Todos os dias úteis, no elevador, acontece-me encontrar desconhecidos ou conhecidos apenas do elevador. Se calha encontrar alguém mesmo conhecido é aquela coisa de quem encontra um velho conhecido na rua. Mostramos surpresa, rimo-nos, cumprimentamo-nos. Mas não nada é frequente. No outro dia, estava eu alone no elevador -- felicidade -- aproveitei logo a ocasião para me virar para o espelho, diluindo melhor a sombra das pálpebras superiores, na maior intimidade. Nisto entra um, enfim, não propriamente colega mas, como direi?, uma pessoa que trabalha no mesmo sítio que eu. Tão distraída eu ia pois tão raramente tenho a possibilidade do espelho só para mim, que, quando ele entrou, toda eu me sobressaltei. Ele riu do meu sobressalto mas logo disfarçou, falando comigo como se não tivesse acabado de surpreender uma cena privada. E eu, que estava na dúvida se as duas pálpebras estariam smoky por igual, não tive coragem para me virar para o espelho e confirmar, dizendo um simples: ''Pere lá aí que tenho que ver aqui uma coisa'. Estas coisas deixam-me atrapalhada.
Muitas vezes, no zero, entram mulheres que cheiram a tabaco. Vêm de fumar na porta do edifício. Fazem-no, certamente, para terem uma sensação que vai para além da de fumarem, talvez para conviverem com outras pessoas que não os colegas próximos, já que, em cada piso, existe um terraço para viciados. Mas algumas preferem ir para o passeio. São já quase apenas mulheres que fumam. Os homens dedicam-se antes ao desporto. Volta e meia subo com alguns que vêm de saco ao ombro, corados, cheirando a gel de banho, ainda com o cabelo molhado. É uma companhia agradável, essa. Quando vou com mulheres que cheiram a tabaco penso que, se tivesse mais vinte anos que os que tenho, cabelo ralo e branco, apanhado atrás, e as costas um pouco curvadas, lhes daria uma lição anti-tabágica, na base nas emissões de carbono e na sustentabilidade do planeta, da carteira e dos pulmões delas. Assim não me arrisco, acho que ainda não tenho um ar suficientemente respeitável. Vou calada, a pensar nisto.
O pior é quando vou com executivos, muito decisores, muitos cheios de empowerment. Entram e saem do elevador com ar apressado, de quem vai a deitar contas à vida. É com homens assim que lido a toda a hora mas uma coisa é lidar com isso indoor, outra é ter que ter por perto seres dessa espécie quando não sou obrigada a isso. E digo isto com isenção de espírito pois, a bem dizer, é a espécie a que talvez outras pessoas pensem que eu também pertenço. No outro dia aconteceu uma coisa um bocado surpreendente. Vi, numa sala de reuniões, daquelas que têm paredes de vidro, um colega meu com dois aperaltados. À hora de almoço, quando saí, estava o meu colega junto aos elevadores a despedir-se deles. Passei por trás e, discretamente, entrei no elevador que, entretanto, tinha chegado. Eles, que não me tinham visto, também entraram mas devem ter pensado que eu vinha de outro andar. Então falaram entre si, sem cerimónias, sem se importarem comigo. Um disse: 'Surreal'. O outro respondeu: 'Do além'. Entretanto, no zero, saíram e ainda ouvi um a perguntar ao outro: 'Conseguiste perceber alguma coisa...?' E lá foram. Fiquei a pensar que a reunião não devia ter corrido bem. De tarde poderia ter comentado com o meu colega mas estive-me nas tintas.
Do que menos gosto, no elevador, é quando entra alguma mulher elegante, muito bem vestida, bem mais alta que eu. Fico a sentir-me inferior. Não gosto. Pelo canto do olho tento encontrar defeito. Reparo como, disfarçadamente, tenta ver-se ao espelho. Por vezes, se é mais ousada, marimba-se para quem está à sua volta e olha-se mesmo, passa os dedos pelo cabelo ou limpa um canto do lábio no qual o baton fugiu dos limites. Ficaria obviamente um bocado irritada se fosse verdade que mulher que é mulher fareja a milhas a competição mas nem isso é verdade, acho eu, nem o meu espírito é competitivo nem, muito menos, estou em jogo*.
Esta semana, uma das vezes em que entrei no elevador, estavam uns quatro funcionários da manutenção do edifício. Falavam e riam alto, animadamente, mas calaram-se à minha chegada. Passado um bocado, um deles perguntou baixinho a um dos outros: 'Mas o que é que a gaja respondeu...?''. O outro baixou ainda mais o tom de voz e disse qualquer coisa que não percebi. O que fez a pergunta explodiu a rir, o que respondeu também e um dos outros disse: 'Não ouvi...' O colega, perdido de riso, abanou a cabeça como se quisesse dizer que não dava. Isto, claro, porque eu estava ali. Mas eu também já estava cheia de vontade de rir e só me apetecia dizer: 'Vá lá, conte lá'
Há também um homem gigante, muito bonito, com um ar simpático, um daqueles que poderia ser um bombeiro nu num calendário de beneficiência. Não imagino o que faça pois veste-se de uma forma pouco formal. Quando o vejo penso que poderá ser arquitecto ou agrónomo, coisa assim. Mas ali...? Não. Não percebo. Tem o carro no mesmo piso que eu mas num outro extremo. Trabalha num outro andar pois, quando entro, já ele lá está. Digo um bom dia como se não o reconhecesse e ele responde como se nunca me tivesse visto. Depois ele deixa-me sair primeiro e segura a porta que dá acesso ao estacionamento. Agradeço e desejo bom dia ou boa tarde e ele retribui. E cada um segue o seu caminho. Mas isto é assim porque é agora pois se tivesse sido numa outra minha vida e me tivesse aparecido pela frente antes de eu me ter cruzado com o cristo de olhos cor de mel, a ver se a conversa não seria outra.
Uma coisa eu tenho como cada vez mais certa: devemos estar disponíveis para os acasos da vida. Ter medo de arriscar e deixar fugir uma oportunidade é daquelas coisas estúpidas que, muitas vezes, são fatais e levam a vida numa outra direcção.
Uma coisa eu tenho como cada vez mais certa: devemos estar disponíveis para os acasos da vida. Ter medo de arriscar e deixar fugir uma oportunidade é daquelas coisas estúpidas que, muitas vezes, são fatais e levam a vida numa outra direcção.
Veja-se o vídeo abaixo que tão bem ilustra isto. De que serve conjecturar, pensar, divagar, falar para dentro? De nada. Se há vontade de conhecer, de falar, se há desejo de aproximação, então é ir em frente. E, se der, deu; se não der, não deu. E bola para a frente. Em qualquer circunstância, bola para a frente. Para a frente é que é caminho.
O elevador
E outra coisa curiosa deste vídeo é que isto é um anúncio a uma marca de sapatos.
Ele há coisas.
___________________________________________________
* E o asterisco deve-se a um comentário que recebi e que não lembra ao diabo (e que acho que, por delicadeza para com a sua autora, nem vou publicar). Há pessoas que teimam em fazer leituras absolutamente literais de tudo o que escrevo. Se eu um dia escrever que tenho pescoço de girafa vêm dizer que em mil novecentos e troca o passo disse que tenho o queixo enterrado no peito ou se um dia digo que bati o recorde do salto em altura quando saí do secundário, no dealbar do século vinte um, logo aparecem a chamar-me a atenção para que não pode ser porque num outro post disse que era paleolítica. Aqui a mesma coisa, se resolvo ironizar e dizer que olho de lado para uma beldade de metro e oitenta, logo aparecem a dizer que isso diz muito do meu carácter -- como se tudo o que escrevo fosse desprovido de ironia e como se, caso a cena se desse com uma feiona, mal entrapada e de metro e dez, eu olhasse para ela à descarada, quiçá com um simpático sorriso de deixe lá isso. Fico beige. Pensarão alguns leitores que este blogue é uma coisa absolutamente confessional, um auto big brother do tipo Keeping up with the Kardashians mas por escrito? Não sei que mais faça ou diga para explicar que não é.
__________________________________________________________
As fotografias são de Francis Giacobetti.
Fazem-se acompanhar por Nina Simone. You'll never walk alone.
____________________________________________________
E a todos desejo um bom sábado.










































