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quarta-feira, maio 27, 2026

Retratos que nos marcam

 

Assim de repente não tenho presente qual o retrato que mais me impressionou. Retrato de alguém, quero dizer. Não falo de fotografia em geral, mas de retrato. Tanto pode ser retrato fotográfico ou pintado.

Quando pensei nisso, o que me ocorreu foi um que eu própria fiz. Durante parte da minha vida, não me movia sem levar a máquina fotográfica e aquilo de que mais gostava era de fotografar pessoas. Punha-me de longe, observava, antecipava movimentos e expressões, a adrenalina de captar a alma de alguém e de o fazer à socapa, sem que a pessoa se apercebesse do que eu para ali estava a espiá-la.

Fiz fotografias de que gostei bastante. Mas depois tinha receio de as mostrar. Nunca percebi qual a legitimidade de fotografar pessoas sem o seu consentimento. Claro que as melhores fotografias de rua são as espontâneas e, mesmo pensando em muitas das que passam à história, foram feitas na rua, à socapa. Se calhar há algum argumento que justifique a sua legitimidade. Será que uma fotografia feita há 10 anos, sem o consentimento expresso do visado, e publicada, ainda tem problema?

Não sei. Mas, não tendo eu o respaldo de uma agência que pudesse proteger-me ou esclarecer-me, optei por desistir. Com muita pena minha. 

Aquela de que melhor me lembro foi feita não apenas com a concordância mas a pedido do próprio. Eu andava a passear à beira rio, a fotografar os barcos, as pessoas que partiam e que chegavam, quando, mesmo junto a mim, um homem muito alto e muito magro, se acercou de mim e disse: 'Fotografe-me'. Tinha uma voz profunda, cava. Moreno, uns olhos enormes. À minha frente. 'Fotografe. Fotografe para ver o que é um homem desempregado, um homem sozinho'. Senti-me intimidada. Quase me barrava o caminho. Um rosto marcado. 'Fotografe', quase me ordenou. E eu apontei a objectiva e fotografei. Sentia-me quase envergonhada como se estivesse a testemunhar um momento de grande vulnerabilidade de alguém que, certamente, estava a atravessar um mau bocado. Ele olhou para dentro da câmara e a câmara olhou para dentro dele.

Na altura eu tinha um blog de que gostava muito, justamente de Street Photography, em que, justamente, para evitar problemas, eu só publicava fotografias em que os visados estivessem de lado ou em que, por algum motivo, mal se percebesse o rosto. Contudo, por pudor, por respeito para com a sua dignidade e, ao mesmo tempo, fragilidade, não publiquei a fotografia deste homem embora fosse talvez a única feita a pedido do fotografado. E era uma fotografia marcante. 

De retratos alheios não consigo seleccionar um, pois foram tantos os que me impressionaram. Retratar uma pessoa, para mim, não é propriamente mostrá-la bonita, não é um exercício editorial de mostrar o melhor ângulo, não é querer agradar ao ego do fotografado: retratar uma pessoa é mostrá-la como ela é, na sua espontaneidade. Pode estar absorta, pode estar séria, pensativa, distraída, pode estar perdida de riso. É captar o momento, captar a essência da pessoa no momento. 

Convido-vos a ver o vídeo abaixo no qual Stephen Fry vê o retrato de Oscar Wilde e, a partir dessa imagem, fala no que foi a vida do escritor e no que isso, em especial no que à sua homossexualidade dizia respeito, com tudo o que sofreu, de certa forma o marcou, receando passar pelo mesmo calvário que Oscar Wilde passou.

Stephen Fry - Os Retratos Que Nos Moldam

Stephen Fry apresenta uma história de esperança e inspiração, em contraste com a tragédia da vida de Oscar Wilde.

Sendo um herói pessoal para Stephen e para milhões de pessoas em todo o mundo, a história de Oscar Wilde mostra que o amor perdura e pode mudar o mundo, mesmo que ele não estivesse presente para o testemunhar.

Parte da nossa série "Os Retratos Que Nos Moldam", criada em parceria e ambientada no belíssimo cenário da @nationalportraitgallery. 

Oscar Wilde por Napoleon Sarony, 1882: © National Portrait Gallery, Londres


Desejo-vos um dia feliz

domingo, abril 19, 2015

Assim dizia Wilde







  • Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.
  • A verdade raramente é pura e jamais é simples.
  • Não quero ir para o céu: nenhum dos meus amigos está lá.
  • Não sou jovem o suficiente para saber tudo.
  • Dinheiro é como adubo: só serve quando espalhado.
  • Desculpe-me, não reconheci você: eu mudei muito.
  • Ser natural é a mais difícil das poses.
  • É absurdo dividir as pessoas em boas e más. Elas são apenas encantadoras ou tediosas.
  • A única diferença que existe entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais.
  • Se for dizer a verdade aos outros, faça-os rir, do contrário eles o matarão.
  • Quando me acontece pensar à noite em meus defeitos, adormeço imediatamente.
  • Adoro os prazeres simples. Eles são o último refúgio dos homens complicados.
  • A vantagem de brincar com fogo é aprender a não se queimar.
  • Tenho gostos extremamente simples: só o melhor me satisfaz.
  • Às vezes podemos passar anos sem realmente viver, e de repente toda a nossa vida se concentra em um só instante.
  • Convém ser moderado em tudo, até na moderação.
  • Dêem-me o supérfluo, pois o necessário qualquer um pode ter.
  • A melhor maneira de livrar-se da tentação é ceder a ela.
  • Nada pode curar a alma, excepto os sentidos.
  • Para a maioria de nós, a verdadeira vida é a que não levamos.
  • É muito difícil não ser injusto com quem amamos.
  • Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que devo estar enganado.
  • Só podemos dar uma opinião imparcial sobre as coisas que não nos interessam; sem dúvida, por isso mesmo, as opiniões imparciais carecem de valor.
  • As desventuras são suportáveis porque vêm de fora, são meros acidentes. É no sofrimento causado pelas nossas próprias faltas que sentimos a ferroada da vida.
  • Quando a pessoa está apaixonada, começa por enganar a si mesma e acaba enganando os outros. Isso é o que o mundo chama de romance.
  • O que nos absolve é a confissão, não o padre.
  • A educação é algo admirável, mas é bom recordar que nada que valha a pena saber pode ser ensinado.
  • Amar a si mesmo é o começo de um romance que vai durar a vida inteira.
  • A cada boa impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular, é preciso ser medíocre.
  • O pessimista é aquele que reclama do barulho quando a oportunidade bate à porta.
  • A ilusão é o primeiro dos prazeres.
  • Qualquer um pode ter empatia com o sofrimento de um amigo. É simpatizar com o sucesso dele que exige uma natureza delicada.
  • Ela se comporta como se fosse bela. Esse é o segredo do seu encanto.
  • A sensação mais agradável do mundo é fazer uma boa acção anonimamente e ela ser descoberta.
  • Dê uma máscara ao homem e ele dirá a verdade.
  • Cada um de nós é seu próprio demónio e faz deste mundo um inferno.
  • A arte nunca deve tentar ser popular. O público é que deve tentar ser artístico.
  • A vida é apenas um tempinho horroroso cheio de momentos deliciosos.

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Publicado no Brasil pela editora Sextante, “Oscar Wilde Para Inquietos” é um pequeno manual que reúne 99 aforismos do dramaturgo, escritor e poeta irlandês. 




Filho de um médico e de uma escritora, Oscar Wilde nasceu em Dublin, Irlanda, em 16 de outubro de 1854. Adepto do esteticismo — arte pela arte —, suas principais obras são o romance “O Retrato de Dorian Gray”, considerado uma das obras-primas da literatura inglesa, e a peça “A Importância de ser Prudente”, que reúne alguns dos melhores aforismos de Wilde e faz uma contraposição a ideologia da sociedade vitoriana.

Por sua homossexualidade, Oscar Wilde foi alvo de um célebre processo — “por cometer atos imorais com diversos rapazes” — que o levou a cumprir dois anos de prisão com trabalhos forçados entre 1895 e 1897. Durante o cárcere, o autor de “O Príncipe Feliz”, “O Rouxinol e a Rosa” e “Salomé” escreveu algumas das obras que ajudaria a imortaliza-lo, entre elas, “De Profundis”, uma longa carta de recriminações a seu ex-amante, na qual Wilde explica sua conduta sem tentar defendê-la; o ensaio anarquista “A Alma do Homem sob o Socialismo”; e a célebre “Balada do Cárcere de Reading”, revelando as condições inumanas da vida na prisão.

Depois de ser libertado, Oscar Wilde foi morar na França e adotou o pseudônimo de Sebastian Melmoth. Passou seus últimos anos de vida em Paris. Morreu em dia 30 de novembro de 1900, vitimado por uma meningite, agravada pelo álcool e pela sífilis.




Este texto e os aforismos que escolhi de entre os 99 foram extraídos do artigo da Bula que, uma vez mais, me foi dada a conhecer por Leitor a quem volto a agradecer.

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E, a propósito de Wilde:

The Harlot's House de Oscar Wilde (lido por Tom O'Bedlam)



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"The Arrest of Oscar Wilde at the Cadogan Hotel" de John Betjeman (lido por Tom O'Bedlam)

 

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E, ainda. Wilde.



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Permitam que vos informe: no post seguinte poderão assistir a situações divertidas, algumas das quais poderão ser replicadas em casa.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.