais, ora são malucos para além da conta).

Por isso, aqui estou. 

O dia foi muito bom. Dia de reencontros. Como sempre, mal nos vemos desatamos a falar como se tivéssemos interrompido a conversa no dia anterior. Os abraços que recebo, calorosos, são sempre aconchegantes. Espero que os que dou o sejam também. E constato como a maneira de ser das pessoas, apesar das voltas e reviravoltas da vida, se mantém. E, talvez por isso, a compreensão que havia antes se mantém intacta. As minhas melhores amigas de então continuam a ter a mesma maneira de falar, entendemo-nos como sempre nos entendemos, os gestos, os olhares, os sorrisos são os mesmos.

E depois há os romances que têm surgido. Alguns são surpreendentes, enternecedores, outros por vezes a gente percebe que são inviáveis -- mas não faz mal, o enamoramento é bom mesmo que não possam senão ser uma amizade especial e mesmo que a gente saiba que, mesmo assim, não têm grandes pernas para andar. Mas não faz mal: há coisas que são boas enquanto duram e que, mesmo que não vão acabar em casamento, um dia que acabem deixarão boas memórias. 

Mesmo quando falamos dos ausentes, é com carinho e saudade que o fazemos. Mas seguimos em frente. A vida continua. Há que saber dar valor ao que temos até porque sabemos bem que tudo é efémero, precário. Um dos 'nossos' está internado, ainda sem se saber o que tem. São médicos, sabem do que falam quando dizem que não sabem o que se passa. Ficamos preocupados. Mas o que desejamos é que, um dia destes, esteja de volta. Um outro teve um acidente que poderia ter sido dramático. Teve que ser operado, esteve internado algum tempo, ficou debilitado. Mas já está de volta, a recuperar muito bem. E sorrimos e toda a gente fica contente porque, no meio de tudo, teve muita sorte. E a boa sorte tem que ser festejada.

E, quando nos separamos, já estamos com vontade que o próximo encontro chegue rápido.

E hoje conheci a mulher de um deles, uma simpatia. E conversámos também como se nos conhecêssemos e agora até estivemos a trocar mensagens. 

A vida é muito curiosa, cheia de surpresas. Temos é que estar disponíveis. É que o comodismo tende a deixar-nos no nosso canto, como se fosse preferível estarmos sossegados, sem ondas. Mas, a mim, estas coisas mobilizam-me gostosamente. Preparo vestimentas, maquilho-me, escolho brincos. E, como estamos na onda 25 de Abril e a minha filha me ofereceu um pequeno cravo em crochet (creio que comprou na feirinha do CCB), até o levei posto como pregador (digo pregador para evitar as armadilhas da língua portuguesa).

E é isto. Quando regressei, passei pelo supermercado, depois fiz o jantar (para mim, uma coisa ultraligeira) e, a seguir, fomos fazer uma caminhada nocturna que me soube lindamente. E, entretanto, já estive a ver algumas fotografias que alguns amigos partilharam. 

Quando vinha a sair do lugar onde nos encontrámos, reparei que estavam a escrever a ementa para domingo. Vi que tinham ovas de choco. E fiquei com imensa vontade de as comer. Adoro ovas de choco, adoro, adoro. Até escrevi isso numa coisa que publiquei no Instagram. Não me saem da cabeça. Imagino-as fritas, estaladiças por fora, branquinhas e suculentas por dentro. Juro que salivo só de pensar. Caraças. 

Mas pronto, já escrevi demais. Estou com sono. Por hoje dou o expediente por encerrado.

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Fotografei estes meus hibiscos hoje. São perfeitos, lindos, exuberantes e precários.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

domingo, outubro 20, 2024

Sábado assim-assim.
E receita de frango a que não sei que nome dar

 

Logo de manhã tive notícia que um amigo está numa situação clínica muito complicada e, pelo que é, ficámos todos preocupados. Fiquei em estado de choque e, como eu, todos os amigos. E porque vejo os que são médicos tão preocupados ainda mais temo que a situação seja mesmo crítica. Todo o dia tenho andado com esta apreensão. Ele é daquelas pessoas de quem ninguém poderia alguma vez pensar que lhe acontecesse uma destas. Muito jovial, muito alegre, com um aspecto saudável, cheio de energia e irreverência. E, de repente, está mal.

Portanto, o meu dia ficou um pouco toldado.

Não há dúvida de que, quando estamos bem, devemos dar graças por isso, curtir a generosidade da vida, degustar a felicidade. É que, de um momento para o outro, pode haver uma guinada de pouca sorte... Portanto, que, ao menos, tenhamos sempre a sensação de que não andámos a ser parvos e a desperdiçar o que tínhamos de bom à nossa disposição e não soubemos aproveitar bem.

Enfim...

Acresce que antes de ontem dei um jeito ao pé e, na sequência, ficou dorido e, para me provar que era a sério, inchou. O peito do pé todo gordo, a sola do pé também inchada e um dos dedos também reboludo. Nem conseguia dobrar ou mexer os dedos. Nem fiz programas familiares para estar com o pé no ar e com gelo. Agora já está melhor. Esta coisa de pôr os pés ao alto e de os refrescarmos geralmente dá bom resultado. Também pus aquela pomada Diclofenac, que penso que é o genérico do Voltaren, e que também é eficaz,

Como estou assim a modos que levemente jururu, pensando no meu amigo que está tão mal, vou ficar-me por dizer o que fiz para o almoço pois ficou saboroso e creio que saudável. E é simples de fazer.

Como foi só para dois, as quantidades são inferiores às que uso quando é para o quartel.

Meio frango do campo. É relevante ser frango do campo pois a carne tem outra textura e outro sabor.

Num tacho coloquei água, um pouco de sal, uma cebola bem grande aos bocados, dois alhos franceses (apenas as partes de baixo pois comprei uma embalagem com eles sem a rama verde) também aos bocados, cenouras às rodelas e o frango cortado aos bocados (tinha pensado fazer uma canja pelo que tinha pedido no talho para o cortar assim).

Deixei cozer durante talvez uma hora ou quase. O frango do campo tem a carne mais rija. Se fosse frango normal, metade do tempo seria suficiente.

Quando vi que o frango estava já quase macio, juntei três batatas, um bocado de abóbora, uma quantidade generosa de feijões verdes, uma boa quantidade de salsa e mais umas três cenouras às rodelinhas. Temperei com um pouco de açafrão e um pouco de pimentão doce -- pouco para nem se dar por eles, mas o suficiente para ficar com um gostinho saboroso e não facilmente identificável. 

No outro dia, quando fiz os rolos de carne (ainda não disse como fiz... a ver se um dia destes o digo pois ficou bom), recheei um com maçã e farinheira de porco preto do Alentejo. Só usei meia farinheira. Por isso, sobrou metade que hoje juntei ao cozinhado.

Quando os legumes estavam cozinhados, juntei um frasco de grão de bico cozido e uns bons ramos de hortelã. Misturei tudo e desliguei.

Para quem não está tão habituado, um pormenor: quando junto as coisas, ponho o lume no máximo até ferver. Depois, cozinho tudo com o lume no mínimo.

Ficou com um caldinho bom que, depois de comermos os sólidos, apanhámos com colher.

Deu para o nosso almoço e, como estava preguiçosa, repetimos e deu para o nosso jantar. E ainda sobrou um pouco mas que já não dará para os dois.

Para sobremesa, e agora falo só por mim, comi dióspiro. Adoro dióspiro. Não comi inteiro. A cada refeição cortei meio às rodelas e em cada rodela coloquei um niquinho de queijo de cabra. Fica delicioso.

E pronto. Nada mais a reportar.

Ah, sim, tenho andado a ler o Escrever do Stephen King que, até ver, é a sua auto-biografia. Vou agora entrar na parte em que creio que vai falar, em particular, na sua actividade de escrever. Nunca tinha lido nada escrito por ele. Lê-se muito bem, é uma escrita sincera, sem rodeios, com sentido de humor. Não é uma peça de alta literatura mas também não sei se é suposto ser. E, cá para mim, aqui e ali, tem algumas pequenas arestas que presumo que resultem de uma tradução não extraordinariamente refinada. Mas, seja como for, tenho lido bem.

E é isto. Hoje não comento os comentários, estou um bocado off. Mas agradeço-os.

Um bom domingo a todos. 

quinta-feira, outubro 19, 2023

Amigos contra as tempestades

 

Por aqui ainda não dou pela Aline. Mas parece que vem mesmo. A ver se não faz estragos, pelo menos, estragos de maior. 

Passa da meia-noite e meia e agora é que estou a pegar nisto. Não sei como me arranjo mas parece que, sejam quais forem as minhas circunstâncias, arranjo sempre maneira de andar sempre ocupada. 

Hoje foi na conversa com uma amiga de longa data. Impressiona-me muito como algumas amizades resistem ao tempo. É como se fossemos sempre as mesmas pessoas. A nossa história vai mudando, já vivemos muitas vidas, temos mais experiência, mas nós, nós mesmas, estamos aqui, capazes de falar horas a fio, compreendendo-nos, com vontade de conversar, de saber mais, de mostrar as nossas coisas.

Há algum tempo, quando estava na fase de me desligar do meu trabalho, eu a querer sair e a quererem que eu ficasse mais e mais, e eu, sobretudo por solidariedade e estima para com um colega que não estava bem de saúde, ia ficando e ficando, mas cheia, cheia, cheiinha de vontade de me pôr ao fresco, eu desejava dar uma volta completa na minha vida. 

E isso está a acontecer. Tenho a gestão do meu tempo, tenho a minha vida, posso estar na minha casa, que era uma coisa que eu desejava tanto, posso ler e escrever. Tenho escrito muito. Sei que tenho que passar por algumas provações até chegar onde quero. Mas passarei. Sou resistente. E resistente. E confiante. 

E o reencontro e reaproximação de amigos de quem a vida me tinha distanciado está a ser uma surpresa e uma alegria muito grandes.

...

Hoje pouca televisão vi. Entre uma e outra coisa, não me sobrou tempo. Está agora a televisão ligada mas estou a escrever ao mesmo tempo pelo que a atenção está um pouco desligada.

Sei que o mundo está muito perigoso, que o malvado e hipócrita Putin deve estar feliz por toda a atenção e esforços estarem concentrados na crise Israel/Hamas, sei que as ameaças terroristas saltaram de imediato para a Europa. E isso custa-me imenso. Uma vez, estávamos para ir a Paris mas havia atentados e ameaças de atentados e tivemos que adiar. Até há pouco tempo isso parecia-me longínquo. Paris sempre foi dada a greves a sério (uma vez fomos de comboio pois os aeroportos estavam em greve e o meu marido tinha reuniões de trabalho e eu tinha metido férias para aproveitar para ir laurear), dada a manifestações atribuladas. Mas os atentados ou as ameaças terroristas pareciam ter dado algumas tréguas. Agora, voltaram. E isso é um terror. A imprevisibilidade do local e da hora do ataque e a barbaridade que assumem é de estragar a tranquilidade a qualquer um. Dir-me-ão que é isso que sofrem os desgraçados da Palestina, de Israel, da Ucrânia e de todos os países assolados pela guerra, sempre na contingência de ser atacados, de perder a vida, de perder a casa e a família. É certo. Mas eu falo da minha realidade, a de viver numa realidade pacífica e temer, por mim e pelos meus, que aconteça alguma coisa que me parece impensável nos dias de hoje.

Enfim.

Não vos maço mais. Não vale a pena estar para aqui com ladainhas. 

Vou mudar. Não vem a propósito, pelo contrário, mas, nestas situações, apetece-me sempre, distrair a cabeça. Por isso, com vossa licença, que entre quem possa fazer-nos sorrir.

Chaplin and Keaton Violin and Piano Duet 


Desejo-vos um dia feliz, tranquilo

Saúde. Afecto. Paz.

sábado, setembro 30, 2023

Dia 29 de Setembro de 2023

 

Hoje não vou escrever muito pois estou um pouco exausta. Esta sexta-feira foi um dia muito especial para mim.

Acontece que, em vez de poder focar-me completamente na preparação para o evento em que ia participar durante o dia, de manhã tive uma série de assuntos para tratar. E depois a pessoa com quem tinha que falar não estava, a secretária disse que ela logo ligava, e eu pedi que fosse, no máximo dos máximos até às onze pois, a seguir iria ficaria indisponível... e o tempo passava e nada de telefonema e, a seguir a esse telefonema, teria que fazer um outro e ainda mandar o mail... e nada, nada, nada. Uns nervos. Tudo isto foi acontecer no pequeno intervalo de tempo que eu hoje tinha livre e que tinha destinado a outra coisa. 

Não sei se acontece convosco mas as coisas podem acontecer ao longo de meses e não acontecem. Mas, quando acontecem, parece que acontece tudo ao mesmo tempo.

E, estava eu a correr de um lado para o outro e a preparar-me para ir enviar o mail, recebo uma mensagem em que as pessoas com quem eu ia diziam que já estavam estacionadas à minha espera. Mas diziam que estavam num sítio que eu desconhecia. 

Saí para a rua e nada delas. Liguei. Disseram-me o nome da rua em que estavam. Rua desconhecida para mim. Ou seja, tinham ido parar a outro sítio. O meu marido, gozão como é, já tinha antevisto: 'Vão perder-se'. Pois.

Mas lá nos achámos.

E foi um dia muito bom. Um dia escreverei sobre isso. Foi daquelas coisas cuja descrição daria uma novela. Mas não quero escrever a quente, prefiro que as coisas assentem dentro de mim.

Só que não sei se para os vossos lados também esteve assim. Presumo que sim. Um forno. Ao sol não se aguentava. Muito, muito calor. 

Mas, tirando esse pormaior, o que posso dizer é que esta sexta-feira foi daqueles dias que jamais esquecerei -- pelo menos enquanto tiver os neurónios em bom estado.

Felizmente houve quem fizesse a reportagem e, portanto, para além da memória terei esse testemunho de que tudo aconteceu de verdade.

Fico-me por aqui até porque agora, desabituada que estou de acordar cedo e com despertador, quando isso acontece durmo muito pouco, acordo antes de tempo. Acresce que, ainda por cima, cometi o mesmo estúpido erro de sempre: sabendo que tenho menos horas para dormir, levo-me a mim própria mais cedo para a cama. Ou seja, ainda sem sono. Portanto, uma espertina do caraças.

Agora, ao escrever a data lá em cima, no título da mensagem, reparei que por uma diferença de dez dias, por pouco não tinha também comemorado o dia porventura mais decisivo da minha vida.

sexta-feira, agosto 25, 2023

Dilemas de uma candidata a escritora

 

Creio que como todas as crianças, cheguei à entrada da adolescência com um grupo de amigas, colegas de turma e de partilha de confidências, companhia para passeios, idas a festas de anos, à praia e ao cinema.

Éramos umas cinco, sempre juntas. Dessas cinco, identificava-me mais com duas. 

Uma era divertidíssima, atrevida, brincalhona. Tínhamos ataques de riso que eram uma fonte de prazer. Não extraordinariamente bonita mas nunca reparei nisso pois ela era, sobretudo, a confidente, a companheira de todos os momentos, aquela com quem podia sempre falar de tudo, a voz da razão, a voz da paródia. Um mix perfeito.

A outra era muito bonita. Eu achava que ela era a mais bonita de todas. Era um pouco tímida. Enquanto eu e a outra chorávamos a rir, ela não. Ria mas não era exuberante nas suas manifestações. Eu tinha sempre meninos apaixonados por mim e brincava com isso e tenho ideia que ela também os tinha mas eram, mutuamente, menos intensos, muito menos exuberantes. Embora os levasse mais a sério que eu, que me lembre, nenhum foi tão maluco por ela como os que eram malucos por mim o eram (nem ela era tão maluca e intensa quanto eu o era).

Enquanto eu tinha quase que namoros a sério, ela não, eram mais coisas a atirar para o platónico e remoto. Uma vez perguntei àquele com quem eu, miúda, namoriscava apaixonadamente qual, na opinião dele, a razão para os rapazes não se apaixonarem muito por ela, sendo ela tão bonita.

Ele disse que era porque ela era assim... e imitou-a a andar. Não percebi. Ele disse que ela andava de cabeça baixa e sem mexer os braços. Que parecia que lhe faltava vida, disse. Achei uma parvoíce. Que razões mais absurdas. Ela uma querida, tão linda, e diz ele aquilo. Nem nunca eu tinha reparado em tal coisa.

Até que um dia, no último ano de liceu, ela se modificou radicalmente. Parecia querer entregar-se aos rapazes. As más línguas diriam que se tornou oferecida. Muito oferecida. Mas eu achava que era qualquer coisa de estranho que estava a passar-se, qualquer coisa que eu não conseguia perceber. Parecia ávida de emoções, parecia que queria sentir-se amada, parecia que havia nela uma urgência e uma imprevidência que me assustavam, uma carência descompensada. E, naquele estado, começou a andar com uns muito impróprios para consumo, em especial um deles.

Todos a avisávamos mas ela estava cega e surda, não ouvia ninguém. Parecia que, de repente, tinha perdido a timidez e a insegurança e um atrevimento e uma malícia que ninguém lhe conhecia tinham tomado conta dela.

Viveu com esse e, claro, não correu bem.

Depois entrou, creio, numa espiral. 

Uma tremenda sede de amor, uma atracção por situações que, a olho nu, se viam que só podiam correr mal. Isto dito por ela.

Ao fim de todos estes anos continua carente. Ingénua, amorosa, bonita, uma simpatia. E solitária e carente.

Tenho muita vontade de escrever sobre ela pois gostava de perceber o que se passou no seu íntimo para se ter modificado tanto e para, com tanto que tem tentado e tanto que o deseja, continuar à espera de um amor. Creio que idealiza de mais, que espera de mais, creio que mostra de mais o quão vulnerável é. Mas não sei.

Falei-lhe nisto, de escrever sobre ela. Entusiasmou-se. Como sempre, dá-se toda. Contar-me-á tudo. Eu é que hesito. E se falho? E se sou crua de mais? E se ela, depois, não gostar de ser ver retratada? 

No fundo, no fundo, a verdade é que gostava mesmo de poder ajudá-la, gostava que a minha amiga fosse feliz, se sentisse realizada. 

E temo que, pôr-me a escrever sobre ela -- ainda por cima um livro que pode nem chegar a ver a luz do dia -- não ajude, pelo contrário, possa desajudar.

Hesito, pois. Ganho tempo. Talvez queira ganhar distanciamento. Talvez precise de me mover para um plano de abstração em que não seja sobre ela que falo mas, sim, sobre alguém inventado a partir da amizade que sinto por ela.

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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Afecto. Paz.

segunda-feira, dezembro 12, 2022

Paula Rego recordada por Lila Nunes

 



Conheci a Paula Rego em 1985 – vim de Portugal como au pair para ajudar o marido dela [o artista Victor Willing] que tinha esclerose múltipla. Os seus filhos estavam crescidos pelo que eu não precisava de cuidar deles. Foi um ótimo tempo. Dei-me bem com a Paula desde o início. Vi-a pela primeira vez quando ela estava prestes a sair para o teatro - ela era muito glamorosa. Ela disse "Olá" brevemente e acrescentou que sentia muito por se ir embora e disse-me que me veria mais tarde naquela noite ou no dia seguinte. Saí e, quando voltei, a Paula estava a tomar uma taça de champanhe com uma de suas filhas, a Vicky, e convidaram-me para tomar uma – claro, tomei várias – e foi uma ótima noite.

A Paula tinha o dom de deixar as pessoas à vontade. Era uma boa ouvinte, interessada no que dizíamos, dedicava tempo às pessoas, não fazia julgamentos. Falávamos sempre em português. Não sei se ela sentia saudades de Portugal, mas conversávamos muito sobre isso: o comportamento dos portugueses, a política, a culpa e a vergonha associadas ao catolicismo, e falávamos sobre ser mulher.

As minhas funções eram ajudar o Vic com as suas pinturas e transferi-lo de sua cama para uma cadeira de rodas. Paula mostrou-me como esticar uma tela. Não falávamos sobre como esse momento era difícil para ela – ela seguia em frente. Ela preparava o café da manhã para o Vic, partia para o estúdio e, na maioria dos dias, voltava a tempo de preparar o jantar dele. Tenho a certeza que foi por eu fazer parte do cenário doméstico que Paula e eu nos aproximámos tanto. As nossas conversas eram principalmente sobre trabalho porque era através do trabalho dela que tudo acontecia. Quando o Vic era vivo, ela trazia trabalho para casa, pendurava-o na parede e ele comentava, dava conselhos. Depois de ele ter morrido, ela dizia sempre que sentia falta dele e que era muito difícil sem ele. Ela teve que fazer tudo sozinha e isso foi muito difícil.

Pensando bem, acredito que ela estava a lidar com uma depressão há muito tempo. Aprendeu que a maneira de lidar com isso era continuar a trabalhar. Num domingo, ela disse: “Posso fazer um desenho seu?” Eu nunca tinha servido de modelo antes. Não pensei nisso, só estava a tentar ajudar – simplesmente aconteceu. Lembro da Vicky a dizer: “Não podia acreditar, fui lá em casa e lá estava você, como a coisa mais natural, posando para a Paula...”

Paula e eu mantivemos contato e, em 1994, ela ligou para perguntar:
Poderia ir ao estúdio? Então, no meu dia de folga – eu trabalhava como enfermeira – eu vim e foi aí que [o quadro] Mulher Cão começou. Às vezes, Paula contava-me a história em que estava a pensar. Noutras ocasiões, ela tentava uma pose para mostrar o que estava a procurar. Assim que eu me posicionava, ela dizia: “Muda esse braço, muda o pescoço”. Outras vezes dizia: “Sim! É isso." Ela fazia muitos desenhos para encontrar o que procurava… Uma das poses mais difíceis foi em 1995 – a pintura de uma mulher onde não fica claro se ela está a puxar as cuecas para cima ou para baixo. Todo o meu corpo tinha que estar rígido. Foi muito difícil – os meus joelhos dobravam-se – tive que ficar parada por horas.

A Paula gostava de rotina. Trabalhávamos das 10h às 19h. A primeira coisa, tomávamos café e conversávamos, e isso podia durar 10 minutos ou duas horas, dependendo de como fosse a conversa. Eu dizia: “Escute, estamos a conversar, a conversar – temos que trabalhar”. E ela dizia: “Tudo isso faz parte do trabalho”. Desenvolvi um modo zen, distanciei-me da pose. Eu não iria olhar para o que ela estava a fazer. Ouvíamos ópera pela manhã – bem alto. A Paula tinha um sentido de humor maravilhoso. A estranheza de outras pessoas fazia-a rir, como as pessoas reagiam – a comédia da linguagem corporal. Costumávamos chamá-lo de “aquela coisa”.

A Paula uma vez disse sobre mim: “Ela é realmente eu mesma”, e o que ela quis dizer, eu acho, é que ela podia ver através de mim e revelar o que quer que estivesse na sua mente. Não é a mim que me vejo nas pinturas, é principalmente a ela – à sua vida interior – e às vezes não é nenhuma de nós. Nunca penso: aquela ali sou eu. Penso: lembro-me daquela pose, como era difícil.

A saúde da Paula começou a piorar por volta de 2009 e ela disse: por que não passa a trabalha para mim a tempo inteiro? E assim fiz. Ela continuou a trabalhar todos os dias até quase ao fim. E quando ela estava muito doente para ir ao atelier, ia eu a casa dela e passávamos o dia a desenhar com pastéis. Ela continuou, não desistiu.

Mesmo agora depois da sua morte – pensarei sempre nela e verei coisas que seriam boas para o seu estúdio. Eu costumava comprar os adereços. Sempre que eu saía para fora, voltava com coisas: bonecas brasileiras, roupas de criança, um sombrero de Monterey. Certa vez, a Paula pediu-me para encontrar um papagaio de cerâmica numa viagem a Brighton. “Precisamos de um papagaio”, disse ela. Não consegui ver muitos papagaios em Brighton, mas encontrei um.

A sua morte deixou uma lacuna na minha vida. Agora encontro-me num limbo. Sem saber o que fazer. Sinto muita falta dela. Ela era muito generosa, mas a sua confiança em si mesma era facilmente derrubada: uma crítica negativa poderia fazer isso. Ela trabalhava e trabalhava, mas precisava de alguém que lhe dissesse que o trabalho era bom. Quando começámos aqui, quase ninguém vinha ver o trabalho até que estivesse pronto. Ela não atendia o telefone, as pessoas deixavam mensagens. Talvez a dúvida fosse necessária para o trabalho. Lembro-me dela a dizer: “Não, não, não…” antes de fazer uma qualquer mudança numa pintura. Eu pensava: “Ai meu Deus... mas estava tão bom...” Só depois de  ela fazer a alteração é que eu percebia.

Não sei se, mesmo no final da vida, ela sabia o quanto era amada e respeitada como artista. “Lila, imagine, a Tate vai fazer uma retrospectiva”, disse-me. E eu disse: “Pelo amor de Deus, já deveria ter sido feita há muito tempo.” A visibilidade do ano passado deu-lhe um impulso maravilhoso – ela foi à abertura e foi fantástico. Quando fui, senti... vi o fim.

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Cometi a ousadia de aqui ter o artigo na íntegra uma vez que o jornal é de leitura aberta (embora apele à generosidade dos Leitores). A tradução foi feita a meias entre mim e o tradutor da Google a partir do artigo Paula Rego remembered by Lila Nunes no The Guardian integrado na série The Observer's obituaries of 2022

A fotografia lá em cima mostra Paula Rego no seu estúdio em 2018 e é da autoria de Phil Fisk/The Observer. A segunda, propriedade de Lila Nunes, mostra-a com Paula Rego em 2018.

A pintura é Dog Woman, 1994, de Paula Rego (com Lila Nunes como modelo). Fotografia: Copyright Paula Rego, Cortesia Marlborough Fine Art’

A música, "Un bel dì vedremo (Madama Butterfly)" de Puccini por Renata Tebaldi, é uma escolha minha

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Paula Rego viveu entre 26 de janeiro de 1935 e 8 de junho de 2022

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Compreensão. Paz.

quarta-feira, julho 06, 2022

O elo que nos liga ao paraiso

 



Estava eu a ter uma reunião, a porta da sala para o jardim aberta e o dog de guarda deitado, do lado de dentro, a dormir uma bela sesta.

De repente, ouvi-o a ladrar ferozmente. Como sempre, quando pressente perigo, não me abandona. Fica a ladrar para fora mas do lado de dentro. Mas, logo que viu quem era, saiu a correr, aos saltos, feliz da vida. Quem entra pelo lado da frente, se vier silenciosamente, não se ouve do lado das traseiras. Por isso, ferrado como ele estava, só deu por eles quando se acercaram.

Claro que depois já não os largou. 

Entretanto, chegou o meu marido. Mas para os sons do meu marido, talvez porque são mais expectáveis, já ele está mais atento. Vai logo a correr para o jardim e, mal o meu marido entra, deita-se no chão para que ele lhe faça festas. Mas hoje deve ter-se atrasado um pouco pois, disse o meu marido, ficou no alinhamento de um pilar e não o viu. Mas o meu marido viu-o vir a correr e estacar, espantado, olhando em todas as direcções, admirado por não ver o dono.

Ao fim da tarde, já livres do trabalho e antes da hora da janta, fomos em grupo fazer uma caminhada. Habituado a passear geralmente apenas com os donos, o urso cabeludo veio saltitante e contente, feliz da vida.

Com os calores crescentes, alterámos a programação da rega. Na parte da frente, começa às nove da noite e vem vindo, por aí, em volta da casa, até que chega ao último ponto, do lado de trás, já mais tarde. Com esta novidade, o urso felpudo entra em órbita, tal a alegria. Persegue o jacto, anda em volta, e, claro está, molha-se de alto a baixo.

Tínhamos já acabado de jantar, um dos meninos foi atrás do urso. Veio a rir à gargalhada, numa risota espantada. Atrás, vinha a felpuda fera. Tinha reduzido de volume, parecia outro, um pinto pingão. Muda de fisionomia, fica mesmo cómico.

Depois, quando foi para tirarmos as fotografias de grupo, foi quase sempre o primeiro a vir a correr para o sofá onde nos sentámos todos, os rapazes a fazerem caretas, nós a rirmos. Não houve uma que ficasse totalmente bem: ou era o alf preto e cabeludo a saltar por cima de nós ou os rapazes a fazerem caras malucas. Recebi depois, por whatsapp, a melhor. Todos mais ou menos bem. E eu, no meio da confusão e da gargalhada geral, a rir, de pernas meio abertas, estragando a fotografia. 

Quando se foram, ele foi atrás, despedir-se. Quando chegou a casa, finalmente sem outros motivos de distracção, atirou-se à comida. Comeu, comeu, depois arrotou, lambeu-se e veio até aqui à porta desta sala. Olhou para mim e, de súbito, deixou-se cair e aqui dorme a sono solto.

É um companheiro. Uma ternura. Um amigo. Um protector. Irrequieto e traquinas, faz buracos na terra e vem para casa sujar o chão, deu cabo dos meus brincos de princesa, já partiu bocados da sebe. Mas vem encostar-se a mim, deixa-se abraçar, gosta de festas. E gosta de todas as pessoas da família como se fizessem parte do rebanho que defende contra tudo e contra todos. É o nosso grande amigo, é uma presença afectuosa, um sopro de alegria que ilumina as nossas vidas.

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Os cães são a nossa conexão com o paraíso. Eles não conhecem o mal, o ciúme ou o descontentamento.

Sentarmo-nos com um cão na encosta de uma colina numa tarde gloriosa é estar de volta ao Éden, onde não fazer nada não era chato. Era paz.

– Milan Kundera

As histórias estão mais cheias de exemplos da fidelidade dos cães do que dos amigos.

– Alexandre Papa

O único amigo absolutamente altruísta que o homem pode ter em este mundo egoísta, aquele que nunca o abandona, aquele que nunca se mostra ingrato ou traiçoeiro é seu cachorro.

- George Graham

Se você acha que é uma pessoa com alguma influência, tente dar ordens ao cachorro de outra pessoa.

- Sabedoria de cowboy

Você acha que os cães não estarão no céu? Digo-lhe, eles estarão lá muito antes de qualquer um de nós.

- Robert Louis Stevenson


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As fotografias que vêm a seguir ao meu fofo (fotografias feitas noutros dias, uma aqui, outra perto da praia, outras in heaven), são da autoria de Steve McCurry. A penúltima, adorável, foi feita em Portugal. As citações provêm também do post ao qual fanei o título: Our Link to Paradise

 Catrin Finch interpreta Clear Sky

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Afecto. Boa sorte. Paz.

domingo, outubro 03, 2021

Um homem que partiu cedo demais

 


Ontem à noite pensei numa pessoa que me foi muito querida. Mais do que um colega com quem me dei muito bem, foi não apenas um amigo mas, sobretudo, uma pessoa que deixou as mais gratas memórias.

Já aqui falei dele algumas vezes, por vezes em episódios avulsos. Era daquelas pessoas de quem sempre se podiam contar muitas peripécias. 

No outro dia. falei de quando comecei a trabalhar em ambiente empresarial: uma grande, grande empresa, com uma longa, longa história, em que havia muita gente ainda a trabalhar de forma que a mim me parecia arcaica. Mas havia muita gente nova. Viviam-se tempos expansionistas, havia projectos com fartura e um enorme bando de jovens licenciados criava uma permanente animação um pouco por todo o lado.

Várias dessas pessoas acompanharam-me profissionalmente durante anos. Um deles viria a tornar-se um dos meus melhores amigos. Outro quase também. Outros apenas bons amigos (o que, convenhamos, não é pouco). Naquela empresa eram quase só homens e, com formação superior, as mulheres contavam-se pelos dedos da mão. Porque as coisas estavam organizadas dessa forma, eu quase apenas tinha contacto com os ditos licenciados. Até o refeitório tinha um horário e um local que eram destinados aos 'quadros'. Mas, elitismos à parte, era também uma questão geracional. As idades eram relativamente afins, as vivências também.

De todos aqueles jovens turcos, um destacava-se naturalmente. Não seria o mais 'apessoado' mas era um homem interessante. Mas era sobretudo um misto de muita coisa em generosas doses: hiperactivo, hiperdivertido, hiperinteligente. Onde ele estava, não havia lugar à monotonia ou à indiferença.

As mulheres caiam de amores por ele. A secretária do director era das mais apaixonadas. Mas havia outras. Tinham crises de ciúmes, ameaçavam denunciar-se umas às outras. Ele geria isso com boa disposição. Eram todas casadas e não era com ele. Tal como ele era casado e não era com nenhuma delas. Mas, se bem me lembro, tenho ideia que ninguém os censurava. 

Mais tarde, quando já éramos directores, uma equipa de, salvo erro, umas catorze pessoas, todos reconhecíamos que era ele o mais brilhante. Não era apenas a forma como delineava estratégias e as punha em prática mas também a forma como contribuía com boas ideias para as outras áreas, como trabalhava bem em equipa, como era sempre fair, como tudo o que dizia e fazia transpirava energia e joie de vivre.

Foi com ele que aconteceu aquilo de ter sido apanhado, fora de horas, no seu gabinete, a ter relações com uma colega de outro serviço. Toda a gente comentava e ele piscava o olho e ria. Nada parecia afectá-lo. Estavam em cima da mesa que, mais tarde, viria a ser a minha mesa de reuniões e da qual toda a gente dizia: 'se esta mesa falasse...'.  E ele, se o ouvia, ria-se. Era atrevido, descarado, bem disposto.

Numa altura, por razões que agora não vêm ao caso, a empresa quis aumentar brutalmente as vendas. 

A ordem era 'venda-se', 'alcancem-se as melhores facturações de sempre', 'esmague-se a concorrência'. Disseram-nos explicitamente: 'overbooking, se for caso disso'.  As nossas reuniões de trabalho eram de loucos. Ele vendia como se não houvesse amanhã. Na logística, nos aprovisionamentos, na produção, em todas as áreas, era a loucura. Dar vazão àquela avalancha de pedidos de compra por parte dos clientes era uma montanha russa em que uns dias nos ríamos e noutros nos pegávamos uns com os outros. Ele avisava: querem vendas, eu arranjo-as. Mas atenção que isso tem custos. Mil vezes, em público, avisou a administração. Mas alguém queria lá saber disso? Queriam era números.

Até que mudaram os ventos. O objectivo do record de vendas tinha sido atingido. 

Quando as canas por apanhar começaram a aparecer, quem tinha pedido, a qualquer custo, um valor extraordinário de vendas, saltou fora. Havia muitos incobráveis. Ele tinha vendido sem acautelar se os clientes tinham capacidade financeira para pagar a tempo e horas. Por muito injusto que fosse, quem estava no degrau acima, ao querer desresponsabilizar-se, fez a jogada clássica: começou por lhe fazer a vida negra para, de seguida, convidá-lo a sair da empresa.

Com a alegria de sempre, ao ter percebido o descaminho que aquilo ia levar, deixou de descartar os convites que frequentemente recebia. E, quando o outro o convocou para o convidar a sair da empresa, ele surpreendeu-o, apresentando a carta de demissão.

A notícia caiu como uma bomba em toda a empresa. Toda a gente gostava dele. O administrador iniciou, então, uma sistemática e furiosa campanha para o denegrir. Lembro-me muito bem disso. Como a campanha não lhe estava a correr muito bem, desencadeou uma caça às bruxas. Se sabia que alguém falava com o antes bestial e, depois, besta ou o defendia, era logo objecto de repreensão e velada ameaça.

Até ao dia em que descobriu que a sua secretária estava a organizar um jantar de despedida. Aí a sua campanha redobrou. Sondava-nos tentando saber se alguém se tinha inscrito, se já se sabia quem ia, dizia que quem estivesse a favor do outro estava contra ele. Fui pessoalmente alvo de toda a espécie de pressões. 

Ninguém se descoseu. 

Junto ao rio, num espaço gigante, juntaram-se centenas de pessoas. De todo o lado, vieram os seus colegas e ex-colegas, directos e indirectos. Foi um jantar muito animado e, ao mesmo tempo, muito emotivo. Penso que ainda tínhamos a esperança que o administrador voltasse atrás, que ele voltasse atrás. Havia surpresas e presentes para ele. Quem falava estava comovido. Mas ele, falando para aquele espaço imenso pejado de gente, falou com a sua alegria habitual. Desdramatizou. Era apenas uma nova etapa da sua vida.

E partiu. Ninguém acreditava naquilo. Como poderia a empresa tê-lo deixado ir embora?

Mas nas empresas a injustiça é frequente. Tão frequente que já ninguém se indigna muito.

Na empresa para a qual foi, toda a gente o passou a adorar. Era impossível não. Era daquelas pessoas que desenvolvia natural empatia para com os outros e que rapidamente apresentava resultados. E o seu sorriso, a sua inesgotável energia, a sua frontalidade e a sua inteligência eram irresistíveis.

Até que, pouco depois, veio a terrível notícia: tinha cancro. Foi um murro no nosso estômago. Não era possível. Não queríamos acreditar. Aquela energia, aquele poço de saúde...

Mas parecia que não era dos mais graves, continuava a trabalhar, muita gente lá nem tinha ainda dado por nada. Ia fazer os tratamentos e de lá seguia para o trabalho. 

Descansámos. Haveria de se pôr bom.

Algum tempo depois, chegaram novas notícias: parece que afinal não estava nada bem. Tinha alastrado.

Por essa altura, um dia, ao fim do dia, quase lusco-fusco, cruzámo-nos: ele descia num sentido, eu subia noutro. Ouvi apitar e alguém chamar o meu nome. Era ele. Disse que estava tudo a andar bem, sorriu, perguntou por mim, perguntou pelos meus filhos. Depois as filas andaram. Dissemo-nos adeus, até um dia destes. Apesar da fraca luz do fim do dia, pareceu-me bem encarado. Comentei isso no dia seguinte. Vinha do trabalho, de janela aberta, certamente a ouvir música, sorridente, igual ao que sempre foi. Não lhe notei sinais de dor ou mal estar, de preocupação, de tristeza, de que a sua vida estivesse por um fio. Nada. Pelo contrário, parecia que estava para dar e durar.

Dias depois chegou a notícia que ninguém queria ouvir: tinha morrido. A nossa consternação e pesar foram imensos. Não conseguíamos acreditar.

A capela mortuária estava cheia e o largo passeio também cheio. Colegas das duas empresas, todas as suas namoradas, todos os seus amigos. Ninguém conseguia aceitar ou perceber a injustiça que tinha acontecido. Da capela chegava o choro lancinante do pai. A mulher estava inconsolável. O filho, jovem adulto, era fisicamente igual a ele. Ambos, ele e a mãe, amparavam o senhor que, vergado pela dor, chorava: 'não devia ser permitido um filho ir antes do pai...'.

Isto já foi há algum tempo. 

Mas tento não me esquecer dele. A vida vai passando por nós, muitas pessoas vão ficando para trás, desaparecendo. Mas algumas foram tão especiais que é bom que, quem delas gostou, não as esqueça. Não sei bem porquê porque, na verdade, é tudo tão efémero, tão volátil, que não sei se a gente se lembrar faz alguma diferença -- mas sinto que é assim que deve ser.


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Pinturas de Zhao Mengfu (1254–1322) ao som de Take This Waltz por Leonard Cohen

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Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, setembro 07, 2021

Gustavo Santos e outros vazios que por aí proliferam.
O Vítor, a Ana, o Pedro e outros ausentes de que sinto saudades.
Os tempos que correm.

 


Há situações ou pessoas -- antes longínquas ou, mesmo, totalmente ignoradas --, que, em certos momentos, descobrimos e com quem passamos a sentir uma certa ligação. Por vezes, uma forte ligação.

Alguns são acontecimentos episódicos. Assim como aparecem e nos impressionam fortemente, assim desaparecem. E, apesar de nos terem marcado, sentimos que é melhor não forçar o rumo dos acontecimentos. Cruzámo-nos, afastámo-nos. Talvez um dia voltemos a cruzar-nos. E, se não, ficará a memória.

Por vezes, lembro-me de algumas dessas pessoas. Outras telefonam-me pelos meus anos ou pelo natal. Fico sempre espantada pois de ano para ano volto a esquecer-me delas e não faço ideia da data do seu aniversário. Gosto de pensar na vida como uma linha do tempo em que umas pessoas deixam de lá estar e em que entram novas. Tenho a sensação de que, se não me desligar de algumas, dificilmente terei disponibilidade para acolher pessoas novas. É coisa minha, que não sei explicar: prefiro conhecer pessoas do que manter um lastro de antigas e, por vezes, esgotadas amizades. E, no entanto, se calha encontrar algumas delas é como se tivesse estado com elas até à véspera. Ainda no outro dia me ligou uma amiga de há muitos anos e com quem não falava há que tempos. Pois bem, sem justificações para ausências, retomámos a conversa e ali estivemos que tempos, pondo a conversa em dia. Ou outra: foi promovida e lembrou-se de me ligar a contar, toda contente, dizendo-me que, mal soube, se lembrou logo de me contar por saber que eu ia ficar feliz por ela. E fiquei, de facto, mas fiquei foi ainda mais surpreendida por ela, naquela situação, se ter lembrado de mim. Ou uma jovem que trabalhou comigo há algum tempo. Eu mudei de empresa, ela continuou. Pois há uns meses ligou-me para me contar que ia aceitar um novo desafio e para saber a minha opinião e para conversar comigo. Fico sempre comovida com isto. E acho que é assim que comigo funciona bem. Não ter rotinas nem compromissos mas estar sempre disponível. 

Assim, tenho sempre espaço afectivo para acolher não apenas as que vêm de trás como novas pessoas e situações que vão aparecendo.

De um grupo de amigos que, em tempos, foram muito unidos, sempre fui a única a não participar mos almoços que organizavam pelo natal. Durante anos convidaram-me. Depois desistiram e  limitavam-se a ligar-me a contar como tinha sido o almoço e a desejar bom natal. E, volta e meia, algum liga e dá notícias. Assim está bem. A última vez que estivemos todos juntos foi no enterro da mulher de um deles, uma momento muito triste. Parecia mentira que a mais animada, a mais faladora, a que enviava anedotas para todos fosse a primeira a sair de cena. O marido chorava sem consolo e todos nós estávamos atordoados com a situação e com o sofrimento dele. 

Depois passou um, mais velho que nós, amigo mas não fazendo parte dos mais chegados, que não me conheceu e que olhava para todo o lado como se não reconhecesse ninguém. Chamaram-no e não se virou. Um deles disse: está surdo como uma porta. Outro disse: desde que lhe morreu a mulher foi-se muito abaixo, parece até que já não bate lá muito bem. Outro disse: mas ele e a mulher... aquilo sempre foi chama apagada até porque ela nunca foi muito certa e, além disso, estava com alzheimer há anos. Porque é que ele se foi tão abaixo com a morte dela? Era morte mais do que anunciada... E outro: Na volta não tem a ver com a mulher, na volta é ele que também já não estava grande coisa. E depois a surdez ainda o desliga mais do mundo. Vá lá a gente perceber estas coisas. 

E é mesmo. Vá lá a gente perceber. É que nem vale a pena tentar.

Mas adiante.

Hoje resolvemos ir a uma das cidades aqui mais próximas comprar o jantar. Servia de passeio. Estamos tão habituados a estar em movimento que um dia inteiro no campo já nos dá vontade de cirandar. 

Pelo caminho, pusemos na antena 3 para ouvir o Alvim. Estava lá um convidado que nos pareceu meio parvo. Só dizia banalidades mas daquelas banalidades pretensamente inteligentes emitidas por tipos que são metidos a besta. Por exemplo, dizia coisas como que só tinha descoberto a dimensão do amor com a responsabilidade da parentalidade. O meu marido disse logo para mudar. Ainda tem menos paciência para parvos do que eu. Mas eu quis perceber quem era. O sujeito dizia: daqui a nada vou publicar um post em que vou falar do amor e da capacidade de amar para além do amor. O meu marido, irritado, esticou o dedo para mudar de posto. Eu disse: deixa ver quem é o filósofo. Logo a seguir trataram-no por Gustavo e percebi que era aquele que apresentava o Querido, mudei a casa. O meu marido disse que tinha ideia que ele também escrevia livros, que tem ideia de ter visto pelo menos um livro com a cara dele. Credo. Mudámos de posto, claro está. Depois de termos estacionado, ao irmos a pé para o restaurante, passámos por uma espécie de loja toda envidraçada com uma mesa com uma toalha e uma jarra e cadeiras em volta. Tudo estranho e piroso. E com uns ditos em molduras. Sorri à vida que a vida te sorrirá. Ou: Recebe a mensagem e faz dela o teu caminho. Coisas assim. Espreitei para perceber o que era aquilo. O meu marido é que viu: uma igreja. Não era evangélica, era uma igreja de que nunca tinha ouvido falar. Uma religião que cultiva a banalidade, os lugares comuns, a vacuidade. Mais à frente, num pátio num jardim, vozes em altifalante. Campanha do PSD, ficámos com a ideia que eram os candidatos a uma Junta. Um homem dizia: 'Falar a verdade'. 'Não esconder nada'. 'Para o bem de todos, em total transparência'. E pensei que entre o Gustavo, a igreja não sei das quantas e o candidato do PSD não havia diferenças. 

Talvez tudo isto seja fruto da cultura actual, da que é alimentada pela trivialidade e pelo artificialismo do instagram e do facebook, verdadeiras máquinas de descaracterização, de make up emocional, de pseudo aforismos feitos de ar e de cuspo, de exibicionismo, de voyeurismo. 

Não sei se são as redes sociais ou o excesso de debates e artigos sobre tudo e sobre nada que andam a deformar a cabeça das pessoas. 
A ideia de que tem que se ter muitos amigos, que se tem que estar a dar likes e a pôr corações em tudo a toda a hora, que é bom a pessoa estar a mostrar-se aos outros a toda a hora, em locais fantásticos, a fazer coisas fantásticas, há-de ter nefastos efeitos secundários no raciocínio, no próprio vocabulário e, sobretudo, na estabilidade emocional de quem frequenta esses lugares de felicidade ficcionada.

Bem... e já viajei... começo um post com uma ideia em mente e depois, meio distraída, ouvindo música, vou por aí fora e esqueço-me da ideia que vigorava no momento da partida. 

Onde é que eu já ia... 

[Daqui a nada até me estava a dar vontade de ir investigar se o tal Gustavo é mesmo escritor de obra publicada ou se aquilo foi delírio do meu marido.

Que livros será uma pessoa daquelas capaz de escrever? E onde será que ele escreve aqueles posts que anuncia, em avant première, como se tivessem algum conteúdo? No Instagram ou no Facebook, só pode. E quem é que o lê, senhores? Quem é que, em seu são juízo, vê ali ideia que se aproveite?]

... e que mundo é este? Que acefalia colectiva, pior que pandemia, assola este planeta, deus meu? O que vai sobrar daqui? Gente alienada, gente ansiosa, gente com psicopatias e distúrbios emocionais de toda a espécie, imagino. Já para não falar na sociedade de analfabrutos em que todos se acham alguém sem conseguirem ter uma ideia própria ou formar uma opinião informada.

Mas dizia eu que, uma vez mais, sem querer, derivei. É que a ideia que tinha em mente ao começar a escrever era bem outra. Ao procurar um nome de um fotógrafo na lista dos temas por ordem alfabética que tenho aqui ao lado (barra da direita, mais abaixo) dei com vários blogues que acompanhava e que, entretanto, ficaram parados no tempo ou desapareceram. De alguns já nem me lembrava e, no entanto, tanto que gostava de os ler. Fiquei a pensar no que terá acontecido aos seus autores.  Espero que estejam bem. Outros apaguei a ligação porque, alguma vez, escreveram coisas que me desagradaram demais e, depois, acabei por me esquecer deles. Às vezes, penso neles mas já não consigo lembrar-me exactamente do nome do blog e já não consigo lá voltar. Toda a gente às vezes perde a cabeça e escreve coisas estranhas e eu tenho tendência a perdoar excessos. E, no entanto, quero lá voltar e já não consigo. 

Gostava que alguns blogs voltassem a viver: lembro-me do Âncoras e Nefelibatas, por exemplo. Ou do Ana de Amsterdam. Ou do Anjos e Prostitutas. Ou do Novo Mundo. Ou os do Mexia. E outros. É que, ao contrário do que acontece noutros domínios, neste caso não têm aparecido assim tantos blogs novos que nos façam esquecer a qualidade daqueles que ficaram suspensos no tempo ou que desapareceram. E era sobre isso que eu gostava de ter escrito.

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Pinturas de Svabhu Kohli e Viplov Singh ao som de Yo-Yo Ma, Kathryn Stott que interpretam The Swan de Saint-Saëns

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Desejo-vos um dia feliz