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quarta-feira, outubro 20, 2021

Crises camilianas, cães com nome de pessoas, pica-paus engalanados, abóboras japonesas e coisas assim

 



Ontem o dia esteve recheado de crises, uma maior que as outras. Aliás, uma substancialmente mais aguda do ponto de vista pessoal do que qualquer outra vivida este ano. Ligaram-me logo a avisar. Aliás, quando atendi, dispararam à queima roupa: 'Já soube?' Mas dramas daqueles já me maçam. Contaram-me: discussão, choro. Daquelas coisas. Relatam-me os factos e ficam à espera que eu faça alguma coisa. Pouco depois, ligaram-me a saber se houve evolução, se fiz alguma coisa. Não. Desviei a conversa, falei de outra coisa. Por dentro pensei que o melhor era ficar quieta, deixar que as cabeças esfriassem, não me meter, esperar que o drama saísse do ar, que a coisa ficasse por ali. Pensei que meter-me seria empolar. Portanto, deixei-me estar na minha.

Qual quê? Hoje um big mail reportando-me a situação em discurso directo mas em extensão, exponenciado, coisa quase camiliana, drama, tragédia, choro, mentiras e difamações. Olhei para aquela peça literária e voltou a ocorrer-me aquela da marquesa, mãe do meu amigo: não tenho idade nem posição social para isto.

Mas condescendi, fiz alguma coisa: escrevi um mail para o outro destinatário daquela piece of art a dizer que, por mim, punha já o autor com dono. Acrescentei: não há pachorra.

E, para ter a certeza que estava a ter a interpretação correcta, fiz dois telefonemas. Consolidei a minha opinião. O pior é que, face às proporções que a coisa assumiu, alguma coisa deverá ser feita. E o que for causará, forçosamente, mossa. E mossa na pessoa que, justamente, se está a apresentar como vítima.

Há pessoas que parece que não percebem o seu real valor aos olhos dos outros. Há cartadas que só se jogam quando se tem o domínio do jogo. Caso contrário, quem não tem unhas nem dentes não deverá pôr-se a jeito, convencido que pode arranhar ou morder. É que, fazendo-o, corre sério risco de ser posto para correr por quem efectivamente tem unhas e dentes.

O que me valeu foi a caminhada à hora de almoço. Desligo de qualquer maçada. Saio do jardim e já estou noutra. Chatices para trás das costas. 

Nunca fazemos o mesmo percurso. Todos os dias reparo no que antes não tinha reparado. Os jardins vão mudando. Onde havia flores agora vêem-se as cores outonais, há árvores que já estão nuas, há robots a apararem sozinhos a relva. As casas são silenciosas e quase parece que não está ninguém. Mas depois reparamos que há uma mulher a sachar um canteiro, um homem a aparar uma sebe, há cães que se chegam à vedação, alguém que estende roupa, hoje um homem comia qualquer coisa e ao mesmo tempo ia dando a comer a um enorme pastor alemão. Há muitas casas a serem arranjadas: ou é o telhado a ser limpo ou a casa a ser pintada ou o caminho até à porta de casa a ser calcetado. E há sempre alguém que passa a correr, alguém que passa de bicicleta. Ao cumprimentarem-nos percebemos que muitos não são portugueses.

De vez em quando sabemos de uma moradia à venda mas pouco depois já não está. Ao nosso lado também houve uma mudança. A vizinha silenciosa foi substituída por um ruidoso casal com os seus filhos e os seus cães que têm nome de pessoas. Pensávamos que teriam dois filhos e duas filhas mas afinal não são filhas, são cadelas. Chamam pelos quatro da mesma maneira e, aparentemente, portam-se todos mal pois parece que estão sempre zangados. 

Prezo muito o silêncio e as vozes faladas em harmonia. Contudo agora também eu falo a zangar-me quando ando no jardim. O meu pequeno urso só quer andar agarrado a mim, brinca, não me larga. Como nunca mais aprende a dar beijinhos, mordisca. Zango-me e ele pára mas, mal paro de me zangar, logo ele vem agarrar-se a mim. Agora, para evitar andar toda arranhada nos pés, tornozelos, mãos e braços, ando com uma vassoura na mão. Quando ele vem agarrar-se a mim, coloco a vassoura de permeio ou tento assustá-la. Ele baixa-se e ladra como que a desafiá-la. Farto-me de rir. E encho-me de ternura. Hoje deixou que o tivesse ao meu colo enquanto o escovava. Ficou macio como lã de seda. Muitas vezes, quando me vê fica num contentamento exuberante, dá ao rabinho e deita-se para eu lhe fazer festas. Olho-o e parece mesmo que está a sorrir, todo feliz. E isso deixa-me feliz.

Coisas simples.

No fim de semana o meu marido chamou-me, que fosse depressa. Tem o péssimo hábito de me chamar sem me dizer o que é. Quando lhe perguntei, insistiu: 'vem depressa'. Fui. Estava a olhar para o jardim a partir de uma das janelas da sala. Era um pássaro espantoso. Uma curiosa crista encarnada, plumagem às riscas castanhas e brancas em ton sur ton e havia ainda apontamentos em cor de laranja. Uma coisa extraordinária. O meu marido disse: são três. E ainda vi dois voando e o último voando a seguir. Fiquei maravilhada. O meu marido disse que achava que eram pica-paus pois tinha visto um ao alto como que a picar no tronco. Googlei e eram mesmo. Isto enche-me verdadeiramente de alegria. 

As romãs estão tão sumarentas, tão doces, que não se aguentam encapotadas. A casca estalada, escorrendo um sumo rubro. Acho que a natureza é um milagre permanente. 

De longe chegam-me ecos de negociações para o orçamento. Longínquos. Pouca televisão vejo, já nem consigo ouvir aquelas vozes que encenam e provocam crises, todos os anos a mesma coisa, a mesma conversa, as mesmas ameaças. Gente que nasceu velha. Muito menos consigo ouvir os comentadores televisivos, esses ruminantes avençados que mastigam a comida já mastigada pelos outros. Talvez um dia também pegue nela e a ofereça a um grupo de teatro para a espatifarem em palco, em grande estilo. 

Tirando isso, agora não sei mais o quê. 

Só se for que tenho muitos pinhões. Enquanto ando no jardim, vou apanhando. Mas, por pouca sorte, não caem dos pinheiros já descascados. E parti-los é o cabo dos trabalhos. Não sei que lhes fazer. No outro dia tentei mas fartei-me de dar marteladas nos dedos. Além do mais, de cada vez que era bem sucedida, comia-os. Portanto, fiquei sem nenhum para depois. Não sei se haverá algum utensílio para os partir, como o quebra-nozes. Ou uma maquininha de dar à manivela que a gente ponha lá os pinhões dentro e a casca salte deles como por magia. Era bom que houvesse, senão como descalço a bota? Na volta é pela complexidade do descasque que o miolo de pinhão é tão caro.

Posso ainda acrescentar que o meu filho e a minha nora nos trouxeram, no fim de semana, uma abóbora japonesa. Pus uma parte, aos cubos, na sopa, com casca e tudo. Uma inesperada delícia. Depois cortei outra parte às fatias e assei-as no forno temperadas com azeite, orégãos, sal e mel. Também com casca. Outra delícia. Desconhecia esta variedade de abóbora e desconhecia que a casca das abóboras fosse comestível. Sempre a aprender e descobrir, sempre a surpreender-me e agradar-me.

Na volta, ainda pode acontecer que a vida acabe mesmo por ser uma agradável caminhada. 

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Fotografias do Tales of Beatrix Potter pelo Royal Ballet dançado na Royal Opera House ao som do mesmo

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Desejo-vos uma radiosa quarta-feira

Saúde e boa disposição que o resto virá por acréscimo

domingo, julho 18, 2021

Quem vê casas...

 



Se me saísse o euromilhões, naquelas vezes em que saem muitos milhões, há uma coisa que eu gostava muito de fazer: encontrava um terreno grande e, lá, fazia uma casa para cada um dos meus filhos e, se os meus netos ainda fossem pequenos, fazia só o projecto mas, se já fossem grandinhos, fazia também uma casa para cada um. Gostava que morassem perto uns dos outros. Mas haveria de ser uma espécie de condomínio para que cada um tivesse a sua independência e privacidade. E gostava de tratar do projecto em conjunto com cada um deles.

A arquitectura é das formas de arte mais completas e mais humanas. Gosto muito de (bons) projectos de arquitectura e tenho admiração por alguns (bons) arquitectos.

Vejo, sempre que posso, vídeos de projectos de arquitectura. As soluções encontrtadas são, muitas vezes engenhosas, inteligentes. Hoje vi o que aqui abaixo partilho e pensei logo no meu neto mais velho, menino muito querido (mas muito terrível, verdadeiro pimentinha-pestinha encartado), que vibra com arquitectura moderna. Onde os outros vêem cubos sem graça, linhas excessivamente direitas e algum exagero de volume, ele diz com entusiasmo que gosta e que era assim que gostava de ter uma casa. E eu percebo-o. Imagino-o, adulto, a viver num ambiente assim.

Eu, para mim, não consigo escolher um género. Gosto de casas amplas, luminosas, em que não se tenha a ideia de se estar confinado. Tirando isso, interesssa-me a funcionalidade, a beleza e, de preferência, que tenha alguns recantos.

Nenhuma das casas em que já vivi era nova quando para lá fomos. Prefiro encontrar uma casa que sinta como minha e onde sinta que há margem para o meu cunho, a nível de decoração, do que estar a construir de raiz. Parece um contrassenso, bem sei.

Se calhar tem a ver com um dos meus sonhos recorrentes. Chego e encontro uma casa. É uma casa grande e passa-se de umas divisões para outras e é uma surpresa pois a evolução é coerente e, ao mesmo tempo, inesperada. E eu estou ali e a pensar que aquela é a minha casa, como se estivesse à minha espera. E, na volta, na vida real sempre foi isso que procurei.

Quer esta casa onde agora estou quer a casa no campo, in heaven, têm uma característica comum: há um espaço grande em que se passa de umas zonas para outras num movimento contínuo, sem portas. E, as que há, estão sempre tão abertas que nos esquecemos delas. 

Quando para aqui viemos nunca sabia onde tinha deixado a chave ou o telemóvel e a sensação que tinha é que havia um núcleo central com um corredor em volta de onde nasciam outras divisões. Quando andava à procura das coisas, tinha a impressão de que andava às voltas num espaço circular. Afinal, na verdade, não tem nenhuma área circular. Às vezes, à noite, ia ver a planta da casa para tentar perceber a razão da impressão que eu tinha. E, ao fim de um ano, de cabeça, parece que ainda não percebo bem. 

Na primeira fase da pandemia estivemos no campo. Estava eu e o meu marido, ambos em teletrabalho. Algum tempo depois, juntou-se-nos a minha filha e os miúdos, ela também em teletrabalho, os miúdos em escola remota. Noutras vezes em que ela não estava, foi o meu filho. Estava ele e a minha nora em teletrabalho e os miúdos na escola.

Era sempre uma dificuldade pois, sem portas, não se conseguia ter o isolamento e privacidade que, por exemplo, ter reuniões pede, em especial para não haver movimento ou barulho por perto. O que valia era que uns iam para os estúdio e outros, como estava bom tempo, ficavam na rua.

Nesta casa também acontece isto. O piso de cima é todo aberto. Aliás, a escada nasce na sala, sem portas e vai até lá acima. Ter uma reunião lá é sinónimo de tudo se ouvir. Entre a cozinha, a salinha de refeições, a sala da lareira e a sala de jantar (e a dita escada para o primeiro andar) não há portas. 

O meu marido usa o topo da mesa da sala de jantar pois está rodeado de janelas, tem imensa luz. Mas, se ele está a ter reuniões, não posso lavar louça à mão ou moer a base da sopa pois tudo se ouve. 

Esse é o lado chato -- mas é pormenor pois, de resto, é uma sensação de fluidez e largueza que compensa o resto.

Mas há uma coisa que, para mim, ainda é essencial. E digo 'ainda' pois sei que a minha opinião evolui e que o meu gosto se adapta. Mas, por enquanto, é essencial que tenha paredes normais. Uma casa com mais vidro que parede cria dificuldades: é chato encostar móveis e não há onde pendurar quadros. Quando vim para aqui, como por uma milagrosa coincidência, todas as minhas coisas encontraram o seu recanto perfeito ficando melhor aqui do que no seu local original. Ao fim de poucos dias, sentia-me em casa. A casa tem janelas e portas-janelas mas tem as paredes necessárias e suficientes.

Em contrapartida, a anterior proprietária, que se mudou para uma casa maior, de linhas muito direitas e com muito vidro, diz que ainda anda às voltas com as coisas sem saber como dispô-las. Diz que não tem onde pendurar quadros, espelhos, onde colocar alguns dos móveis de que não quer separar-se. E diz que ainda não se sente em casa. Nós, antes de termos sido descobertos por esta casa, andávamos a ver uma outra: ultra-moderna, imensas superfícies de vidro. Uma casa que era um objecto de arte. Mas, quando esta nos encontrou, fiquei contente por o negócio da outra não se ter concretizado: teria tido a maior dificuldade em encaixar lá as minhas coisas.

Alguns arquitectos têm pouco trabalho. Se forem arquitectos incultos, básicos, pouco inteligentes ou pouco criativos, nada tenho a dizer. Mas tenho a dizer da falta de atenção que os poderes públicos geralmente dedicam às enormes mais valias da boa arquitectura na vida das pessoas, seja a nível dos espaços públicos, seja da vida privada. A (boa) arquitectura pode humanizar as cidades, pode introduzir novas zonas de convívio, pode deixar entrar a luz onde tal parece impossível, pode criar zonas de paz onde a confusão parece estar instalada.

Seria, para mim, um enorme prazer acompanhar o projecto da casa de cada um dos meus, cada um com sua visão e maneira de ser. Imagino bem como seria a casa de cada um, até a do mais novo. Não o espelho da sua personalidade, que a casa não deve ser isso, mas o cenário (ou o habitat) onde a sua personalidade floresceria.

E, como se fosse uma nota de rodapé -- mas longe de sê-lo --, acrescento que fico muito contente por saber que a Inês Lobo faz parte da lista do PS para Lisboa. 

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A Modern Brutalist House In Japan With Exquisite Details

Architects: Apollo - https://apollo-aa.jp/

According to the architects:

This ranch-style home is located in a quiet suburban neighborhood in the Kanto region. The clients purchased the tiered, irregularly shaped lot as a place to spend meaningful time as a family. They wanted courtyards to play a big part in their home life, and to fulfill that request, the design makes use of the distinctive property shape and topography. 


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As esculturas feitas com livros são da autoria de Stephen Doyle e estão aqui na companhia de Ajeet Kaur que interpreta Light of My Soul

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E, antes de me ir -- e se estou cansada, cansada -- vou descansar a alma

After the Rain 

(extract)

(coreografia de Christopher Wheeldon na interpretação de  Beatriz Stix-Brunell, Reece Clark -- The Royal Ballet)



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Desejo-vos um belo dia de domingo

segunda-feira, junho 28, 2021

Um Blue Prince a acompanhar de alto uma bela sardinhada

 


A Bromélia branca, que eu achava tão bonita, começou a ficar branca demais. Até as folhas começaram a passar de verdes a esbranquiçadas. Fui informar-me. Em tempos consultava livros de jardinagem. Agora googlo. As bromélias daquele tipo não gostam de muita luz directa e eu tinha-a posto no lugar com mais luz do jardim. 

Tirei-a de lá. Passei-a para o vaso sem história mas bonitinho que trouxe na sexta-feira. Está numa zona mais resguardada, no degrau acima daquele em que pus o vasinho verde onde coloquei a hortênsia, entretanto renascida.

No vaso exposto ao sol coloquei uma echeveria perle von nurnberg. Os nomes das flores são todo um programa. Não estou certa de que este seja o melhor sítio para a ter mas vale a pena tentar.

E arranjei outra floreira, uma rectangular, onde juntei uma blue prince e restinhos e estacazinhas de outras. O prazer que isso me dá talvez não seja fácil de perceber por quem me lê. Até para mim isto é novidade.

Antes, eu vivia num apartamento no alto de um prédio e tinha o rio na minha janela. Não sentia vontade de ter plantas aprisionadas. Não tinha vasos. Preferia, ao fim de semana ou nas férias, dedicar-me às árvores e aos arbustos do campo. Tinha, desde sempre, um sonho: inventar um bosque, criá-lo do nada, fazê-lo nascer num lugar em que parecia impossível, ver as árvores crescer, caminhar à sua sombra. 

Agora, nesta casa, mantendo o jardim que aqui encontrei e que é fruto de anos de dedicação e amor por parte dos anteriores proprietários e que, por isso mesmo e porque me identifico perfeitamente com a estética e o romantismo do lugar, tento introduzir o meu cunho mas sem desvirtuar o equilíbrio que aqui reina.

E, de repente, eu que era toda azinheiras, cedros, aroeiras, orégãos, rosmaninho e alecrim, descubro-me curiosa por toda a espécie de flores, com vontade de conhecê-las, de saber como se cuidam. Sempre me tinha visto como não tendo especial sensibilidade para as subtilezas das flores. Receava que me morressem sem que eu percebesse porquê. As flores eram para mim assim como os gatos: se não interagem nem mostram que percebem as nossas dúvidas ou vontades, como lidar com eles?  Mas, afinal, descubro, com algum alívio, que as flores que cá estavam têm mostrado que se dão bem comigo e que as que tenho plantado têm vingado e estão bonitas. Só uma begónia soçobrou, não sei porquê. Mas como foi só uma não me senti desmoralizada. 

Ando, pois, muito contente com as minhas flores. Aquelas onde a mangueira chega são regadas todos os dias, um chuveirinho ligeiro. As outras, as que têm que ser regadas a regador, são mais problemáticas pois não arrisco o regador dos dez litros, não vá dar para aqui algum mau jeito e, então, vai uma quantidadezinha mais leve que me obriga a várias idas e vindas. Mas é de gosto. O meu marido zanga-se, que é um disparate tanto vaso, ter que andar sempre a regar. Digo-lhe que também ele come todos os dias e não me ouve protestar contra isso. Acha a comparação um disparate mas eu digo-lhe: 'olha que não... olha que não...'

Tirando isso, poderia falar da festa que houve na casa aqui ao lado. Mas não vou entrar em pormenores, e isso por vários motivos.

Estava, no sábado, lá fora, a ler os contos da Silvina Ocampo e a ouvi-los, divertidos, bem comidos e, creio, melhor bebidos. Um dia conto, mais tarde, para que não se perceba que é deles que estou a falar. 

Por vezes parece que voltei aos tempos da minha infância e adolescência. Vivíamos numa moradia, aquela em que a minha mãe ainda vive. Chamamos quintal ao jardim das traseiras, onde chegámos a ter uma pequena horta mas que depois foi relvado e tem um limoeiro, duas laranjeiras e flores, e jardim ao da frente, o que sempre teve flores. Da casa vêem-se os outros quintais e jardins e, se as pessoas falarem mais alto e estiverem na rua e nós também, ouve-se o que dizem.

Na cidade, o apartamento era sonoramente estanque e morávamos no último piso. Não se ouvia nada de nada dos outros apartamentos. E no campo é como se estivermos no céu.  Estava, portanto, habituada a não ouvir nada da vivência dos vizinhos. Aliás, mal os conhecia. Aqui não. Aqui, quando se está no jardim, ouve-se o que dizem nos jardins adjacentes. É uma coisa bizarra. Mas aqui ninguém se importa com nada disso. É normal ver pessoas em fato de banho, a apanharem banhos de sol, e nós irmos a fazer a nossa caminhada e passarmos muito perto -- e tudo tranquilo. 

Adiante.

O meu marido andava a dizer-me que não arranjasse nenhum programa para este domingo. Queria ver o futebol descansado. Isto apesar do jogo ser às oito. Mas diz que já sabe como é e, portanto, que me abstivesse de combinações. 

Contudo, o meu filho sugeriu uma sardinhada e pareceu-me uma ideia simpática: andava mesmo com vontade de umas belas sardinhas, gordas e boas. Além do mais, o programa pareceu-me compatível. O meu marido, quando soube, ficou logo impaciente e pôs como condição que acabasse às seis para irmos levar a minha mãe, e poder, no regresso, instalar-se sem stress, com tempo, com calma, disponível para ver o jogo desde o início. Tem sempre receio de apanhar trânsito ou qualquer outra contrariedade que o impeça de estar postos bem antes do apito de arranque.

Fomos buscar a minha mãe antes de almoço. O meu filho trouxe as sardinhas, douradas e carvão biológico e assou tudo, eu cozi as batatas de pele vermelha conforme ele pediu, fiz salada de tomate maduro com orégãos. Ele assou também pimento. A minha mãe trouxe cerejas e bolo de chocolate, a minha filha trouxe queijadas vindas dos Açores.

Um peixinho bom, uma bela almoçarada, cada grupo em sua mesa mas as mesas perto umas das outras, sempre na rua, a animação habitual. A trupe do meu filho, pelo sim, pelo não, ainda fez o teste rápido na farmácia antes de vir. E, sempre que andamos a circular por entre o pessoal, andamos de máscara. Não se pode facilitar já que apenas a minha mãe tem as duas doses. O meu marido ainda só tem uma e eu não digo enquanto não estiver esclarecido se o que me aconteceu teve a ver com o estupor da vacina ou não. De resto, ainda mais ninguém está vacinado.

De tarde, a rapaziada foi andar de bicicleta e eu fiquei a maquilhar e a pentear a minha princesinha mais linda. Fiz-lhe um penteado à Frida, com buganvílias e tudo. 

Depois houve vólei, houve lutas, houve brincadeiras sobre um sofá insuflado que, em vez de ser para relax como era suposto -- e cujo enchimento foi um complicado desafio apenas transposto pela menina mais engenhocas da família -- foi mais uma fonte de brincadeira. 

E depois lanche e, quando parte já tinha ido, ainda espaço para massagem ao rapazinho que pouco antes andava a voar a atirar-se ao tio como se fosse um ninja, depois uma massagem mais breve ao mano mais crescido e... depois... às seis lá fomos levar a minha mãe. 

E conseguimos estar cá mais do que a tempo e horas e... foi com tristeza que vimos que Portugal ficou pelo caminho. Sei a expectativa com que os meninos estavam e imagino a desilusão. Mas faz parte da aprendizagem perceber que há sonhos que são curtinhos mas que isso não tem mal pois todos os dias nascem sonhos novos.


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Uma boa semana feliz a começar já por esta segunda-feira

domingo, março 28, 2021

Sobre a monogamia (mas de tipo sequencial), sobre comer com o prato em cima dos seios, etc.
Mas, primeiro, coisas mais banais.

 



Dia de sol velado e calor discreto. Caminhámos e, como agora acontece ao fim de semana, encontrámos jovens casais a passear com crianças pequenas em triciclos ou famílias a andar de bicicleta. Hoje também nos cruzámos com quatro rapazes igualmente de bicicleta. Iam a conversar, sorridentes e, ao passarem por nós, desejaram-nos um sonoro bom-dia. Engraçado este hábito. Até os jovens adolescentes que vão entretidos a pedalar e a conversar nos desejam bom-dia. Retribuímos a boa disposição.

A seguir fomos ao supermercado. Voltei a constatar que agora já ninguém se afasta de ninguém. Todos de máscara, claro, mas, ainda assim, ninguém se ensaia nem um instante para se pôr quase em cima de outra qualquer pessoa. Para tirar o pão, então, é um ver se te avias. Todos ao encostados para tirar o pão das prateleiras. Também não me afastei. Fazer o quê: pôr-me ao largo e esperar que desandassem...? Quem me garantiria que não vinham outros? Aquela história do servo que viu a morte em Bagdad e fugiu para Samarra, sabem...? Ná, mais vale ficar onde estamos e esperar que não seja nada.

Depois de almoço fui sentar-me ao sol, no jardim. Levei um livro. Como o sol estava de frente não consegui ler. Fechei os olhos enquanto um pássaro enviava chamamentos do alto de uma árvore. Fui adormecendo. Depois arrefeci. Vim para dentro, tapei-me com uma daquelas mantinhas finas e aveludadas. Estive a fazer pesquisas, a ler. 

Por volta das seis voltei ao jardim. Estivemos a equacionar alternativas, a fazer medições. As árvores têm raízes grandes, não lhes devemos mexer. Como tenho um absoluto respeito pelas árvores, a margem de manobra para fazer alterações são escassas. 

As árvores de fruto na horta estão em flor. Há ali um microclima que não sei explicar. Parece que o ar é ali mais morno e húmido. Agrada-me muito. 

O fim de tarde estava ameno, sabe bem estar cá fora. Mas começou a esfriar. Vim para dentro.

Quando falei com a minha filha e com a minha mãe já era praticamente de noite. Ainda tentei voltar para o jardim mas a lua estava exuberante a guardar o frio. Recuei.

Estou contente por já ter mudado a hora. Vai ser um dia mais curto mas um dia não são dias.

Angustia-me um bocado isto de trabalhar até ser de noite, sem que sobre um bocadinho de dia para mim. Assim, com os dias maiores, talvez possa usufruir da luz do dia. Durante a semana tenho que aprender a usar a luz do dia em meu benefício. 

É verdade: tenho andado a vigiar o ninho das andorinas e ainda não as vi. Será que não vêm? Ficarei com pena. Só espero que, se este ano não vierem, venham para o ano. Custar-me-ia saber que o ninho vai ficar ali, sem vida.

Será que faria sentido ter um porquinho da Índia à solta no jardim? Gostava de ter um animalzinho por aqui. Dizem-me que comem a relva, um descanso: nem é preciso cortá-la. Contaram-me que, às vezes, à noite se vêm ouriços cacheiros a atravessar a estrada. Quem me contou não falava daqui mas de outro lugar assim, em que há campo em volta. Uma pessoa conhecida, contou-me que o filho apanhou um e o levou para o jardim. Penso que os jardins são mais felizes se forem habitados por animais. Ocorre-me sempre aquela ideia de ter patos. Mas será que teria que ter um lago? Ou será que os patos não voariam? Mas depois penso que certamente um dia terei um cão. Será que o cão depois não dará cabo dos ouriços ou dos patos?

Tenho também uma coisa para contar: da altura das orelhas e até à altura das sobrancelhas, digamos que na primeira linha de costa, os meus cabelos estão a aparecer brancos. Tal como o meu pai que conservou os cabelos da cor natural até muito tarde e que apenas os tinha grisalhos ali dos lados, aparentemente é também é esse o padrão de branqueamento que o meu cabelo está a seguir. Para os cobrir usei uma coloração que manteve o meu tom. Coloquei a tinta apenas ali na raiz e, apenas antes de o lavar, a espalhei pelo cabelo todo. Ficou bem. Mas neste supermercado aqui mais perto não têm essa marca, têm aliás pouquíssima variedade e quantidade. Comprei de uma outra marca e de outra cor. Agora estou com receio de a aplicar, com medo de ficar muito diferente do que sou. Não sei o que faça. Devia coincidir com umas férias grandes para o caso de ficar absurdamente diferente haver tempo a corrigir. Assim, hesito em arriscar. O que me vale é que, como tenho muito cabelo, vai disfarçando. Mas um dia destes tenho que me encher de coragem.

Também li que o Zoom está a preparar (ou já o tem disponível, não me lembro) um filtro para adoçar as feições quando estamos em videoconferência. Li que milagrosamente tira rugas, papos, olheiras, manchas. Li que as mulheres que têm muitas reuniões por esta via estão a passar-se de tanto verem as suas imperfeições no ecrã. Só espero que o Teams também apareça com isso. O pior é quando voltarmos a estar ao vivo e sem máscara (seja lá quando isso for), sem apelo nem agravo todas as misérias bem à vista. Sou adepta de não disfarçar nada para evitar decepções futuras. Mas digo isto e, na volta, se me aparecer o filtro mágico, não vou resistir. Não se pode dizer que não seja de me deixar sucumbir perante tentações convincentes.

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E é isto. Nada mais a contar. Só me causa espécie que agora ninguém acuse o Costa ou a Marta Temido por sermos o país com os mais baixos números de Covid da UE. Tanto que se babaram todos a acusá-lo de sermos os piores, tanto foguetório atiraram para festejar a crucificação pública de que o Governo foi alvo e agora que vários países estão a braços com a desgraça que começou por bater-nos à porta antes de lá chegar ninguém se lembra de o elogiar e agradecer? Gentinha...

Mas contar, contar, que me lembre não tenho mais nada. A vida corre mansa. O tempo, pelo contrário, corre veloz. E eu estou parada a tentar perceber como melhor me encaixar neste filme.

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As pinturas de Julian Onderdonk vêm ao som de Surrender na interpretação de Birdy

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E agora vou partilhar dois vídeos que prenderam a minha atenção: um muito bonito, um belíssimo pas de deux, e o outro com uma condessa simpatiquíssima e divertidamente depravada (como provavelmente são todas as condessas).

Second Piano Concerto (Shostakovich) – Second movement pas de deux 

(Marianela Nuñez, Rupert Pennefather, The Royal Ballet)

A summer spent poolside with a retired countess

Victoria Hely-Hutchinson takes us around her eccentric “bohemian expat retiree” grandparents retreat in the South of France. Known for documenting British lives for publications including New York Magazine and Vanity Fair, Hely-Hutchinson’s short is a relaxingly slow-paced portrait of the “respite for relatives in search of a tan”. 


Desejo-vos um belo dia de domingo

segunda-feira, setembro 23, 2019

A melhor arte do século 21....?
-- Está bem, está. Se isto é o melhor, vou ali e já venho --




Cada vez mais me convenço de que não sou verdadeiramente conhecedora de coisa alguma. E ia dizer coisa nenhuma mas não sei se nisto da escrita se aplica o mesmo que na matemática em que menos por menos dá mais. É que o quero dizer é que não há nada sobre o que eu possa dizer que sei muito. Nada. Sei é nada.
De dia para dia ganho consciência do meu desconhecimento. De dia para dia constato que caminho por uma estrada que não tem fim e, mesmo quando chegar ao fim do meu caminho, ele continuará aberto aos que vierem depois de mim, infinito, infinito no que esconde.
Posso gostar de uma coisa, de um tema, e, aí, tento conhecer mais -- mas chegar ao ponto de achar que estou à vontade no assunto isso é sensação que não conheço desde que me conheço. E cada vez menos. Ou melhor: cada vez mais sei que sei menos. 

Por exemplo, pintura. Exposições, museus, livros, artigos. Volta e meia até me dá para pintar. E, cá em casa, muita coisa. Também escultura mas, aí, não tenho muita coisa cá em casa, é mais o que aprecio na rua, em lugares públicos, em museus. Performances, não é frequente entender-me bem com. Muitas vezes parece-me coisa bizarra e a impressão de bizarria canibaliza outras sensações. Mas, em geral, mesmo pintura ou escultura, não sou conhecedora, sou apenas apreciadora. E não sou apreciadora em geral, sou apreciadora do que gosto. Quando não gosto, passo ao lado. Mas, quando gosto, emociono-me. Ou gosto de olhar. Ou gosto de estar perto. 

Por tudo isto, quando vi o título The best art of the 21st century, avancei sem qualquer esperança.

Nos livros, The 100 best books of the 21st century, ainda conheço alguns e, se não os livros em si, pelo menos alguns autores. Li com curiosidade a escolha, animada por não estar na total ignorância. Mas, para o melhor da arte, parti logo desenganada. Como qualquer pessoa vencida à partida, já ia a saber que não haveria de gostar de muita coisa, que não haveria de conhecer a maior parte dos artistas. Só que foi pior. Apenas gostei de uma das escolhas e, por acaso, gostei muito: The Upper Room de Chris Ofili, em que uma das 14 pinturas que a compõem é a que está lá em cima, no início do post. Em relação a tudo o resto fiquei naquela em que tantas vezes penso de outras pessoas -- gente que intimamente acho retrógrada, conservadora, estreita de ideias. E assim me vi eu: 'Mas isto é o quê? Arte? Arte, o caraças. Arte, isto? Uma ova.'. Uma a uma, por desconhecer, fui googlar. Vi todas as obras que quatro críticos de arte do The Guardian elegeram como as melhores do século XXI. E, juro, não estou a fazer género: fiquei como boi para palácio. Nem consegui escolher um exemplo para aqui colocar.

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Calhou, quando estava a ver as obras seleccionadas pelo The Guardian, estar a dar na RTP 2 uma entrevista a Graça Morais sobre a sua exposição Metamorfoses da Humanidade à qual pertencem as obras aqui imediatamente acima e abaixo. E, como sempre que a ouço ou que vejo as suas obras, sinto a grandiosidade desta mulher. É simples no falar, é terra a terra, mas, na forma humanista como olha os outros, é uma pessoa superior. E as suas pinturas e desenhos são genuínos, é arte de verdade, há autenticidade e vivência, há elevação e intemporalidade. Arte: não experimentalismo ou paródia.
Mas, lá está, certamente ignorância minha, reaccionarismo meu. Se calhar, daqui por uns anos olho para as obras seleccionadas pelo The Guardian, obras que hoje olho com estupefacção, e acho uma maravilha. Quem sabe?
Duvido. Mas não digo que não.
Mas, por enquanto, prefiro, neste post, complementá-lo com obras da Graça Morais.


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Woolf Works – Orlando pas de deux
(Natalia Osipova, Edward Watson; The Royal Ballet)

- que pertence ao conjunto de bailados seleccionados pelo The Guardian em 
The best dance of the 21st century



Deste bailado, inspirado na vida e na obra de Virginia Woolf, em 7º lugar na lista do The Guardian, eu gosto

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E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira.
Saúde, alegria e verdadeiro afecto.

terça-feira, abril 30, 2019

Fazer amor é prática em vias de extinção?




Agora ia contar a pergunta que o ginecologista me fez quando lá fui pela primeira vez para me aconselhar sobre o método contraceptivo e eu, inocente, lhe respondi deixando-o de boca aberta, especado a olhar para mim. Mas não conto pois lá viria a vizinha do costume rosnar baixinho, pela calada, 'acha-se a melhor, a mais esperta e agora também a mais...'. Não. Não vou dar esse gostinho nem a ela nem a ninguém. Mas isso também foi há muito tempo e ele, o ginecologista simpático, quando me viu com um Lobo Antunes na mão contou-me que também ele tinha andado na guerra, também médico na guerra, também ele tinha passado por muito daquilo. E ficou sendo o meu ginecologista e foi a ele que pedi que ajudasse nos partos e que evitasse por tudo fazer-me cesarianas ou anestesiar-me. Foi ele que arrancou as duas crianças a ferros, a sangue frio. Médico dos bons.

Mas, quanto a isso, o que sei é que cada um é como cada qual e que a vida e as circunstâncias também influem. Mas coisa sempre houve -- e é bom que a gente não se esqueça das guerras, das invasões, das bubónicas, e etc. -- e não foi por isso. De resto, também é bom que a espécie não se extinga. É certo que para que a gente continue a existir não tem que ser na base do tradicional que o mais que não falta é método para todo o gosto. Também admito que isto de achar que é bom juntar o útil ao agradável é coisa já muito datada pois sei que pode ser útil sem ser mau e pode ser bom e não ter que ser útil.

Portanto, sabendo que os estudos mostram que a malta está a gostar cada vez menos de truca-truca e que, a manter-se a tendência, a coisa desanda rapidamente para o zero, fico sem ser capaz de dizer se é bom, se é mau. Talvez a malta adopte de vez a cena da produção independente num registo profissional, uma seringada de tizóidinhos lá para dentro e já está, e reserve o prazer para o robozinho, para a ciberconversinha, para o videozinho e, com o tempo, para nada. Talvez com o tempo a malta vire platónica. Talvez finalmente a malta alcance na boa o caminho para o céu, tudo casto, tudo virgem. Na volta, um dia destes, pecado já era.

E eu não digo que não. Sou pré-histórica, prima de bonobo, sobrinha de etrusca -- já não sei nada, já não risco nada. 

E estou a falar de um estudo científico, coisa boa, afiambrada, com a chancela de Cambridge (e o Translate dará uma ajuda a quem não saiba francês):
David Spiegelhalter est statisticien et professeur à l'université de Cambridge. Il s’est appuyé sur l’enquête nationale britannique Natsal qui étudie les comportements sexuels des anglais. Une enquête réalisée tous les dix ans, dont la première a eu lieu en 1990 – 1991 et la dernière en 2010 – 2012. 
David Spiegelhalter a donc superposé les résultats des trois enquêtes en sa possession et ainsi pu noter que la fréquence mensuelle des rapports sexuels perdait un point par décennie : en 1990, on faisait l’amour en moyenne 5 fois par mois, en 2000, 4 fois par mois et en 2010, 3 fois par mois. Pas besoin d’avoir fait l’X pour en arriver à la conclusion désolante que vous reniflez d’ici : en 2030, ça fera zéro.

Parece que o desinteresse vem do Netflix à noite e da hiperconectividade a toda a hora, teleleco sempre a despejar posts, likes, news e fake news, instas e o escambau.

O artigo acaba lembrando que 2030 está quase aí e que se a gente quer salvar o planeta deveria pensar bem nisto. Mas eu não sei se salvar o planeta é só inverter a tendência e passar a três ou quatro vezes por mês ou por semana ou por dia ou se para salvar o planeta é preciso mais do que isso. Mais. Muito mais. Fazer tudo diferente, tudo ao contrário. A menos que a gente queira um mundo virado para dentro, habitado por pessoas de patas para o ar e viradas para o próprio umbigo.

Mas isto sou eu a falar e, na volta, estou é influenciada pelas posições do Kama-Sutra que ando a estudar a ver se já as pratiquei todas.


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segunda-feira, dezembro 10, 2018

A vez dos mais pequenos: indefesos e jaunes


Tão bem que se esteve este domingo in heaven: um solinho primaveril, um calorzinho suave, um cheirinho bom.

O meu marido, como sempre, madrugou, nem dei por ele. Sai e vai fazer as suas incursões pelos bosques ainda tingidos pelas cores recém amanhecidas e orvalhadas. 

Eu não. Eu deixo-me dormir até o corpo querer. Acordei tarde, preguicei, andei nas calminhas pela casa. Vi os progressos no tapete, arrumei algumas coisas, tomei o pequeno almoço, bebi um café bem quentinho, li mais um pouco das palavras ditas por Graça Morais. A seguir chegou o meu marido. Depois do seu passeio já tinha começado a queimar mato e ramos. Então, quando fui passear, estava aquele perfume que o fumo transporta levando o cheiro da madeira a arder misturado com o do eucalipto, dos pinheiros, do alecrim. 



Gosto muito desse perfume. É o cheiro do campo mais profundo, os elemntos em comunhão: a terra, o ar e o fogo. E a água -- porque a terra está húmida, verde, macia.

Andei devagarinho, olhando as árvores, os arbustos, as florzinhas que começam a despontar no alecrim, junto ao musgo. Dá-me ideia que há cada vez mais pássaros. Cantam, cantam. Uma indiscritível paz.

Então reparei que os cogumelos tinham desaparecido. Fui espreitar os lugares onde, no último dia, tinha visto aqueles maiores, os recantos onde estavam grandes grupos deles. Nem um. Baixei-me a ver se havia vestígios. Nada.

Continuei. Se há momentos bons na minha vida, e felizmente há muitos, são momentos assim, caminhando entre as árvores, em plena serenidade, ouvindo o silêncio temperado pelo canto dos pássaros, pelo toque dos sinos ao longe, sentindo a aragem perfumada, sem tempo.

E assim fui, andando, devagar, fotografando.

E, então, reparei numas pintinhas quase brancas. Entre a caruma, entre folhinhas secas, umas pintinhas clarinhas. Baixei-me. Ajoelhei-me na terra.

Surpresa, surpresa. Eram uns cogumelos pequenininhos. Nem queria acreditar. Como é que eu nunca tinha visto? Que triste cegueira.

Então descobri vários. Ínfimos. Tão bonitos, tão indefesos. Quantos terei eu já pisado? Sem perceber que estão ali, avançando devagar mas à toa, se calhar destruindo aqueles serzinhos tão facilmente destrtuíveis.






As fotografias não mostram bem quão pequeninos são. Tive que me encostar ao chão, fazer zoom. Que encanto. Tão bonitos, tão incrivelmente perfeitos. E frágeis. E efémeros. Estava a vê-los e a pensar que, se calhar, para a semana já terão desaparecido.

Pensei: como podem 'objectos' tão maravilhosos ser, por vezes, fatais? Tentadores, mortais. Mas não sei se estes são desses. Só que, mesmo que não sejam, não seria capaz de ter vontade de comê-los. Só contemplá-los, descobrir a maravilha que são.

E, ao ir assim, muito atenta, muito, muito atenta, vi uma pequena manchinha amarela e brilhante. Uma folha molhada? Baixei-me. Afastei uns pauzinhos que estavam por cima. Um cogumelo. Amarelo. Irreal. Lindo. Amarelinho, amarelinho.

De novo quase deitada sobre a caruma, de novo com zoom, olhei fascinada a nova descoberta. Intrigada pensei: mas sempre os houve? Bichinhos lindos, tingidos de luz, nascidos da terra cheios de cor? E eu nunca, nunca, nunca sequer suspeitei da sua existência. Parecem de brincar, parecem inventados, postos ali só para desafiar a minha desatenção.


E. mais à frente, mais dois. Junto a uma fina rede de orvalho, um vulnerável tecido de quase invisíveis fios de água, ali estavam dois cogumelos minúsculos, amarelinhos, dourados, improváveis aparições.


E logo mais à frente mais dois. Um encavalitado no outro, como que a brincarem, um a rir com os dentinhos à vista. Rendilhados por debaixo, macios, pequenas preciosidades que um qualquer deus ali deixou.


Naturalmente, com a descoberta de jóias assim, feitas de água e luz e ténues fios da mais frágil, breve e dourada substância, eu fico maravilhada. Quantas mais coisas eu desconheço e que estão junto a mim, sob os meus passos, querendo que o meu olhar nelas pouse? Como podemos achar que sabemos tudo, que sabemos muito, quando, na verdade, não sabemos nada, não vemos nada? Temos que olhar devagar, com tempo, temos que ter a humildade de nos baixarmos, de andar rente à terra. O mundo é tão incrivelmente maravilhoso e nós não o olhamos com o amor e devoção que ele merece. Que pena que tenho por terem passado tantos anos que desperdicei sem ver o que parece invisível mas que é tão cheio de beleza e vida, tão cheio de milagres.


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Antes de me despedir, permitam que partilhe convosco um bailado lindíssimo: Infra

Edward Watson e Marianela Nuñez dançam o pas de deux final numa coreografia de Wayne McGregor com música de Max Richter



E porque me apetece ouvir falar de beleza:

Endymion...A Thing of Beauty de John Keats (lido por Tom O'Bedlam)


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Todas as fotografias foram feitas este domingo in heaven. A última, que -- não sei porquê -- me parece quase dramática, mostra o tronco do plátano grande. Eu estava deitada na mesa de pedra que está debaixo dele a ver chegar a noite enquanto os pássaros entoavam a última valsa do dia.

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Desejo-vos uma semana muito feliz, a começar já por esta segunda-feira.

Desejo que haja saúde, alegria e beleza na vossa vida.

sábado, novembro 03, 2018

O exantema está praticamente despachado




Acredito que o tema já seja, para vocês, meus Caros Leitores, não um tema mas, sim, um verdadeiro exantema. E, se não é, já não deve faltar muito. A dose tem sido de leão. Reconheço.

Mas deixem que acrescente uns pós. E faz de conta que isto é um diário, que estou a escrever só para mim, não se incomodem a ler, a sério. 

O que aqui quero deixar como apontamento é que, como disse no post anterior, ainda não arrumei os que estão aqui ao meu lado no sofá, ou porque foram os últimos ou porque receio perdê-los de vez assim que me separe deles. Os livros são como as pessoas: a gente pode gostar muito de alguém que, se a vida nos separar, aos poucos a mente vai-se habituando à privação, depois esquece, arranja alternativas (e disse mente como podia ter dito o corpo porque o corpo também é bicho muito arreigado a uma boa afeição) .

E agora que ia aqui dizer quais eram eles, eis que, não sei como, me aparecem outros. Ele há coisas. Juro que não sei. Quem os pôs aqui? É que nem me lembro de os ter visto no chão ou por aí. São as chamadas coisas do caraças. Parece que os livros vêm ter comigo. Tinha hesitado quando tinha arrumado dois da Adélia Prado. Agora olho e vejo aqui outro. Como? Quando o comprei? Não me lembro. Não foi dos últimos. Então como me apareceu aqui ao meu lado? E o Botas? E os escritos de amor do Fernando Pessoa?

Mistérios.


A noite passada sonhei com livros. Havia uma casa com uma escada em caracol. Era igual à do Clube da Marinha no Marquês. Acho que não era Clube da Marinha que se chamava. Seria Clube Naval? Não interessa. Não sei se ainda lá está ou se ainda existe. Era uma mordomia das boas. Uma casa maravilhosa de linda que era. E tinha uma escada em caracol que era uma belezura. Sonhei. E tinha livros à volta, nas paredes em volta. E passava-se para as estantes maiores que forravam todas as paredes por umas pontes que faziam vertigens. Mas eu ia. Andava a tentar descobrir a lógica da arrumação e encantava-me quando a descobria.

Acordei com vontade de continuar a sonhar mas um bocado assustada, com medo de cair daquelas perigosas pontes que ligavam as estantes umas às outras, com passagem pela escada de caracol. Maluqueiras minhas. Felizmente maluqueiras inofensivas.

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As fotografias foram tiradas sem qualquer cuidado. Peguei na máquina e disparei. Isto foi ontem à noite. Pelas horas das fotografias, vejo que passava das duas. Mas, tanto o sono que tive o bom senso de me ir deitar e deixar a inclusão delas aqui no texto para hoje. Entretanto, hoje de manhã já praticamente despachei as arrumações, o meu marido já pendurou os quadros que estavam nas paredes agora ocupadas com estantes e estou feliz da vida. Missão cumprida. E, por dentro, tento encontrar forças para tentar não comprar mais livros nos próximos cinquenta anos. Será que vou conseguir?

terça-feira, outubro 16, 2018

Portanto, dizia eu: só se algum flamingo salvar a coisa...


Dizia eu, ontem à noite, depois de ter elaborado um raciocínio em torno das cuecas da menina Louise e antes de apagar, que ia ver se me ocorria alguma coisa esperta para dizer ou, se não fosse bafejada pela sorte, se algum flamingo salvava a coisa.

Acontece que a coisa se resolveu de outra maneira. Fui violentada pelo Morfeu que se aboletou aqui em cima de mim e que não apenas não pediu previamente o meu consentimento como veio ao engano já que não trouxe um único sonho de presente.

Portanto, ontem à noite os flamingos ficaram a fazer equilíbrio nos pernões para nada. Mas, lá está, guardado está o bocado para quem o há-de comer e ei-los aqui, agora, para nos virem brindar com a sua rosada existência.



As fotografias estão assim a modos que etéreas porque foram feitas de longe, quando estava a fazer bird watching no domingo à tarde num lugar lindo demais para explicar.

Foi a minha filha que me falou e que nos convenceu a ir lá passear. Juntámo-nos lá. De longe fiquei espantada com a altura dos meninos. Estou com eles todas as semanas mas, sei lá, talvez seja seja por vê-los ao longe, ao pé da mãe. Tão grandes. Não tardará muito que não estejam da altura dela. E ela é alta. Ou seja, antes disso, vou eu, quando estiver ao pé deles, parecer uma insignificante vovózinha lilliput. 

Mas, então, dizia eu, fomos dar a um lugar que parece fora deste mundo. Se eu andasse com veia poética poderia aqui descrever aquela paisagem encantada. Mas não. Ando prosa, prosa, prosa. Mas prosa de primeiro ciclo. Só consigo dizer coisas terrenas, básicas, assim como as vedes. 

Onde é que eu ia? Ah, sim. Que os fotografei de longe. Zoom ao máximo e uma aragem desmiolada. Ou seja, algumas desfocadas e outras reduzidas a pormenores no infinito.

Salvaram-se umas quantas -- e vai lá, vai -- que, com vossa licença, aqui partilho convosco.


E isto para dizer uma coisa que se tem vindo a firmar dentro de mim como irrefutável e horrorosa: a gente passa pela vida sem saber nada. Julga que sim mas está bem, abelha. Por exemplo: até há algum tempo pensava que conhecia razoavelmente a terra onde nasci. 

Pois bem. Basta ir a um lugar destes para perceber que conheço é uma ova. Nem sonhava. Ia andando e parecia que estava a entrar num outro comprimento de onda. Salinas, sim, já tinha visto não muito longe, zonas de sapal, também mais ou menos. Mas uma coisa destas. Que surpresa. Horizontes largos, ar limpo, uma luz clara, uma forma de natureza inesperada.

Pássaros, flamingos (que não são bem pássaros mas enfim; pelo menos acho que não fazem piu-piu), barcos de verdade onde não se espera. 


E o espaço do Moinho de Maré muito bem reabilitado, uma sala de estar que não dá para acreditar,  só mesmo vendo, uma  esplanada muito acolhedora, uma varanda pequenina e com uma vista ampla. Tudo muito recomendável. 

E esculturas de flamingos no passadiço. Uma graça, uma ideia agradável.
Não sei se tudo aquilo tem dedo da presidenta mas não me admiraria que tivesse pois parece ser mulher de acção e bom gosto. 
Chega-se à Mourisca e, ao aproximarmo-nos do moinho, vamos vendo aquelas elegantes esculturas da autoria de Pedro Marques e percebemos logo que estamos a chegar à terra deles.


Fiquei a pensar: se calhar, numa casinha aqui talvez eu conseguisse ser escritora. Uma casinha pequenina -- e não era para brincar aos pobrezinhos, era mesmo só para ser fácil de limpar -- com vista para os flamingos, com um pinheiro manso no quintal, com chão de tijoleira e uma mesa azul encostada à janela. E vasinhos com flores na parte de fora do beiral das janelas. Podia fazer caminhadas por entre as pequenas lagoinhas, podia fazer fotografias, quando a maré estivesse cheia podia pôr-me num barquinho a remos e, quem sabe, ir à pesca. Se apanhasse peixinho podia assá-lo num fogareiro. Depois, podia ir beber um café ao moinho. E à tarde poderia ficar sentada numa cadeira de balouço a ouvir os pássaros.

Não sei é quando é que escrevia. Se calhar, tinha que ser a partir das onze da noite. E na volta tudo se haveria de resumir a um post fajuta no blog. Uma sina, um desconsolo. 


Bem, escritas à parte, aquele lugar é abençoado. Muitos deuses esvoaçam por ali.

Acho que vou ter que lá voltar para melhor os poder ver e fotografar a voar. Uma mancha alada e rosada.

Também gostava de os ver a marchar. Les flamants roses. Um pequeno exército de vaidosos insolentes que só têm de desculpa o serem tão deliciosamente efeminados. Uns pássaros não vos digo nem vos conto: bichas, bichas, bichas. Parecem ser divertidos e alegres como as bichas malucas costumam ser.

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Lá em cima coloquei o Manon (uma coreografia Kenneth MacMillans dançado pela Tamara Rojo e pelo Carlos Acosta do The Royal Ballet) porque foi o que me ocorreu quando me apeteceu ter aqui um bailado interpretado por humanos.

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