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sábado, março 21, 2026

Lagostins, camaleões e outros mistérios

 

Voltou a chover e os campos, ainda mal refeitos da sopa em que se viram convertidos durante o comboio de depressões que nos assolou, voltaram a rejeitar a ingestão de água, e os regatos e laguinhos voltaram a aparecer. E, com as superfícies de água, voltou o mundo virado do avesso. 

Fotografo as árvores com a copa para baixo, a copa ali mesmo a meus pés. Se me baixar, posso tocá-la. Encanto-me com as suas cores. Tingida pelo ocre das terras, as árvores, assim mergulhadas nos charcos que voltaram a formar-se, mostram-se quase rubras, e eu acho-as lindas, e não sei se gosto mais das que estão de pé, a copa verde a procurar o céu, se destas, deitadas na água, efémeras, coloridas.

Caminho devagar, observando cada pequena coisa, fotografando.

Contei no vídeo que coloquei no Instagram que, no outro dia, quando a terra já estava seca mas ainda coberta de limos secos e eu, como sempre, por ali andava a ver tudo ao pormenor, vi uma coisa que destoava. 

Por vezes tenho a sensação que a minha cabeça funciona quase como uma máquina que, de forma automática, procura o que foge ao padrão. Sendo míope, sempre me espantou como consigo detectar pequenas coisas improváveis. Acontece a mesma coisa a detectar erros ortográficos. Quando me enviavam relatórios ou power points para eu dar uma vista de olhos antes de serem disponibilizados ou enviados (pois eu não concebia que das minhas áreas saíssem documentos com erros), eu passava os olhos pelas páginas sem as ler e, sem saber como -- e deixando os outros boquiabertos -- descobria quase instantaneamente palavras mal escritas ou mal acentuadas. Só depois de feitas as correcções, eu me preocupava com o conteúdo. Diziam que eu tinha um radar de alta precisão. É daquelas coisas que pode ter alguma graça mas que, vendo em perspectiva, não serve de grande coisa (até porque alguns dos destinatários, ao verem as palavras bem escritas, se calhar achavam que estavam erradas; por exemplo, nos últimos tempos, palavras como 'far-se-ia' passaram a ser ditas e escritas como 'faria-se' tal como 'preparamos' passou a ser escrito como 'prepara-mos').

Claro que, quando, à posteriori, calha reler o que aqui escrevo e detecto trocas ou duplicações de letras ou pontuação deslocada, fico incomodadíssima. Um texto com erros é como uma roupa com nódoas -- uma vergonha. Infelizmente, não me serve de emenda. Gosto de escrever, escrevo depressa e, mal acabo, lá vai disto, publico. A questão é que, assim que acabo de escrever, já não estou nem aí e, ainda por cima, geralmente já estou perdida de sono e sem cabeça desperta para me pôr a ler o que escrevi. Só tenho é que vos pedir desculpa quando isso acontece. 

Mas, dizia eu, estava a caminhar por ali, vendo florzinhas, pedrinhas, fotografando tudo, quando a minha atenção foi chamada por uma coisa não identificada um pouco mais à frente. Aproximei-me. Baixei-me, intrigada. Pareceu-me um grande camarão, uma gamba. Fotografei. 

Estava no que, dias antes, era o leito de um regato que se tinha formado com a chuva. O solo estava coberto de lama e limos sexos. Chamei o meu marido. Disse: 'É um lagostim'. Pensei que não podia ser. Um lagostim vindo de onde. Se por ali houvesse algum lago permanente, algum riacho ou alguma coisa permanente ainda admitia que tivesse vindo com a chuvada. Mas ali não há nada. Com a chuva intensa formaram-se charcos pois a terra ficou saturada. Mas antes das chuvadas era terra seca.

Submeti a fotografia ao gemini e ao chatgpt e foram unânimes: lagostim de água doce. Ora de onde veio, onde nasceu? 

Não é extraordinário?

A natureza maravilha-me. Há um mistério subjacente a tudo, milagres permanentes. 

O vídeo abaixo é outra maravilha. Tudo fantástico: desde a própria compleição dos animais, as cores perfeitas e mutantes, a forma como interagem, as reacções, a graça da 'maternidade', a resistência miraculosa dos recém-nascidos, a atenção da mãe, a forma como se procuram. Tudo incrível, tudo muito belo, tudo inexplicável à luz das mais elementares leis das probabilidades.

Camaleão dá à luz crias vivas nos ramos | Vida a Sangue Frio | BBC Earth

Num mundo cheio de perigos, este camaleão anão sul-africano desenvolveu uma forma incrível de proteger os seus ovos. E uma forma notável de dar à luz também...


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Desejo-vos um bom sábado

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Será que só as mulheres conseguem pintar magníficos nus femininos...?

 

Uma mulher despe-se e mostra-se apenas para ser desejada pelos homens que a olham?

Se uma mulher se ajeitar numa posição que seja esteticamente atraente está forçosamente a querer despertar a lubricidade em quem a contempla? 

E o que dizer se o fizer para que outra mulher a fotografe ou a retrate numa tela?

E, claro, se for homossexual, fá-lo para despertar o desejo noutras mulheres?

Talvez haja quem pense que sim. Mas não forçosamente. 

O corpo de uma mulher é uma obra de arte e tão mais extraordinário quanto parece ser coisa do acaso, coisa transcendente. Duas células que se juntam, se desdobram, se multiplicam. E tudo se vai juntando de uma forma mágica e, no fim, sai um corpo funcional que, ainda por cima, parece habitado por uma alma que ninguém sabe bem o que é. E claro que isto se aplica a um corpo de homem ou de mulher. Mas aqui foco-me no corpo da mulher. Aí a magia é ainda mais extraordinária: os seios que se desenvolvem, os seios que se enchem de leite para alimentar a criança que sai do seu corpo, quando o corpo gerou uma outra vida que começa por ser alimentada no ventre, um ventre que se atapeta e dilata. Tudo milagroso. Retratar o corpo da mulher em qualquer dessas fases é quase um dever. Há muita beleza nisso. 

Tal como é belo o corpo de uma mulher quando as ancas alargam, as carnes se expandem. Ou quando os seios perdem o viço. Ou quando as rugas desenham sulcos e escrevem histórias.

A beleza está na disponibilidade para a beleza. 

Já contei muitas vezes que uma das esculturas que mais me impressionou e na qual penso muitas vezes é uma pequena figura de Rodin, uma mulher de idade, corpo quebrado, pele enrugada. Em tempos uma bela mulher. Em tempos conhecida pela sua beleza. Celle qui fut la belle heaulmière. Uma obra tocante. 

Há tempos, ao ver uma fotografia minha de quando tinha uns vinte e tal ou trinta anos, não sei, surpreendi-me comigo mesma. Disse: 'Era bonita, não era?'. O meu marido respondeu: 'Ainda és.'. Foi simpático. E talvez tenha sido sincero. Eu, que me apaixonei por ele sem o conhecer, apenas porque o achei um pedaço de mau caminho (identicamente ao que aconteceu com ele em relação a mim), ainda o acho bonito, ainda acho que, se fosse hoje, voltaria a encantar-me com ele. Não tem o cabelo comprido como tinha naquela altura, aliás quase não tem cabelo, não tem o corpo tão ginasticado como tinha naquela altura em que praticava desporto federado, tem rugas. E é natural. Mal seria se com a idade que tem ainda se apresentasse de cabelo bem preto, pele esticada e todo bombado. Detestaria, não posso com gente artificial, com gente que não aceita com orgulho a idade que tem.

Com a inundação, as telas que estão na cave e que estavam no chão encostadas à parede foram colocadas em cima da mesa de ping-pong. Outras, felizmente, já estavam num lugar alto. Muitas têm mulheres, muitas delas nuas. Mulheres jovens, sonhadoras, com corações sobre os seios, um coração no ventre, mulheres grávidas, ventres redondos, seios pesados, mulheres guerreiras, caminhando sobre os edifícios, mulheres corajosas, desafiadoras. Por vezes, quando o motivo era mais caliente, apareciam aos pares, pequeninas, num canto, vestidas de freiras, de joelhos a rezar. Mal se viam. Mas estavam lá.

Também pintei corpos de homem. Mas menos. Parecia-me que, para que a pintura fosse interessante, teria que ser pornográfica. Como sou muito ajuizada, evitei-o. Para não ferir susceptibilidades, limitava-me a pintar falos a aparecer onde não eram chamados. A minha filha gozava: 'onde está o wally...?', e frequentemente ele lá estava, muitas vezes disfarçado, quase escondido.

Mas, enfim, vejo agora que me distraí e estou para aqui a escrever um bocado à toa. 

Está a chover imenso, mas mesmo imenso, caraças, e, de vez em quando, vou ali espreitar a ouvir se a bomba que está a funcionar na caleira junto ao portão da garagem continua a funcionar. Mas chove tão torrencialmente que só ouço mesmo a força da chuva a cair. 

Hoje entrou ar na bomba, e funcionava mas a água não era chupada. Felizmente o chatgpt explicou o que deveríamos fazer para lhe tirar o ar. E resultou.

Tentámos pô-la no poço do esgoto das águas pluviais mas não conseguimos levantar a tampa da caixa. É de cimento, pesadíssima, nem mexe. O meu filho diz que só com picareta a servir de alavanca, que vem cá no fim de semana e traz uma picareta. Por isso, por enquanto não há alternativa: temos que tentar extrair toda água que se junta na caleira lá de baixo, a ver se não volta a entrar na garagem e na cave. 

Já conseguimos tirar a água quase toda da inundação mas agora aparece de debaixo dos móveis. E o chão continua molhado. Já não tem altura de água, só que não seca. E já cheira a bafio, vem um cheiro a mofo e a bafio de lá que não se aguenta. Era preciso que parasse de chover para abrir o portão da garagem e para abrir as janelas da casa para o ar circular como deve ser. Agora a chover sem parar não dá. Abrimos de tarde, enquanto não choveu, mas de pouco ou nada serviu.

Mas isto não é nada. O drama que vai pelo país é que é de partir o coração. Meio país debaixo de água.

Ainda hoje, por várias vezes fiquei a chorar ao ver as pessoas em risco de perder as casas ou outras que têm tudo enlameado e estragado. Comovo-me tanto, tanto. Quase tenho que fechar os olhos de tanta pena que sinto, tanta, tanta. E comovo-me quando vejo pessoas corajosas que, perante a desgraça que se abateu sobre elas, conseguem sorrir, dizer que estão vivas e que isso é o mais importante, que o resto se haverá de resolver. Têm esperança em melhores dias. E eu fico toda em lágrimas.

Bem. Adiante.

Comecei com a conversa lá de cima, dos corpos nus das mulheres, influenciada pelo interessante artigo do Guardian. ‘Not for ogling’: forget Titian, Botticelli and the male fantasists – only women can paint great female nudes, da autoria de Rhiannon Lucy Cosslett

Transcrevo um pouco:

(...) Quando Gwen John estava no seu quarto, em 1909, a desenhar-se nua, com o reflexo do seu corpo no espelho do guarda-roupa, o que lhe passava pela cabeça? Na altura, vivia um intenso e infeliz caso amoroso com Auguste Rodin, para quem posava frequentemente. Posar para si mesma, porém, era diferente, para não dizer ousado. John lutava para ser a sua própria musa, em vez de Rodin, mas esta imagem mostra-a livre do olhar masculino.

(...) Durante grande parte da história da arte ocidental, as mulheres não tinham acesso a modelos nus e, se fossem suficientemente corajosas, tinham de confiar no seu próprio corpo. O trabalho que produziam era frequentemente recebido com indignação, desprezo, troça ou indiferença. 

Artigo que vem ao arrepio da espuma dos dias. Gostei de ler.

E, como não me apetece ir agora à cave fotografar as minhas bonecadas, até porque estou apenas de meias e, se fosse assim, ficaria com elas molhadas, pedi ao Sora que me gerasse algumas imagens. Claro que descrevi o que pretendia a nível do 'modelo', do 'estilo' da pintura, do ambiente, juntei umas dicas, etc. -- e claro que algumas saíram tão pirosas que não as ponho aqui. Mas outras aprovei. 

Partilho algumas que, se eu fosse tão habilidosa quanto a Inteligência Artificial -- e não sou nem de longe nem de perto -- e tivesse aqui o material, talvez tentasse aventurar-me a fazer por mim qualquer coisa que se parecesse. 


E vivam as mulheres, e viva a beleza das mulheres em toda a sua nudez
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Desejo-vos um dia feliz
(E tomara que não aconteçam por aí mais desgraças... Se chover em todo o lado tanto como por aqui, temo o pior)

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Depois de um dia debaixo de água ('debaixo de água' salvo seja: 'apenas' com a cave e a garagem totalmente inundadas), acabo com coisas bonitas made in Portugal, mais concretamente em Azeitão

 

O dia foi uma complicação daquelas. Ainda estava a dormir quando o meu marido entrou no quarto a anunciar que a garagem e a cave estavam inundadas -- as mil coisas de toda a espécie e feitio, incluindo pertences da minha mãe e em que ainda não mexi, muitas telas pintadas, diversos móveis (talvez os melhores que temos e que deixámos lá em baixo por nos parecerem artilhados e requintados demais para o estilo que agora queremos na casa) -- tudo dentro de água, coisas a boiar.

Dito assim não é nada que se compare com o drama de tanta e tanta gente. Uma dor de alma ver, na televisão, tantas casas destruídas, tanto comércio e tantas pequenas empresas arrasadas, tantas estradas desfeitas, os rios a transbordarem para campos, ruas, estradas. Estragos e mais estragos. Comovo-me quando vejo as pessoas destituídas dos seus pertences, dos seus empregos, da sua mobilidade, da sua privacidade (quando alojados noutras casas ou em espaços colectivos). E tantas pessoas ainda sem eletricidade e sem água canalizada... Como é possível...?
Mas não é por o meu pequeno drama ser coisa de somenos que deixa de ser um problema que temos que resolver. 

O que nos aconteceu é que a água da chuva que passa pela caleira que está antes do portão da garagem não foi puxada para o tubo de esgoto das águas pluviais e, portanto, entrou, primeiro para a garagem, depois para a cave, e espraiou-se. 

Mais ou menos um palmo bem aberto de altura, até ao primeiro degrau da escada. 

A partir daí foram desencadeadas diversas acções. Quase todas infrutíferas: as empresas de desentupimento e esgotos e o canalizador que contactámos não tinham ninguém para vir cá hoje, o electricista que cá costuma vir e que talvez pudesse arranjar a bomba submersível que está dentro da caixa (poço) de esgoto que está em cima, no jardim, (pois o problema deve estar nessa bomba) só poderia vir para a semana. 

No Leroy, onde tínhamos ido ontem ao vermos a caleira perigosamente cheia, as bombas estavam esgotadas. O meu marido foi então comprar uma bomba a outra loja mas, azar, não tinham lá mangueira compatível (é uma mangueira larga e espessa, não é como as de rega). Foi, então, ao Leroy. Não tinham mangueiras dessas, estavam esgotadas. Foi a casa do meu filho buscar uma pequena bomba mas não tinha a peça de encaixe da mangueira. Foi, não sei onde, comprar a peça que, afinal, não serviu. Depois ia a outra loja ver se tinham mangueiras mas já estava fechada. Só às duas conseguiu comprar. Trouxe o último bocado de mangueira que lá tinham. Sorte. 

Chegado a casa, lá montou as coisas e, felizmente, tudo funcionou. Finalmente! 

Está há horas a despejar água e, nas primeiras horas, parecia que estava sempre na mesma, uma coisa estranhíssima.

Há bocado, quando fomos passear o cão, as ruas inundadas, vimos uma carrinha de desentupimento de esgotos. Liguei e consegui que cá viessem espreitar. Concluíram que a bomba deve ter estourado de tanto puxar água. Dizem que, com a que comprámos, nunca mais vamos conseguir tirar tudo pois é uma bomba fraca, de piscina. Talvez à noite, se conseguirem esvaziar outra cave, venham cá pôr uma bomba potente. Comentei que não se percebe de onde está a vir a água pois a bomba está há umas quantas horas a tirar água e parece que continua na mesma. Um deles respondeu: 'é as terras que já não engole mais, deita por fora, a senhora não tá vendo como tá tudo? a terra está jogando tudo fora...'. É brasileiro, claro. 

E acredito que seja isso pois o que chove não justifica que se mantenha como estava apesar de estar há horas a deitar água fora à força toda.

Também já percebemos que a parte da garagem está finalmente a dar mostras de querer a escoar, mas a cave está difícil, parece que a água não escorre para fora. E a altura de água que ficar não deve dar para que a bomba submersível funcione. Mas amanhã tentaremos resolver isso, nem que seja arrastando a água à vassourada. 

Claro que a seguir temos que tentar resolver o tema de forma estrutural, isto é, substituir a bomba que deve estar estragada por outra. Ainda não percebemos onde se faz a ligação à electricidade, mas uma uma coisa de cada vez.

Enfim. 

Pior, mil e mil vezes pior estão os pobres coitados que têm as casas destruídas. Nem imagino a aflição e o desespero de quem está nessas condições.

Mas para não falar só de desgraças, partilho um vídeo que me chegou via o instagram da Ana Marques para a SIC, e que vi com curiosidade. 

Depois disso, já visitei o site, Carved Wood, Handmade Design e, agora que sou dada a redes sociais, também a conta de Instagram. Segundo vejo, trata-se de marcenaria de autor, Arte e Desenho de Móveis, com atelier em Azeitão.

Uma história com piada. Segundo vi no vídeo que abaixo partilho, vindo de uma vida muito diferente, o André  resolveu mudar de vida e dedicar-se ao mister que o motivava, a marcenaria. Trabalhando com madeiras maciças, as peças são feitas à medida ou a feitio, outras vezes com design de sua lavra. Obras de autor, que, segundo vejo, são construídas com criatividade e versatilidade. 

As imagens com que ilustro o texto são, pois, obras suas. Não vêm a propósito do texto subaquático, bem sei, mas as fotografias que tirei à inundação cá de casa ficam para a Seguradora, caso se verifiquem danos substanciais. 

Achei que, para me nos tirar (ou, pelo menos, para me tirar a mim) deste estado cinzento, meio depressivo, em que tanta chuva e tanta humidade nos deixam meio zururus, mais valia espairecer a vista com peças interessantes e que nos dão vontade de as adquirir ou de mandarmos fazer qualquer coisa do género.



[Hoje, por aqui, não se fala do Montenegro e das suas ministrinhas e ministrinhos minions e desasados, muito menos do Epstein ou do Trump ou do Putin. Há que deixar entrar algum oxigénio nos nossos dias. E por pouco não falava também das tortas do Cego, também em Azeitão, ou das cerâmicas Fortuna, um pouco adiante, em Palmela. Ou dos vinhos da Ermelinda. Mas, se o tempo e as ocorrências (derrocadas, quebras de diques, inundações, e despautérios e descalabros políticos de toda a ordem) continuarem, na volta dedico-me é às nossas artes e ofícios. Pelo menos, acabo de escrever o post e estou bem disposta.]



E aqui a seguir está o vídeo em que a Ana Marques, para o seu programa na SIC, mostra a visita que fez à Carved Wood. 



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Desejo-vos dias felizes

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Onde é que está o governo? Onde é que anda o Marcelo?
-- A palavra ao meu marido --

 

O País atravessa uma enorme catástrofe e o governo, como já tinha acontecido com os incêndios e com o apagão, mostra-se incapaz de gerir a crise, pôr em prática as ações que são necessárias e manter os portugueses devidamente informados -- como é seu dever. 

A atual MAI, como a anterior, não existe. Uma ministra que, numa noite em que o IPMA prevê a passagem pelo País de uma depressão que muito provavelmente provocaria, como provocou, uma catástrofe, manda o chefe de gabinete para a Proteção Civil em vez de estar presente no Centro de Operações, não tem o mínimo de perfil para o cargo que ocupa. Mas isto não é novidade, já o tinha demonstrado em situações anteriores. 

O Montenegro também não consegue acertar uma e, quando aparece, não diz nada que valha a pena ouvir. 

Este governo não tem capacidade para enfrentar situações de crise. Como acima referi e repito, já o tinha demonstrado nos fogos e no apagão. Não têm conhecimentos nem capacidade para tomar decisões em situações de crise e isso é preocupante. 

O Marcelo, tão ativo em épocas anteriores, agora não tuge nem muge. Será que já não é presidente? Ou não intervém porque não fala de nenhum assunto que corra mal ao governo? Os milhares de pessoas que estão a sofrer não merecem um afeto? Lá se foi também o "presidente dos afetos"! 

Por todas as razões e mais uma e para bem de todos, esperemos que não chova demais e que a água comece a descer. Uma coisa é certa: em situações de crise, o governo não serve para nada.

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Nota: 

Agora um assunto bem menos importante. Como julgo que já foi aqui referido várias vezes, sou do Sporting! 

Ontem, o Sporting e o Benfica derrotaram de forma mais ou menos brilhante os adversários na Champions. Foi uma grande noite para o futebol português. 

-- O Sporting ficou em sétimo lugar, fez 16 pontos em 24 possíveis e vai diretamente para os oitavos de finais, ficando à frente de equipas como o City, o PSV, ... .
-- O Benfica ficou em vigésimo quinto lugar, somou 9 pontos e apurou-se para os play-off com um golo no último minuto. 

Não há dúvidas que o Sporting fez uma prova muito melhor que o Benfica. Pois, se ouvíssemos os comentadores desportivos nos vários canais diríamos que foi exatamente o contrário. Endeusam quem teve pior prestação e dizem umas coisinhas simpáticas sobre quem se revelou ser melhor nesta prova. Também no futebol, a comunicação social está longe de ser imparcial.

segunda-feira, maio 13, 2024

Cidades-esponja

 

As imagens que nos chegam do Brasil, Rio Grande do Sul, um mundo devorado pela água, são impressionantes demais. À data de hoje, mais de cem mortos, mais de cem desaparecidos, centenas de milhares desalojados. Casas destruídas, as águas a inundarem os primeiros andares das casas que resistem, as estradas desaparecidas. Um pouco por todo o lado (Afeganistão, Indonésia, China, etc) tempestades, inundações ou, no verão, o reverso, temperaturas insuportáveis, incêndios que não se conseguem apagar.

O cenário apocalítico que em tempos pensámos que seria algo a ameaçar apenas as gerações futuras já aí está, a bater-nos à porta.

O tema das cidades esponja, que não é remédio santo mas, ao que parece, uma boa ajuda, é algo de que provavelmente ouviremos falar com cada vez mais frequência. Pelo menos, assim o espero.

Retiro do DN, um artigo interessante de 2022:

Cidades-esponja. O que são e como podem ser resposta às cheias e secas em meio urbano

Mais do que resolver os desafios dos fenómenos extremos, peritos apontam soluções de adaptação que as zonas urbanas devem adotar para melhor gerir chuvas intensas e ondas de calor. Alterações climáticas intensificam os fenómenos, mas não devem servir como justificação para a falta de ordenamento.

"(...) o cenário de catástrofe provocado por fenómenos climáticos extremos vai repetir-se. E, apontam os especialistas, com uma intensidade e frequência cada vez maiores. Importa, por isso, alterar o comportamento reativo para uma atitude progressivamente mais preventiva. "  José Carlos Ferreira, doutorado em Ambiente e Sustentabilidade.

Ultrapassadas as dificuldades do momento, o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-Nova) afirma que facilmente "nos esquecemos que estes fenómenos existem e que se estão a intensificar".

(...) O coordenador do mestrado em Urbanismo Sustentável e Ordenamento do Território da FCT-Novaacredita que a resposta está na alteração do modelo de desenvolvimento das cidades e na concretização de soluções que "transformem o território, ocupando-o de forma ecológica". Este caminho passa, sobretudo, pela alteração dos planos diretores municipais (PDM), para que evitem a construção em zonas de perigo, como em leito de cheias, mas também que integrem estratégias relacionadas com o conceito de cidade-esponja.

O termo foi cunhado pelo arquiteto paisagista e urbanista chinês Kongjian Yu e refere-se, essencialmente, a cidades ambientalmente adaptáveis que apostam em planos de gestão integrada da água. As soluções adotadas variam consoante a realidade hidrográfica das zonas urbanas e a sua configuração, mas podem incluir pavimentos permeáveis, jardins biodiversos e edifícios com coberturas verdes. É uma forma de "incorporar, de forma plena e holística, o ciclo da água no ordenamento dos espaços urbanos", explica Rafael Marques Santos.

O professor e investigador da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa detalha que o urbanismo sustentável permite "intervenções cirúrgicas" em áreas com "grandes erros estruturais", sempre com o objetivo de reduzir os impactos, por exemplo, em cheias. Umas são mais fáceis, outras mais complexas e dispendiosas, como demolições pontuais em zonas particularmente perigosas.

"Não vamos conseguir retirar toda a urbanização de Alcântara ou de Algés", aponta. Mas a criação de elementos de contenção é uma opção, desde logo com bacias de retenção nos pontos mais altos das cidades que "atrasem" a chegada da água, a grande velocidade, às partes baixas. O essencial, esclarece, é "olhar de forma muito atenta para a água numa perspetiva de todo o ciclo" e implementar medidas que cumpram dois objetivos de uma só vez - prevenir os riscos de momentos em que existe água em excesso, assim como atenuar situações de seca.

"Os edifícios podem ter espaços de cisterna para acumulação de água que podem ser úteis", afiança. Se em tempo de chuva intensa os edifícios conseguem guardar alguma dessa água e evitar que seja escoada para a rua, noutros momentos esse recurso pode ser usado para regas, lavagens e outros fins.

O mesmo poderá ser feito em estruturas municipais e há bons exemplos de como isso pode ser feito. Em Roterdão, nos Países Baixos, a Waterplein Benthemplein é uma praça de betão usada durante todo o ano para atividades de lazer dos habitantes, mas é pensada para que em época de chuva intensa possa inundar e evitar a sobrecarga dos sistemas de escoamento da cidade.

Outra ferramenta complementar é a criação de jardins alagáveis, biodiversos e compostos por plantas com capacidade de absorção da água. Estes locais podem inundar e continuar a servir como espaço de recreio, bem como ajudar a refrescar as cidades durante o verão - exemplo disso são cidades como Taizhou, na China, ou Nova Iorque, nos EUA.

Em Setúbal, refere João Carlos Ferreira, o Parque Urbano da Várzea foi "muito eficaz nestas cheias", apesar de aquela cidade piscatória ter tido 30% mais chuva do que Lisboa. "Foi todo redesenhado para ser uma grande bacia de retenção e não inundar a Baixa de Setúbal. Esteve no limite, mas está a funcionar e a cumprir o seu propósito", atesta.

Ambientalistas, arquitetos e urbanistas concordam ser preciso agir, revendo os planos de ordenamento, criando estruturas verdes e multiusos nas cidades, mas, acima de tudo, implementando estratégias de longo prazo diversas e adaptadas à realidade de cada local. "Estes momentos de crise também servem para as adaptações necessárias", remata Rafael Marques Santos.

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How China is designing flood-resistant cities

These "sponge city" designs resist floods and increase biodiversity to help us adapt to a changing climate.

From rising sea levels in Mumbai to unbearable heat in Houston, cities around the world are feeling the effects of climate change. Unfortunately, they don’t always have the right infrastructure to handle its impacts — which is one reason why cities are beginning to reimagine urban design. One of these designs is a “sponge city.”

Although one city design certainly won’t save us from the effects of climate change, “sponge cities” can help with how we live with it. 


Votos de uma boa semana

quarta-feira, agosto 02, 2023

Entrar numa igreja para que o casamento se dê... mas com os pés dentro de água

 

No outro dia, pouco depois de me deitar, por volta das duas e meia da manhã, ouvi movimentos que me pareciam perto da janela do quarto, nomeadamente no corredor que vai do portão até ao telheiro sob o qual costumamos deixar o carro. Passado um bocado, ouvi abrir as portas de um carro e, depois, um carro a avançar devagar, a curvar e a arrancar. Parecia mesmo que, sendo tão perto, só poderia ser o nosso. Mas parecia-me improvável.

O meu marido dormia a sono solto e não quis acordá-lo pois sabia que iria achar que era um receio infundado. Então, devagarinho, levantei a persiana para espreitar o portão. Foi então que constatei que a cameleira -- que está tão grande e tão linda --, tapava totalmente o portão. Não consegui ver aquilo que poderia aliviar a minha inquietação.

Passado um bocado, ouvi vozes de homem na rua. Pelo que ouvia, estavam encostados à vedação. Falavam, falavam. Já eram três e tal da manhã e era uma conversa que não acabava. Nestas ruas as únicas pessoas que passam a pé fazem-no de dia. Muito menos se põem paradas, encostadas à vedação da casa de outras pessoas. Esperei, esperei que se calassem. Eu com uma espertina dos diabos... 

Então lembrei-me de ir à vidraça do primeiro andar para espreitar e tentar perceber o que se passava. 

O urso felpudo, que dorme entre a vidraça e os cortinados, levantou-se, estremunhado, e, de pé, olhava-me intrigado. Não consegui ver nada. A árvore de que tanto gosto, que fica toda florida e que cresceu tanto, não deixava ver o portão.

Claro que a decisão está tomada: vamos mesmo desbastar as duas, deixar que a copa se forme só lá mais acima.

Há não sei quanto tempo que o meu marido anda a protestar com o tamanho das árvores e eu, nature lover, sou muito adepta de as deixar seguir o seu rumo. Além disso, passa-se o seguinte: quando chegamos da rua, por muito calor que esteja, mal se transpõe a entrada do jardim, sente-se um ar deliciosamente fresco. Há, de certeza, uma diferença de uns graus de temperatura. E deve-se, não tenho dúvida, à sombra das árvores.

A salvação do mundo não passa exclusivamente pela sua florestação. Os problemas são tão complexos, tão múltiplos e díspares que, mesmo que nos puséssemos todos a plantar árvores, não iria ser suficiente. 

Mas ajuda. 

Por muito que algumas pessoas queiram subvalorizar as alterações climáticas, a verdade é que elas estão aí para nos alertar para a imperiosa necessidade de fazermos qualquer coisa para retardar o desastre global que se avizinha.

É certo que grandes chuvadas, fortes ventanias e intensos calores sempre os houve. A questão é que não tão grandes, não tão fortes, não tão intensos -- e não tão frequentes.

Até que o mundo fique um lugar inabitável, certamente os humanos irão adaptar-se. Habituamo-nos a tudo. Até que um dia, se nada fizermos, tão não será mais possível.

Veja-se o casamento abaixo. Caminham, literalmente, sobre as águas. E, no entanto, o nó foi dado. Mas veja-se e ouça-se o que aqui se diz.

Bride wades through floodwaters after Philippines hit by typhoons

he Philippines was hit with torrential rain over seven days, brought by Typhoon Doksuri and intensified by Typhoon Khanun. 

Low-lying villages to the north of the country were the worst affected, houses were left submerged in water and residents were forced to travel by small wooden boats and roads were inundated. The Philippines are an archipelago of more than 7,600 islands, vulnerable to high winds and torrential downpours.


Uma boa quarta-feira
Saúde. Alegria. Paz.

quinta-feira, dezembro 08, 2022

Adenda ao post anterior: o Marcelo já está em Alcântara a acompanhar as inundações! Iupi!

 

Depois de falar dos bichos com cara de mete-nojo, tinha eu estranhado que o nosso incontornável e hiperactivo Marcelo ainda não andasse a distribuir beijinhos aos populares e sapadores no meio da água que submergiu a cidade.

Pois bem. Antes de me recolher aos meus aposentos, resolvi agora fazer zapping para saber em que param as modas: se já se nada ou se o dilúvio começa a dar tréguas. E eis que ali está o Marcelo. Nem mais. Não falhou! Mandando bocas, todo ele prosa, deixando no ar dúvidas e suposições, enviando condolências. Marcelo being Marcelo. Até dá vontade de fazer uma canção de rap. Debaixo de chuva, coriscos e trovões, aí está o Marcelo com água pelos calções. Iô. (Tratando-se do Sr. Presidente não ia dizer que ele estava com água pelos testículos, certo? Respeitinho é bonito e eu gosto).

Atrás dele, subalterno, Moedas. Os jornalistas, em momentos de aperto como estes, não querem saber de actores secundários. Por isso, não sei o que teria ele a dizer sobre o sucedido.

Pena é que Marcelo tenha vindo de carro e à paisana. Acho que pinta, pinta mesmo, teria se comparecesse numa lancha e com o seu bem conhecido fato de banho azul claro, ali mesmo, em plena Alcântara, fizesse um remake da sua inesquecível cena de natação no Tejo e saltasse de mergulho para a avenida para nos mostrar o seu escorreito crawl. Ou, para que não digam que, em hora de aflição, se pela para atrapalhar os bombeiros, se apresentasse de escafandro e barbatanas pronto para participar em operações de resgate.

Claro que caguou  para o alerta da Protecção Civil que está a pedir para a malta se manter em casa. Mau exemplo. Mas, enfim, a gente dá desconto. Já se sabe que o Marcelo padece de bicho-carpinteiro e se, ainda por cima, lhe cheira a microfones e câmaras de televisão, então, não resiste, tem que estar lá caído. (E calma, eu disse caguou o que, que eu saiba, não tem nada de escatológico ou inapropriado).

E, pronto, é isto. 

E queiram continuar a descer pois há caras do além à vossa espera.

Que nunca me apareça à frente ninguém com esta cara ... please....

 


Há uma palavra para a mania de ver caras em coisas. Creio que a palavra é pareidolia. Na casa dos meus pais as paredes da casa de banho eram de mármore, em antracite e branco, e uma mancha que havia na parede ao lado do lavatório parecia-me a cara de um homem zangado. Teria eu uns doze ou treze calhou ler os contos de Allen Poe. Nessa altura eu tinha aulas de manhã e a minha mãe dava aulas à tarde. Quando eu chegava a casa já ela não estava. Deixava-me o almoço e eu almoçava sozinha. E sozinha ficava até que ela e o meu pai regressavam ao fim da tarde.

Por isso, nessa altura, cada som não identificado que eu ouvia me assustava. O terror escorria da literatura para dentro da minha casa. Receava ouvir suspirar de dentro das paredes, receava que uma mão saísse de um estante para me agarrar ou que um pássaro sinistro entrasse dentro de casa e me arrancasse os olhos, que sangue escorresse das torneiras. Temia sobretudo as almas do outro mundo. E quase receava ter vontade de ir à casa de banho pois sabia que lá estaria aquela cara medonha a ameaçar-me com o olhar.

Em contrapartida, uma das cenas que recordo como mais intimidantes prende-se com uma ausência de rosto.

‘Something extraordinary’: dorsal, ventral and lateral views of a sawshark. Photograph: Simon Weigmann/Natural History Museum

Teria uns quinze ou dezasseis anos e tinha estado até mais tarde com os meus amigos. Era inverno, anoitecia cedo e estava um nevoeiro cerrado. Ia apanhar autocarro para casa mas mal via onde estava a paragem. Consideravelmente assustada, ia no passeio sem ver nada. Nada de nada. E, do nada, uma voz de homem disse o meu nome. Não vi ninguém nem reconheci a voz. Como o meu nome foi dito no diminutivo admiti que seria alguém que me conhecia de pequenina. Até hoje recordo o arrepio que me percorreu. Não sei se era o medo de que fosse um voz do além ou de um um monstro assassino se escondesse sob o espesso manto de névoa que envolvia o negrume da noite. Tenho uma vaga ideia de ver um vulto a afastar-se. 

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E os bichos assustadores que aqui pairam com a sua horrível cara quase humana são tubarões-serra. 

Com a ajuda de pescadores em Madagascar e na Tanzânia, cientistas descobriram duas novas espécies raras de tubarão-serra de seis guelras.

Nadando no oceano estão tubarões que parecem ter um corta-sebes preso à cabeça e um bigode pendurado no meio. Estes são os tubarões-serra e usam o seu formidável capacete para cortar cardumes de peixes. O bigode é um dispositivo sensorial que ajuda os tubarões a detectar presas.

[Artigo completo:  Discovered in the deep: the extraordinary sawshark with a weapon-like snout]

Agora imagine-se se um dia estou a nadar ao lusco fusco e me aparece um monstro destes com estes olhinhos de pipi-cagão e a boca num esgar de profundo desprezo e diz o meu nome... Medo...

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Entretanto, choveu, ventou e trovejou como se não houvesse amanhã. A ver se as barragens ficam au point. As televisões mostram as ruas de Lisboa e arredores cheias de água, carros meio submersos e, num túnel, até mergulhadores. Só me espanta que o Marcelo ainda ali não esteja a observar in loco as ocorrências, quiçá mesmo a mergulhar.

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Mas se o omnipresente Marcelo desta vez falhou, quem não pode falhar em dia de chuva é  Mariza com uma das canções que volta e meia aqui marca presença. Gosto demais.


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Um bom dia
Saúde. Boa sorte. Paz.

quarta-feira, novembro 23, 2022

The green fields of heaven

 


Acho que não há grandes novidades tirando as desgraças de sempre e dessas, tão tenebrosas me parecem, não consigo falar. 

O meu dia foi de trabalho e teve aquelas agruras habituais. Na fase em que estamos, uma fase complexa no futuro da empresa, parece que o pior de algumas pessoas se sobrepõe a tudo o resto. Quando se fala em atitudes tóxicas isso não é uma força de expressão, é mesmo uma realidade. Infelizmente, os episódios de stress ou irritação sobrepõem-se aos de motivação e isso desgasta. Mas é uma fase. Logo passa.

Por tudo isto, prefiro falar de momentos de paz e serenidade. 

O tempo cinzento, chuvoso, tristonho. Às quatro e tal estava escuro, às cinco e tal estava de noite. Às seis e tal fui andar lá para fora, estava noite cerrada. Tive que ligar a lanterna do telemóvel. Mas andar no campo, entre árvores, com tão fraca iluminação não é coisa fácil. Não se vê nada, nada, nada. Pensei que se um javali ou uma raposa saíssem da gruta ou de alguma toca eu cairia para o lado de susto. 

Apesar de tudo, gosto. E chuviscava. Via as gotas a percorrerem os fracos raios de luz do telemóvel. Bonito. Podia ficar ali parada a respirar o ar molhado, a sentir os odores e os mistérios da noite.

A fera tinha ido comigo e, de vez em quando, ouvia-o por perto mas, de noite e ele escuro como é, quase não o consegui ver. A certa altura, chamei por ele. Nada. De repente, ouvi um barulho e um monte de pelo passou a rasar por mim. Estremeci. Era ele numa corrida. Mas não o vi. 

Passado um bocado, ouvi o meu marido lá em cima, ao longe, a chamar por mim. Fui na direcção dele. Achava que eu andar por ali às escuras não era boa ideia. Acendeu as luzes todas à volta da casa e que eu andasse por ali. Dei umas três ou quatro voltas e desisti. Não tinha graça.

À hora de almoço tinha feito um pequeno passeio para fotografar cogumelos. É um fenómeno. Não sei a que ritmo se multiplicam aquelas células mas o facto é que, num abrir e fechar de olhos, aparecem e agigantam-se. Belíssimos. Claro que nem todos são de tipo giga. Há os que são delicados, quase como bailarinas, quase comoventes.

Há outros que parecem umas bolinhas brancas, quase pétalas, outros umas ondinhas quase em rendilhado, folhinhos subtis que embelezam os ramos que se fingiam de mortos. Quanto mistério nestas indecifráveis formas de vida.

Outros são carnudos, quase animais saídos da terra, outros parecem algas, são lustrosos, quase parecendo vindos do fundo do mar. 

Os mais exóticos são uns em campânula brilhante em amarelo exuberante. Mas hoje vi uns que parecem vidros de Murano, de uma delicadeza translúcida. Serão que são deuses? Ou serão simples anjos? São inexplicáveis, etéreos. Fiquei com vontade de me deixar ficar a olhar para tanta beleza, tão efémera beleza.

E os campos estão verdes, verdes. Muito musgo, macio, veludo, veludo, e muitas ervinhas, muitos líquenes. É bom estar entre o verde da natureza. Fotografo o que posso. O tempo não é muito. E há a chuva. Fiquei com os pés molhados, o cabelo molhado. Mas soube-me tão bem. 

Por vezes ocorre-me que se, por uma qualquer fatalidade, eu perdesse o que tenho ou soubesse que, em breve, estaria de partida, talvez me sentisse feliz na mesma, agradecida na mesma. Todos os momentos abençoados que tenho vivido estão inscritos no meu adn de uma forma indelével e são carga suficiente na bateria onde armazeno os meus momentos de felicidade. 


E já nem me refiro aos momentos vividos junto àqueles a quem amo e que trago sempre no meu coração. Refiro-me a estas coisas simples como ver como estão grandes e bonitas as arvorezinhas que plantei tão pequeninas, como é especial o círculo de pedras que imaginei e concretizei (tantas vezes carregando ou empurrando pesos que anos mais tarde mostraram o desgaste que provocaram em algumas das articulações que mais se esforçaram), como se tornou tão fértil a terra antes tão árida, como devem ser felizes os pássaros que aqui habitam.

Estava a andar e a pensar como estão bonitos os verdes campos deste meu paraíso. Depois apareceram-me as palavras em inglês e dei por mim a sorrir. The green fields of heaven. Quem conhece o mundo dos negócios e dos investimentos saberá bem o que são os greenfields projects. E na verdade foi isso que, há uns anos, foi esta nossa aventura. Tudo à nossa disposição para daqui fazermos o que quiséssemos. 

Imaginei caminhos, imaginei escadinhas de pedra, imaginei o lugar para os cedros, o lugar para os pinheiros, lá em baixo dois eucaliptos, os elegantes ciprestes pelos quais me apaixonei a ladearem os caminhos, a pimenteira toda leveza, as azinheiras que já cá estavam sob a forma de rústicos e informes arbustos e que fomos desbastando até se transformarem nas majestosas árvores de hoje. 

Tudo se foi concretizando até que ganhou vida própria. O que agora vejo quando por aqui caminho é, tantas vezes, novo para mim. Devem ter sido sementinhas que voaram de longe e que esta terra acolheu. Tal como os gatinhos, os esquilos ou os pássaros ou os bichos cujas grandes pegadas encontramos e que aqui se acolhem, assim as flores, os cogumelos, os arbustos felizes que por aqui vão construindo a sua vida.


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Desejo-vos uma bela quarta-feira
Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, fevereiro 22, 2021

Uma espécie de crónica de mais um fds confinado

 


Mais um fim-de-semana do qual nada há a registar. No sábado, chuva de manhã à noite. Ainda assim, quis ir andar pois não consigo ficar fechada em casa todo o dia mas regressei com as calças, as meias e os ténis ensopados. Na parte de cima não houve problema pois tinha uma capa impermeável que cumpriu a sua missão. 

Este domingo, caiu um pesado e prolongado aguaceiro de manhã. Temi que estivesse, de novo, o caldo entornado. Mas não. Levantou. Fomos andar mal as nuvens escuras se dissiparam, subsistindo apenas as cinzentas e as brancas. Fizemos uma boa caminhada, a bom passo, o ar frio e húmido mas com vestígios de sol a iluminar o caminho.

Mas é uma pasmaceira que não se aguenta. Uma pasmaceira. Que não se a-gu-en-ta.

Li mas até a ler estou vagarosa. Depois, saí para o jardim para andar a fotografar. Deixei-me estar a ouvir o bater das asas dos pássaros através das folhas, tentando descobri-los. De cada vez que descortino algum e me apronto para registar o milagre, logo o milagre se dissipa. Depois andei a ver as flores através da luz, andei a espreitar maneiras novas de as ver e, à medida que o tempo passava, as cores iam mudando. E os cheiros também. Por vezes, se o sol descobria com maior fulgor e lhes dava de feição, eu andava em sua volta tentando descobrir qual o ângulo em que o raio de luz mais as embelezava. Como uma abelha ou um pássaro, assim eu, vigiando a beleza das flores ou das folhas que despontam.

Depois reentrei, fui fazer uma infusão. Uma mistura de nove ervas a que misturei casca de lima. Ficou poderosa.

De volta à sala, vi o site do ikea, do leroy, do gato preto. Depois de ter falado com a minha filha, vi também o da zara home. E vi sites de decoração. Tomara pôr-me a caminho e entregar-me ao prazer de medir, pensar, imaginar trocas de sítios, mudança de cobertas ou almofadas.

E fui vendo as fotografias e os vídeos que foram chegando. E falei também com a minha mãe e com o meu filho. E, a meio da tarde, quando estava a dar-me o sono, ligou-me um amigo e estive a conversar com ele; e ainda me ri. Diz que mal isto abra, vai para o aeroporto, apanha o primeiro avião e quando aterrar logo vê onde é que foi parar. Diz que tanto se lhe dá desde que possa raspar-se de casa.

Que mais posso contar? Acho que nada.

Só se for que voltei a fazer bacalhau com todos para além da dose, a contar que há-de sobrar para fazer dali uma outra refeição, provavelmente à Gomes de Sá. E, à tarde, fiz um arroz de frango também logo a contar que desse para outra refeição (aliás, quiçá não uma mas mais duas). Fiz assim:

Num tacho, frigi 2 cebolas em bocados grandes, em azeite. Juntei quatro dentes de alho e uma folha de louro. Quando a cebola estava transparente, juntei quatro tomates bem maduros aos bocados e salsa e coentros em quantidade generosa. Juntei então pernas de frango do campo, um pouco de água e um pouco de sal. Quando ferveu, baixei. Ficou a cozinhar até que vi que a carne estava quase macia. Juntei, então, um alho francês aos bocados e feijão verde. Cozinhou um pouco. Juntei, então, água (que estimei que, com a que já estava no tacho, ficasse o dobro da quantidade de arroz). Juntei um pouco de bacon aos bocadinhos e um pouco de chouriço de carne aos bocadinhos. Juntei o arroz (basmati). Quando absorveu todo o líquido, desliguei e ficou tapado, a apurar. Um cheirinho a comida portuguesa.


Quase não vi televisão. De tarde, o meu marido colocou no National Geographic - Wild e estivemos a ver leopardos e outros grandes felinos. Partidarites e comentarites é pitéu requentado que já não manjamos. Agora, fui ver o que estava a dar e pareceu-me que era a mesma coisa. Então, fui andando até que passei pelo canal zen, canal que desconhecia em absoluto, e há pessoas a fazer movimentos lentos. Fez-me lembrar um chinês que vivia perto de nós, na outra casa, e que ia para o jardim ali perto fazer aquele género de movimentos. Uma agora está a andar à roda. Eu fazia isso quando era pequena para depois desatar a rir de tonta e cair desamparada. Continua a andar à roda, ela. Agora está a fazer movimentos que me parecem de ioga. Se fosse a outra hora, ia para o chão e imitava-a. Assim, não me apetece. Não sou disciplinada, não tenho paciência para estar a fazer exercícios. Mas sei que devia fazê-los para não ir perdendo a elasticidade.


Por vezes, naquela outra vida em que éramos felizes e não o sabíamos, a vida pré-covid, naquelas alturas em que andava cheia de programas e canseiras, de um lado para o outro ou com a casa cheia de gente e a sentir que precisava de descansar, pensava que deveria ser bom ir para um retiro, talvez para um mosteiro, e passar o dia sem fazer nada, só a caminhar, a pensar, a observar, a fazer exercícios de respiração e contemplação. Agora que estou em casa nesta estúpida ociosidade penso que o tanas é que ia enfiar-me num buraco sem nada que fazer. Não nasci para monja. Acho que nem sequer para yoguini.

Bem. Estou a ver a rapariga a fazer e fazer e fazer o mesmo movimento, vezes sem conta, sempre com uma espécie sorriso santificado. Acho que não lhe custa nada a fazer aquilo. Uma espécie de flexões no chão.

Interrompi. Fui tentar. Está bem, está. Fiz duas vezes e parei não fosse ficar para aqui estendida e não ter quem me acudisse. Estou a ver que tenho que tentar, senão qualquer dia, estou feita, se quiser apanhar uma coisa do chão tenho que me agachar com uma daquelas velhas todas descadeiradas.

Agora está outra e parece-me que o que faz é bem mais complicado. Sobretudo, o que vejo é que requer paciência, fazer os movimentos com calma. Não é bem o meu género. Mas tudo se aprende. Acho eu...

Entretanto, uma nova semana já aí está. Um tempo de espera, de quase vazio, um hiato. Só espero que mude a hora, que venha o sol, que a vacinação avance a bom ritmo, que possamos voltar a ser donos e senhores dos nossos movimentos -- mas sem que, com a nossa liberdade, ponhamos em risco a nossa saúde ou a de outros. É que pior que a ociosidade e a impaciência será o peso de consciência se, justamente por impaciência, formos infectados e infetarmos outras pessoas.

Por isso, confinada estou e confinada estarei até que a prudência possa, em total consciência, ser aliviada. Pronto. Paciência.

[Mas se isto dura muito tempo -- mais um ano, por exemplo -- não se admirem se resolver saí daqui directamente para o mosteiro das carmelitas descalças, convertida até à medula].

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De manhã, a minha mãe dizia que tinha estendido a roupa pois parecia que ia estar de sol. Afinal que tinham vindo umas rajadas de vento e uma tal carga de água que ela até quase teve medo de ir apanhar a roupa, não fosse ir pelos ares juntamente com a roupa. 

Pois bem, há bocado, que nem de propósito, ao abrir o youtube, apareceu-me o vídeo abaixo que vi, nuns casos, com um sorriso e, noutros, com a apreensão solidária pelo susto que os que ali estão sofreram. 

Nem sei porque o partilho convosco mas é daquelas coisas: não tem que haver explicação lógica para tudo, pois não?

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Desejo-vos uma nova semana tão boa quanto possível

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Algo de sonolência resignada e amável. Sem dúvida uma coisa que sucede no passado

 


Depois de me terem falado num funeral que teve que ser feito longe pois, na cidade, não havia 'vaga' tão cedo, alguém conta de um seu conhecido também com covid, mal, nos cuidados intensivos. No fim da reunião, um dos participantes tentou encurtar a reunião dizendo que tinha várias chamadas da mesma pessoa, estava preocupado. Ligou-me algum tempo depois: um amigo tinha caído inanimado, um enfarte fulminante. Os médicos batalharam e conseguiram reanimá-lo mas estava muito mal, nos intensivos. Um outro colega tinha-me contado, de manhã, que a mãe estava mal, nos intensivos, tudo nela a ir-se abaixo. Não covid: apenas tudo a correr mal.

Hoje uma pessoa perguntava sem esperar resposta: o que é isto? está tudo a desaparecer?

Também não saberia responder. A quantidade de pessoas a quem têm morrido o pai ou a mãe -- uma até, com pouco intervalo, ambos -- já nem sei dizer. Um bocado assustador.

Ouvi ao telefone o meu marido com um colega: tinha estado mal, em sofrimento. Tinha ido para o hospital, estava sem oxigénio, ficou lá. Agora está em casa mas mal, com oxigénio. Um homem novo a falar como um velho sem força.

Tento não pensar em nada disto, não ouvir noticiários que explorem a desgraça. Mas a desgraça chega até mim pela voz de colegas e amigos. Não sei se contei. No outro dia, ao telefone com um amigo, perguntei-lhe pela mãe. Sempre foi muito cuidadoso e preocupado com a mãe. Respondeu: morreu há poucos dias. Fiquei sem saber o que dizer. Perguntei se tinha sido covid. Disse que não. Apagou-se, disse ele. Estava sentada a ler, morreu. 

Não sei explicar isto. 

Só quero que venha o bom tempo. Hoje nem consegui ir ao jardim. Choveu todo o dia. Muito escuro, ventoso, frio. O tempo assim é uma tristeza. 

No trabalho, os tempos não vão tranquilos. Gente doente, gente em isolamento, equipas reduzidas. Difícil traçar planos, difícil exigir alguma coisa. Apetece também dizer que façam o que puderem, apetece deixar toda a gente em paz.

Na televisão ouço falar no dia dos namorados e fico a pensar: coitados dos namorados que não vivem juntos. Depois penso que também não é extraordinário para os que vivem juntos. Algum espaço é bom. O confinamento não é bom para ninguém. E há o carnaval. Tantas vezes que me lembro do carnaval na Galiza. O que nos espantámos com o que aquela gente se divertia, famílias inteiras mascaradas da mesma maneira. Riam, andavam pela rua a cantar, a rir. No ano em que o descobrimos, os miúdos ainda adolescentes, connosco, ficámos num hotel por cima das rias. Víamos a água debaixo de nós, o chão era de vidro. 

Tanto que me apetecia agora sair por aí, de carro, ouvindo música, descobrindo terras. 

Agora não saio daqui e não sei quando poderei sair. Ainda bem que há cuidado, tem que ser. António Costa pede regras. São fáceis. Qualquer matemático sabe estabelecer as métricas: x infectados por dia quando os hospitais estiverem a y% da sua capacidade. A dificuldade está em saber a quantos internados correspondem a montante os x infectados uma vez que, se bem percebo, isso é variável consoante as estirpes. E são estas variantes e estirpes que baralham a equação. Então, é jogar pelo seguro. Mas, como não se pode confinar-desconfinar-confinar semana sim, semana não, o melhor é garantir que a sociedade funciona com um mínimo de perturbação e um mínimo de gente em circulação. 

Por exemplo: teletrabalho obrigatório para todas as funções que o permitam. Não é ao gosto do freguês, como era. É mesmo obrigatório. Quanto às escolas, é, pelo menos, fazer secundário e universidades remotos até ao fim do ano lectivo. E é inspeccionar os sistemas de ar condicionado e obrigar a ter injecção de ar exterior. É impedir que várias pessoas estejam em espaços fechados não ventilados com ar do exterior. Obrigar a que as janelas e portas estejam abertas, caso não haja garantia que o espaço está a ter extração de ar e injecçção de ar limpo. É fazer anúncios, anúncios, anúncios. É substituir as notícias e as reportagens catastrofistas por reportagens didácticas, facilmente perceptíveis. Por exemplo: como fazer exercício em casa, como fazer uma alimentação racional em confinamento. Reportagens agradáveis, bem feitas, que saibam bem ver. No outro dia vi uma da BBC. Um gosto.

Bem. Estou cansada.

Ontem, quando fui apanhar uma laranja, vi uma coisinha branca no chão. Não percebi o que era. Baixei-me. Era metade de uma casquinha de ovo. Pequenina. Olhei para o lado. Se calhar, dali nasceu um passarinho. Tentei fotografar mas estava a chover, as fotografias saíram-me desfocadas.

Gostava ainda de contar que ontem tinha para o jantar lombos altos de atum congelado. Não bifes: não, mesmo lombos altos. Então fiz assim. Deixei a descongelar. Quando andava a fotografar o ovinho, reparei que estava uma lima caída. Muito madura. Então, numa taça de vidro transparente (e isto é relevante pois fica bonito e deve ser visto em toda a sua transparência) juntei o sumo da lima que, por sinal, era muito sumarenta, azeite, um pouco de sal, um pouco de orégãos e... claro... mel, uma colher de chá de mel. Com um garfo, bati até que virou uma bela emulsão dourada. A importância da tacinha ser de vidro incolor e transparente está aqui: a cor e a textura da emulsão ficaram lindas.

Despejei-a sobre os lombos do atum, já descongelado, que tinha colocado numa taça funda. Ficaram mergulhados. De vez em quando, virava-os. Com um garfinho de plástico, daqueles de criança do ikea, piquei-os grosseiramente, apenas para que a emulsão melhor os atravessasse. De cada vez que fiz isso, mergulhei um dedo e lambi-o. Estava deliciosa.

Umas horas depois, hesitei se não deveriam ficar assim, crus. O meu marido disse que não. Eu preferia cru mas tudo bem. Claro que poderia ter deixado um lombo cru para mim mas tenho destas coisas meio parvas, gosto que tenhamos a mesma coisa para comer.

Entretanto, num tacho, juntei água, um pouco de sal, umas cenouras, feijões verdes, batata normal e batata doce cor-de-laranja, tudo aos bocados. Cozi. Depois temperei um azeite.

Então, numa frigideira, deitei a emulsão e deixei que aquecesse. Juntei os lombos e selei vagamente em cada lado, baixo, cima, dos lados. 

Acompanhámos com salada de alface e rúcula. 

Perdoem-me a imodéstia mas acreditem: estava mesmo bom. Mesmo bom.

Mas tudo tem um lado mau. Tinha aquecido pão. Então, para além da comida que tinha no prato, comi uma bolinha molhada no molho. Aos bocadinhos, aos bocadinhos, sempre a desejar parar. Não sei quantos quilos terei a mais no fim disto tudo. A ver se consigo fazer umas refeições só de chá e fruta para ver se perco o que ganho nestes exageros.

É que, ainda por cima, descobri umas bolachas de chá e aveia cobertas de sementes que estavam quase a perder a validade. São simplesmente deliciosas. Mas imagino as calorias. Melhor nem pensar.

Portanto, é isto que tenho a reportar. A seca do costume. 

Que venha o sol e os dias grandes a ver se consigo sair desta invernia que me envolve a escrita.

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La lluvia tiene un vago secreto de ternura,
algo de soñolencia resignada y amable,



Cae o cayó. La lluvia es una cosa
Que sin duda sucede en el pasado.


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A chuva segundo Federico Garcia Lorca e Jorge Luis Borges

Pinturas de Inès Longevial ao som de Julia Stone - We All Have Feat. Matt Berninger

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Desejo-vos uma boa sexta-feira.

Saúde. Ânimo.