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sexta-feira, novembro 29, 2013

Leonor, a mulher


Depois de uma tarde cheia de maçadas, telefonemas desagradáveis, gente a queixar-se, gente desmotivada e até desentendimentos entre colaboradores que acabaram em lágrimas, Leonor foi refugiar-se junto do seu amigo de sempre.

Sô Tôr...
- Qual Doutor... Antes enfermeiro.
Senhor Engenheiro, então…
- Senhora Engenheira…! Muito suspira a minha amiga…
Antes fosse engenheira.
- Está como eu. Engenheiros financeiros era o que devíamos ser.
Pois é… Mas, se não quer que o trate por doutor e também não por engenheiro, trato-o como? Por lampião?
- Lampião no bom sentido: sempre! Sou fiel aos meus amores.
Seja. Senhor Lampião… conte-me coisas boas. Estou precisada.
- Ah, está a pedir-me muito. Gosto muito de a ver feliz mas, desgraçadamente, boas notícias é coisa que não abunda por aí. Mas vejo-a com ar cansado, doutorinha. O que se passa?
Nada de especial. Estou cansada. Mas nada de mais. É o costume, muita coisa. E aí umas coisas com o Duarte. 
- Com o Duarte? Então?
Nada de especial. Se calhar não é nada. Mas estou cá com um feeling. Não sei. Mas tomara que não, senão não saberia o que fazer. Mas deixe lá, não é nada.
- Já hoje me apareceu por aqui o Manel também preocupado e também me deu a entender que era qualquer coisa com o Duarte. Será é a mesma coisa?
Não, acho que não, mas não sei o que é isso que preocupa o Manel.
- Já no outro dia a minha mulher encontrou a mulher do Duarte na Bertrand e ela fez um comentário que deixou a minha mulher muito admirada. Atribuí a que tivesse ouvido mal. Tomara que não haja problema nenhum com ele. É um bom tipo, gosto dele.
Então e eu? Claro que gosto imenso dele. Temos os nossos desaguisados mas é tudo da boca para fora. Mas olhe, deixe para lá. Rica vida é mas é a sua que já está reformado e só cá vem por desporto.
- Qual desporto? Venho porque não sei fazer mais nada e, ao menos aqui, a minha mulher não me atenta o juízo. Assim, aqui, posso olhar pela janela, pensar na vida, fazer umas pesquisas, dar uns palpites a quem mos pede, organizar aí umas coisas. Sou amigo do Manel e agora, que as coisas estão bravas, não quero virar-lhe as costas. E daqui vejo o mar, não se está mal. Além disso, enquanto aqui estou a minha mulher  faz a vida dela, também sem ter que me aturar. Quando nos encontramos ao fim do dia, já estamos cheios de saudades e é uma festa. 
Boa. Deve ser esse o segredo para ter tão bom ar e para ter um espírito tão jovem. 

- Ná. Isto foi das cachimbadas. Um verdadeiro elixir da juventude.

Está bem, mas ainda bem que deixou de fumar. Mas e agora outra coisa. Conte-me lá. Que livro anda a ler? E que músicas me recomenda? Sigo os seus gostos com devoção, já sabe. Nunca falha. Não quer enviar-me uma listinha com algumas dicas?
- Mando, sim senhora. Mando já amanhã porque no fim de semana vou até à Dinamarca e fico lá até ao fim do ano.
Sortudo. Quem me dera… Mas então amanhã venho cá despedir-me, está bem?
- Fico à espera. E descanse, descontraia, divirta-se. Não gosto de a ver com esse ar arreliado. Prefiro vê-la sorridente e combativa. Acha que há alguma coisa que justifique que ande a cansar a sua beleza...? Nada!
Acho que tem razão. Vou pensar nisso. Beijinhos à sua mulher.
- Serão entregues. Mas, como de costume, para mim nada...?
Leonor levantou-se, Sempre reivindicativo..., deu-lhe um beijo na face e saíu.

Ia mais confortada. Dali nunca saía aborrecida. Se há pessoa com bom coração, bom senso, inteligência e elegância é aquele seu colega. Junto dele procura apoio sempre que precisa.

Quando chegou ao estacionamento, mudou de sapatos, tirou o casaco grosso do porta bagagens e conduziu até à beira do rio.

Pelo caminho ligou o Afonso e, como de costume, deixou que o telemóvel tocasse duas vezes antes de desligar.

Noite cerrada. Um frio antárctico. Fechou o casaco até acima, enfiou as mãos nos bolsos e fez-se ao caminho. A meio caminho sentiu um braço por cima dos ombros e alguém a querer enfiar-lhe uma coisa na cabeça.



*



*

- Se não fosse eu o que seria de si?
Ai! Assustou-me! Um gorro? Ai que bom… e que quentinho que é. Estou melhor assim, sim senhor.
- Sou ou não sou aquilo que lhe faz falta? Confesse.
Então não? Um amiguinho que me apareça a meio da noite para me enfiar um gorro… Toda a gente precisa disso. Mas olhe lá: não tem frio? Todo esgargalado...
- Estava aqui à sua espera para não a deixar andar por aí sozinha. Mas espere um bocado para eu ir ao carro buscar roupa para a neve.
Quando regressou, já agasalhado, Leonor voltou à conversa, Mas, então, dizia você que me faz muita falta porque me põe gorros na cabeça... 
- E faço outras coisas.
Sim...? Diga lá a ver se há alguma de que eu precise. 

O passo ia acelerado, Leonor gosta de caminhar durante uma hora ao fim do dia e se está frio tanto melhor. A proximidade do rio, o silêncio da noite, as sombras furtivas, tudo aquilo lhe tira toneladas de cima dos ombros. E a companhia de Afonso também não é má de todo. Geralmente não falam de trabalho, vão na brincadeira. 
Afonso sorria, Leonor... Leonor... Está a pedir que eu lhe diga uma ou duas, não está?
Diga. Pode ser que acerte.
Afonso hesitou, Eu digo mas depois não se queixe, é você que está a pedi-las. Vou dizer. Dar-lhe um banhinho quente… pode ser?
Banhinho...? Banhinho, inho, inho… ah como está todo mariquinhas… um banhinho... E depois mais alguma coisinha, inha, inha…?
- Está a pedi-las, ah está, está.
Pois, bem que eu as peço mas você não se chega à frente…
- Essa é boa. Não me chego à frente? Está sempre a dar-me para trás e agora diz que não me chego à frente…?
E não chega mesmo. O que é que hoje já fez por mim para além de me enfiar um gorro pela cabeça abaixo?
- Leonor…Leonor… Não me desafie…
Desafio, desafio…
- Veja lá não se arrependa…
Mas eu sou lá pessoa de me arrepender? Mas está bem, já vi que consigo é só conversa.
Afonso parou. Mau.
Mau, mau Maria, disse Leonor a rir e parou também. Depois puxou-o para si e beijou-o. Ele abraçou-a com força enquanto se beijavam.
Quando pararam, ele disse, Que você é mazinha, ó Leonor…
Mazinha, eu? Mas porquê?

- Gosta de fazer sofrer, não gosta?

Eu? Nãããoo... Mas pronto, vá lá, eu agora sou boazinha. Vamos acabar o passeio e depois aceito o banhinho. E mais qualquer coisinha. Inha, inha. 


Afonso tirou-lhe o gorro, fez-lhe uma festa nos cabelos e disse, Deixe-me olhar para si Leonor. Que bonita que está, tão calma. 
Olhe bem que não é certo que depois de amanhã me volte a ver de tão perto, respondeu Leonor.

Afonso, abraçou-a, Cale-se, não diga disparates, limite-se a beijar-me.


E beijaram-se de novo, um beijo que parecia não acabar.


***

Este episódio é a continuação do de ontem intitulado Leonor, Duarte e Afonso, o qual, por sua vez, já era continuação de outros. Caso vos ocorra ler de seguida a história até ao ponto em que vai, poderão procurar aí de lado, lá mais para baixo, a etiqueta 'Leonor e Afonso'.

A música lá mais acima é Our love is easy de Melody Gardot (que, como não consegui incluir aqui na versão cantada por ela, coloquei uma versão interpretada por Clementine Noordzij (La Clé de Soul)).

**

Não quero estragar o climinha mas, se me permitem, deixem que vos informe que, a seguir, poderão saber (se é que ainda têm dúvidas) o que penso do Paulo Portas, Pires de Lima, Aguiar Branco e outros que hoje me apareceram na televisão todos contentes quando, se tivessem um pingo de vergonha na cara, pintavam-na de preto, enfiavam-se debaixo de uma mesa, fugiam para Espanha, uma coisa qualquer. é só descer um pouco mais.

***

E, por hoje, é tudo. Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira.