Mostrar mensagens com a etiqueta Francis Giacobetti. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Francis Giacobetti. Mostrar todas as mensagens

sábado, fevereiro 08, 2020

No elevador





Todos os dias úteis, no elevador, acontece-me encontrar desconhecidos ou conhecidos apenas do elevador. Se calha encontrar alguém mesmo conhecido é aquela coisa de quem encontra um velho conhecido na rua. Mostramos surpresa, rimo-nos, cumprimentamo-nos. Mas não nada é frequente. No outro dia, estava eu alone no elevador -- felicidade -- aproveitei logo a ocasião para me virar para o espelho, diluindo melhor a sombra das pálpebras superiores, na maior intimidade. Nisto entra um, enfim, não propriamente colega mas, como direi?, uma pessoa que trabalha no mesmo sítio que eu. Tão distraída eu ia pois tão raramente tenho a possibilidade do espelho só para mim, que, quando ele entrou, toda eu me sobressaltei. Ele riu do meu sobressalto mas logo disfarçou, falando comigo como se não tivesse acabado de surpreender uma cena privada. E eu, que estava na dúvida se as duas pálpebras estariam smoky por igual, não tive coragem para me virar para o espelho e confirmar, dizendo um simples: ''Pere lá aí que tenho que ver aqui uma coisa'. Estas coisas deixam-me atrapalhada.

Muitas vezes, no zero, entram mulheres que cheiram a tabaco. Vêm de fumar na porta do edifício. Fazem-no, certamente, para terem uma sensação que vai para além da de fumarem, talvez para conviverem com outras pessoas que não os colegas próximos, já que, em cada piso, existe um terraço para viciados. Mas algumas preferem ir para o passeio. São já quase apenas mulheres que fumam. Os homens dedicam-se antes ao desporto. Volta e meia subo com alguns que vêm de saco ao ombro, corados, cheirando a gel de banho, ainda com o cabelo molhado. É uma companhia agradável, essa. Quando vou com mulheres que cheiram a tabaco penso que, se tivesse mais vinte anos que os que tenho, cabelo ralo e branco, apanhado atrás, e as costas um pouco curvadas, lhes daria uma lição anti-tabágica, na base nas emissões de carbono e na sustentabilidade do planeta, da carteira e dos pulmões delas. Assim não me arrisco, acho que ainda não tenho um ar suficientemente respeitável. Vou calada, a pensar nisto.


O pior é quando vou com executivos, muito decisores, muitos cheios de empowerment. Entram e saem do elevador com ar apressado, de quem vai a deitar contas à vida. É com homens assim que lido a toda a hora mas uma coisa é lidar com isso indoor, outra é ter que ter por perto seres dessa espécie quando não sou obrigada a isso. E digo isto com isenção de espírito pois, a bem dizer, é a espécie a que talvez outras pessoas pensem que eu também pertenço. No outro dia aconteceu uma coisa um bocado surpreendente. Vi, numa sala de reuniões, daquelas que têm paredes de vidro, um colega meu com dois aperaltados. À hora de almoço, quando saí, estava o meu colega junto aos elevadores a despedir-se deles. Passei por trás e, discretamente, entrei no elevador que, entretanto, tinha chegado. Eles, que não me tinham visto, também entraram mas devem ter pensado que eu vinha de outro andar. Então falaram entre si, sem cerimónias, sem se importarem comigo. Um disse: 'Surreal'. O outro respondeu: 'Do além'.  Entretanto, no zero, saíram e ainda ouvi um a perguntar ao outro: 'Conseguiste perceber alguma coisa...?' E lá foram. Fiquei a pensar que a reunião não devia ter corrido bem. De tarde poderia ter comentado com o meu colega mas estive-me nas tintas.

Do que menos gosto, no elevador, é quando entra alguma mulher elegante, muito bem vestida, bem mais alta que eu. Fico a sentir-me inferior. Não gosto. Pelo canto do olho tento encontrar defeito. Reparo como, disfarçadamente, tenta ver-se ao espelho. Por vezes, se é mais ousada, marimba-se para quem está à sua volta e olha-se mesmo, passa os dedos pelo cabelo ou limpa um canto do lábio no qual o baton fugiu dos limites. Ficaria obviamente um bocado irritada se fosse verdade que mulher que é mulher fareja a milhas a competição mas nem isso é verdade, acho eu, nem o meu espírito é competitivo nem, muito menos, estou em jogo*.

Esta semana, uma das vezes em que entrei no elevador, estavam uns quatro funcionários da manutenção do edifício. Falavam e riam alto, animadamente, mas calaram-se à minha chegada. Passado um bocado, um deles perguntou baixinho a um dos outros: 'Mas o que é que a gaja respondeu...?''. O outro baixou ainda mais o tom de voz e disse qualquer coisa que não percebi. O que fez a pergunta explodiu a rir, o que respondeu também e um dos outros disse: 'Não ouvi...' O colega, perdido de riso, abanou a cabeça como se quisesse dizer que não dava. Isto, claro, porque eu estava ali. Mas eu também já estava cheia de vontade de rir e só me apetecia dizer: 'Vá lá, conte lá'


Há também um homem gigante, muito bonito, com um ar simpático, um daqueles que poderia ser um bombeiro nu num calendário de beneficiência. Não imagino o que faça pois veste-se de uma forma pouco formal. Quando o vejo penso que poderá ser arquitecto ou agrónomo, coisa assim. Mas ali...? Não. Não percebo. Tem o carro no mesmo piso que eu mas num outro extremo. Trabalha num outro andar pois, quando entro, já ele lá está. Digo um bom dia como se não o reconhecesse e ele responde como se nunca me tivesse visto. Depois ele deixa-me sair primeiro e segura a porta que dá acesso ao estacionamento. Agradeço e desejo bom dia ou boa tarde e ele retribui. E cada um segue o seu caminho. Mas isto é assim porque é agora pois se tivesse sido numa outra minha vida e me tivesse aparecido pela frente antes de eu me ter cruzado com o cristo de olhos cor de mel, a ver se a conversa não seria outra.

Uma coisa eu tenho como cada vez mais certa: devemos estar disponíveis para os acasos da vida. Ter medo de arriscar e deixar fugir uma oportunidade é daquelas coisas estúpidas que, muitas vezes, são fatais e levam a vida numa outra direcção.

Veja-se o vídeo abaixo que tão bem ilustra isto. De que serve conjecturar, pensar, divagar, falar para dentro? De nada. Se há vontade de conhecer, de falar, se há desejo de aproximação, então é ir em frente. E, se der, deu; se não der, não deu. E bola para a frente. Em qualquer circunstância, bola para a frente. Para a frente é que é caminho.

O elevador



E outra coisa curiosa deste vídeo é que isto é um anúncio a uma marca de sapatos.
Ele há coisas.

___________________________________________________

* E o asterisco deve-se a um comentário que recebi e que não lembra ao diabo (e que acho que, por delicadeza para com a sua autora, nem vou publicar). Há pessoas que teimam em fazer leituras absolutamente literais de tudo o que escrevo. Se eu um dia escrever que tenho pescoço de girafa vêm dizer que em mil novecentos e troca o passo disse que tenho o queixo enterrado no peito ou se um dia digo que bati o recorde do salto em altura quando saí do secundário, no dealbar do século vinte um, logo aparecem a chamar-me a atenção para que não pode ser porque num outro post disse que era paleolítica. Aqui a mesma coisa, se resolvo ironizar e dizer que olho de lado para uma beldade de metro e oitenta, logo aparecem a dizer que isso diz muito do meu carácter -- como se tudo o que escrevo fosse desprovido de ironia e como se, caso a cena se desse com uma feiona, mal entrapada e de metro e dez, eu olhasse para ela à descarada, quiçá com um simpático sorriso de deixe lá isso. Fico beige. Pensarão alguns leitores que este blogue é uma coisa absolutamente confessional, um auto big brother do tipo Keeping up with the Kardashians mas por escrito? Não sei que mais faça ou diga para explicar que não é.

__________________________________________________________

As fotografias são de Francis Giacobetti.
Fazem-se acompanhar por Nina Simone. You'll never walk alone.
____________________________________________________

E a todos desejo um bom sábado.

sexta-feira, fevereiro 07, 2020

Beijo, a mais universal das línguas
[No pun intended]


Em dia de:
  • aprovação de Orçamento de Estado, com o PSD a andar às arrecuas e o deputado do six-pack a anunciar uma coisa e depois a fazer o oposto e, ainda por cima, de camisa vestida tapando a única coisa que poderia ter piada na bancada laranja, 
  • de notícia de prisão de traficantes de droga
  • e de que há mais casos no futebol com inquéritos a decorrer sobre fuga ao fisco, 
  • e isto já para não falar do mediaticamente omnipresente coronavírus 
  • e do Trump a limpar-se do impeachment e a gabar-se de uma forma vil e boçal, 
resolvo que, a esta hora e depois de um dia em que ocorreu um evento especial e sobre cujos efeitos colaterais tenho que tomar uma decisão nada fácil, não vou falar sobre nada disso. A esta hora tenho que dar férias à minha cabeça. Portanto, com vossa licença, permitam que os meus neurónios embarquem numa daquelas viagens de comboio que tanto me fascinam por esse mundo afora. (Comboio virtual, claro. Viagem virtual, claro. Mundo afora também virtualmente falando, claro.)

Mas explico por onde a virtual-viagem me levou: estando eu a querer ir para bem longe, deu-me para ir ver algumas Vogue. Há sempre lá coisas de bom gosto, nomeadamente boa fotografia. Estive a ver a Vogue russa, a Vogue japonesa e depois lembrei-me de ir ver a Vogue alemã. E foi aí que dei com um vídeo bem bonito. Já tem uma meia dúzia de meses mas faz pendant com o mood certo para me afastar de decisões difíceis. E, vendo o vídeo, está a apetecer-me dizer algumas breves. Permitam-me.

-----------------------------------




Nunca fui muito de me achar mas, ainda assim, até há algum tempo eu supunha saber algumas coisas. Por exemplo, há uns anos eu atirar-me-ia sem medo para um texto sobre as diferenças entre os homens e as mulheres no que respeita ao desejo. Nem hesitaria. Diria que as mulheres precisam de um clima, precisam de tempo, precisam de afinidade, precisam de romance, precisam de beijos. Diria, também, que os homens não precisam de nada disso, precisam apenas de oportunidade. Talvez algum tempo depois, quando estava a aproximar-me da sabedoria -- que, em mim, é sinónimo de consciência da própria ignorância -- acrescentasse que, para além da oportunidade, os homens precisam da prévia certeza que qualquer avanço seu será bem aceite. Mais tarde ainda, acrescentaria que aquilo de que precisam mesmo é que a mulher dê o primeiro passo. 

Agora não. Agora sei que apenas tenho uma vaga ideia de algumas coisas e que é tudo falível porque, sendo tudo aquilo que acima disse a mais pura verdade, não é menos verdade que depende das mulheres, depende dos homens, depende da sua maturidade ou das circunstâncias.

Sei que uma mulher, em certos casos, pode passar por cima de tudo e, guiada por um inexplicável misto de certeza e de urgência, sentir-se a ponto de, às cegas, cair nos braços de um homem. 


Identicamente, sei que um homem, apesar de quase ter a certeza de que a mulher também está afim e que oportunidades não faltariam, pode preferir a dança pré-nupcial, prefere cortejar, exibir os seus dotes, prefere o prazer maior da sedução.

Ou seja, 'há casos e casos'. E saber isto, ou seja, nada, é tudo o que o meu percurso de vida me ensinou até hoje sobre esta matéria. Aliás, pensando bem, sobre qualquer matéria. 


E esta noção da fragilidade da minha compreensão destas coisas é ampliada pelo facto de que há mais binómios a ter em atenção: há o amor entre mulheres e o amor entre homens. E desses amores eu não sei falar. Por exemplo, 
  • as mulheres quando gostam de outras mulheres são todas encantamento e romance antes de passarem à fase do desejo sexual? Ou há casos em que a pulsão sexual não se compadece com compassos de espera e bora lá mas é ao que interessa? -- Não faço ideia mas admito que, da mesma maneira, haja 'casos e casos'. 
  • E entre homens? É tiro e queda e depois logo se vê se há alguma afinidade? Ou há casos em que, antes de mais, a coisa até parece estar mais na base da amizade ou da partilha de interesses, de ir beber um copo, ir ao café ver a bola, coisa assim a tactear a ver se dá ou se não dá? -- Também não faço a mínima mas, lá está, haverá 'casos e casos'
Seja como for, uma coisa tenho como certa: homens ou mulheres que não tenham alguma vez experimentado a emoção, o frémito, a doçura, a fusão, a vontade de deixar que os corpos se conheçam, fechando os olhos, beijando o outro com total entrega e esquecimento de tudo, não se aproximaram nunca do jardim das delícias, não ouviram a tentadora melodia do cântico dos cânticos. Em suma, não sabem o que é bom.
[Mas, claro, estão a tempo de tentar descobrir]. 

____________________________________________________________

E o vídeo é este. Para ouvir sem música de fundo.

Se puderem, fechem os olhos. Os beijos querem-se de olhos fechados.


Zwei Lippen, die sich sanft berühren. Langsames Ein- und Ausatmen und unendlich lange Blicke, bei denen man sich ganz im anderen verliert. Das vollkommene Auflösen im anderen und schwerelose Entfliehen der Realität. Gefühle, die man nicht in Worte fassen kann und will, im Moment sein und nicht mehr wollen, als das Hier und Jetzt – kaum etwas lässt uns die Realität für einen Moment vergessen, wie das Küssen.
_________________________________________________________________________

As mulheres foram fotografadas por Francis Giacobetti e o homem por Herb Ritts
_________________________________________________________________________

Volto aqui para dizer uma coisa. Estou com vontade de contar uma história (verídica) e tive esperança de que ainda conseguisse. Mas ponho-me a responder aos comentários, distraio-me, deixo o tempo passar. Agora já não consigo começar outro post. Talvez fique para amanhã. Portanto, passo já para as despedidas.

Uma happy friday

quinta-feira, junho 02, 2016

Outros blogues


Se no post abaixo já agradeci a todos quantos me têm acompanhado nesta minha caminhada que já levou a que mais de um milhão e meio de visitas tivessem sido recebidas no Um Jeito Manso, referi também todos os outros blogs que leio com deleite e aos quais reconheço qualidades que tomara eu que o meu um dia as atingisse.

Tivesse eu tido tempo, preparava uma antologia cuidadosa de modo a garantir que todos quantos admiro aqui estivessem representados. Mas não tive tempo. O meu dia foi complicado e esta quinta feira rumo a norte, daqui a nada, antes do sol nascer, estou a pé.

Por isso, cometendo mil injustiças e deixando de fora os outros blogs que leio mas que geralmente se ocupam ou quase só de imagens ou de vídeos musicais ou, ainda, de temas políticos e económicos e que, portanto, têm textos relativamente datados, vou ousar aquilo que tenho evitado: ir pela minha galeria de blogs abaixo e, um pouco ao acaso, seleccionar um ou outro parágrafo de entre os seus posts. São excertos, ou seja, textos truncados. Não pretendo ser cuidadosa ou exaustiva (ou melhor, pretender até pretendia, não tenho é tempo). Sem delongas, vamos lá. Sem que a ordem signifique grau de preferência: ao acaso.





Subia ontem à floresta a dar mais uma demão de protector de madeira no drikketrau (ou bebedouro) que por lá construí.

Para evitar a deslocação do amigo, e o conduzir até aqui abaixo ao centro de Oslo, tomei eléctrico e autocarro até à periferia a norte. No autocarro, sentada à minha frente, uma adolescente dedilhava frenética no iphone. Contudo, e ali era o caso, lendo o The Book of the City of Ladies, versão em inglês da medieval defesa da educação das mulheres de Cristina de Pisano, a mania irritante de mensagem vai, mensagem vem, facilmente se transforma em sorriso. O mundo, não sendo perfeito, é hoje bem melhor do que foi.





Hoje é o Dia Mundial da Criança. Para assinalar a data, proponho que se veja o filme infantil brasileiro "Tainá — A Origem", um filme cheio de aventuras passadas na Amazónia. A sua atriz principal é uma indiazinha de verdade, chamada Wiranu Tembé, que à data da rodagem do filme tinha cinco anos de idade e que desempenha o papel de uma menina que defende a floresta contra o mal.

Fernando Ribeiro em A Matéria do tempo



Já tenho escrito várias vezes sobre as famosas distracções da minha mãe, que vão desde não se lembrar que determinado amigo já morreu há uma data de anos, a ter perdido o telemóvel dentro do peru, no meio de uma azáfama natalícia.

Tendo cinco filhos, é também vulgar trocar-nos os nomes, chamar frigorífico ao forno e abanar o copo de água em vez do frasco de ben-u-ron quando está prestes a medicar um neto. 

Francisca Prieto no Delito de Opinião


Era um homem que estava de bem com as suas memórias. Gostava, por isso, de conversar. Falámos muito. Sentava-se comigo à mesa e ficou amigo de amigos meus do Canadá, do Algarve, do Porto. Alguns voltavam só para o ver, já nem me vindo quase ver a mim: diziam-me que ele inspirava tranquilidade. A minha filha, nesses anos 90, era uma criança e confiava em tudo o que ele pusesse na mesa, como se estivesse a comer comida da avó.  E nem a avó, nem as tias, lhe farão umas farófias como as farófias do “Fiorde”, as melhores do mundo. Eram as farófias que convenciam a minha filha? Não só. Há pessoas que têm uma franqueza no olhar que faz os miúdos confiarem logo neles.

Manuel S. Fonseca no Escrever é Triste


Como me atrevo, pela manhã, aos pensamentos mais sombrios, mais desesperados? O amor aos meus filhos, só esse, é absurdo, paradoxal: salva-me e condena-me. Explico-lhe que não precisa de contar detalhadamente o que acontece em cada um dos seus dias, pode escrever apenas uma frase sobre o que mais o marcou, a comida sensaborona do refeitório, uma brincadeira no recreio, as participações disciplinares do Sandro, um episódio do Mundo de Gumball. Olha-me demoradamente e contrapõe: “Mas assim não é um diário, mãe. É outra coisa qualquer”. 

Ana Cássia Rebelo no Ana de Amesterdão



O inglês (ou anglófono, ainda não sei), cumprimentando-me com aquele sossegado Hi Alex!.uma vez mais, hoje, aliás, por duas vezes. Uma mulher não é de ferro, most definitely (não me recordo da última pessoa que me chamou Alex, mas gosto, muito mais do que Xana).
__________
(Há pouco, arrumou o portátil, as canetas, o estojo, os cadernos,virou-se para trás e sorriu-me, sem despedidas; a minha amiga comentou, bincalhona,  - melosa!).

Alexandra G em Imprecisões



O sol é como o teu rosto.

Tão perto da meia-noite, tão longe dos seus lábios.

Entrei no labirinto para que os medos que me seguem se desorientassem.

Se depois de tanto procurares, encontrares algo dentro de mim, não mo leves. Pode ser a única coisa que me resta.

Xilre em Xilre



Um amigo que muito prezo constatou com alguma ironia que este blogue frequentemente parece um muro de lamentações. É verdade que aqui exponho domesticidades, misérias, angústias, irritações. Encarem estes desabafos com alguma benevolência, como se numa garrafa bem fechada, acabasse de dar à costa mensagem de angústia ou desespero enviada não se sabe de onde, por alma desconhecida. Não interessa tanto quem a recebe, importa que a enviei.

Fernando Lopes em Diário do Purgatório


As sociedades modernas perderam a consciência do tempo cíclico, do eterno retorno do mesmo, e a retórica do progresso – que ainda hoje anima alguns exaltados – desfez o véu ilusório, mas fundamental para dar sentido à vida, de um tempo que sempre retorna. Ficou a poesia. Ela é o dispositivo que resta na luta contra o tempo, na busca da experiência mítica, na reconstrução de um véu de ilusão que nos permite aceitar a vida e a morte. Por isso, ela luta com e contra a língua, destrói-lhe os hábitos, obscurece o significado, conflitua com a gramática, para que desça até aos homens uma linguagem mais pura e original, não maculada pela história, e lhes proporcione a ilusão que eles precisam para viver e para aceitar a sua inelutável mortalidade.

Jorge Carreira Maia em Kyrie Eleison 


Italiana de Catania, trabalhava em Londres, era a sua primeira visita a Portugal, estava encantada com Lisboa, que não esperava tão alegre e luminosa.
Contei-lhe eu algo da minha juventude em Lisboa, e de como uma vez me tinha atrevido a entrar neste mesmo restaurante, esperançado de entrever um ou outro dos meus ídolos literários  
Despedi-me terminado o café, e fui à minha vida, contente de como podem ser agradáveis os encontros com estranhos. É talvez porque neles, ao invés dos encontros com conhecidos, não temos de baixar a viseira, dispensamos a troca de salamaleques, nada nos obriga ao fingimento.

J. Rentes de Carvalho em Tempo Contado


No tasco:

– Boa noite, o que vai ser?
– Eu gostava de ser cosmonauta, mas já não vou a tempo.
– ??
– Ah, pode ser um café.



A Igreja manifesta-se, ou arranja quem o faça, a favor dos contratos de associação. Os senhores bispos já foram derrotados nas batalhas de costumes e não querem perder a guerra das prebendas do Estado. Caberá à esquerda demonstrar que a saúde pública é melhor sem as misericórdias e que não devem persistir isenções fiscais para uma confissão religiosa. A despenalização do aborto, o casamento gay, foram combates pueris face aos  que se aproximam.

Luís M. Jorge em Vida Breve


Depois, há o regresso e há a sensação de ter passado por aqueles caminhos como se o não tivesse feito. Fica uma memória difusa. Como se por ali tivesse pedalado como um fantasma. Gosto de pensar que talvez seja porque, como dizia o outro (!), tenha sido inteiro no que fiz, nada exagerei nem excluí. Quer dizer, vi com os olhos, cheirei com o nariz, ouvi com os ouvidos sem me socorrer das paisagens, dos aromas e dos sons que já esta armazenados em padrões no meu cérebro e que podem filtrar, fazer um efeito tampão, colocar-me em modo automático ... impedindo-me de criar padrões verdadeiramente novos.



Cada mulher tem a sua obsessão.
Quando vim para a casa decidi que o quarto da frente seria o dos papás. O quarto da frente é o principal no lar, portanto, pertence aos mais altos na hierarquia familiar. Talvez tenha sido eu que me coloquei sempre, à partida, numa posição subalterna.
Quando, de costume, afirmo que, ao chegarem de África, nenhum deles era capaz de me olhar como adulta, talvez queira dizer que nunca fui capaz de ver-me como adulta junto deles. Que não sabia ter, com eles, o poder de uma pessoa crescida, ao seu lado, como igual. Não tive essa escola lenta de ir progredindo em companhia. Fui criança e depois mulher, e o que ficou pelo meio perdemos os três. 

Isabela Figueiredo em Novo Mundo


Portugal é um país onde a hipocrisia compensa. De repente, deixámos de ouvir falar dos horrores do desemprego e da emigração forçada, as histórias recorrentes no jornalismo do ano passado. A profunda indignação das corporações disto e daquilo também desapareceu. Os jornais discutem minuciosamente temas fracturantes que interessam a meia dúzia de portugueses, desviam para canto as notícias embaraçosas, insistem nas opiniões inócuas dos comentadores que falharam todas as suas previsões nos últimos cinco anos e que continuam a debitar de cátedra.

Luís Naves no Fragmentário


De regresso pela A8, com o capuz enfiado na cabeça e os vidros do carro todos abertos para que o frio não me deixasse adormecer, uma cassete velha a encher o ar de Jimi Hendrix Experience, caleidoscópio crepuscular de vários tons cinza, e uma nuvem a olhar para mim, a perseguir-me durante todo o caminho com 120 regrados quilómetros por hora de luz lunar, a sorrir por cima da noite meia dúzia de palavras com um único significado de infinitas interpretações: nitidamente o canto do noitibó dentro do coração.

Henrique Manuel Bento Fialho em Antologia do Esquecimento


disse-lhe: não sei o que me fizeste. podes fazê-lo de novo.

algo na voz dela parava os relógios

apenas precisava de um abraço de que nunca tivesse que sair.

Mil em Mil Anos


E reparai no seguinte: o maior soldado de todos os tempos, o guerreiro sem par, é o maior derrotado da guerra: na humilhação que o líder dos exércitos lhe impõe, na morte do amigo tão amado, na desolação que o leva a considerar corajosos e cobardes como iguais, na vingança que exerce sobre Heitor, não fazendo mais do que atrair a vergonha sobre si; o mais nobre dos homens, Heitor, aquele que é não o herói do poema, mas o herói do poeta, é morto, abandonado pelo deus, deixando a cidade, a mulher e a prole à mercê da pilhagem e da escravatura; Helena, como já vimos, a mais bela das mulheres, a mais infeliz das criaturas. E assim com todos.

Pedro em Peripsema


____

Fotografias de Francis Giacobetti

Catrin Finch e Seckou Keita interpretam Les Bras De Mer

___

E, caso queiram saber quais os 5 posts mas vistos do Um Jeito Manso ou quais as estatísticas de comentários ou países visitantes, queiram, por favor, descer até ao post seguinte.

-----

O Um Jeito Manso ultrapassou um milhão e meio de visitas
e eu agradeço a todos os Leitores a companhia que aqui me têm feito




  • Muito mais cedo do que alguma vez poderia imaginar, o Um Jeito Manso ultrapassou as 1.500.000 visitas. 
Se hoje tivesse ultrapassado as 150.000 para mim já era surpreendente e já me sentiria agradecida.

Não tenho vontade de aqui escrever muito sobre o assunto pois não há muito a dizer. Há milhões de assuntos mais importantes para se falar do que o número de visitas do meu blog. Além do mais, tenho perfeita noção da injustiça destas estatísticas: há blogs melhor escritos que o meu, mais originais, mais interessantes e cuja audiência é baixa. Não sei como as pessoas não ficam tão fascinadas como eles justificariam. 
Fico contente por gostarem de visitar o meu mas não posso concluir o que quer que seja. Talvez eu seja uma pessoa normal que escreve despretensiosamente sobre coisas normais e, talvez por isso, vocês, meus Queridos Leitores, se dêem ao trabalho de aqui vir espreitar. Sabem que daqui não levarão grandes coisas mas talvez as coisas pequenas sejam mais leves, mais fáceis de levar. Mas não sei. Sei apenas que isso me motiva ainda mais.
Se agora estou aqui a referir este facto é apenas porque acho que, eventualmente, para minha própria memória futura, me ajudará que 'assente' aqui alguns registos.

  • Comecei a escrever isto -- do zero, sem saber 'puto' de blogs e sem conhecer quem quer que fosse -- em Julho 2010. Ninguém me recomendou ou visitou porque ninguém me conhecia.
Comecei por ter 3 visitas por dia (a do meu marido e dos meus filhos). Depois foi crescendo sem nenhum de nós perceber como, pois nem sequer o encontrávamos via google. Quando chegou às 10 por dia já ficávamos intrigados: quem será? interrogávamo-nos. Daí foi subindo, uma incompreensão, e já ia nas 20 por dia. O primeiro ano foi isto, quase nada. Mas sempre subindo. 50 por dia e eu perplexa. Comecei a pensar, como se fosse uma meta longínqua, que se calhar um dia ainda chegava às 100 visitas por dia. Para meu espanto, cheguei. Os meus filhos também admirados com a proeza da mãe. Uma vez li que as 200 visitas por dia eram um patamar marcante: acima disso já eram poucos. Ultrapassei também essa meta. E assim tem sido, uma progressão. 
Tenho tentado manter-me isenta em relação a tudo isto: não fazer nada para ter mais visitas, não fazer nada para agradar, não evitar fazer o que quer que seja com medo de desagradar.
Já o referi: apenas me inibo, e é apenas de vez em quando, quando penso que posso incomodar os meus filhos. Volta e meia puxa-me a mão para a brejeirice ou para as ficções erotizadas e tento dosear para que eles não se sintam atrapalhados. Se calhar, às vezes distraio-me mas acho que já se habituaram, faz algum tempo que não me dizem nada. Mas se calhar é porque já desistiram de tentar educar-me.

  • Publiquei até hoje 3.647 posts o que significa que em média escrevi sempre mais do que 1 post por dia.


  • Ao todo, foram publicados 12.728 comentários -- e aqui reside o aspecto sobre o qual mais me penitencio, o de geralmente não responder. Muitas vezes vejo-os de dia, no telemóvel, e não posso responder; à noite, aqui, o tempo é curto, o sono apressa-me, ou, então, perco-me na imaginação, e as respostas acabam por ficar para trás. É indesculpável. Contudo, como sou descarada, peço que aceitem as minhas desculpas.


  • Os posts mais lidos até hoje, foram:
1º (com 23.833 visitas) - Os homens do Expresso e Ricardo Salgado, o BES, o Grupo Espírito Santo: Nicolau Santos, Pedro Santos Guerreiro, João Vieira Pereira. E Miguel Sousa Tavares. E João Duque. E outros de outra comunicação social como Marcelo Rebelo de Sousa. E o Correio da Manhã (mas isso não sei se é bem jornalismo). E os Partidos. E não só.
2º (com 6.852 visitas) - 'Quem operou Alexandra Lencastre?', 'Novo visual de Alexandra Lencastre', 'Alexandra Lencastre faz uma plástica à cara', 'Alexandra Lencastre irreconhecível', 'Alexandra Lencastre dá show na gala da TVI' - estas são algumas das várias questões que levaram o google a trazer uma série de Leitores até mim. E eu acrescento: e a Ana Salazar? Também apareceu com um novo visual e, imagino eu, também não será consensual. Para terminar, comparo com Carolina de Mónaco.
3º (com 6.438 visitas) - Felícia Cabrita adora José Sócrates. Ela sabe que, sempre que ataca Sócrates, volta à ribalta. Não sei se há algum investigador ou juiz que ande a segredar-lhe todas as informações ou se é ela que informa os investigadores. Uma coisa me intriga: ainda há quem leve a sério a Felícia Cabrita? E, quem diz a Felícia Cabrita, diz o Dâmaso do Correio da Manhã. Se calhar estão bem para o Juíz Carlos Alexandre que, pelos vistos, não se atira ao ar com o que se passa com as investigações a seu cargo. Para limpar o ambiente, acabo com Mitsuko Uchida e Beethoven.
4º (com 6.092 visitas) - Quem é Cristina Ferreira, a chamada 'senhora' do PSD, ilustre gestora da WeBrand? - a Revista Visão tem vindo a tentar esclarecer, e o retrato é digno de uma telenovela. O pior é o montão de dinheiros públicos que, por ali anda, descontrolado, ilegal. E pior ainda é termos a fina flor do PSD misturada na história. E estranho, mas tão estranho, é também os bloggers de referência - que tão justiceiros por conta própria eram até há uns 3 anos - andarem tão caladinhos sobre esta fétida 'Face Oculta do PSD'
5º (com 4.407 visitas) - A entrevista de José Sócrates ao Expresso: o testemunho de um homem, de um político. Clara Ferreira Alves no seu melhor em três frentes (na entrevista ao ex-Primeiro Ministro; na Pluma Caprichosa com a 'História Universal da Infâmia'; no Actual com a entrevista a Coetzee). O Expresso de parabéns. Chapeau!

  • A estatística relativa aos principais países que visitam o blog é a seguinte:
Portugal:             914.345
Brasil:                 154.301
Estados Unidos: 123.817
Alemanha:            48.200
Rússia:                  37.933
França:                  25.123
Reino Unido:        15.532
Holanda:               12.845
China:                     9.701
Ucrânia:                  7.968

_____

Muito obrigada a todos.

____

As fotografias de mulheres atravessadas pela luz e pela sombra pertencem à série Optic Stripes de Francis Giacobetti

Lá em cima Melody Gardot interpreta  Love me like a river does

__

segunda-feira, abril 11, 2016

Ler os melhores ou simplesmente ser


Desligo-me agora das sombras que me cobrem e nas quais me acolho, eu escondida de mim e de quem acolhe as minhas palavras. 

Antes que comece a semana com tudo o que me vai exigir e que tanto e cada vez mais é, refugio-me no sossego deste meu recanto, um ponto de luz num canto de uma sala escura, uma música que me envolve, longos cabelos, voz que vem de entre grutas silenciosas, e o saber-vos aí desse lado, as vossas mãos tão perigosamente perto das minhas, as nossas respirações tão uníssonas. Descanso. Guardo dentro de mim a serenidade de que vou precisar nos dias que ainda não nasceram.

Tenho tantos livros, tenho tanta necessidade de os ter junto a mim. Atraem-me cada vez as franjas, o que se situa em incertas fronteiras, o que não se define. Livros sobre nuvens, sobre sombras, sobre como se constrói a luz, sobre árvores, sobre livros, sobre insustentáveis paradoxos. Ou recordações. Ou frases que existem mesmo quando arrancadas aos seu contexto. 

Vou pelas livrarias procurando o que me atraia. Geralmente não conheço os nomes dos livros ou os autores. Vejo um livro pequeno, de capa macia e escura, uma garça branca levantando voo entre hastes douradas, folheio-o -- fala do efeito da sombra na pele, fala de tecidos macios com fios de seda e ouro e eu não sei de nada do que ali se fala mas fala-se com palavras simples -- e eu logo fico com vontade de me deixar estar sentada debaixo de uma janela que me traga a luz do céu e eu ali a ler sobre um mundo de que nunca se fala.



Penso em quem sei que me lê e que sei bem que são sabedores, sábios talvez, muito mais sabedores que eu, muito melhor informados que eu. Quantas vezes sorrirão com complacência, tanto o desconhecimento que em mim vêem. Sei disso mas por aqui persisto, as palavras deslizando-me dos dedos, flores do campo, sem tratamento ou cuidados, expostas aos ventos, aos sequeiros, às imparáveis chuvas. Insignificantes as minhas palavras. Qualquer um que passe distraído as pisará sem que ninguém mais dê pela sua falta. Mas persisto, sobretudo pelo prazer de ver como brotam, sozinhas.

Estive a ver uma lista dos melhores livros de sempre -- estudo cruzado, listas de listas, intersecções de gostos. Para quem diz que gosta tanto de ler e que tem uma necessidade física de se rodear de livros, talvez estes devessem ser a base, o alicerce, o torreão. Vejo a lista e sinto até uma certa pena de mim. Uma tola que não leu as obras primas nem tem vontade de as ler e que, cada vez mais, se sente atraída pelo que nenhuma lista quer, escritas marginais, choros até, impropérios, desaforos, carinhos mal dirigidos, apontamentos, fiapos de frases.

Mais pena ainda porque de alguns penso que li mas não tenho ideia precisa, não sei se li até ao fim, não sei se gostei, parece que nada ficou dentro de mim. Tenho vontade de fazer a minha própria lista. Mas não sou de listas, não gosto de pedestais, não quero deixar de fora, por esquecimento meu, alguns fundamentais.


Mas conto-vos quais os primeiros dos melhores cem:

1 — Dom Quixote, Miguel de Cervantes, 1605

Li mas acho que não todo, li em busca da maestria, a gula da grande literatura, correndo como aquele que, sequioso, procura a corrente de água, a fonte, a cascata. E sempre que as palavras se acalmavam, saltava eu por cima delas em busca de outras que me levassem em alegre corcel por montes e vales.

2 — Guerra e Paz, Liev Tolstói, 1869
Terei lido todo? terei saltado capítulos? Não me lembro.

3 — A Montanha Mágica, Thomas Mann, 1924
Li, deslumbrada. Li como se entrasse num monumento extraordinário. Li e ainda me lembro.

4 — Ulisses, James Joyce, 1922
Não li. Não vou ler. Não me atrai. 

5 — Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez, 1967
Li. Li com sorrisos, com emoções, com garridice, com ternura, com agrado. Uma prosa alegre, quente. Mas gostei mais de O amor nos tempos de cólera. Prazer puro.

6 — A Divina Comédia, Dante Alighieri, 1321
Não li, não vou ler. Mas gosto de ouvir trechos. Gosto de ler pequenos excertos. Gosto de pensar que o que vou colhendo em pequenos ramos me dará o conhecimento da vasta floresta.

7 — Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust, 1913
Li alguns volumes, não sei quais, não sei se os que li, li do princípio ao fim. Talvez. Tenho ideia de que gostei mas que não me empolgaram, como se fosse uma planura desapaixonada. Talvez esteja enganada.

8 — O Som e a Fúria, William Faulkner, 1929
Li. Lembro-me da emoção. A energia das palavras vibrava em mim. Estava agora para me levantar para reler algumas páginas, para confirmar, mas não me apeteceu. Acho que não vibraria da mesma forma, prefiro que fique assim.

9 — O Homem sem Qualidades, Robert Musil, 1930-1943
Acho que li e que deixava a meio, que retomava e parava. Não sei se li todo. Talvez tenha lido. Também não me apeteceu ir confirmar.

10 — O Processo, Franz Kafka, 1925
Li com inquietação. Ainda hoje coisas assim me assustam. O indefinido receio, as invisíveis ameaças, o mal difuso e burocrático que não se pode combater.

Transcrevo alguns excertos do artigo da Revista Bula onde pode ser vista a lista dos cem livros.
Para se chegar ao resultado fizemos uma compilação de 15 listas publicadas por jornais, revistas e sites especializados em listas, mercado editorial e livros. (...)
Participaram do levantamento as publicações: “The New York Times”, “Amazon”, “Le Monde”, “The New York Public Library”, “BBC”, “The Guardian”, “Modern Library”, “Time”, “Newsweek”, “Telegraph”, “Lists Of Bests”, “Wikipedia”, “Folha de S. Paulo”, “Revista Época”, “Revista Bravo”.
Obviamente que listas são sempre incompletas, idiossincráticas. (...)
O resultado não pretende ser abrangente ou definitivo, antes é apenas um reflexo da paixão de leitores e críticos que ajudaram a construir, com suas opiniões, um vasto guia literário que percorre mais de 2 mil anos de história. 

Nesta lista de cem livros procurei alguns dos que me ajudaram a fazer-me aquilo que hoje sou. Alguns encontrei, outros não. A maior parte não. Fico a pensar se me terão impressionado tanto, na altura, porque eu ainda não tinha vivido o suficiente ou se será que eu, desde cedo, me movi preferencialmente nas margens do que não é consensual.

Agora tenho aqui para ler, vai ser o próximo, um belo livro, pequeno, estreito, comprido, uma capa mesmo bonita com pintura de autoria de Luís Alves da Costa que também o prefacia. Chama-se Gilgamesh e é a versão de Pedro Tamen do texto inglês de N.K. Sandars. Já comecei a petiscar nele e já estou a antecipar o prazer da descoberta de um outro mundo. A estranheza atrai-me tanto.

Mas não conheço os gregos, lamento, e não li a bíblia -- da bíblia só o cântico dos cânticos, e só o que leio quando abro ao acaso (e me traz respostas, sem que eu saiba quais as perguntas) -- se calhar não li os grandes clássicos e, por isso, o que sei assenta sobre fracos pilares. Mas penso que talvez isso me fizesse falta se eu quisesse ser um monumento de sabedoria ou um poço de erudição. Mas eu não quero. Eu quero ser uma rudimentar palafita, uma cabana no bosque, um ninho no seio de uma árvore grande como aquela onde hoje me sentei, uma árvore imensa, grande como uma casa de uma família feliz, maternal, acolhedora. Quero ser apenas eu, inocente no acto de quase nada saber, feliz na minha ignorância inofensiva, sempre pronta para aprender e para me apaixonar. Poderia apaixonar-me tanto, com tanta entrega, se soubesse muito, se já tivesse lido tudo o que importa e me recordasse ainda de tudo, dos clássicos, das obras fundadoras?

Temo que não.

Por isso, vou continuando assim, rodeada de livros, livros que alguém um dia escreveu e que eu, carente de exotismos e singelezas, acarinho com desvelo, passando as mãos pelas palavras, como que querendo guardá-las no meu coração antes que a cabeça se aproprie delas, querendo delas o prazer mais puro, o prazer inicial, o prazer feito de liberdade.

____

O prazer segundo Kahlil Gibran

in O Profeta

___

 Lá em cima, Loreena McKennit interpreta Dante's Prayer. 
As fotografias são da série Beauty de Francis Giacobetti. 
Desconheço a autoria da última ilustração.
___

E queiram, por favor, descer até ao Elogio da Sombra 

...

Elogio da sombra
e
Ao luar
- na companhia de Luís Filipe Castro Mendes, o nosso Tim Tim no Tibete, que agora vai ser o nosso Ministro da Cultura


Protege-te na luz. Tu que te escondes e que, assim, te redesenhas, que te perdes em inúteis labirintos, protege-te da luz. E leva-me também para a sombra, deixa que ela desenhe em mim os degraus que terás que percorrer até me conseguires encontrar.

Schiuuuuuuuuuuu.... Espera que o silêncio percorra devagar os caminhos com que a luz impressionou o meu corpo. Deixa-te estar sentado, aí, aí onde estás, e escuta a minha pele. Escondo-me de ti, não quero que me toques nem que seja apenas com o teu olhar.

Vê como são belos os véus que a luz desenha na minha pele, eu coberta de luz e de sombra, enigmas, mistérios, eu, feita de palavras, o meu corpo oculto, a viver entre luminosas sombras. E tu aí, lendo-me, adivinhando-me, eu muito mulher, coberta de silenciosas sombras, com pouco para oferecer. Só palavras silenciosas, que, aí desse lado, lês, sem que um raio de luz leve até ti o meu olhar, a minha voz.

Mas eu gostava de saber como soa a tua voz. Soará como uma mão doce, terá o mesmo timbre que uns dedos suaves percorrendo os sulcos que a sombra desenha em mim quando te ti me oculto?



Alguns poderão dizer que a beleza enganadora criada pela penumbra não é a beleza autêntica. 

Ramagens
se as juntarem e enlaçarem
uma cabana surge
desenlaçai-as e tereis
como antes a planura

       diz o velho poema, e, afinal de contas, o nosso pensamento actua segundo um raciocínio análogo: creio que o belo não é uma substância em si, mas apenas um desenho de sombras, um jogo de claro-escuro produzido pela justaposição de diversas substâncias. Tal como uma pedra fosforescente que emite brilho quando colocada na escuridão e ao ser exposta à luz do dia perde todo o fascínio de jóia preciosa, também o belo perde a sua existência se lhe suprimirmos os efeitos da sombra.


Enfim, os nossos antepassados consideravam a mulher, à semelhança dos objectos de laca com pó de ouro ou de nácar, um ser inseparável da obscuridade e, tanto quanto podiam, esforçavam-se por a mergulhar completamente na sombra.


De facto, esquecemos o que é invisível. Consideramos inexistente o que não se vê. 

[O trecho em itálico pertence ao 'Elogio da sombra' de Junichiró Tanizaki, livro que, com agrado, tenho estado a ler.]

E, portanto, voltando ao ponto em que estava, dir-te-ei que, se não me vês, não penses que sou inexistente. Sou, para ti, invisível, eu sei, mas deixa que sinta que estás aí, na sombra, perto de mim, as minhas palavras nas tuas mãos -- e não me esqueças.


Movemo-nos entre as noites e as dunas que nos cercam,
espectros de outro tempo e de outra vida;
mas aquelas mulheres juntaram-se a um canto, silenciosas,
pois esperam de nós alguma coisa
que não sabemos o que é:
uma palavra, um grito, um deslizar manso
sobre as águas, ou um mero esplendor do nosso fim
iluminado pelo mais solene dos luares?
As nuvens, sim, as indiferentes nuvens
anunciam um cruel fulgor,
que nós não saberemos ver.

(Manet, Luar sobre o porto de Boulogne)

['Ao luar' de Luís Filipe Castro Mendes, in 'Outro Ulisses regressa a casa']

.......................

Longe das notícias, tinha acabado de escrever o post quando soube da notícia. Juntei então o poema daquele que já tantas vezes visitou o Um Jeito Manso com a sua poesia, como pretexto para daqui lhe enviar os meus votos de boa sorte nas suas novas funções. 
Felicidades, Sr. Embaixador Luís Filipe Castro Mendes, nosso Tim Tim no Tibete
Agora que um outro Ulisses regressa a casa, que consigo nos cheguem novos tempos. A Cultura ficar-lhe-á grata, estou certa. 
___

As fotografias usadas ao longo do texto são de Francis Giacobetti.
Lá em cima Natalie Merchant canta 'My skin'

.....

domingo, abril 10, 2016

O que dizem os seus olhos?


Depois de, abaixo, ter falado de milagres, falo agora de mistérios. Falo, não. Pergunto: o que somos está escrito nos nossos olhos?

Eu gosto de olhar de frente com quem falo e gosto de perceber a reacção das pessoas através do seu olhar. No entanto, alguns olhares são opacos. Assustam-me olhos assim, secos, inexpressivos. Outros são luminosos, empáticos - atraentes.

Se me olho nos olhos, olhando-me no espelho, não sei dizer o que dizem os meus olhos. No entanto, quem me conhece bem, conhece o que penso ou sinto apenas através do meu olhar. Talvez o meu olhar seja um véu transparente que me une ao mundo.

Mas não sei. 

Um olhar diz o que vai na alma de quem nos olha? Que responda quem souber que eu que de pouco sei.
(...) Francis Giacobetti (Marselha, 1939) começou sua carreira de fotógrafo ainda jovem, em 1957. Ficou mundialmente famoso por suas fotografias de moda e design, e ainda por seus nus. Trabalhou entre as décadas de 1960 e 1980 como fotógrafo e repórter da revista masculina francesa "Lui". Em seu currículo ainda estão passagens pelas revistas "Paris Match", "Life" e "Look". Atuou como diretor de arte da empresa de cosméticos "Shiseido" e desenvolveu projetos de câmaras de fotografia e vídeo para a empresa Canon.
Para o "Projeto Hymn," Giacobetti recorre a seu olhar mais inquieto e através de uma serie de 300 trípticos realiza um inventário da genialidade humana contemporânea. Um tributo em que o fotógrafo registrou a íris, o rosto e as mãos de personalidades como Stephen Hawking, Jacques Costeau, Oscar Niemeyer, Akira Kurosawa, Federico Fellini, Luciano Pavarotti, Gabriel García Márquez, Sebastião Salgado, Roy Lichtenstein, Aung San Suu Kyi, Nelson Mandela e Mikhail Gorbatchov. (...)
Alguns desses trabalhos estão aqui abaixo. Juntei, por baixo de cada composição fotográfica, um vídeo onde se podem ver e ouvir as pessoas representadas. Talvez que alguns de vocês, Caros Leitores, consigam perceber se há relação entre a íris, as mãos, os rostos e o que as pessoas que os têm são.

Mikhail Baryshnikov (agora com 66 anos)

____

Gérard Depardieu - agora com 67 anos

___


Aung San Suu Kyi - agora com 70 anos

____


Ray Charles - (1930 - 2004)

___

Não consigo resposta para as minhas perguntas. Por isso talvez seja preferível procurar milagres. 
São já abaixo.