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sexta-feira, maio 22, 2015

O Papa com alma de decorador e o Pintor com jeito para o negócio -- com vossa licença


Sim senhor. Já me sinto a entrar em modo Thanks God, it's Friday e vai daí, para esconjurar a canseira e as ralações da semana, só me apetece espanejar, esparvoar. Pode ser que daqui a nada já esteja mais concentrada mas, agora, ó valha-me a santa que me proteje e ampara, só me está a dar para a laracha. E, no entanto, estou aqui com uma coisa mais séria em mente. Mas, em vez de escrever, ficar mais tranquila e ir pregar para outra freguesia -- que é como quem diz, ir dormir e deixar-vos em paz -- não senhor, dou por mim a procrastinar, feita parva. Parece que quero afastar isso da mente, e, então, mesmo sem querer, dou por mim entretida só à procura de maluqueiras.

No post abaixo [spoiler alert] já vos mostrei o anúncio mais erótico dos últimos tempos, coisa feita para que os consumidores de economia, mal acabem de ver aquelas cenas, vão directos ao site encomendar toda a espécie de lingerie e, de passagem, um ou outro artefacto. Mas não me vou alongar para não estragar a surpresa. É ver para crer e para ajuizar.




Aqui, agora, a conversa também não é a mais apropriada a gente dada a reflexões atiladas, a dissertações sobre penteados, sapatos altos, cãezinhos inteligentes, políticas a martelo, angústias existenciais, pepineiras e outras maçadorias. Aqui é conversa mesmo para gente doida, cabeleireiras de mente simples, donas de casa endiabradas, super avozinhas, dançarinas de salão, filósofos desirmanados, autores de livros apócrifos, e gente com vocação. O tema é um Papa dado a decorações e um artista, coitado, que faz de tudo para pintar a obra que idealizou. 




Claro que a coisa me chega pela rapaziada da Porta dos Fundos e informam eles que a coisa é assim:

Muitos o conhecem como a Tartaruga Ninja da máscara laranja. Outros como a Tartaruga Ninja que usa nunchaku. O que poucos sabem é que, antes de dar nome a um réptil mutante, Michelangelo fez outras coisas bem legais como pintar paredes e esculpir estátuas de caras com um pau ridículo.


Michelangelo




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Mas pronto, vá lá. Para os meus Leitores nem comportados não se zangarem muito comigo, aqui deixo um vídeo a sério sobre o tecto da Capela Sistina e sobre esta obra extraordinária de Michelangelo..


Michelangelo, Tecto da Capela Sistina, 1508-12 (Vatican)



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E, já sabem, abaixo há um vídeo de se lhe tirar o chapéu.

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terça-feira, abril 08, 2014

Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes


No post abaixo já falei das duas duplas mais famosas de momento na televisão portuguesa: José Sócrates & José Rodrigues dos Santos e Marcelo Rebelo de Sousa & Judite de Sousa, tendo eu, até, sugerido a troca de casais, a ver no que dava. Uma cena de swing, não sei se estão a ver. Num comentário a esse post podereis até ver algumas outras duplas de sucesso garantido que o Leitor P. Rufino aqui nos deixou à laia de sugestão.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Muito outra.


Música para a Felicidade e contra a Febre e a Depressão



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Como são crianças, fala-lhes de batalhas 
e de reis, de cavalos, de diabos, de elefantes
 e de anjos, mas não deixes de lhes falar de 
amor e de coisas semelhantes.



A noite não comunica com o dia. Arde nele. Levam-na para a fogueira ao alvorecer. E, juntamente com ela, a sua gente, os beberrões, os poetas, os amantes. Nós somos um povo de degredados, de condenados à morte. A ti não te conheço. Conheço o teu amigo turco; é um dos nossos. A pouco e pouco desaparece do mundo, engolido pela sombra e pelas suas miragens; somos irmãos. Não sei que dor ou que prazer o empurrou para nós, para o pó de estrela, talvez o ópio, talvez o vinho, talvez o amor; talvez alguma obscura ferida da alma, bem escondida nos recessos da alma.

Queres juntar-te a nós.

O teu medo e a confusão em que estás lançam-te nos nossos braços, procuras aninhar-te neles, mas o teu corpo duro continua agarrado às suas certezas, afasta o desejo, recusa abandonar-se.


O teu braço é duro. O teu corpo é duro. A tua alma é dura. é claro que não estás a dormir. Sei que estavas à minha espera. Há pouco reparei nos teus olhares. sabias que eu ia chegar. Tudo acaba sempre por acontecer. Desejaste a minha presença, e aqui estou. Muitos, deitados no escuro, desejariam ter-me junto deles; tu viras-me as costas. Sinto os teus músculos tensos, os teus músculos de bárbaro ou de guerreiro. Só com o manejo da espada se conseguem braços tão fortes. Da espada ou da foice. No entanto, não te imagino camponês, nem soldado, senão não estarias aqui. És áspero de mais para seres poeta como o teu amigo turco. Serás então marinheiro, capitão, mercador? Não sei. Não me olhavas como coisa que se pode comprar ou possuir pelas armas.

Gostei do teu modo de me observar enquanto cantava. A precisão dos teus olhos, a delicadeza da sua cobiça. E agora, quê? Tens medo, estrangeiro? Eu é que deveria ter medo. Não passo de uma voz na escuridão, irei desaparecer com a alvorada. 

Deslizarei para fora deste quarto quando se puder distinguir uma linha preta de uma linha branca e os muçulmanos chamarem para a oração.

Vão pagar-me, não há nada de que te possas acusar. Deixa-te levar pelo prazer. Estás a tremer. Não me desejas? Então ouve. 

Era uma vez num país distante... Não, não te vou contar uma história. Já não é tempo de histórias. A época dos contos terminou. Os reis são uns selvagens que matam os cavalos que montam; há muito que deixaram de oferecer elefantes às suas princesas.

Os astros desviam-se de nós; mergulham-nos na penumbra. Vai-se a luz para o outro lado da terra, quem sabe quando voltará. Não te conheço, estrangeiro. Nada sabes de mim, apenas temos a noite em comum. Partilhamos este momento, sem o quereremos. Apesar dos golpes que em nós vibrámos, apesar das coisas destruídas, estou encostada a ti no escuro. Não vou entreter-te com as minhas histórias até ao alvorecer. Não irei falar-te de génios bons, nem de vampiros aterradores, nem de viagens em ilhas perigosas. Não resistas. Esquece o teu medo, aproveita eu ser, como tu, um pedaço de carne que não pertence a ninguém a não ser a Deus. Toma um pouco da minha beleza, do perfume da minha pele. Oferecem-to. Não será nem uma traição, nem uma jura; nem uma derrota, nem uma vitória.

Apenas duas mãos agarradas, como lábios que se apertam sem nunca se unir.


A tua embriaguez é tão doce que me estonteia. Respiras suavemente. Estás vivo. Gostaria de passar para o teu lado do mundo, de ver nos teus sonhos. Será que sonhas com um amor branco, frágil, distante, tão longe? Com uma infância, com um palácio perdido? Sei que lá não tenho lugar. que nenhum de nós lá terá lugar. Estás fechado como uma concha. E, no entanto, fácil te seria abrires-te, uma minúscula fenda por onde a vida se precipitaria. Adivinho o teu destino. Permanecerás na luz, serás celebrado, serás rico. O teu nome imenso como uma fortaleza irá esconder-nos da tua sombra. Irá esquecer-se o que aqui viste. esses instantes irão desaparecer. Até tu esquecerás a minha voz, o corpo que desejaste, os teus tremores, as tuas hesitações. 

Como eu gostaria de que algo conservasses disso. Que levasses contigo uma parte de mim. Que se transmitisse o meu país distante. Não uma vaga recordação, uma imagem, mas a energia de uma estrela, a sua vibração no escuro. Uma verdade. Sei que os homens são crianças que expulsam o seu desespero com a cólera, e o seu medo para o amor; ao vazio respondem construindo castelos e templos. Agarram-se a historietas, levam-nas à sua frente como estandartes; cada um faz sua uma história para se ligar à multidão que a partilha. São conquistados quando se lhes fala de batalhas, de reis, de elefantes e de seres maravilhosos; quando se lhes narra a felicidade que haverá para além da morte, a luz viva que presidiu ao seu nascimento, os anjos que giram à sua volta, os demónios que os ameaçam, e o amor, o amor, essa promessa de olvido e de saciedade. Fala-lhes de tudo isso e hão de amar-te; far-te-ão igual a um deus. Mas, pois que estás aqui encostado a mim, tu saberás, tu, um franco malcheiroso que o acaso trouxe para te pôr ao alcance das minhas mãos, saberás que tudo isso não passa de um véu perfumado que esconde a eterna dor da noite.


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O texto é um conjunto de excertos do belíssimo livro Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes de Mathias Énard (que nasceu em 1972, estudou persa e árabe, viveu largos períodos no Médio Oriente e que é professor de árabe na Universidade de Barcelona, cidade onde vive) e que e foi traduzido por Pedro Tamen para a D. Quixote. 


Este livro ganhou o Prémio Goncourt des Lycéens, 2010, e o Prémio do Livro em Poitou-Charentes, 2011. Fala da estadia de Miguel Ângelo (Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni) na Turquia, para idealizar a ponte de Constantinopla. E não vou dizer mais nada a não ser que o livro é maravilhosamente diferente das tretas que por aí abundam.

As imagens usadas para ilustrar o texto mostram partes da obra de Michelangelo (Pietà, David, os nus da tecto da Capela Sistina, a Sibilla Delfica).

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A música é, segundo leio no texto de apresentação no youtube: 


  • Turkish Music therapy / Hüseyni Sema: for Happiness and against fever by Cantemir *1673
  • Ottoman Turkish Healing/Sufi Music - Segah Peşrev - Osman Bey *1816 - against depressive disorder
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E porque a noite já vai longa despeço-me já e só espero que isto não esteja cheio de gralhas, seria uma mácula imperdoável no texto. 

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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