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segunda-feira, maio 14, 2018

Reportagem de um passeio turístico pela Baixa de Lisboa





Escrevo porque sim. Não é para mais tarde recordar já que nunca releio coisas que tenha escrito. Nem é para que os outros saibam da minha vida ou o que penso -- nem quem me lê me conhece, nem eu conheço quem me lê, pelo que isso também não é razão. Acho que escrevo porque sempre gostei de escrever e porque tudo me serve de pretexto para escrever. Não sei de outra razão.


Um amigo meu, quando a mãe, nonagenária, morreu, teve que arrumar, distribuir ou desfazer-se dos seus pertences. O pai tinha morrido anos antes. A senhora, pessoa culta, a viver numa bela moradia na Linha, esteve uma vida inteira a carrear objectos especiais para dentro de casa -- e o meu amigo, quando se viu com um casarão daqueles a deitar por fora, várias divisões cheias de pertences e memórias, teve que digerir um petisco que não se deseja a ninguém. Acresce que quer a mãe quer o pai eram pessoas ligadas à cultura e à vida pública do País pelo que, mesmo que ao meu amigo e à mulher desse uma veneta e mandassem os membros daquelas associações de reabilitação irem lá buscar tudo o que quisessem (como a minha cunhada costuma fazer), por consciência cívica, não o fizeram. Viram cada caderno, cada livro, cada documento pois, em muitos casos, eram documentos com interesse histórico que, consoante a natureza, doaram para aqui ou para ali. Só que, no meio daquilo, encontraram inúmeros cadernos iguais, numerados, todos escritos pela mãe. Era um imenso diário.


Conheci a senhora. Talvez porque, de facto, viveu em França e conviveram muito com gente exilada em França, a senhora fazia lembrar uma francesa. Para começar, usava daqueles cabelos muito curtos, à rapazinho. E toda ela tinha um ar desempoeirado, moderno. E era senhora de fina ironia como só as pessoas inteligentes sabem ser.


Pois bem. O filho e a nora descobriram, depois da sua morte, que ao longo de todos os dias da sua vida (pelo menos da sua vida adulta), ela registava o que fazia, o que pensava, o que lhe apetecia, incluindo as zangas com o filho e com a nora. Ou pensamentos mais íntimos, sentimentos, sonhos, saudades. Muito desconcertante para o meu amigo e para a mulher. Não foram capazes de ler muito. Parecia-lhes um acto de devassa, tomar conhecimento da intimidade da senhora. 'Não quero conhecer esse lado da minha mãe', disse ele. A mulher disse: 'E escrevia bem, a minha sogra'.

Comigo não há cadernos secretos. Está aqui tudo, a céu aberto, para quem quiser ler.


E isto porque, aqui chegada depois de mais um dia repleto e igualmente bom -- cheio de beijinhos, beijinhos aos meus amores -- e depois de passar as fotografias do passeio para o computador, dei por mim preparada para aqui mostrar algumas delas. Depois pensei: mas estou a mostrar isto a quem?

Por vezes recebo mails em que me agradecem que eu mostre os sítios por onde ando já que nem todas as pessoas podem passear e conhecer estes lugares e, assim, vendo as imagens que aqui partilho, é como se fossem também de viagem. E eu fico contente. 


Eu gosto mesmo muito de passear. Não sou de ficar fechada em casa sem nada que fazer. Hoje eu dizia isto para me justificar e o meu marido passou-se: 'Mas estás a dizer isso a quem? Mas alguma vez tu ficas em casa sem nada que fazer? Era bom, era. Mas nunca acontece. Se não tens nada que fazer, inventas, e um gajo nunca consegue descansar.'. Ia responder mas faltaram-me argumentos. De facto, de manhã já tínhamos ido ao supermercado, depois fomos arrumar as coisas em casa, naquele momento estávamos a passear na Baixa e, depois de almoço, íamos a casa dos meus pais, depois íamos passar por casa do meu filho, depois ia fazer o jantar para estar tudo pronto quando a minha filha lá chegasse. E, portanto, era, de facto, previsível que não conseguíssemos estar descansados senão depois das dez da noite.


Hoje o passeio foi pela Avenida Liberdade, Restauradores, Rossio, Rua do Carmo, Escadinhas do Duque. Por aí. 

Quando passeio, sou sempre marinheira de primeira viagem: olho cada coisa como se fosse a primeira vez, descubro motivos de interesse a cada passo (e o meu marido: 'Assim não dá. Não consigo andar assim, sempre a parar' e eu: 'Estás com pressa para alguma coisa? Porque é que não prestas atenção às coisas?' e ele, maçadíssimo: 'Para prestar atenção não preciso de parar'). 


E gosto de ver quem passa, os trajes, as falas, as línguas. Uma babel. Muitos alemães. Muitos asiáticos. Muito franceses. Um grupo de raparigas que presumo estivessem a fazer a despedida de solteira de uma delas, já que uma ia de véu de noiva.


E tantos homossexuais. Tantos, tantos. Comentei isso ao jantar. A minha filha disse: 'Pois é. Deve ser por causa da Eurovisão. As bichas adoram a Eurovisão'. Pois não sabia mas, às tantas, tem a ver com isso pois, se bem que haja sempre muitos casais gays, hoje achei que Lisboa deveria estar muito bem conceituada no roteiro gay para se verem tantos e todos tão in love e tão animados.


E porque tínhamos feito a reserva de almoço apenas para as 14:30, até deu tempo para estarmos sentados num banco de jardim, ao sol, a ver quem passava, descansados. Gostei mesmo. No entanto, claro que eu, às tantas, já estava farta de estar descansada mas o meu marido fez-me esperar sentada.

Fui fotografando, pois claro. E tenho aqui uma bela galeria de passeantes, incluindo alguns casalinhos gays, alguns bem elegantes e fashion. E negras elegantemente coloridas, com turbantes de sega garrida, e muitos jovens puxando malas com rodinhas e outros com mochilas ao peito e às costas e muitos casais de idade, um bem, bem velhinho, a senhora de andarilho e o marido devagarinho ao seu lado. Qual sartorialista, bem poderia aqui mostrar como se encontra tanta heterogeneidade e joie de vivre em Lisboa. Mas não vou fazê-lo. Mostro apenas a cidade, esta bela cidade de Lisboa.


Bem. Esperei sentada. E não dei o tempo de espera por mal entregue já que o brunch foi supimpa. Pitéus bons, sushi, quiches, saladas, quentes e frios, e queijos, presunto, salmão, e boa fruta e bons sumos e bons doces. Eu é que não estou habituada a comer muito e, portanto, fico cheia quando ainda nem provei mais de metade dos acepipes que lá estão a chamar a minha atenção. E tem uma bela decoração e um ambiente descontraído como convém a um restaurante onde a gente vá num domingo ensolarado e frescote de Maio em Lisboa.


Lisboa está, de facto, uma cidade cada vez mais bonita e mais acolhedora e com uma oferta, a todos os níveis, completamente diversificada e com boa qualidade.

E, pronto, não vos maço mais com fotografias e apontamentos deste género. Só apenas mais uma coisinha. Como boa turista, trouxe um recuerdo: uma bonequinha linda e mimosíssima que encontrei numa loja encantora, toda flores, velas de cheiro, cores harmoniosas.


Não sei se é razoável ou se há alguma explicação para isto mas a verdade é que, apesar de ter andado em avenidas e ruas que conheço desde sempre, que já pisei mil, mil vezes, que já não deveriam ter qualquer segredo para mim, me senti, como sempre me sinto: uma turista em férias.

E agora aqui estou, descansada, tranquila e feliz, como se tivesse estado a passar férias numa terra encantadora e desconhecida.

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Não vi o vídeo todo mas, do que vi, parece-me que transmite uma boa imagem de Lisboa


BBC Documentary Lisbon, Portugal 2018


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segunda-feira, março 10, 2014

Lisboa, minha linda. Reportagem fotográfica de um dia luminoso rente ao Tejo, no Passeio Ribeirinho (entre o Terreiro do Paço e o Cais Sodré). A cidade, o rio, as pessoas que desfrutam o sol, a elegância das mulheres,o amor.


Bem. No post abaixo falei dos mais recentes avanços tecnológicos que apontam para que já esteja na calha a capacidade de um telemóvel conduzir um carro. Isso ou flirtar com a dona. Ou o telemóvel ou o computador. Ou apenas dizer coisas simpáticas. A Google eo Facebook estão em força nestes domínios da Inteligência Arificial e eu, naba como sou a estacionar e que já estou farta até à medula de andar no pára arranca das horas de ponta em Lisboa, aplaudo. Mas aplaudo a parte do carro. Quanto ao resto, cuidado aí com isso.

Mas de tais e tão fantásticos assuntos trato a seguir.

**

Aqui, agora, a conversa é outra.

Música para Lisboa, por favor.




Nos meus fins de semana cabe tudo. É como aquilo que se dizia de meter o Rossio na Betesga (O Largo do Rossio tão grande e a Rua da Betesga tão estreitinha). Não vou maçar-vos com a descrição de tudo o que fiz senão ainda pensam que estou para aqui a ficcionar ou que sou biónica.

Mas vou contar-vos um pouco. 

Pintura mural na parede do prédio ao fundo da R. Pascoal de Melo

Este sábado, depois de uma caminhada matinal e de mais algumas actividades deu-me o apetite que me dá de vez em quando: comida cantonesa. Atenção: nada a ver com a vulgar comida chinesa. A comida cantonesa é outra coisa. Para isso nada como o Grande Palácio de Hong-Kong na Pascoal de Melo. 

O meu marido e o meu filho teimam que o Mandarim do Casino do Estoril é melhor. Tenho algumas dúvidas.



Vou pelo dim sum e por aqueles deliciosos petiscos. Bolinhos de pão chinês com carne de porco e mel, raviolis de massa de arroz com vaca e mais não sei o quê, bolinhas de choco com vegetais cozinhados ao vapor - e outros acepipes. Para quem não conhece, trata-se de pratinhos que, em regra, trazem 3 unidades de cada. Cada uma dessas mini-doses custa em média 3,75€. O difícil é escolher porque é tudo muito bom. As sobremesas também são boas.

A Baixa lisboeta
com as ruas cheias de gente subindo e descendo
entre o Terreiro do paço e o Rossio.

Daí descemos pelo Martim Moniz - muito arranjado, um largo cheio de esplanadas, um lago com estátuas, muita gente, aquela heterogeneidade de raças e culturas que ali sempre marca presença -  até à Baixa e fomos ver o Passeio Ribeirinho. 


Ó cidade mais linda. 

Cheia, alegre, animada.

Uma cidade que finalmente começou a virar-se a sul.

A Baixa parecia que tinha ressuscitado, muita gente, gente primaveril, sorridente, caminhando em direcção ao rio.




O Terreiro do Paço. Do lado de cá o Cais das Colunas.
Ao fundo o Grande Arco da Rua Augusta

O Terreiro do Paço finalmente transformado na grande Praça Central de Lisboa, uma praça ampla, luminosa, rente ao Tejo.

Uma praça viva.

As pessoas, aos primeiros raios de sol e fartas do frio, da chuva, das sombras, despiram-se e entregaram o corpo ao sol e ao convívio à flor da pele.

Não passava ali ao fim de semana há um par de meses e, de resto, com o tempo como tem estado, que vontade daria ir para li?



Pois bem. Haviam de ver.


O cais das Colunas que, do Terreiro do Paço, entra pelo Tejo adentro
Uma pequena multidão de gente estendida, a apanhar banhos de sol. Lisboa, de repente, perdeu a tristeza e mostrou que ainda há sangue vivo que corre nas suas veias. E muito turismo.

É bom esta alegria e esta convivência.

Há pouco tempo isto seria impensável. Lisboa não estava tão disponível para ser vivida junto ao rio. Estas obras (tardias mas abençoadas) são as grandes responsáveis por isto. Havendo qualidade nos locais, as pessoas naturalmente aderem.

Agora é uma festa.

Há gente a cantar e um movimento permanente.



Do lado de lá, o Cristo Rei e a Ponte sobre um Tejo refulgente
Até o pequeno areal junto ao Cais das Colunas está transformado numa pequena praia. Contei aos meus filhos e nem queriam acreditar.

Só visto.

O muro que separa a praia da rua estava cheio, cheio. Gente apanhando sol, conversando, namorando.

Fomos andando, pasmados com a quantidade de gente que ocupava também as esplanadas que, por ali, têm  uma situação privilegiada.


Fiz fotografias até mais não poder, maravilhada com aquela luz e com a temperatura amena, com o cheiro a maresia, com as pessoas.


Há ainda obras a nível de ajardinamento mas já não devem demorar muito
(haja Deus!)
Vi um plano inclinado que aparentemente vai ser relvado e, se for, que bela vista dali se terá, e vi também o que me pareceu vir a ser um espelho de água.
Havia imensa gente a trabalhar pelo que, daqui por pouco tempo - espero...-  este espaço deve estar ainda mais bonito



Estátua Almada (Almada Negreiros)
(que, por graça, está de frente para Almada)

E depois chega-se ao Cais Sodré. Homens e mulheres de todas as idades, raças, nacionalidades. No Tejo deslizam veleiros e, na margem, há casais que conversam à sombra, velhos e novos, outros que se abraçam e beijam, contagiados pela beleza do local; e há mulheres muito belas que mostram a sua elegância e graça, indiferentes a quem passa, ou melhor, quase desafiando quem passa.


Flores no saco, um corpo e uma pose que fica bem com a beleza mulata de Lisboa


E há os namorados. Muitos. Por todo o lado. Dá gosto ver. Lisboa, a bela, atrai os apaixonados, aquece os corações.


A vida inteira pela frente, um futuro por construir.
Oxalá Lisboa consiga acolher  com qualidade e carinho todos os que cá vivem,
e que Lisboa, tal como o resto de Portugal, não rejeite os seus jovens.

É saudável para todos e para o País, por decorrência, que os jovens enamorados por cá fiquem.



E depois há as mulheres elegantes, bem vestidas, bonitas. Também de todas as idades. Muitas. Grupos de amigas de idade, grupos de jovens. Conversando e rindo. As mulheres, quando se juntam, tagarelam muito, chilreiam como pássaros nos fins de tarde. Dá gosto vê-las, deslizando pelo passeio ribeirinho, enfeitando ainda mais Lisboa, a Linda. Lisboa é uma cidade cheia de charme, elegância e beleza. Ó quanta beleza.


Dignas do The Sartorialist,
estas duas jovens arrasavam. Shorts com rendinhas,
perfeitas na combinação das cores, na jovialidade da toilette, no cabelo, na elegância e alegria.


Começo a falar de Lisboa e perco a noção. Não vos vou maçar mais que isto passou da conta de tão longo.

Mas juro: que bela tarde. Lisboa está uma cidade perfeita para se andar nela como se andássemos dentro de um romance.


***

Tinha ainda estado aqui a escolher também fotografias deste domingo. O clã passou o dia in heaven. Um belo dia de domingo no campo, as crianças na brincadeira, os adultos a desfrutar o bom ar e a convivência amena.

Mas já me alonguei demais com este post e depois há também o seguinte e não quero torrar-vos a paciência.

Se o Passos Coelho, uma vez mais, não se tirar a si próprio da cartola e me obrigue a vir para aqui dar-lhe na cabeça, esta segunda feira à noite mostro a reportagem fotográfica de domingo e mostro também até onde a minha paixão por azulejos, por pintura e por poesia me levou quer no exterior quer no interior da minha casa. A ver se não falho a promessa.


***

A música lá em cima é 'Esse olhar que era só teu' de Lisboa Mulata - a música dos Dead Combo.

***

Entretanto estou cansada como de costume. Tive que me levantar cedo, depois in heaven, com os meus meninos grandes e pequenos por perto, não dá para dormir a sesta e, quando cheguei à noite à cidade tive coisas que fazer. Amanhã, para variar, começo a semana com uma reunião que faz favor. A ver se não me corre muito mal porque até ao final da semana a coisa promete. Detesto ter que me aborrecer mas a verdade é que há situações em que não há como evitá-lo. Enfim. Vou deitar-me para ver se não começo a semana cheia de sono.


***

Relembro: sobre inteligência artificial, computadores a namorar e telemóveis a arrumar o carro, é já a seguir.

PS: Será que o computador também é capaz de dar um gostoso apalpão no rabo? Pergunto.

***

E com isto por agora me fico. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira. 
A vida é bela (alguns anormais é que querem dar cabo dela).

domingo, julho 29, 2012

A lua que, aqui in heaven, aparece branca e suave quando o céu ainda está azul diurno; as minhas pedras que guardam este templo e os meus livros em férias


Para vos acompanhar na leitura do texto, música, por favor

Dead Combo e Camané - Ouvi o texto muito ao longe

*

Um sábado tranquilíssimo. Sono solto, calor, descanso, leituras, telefonemas, fotografias, culinária (dia de choquinhos cozidos com tinta para o almoço), pequenos passos em volta já que o repouso teve que voltar. É isto o lazer. O verão no campo. 



Hoje de tarde, a lua num céu límpido e, à direita, a minha grande e protectora azinheira


E há a lua que se desenha num céu límpido ainda a noite vem longe. A lua em quarto crescente, boa para nascerem crianças. Quando os meus filhos estavam para nascer eu olhava a lua e, de noite, quando estava lua cheia, levantava a roupa para que o luar os iluminasse, gostava de sentir o luar na minha barriga enorme. Nasceram também no verão, estava muito calor e eu estava muito feliz, adorei estar grávida, adorava senti-los dentro de mim. Durante muito tempo senti saudades desses movimentos largos de quando eles já eram grande e se ajeitavam dentro de mim. Ainda sinto, mas são umas saudades de uma realidade já longínqua. 

Para além desta lua branca, esboçada num céu muito azul, há também as cigarras, os pássaros vagarosos, as lagartixas que se escondem, e há as sombras sobre os muros, e o cheiro de um dia quente, e um cão que ladra lá bem ao longe. 

E há as minhas pedras que eu olho como se fossem habitantes deste local, habitantes com tantos direitos como eu, seres de outros tempos.



As minhas amadas pedras que saíram do interior da terra. Estão trabalhadas pelo tempo.
Olho-as como animais ou seres do início dos tempos, guardiãs deste lugar sagrado


Hoje, de tarde, resolvi juntar os livros que reservei para estas férias, os que ainda tenho para ler ou para completar ou consultar, colocá-los sobre uma pedra para vos mostrar. (E depois vou transcrever, ao acaso, uma pequena passagem de cada um, para vos transmitir um 'cheirinho').



As minhas leituras em férias, aqui sobre uma das grandes pedras assentes no chão cheio de folhas


Reparei que me esqueci de juntar o 'A menina é filha de quem?' da Rita Ferro mas talvez seja porque já o li ou, se não é por isso, que venha o Freud e explique.

Passo então a dizer quais são:


> 'Memória breve de Ferreira de Castro' de Papiniano Carlos, editora Húmus


E assim Zéquinha foi forçado a rumar para o interior da Amazónia.

Aqui no Seringal Paraíso, na margem do rio Madeira, consumiu a adolescência em duros trabalhos, miséria, imensa fome, abjecta escravidão. E ainda um medo medonho das flechas envenenadas, mortais, dos índios Parintintins.

Aqui passou, suportou, três anos que jamais esqueceria.

E regressou a Belém do Pará, onde foi empregado de armazém, colador de cartazes, moço de bordo num barco de cabotagem.

*

> 'A praia' de Cesare Pavese, editora Ulisseia, tradução do italiano por Ana Tomás


Mirei-o pelo canto do olho, com má vontade e curiosidade. Berti é daqueles que vão à escola porque os mandam e, quando falamos observam a nossa boca com olhos intumescidos e entediados. Naquele momento, nu e bronzeado, abraçava os joelhos e sorria, inquieto. Veio-me à cabeça a possibilidade de serem, porventura, estes os rapazes mais perspicazes.

*

> 'O retorno' de Dulce Maria Cardoso, editora Tinta da China


O avião é um bocadinho antes da meia-noite mas temos de ir mais cedo. O tio Zé vai levar-nos ao aeroporto. O pai vai lá ter depois. Depois de matar a Pirata e de deitar fogo à casa e aos camiões. Não acredito que o pai mate a Pirata. Também não acredito que o pai deite fogo à casa e aos camiões. Acho que ele diz isso para não pensarmos que eles se ficam a rir. Eles são os pretos.

*

> 'Caderno de memórias coloniais' de Isabela Figueiredo, editora Angelus Novus


Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três machambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.

Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta.

*

> 'A submissa' de Fiódor Dostoievski, editora Arbor Litterae, tradução do russo António Pescada


Sim, aquele rosto meigo tornava-se cada vez mais insolente. Acreditem, eu tornava-me repugnante para ela, isso estudei-o bem. Mas que ela tinha arrebatamentos que a faziam sair de si, disso não havia dúvida. Como era possível, por exemplo, saída de tanta lama e tanta miséria, depois de ter andado a lavar o chão, começar de súbito a troçar da nossa pobreza? Compreendam: não havia pobreza, havia economia, mas naquilo que era preciso até havia luxo, nas roupas por exemplo, na limpeza. Eu sempre pensei, mesmo antes, que a limpeza do homem seduzia a mulher.

*

> 'Crucifixion' da Phaidon



Craigie Aitchison, oil on canvas, 1997-8, private colection


The small dog which appears in this and many others crucifixions by Craigie Aitchison puts one in mind of Psalm 22, the opening words of which are quoted by Christ on the cross. The Psalm continues: ' Dogs have surrounded me; a band of evil men has encircled me, they have pierced my hands and my feet... they divide my garments among them and cast lots of my clothing'

*

> 'A Europa desencantada - para uma mitologia europeia' de Eduardo Lourenço, editora Gradiva


Construir a Europa por irresistível pressão das forças económicas e uma lógica que é hoje planetária, como sonâmbulos, não é projecto que entusiasme ninguém. Uma utopia europeia assumida só é digna de ser vivida como Europa sobre a Europa, da ficção de si mesma que, consciente ou inconscientemente, tem condicionado o seu destino, contra a sua realidade. Em suma, do triunfo da sua sublime não-identidade sobre os fantasmas da sua alucinada identidade.

*

> 'Tempo da Música, Música do Tempo' de Eduardo Lourenço, editora Gradiva



Beethoven, 3ª Sinfonia, dir. Karajan


Karajan dirigindo a 3ª de Beethoven. Como se a orquestra executasse para ele, médium, foco absorvente das vagas da orquestra, e só seu invisível senhor.

Conduz de olhos fechados, como de cor, vivendo no sentido de Baudelaire a música que nasce simultaneamente dos seus dedos e dos músicos. Espectáculo prodigiosamente romântico como se Beethoven ressuscitasse. Sinfonia Heróica? Je veux bien. É de uma melancolia pavorosamente terna, viagem no labirinto da solitude de um ardente coração, o 2º movimento.

*

> 'Nova reunião, 23 livros de poesia' de Carlos Drummond de Andrade, edições BestBolso


                     O poeta
                     declina de toda responsabilidade
                     na marcha do mundo capitalista
                     e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
                     promete ajudar
                     a destruí-lo
                     como uma pedreira, uma floresta
                     um verme

*

> 'O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor' de Ruy Belo, editora Assírio & Alvim


                      És e renasces como a pura linha do amanhecer
                      e como o sol primeiro és incandescente
                      rosado de repente e logo a pouco
                      e pouco cada vez mais rubro e mais intenso
                      até à amarela gema de ovo que é o sol ao pôr-se
                      Quanto eu não dava deus por sempre te ouvir rir
                      riso tão fresco como tilintar de loiça
                      Não confies em mim mulher mas desconfio haver de amar-te
                      até ao fim do mundo

*

> 'Amor livre e outras histórias' de Ali Smith, editora Quetzal, tradução de Helder Moura Pereira


Quando estivemos juntas da primeira vez passávamos a vida a ter sexo. A única coisa de que me lembro em relação a esse tempo é que tínhamos sexo, lembro-me como uma névoa de onde ocasionalmente os pormenores emergem com tal precisão que se transformam em farpas, uma névoa de nós duas na cama ou de mim a encostar-me a ti contra o irradiador ou a correr os cortinados da sala da frente ao meio-dia e a voltar para o sofá, tu recostada nele a abrires a camisa, eu a desapertar os botões dos teus jeans da Chelsea Girl. 


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Agora, que estou a acabar de escrever, são quase 3 da manhã e o vento entra pela chaminé da salamandra, fazendo com que a sua porta de ferro bata conforme lá fora ele sopra. Estou ainda a ouvir Beethoven e o som do vento nas árvores e o da porta da salamandra, misturam-se com os acordes da música. Gosto, fica um som agradável, são os sons da minha casa nesta noite ventosa de verão.

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Isto saíu longo (espero que não tenha muitas gralhas porque, dado o adiantado da hora, já não me apetece reler uma coisa tão comprida) e só por despudor vos posso ainda convidar a fazer uma visita ao meu Ginjal e Lisboa. Há algum tempo que o não actualizava. Hoje as minhas palavras movem-se saudosas em torno de um poema de carlos Drummond de Andrade e ao som de Jordi Savall. Se ainda estiverem para me aturar mais um pouco, gostaria de vos ter também por lá.

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E, com isto, daqui a nada é uma bela manhã de domingo.
Espero que seja um bom dia para vocês!