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terça-feira, julho 07, 2026

Ex-mundial com o rabo entre as pernas, futuro ex-ministro dos exames nacionais com o rabo e a cabeça entre as pernas.
E, para fugir ao faduncho, mulheres de outro mundo

 

Estava com parte da família a ver o futebol, mas estava tudo morno. O meu marido, durante parte da segunda parte, foi dar uma volta. Os rapazes estiveram, a maior parte do tempo, em silêncio. Eu ia falando com a minha filha enquanto íamos olhando o ecrã mas parece que não se passava nada. Uma coisa quase sepulcral. Como não consegui prestar atenção, só posso dizer o que me parecia de cada vez que me focava no jogo: era como se houvesse uma suspensão, quase uma slow motion, quase como se toda a gente antecipasse que o caminho estava traçado. No início ainda imaginei que pudesse haver um bom desfecho. Mas, logo que me apercebi da marcha fúnebre, deixei de alvitrar. 

Mal o jogo acabou, os rapazes levantaram-se em silêncio e retiraram-se. O meu marido insultou uns quantos e disse que por ele até é melhor: assim já pode ver o resto do mundial sem se enervar. 

Tive pena mas tive muito mais pena ainda quando Cabo Verde foi eliminado. Os rapazes cabo-verdianos, esses sim, entregaram-se com uma alegria, uma genica, uma capacidade de luta e umas ganas de irem atrás de um sonho que foi tão contagiante que me agarraram e me puseram a vibrar com eles.

Quanto às notícias, o que tenho a dizer é que a cegada da avaliação dos exames é uma coisa sinistra. Como é possível que se lance um novo sistema, uma nova metodologia, sem tudo ser testado sob todos os pontos de vista: do ponto de vista técnico, funcional, de formação de quem vai usar (os professores) e de carga (todos ao mesmo tempo). Uma coisa tão transversal e com tamanho impacto só poderia ser lançada  depois de resistir à lei da bala, não falhando um único ensaio. Aquilo a que se assiste é de um tal amadorismo, de uma tal inexperiência, de uma tal impreparação que até dói.

Tenho um neto à espera dos resultados para saber o que vai ser a sua vida. Ele e todos os outros nas mesmas condições, depois de tanto estudarem e de de saberem que estão num momento charneira das suas vidas, encontram-se neste limbo: 

  • no caso do meu: por um lado a selecção portuguesa -- segue ou não segue? (e, já se viu: não seguiu) 
  • e, por outro, a espera pelas notas: chegam ou não chegam para entrar onde se quer? Os exames vão ser avaliados ou não? E, se não conseguirem levar adiante a avaliação, em tempo útil, o que acontecerá?
E as explicações que se ouvem e o ar espaçado do ministro são de uma tal indigência a todos os níveis que a gente já nem estranha que o dito ministro nos apareça com ar de quem nem tomou banho, o cabelo com ar de estar sujo e mal cheiroso.

Mas não me apetece continuar a escaranfunchar nestes assuntos senão começo também a pensar no body guard do Luís, o trauliteiro que dá pelo nome de Hugo Soares, e isso seria, da minha parte, bater no fundo. E não me apetece.

Vou antes derivar para outras paragens. Mulheres que se situam à margem das marés, que não encaixam no mainstream, que não querem nem saber das últimas modas. Poder-se-ia pensar que as duas de que aqui trago notícia estão nos antípodas. Em termos práticos e objectivos, estão. Subindo um pouco mais, vendo de mais longe, são parecidas. Fascinantes.

A artista que vive na floresta

Há muito tempo que queríamos conhecer Maria, uma artista sueca que vive numa pequena casa de madeira perdida nas florestas da Suécia com o seu companheiro, Johannes.
Juntos, recriaram um mundo mágico, fora da realidade e da lógica, onde vivem e trabalham. Maria recolhe a madeira que a floresta lhe oferece para a transformar em obras de arte, e vive desta atividade há mais de 30 anos.

No entanto, o que pode parecer uma vida de conto de fadas esconde, na verdade, a fragilidade de uma floresta que precisa de ser defendida. Maria e Johannes optaram, à sua maneira, por lutar para a proteger.

Fran Lebowitz não tem smartphone, portátil ou filtro

A nova-iorquina Fran Lebowitz construiu uma carreira satirizando a vida moderna. Numa conversa acutilante e divertida com Benjamin Law, reflete sobre um mundo em turbulência, abordando temas que vão desde Trump às esposas tradicionais.

Desde os seus livros best-sellers a participações em talk shows noturnos e ao filme Pretend It’s a City, de Martin Scorsese, tornou-se uma das vozes mais singulares dos Estados Unidos.

Agora, em 2026, enquanto a democracia estremece e o caos político aumenta, Benjamin Law conversa com Lebowitz para lhe perguntar: como é que ela interpreta o que estamos a testemunhar em tempo real?

Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, junho 19, 2026

Obama

 

Não está isento de culpas. Ninguém é perfeito. Aliás, no meio em que se movia, difícil seria sair imaculado. Mas, no cômputo geral, há que reconhecer: é de uma outra cepa. Entre o 44º e o 45º/47º pouca coisa há em comum. Talvez os geneticistas venham dizer que, na essência biológica, são quase iguais. Só que, nestes assuntos, as avaliações fazem-se num outro patamar.

Basta ouvi-lo para se ver os Estados Unidos sob uma outra perspectiva, para se ver o mundo sob um outro ângulo.

Obama é um orador de excelência. Os seus silêncios antecipam as palavras que se apresentam luminosas, inspiradoras. É um prazer ouvi-lo.

Obama na inauguração do centro presidencial
Discurso completo, com tradução

O ex-presidente Barack Obama discursa na cerimónia de inauguração do seu centro presidencial em Chicago.

O aguardado centro será oficialmente aberto ao público amanhã, no Juneteenth (Dia da Emancipação). O extenso complexo inclui um museu, um jardim, um campo de basquetebol e uma nova filial da Biblioteca Pública de Chicago.


0:00  Discurso do ex-presidente Barack Obama
2:27  Obama recorda a sua chegada a Chicago em 1985
8h15 Obama ao centro: Não um "mausoléu sem vida - sou demasiado novo para isso"
10h44 Obama sobre os "assuntos inacabados" do seu governo
18:14 "Sugiro que saltem os excertos dos meus discursos... em favor das histórias dos cidadãos comuns"
20h07 "Os Estados Unidos têm sido uma força inegável para o bem no mundo"
24:02 "Quando perdemos a fé uns nos outros... abdicamos do poder de decidir o nosso próprio futuro"
28:13 "As exposições neste centro não têm como objetivo evocar a nostalgia... têm como objetivo lembrar-nos de quem podemos ser"
30:18 Obama sobre a trajetória do universo moral em direção à justiça: a história da frase

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segunda-feira, junho 08, 2026

Uma entrevista a não perder

 

Falo por mim: do nazismo não tive, felizmente, conhecimento directo. O que sei, sei de ler ou ouvir. Mas sei que veio devagar, veio com apoio popular, espalhou-se perante o silêncio e a cumplicidade de muitos, se calhar, da maioria.

Daquilo a que assisto agora há muita coisa que me choca. Muita. A cobardia de quem ouve e, em vez de se levantar e virar costas, aplaude; a cobardia dos que, podendo renegar, se calam, se escudam com a diplomacia. Não fico incomodada, desagradada, revoltada apenas com os algozes, os pérfidos, os bandidos, os canalhas -- fico, quase igualmente, com os cobardes, os hipócritas, os oportunistas, os igualmente canalhas.

Assisto ao impensável nos Estados Unidos mas assisto igualmente ao impensável na Europa, ao calar-se perante as ingerências, as ameaças e as desconsiderações de Trump e da sua entourage. Assisto ao impensável por parte de Israel mas assisto igualmente ao impensável na Europa, ao calar-se, ao fechar os olhos, na prática, ao ser cúmplice de Netanyahu. Assisto ao impensável por parte da Rússia e, neste caso, assisto ao impensável por parte de todos quantos se têm manifestado a favor da deposição das armas por parte da Ucrânia. Não se extinguem aqui as ignomínias no mundo. Mas prefiro focar-me nos casos de maior dimensão, talvez pelo risco para a ordem mundial, talvez pelo risco para as democracias de todo o mundo, talvez pela quase habituação, e aceitação, da violação do direito internacional, talvez pelo risco da banalização do mal.

A entrevista que aqui abaixo partilho é apenas um caso. Mas é um caso a que não fico indiferente, e não é apenas pela emoção e pela revolta, pela tristeza que se sente nas palavras do entrevistado. Quando a imprensa, que deveria ser livre, fica nas mãos de quem apenas pensa em dinheiro, em lamber as botas do poder, em bajular os maiores inimigos da liberdade de expressão, mal, muito mal vão as coisas. Os sinos tocam a rebate pela democracia quando a imprensa livre é ameaçada.

Independentemente disso, a entrevista vale também pela qualidade da entrevistadora e do entrevistado. 

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Scott Pelley: O que aconteceu ao '60 Minutes' é uma tragédia | A Entrevista

Estreada na CBS em 1968, a emissora foi o lar de alguns dos jornalistas mais conceituados da televisão, de Mike Wallace e Ed Bradley a Lesley Stahl, Anderson Cooper e, até à semana passada, Scott Pelley.

Pelley, que trabalhou na emissora por 37 anos, incluindo como correspondente da Casa Branca, âncora do "CBS Evening News" e correspondente do "60 Minutes", foi demitido após uma série de eventos explosivos e muita turbulência nos últimos anos na CBS. Estes acontecimentos incluem um polémico acordo financeiro com o Presidente Trump sobre um segmento do "60 Minutes"; a venda da estação a David Ellison; e a nomeação de Bari Weiss, ex-colunista de Opinião do New York Times e fundadora do The Free Press, sem experiência em jornalismo televisivo, para liderar a CBS News.

A demissão de Pelley ocorreu depois de Weiss ter demitido vários de seus colegas e ter contratado um novo chefe para o "60 Minutes", Nick Bilton, com quem Pelley entrou em conflitonuma reunião de equipe. Pelley, juntamente com vários outros correspondentes do "60 Minutes" que foram demitidos, acusou Weiss de interferência editorial e parcialidade, acusações que a CBS News e Weiss negam.

Na sua primeira entrevista desde que foi demitido, Pelley conta sobre o incidente específico que considerou interferência, sobre as suas experiências na CBS News nas últimas semanas e meses e sobre o que espera que resulte deste período turbulento na emissora onde passou a maior parte de sua carreira.


Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunda-feira

quarta-feira, junho 03, 2026

Noah Eckstein, um jovem graduado em Harvard e gerado na intersecção de culturas e religiões, faz um discurso que vai lá, vai

 

Quando uma pessoa passa a ser um obstáculo ou quando alguém que não pensa ou sente como nós passou a ser um inimigo, sabe bem ouvir alguns alertas ditos por um jovem, no caso um jovem graduado de Harvard.

Seria bom que a moda pegasse e que viesse dos mais novos a vontade de voltar a colocar as pessoas, o respeito pelo ser humano, no centro de todas as políticas. Seria bom que se pusessem de acordo numa nova carta de intenções, numa nova tábua de mandamentos.

Avanço já com os que eu juraria defender:

  • Não matarás. 
  • Não destruirás a casa do outro. 
  • Não separarás famílias. 
  • Não enviarás ninguém para a guerra. 
  • Não desviarás fundos do desenvolvimento, da investigação, da ciência, da cultura e da paz para os gastar na guerra. 
  • Não desejarás território alheio. 
  • Não mentirás para justificar os teus maus actos. 
  • Não quererás enriquecer quando isso implica deixar alguém na miséria. 
  • Amarás os outros mesmo quando não pensam como tu e não são destilam e praticam a maldade
  • Acolherás os outros, mesmo quando nasceram noutros lados e têm a pele de cor diferente da tua. 
  • Pensarás no futuro e na felicidade das pessoas antes de tomar decisões que os possam comprometer
Noah Eckstein não fala nestes mandamentos mas, de certa forma, estão subjacentes a uma cultura de bondade e de inclusão, de democracia e  de liberdade.

Vale a pena assistir ao vídeo.

Noah Eckstein profere o discurso de formatura | Cerimónia de Formatura de Harvard 2026


Desejo-vos um belo dia

terça-feira, abril 28, 2026

Transparência, opacidade, independência, submissão e etc. -- e democracia

 

Não é uma questão de saber se a casa de um político tem elevador e meia dúzia de casas de banho -- e porque será que este exemplo, como diria o Montenegro, se aplica como uma luva ao criador da Spinumviva? -- ou de espreitar para os bolsos deste ou daquele ou de cusquice vã. Não senhor, nada disso. É mesmo ter a certeza de que a democracia funciona a bem dos cidadãos e não de grupos e grupinhos, é ter a certeza de que a política não está aprisionada por interesses que não privilegiam o bem da sociedade no seu todo mas, apenas, obter vantagens que passam por contornar a lei para enriquecimento ilícito ou de uma pequena minoria.

Nestas coisas, antes de me pôr a tecer considerações, gosto de me informar e de aprender com as experiências alheias.

E agora, com as extraordinárias ferramentas da Inteligência Artificial, é fácil fazer comparações. Claro que nisto, como já o era nos motores de busca, a chave está em fazer as perguntas certas. Ora, o que devemos saber para ficarmos com a ideia mais aproximada daquilo sobre o qual pretendemos formar opinião? Aí reside a dificuldade.

Neste caso, o que eu quero saber é qual o modelo de financiamento da actividade pública que melhor defende os interesses da população. 

Como casos de comparação, resolvi obter informação sobre os Estados Unidos (em que, no caso extremo e corrupto do regime trumpista, se percebe como os grandes doadores, as Metas, Teslas, Open AI, Amazon, empresários israelitas, etc, na prática mandam nos EUA -- e, por essa via, também, em parte no mundo), sobre os países nórdicos (em que há sociais-democracias, que me interessa conhecer melhor) e, talvez como contraponto, a Suiça (que, em quase tudo, corre em carris muito lá dela).

O que abaixo se pode ser é o que o Gemini (versão gratuita) respondeu às minhas questões:


1. Política e Democracia: Do "Big Money" à Democracia Direta


A forma como o poder é financiado define quem manda no país.

  • EUA: O sistema de "venda ao melhor licitante". As campanhas são máquinas de gastar dinheiro privado, criando uma elite política refém de doadores.

  • Países Nórdicos: Baseiam-se na transparência radical. O financiamento é maioritariamente público. Na Suécia, por exemplo, o foco é a igualdade de oportunidades para os partidos; o dinheiro privado é limitado para evitar que a riqueza distorça o debate.

  • Suíça: É o caso mais curioso. Sendo um centro financeiro, a Suíça tem menos financiamento público direto que os vizinhos, mas o seu "segredo" é a Democracia Direta. Como o povo pode votar em referendos sobre quase qualquer lei, o poder dos lobistas é diluído: não basta convencer um político; é preciso convencer a população.

2. Infraestruturas e Bem Comum


Quem decide onde se constrói a próxima ponte ou linha de comboio?

  • EUA: O modelo é de exploração. Muitas vezes, o Estado só consegue avançar se houver um interesse comercial privado por trás, o que gera desertos de infraestrutura em zonas pobres.

  • Países Nórdicos: O Estado é o arquiteto. As infraestruturas são vistas como a base da produtividade. O financiamento vem de impostos elevados, mas o retorno é visível em transportes públicos impecáveis que servem toda a gente, não apenas quem pode pagar.

  • Suíça: Um modelo híbrido de alta eficiência. O investimento em infraestrutura (especialmente ferroviária) é massivo e financiado publicamente, mas gerido com um rigor empresarial que faz inveja aos privados americanos.

3. Educação e Ascensão Social


O papel das universidades na perpetuação da elite.

  • EUA: As universidades são empresas. Os endowments bilionários de Harvard ou Stanford vêm de doações de magnatas, criando um ciclo onde os ricos financiam as instituições que educam os seus próprios herdeiros.

  • Países Nórdicos: A educação é um investimento público total. Do jardim de infância ao doutoramento, o custo é zero (ou quase zero). O objetivo é que o filho do operário e o filho do CEO estudem na mesma sala, financiados pelo Estado.

  • Suíça: Foca-se na qualidade e no ensino dual (profissionalizante + académico). As universidades públicas (como a ETH Zurich) são das melhores do mundo, têm propinas muito baixas e são financiadas pela Confederação, garantindo que a inovação não dependa de caridade privada.

4. Coesão Social vs. Filantropia


  • EUA (Filantropia): Se um milionário decide financiar uma ala de um hospital, ele é visto como um herói. O problema é que o milionário escolhe o que financiar, substituindo a vontade democrática pela sua preferência pessoal.

  • Países Nórdicos (Estado Social): Não esperam pela caridade. O contrato social dita que todos contribuem para que todos recebam. A saúde e o apoio social são direitos garantidos, não favores de patronos.

  • Suíça (Responsabilidade Individual e Coletiva): A Suíça equilibra isto com um sistema de seguros obrigatórios e uma forte descentralização (Cantões). O dinheiro fica perto do cidadão e a gestão é local, o que impede que grandes fortunas comprem decisões federais.


Comparativo de Modelos

CaracterísticaEstados UnidosPaíses NórdicosSuíça
Motor do SistemaCapital PrivadoEstado SocialDemocracia Direta
Financiamento PolíticoPrivado (Ilimitado)Público (Transparente)Misto (Focado no Cidadão)
Educação SuperiorNegócio / ElitistaDireito / GratuitaExcelência Pública / Acessível
InfraestruturaDependente de LucroPlaneamento EstatalEficiência Coletiva

Nota de Contexto: Enquanto nos EUA o poder económico domina a política, nos Nórdicos o poder político regula o económico e na Suíça o poder do cidadão (via voto direto) trava ambos.

Transparência

A transparência financeira é, talvez, a maior linha divisória entre estes sistemas. Enquanto nuns o dinheiro é um "segredo protegido", noutros é um "livro aberto".

Aqui está como funciona o acesso à informação sobre quem paga as contas da política:


1. Estados Unidos: O Labirinto do "Dark Money"


Nos EUA, a transparência existe no papel, mas é facilmente contornada.

  • Transparência Nominal: As doações diretas a candidatos (limitadas a valores baixos) são públicas e registadas pela Federal Election Commission (FEC). Qualquer pessoa pode pesquisar quem doou a quem.

  • O Problema do "Dark Money": O grande volume de dinheiro passa pelos Super PACs e organizações sem fins lucrativos (501(c)(4)). Estas entidades podem gastar milhões em propaganda política sem nunca revelar a identidade dos seus doadores originais. É aqui que os milionários e as corporações escondem a sua influência.

2. Países Nórdicos: A Cultura do Aquário


Nestes países, a premissa é que se queres influenciar o público, o público tem o direito de saber quem és.

  • Suécia e Noruega: As leis de transparência são extremamente rigorosas. Os partidos são obrigados a publicar relatórios detalhados. Na Noruega, por exemplo, existe um portal online onde qualquer cidadão pode consultar as receitas dos partidos, discriminando o que é público e o que é privado.

  • Cultura de Escrutínio: Mais do que a lei, a pressão social é enorme. Se um político recebe uma doação avultada de uma empresa privada, isso é notícia de primeira página e visto como um conflito de interesses quase imediato. O anonimato em doações políticas é praticamente inexistente.

3. Suíça: A Exceção Histórica (em Mudança)


Até muito recentemente, a Suíça era curiosamente um dos países menos transparentes da Europa nesta matéria.

  • O Passado: Durante décadas, o financiamento político era considerado uma questão de privacidade pessoal. Não havia leis federais que obrigassem a revelar os doadores.

  • A Mudança (2022/2023): Após pressões internacionais e internas, a Suíça implementou novas regras. Agora, para eleições federais, os partidos devem declarar doações superiores a 15.000 francos suíços. Embora seja um passo em frente, ainda é um sistema mais "fechado" do que o nórdico, refletindo a cultura suíça de discrição financeira.

4. Democracias Europeias Consolidadas (Portugal, Espanha, França)


  • Regras Estritas: Nestes países, as doações de empresas (pessoas coletivas) são geralmente proibidas. Apenas cidadãos individuais podem doar, e até um teto máximo relativamente baixo.

  • Publicação Obrigatória: As contas dos partidos são auditadas por entidades independentes (como o Tribunal de Contas em Portugal) e publicadas em Diário da República ou nos sites das instituições. Saber quem doou 1.000€ a um partido é uma questão de consulta pública.


Comparação de Transparência

RegiãoAs doações são públicas?Existem doadores "anónimos"?
EUAParcialmente (Transparente nos candidatos, opaca nos Super PACs)Sim, em larga escala (Dark Money).
Países NórdicosSim, quase totalmente.Praticamente impossível.
SuíçaAgora sim (acima de 15k CHF).Sim, para valores pequenos e locais.
Resto da EuropaSim, com limites baixos por pessoa.Não, empresas estão proibidas de doar.

Onde está o perigo?


Onde as doações são públicas mas os limites são inexistentes (EUA), o risco é a captura do regulador: o político trabalha para quem financiou a sua campanha.

Onde as doações são privadas e anónimas (como era na Suíça ou é no Dark Money americano), o risco é a corrupção invisível, onde o eleitor nem sequer sabe a quem o seu representante deve favores.

quinta-feira, abril 23, 2026

"Isto está a acontecer agora!": O grito de alerta de Bruce Springsteen

 

A cantiga é uma arma. A palavra é uma arma. Springsteen sobe ao palco e a sua presença e a sua voz enchem a arena. Todos os que o escutam sentem-se unidos, membros do mesmo exército, prontos para a luta, para resistir.

Resistir. 

No seu recente concerto no Prudential Center, Bruce Springsteen fez uma pausa na música para fazer um dos discursos mais políticos e contundentes da sua carreira. Sob o título "This Is Happening Now", o músico não poupou críticas e deixou um apelo directo ao coração da democracia.

Aqui fica a transcrição possível das suas poderosas palavras:

Sobre a Crise Nacional e a Verdade:

"Estamos a viver tempos conturbados. Os nossos valores americanos, que nos sustentaram por 250 anos, estão a ser desafiados como nunca antes. (...) Os nossos museus estão a ser instruídos para branquear a história americana, ocultando factos desagradáveis ou inconvenientes, como a história completa da brutalidade da escravatura. Dizem que há 'flocos de neve' (sensíveis), mas a verdade é que temos um presidente que não consegue lidar com a verdade."

Sobre a Justiça e a Corrupção:

"O nosso Departamento de Justiça deitou fora a sua independência; limita-se a receber ordens diretamente de uma Casa Branca corrupta. Eles perseguem os supostos inimigos do presidente, encobrem os seus crimes e protegem os seus amigos poderosos. Isto está a acontecer agora."

Sobre o Papel no Mundo e a NATO:

"Minámos a NATO. A ordem mundial que nos manteve seguros e em paz global durante 80 anos está sob ameaça. Ameaçamos os nossos bons vizinhos e aliados, cujos filhos e filhas lutaram ao nosso lado em guerras americanas — países como o Canadá e os Países Baixos. Ameaçamo-los com a anexação predatória das suas terras."

O Declínio da Reputação Americana:

"Esta Casa Branca está a destruir a ideia americana e a nossa reputação no mundo. Para muitos, já não somos vistos como aquele defensor, por vezes imperfeito mas forte, da democracia. Já não somos a 'terra dos livres' ou o 'lar dos corajosos'. Para muitos, somos agora a 'América, a Imprudente' — uma nação pária, imprevisível e predatória. Este é o legado desta administração."

O Apelo Final à Decência:

"Honestidade, honra, humildade, verdade, compaixão, humanidade e moralidade... não deixem que ninguém vos diga que estas coisas já não importam. Elas importam! Elas estão no cerne do tipo de homens e mulheres que somos e do tipo de país que vamos deixar aos nossos filhos."

Springsteen concluiu com uma convocação:

"Tantos dos nossos líderes eleitos falharam connosco que esta tragédia americana só pode ser travada pelo povo americano. Por vocês. Juntem-se a nós e vamos lutar pela América que amamos. Estão connosco?"

 Bruce Springsteen's "This Is Happening Now" 2026 Speech at the Prudential Center


domingo, abril 12, 2026

Peace over war!

 

O Boss entra e, com o seu vozeirão, grita as palavras que unem os que resistem ao crescente e demencial fascismo de Trump. 

Com todo o seu eletrizante power, o Boss solta as palavras que todos querem ouvir, o grito que traz a esperança de que o bem vingará sobre o mal, de que os tempos felizes avançarão sobre estes tempos de chumbo. Quando, no fim, grita que a paz vencerá sobre a guerra é uma descarga de adrenalina que incendeia a multidão. 

Trump, naqueles seus posts nocturnos, quando a demência aperta e os filtros desaparecem, incitou ao boicote aos seus concertos, apelidou Bruce Springsteen de medíocre, de perdedor, de ameixa seca e de toda a espécie de parvoíces que a sua bílis decadente verteu. 

Claro que isso motiva ainda mais o Boss e os muitos que se reveem no seu grito de guerra ao fascista, ao pretenso rei cor-de-laranja, ao demente que, a um ritmo alucinante, tem vindo a minar a democracia americana e a lançar o mundo num estado caótico. É como se todos fossem um só corpo a afirmar a força da resistência.

Gostava muito de estar num daqueles concertos para também poder gritar a plenos pulmões: 

Democracia sobre o autoritarismo

Estado de direito sobre a ilegalidade

Ética sobre corrupção

Resistência sobre a complacência

Verdade sobre a mentira

Humanidade sobre a divisão

Paz sobre a guerra

 

Bruce Springsteen & The E Street Band   -- Introdução e War

quinta-feira, abril 09, 2026

Sobre o que o estúpido que tem a memória e a cor de um peixe dourado e a sua turma de estúpidos andam por aí a fazer

 

Não há qualquer racional em nada do que se passa. Qualquer. Bola. Zero.

Durante uns tempos, nas empresas, estava na moda o 'racional'. Qual é o racional? Era a pergunta que se fazia. Não havia apresentação que não se estruturasse em torno do racional. Claro que, só por ser moda, já eu fugia a sete pés de usar a expressão. 

Mas agora, ao ver o desconchavo permanente, só me apetece dizer que aquilo a que se assiste é a coisa mais irracional a que já alguma vez se assistiu. Por muitas perspectivas pelas quais se olhe, não há qualquer racional.

Um fulano que nunca foi bom da cabeça e que agora, em cima do fraco intelecto e da distorção de personalidade, está demente ser o presidente dos Estados Unidos é daquelas coisas que, se fosse ficção, seria delirante.

Mas é verdade. Não é ficção. 

E tão perturbante como ver a democracia a ser destruída naquele país e o mundo a ser sugado por um buraco negro é ver como ainda há anormais, tão ou mais estúpidos que ele, que, por lá, por cá e por onde calha, continuam a apoiá-lo. E os que não o apoiam, republicanos não MAGA, mas que não mexem uma palha, por cobardia ou receio de perderem o poder, são igualmente deploráveis. Hoje vi que agora até ameaçaram o Papa. Como o Papa o tem criticado, estão furiosos e, como sempre, não param para pensar- Mas ameaçar o Papa? Onde é que já vamos? É que tantas fazem que já nem dá para acreditar. 

Esta história do cessar fogo que não é cessar fogo coisa nenhuma, é um arremedo de coisa em forma de assim, um conjunto de medidas que o Irão impôs e que o palhaço cor de laranja aceitou -- certamente sem sequer saber o que estava a aceitar, deserto que estava por sair da saia justa em que a sua cabeça desgovernada o tinha metido -- é mais um episódio da fantochada circense que aqui está armada. É que ainda poderia parecer que aquilo era uma coisa assim a modos que mais ou menos. Isto se nos abstrairmos do curioso facto de agora ser o agredido a mostrar que é quem manda, e o agressor, feito caniche que já só quer é ver se consegue abocanhar algum bocado de osso, por exemplo uma percentagem das portagens no estreito de Ormuz, a andar a toque de caixa. Foi à monda e saiu mondado. O pior é o criminoso Netanyahu, que vive de espalhar sangue e que se alimenta do pó da destruição, que não consegue parar de atirar mísseis. Não sei de onde lhe vem tanto dinheiro para tanto material de guerra nem sei como consegue manter-se incólume no meio da desgraça que tem trazido àqueles territórios -- mas isso são outros quinhentos, como sói dizer-se. Mas, portanto, enquanto uns quererem fazer crer que se deu um belo passo a caminho não se sabe bem de quê, está aquele assassino a mostrar que se está bem a marimbar para tudo o que não seja escaqueirar tudo à sua volta a ver se abocanha mais um bocado de terra. Um gémeo separado à nascença de Putin.

Mais uma vez, onde ouço as análises mais interessantes para o caos e para o bailinho que está globalmente armado é nas conversas entre Joanna Coles e o muito bem informado Michael Wolff. Esta conversa foi gravada na terça feira antes de Trump ter, de novo, e neste caso ainda bem, demonstrado que TACO. Mas toda a conversa é actual e muito reveladora de como tudo aquilo funciona.

O que é mais em cima do acontecimento e igualmente imperdível é a reacção de Jimmy Kimmel, gravada já depois de Trump ter enfiado o rabo entre as pernas (vamos ver por quanto tempo, que aquilo ali, bicho maluco, cruel e desencabrestado, nunca será de fiar). Divertido, certeiro, implacável, assim é sempre Jimmy Kimmel. Não admira que Trump o odeie. Mas com as raivinhas de Trump pode ele bem. Começo por partilhar a sua intervenção sobre o Dia-D de Trump, D de Demência, claro.

Trump acobarda-se (chickens out) depois de ameaçar toda uma civilização com a morte, e até os lunáticos o acham louco.

Hoje foi o prazo final dado por Trump para o Irão abrir o Estreito de Ormuz ou ser bombardeado. Publicou esta manhã que, se não concordassem, "uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta". Felizmente, era terça-feira de tacos e ele decidiu não abandonar a chalupa durante pelo menos mais duas semanas. Ninguém parece fazer ideia de qual é o plano dele. Alguns membros proeminentes da comunidade de lunáticos estão a pedir a sua remoção através da 25ª Emenda. Lindsey Graham participou no programa de Hannity para dar o seu total apoio à guerra. Bill Gates e Howard Lutnick foram intimados a depor perante a Comissão de Supervisão da Câmara sobre Epstein. O Procurador-Geral interino, Todd Blanche, falou sobre se gostaria ou não do cargo a tempo inteiro. Trump falou com a tripulação da Artemis II e o congressista Tim Burchett disse ao TMZ que viu provas de vida extraterrestre. E JD Vance tem aprimorado as suas capacidades de oratória e comédia!

E agora o Daily Beast, a impagável dupla Joanna Coles e Michael Wolff, Dentro da Cabeça de Trump

O verdadeiro motivo pelo qual Trump nunca irá recuperar: Wolff | InsideTrump's Head

Michael Wolff junta-se a Joanna Coles enquanto Donald Trump intensifica o seu bluff mais perigoso até à data, ameaçando a destruição a uma escala nunca vista desde a Segunda Guerra Mundial, encurralado por uma guerra que prometeu nunca iniciar. As ameaças tornam-se mais elevadas à medida que as opções diminuem: o Irão aperta o cerco ao estreito de Ormuz, a instabilidade global do petróleo aumenta e o presidente do "não às guerras intermináveis" vê-se preso na guerra que ele próprio iniciou. Wolff defende que o caos é agravado por um círculo cada vez mais reduzido de apoiantes leais, desprovidos de poder de decisão, um nervoso JD Vance a estar discretamente posicionado para absorver a culpa e um mundo pró-Trump já a preparar-se para as consequências políticas. Wolff sugere que este é provavelmente o início do seu fim: um presidente que intensifica as ameaças porque está encurralado e uma base dividida a clamar por rebelião.
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E, se vos apetecer desanuviar, aconselho-vos a descer um pouco mais. 
Quando duas mulheres inteligentes se põem à conversa o melhor a fazer é ficar a ouvir

Receita anti-Trump

 

Não consigo ter disponibilidade anímica para aceitar que o mundo inteiro fique em suspenso das decisões de um demente que deveria estar internado, e que não faça nada. Milhares de pessoas assassinadas, uma destruição tresloucada e absurda, o mundo atirado para uma instabilidade descontrolada, os combustíveis em preços loucos o que vai puxar todos os preços para cima, a ver se ainda não nos vemos enterrados numa recessão, a vida a andar para trás, os terroristas a parecerem sensatos e os supostos civilizados a mostrarem-se uns terroristas do pior que há -- e aparentemente parece que ninguém consegue fazer nada de útil para nos salvar desta gaiolas de malucos.

Se calhar daqui a nada ainda mostro um ou outro vídeo em que se fala sobre o assunto, mas, para já, não tenho saco. Chega a uma altura em que só me apetece dar um murro na mesa: já chega. Já chega de tanto estúpido. Já chega de tanta depravação. Caraças, já chega. 

No Instagram mostro os meus passeiozinhos pelo campo, falo de coisinhas nenhumas, e só me apetece alhear-me dos ventos insalubres que nos assolam. Ando pelo meio do verde, à chuva e ao vento, outras vezes ao sol, a varrer em fato de banho, e estou na maior. Aqui nem me apanha, penso eu, como se fosse um refúgio à prova de todo o mal do mundo.

Agora, por exemplo, entretenho-me de gosto a ver o encontro de duas mulheres incomuns. Meryl Streep já interpretou Anna Wintour e, quando se encontram, não apenas revelam uma cumplicidade quase enternecedora, uma afinidade de percepções, como mostram que se admiram. E é bom a gente deter-se em momentos assim. Eu, pelo menos, assim acho. Ou melhor, preciso de coisas assim.

Caraças, haja alguma serenidade, algum gosto em conversar, em partilhar experiências.

Meryl Streep encontra-se com Anna Wintour na Vogue

A dupla tem uma conversa franca e abrangente, repleta de humor e perspicácia. Muitos assuntos são revelados, desde os Papéis do Pentágono e a investigação de Mueller, o assédio sexual e o empoderamento feminino, até ao que Meryl e as filhas conversam à mesa de jantar.


quarta-feira, abril 01, 2026

A democracia não é um substantivo, é um verbo

 

Vou ao supermercado e, quando vejo a conta, fico sempre espantada, a admitir que alguma coisa passou várias vezes ou com o preço muito errado. E, quando verifico, confirmo: aqueles preços estão todos errados, altos demais. De uma semana para a outra verifico que alguns produtos deram um salto. Não compro artigos de luxo ou desnecessários e, no entanto, a conta é exorbitante. Só penso nas pessoas com famílias grandes a seu cargo, nas pessoas com fracos rendimentos. A vida vai tornar-se mais difícil. Quando atestamos o depósito, o valor assusta. Poderíamos usar menos o carro, claro. É a recomendação inteligente da UE e de toda a gente que antevê o que ainda aí vem. Mas nem sempre os transportes vão onde queremos ou, se vão, podemos levar uma hora ou mais em mudanças de autocarro pois daqui não há transportes directos para os lugares que frequentamos habitualmente e, de carro, são quinze minutos. De qualquer forma, seria inteligente que o nosso governo começasse a fazer campanhas vigorosas  para incentivar o uso de transportes públicos. Poderá haver uma altura em que, em algumas famílias, o comodismo terá que ser posto de lado em favor do equilíbrio financeiro.

O tema da inflação e do ajustamento das taxas de juro vai ser um garrote para muita gente e, tanto mais, quanto mais esta crise durar e, ainda mais, para quem tem compromissos bancários em curso. Ainda ontem, no texto que escreveu, o meu marido referiu que grande parte dos empréstimos bancários contraídos nos últimos tempos implicam uma taxa de esforço da ordem dos 40 a 50%. Aumentando a taxa de juro, ainda mais difícil será o dinheiro chegar para a prestação e para o resto. Já para não falar em que a maioria dos empréstimos entalam os contraentes até aos 70 anos. Um disparate. É com endividamentos assim que, de vez em quando, ao subirem as taxas de juro, rebenta a bolha imobiliária e muita gente fica apeada, sem casa.

Vamos ver como vai o governo ajudar as famílias. Para já, muito aquém do que Pedro Sanchéz fez.

Trump meteu-se numa ratoeira sem saber ao que ia. Um idiota à solta, cheio de poder e rodeado de idiotas lambe-cus é um perigo maior do que se pode imaginar.

Ao fim de um mês, dizem que está farto da guerra, que já não tem saco para aquilo. Era para ser uma excursão de poucos dias, chegava lá, atirava uns tiros, sacava o Ayatola, e já estava. Segunda obliteração. Sucesso fantástico, o maior sucesso de sempre. Afinal, pelo contrário, percebe que aquilo está tudo ensarilhado, os generais a quererem explicar-lhe coisas... e ele sem pachorra. Não tem paciência para se manter muito tempo agarrado ao mesmo assunto, muito menos de gaitadas que dão para o tordo, fica furioso, enraivecido com os vídeos que os iranianos todos os dias soltam a gozar com ele, chamam-lhe looser, falam nas suas fraldas, riem das suas mentiras ridículas. Ora ele não quer ouvir isso, quer é falar do salão de baile, janelas muito grandes, cortinados dourados, tudo dourado, ou pôr-se velhacamente a caminho de Cuba, mais um país conquistado, mais um sucesso, ou mostrar o projecto megalómano da agora inventada torre-biblioteca Trump em Miami, gigante, vidros, dourados, o nome dele em dourado a quase toda a altura. 

Entretanto, para ver se pega, e junto dos broncos da MAGA pega com certeza, agora diz que já mudou o regime do Irão, que já matou uma rodada deles, depois outra rodada, que já não há lá ninguém que mande, que assim é que ele gosta, e que já obliterou a armada, a artilharia, a aviação, tudo obliterado. Todo um regime que, segundo ele, já foi à vida. E que também não precisa do Estreito de Ormuz para nada, quem precise de petróleo que lá vá buscá-lo, que ele se está bem a caguar para isso (note-se: caguar, com u, que sou moça fina). Nem precisa da NATO, a NATO é um tigre de papel, diz que é ele e o seu bro Putin a acharem isso. Portanto, NATO também ao fundo, e ainda poupa dinheiro que se farta. Portanto, por ele está feito. Só vitórias. Vitórias duplas, triplas, huge vitórias, vitórias nunca vistas

Só que não. 

Só que vai ter uma surpresa: os iranianos vão deixar barato o estrago que ele fez. O que ele destruiu levará anos a ser reconstruído. E os iranianos querem que seja ele a pagar. E, depois, o fluxo de mercadorias, incluindo o petróleo, foi interrompido de forma crítica. Vai levar tempo a repor a normalidade da situação. É como depois de resolvido um acidente: passado muito tempo ainda o trânsito não escoou. O efeito de acumulação é tramado (a matemática dá uma ajuda a explicar isso). E depois há as mortes que o Irão já anunciou que vai querer vingar. Mártires para serem vingados é o que agora não falta. Portanto, mesmo que o idiota cante vitória e dê de frosques, as coisas continuarão ensarilhadas, a diversos níveis, por muito tempo.

E depois, ao mesmo tempo que dá mostras de se querer pirar de qualquer maneira, Trump, só para baralhar um pouco mais, ameaça que vai praticar toda a espécie de crimes de guerra, destruindo instalações indispensáveis à vida. Não tem vergonha na cara, não tem respeito pelos tratados internacionais (que nem conhece, acho eu), não tem tino. E, pior, não há gente com cabeça que o puxe para a razão -- secou tudo à sua volta, só restaram idiotas, tarados, radicais musculados e descerebrados, bêbados, tóxicómanos.

Ou seja, não há dia em ele não prove à saciedade que é um idiota que alguém deveria enfiar numa camisa de forças e levá-lo, à força, para uma qualquer casa de doidos. 

Antes desta estúpida ofensiva do idiota Trump, o Estreito de Ormuz estava aberto, os mercados estavam estáveis. Depois de milhares de mortes e de uma destruição tresloucada, tudo se estragou. Foi o que o idiota conseguiu.

E depois há Israel. Netanyahu sabe que andou a cutucar a fera com vara curta. O que fez, vai sair-lhe caro. Israel vai querer fazer ao Irão o que está a fazer em Gaza e ao Líbano, varrer tudo, não deixar pedra sobre pedra. Quem é que o vai parar?

Pode ser que um punhado de pessoas inteligentes e bem intencionadas, decentes, não corruptas, não egocêntricas, se junte e engendrem uma solução de compromisso para tentar recompor minimamente o que foi tão estragado. Só me ocorrem aquelas anedotas: um chinês, um alemão e um alentejano juntam-se e ... (e é sempre o alentejano que tem a saída mais prosaica embora aparentemente mais parva). Adiante. É que o drama é que, falando a sério, não se está a ver bem quem, como, quando. Mas era bom.

Seja como for, numa salganhada destas, com um caldo entornado desta boa maneira, vai levar muito tempo a repor a anterior normalidade. E há muitos danos colaterais. Por exemplo, a Rússia a ganhar pipas de massa com o aumento do preço do petróleo fica com folga orçamental para continuar a massacrar a Ucrânia. Ou Israel, no meio desta confusão toda, aproveita para se radicalizar ainda mais, voltando à pena de morte, desta vez selectiva. Uma cambada desencabrestada.

Pasmamos com tudo, isto pois, pelo menos eu, na minha inocência, sempre julguei que as democracias tinham mecanismos de defesa. Não têm. Em pouco tempo, Trump demonstrou que pode fazer o que quer sem que ninguém o consiga impedir.

Tal como Putin o fez. Tal como Netanyahu. Fazem o que querem. O mundo assiste, impotente. A democracia é frágil. Não é um bem adquirido. Tem que ser regada, alimentada, cuidada, protegida, defendida. Quando se descura isso, é o que se vê: abre-se a caixa de Pandora de onde saltam monstros, demónios, bicheza maligna de toda a espécie.

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Mais uma vez, Joanna Coles conversa com quem conhece por dentro a sociedade e os meandros do poder americano, David Rothkopf. É muito interessante e elucidador ouvi-los. Com a graça de que, como inteligentes que são, têm um sentido de humor delicioso.

Recomendo, vivamente, que vejam o vídeo.

Eu sei porque Trump continua a cometer erros: Rothkopf | Podcast do The Daily Beast

David Rothkopf e Joanna Coles analisam uma semana de crescente tensão global e caos político, desde protestos em massa nos Estados Unidos à perspectiva muito real das tropas norte-americanas em solo iraniano, enquanto os especialistas alertam que a situação pode agravar-se rapidamente. Rothkopf oferece uma avaliação mordaz do estilo de liderança de Trump — guiado pela perceção em detrimento da estratégia — enquanto Coles destaca os riscos de rodear o poder de inexperiência e ego. Juntos, ligam os pontos entre a história, a realidade militar e as decisões perigosas que se desenrolam em tempo real, expondo porque é que as ameaças isoladas raramente funcionam e como este momento pode remodelar o papel dos Estados Unidos no palco mundial. É uma conversa perspicaz, com um humor ácido e profundamente sóbria, que culmina numa conclusão arrepiante sobre o que pode acontecer a seguir.


Como o vídeo é um pouco longo, caso queiram ouvir alguns pontos em específico, deixo o link (nos minutos) para esse ponto, directamente no youtube.

00:00 - Abertura Brutal: “Gabinete de Idiotas”
03:03 - Protestos Massivos e um Alerta para a Democracia
06:08 - Porque é que a Democracia é “Um Verbo”
08:02 - Trump, a Verdade Social e as Ameaças do Irão
11:05 - O Perigoso Plano do Urânio Explicado
14:45 - Porque é que os Especialistas Temem uma Guerra com o Irão
18:04  - Corrupção, Acordos e Questões sobre Kushner
21:05 - Religião, Guerra e a Controvérsia de Hegseth
24:17 - Porque é que Trump Promove a Incompetência
27:03 - Trump é Realmente Estratégico?
30:30 - O caos no FBI e o ataque hacker a Kash Patel
33:06  - "Vermes Cerebrais" e críticas ao Gabinete
35:12 - Riscos Globais e o Estreito de Ormuz
36:41 - Americanos reais a sentir o impacto
39:04 - Sinais de alerta económico aumentam
41:15 - China, IA e os EUA a ficarem para trás
42:34 - A expansão extravagante da Casa Branca de Trump
45:10 - Bilionários, poder e influência
47:19 - A vida depois de Trump: o que se segue
49:09 - Agradecimento aos ouvintes e comunidade
50:43  - Porque é que este podcast ressoa
51:24 - Considerações finais e o que vem aí

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Desejo-vos um dia bom

sábado, março 28, 2026

Mulheres palestinianas e israelitas descalças, de mão dada, pedindo a paz -- para que os seus filhos não matem nem sejam mortos
E que este sábado, 28 de Março, as ruas americanas transbordem de millions and millions a protestar contra Trump

 

Todos os países que desencadeiam guerras são governados por homens. Não que todos os homens sejam belicistas, claro, claro que não. Muito menos se pode inferir que todos os homens têm tendências imperialistas, que são insensíveis ao sofrimento, que são assassinos. Nem pensar. Tenho a certeza que, felizmente, são uma minoria. Mas, nos que pertencem a essa minoria, há com certeza alguma correlação entre terem esses traços e a testosterona. Putin, Netanyahu, Trump -- são disso exemplo, e só para referir casos recentes, cujos actos bélicos estão a desestabilizar o mundo.

No meio deste ambiente frenético em que os mísseis e os drones cruzam os céus, com tanta gente a morrer e tantas cidades a serem destruídas, com a economia alterada e o futuro ameaçado, quase nos esquecemos que a maioria da população é feminina. 

E, enquanto ainda dura a chacina que se verifica em Gaza (e que não vai acabar enquanto Israel não dispuser do território limpo para poder começar a construir a Riviera idealizada por Trump, Jared Kushner e amigos, e, com tudo devidamente higienizado e produtivo, anexado a Israel), eis que mulheres da Palestina e de Israel se juntam em Roma e, descalças, marcham e cantam pela paz.


Seria bom que em todo o mundo -- em todo o mundo, repito -- houvesse manifestação de mulheres pela paz. As mulheres todas na rua, marchando pela paz. Milhões de mulheres. Para que os nossos filhos não matem nem sejam mortos. Sem bandeiras, sem símbolos territoriais ou religiosos. Apenas as mulheres, com vestes simples, com uma echarpe que simbolize a harmonia e a união entre os povos. 

Não sei quem pode convocar manifestações assim mas penso que seria importante que alguém conseguisse fazê-lo. Aqui fica o meu humilde apelo. Contra o belicismo de uns e a cobardia de outros, que as mulheres descessem à rua e fizessem ouvir a sua voz.

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Mães israelitas e palestinianas marcham descalças por Roma num apelo conjunto à paz

As mães israelitas e palestinianas caminharam lado a lado por Roma, na terça-feira, num poderoso apelo conjunto à paz, liderado pelas nomeadas para o Prémio Nobel da Paz, Yael Admi e Reem Al-Hajajreh. Centenas de pessoas juntaram-se à marcha descalça, atravessando o centro da cidade, desde o Ara Pacis até ao Terraço do Pincio.

A "Caminhada Descalça: Apelo das Mães pela Paz" contou com o apoio da administração da cidade de Roma, com uma apresentação coral realizada na Piazza del Popolo. Admi disse que as mães de Israel, Palestina, Líbano e Irão partilham uma exigência: que os seus filhos não morram nem matem.

As duas activistas deverão reunir-se com o Papa Leão XIII na quarta-feira, no âmbito da sua visita a Roma, acrescentando uma importante dimensão diplomática à sua missão de paz.


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Já agora:

Desejo também que, nos Estados Unidos, este sábado seja marcado por uma enchente nunca vista, muitos milhões de pessoas nas ruas de todas as cidades (mais que os 7 milhões da última manif), na manifestação NO KINGS


E cá está o Boss, Bruce Springsteen, a fazer o apelo. E com que intensidade o faz. Vejam até ao fim, ok? 


E vejam também o grande Robert de Niro, o respeitabilíssimo Robert de Niro, a fazer o mesmo apelo

Robert De Niro convoca o maior protesto da história americana para 28 de março: "NO KINGS"


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Um bom sábado

Saúde. Paz.

quarta-feira, março 11, 2026

Este aqui faz-me lembrar imenso um colega que tive, jovem, elegante, bonito, muito certinho, muito competente, muito racional, que só dizia coisas acertadas, que até conseguia defender posições inconvenientes... mas sempre com ar de quem não partia um prato

 

O circo permanentemente armado em que Trump se sente bem e em que, simultaneamente, é o mestre de cerimónias, o palhaço, o ilusionista, o tipo que vende os bilhetes, o patrão e, ao mesmo tempo, o que não resiste a meter parte do dinheiro ao bolso, faz com que meio mundo tente interpretar os seus actos e as suas palavras ou as suas verdadeiras motivações. Pouca coisa bate certo nele. O que diz no início da frase pode ser oposto ao que diz no fim, o que faz pode ser dissonante face ao que anuncia. Desconcerta, causa repulsa e, ao mesmo tempo, atrai atenções.

Tenho visto o que diz a sobrinha, o biógrafo, o antigo colaborador, jornalistas experientes, congressistas batidos -- e uma coisa é comum a todos: sempre que falam, a emoção envolve o raciocínio. As pessoas mostram-se chocadas, horrorizadas, outras vezes quase divertidas. 

Mas não Jake Auchincloss, congressista, democrata, com um CV irrepreensível e, ao contrário de grande parte dos congressistas democratas que estão quase a cair da tripeça, apenas com 38 anos. 

Como escrevi no título, Jake Auchincloss faz-me imenso lembrar um colega. Depois de ter saído, para a reforma, o director experiente e altamente confiável que o antecedeu, a empresa recrutou uma empresa internacional de head hunters para arranjar alguém a quem se pudesse entregar uma área muito crítica e que fosse bem aceite pelos colegas, gente muito sénior e experiente que formavam uma equipa coesa.

Apareceram-nos com um 'puto'. Menino bem, diríamos que beto, alto, magro, bonito, elegante, sóbrio até dizer chega, certinho da cabeça aos pés, sempre com aquele ar muito lavadinho de quem acabou de sair do banho. Olhámos para ele um pouco cépticos. Fosse qual fosse o assunto, mesmo em situações em que o antecessor ferveria, usaria metáforas ou exigiria que rolassem cabeças, este mantinha a frieza, o vocabulário íntegro e bem alinhado, o tom de voz inalterado. Sorria mas era um sorriso educado, bem comportado. Não dizia piadas nem se exaltava. Ouvíamo-lo até enervados, tal a contenção, à espera que um dia lhe saltasse a tampa. Nunca saltou. Pelo menos, enquanto lá estive isso nunca aconteceu.

Aqui passa-se o mesmo. Joanna Coles bem puxa por ele. Mas Jake Auchincloss não se desalinha. Responde a tudo com exemplar racionalidade, com uma frieza de análise que quase passa ao lado do facto de Trump ser um lunático, um demente, um narcisista fora do prazo de validade. E, no entanto, não foge a nenhuma questão, nem se pode dizer que seja estritamente politicamente correcto. Um fantástico exercício de contenção, é o que é.

Eu sei qual é a próxima artimanha doentia que Trump tem na manga | Podcast do The Daily Beast

O deputado Jake Auchincloss junta-se a Joanna Coles para abordar o caos em torno dos ataques de Donald Trump ao Irão, alertando que o presidente pode estar a travar uma guerra sem uma estratégia clara e sem a aprovação do Congresso. O ex-fuzileiro questiona a liderança do secretário da Defesa, Pete Hegseth, pede a demissão do secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr., por alegados conflitos de interesses e explica porque é que os democratas já se estão a preparar para a possibilidade de Trump tentar minar as eleições intercalares de 2026. A conversa abrange desde a luta do Partido Democrata para resgatar o patriotismo e definir a sua mensagem económica até ao poder político de titãs da tecnologia como Elon Musk e a ameaça à segurança nacional representada pelo TikTok, antes de terminar com perguntas persistentes sobre os Arquivos Epstein.