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quarta-feira, janeiro 28, 2026

O Ressentimento faz a força

-- Um poderoso texto do meu filho --

 

Se observarmos a História da humanidade e a evolução das diversas civilizações, encontramos dois elementos que surgem recorrentemente: o conflito e o progresso. É provável que estejam interligados. O progresso nasce do desejo de alcançar mais e melhor, e é essa mesma vontade que está na raiz de inúmeros conflitos.

A nossa história é marcada por ciclos de mudança e por grandes disrupções: pragas, descobertas, obras colossais e destruições massivas provocadas por guerras. Periodicamente, surgem transformações profundas que criam novas eras — a queda de impérios, revoluções tecnológicas, ou a criação de armas cujo poder supera tudo o que as antecedeu.

A mudança, porém, não é necessariamente benéfica. O progresso, por definição, implica melhoria; a mudança, não. Uma inovação tecnológica pode acarretar custos ambientais tão elevados que os prejuízos ultrapassam largamente os benefícios. Um novo império guiado por ideologias de ódio pode destruir muito mais do que é capaz de criar. A história recente já nos ofereceu exemplos de ambos os casos.

Há nestes dias o acordar da consciência coletiva para uma nova fase da humanidade. 

Por alianças, proximidades geográficas e culturais e por interesses partilhados, o mundo organizou-se em blocos. Nas últimas décadas, o Bloco Ocidental liderou a ordem internacional e concentrou uma parte significativa dos recursos globais. Sem juízos de valor sobre os méritos ou falhas desse Bloco, é inegável que, para os povos que o compõem — em especial os nativos deste espaço — essa configuração de poderes foi, em geral, favorável. Foram, de forma recorrente, vencedores de conflitos, acumuladores de riqueza e beneficiários de um estilo de vida mais confortável do que a maioria da população mundial.

Hoje, esse Bloco revela fraturas profundas, que colocam em causa qualquer resquício de unidade. O fenómeno parece mais uma implosão do que um confronto externo — forças internas comprimidas numa câmara de pressão que já não suporta a crescente intensidade das tensões.

O risco para todos os povos do mundo é que esta desagregação produza uma mudança profunda, mas não um verdadeiro progresso para a Humanidade. Esta suposição contém um certo grau de arrogância (na qual na realidade nunca me revi): a ideia de que o mero funcionamento deste Bloco gera mais benefícios do que prejuízos para o mundo.

É perfeitamente concebível imaginar, num cenário contrafactual, uma ordem global diferente — mais equilibrada entre povos, menos dependente de hegemonias, mais cooperativa, mais solidária no desenvolvimento e menos assente na apropriação de recursos pela força, militar ou económica.

Mas é igualmente plausível, noutro cenário contrafactual, emergir algo pior: guerras destrutivas e globais, isolacionismo e egoísmo que aceleram a catástrofe ambiental, migrações massivas provocadas pela fome e pela seca, um retrocesso civilizacional nas liberdades e nos direitos.

Se este for, de facto, um momento de charneira, o risco é escolhermos o cenário contrafactual errado — empurrados pela cegueira de poder de elementos agitadores que exploram o Ressentimento Histórico do Homem Branco Nativo, que se vê como o “herdeiro legítimo” do Bloco Ocidental, mas que hoje se sente traído e contrariado no seu forte sentido de entitlement, de direito adquirido.

Este Homem Branco, nativo do Bloco Ocidental, não pertence às classes altas nem aos vencedores do capitalismo liberal que moldou o Bloco. Não integra a elite política nem a burocrática. Não faz parte dos ricos nem dos privilegiados. Pertence, isso sim, à classe trabalhadora — na melhor das hipóteses à middle working class assalariada, com rendimentos próximos ou abaixo da média. Cumpre a lei, paga impostos e tem opiniões. Recebeu educação, mas não chegou à universidade. Tem um emprego, mas não uma carreira. Viveu sempre no mesmo ambiente cultural e racial, partilhou com os seus vizinhos tradições semelhantes, interesses futebolísticos, religiosos e sociais.

É esta classe que está a aumentar a pressão dentro da câmara. 

Esta classe sente-se ressentida. Ressentida pela perda de poder de compra; pela nostalgia de um tempo que nunca viveu, mas que lhe foi prometido pelas gerações anteriores — a convicção de que o futuro seria melhor do que o presente e muito melhor do que o passado. A promessa de que, cumprindo as suas obrigações e trabalhando com afinco, proporcionaria aos seus filhos uma vida superior à sua. Hoje, essa promessa soa-lhes irrealista, e não têm evidências de que alguma vez venha a concretizar-se. 

O liberal económico argumentará que a oportunidade existe: “trabalharás, e chegarás lá”. Mas será mesmo assim? Será essa a realidade para a maioria? Existem oportunidades infinitas numa economia real, capaz de absorver todos os que se esforçam? E acordar cedo, trabalhar oito ou nove horas, perder duas em deslocações, trabalhar cinco ou seis dias por semana sem pausa, desempenhando bem a sua função — não é esforço suficiente esperado? A verdade é que, para muitos, não é.

A evolução do Bloco Ocidental está a gerar um conflito que parece cada vez mais insanável. À medida que o Estado reduz o seu papel de intervenção económica e se desvalorizam as políticas de redistribuição, solidifica-se uma camada de vencedores, criando-se um sistema progressivamente viciado. Como é próprio da natureza humana, essas classes vencedoras criam mecanismos para preservar a sua posição e ampliar a distância em relação aos seus competidores naturais. Assim tem sido desde os primórdios da humanidade.

Deste desequilíbrio nasce o ressentimento da classe trabalhadora, que cumpriu o contrato social que lhe foi proposto, mas não recebeu o retorno que lhe tinha sido implícita ou explicitamente prometido.

É verdade que este Homem Branco dispõe de um certo conforto material: possui um carro, uma casa nos subúrbios — quase sempre associada a uma dívida duradoura, faz férias ocasionais, tem SportTV e pequenos prazeres do quotidiano. Não vive a miséria extrema que atinge muitos povos do Hemisfério Sul ou amarguras da guerra, os verdadeiros derrotados da ordem global. O seu ressentimento nasce mais de um sentimento de abandono do que de desespero.

Este ressentimento é alimentado também pela degradação dos serviços públicos, financiados pelos seus impostos, que se deterioram a uma velocidade inversamente proporcional à expansão dos serviços privados por natureza elitistas e orientados para os vencedores do sistema. O fenómeno manifesta-se igualmente na educação, na saúde e na justiça, pilares fundamentais da democracia que lhes foi prometida. Quando estas instituições se degradam, desmorona-se, aos olhos desta classe, a própria perceção de que o sistema democrático funciona.

E são percebidos como perdedores — não porque estejam pior do que há cinquenta anos, mas porque estão estagnados há vinte, mergulhados num ambiente generalizado de degradação e desânimo. São as escolas sem professores, os hospitais a transbordar ou com as urgências encerradas, os comboios paralisados ou sobrelotados, o preço esmagador das casas, a inflação nas compras mensais e na energia, os processos nos tribunais que se arrastam, uma perceção generalizada de insegurança.

Ressentimento também por motivos culturais. Uma sociedade multicultural, com bairros étnicos, com muitas culturas e línguas, como se observa em Londres, é o que Homem Branco espera para a terra onde nasceu, cresceu e sempre viveu? O sistema de imigração deve exclusivamente dar resposta às necessidades vorazes do mercado de trabalho liberal?

O Homem Branco não está pronto para uma transformação cultural tão acelerada. Em alguns casos poderá ser Racismo e Xenofobismo ideológico, mas em muitas situações será um humano receio da mudança. A dificuldade em assimilar que tudo muda menos ele. A dificuldade em lidar com vizinhos diferentes, com comportamentos que não compreende, com línguas que não fala. A nostalgia de outros tempos, que pelo menos eram fáceis de entender.

É um Ressentimento cultural real.

O ressentimento nasce também da perceção — ainda que abstrata — de que quem governa pertence à Classe dos Vencedores, em oposição à Classe dos Perdedores. Alimenta-se a ideia de que o poder político age sobretudo em benefício próprio, sem um verdadeiro compromisso com o Serviço Público.

A esta pressão interna soma-se um elemento adicional que funciona como catalisador, tal como acontece em tantas reações físicas: neste caso, os partidos situados nos extremos do espectro político. São eles que veem nesta insatisfação profunda uma oportunidade para avançar com a sua própria transformação, oferecendo respostas simples para problemas complexos e capitalizando a frustração acumulada.

Com a queda do Muro de Berlim caiu por terra a promessa e atração do Socialismo Real. Com a ascensão do Donald Trump, das Redes Sociais e dos fenómenos migratórios de muito larga escala, num panorama estéril de promessas transformadoras, emergiram os Partidos da Direita Radical, herdeiros do fascismo do século passado. 

Os grandes atores políticos da atualidade — apoiados por estrategas experientes em propaganda e marketing, utilizadores hábeis das redes sociais e sem pudor em recorrer à mentira, à difamação e a técnicas de manipulação de massas — tornaram-se os verdadeiros vencedores políticos do nosso tempo. São os orquestradores de uma nova era que receamos poder ser pior do que a anterior: uma era em que prosperam aqueles que mais beneficiam do retrocesso, da destruição e da divisão. Emergindo do caos e do ódio, da gritaria e da acusação, das fake news e da demagogia, constroem um futuro com estas características e moldado pelo ambiente em que melhor sobrevivem. Uma simbiose perfeita entre o organismo e o meio.

As redes sociais funcionam, neste contexto, como um acelerador sem precedentes. Permitem uma comunicação direta, desintermediada e sem filtros entre o Agitador e o Ressentido — uma combinação altamente inflamável. Este canal imediato facilita a provocação e a mobilização, apelando às emoções mais primárias de indignação e ódio, ao mesmo tempo que oferece o conforto da desculpa: a sensação de que afinal ninguém está sozinho, de que esses sentimentos têm legitimidade, de que há uma razão plausível para a raiva. Alimenta-se assim a motivação para “mudar” — seja para o que for, desde que não seja isto.

O dilema para a sociedade torna-se, assim, evidente e deve ser recordado em cada eleição. Combater a força da direita radical através das ferramentas da política tradicional revela-se uma estratégia condenada ao fracasso junto da sua base eleitoral mais fiel — aquela parte da população que já não acredita no valor das propostas dos partidos convencionais. Para este eleitorado marcado pelo ressentimento, a frustração é tão profunda que prefere derrubar o sistema para ver o que daí resulta, em vez de persistir no caminho que considera estagnado, mesmo que não haja propostas ou projetos de mudança reais.

A única forma de transformar este momento de mudança em algo melhor — no espírito do que Mark Carney defendeu no seu discurso — é devolver esperança aos que se sentem ressentidos, através de propostas concretas e credíveis. Um futuro baseado na justiça, na confiança e na inclusão; um mundo em que ninguém fica para trás. Um mundo em que o fosso entre ricos e os remediados se estreita, em que as relações entre países se constroem sobre acordos justos e não sobre a exploração dos mais fracos pela força dos mais poderosos.

À escala de um país como o nosso, isso implica um plano de longo prazo, sustentado por um amplo consenso entre os partidos que partilham princípios democráticos. Um plano orientado para recuperar os pilares fundamentais da sociedade; para reforçar o elevador social; para criar um mercado verdadeiramente justo, que valorize e premie o trabalho e não apenas o capital.

Implica também uma gestão responsável e transparente da imigração, com políticas claras de aceitação e integração.

E aponta para um futuro em que os pais possam acreditar que os filhos terão uma vida digna e estável: com acesso a creches de qualidade, boas escolas, boas universidades, bons empregos com salários justos e habitação paga de forma sustentável; com cuidados de saúde que respondam às suas necessidades. Este era — e continua a ser — o sonho da convergência europeia e da globalização no seu melhor sentido. Era o sonho de uma ordem internacional baseada no direito e nos direitos humanos. 

A construção desse futuro não tem de gravitar na órbita dos Estados Unidos. Pode assentar num quadro multilateral, baseado em pontos de aproximação e numa interdependência pragmática entre diferentes regiões e parceiros. 

Não estamos condenados à guerra e conflito. Da cooperação pode vir uma paz longa e duradora. Da cooperação conciliada com a autonomia, do progresso aliado à justiça, pode resultar uma sociedade melhor. 

Neste cenário alternativo ao ressentimento — um cenário de esperança — o Estado tem um papel real, não pela força do seu peso, mas pela força da sua capacidade de promover mudança e transformação, em conjunto com os demais setores da sociedade. Um projeto que inclua todos, sem exceção, garantindo que ninguém fica para trás.

Não haverá sucesso nesta jornada se não se compreender e enfrentar a verdadeira origem do Ressentimento. Ignorar ou desvalorizar a parte da população que agora aderiu à Direita Radical seria um erro histórico.

Num momento tão transformador como o que vivemos, cabe às forças impulsionadoras da mudança encarar o desafio de frente e reescrever o futuro comum, com o propósito claro de transformar o ressentimento em esperança. E promover a mudança positiva em cada Eleição. 

sexta-feira, janeiro 23, 2026

A análise do que se passa em Davos por alguém que frequentou Davos durante muitos anos

 

Como é Davos, a terrinha em si? Como é o ambiente e os bastidores do encontro de Davos? Como é que a alta finança, o mundo dos grandes negócios e a política se misturam em Davos (à mistura com 'acompanhantes' russas e de outros países de Leste)? 

E porque é que todos olham para o peito uns dos outros? E não, não é pela mesma razão porque ninguém olha para a Dolly Parton mas para uma zona do corpo um pouco mais abaixo, é para lerem o badge uns dos outros para verem se é alguém que mereça uma aproximação. 

Sobre tudo isto e muito mais Joanna Coles e David Rothkopf conversam. E riem-se. A cumplicidade e o sentido de humor de ambos são permanentes e dão vontade de presenciar.

E, com olhos de ver, conversam também sobre o que se passou com o discurso e as 'negociações' (reais ou ficcionadas) de Trump, sobre as suas ofensas à Europa, sobre a forma como a Europa respondeu, sobre o Canadá e sobre o estado do mundo.

Convido-vos a verem o vídeo que aqui partilho. É longo mas vê-se de gosto. E uma visão 'por dentro' é sempre uma perspectiva que enriquece a nossa visão dos acontecimentos. 

Se é certo que todos nós sabemos que Trrump é um idiota, é interessante ver reforçada essa opinião a partir do que vozes informadas falam bem alto.

Why World Leaders Think Trump's an Idiot: Rothkopf | The Daily Beast Podcast

David Rothkopf, colunista imperdível do The Daily Beast, junta-se a Joanna Coles para analisar o desastroso regresso de Donald Trump a Davos e porque é que este pode marcar uma verdadeira rutura na ordem mundial. O que antes era um encontro movido pelo prestígio e pela hipocrisia transforma-se, este ano, numa cimeira impulsionada pelo medo — do comportamento agressivo de Trump, da sua ignorância, das suas ameaças ao comércio, à NATO, à Gronelândia e aos aliados que antes confiavam nos Estados Unidos. Rothkopf explica porque é que os líderes europeus se retiraram, porque é que os mercados reagiram negativamente, porque é que a UE congelou as negociações comerciais e porque é que figuras como Mark Carney alertam agora abertamente que não se trata de uma transição, mas de uma rutura.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O notável discurso de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá, em Davos

 

Presumo que já toda a gente tenha lido e/ou ouvido o discurso, escrito pelo próprio Mark Carney e que espantou toda a gente -- uma lufada de ar fresco, uma janela aberta para um mundo que pode ser melhor, um murro na mesa (ou na cara de Trump), um pensamento escorreito e uma escrita limpa -- mas, até para memória futura, faço questão de o ter aqui. 

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É um prazer — e um dever — estar convosco neste momento crucial para o Canadá e para o mundo. Hoje, vou falar sobre a rutura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal, na qual as relações entre grandes potências se fazem sem quaisquer limites à sua atuação.

Mas também quero dizer-vos que os outros países, em particular as chamadas potências médias, como o Canadá, não são impotentes. Têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore os nossos valores, como o respeito pelos direitos humanos, pelo desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados. O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.

Todos os dias alguma coisa nos lembra de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências, que ordem mundial sustentada por regras está a desvanecer-se e que os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que têm de sofrer.

Este aforismo de Tucídides é apresentado como inevitável, apenas a lógica natural das relações internacionais a reassumir-se. E, perante esta lógica, há uma forte tendência para os países se acomodarem, de forma a evitarem problemas. Esperam que essa aceitação lhes traga segurança.

Mas não trará. Então, quais são as nossas opções?

Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio chamado “O Poder dos Impotentes”. Nele, faz uma pergunta simples: como é que o sistema comunista se sustentava?

A resposta começa com um vendedor de hortaliças. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita naquilo. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se acomodar. E, porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste.

Não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas comuns em rituais que sabem, no seu íntimo, serem falsos.

Havel chamou a isto “viver dentro da mentira”. O poder do sistema não vem da sua verdade, mas da disposição de todos a representá-lo como se fosse verdade. E a sua fragilidade vem da mesma fonte: quando uma pessoa, uma pessoa que seja, deixa de representar, quando o vendedor de hortaliças retira o seu cartaz, a ilusão começa a quebrar-se.

Está na altura de empresas, países, retirarem os seus cartazes.

Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos implantar políticas externas sob a proteção destas regras.

Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.

Esta ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou-nos a ter acesso a rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva, e apoiou organismos que se ocupariam da resolução de conflitos. E foi por isso que colocámos o cartaz na montra. Participámos nos rituais. E evitámos, em boa parte, apontar as lacunas entre retórica e realidade.

Este acordo já não funciona. Deixem-me ser direto: estamos a meio de uma rutura, não de uma transição. Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas finanças, saúde, energia e geopolítica revelou os riscos da integração global.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma: tarifas como vantagem negocial, a infraestrutura financeira como coerção, as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas.

Não se pode “viver dentro da mentira” de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação.

As instituições multilaterais de que os poderes médios dependiam — a OMC [Organização Mundial do Comércio], a ONU, a COP [Conferência das Partes] — e a arquitetura de resolução coletiva de problemas estão muito diminuídas.

Como resultado, muitos países estão a tirar as mesmas conclusões, que devem desenvolver maior autonomia estratégica: em energia, alimentação, minerais críticos, nas finanças e cadeias de abastecimento. Este impulso é compreensível. Um país que não pode alimentar-se, abastecer-se ou defender-se a si mesmo tem poucas opções. Quando as regras já não vos protegem, é preciso que se protejam a vocês mesmos.

Mas sejamos realistas sobre o lugar onde isto nos leva: a um mundo de fortalezas, mais pobre, mais frágil e menos sustentável.

E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a aparência de regras e valores pela busca desimpedida do seu poder e dos seus interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornam-se mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem retirar lucros eternos das suas relações, e os aliados vão diversificar para se protegerem contra a incerteza: contrair seguros, multiplicar opções. E tudo isto traz de volta a soberania, só que é uma soberania que antes estava ancorada em regras, mas que estará, a partir de agora, cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão de risco clássica tem um preço, mas esse custo de autonomia estratégica, de soberania, também pode ser partilhado. Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada a conta de cada um construir a sua própria fortaleza individualmente. Padrões partilhados reduzem a fragmentação, as complementaridades são de soma positiva.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se devemos adaptar-nos a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos, ou se podemos fazer algo mais ambicioso. O Canadá esteve entre os primeiros a ouvir o alerta, o que nos levou a modificar fundamentalmente a nossa postura estratégica.

Os canadianos sabem que a antiga e confortável suposição de que a nossa geografia e o nosso sistema de alianças conferiam automaticamente prosperidade e segurança já não é válida.

A nossa nova abordagem assenta no que Alexander Stubb [Presidente da Finlândia] chamou “realismo baseado em valores”, ou, por outras palavras, termos princípios e, ao mesmo tempo, sermos pragmáticos.

Devemos manter o princípio do nosso compromisso com valores fundamentais: soberania e integridade territorial, a proibição do uso da força exceto quando consistente com a Carta da ONU, respeito pelos direitos humanos. E devemos ser pragmáticos ao reconhecermos que o progresso é frequentemente incremental, que os interesses divergem, que nem todos os parceiros partilham os nossos valores. Podemos envolver-nos amplamente, estrategicamente, mas com os olhos abertos. Devemos participar ativamente no mundo com ele é, e não esperar por um mundo como desejamos que seja.

O Canadá está a calibrar as suas relações para que a profundidade das mesmas reflita os seus valores. Estamos a dar mais importância a um envolvimento amplo para maximizar a nossa influência, dada a fluidez da ordem mundial, os riscos que isto representa e o que está em jogo para o que vem a seguir.

Já não estamos dependentes apenas da força dos nossos valores, mas também do valor da nossa força. Estamos a construir essa força em casa.

Desde que o meu Governo tomou posse, cortámos impostos sobre rendimentos, mais-valias e investimento empresarial, removemos todas as barreiras federais ao comércio interprovincial e estamos a acelerar mil milhões de dólares de investimento em energia, inteligência artificial, minerais críticos, novos corredores comerciais e muito mais. Até 2023, vamos duplicar as nossas despesas na Defesa e estamos a fazê-lo de forma a desenvolver as nossas indústrias nacionais.

Estamos também a diversificar no estrangeiro, e recentemente acordámos uma parceria estratégica abrangente com a União Europeia, incluindo a adesão ao SAFE [Ação de Segurança para a Europa], os acordos europeus de aquisição e adjudicação de material de Defesa.

Assinámos outros doze acordos comerciais e de segurança em quatro continentes nos últimos seis meses. Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com a China e o Catar. Estamos a negociar pactos de comércio livre com a Índia, a ASEAN, a Tailândia, as Filipinas e o Mercosul.

Para ajudar a resolver problemas globais, estamos a prosseguir geometria variável: diferentes coligações para diferentes questões, baseadas em valores e interesses.

Na Ucrânia, somos um membro central da Coligação de Vontades e um dos maiores contribuintes per capita para a defesa e segurança do país.

Sobre a soberania do Ártico, estamos firmemente ao lado da Gronelândia e da Dinamarca e demos pleno apoio ao seu direito de determinar o futuro da Gronelândia. O nosso compromisso com o Artigo 5º é inabalável.

Estamos a trabalhar com os nossos aliados da NATO (incluindo os Nórdicos-Bálticos) para robustecer ainda mais os flancos norte e oeste da aliança, incluindo através dos investimentos sem precedentes em radares de longo alcance, submarinos, aeronaves e tropas no terreno. O Canadá opõe-se fortemente a impostos alfandegários sobre a Gronelândia e apela a conversações focadas em alcançar os nossos objetivos partilhados de segurança e prosperidade para o Ártico.

No comércio plurilateral, estamos a liderar esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, criando um novo bloco comercial de 1500 milhões de pessoas.

Nos minerais essenciais, estamos a formar grupos de compradores, ancorados no G7, para que o mundo possa diversificar-se da oferta concentrada.

Na inteligência artificial, estamos a cooperar com democracias para garantir que não seremos forçados a escolher entre empresas hegemónicos e hiperescaladores [fornecedor gere grandes redes de centros de dados, projetados para suportar computação, redes e armazenamento].

Isto não é multilateralismo ingénuo, nem é depender de instituições diminuídas, é construir as coligações que funcionam, questão por questão, com parceiros que partilham terreno comum suficiente para agirem em conjunto. Nalguns casos, será a grande maioria das nações. E é criar um teia densa de ligações através do comércio, investimento, cultura, nas quais nos podemos apoiar para futuros desafios e oportunidades.

As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm mercado, capacidade militar, alavancagem para ditar termos. As potências médias não. Mas quando apenas negociamos bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos uns com os outros para sermos os que mais acomodam as suas exigências.

Isto não é soberania. É a representação de soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países no meio têm uma escolha: competir uns com os outros para cair “nas graças” ou unirem-se para criar um terceiro caminho, com impacto.

Não devemos permitir que a ascensão do poder nos cegue para o facto de que o poder da legitimidade, integridade e regras permanecerá forte se escolhermos exercê-lo em conjunto.

O que me traz de volta a Havel.

O que significaria para as potências médias “viver na verdade”?

Significa dizer as coisas como são na realidade. Parem de invocar a “ordem internacional baseada em regras” como se ainda funcionasse conforme anunciado. Chamem ao sistema o que ele é: um período de intensificação de rivalidade entre grandes potências, onde os mais poderosos prosseguem os seus interesses usando a integração económica como arma de coerção.

Significa agir consistentemente. Aplicar os mesmos padrões a aliados e rivais. Quando os poderes médios criticam a intimidação económica quando vem de um lado mas ficam em silêncio quando vem de outro, estamos a manter o cartaz na montra.

Significa construir aquilo em que alegamos acreditar. Em vez de esperar que a velha ordem seja restaurada, criar instituições e acordos que funcionem conforme o que fica escrito.

E significa reduzir a alavancagem que abre espaço à coerção. Construir uma economia doméstica forte deve ser sempre a prioridade de cada governo. A diversificação internacional não é apenas prudência económica; é a fundação material para uma política externa honesta. Os países ganham o direito a posições de princípio ao reduzirem a sua vulnerabilidade a retaliações.

O Canadá tem o que o mundo quer. Somos uma superpotência energética, temos vastas reservas de minerais, temos a população mais instruída do mundo. Os nossos fundos de pensões estão entre os maiores e mais sofisticados investidores do mundo. Temos capital, talento e um Governo com imensa capacidade fiscal para agir decisivamente. E temos os valores aos quais muitos outros aspiram.

O Canadá é uma sociedade plural que funciona, a nossa praça pública é barulhenta, diversa e livre. Os canadianos mantêm-se comprometidos com a sustentabilidade.

Somos um parceiro estável e fiável, num mundo que é tudo menos isso, um parceiro que constrói e valoriza relações a longo prazo.

O Canadá tem algo mais: reconhecemos o que está a acontecer e estamos determinados a agir em conformidade.

Compreendemos que esta rutura exige mais do que adaptação, exige honestidade sobre o mundo como ele é.

Estamos a retirar o cartaz da montra.

A velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é uma estratégia. Mas a partir da fratura, podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo. Esta é a tarefa dos poderes médios, que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com um mundo de cooperação genuína.

Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo, a capacidade de parar de fingir, de dizer as coisas como são, de construir a nossa força em nossa casa e de agir em conjunto.

Esse é o caminho do Canadá. Escolhemo-lo aberta e confiantemente.

E é um caminho amplamente aberto a qualquer país disposto a trilhá-lo connosco.

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Abaixo o vídeo. Não é exactamente o discurso integral pois falta a introdução, em francês, mas, enfim, está aqui mesmo quase tudo.

In full: Canadian Prime Minister Mark Carney's speech at the World Economic Forum in Davos