Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, março 16, 2019

Fantasias e delírios?
Ná.
Provocações e irrealidades?
Ná.
Lágrimas e suspiros também não.





Se falo verdade, há quem ache que ficciono. Tem graça isso -- e digo que tem graça porque, na realidade, não segue qualquer lógica. Se digo que fui boa aluna, desacreditam. Se dissesse que tinha sido má aluna acreditavam. Não percebo o racional dessas pessoas. Uma vez, numa história toda ficcionada que se bem me lembro incluía príncipes marroquinos a dizerem poesias, inventei uma cena que metia um jantar num palacete numa das mais belas vilas do país. Descrevi a casa, a decoração, o requintadíssimo repasto que lá tinha tido dias antes. Pois foi nisso, que era a única coisa verdadeira da história, que algumas pessoas não acreditaram. Acharam que estava a armar-me ao pingarelho. 


Licenciei-me num estabelecimento de ensino do mais clássico que há, fiz um curso que só não foi uma tareia das valentes porque sou dada a pôr os pesadelos para trás das costas. E, não sei com base em quê, há quem aqui chegue para dizer que devo ter feito daqueles cursos à Relvas, equivalências e diplomas ao domingo. Uma vez mais, não consigo compreender a linha de raciocínio de quem assim pensa.

E dizem-me que gosto que me massagem o ego. Nada mais errado. Se há coisa que detesto -- mas que detesto mesmo -- é de ser bajulada. No meu dia a dia, se alguém ensaia puxar-me o saco nem chega ao primeiro acto, vai logo de asa. E se há coisa que me diverte e me dá pica é que tentem arreliar-me. Tal como na 'vida real' gosto de uma boa disputa, gosto de discutir política, gosto de debater ideias sob visões antagónicas, aqui acontece o mesmo. Mas isso é diferente do insulto gratuito. Mas, mesmo assim, fico com vontade de dar troco. Se aqui calha aparecer um daqueles comentários que destilam fel ou parvoíce, é com entusiasmo que me atiro a dizer das minhas.


Também há quem se queixe que falo muito de mim. Presumo que sejam pessoas que não gostem do registo autobiográfico. Mas essas pessoas devem perceber que o que se passa aqui é coisa marginal na minha vida. Ponho-me a escrever porque gosto de escrever. À hora a que escrevo não tenho discernimento para ter muito assunto. Tal como os pintores que, à falta de modelo, se põem ao espelho e fazem auto-retratos, também eu, à falta de melhor assunto, falo de mim. Não frequento redes sociais, mal vejo televisão e, se não me ocorrem umas bocas sobre a actualidade, não tendo do que falar mas fervilhando-me os dedos para escrever, falo do que fiz ou do que me lembro. Se falo de mim, não invento. A menos que escreva uma história na primeira pessoa, mas aí é óbvio que se trata de ficção, no resto o que digo é tal e qual. E acho que se percebe quando é e quando não é história.


Por exemplo, se escrever assim:
Estava a conduzir numa das mais movimentadas avenidas da cidade. À minha frente, um carro branco, que reparei que tinha muitos anos, abrandou. E, para minha estupefacção, uma porta abriu-se e de lá saltou um pequeno gato preto. Travei, assustada, o coração acelerado, temendo matar o gatinho e, ao mesmo tempo, temendo que um carro me batesse. Sem ver o gatinho, sem saber em que direcção tinha ido, fiquei sem saber se podia andar. Os carros atrás de mim travaram. Avancei devagar, aflita. Mas não senti nada. Olhei para todos os lados. Nem sinal do gato. O carro branco acelerou, mudou de faixa e saíu por uma rua à direita. Ainda atordoada, pensei na maldade extrema de quem tinha feito aquilo de propósito para matar o bichinho. 
ou
Estava a conduzir. Num semáforo, ao parar, reparei que no carro ao lado estava um advogado que costumo ver frequentemente na televisão. Via-se que falava em alta voz. Ria, falava. A vantagem do bluetooth. Depois, como o sol lhe batesse nos olhos, pôs uns óculos escuros. Homem com muito charme. O sinal abriu, arrancámos. Encostei para virar e ele também, na faixa ao lado da minha. Estava calor, abri o meu vidro. Do carro dele vinha agora o som de uma ária. Pensei: Tosca. Mais à frente, pouco antes de passar por uma rua onde se encontra um dos grandes escritórios de advogados, o carro dele abrandou para virar. Reparei que ao seu lado estava agora uma mulher. Não estava antes e, no entanto, nenhuma mulher tinha entrado. Quando olhei, reparei como sorriam, ela ajeitando o cabelo.
penso que é claro que uma das narrativa é cem por cento verdadeira e que outra tem uma pitada de ficção (embora não mais que uns cinco por cento de ficção), pitada essa que, só por si e em conjugação com o lado deliciosamente verdadeiro, me deu vontade de desenvolver um suculento folhetim.


E, uma vez mais, estou com isto não porque seja importante para mim que saibam tão relevantes frioleiras mas porque me apetece escrever e não me ocorre outro assunto. Há assuntos fantásticos, fracturantes ou sensíveis sobre os quais deveria, a esta hora, dissertar em vez de estar com esta conversa de nada? Pois, acredito que sim. Por exemplo, poderia falar sobre a beleza monástica dos lírios ou sobre a lucidez sensata dos substantivos que não carecem de adjectivos ou ainda da delicadeza angelical dos olhares que caem, oblíquos, sobre o meu decote. Ou poderia falar da tristeza dos ramos nus dos plátanos ou da alegria saltitante dos passarinhos que cantam nos beirais dos blogs. Poderia, claro, mas não seria a mesma coisa.

É que aqui não há regras, não há agenda, não há propósito. Aqui não há altares, muito menos santinhas. Aqui, quem vem, vem para jogar. Mesmo que seja ao jogo da verdade ou consequência. Ou apenas para jogar às verdades. Ou para esconder o jogo. Ou para piscar o olho. Ou para mostrar as cuecas.

E espera-se que quem cá vem alinhe. E dance. E escute. E olhe. Ou seja respeitador e desvie o olhar.

Ou não.


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E para os que não acham graça a estas desconversas, tenho aqui dois vídeos muito bons que espero que compensem a falta de substância das minhas desnutridas palavras.


Na casa de Maggie Gyllenhaal e Peter Sarsgaard em Brooklyn




Arte é vida - A colecção de Marianne e Pierre Nahon


E tenham um belo sábado, está bem?

quinta-feira, janeiro 07, 2016

A vida multiplicada e brilhante, em que é pleno e perfeito cada instante. Agora e na hora da minha morte.





Cansa-me o que é mais do mesmo. Pelo contrário, atrai-me a diferença. Seduz-me a imprevisibilidade. A multiplicidade, a mim, encanta-me. Perceber que pouco percebo, descansa-me o espírito. Andar como uma criança por entre um mundo de desconhecimento atrai-me. Se eu fosse de me exprimir através de lugares comuns (e acho que não sou) até poderia acrescentar que a diversidade é a minha praia, em especial, se for inesperada.

Que o sol se descubra, em brilho e festim, no meio de um céu cinzento, para logo desaparecer, fazendo crer que não aconteceu, é para mim um milagre que me empolga. Que uma palavra silenciosa se desprenda de um coração para vir pousar junto ao meu, parece-me coisa dos deuses. Que uma música me transporte pelos céus como se eu fosse dentro de nuvens feitas de algodão em rama, parece-me magia. Que uma flor surja, rosada e límpida, por entre um chão de folhas mortas, parece-me um presente que nada fiz para merecer. Andar pelo campo, só eu, em passos de lã, e ouvir os pássaros, cantando de árvore para árvore, místicos, seres de um outro mundo, parece-me bênção, quase predestinação.


Não sei se um dia conseguirei ordenar todas as peças por forma a fazerem sentido. Espero que não. Se isso acontecesse seria como andar na formatura, sabendo os passos a dar, todos iguais, obedecendo a uma voz de comando, sem uma gota de surpresa a perfumar os meus sentidos.

Prefiro continuar assim, feita de muitas peças coloridas colocadas à toa, como uma casa de lego feita por uma criança, e saber que amanhã a casa pode estar diferente, as peças amarelas misturadas com as verdes e com as encarnadas, as janelas no lugar das portas, a chaminé a parecer uma torre que aterrou no telhado, e que no outro dia a casa vai parecer um lago com árvores dentro e pássaros no jardim e que afinal não são pássaros, são cavalos azuis. Assim é que me sinto bem.


Ouço música enquanto escrevo. Escolho ao acaso. Agora tinha escolhido uma, uma fantasia árabe, ficou a tocar, depois passou para outra que reconheci. Maravilhada fui espreitar: quem a pôs aqui a tocar para mim? Não sei mas acredito que uma mão que me quer tocar, a pôs a tocar para mim. Já a coloquei agora aqui, lá em cima, para que a ouçam também. Já mil vezes aqui a coloquei, em diversas interpretações, mas mil outras vezes ela me aparece, tentadora, um espelho em frente de um espelho, a alma translúcida de alguém que talvez seja eu reflectida num espelho que descobre alguém que não sou eu mas que está presente em mim como eu.
E se nada disto tem explicação, nem o que escrevo, nem o que penso ou faço, então está certo, é mesmo assim, sem explicação. 
Fui buscar imagens para intercalar no texto sem saber o que procurava. Escolhi ao acaso, não sei se fazem sentido junto a estas palavras desordenadas. Sinto que sim, parece que trazem alguma ordem a este caos que me seduz e que me acolhe. Mas também não sei explicar porquê, nem tento.


Olho à minha volta nesta minha mesa redonda onde escrevo e onde se aninham os livros que gosto de ter por perto: um livro sobre bibliotecas, livros de poesia, aqui mesmo ao meu lado 'Amar a vida inteira' de Casimiro de Brito e 'Últimos poemas de amor' de Paul Éluard, livros sobre pintura e entrevistas a pintores, também a um arquitecto, e 'Cartas de Amor' de Pablo Neruda,  e um livro vibrante sobre Havana com as suas cores quentes e alegres e gente sorridente, e também um daqueles livros loucos, que me delicia, do Beckett. E 'Seis propostas para o próximo milénio' de Italo Calvino. E outros. Uma miscelânea que parece que me procura ou que se forma, por si só, à minha volta.

E tenho também aqui verniz carmim, estive a pintar as unhas, e um CD, ofereceram-me pelo natal, muito bom, e uma concha que trouxe de Lagos, adoro Lagos, parece que uma parte de mim tem sempre vontade de para lá ir, e agora acabo de descobrir um saquinho de tâmaras (como veio isto aqui parar? - é certo que gosto imenso de tâmaras mas não me lembro de as trazer para aqui). Ao centro da mesa está uma bandeja que tem uns pequenos pés. Está cheia de coisas: as rodas de um carrinho, um ramo pequeno com bolinhas encarnadas, deve ter-se desprendido de um enfeite de natal, uma caneta cor-de-laranja, uma lupa, um lápis que escreve palavras macias, e mais coisas. Na parte de baixo da bandeja mandei gravar um poema de Sophia:

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante!


Às vezes penso que um dia vou deixar de andar por cá. Se eu estiver consciente quando isso acontecer, penso que estarei serena, como quem já conheceu e desfrutou bem esta vida e está pronto para partir para outra. Quando tive um acidente violento que destruiu o carro, tive, na fracção de segundos em que aconteceu, a consciência de que poderia estar a viver os meus últimos instantes. E não me assustei. Estava num carro sem travões, a descer por uma descida que ia ter a uma rotunda cheia de camiões, era mais que certo que me ia desfazer contra um deles, e não senti medo. Depois, não sei como tive discernimento para isso, para evitar bater nos carros que circulavam, resolvi subir para o centro da rotunda, vi o carro a avançar contra uma enorme peça metálica, pensei que a peça ia entrar pelo vidro e talvez degolar-me. E não me assustei. Teria morrido na maior das tranquilidades. Pensei que nem tinha tempo para pensar nos meus filhos. Já o contei aqui: os airbags abriram-se, encheram o carro de fumo branco, o carro ficou meio no ar, de lado, espatifado, choquei com uma árvore, que ficou destruída, e choquei com aquela enorme peça. A custo, dada a posição do carro, saí dele, admirada por estar viva. As pessoas saíram dos carros, assustadas, diziam para eu fugir porque o carro podia explodir, pensavam que o fumo era o carro a arder. Eu estava calma. Não fiquei ferida. Telefonei, vieram buscar-me, queriam levar-me ao hospital, não quis, sabia que estava bem. Fui trabalhar como se nada se tivesse passado. O seguro declarou perda total para o carro.

Penso nisto, às vezes: na minha tranquilidade perante uma situação da qual, racionalmente, pensei que talvez resultasse a minha morte. Mas não pensei assim: 'a minha morte' ou 'vou morrer'. Pensei apenas: 'se calhar estou a viver os meus últimos instantes de vida'. E pensei isso com uma paz assombrosa. Parece estranho mas foi assim que aconteceu.

Não sou católica, não sou sequer crente, pelo menos segundo os ditames da religião católica. Mas parece que sinto que vivi antes, como se trouxesse em mim memórias de vidas que não vivi. Ou que vivi. E parece que sinto que viverei mesmo depois de ter deixado esta vida. Talvez viva apenas na memória dos que me amaram. Ou viva no corpo de uma gaivota. Mas isso não me interessa.


O que me interessa é esta aventura, é este prazer em juntar palavras, em descobrir cores, em deixar-me embalar por acordes, é deixar-me amar, é amar, é ser meio louca, é dizer coisas que não fazem sentido, é sorrir, é ver o sorriso no olhar de quem me quer bem, é saber que mais logo, se calhar, vou ser o oposto disto, e depois outra vez diferente -- a vida caleidoscópica e irrepetível e eu também incompreensível, quase inexistente na minha colorida, ilógica e indescritível multiplicidade (ou unidade?).

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As pinturas, por ordem descendente são de Balthus, Guilherme Parente, Júlio Resende, Chagall, Matisse, Gauguin.

Spiegel im Spiegel de Arvo Pärt é interpretado por Leonhard Roczek no violoncelo e Herbert Schuch no piano.

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Sobre o debate Paulo de Morais e o Zelig da campanha presidencial, Marcelo de seu nome, é descer até ao post seguinte, por favor.

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sexta-feira, julho 04, 2014

O Um Jeito Manso faz quatro anos e já foi visitado mais de 650.000 vezes. À surpresa por ter chegado até aqui, junta-se-me o sentido agradecimento por todos quantos me têm acompanhado e que, com a sua presença, tantas vezes silenciosa, me motivam a continuar. Do fundo do coração, o meu muito obrigada.



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E eis-me chegada ao quarto aniversário do Um Jeito Manso. O tempo passa. 



Repito-me: nunca, quando comecei numa noite quente de um sábado de verão, in heaven, sem saber ao que ia, poderia alguma vez imaginar que gostasse tanto de aqui estar.

Tantas vezes já aqui o referi. Não conhecia este mundo, nada sabia das técnicas associadas a isto, ia experimentando, por instinto, e, de resto, também não conhecia ninguém na blogosfera, ninguém para me ensinar, ninguém para me recomendar. 

Logo nessa noite, para ver como era isto de publicar posts, escrevi três, muito pequenos, para ver como se inseriam fotografias, para ver como se escrevia, se alinhava o texto, etc.



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No terceiro post escrevi um poema de Nuno Júdice que tinha acabado de escrever, com pincel e tinta, num canteiro alto que antes tinha pintado com cores a la Rothko.

Não esperes; o dia de hoje é
o dia que desejas e não é todas as manhãs
que esta luz te abraça com o seu fulgor
de ave, convidando-te a partir até ao fim
da terra.

E rematava com umas palavras que diziam aquilo que enforma a minha atitude perante a vida: Sejamos optimistas, 'sejamos realistas - exijamos o impossível', levantemo-nos. Hoje.

E assim vim andando.

Começar do zero, a tactear. Uma, duas, três visitas, depois quatro, cinco, seis. Dez pessoas?! Tantas... Quem serão? Um caminho de passos pequenos, pequenas descobertas, pequenas surpresas.

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Não me ocorreu na altura dar-me a conhecer, não fazia sentido, era apenas uma experiência. Depois, quando começou a ser um prazer, também não fazia sentido identificar-me. As palavras que eu escrevia e as minhas escolhas (imagens, músicas) deveriam continuar a valer por si. Além do mais, o anonimato é-me confortável. Não quero que as minhas opiniões sejam relacionadas com o sítio onde trabalho tanto mais que exerço uma função de alguma responsabilidade, ou criem qualquer tipo de embaraço entre colegas ou perturbem de alguma forma a forma isenta como me posiciono profissionalmente. Poderia usar um pseudónimo mas um pseudónimo ou coisa nenhuma é a mesma coisa. Além disso, os Leitores começaram a tratar-me por UJM ou Jeitinho e isso é uma forma tão boa como qualquer outra de ser tratada.

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Não encontro registo do número de visitas que tinha tido quando decorreu 1 ano que por aqui andava mas devem ter sido poucas.

Mas já encontro de quando se concluíram os 2 anos: 137.000 visitas e já, nessa altura, eu tinha mostrado o meu espanto. Os números começavam a surpreender-me.


Quando há um ano atrás, cheguei ao 3º aniversário, estava eu admiradíssima. Num ano as visitas mais do que tinham duplicado: já eram, então, 300.000. O número crescente de visitas era para mim um mistério. De onde vinham tantas pessoas para ler o que eu aqui escrevia? 


Pelas estatísticas consigo saber que vêm sobretudo de Portugal (60%), depois do Brasil (14%) e a seguir, bem mais abaixo, dos Estados Unidos, Alemanha, e depois já mais abaixo, com menos de dez mil cada país, outros países, alguns francamente surpreendentes como é o caso, por exemplo, da Polónia ou da Ucrânia. Aparece-me nas estatísticas com muita frequência o google translator pelo que presumo que estejam a traduzir os textos que escrevo…. E, do que tenho verificado, esta distribuição das visitas por países e o crescimento que tenho verificado é francamente consistente.

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Hoje chego aos 4 anos de Um Jeito Manso e, para minha perplexidade, já passei as 650.000 visitas. 


Como foi tal possível? Ainda não consigo perceber.

Se olhasse para este crescimento do ponto de vista matemático teria que concluir que estou em presença de uma progressão geométrica, cujo valor duplica de ano para ano. Mas acho que não devo ver isto nesta perspectiva até porque pode faltar-me a inspiração, pode faltar-me a motivação ou posso começar a desiludir os Leitores.

Não acredito que este ritmo de crescimento se mantenha pois, sendo o blogue unipessoal e anónimo, ele depende apenas do seu conteúdo e de mim que o faço e eu sou falível, forçosamente falível.



Vamos ouvindo, por favor






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Quando vejo o bebé a portar-se mal e lhe pergunto o que é que está a fazer, ele responde-me com ar descarado: coijas. Assim estou aqui: faço coisas. O que me apetece em cada dia. Sento-me aqui e, a maior parte das vezes, não sei sobre o que vou falar. É o que me ocorre.

Não tenho uma agenda, não tento forjar uma imagem, não tento fazer-me passar pelo que não sou. Mostro-me como sou, sem disfarces, mais nua do que se estivesse aqui com fotografia e número de BI. Estando aqui anónima, livre, um ponto incógnito no meio de milhões de outros pontos que cruzam os ares neste mundo feito de seres, perfis, contas, likes, onde se cruzam desabafos, gritos de alma, suspiros, pedidos de ajuda com vaidades, ficções, ou maldades, azedumes, vinganças. A minha voz perde-se no meio de milhões de outras vozes e eu não tento falar mais alto, ter mais razão, criticar os outros que, tal como eu, deixam sair a sua voz na imensidão do universo. Tento apenas, porque assim sou quando estou cara a cara com quem quer que seja a falar do que falo aqui, defender as minhas ideias, os meus ideais, e falar de justiça, de beleza, divulgar aquilo que, de alguma forma, me toca e deixar uma palavra de esperança. Acredito que, quando queremos, alcançamos (pelo menos a maior parte das vezes).

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E assim, sendo eu em cada palavra que escrevo, aqui tenho vindo a acompanhar o tempo que passa.

Mas nunca acreditei que todos os dias fosse capaz de escrever coisas, escolher coisas, desencantar coisas e tenho a noção de que isto é capaz de ser uma realidade finita. Talvez chegue o dia em que não terei nada para dizer, nenhum fotógrafo ou pintor ou músico para descobrir, nenhum novo poema que me encante. Aí pararei.

Acontece também uma coisa: eu sempre fui de ler muito e de pintar e de fazer tapetes de arraiolos e de descobrir novas coisas (grafologia, por exemplo) e ainda sou. Tenho muita vontade de voltar a ter mais tempo para ler, de ter tempo para aprender a fazer vídeos por exemplo e o que me vier à cabeça. E isto de aqui, à noite, no meu turno da noite que começa invariavelmente depois das dez da noite senão depois das onze, me sentar e aqui estar até adormecer, é muito absorvente, não dá para acomodar outros vícios.


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E, portanto, sei lá se consigo esperar muitos anos, até me reformar, ou se atalharei caminho um dia destes?

Não sei.

O que sei é que hoje ainda cá estou, amanhã talvez também. Daqui por um ano, logo veremos.
E também logo veremos se, por essa altura, já terei ultrapassado o 1.000.000 de visitas.
O que sei é que este grande afluxo de visitas - que presumo que cheguem uns pela mão de outros, ou aterrando aqui através de pesquisas nos motores de busca - me tem trazido um número crescente de contactos.

Já aqui vos contei que fui contactada para participar num programa de grande audiência da televisão (e que recusei, claro) e também já o referi muitas vezes a pena que tenho por não ter tempo para responder a todos os comentários, tão interessantes, que mereciam ser discutidos, que mereciam, pelo menos, uma palavra de agradecimento. O mal é meu que, assim que me ponho a escrever, perco a noção dos limites e uso o pouco tempo que tenho em cada coisa que faço. Não doseio porque me entrego toda em todas as palavras que escrevo e, por isso, opto frequentemente pela solução mais radical: não responder. Mas fica sempre um remorso terrível a roer-me. Também recebo muitos mails e não consigo, por vezes, responder a todos, ficando-me sempre com a incómoda sensação de estar a ser mal educada, mal agradecida.

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O que acontece é que, pura e simplesmente, não tenho tempo.

Também não consigo ler livros originais que me enviam, pedindo a minha opinião. Não apenas o tempo me escasseia como não me sinto habilitada a pronunciar-me sobre algo tão importante na vida de uma pessoa como é a escrita de um livro.

No entanto, tenho que vos confessar que tenho conhecido pessoas interessantíssimas através do blogue ou, em particular, através dos mails que me chegam por via do blogue.

Tivesse eu mais tempo e estou certa de que seriam amizades que haveriam de se estreitar pessoalmente.

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Ainda há pouco estive a responder ao mail de uma leitora que por aqui conheci e por quem sinto aquela atenção vigilante e amiga que se sente por quem nos é muito próximo, quase como se nos conhecêssemos desde a infância. Diz-me ela que por aqui me acompanha como se eu fosse da sua família e que quase consegue ouvir os pimentinhas quando falo deles. Fico sensibilizada.

A gente escreve e vê as estatísticas a subirem mas não sabe se quem lê, gosta do que lê.

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E, vendo que as minhas palavras podem ser uma companhia, podem ser a família que por vezes, na realidade não existe, comovo-me.

Fico com vontade de todos os dias conseguir dizer uma palavra de proximidade, quase como se as minhas palavras pudessem ser um braço infinito que conseguisse chegar até a casa de cada um que me lê com estima, para que a minha mão pudesse fazer uma festa a quem não tem quem as faça na realidade.

Ou que as minhas palavras conseguissem transportar a alegria necessária para que todos nos juntássemos numa roda, em dança, alegres como crianças.

Ou que transportassem o misterioso sonho de veludo que habita fronteiras clandestinas, ou quartos frescos onde a sombra é cúmplice, ou os jardins atraentes como perigosos abismos onde se passeiam faunos, mulheres nuas ou cavalos azuis.



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0 - A primeira imagem, Blue Flower, é uma pintura de Georgia O’Keeffe, pintora americana muitas vezes aqui presente e abre este texto para deixar muito claro que este é um blogue de uma mulher, uma mulher que gosta muito de ser mulher.


1 - A imagem seguinte, também em azul, é de Mark Rothko, pintor que misteriosamente me atrai sem que eu consiga explicar porque tenho vontade de mergulhar nas suas cores quando elas eram luminosas ou vontade de rezar ou ler poesia quando as cores começaram a indiciar o negrume no qual viria a mergulhar.


2 - A segunda é de Balthus e é a imagem que encimou o Um Jeito Manso nos seus primeiros dias. É uma das suas meninas levemente más, maliciosas, perigosas com quem, por vezes, às escondidas me identifico.


3 - A terceira, a mulher que pensa ao pé de livros é uma pintura de Menez. Assim gostaria eu de ter tempo para estar: em silêncio, sem limites, sem pressa.


4 - A fotografia seguinte é de Man Ray, e mostra Kiki de Montparnasse de olhos fechados com uma máscara atenta. Quase assim sou eu: sossegada enquanto a UJM escreve e dá a cara pelo que lhe apetece.

  •  O vídeo traz-nos Caroline Nunes, uma inesperada adolescente brasileira, num jardim de uma cidade de Minas Gerais, Poços de Caldas dizendo o magnífico Tabacaria de Fernando Pessoa aka Álvaro de Campos.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(...)


5 - A fotografia seguinte é uma das belas fotografias de flores e não só de Robert Mapplethorpe que está comigo desde o início do Um jeito Manso


6 - A mulher que sonha sonhos inconfessáveis é Marie Thérèse de Pablo Picasso, que copiei para azulejos e que tenho na minha sala in heaven.


7 - A seguir está Celle qui fut la Belle Heaulmière, uma pequena escultura de Rodin, uma das que, até hoje, mais me tocou.


8 - A seguir tenho uma aguarela de Guilherme Parente: as suas cores vivas e felizes sempre me transmitiram a inocência da infância e a elas regresso quando sinto vontade de me purificar. 


9 - A seguir, a mulher que passa ao de leve mas deixando um rasto de sedução é Kate Moss fotografada por Annie Leibovitz, duas presenças que aqui muito me têm acompanhado.


10 - A seguir está La danse de Henri Matisse, que igualmente fiz reproduzir num painel de azulejos e me acompanha in heaven. A alegria sem pecado e a partilha total aqui bem presentes.


11 - Seguem-se os Cavalos Azuis de Franz Marc, cujos passos subtis e ardente resfolegar ouço quando, à noite, o luar invade as minhas noites in heaven.

  • Para terminar, uma mulher que também aqui me tem acompanhado com frequência: Sylvie Guillem, a graciosa, elástica e vibrante mulher das longas pernas e personalidade vincada. Dança o Bolero de Ravel, música que é um bom acompanhamento para actividades não declaradas.

E mais não digo.


Dancemos, provoquemos, batamos o pé, voemos



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Por agora, por aqui me fico. O meu dia foi longo e eu estou com sono, coisa que, de resto, é um clássico por aqui, certo? Não consigo rever o que escrevi. Estou a pé há quase há 18 ou 19 horas, nem sei, e não consigo energia para rever este lençol. Ponho-me a escrever e a escolher imagens e o tempo vai passando e, quando chego ao fim, até tenho vergonha do tamanho do castigo que vos inflijo e das lindas  horas a que me vou deitar.

E portanto, assim sendo, desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira e por aqui vos espero amanhã e depois de amanhã e depois de depois de amanhã e depois e depois e depois... durante muito tempo: será sinal de que estamos vivos, bem dispostos, eu sem ainda ter ido entregar-me de corpo e alma a uma outra qualquer actividade e vocês com paciência para me continuarem a aturar.


Obrigada uma vez mais, mil vezes obrigada! E sejam felizes, está bem?


quarta-feira, janeiro 01, 2014

Segundo o Caro Plúvio, o 'Um Jeito Manso' é um "Blogue assim-assim com o título mais pífio e o subtítulo mais fatela". Ora bem.


Não estou a começar o ano com temas promissores, bolas! Abaixo escrevi sobre a Mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva, coisa mais chata não podia haver.

E agora, aqui, também não é um tema espampanante. Espero que não se zanguem comigo por acharem que podia escolher temas mais promissores. 

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Música, por favor

O meu amor, aqui no musical Ópera do Malandro, com Marieta Severo e Elba Ramalho

(A versão Maria Bethânia ou está interdita ou são gravações sem qualidade)




Quando um dia, durante um fim de semana, no verão de 2010, me deu para experimentar como se fazia um blogue, desconhecia praticamente tudo deste mundo. Não era então, como não sou hoje, dada a redes sociais e não conhecia quase nenhuns blogues. 

Tinha curiosidade sobretudo por motivos profissionais. Falava-se, então, que, para além de site institucional, era bom estar-se nas redes sociais, que era coisa fácil de fazer e, curiosa, resolvi espreitar.

Fui ao google pesquisar como se fazia, daí entrei no blogger, e, não tendo ideia nenhuma em mente (não me passava pela cabeça dar continuidade à coisa), apareceu-me logo à cabeça o pedido de um título. Como nesse dia, no carro, tínhamos ouvido o 'O meu amor' pela Maria Bethânia e o meu marido andava pela casa a cantar essa canção, sem sequer pensar, escrevi 'Um Jeito Manso'. Depois fui percorrendo os vários passos, preenchendo-os como me parecia mais lógico.

A primeira imagem no frontispício do Um Jeito Manso

Quando, na configuração/desenho do blogue, me apareceu a possibilidade de juntar uma imagem, lembrei-me de lá colocar uma daquelas meninas de Balthus que têm um ar entre o inocente e o perigoso. Depois, quando me apareceu 'Sub-Título', nem sabia como isso apareceria mas, para experimentar, escrevi a primeira coisa que me veio à cabeça, 'Há palavras que nos beijam como se tivessem boca', pois gosto muito desse poema do O'Neill, até o tenho serigrafado nuns azulejos lá in heaven.

Quando dei por mim, o blogue estava feito e no ar.

Para aquilo ter algum conteúdo, e até para ver o que acontecia, escrevi nesse primeiro dia: "Sem plano, sem guião, sem preconceito, sem objectivo. Uma experiência apenas. Talvez comentários sobre o que for presenciando ou sobre o que penso. Umas vezes relatos reais, outras ficção. Vamos ver."

A partir daí, por graça e porque gosto de escrever, todos os dias ou quase, lá escrevia qualquer coisa. Até hoje.

Um dia escrevi uma coisa que não era especialmente branda e achei que o sub-título poderia induzir em erro e, vai daí, fui lá e acrescentei às palavras de Alexandre O'Neill : 'outras nem por isso', não estivessem os leitores à espera de um blogue dado apenas a coisas doces e aparecer-lhes palavreado capaz de deixar alguns amargos de boca. Não gosto de publicidade enganosa.

Se fosse hoje e fosse fazer um blogue novo, certamente não escolheria este nome e este sub-título - pela simples razão de que, em coisas deste género, sem grande responsabilidade, geralmente faço a primeira coisa que me ocorre e é pouco provável que me ocorra duas vezes seguidas a mesma coisa.

A que propósito vem isto, perguntarão vocês?

Eu explico. Há pouco, ao dar uma vista de olhos à estatística das visitas do dia, reparei que havia várias entradas provenientes de um blogue que desconhecia. Fui ver e reparei que num post, nas escolhas do autor, entre várias outras coisas estava a seguinte referência:

. Blogue assim-assim com o título mais pífio e o subtítulo mais fatela. 

Ri-me logo porque percebi que era o meu pobre UJM que assim tinha sido classificado. Cliquei no link e, de facto, confirmava-se. Se estivéssemos no mercado, eu diria que mais vale mal falado do que não falado. Mas fica uma sensação um pouco estranha. Alguém está a levar-me mais a sério do que eu própria me levo e enumera-me entre as suas escolhas para o melhor e para o pior.

Seja como for, tenho que agradecer a referência e só tenho pena de não ser capaz de fazer um blogue melhor do que assim-assim, nem ter um nome tão inspirado como o que autor (que assina como Plúvio) escolheu para o seu próprio blogue: Chove

Mas, enfim, quem dá o que pode, a mais não é obrigado, certo?


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Relembro: sobre o que me apraz dizer sobre a mensagem de Cavaco Silva (que, segundo tenho estado a ouvir os comentadores, foi quase unanimemente considerada uma coisa rígidaseca, pouco animadora, medrosa, pouco empática) é descerem um pouco mais. Apenas o Luís Delgado compreende o discurso: diz que foi um discurso neutro porque Cavaco Silva entrou em modo 'português suave', 'não quero chatices'. Certo.

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A ver se ainda cá volto como uma coisa mais apropriada ao pós réveillon.

domingo, agosto 18, 2013

Já que a Anabela Mota Ribeiro não me faz o Questionário Proust, faço-o eu a mim própria. Quer não tem cão, caça com gato. [Mas, depois de ter respondido a tanta pergunta, tenho a dizer que acho isto uma coisa mesmo chata. E será que, depois deste absurdo exercício de narcisismo, alguém vai ficar a conhecer-me melhor? A minha personalidade estará patente no que respondi? Não faço ideia] ---- > texto revisto por causa de uma irrelevância



Usei as perguntas tais como Anabela Mota Ribeiro as fez a Clara de Sousa (peguei nesta entrevista apenas porque foi a última publicada (*), puro comodismo meu, mas as perguntas são sempre as mesmas, o que pode variar são as observações mas, enfim, não alteram o sentido da pergunta).

Já agora, para quem não saiba o que é isto do Proust Quest (Proust Questionnaire), digo muito brevemente que é um conjunto de perguntas que, supostamente, permite que se perceba melhor a personalidade de quem responde. O que isso tem a ver com Marcel Proust e os pormenores da coisa podem ser vistos por exemplo aqui, na Wikipedia



Então, vamos lá a isso.


Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?


- Talvez querer fazer tudo o que me apetece enquanto posso. Tenho muito consciente a noção da finitude. Não quero nunca iludir-me: a vida é curta e, por vezes, rasteira-nos. Não sei quanto tempo vou viver, nem sei quanto tempo vou viver sem limitações físicas. Por isso, se me apetece dizer parvoíces, digo, se me apetece passear no campo, entre as árvores escuras, ouvindo os sons da noite, iluminada apenas pelo luar, ando, se me apetece pintar, pinto, se me apetece ser excessiva na demonstração dos meus afectos, sou. São exemplos inócuos, estes que dei, mas são exemplos. No entanto, tenho também sempre muito presente o não fazer nada que prejudique outras pessoas. Mas preconceitos, inibições, receio de ser censurada, hesitações, ou protelar o que me apetece para melhores dias, etc, isso não é comigo. 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...


- Inteligência com humor. Não é apenas nos homens que aprecio isto mas, num homem, então, é fundamental. Não tenho paciência para burros, mas é que não tenho mesmo. Apetece-me ignorá-los, fingir que nem os vejo. (Imaginem o que é para mim viver num País governado por quem o governa. Não vejo noticiários há uns dois dias, pelo que me poupei ao sacrifício de ver aqueles inteligentes que devem andar a desfilar pelo Pontal. Agora que escrevi isto, fiquei na dúvida: aquilo é festa só de um dia ou é o fim de semana todo, uma coisa tipo festa do Avante? Não sei). Adiante. Dizia que não suporto burros. Mas há outra casta de homens para os quais também não tenho paciência: os cepos, sem sentido de humor. Uma pessoa diz uma coisa na maior ironia e eles respondem a sério, não perceberam que era ironia nem têm sentido de humor para encaixar e dar o troco. Uns chatos do piorio. Ou os inteligentes armados em intelectuais, carapaus de corrida, uns chatos de primeira, todos prosa, citações, grandes tiradas.


E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?


- Sim, a franqueza. Aprecio mulheres francas. Mas também aprecio a generosidade. Não gosto de mulheres mesquinhas, quezilentas, que infernizam a vida aos outros (aliás não gosto nem de mulheres nem de homens assim - desperdiçam a própria vida e chateiam os outros - e para quê?). Gosto de mulheres que mostram alguma superioridade na capacidade de perdão; ou de aceitação. Não descurando o que pensam, são, no entanto, capazes de aceitar os outros nas suas diferenças.


Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?


- A intemporalidade. A não necessidade de assiduidade. Não tenho paciência para as amizades que são cheias de 'temos que combinar almoçar', 'temos que combinar isto e aquilo'. A amizade boa é aquela que se manifesta nos momentos certos. Uma palavra dita quando se sente que o outro sente falta dela. Um gesto quando se intui que vai fazer bem. Sair de cena quando não faz falta estar-se. Reaproximarmo-nos quando fizer sentido mesmo que seja anos depois. E o encontro ser tão natural como se tivéssemos estado juntos na véspera. Não fazer perguntas quando o silêncio deve ser respeitado. 


Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?


- O meu maior defeito, segundo os outros me apontam, é a falta de paciência para suportar aquilo de que não gosto. A questão é que nem tenho paciência para disfarçar. Baldo-me imenso a encontros, almoços, festinhas sociais, coisas assim, porque não tenho paciência para conversa mole, trivialidades, gente que fala sem parar, que me cansa de tanta vacuidade, que diz coisas à toa. Ou quando estou em reuniões de trabalho e há gente que fala, fala, sem dizer nada, que empata, enrola, não dança nem sai da pista, fico numa impaciência que geralmente me leva a dizer coisas à bruta. Tenho uma certa fama de, de vez em quando, ser bruta como as casas. Nada a fazer.

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...


- Viver. Dito assim parece uma resposta estúpida, eu sei. Mas é a verdade. Viver dá-me muito prazer. Viver e fazer a cada momento o que de melhor posso - porque nem sempre posso fazer o que me apetece, claro. Mas agora, por exemplo, depois das 2 da manhã, depois de um dia maravilhoso (in heaven, com os meus amores e amorzinhos), o que me apetece é estar aqui a escrever - e, apesar do sono, é o que estou a fazer. Quando estou no carro, numa fila que não acaba, poderia apetecer-me largar o carro ali mesmo e ir a pé - mas isso não posso. Mas mesmo nessas alturas, ouço música, olho a paisagem, penso em coisas que me agradam. E, por isso, muitas vezes, quando estaciono, não consigo sequer lembrar-me se estava muito trânsito. A cada momento, viver o melhor possível. Caminhando, fotografando, lendo, escrevendo, pintando, cozinhando, nadando, e, claro, claro, amando, amando sempre, amando muito.


Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?





- Estar em casa e ver a luz através da janela, estar rodeada pelos meus amores, abraçar os que amo, saber que estão bem, que são felizes, e viver cercada por livros, plantar árvores e vê-las crescer, imaginar caminhos, desenhá-los, caminhar depois por eles, cozinhar e pôr a comida na mesa e ver a família comendo, repetindo com gosto, conversando, leve e feliz. 


O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.


- Não quero nem falar, seria terrível, insuportável. 


Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?


- Aos 13 eu não sabia o que queria ser, talvez psicóloga. Por essa altura já tinha desistido de ser cabeleireira. Aos 20 sabia que não queria ser professora, queria trabalhar numa empresa grande, embora em nenhuma função em particular, apenas trabalhar numa empresa grande. De facto, tenho exercido muitas funções, díspares, mas sempre em empresas grandes. Tenho sorte, faço o que queria. Mas hoje sei que poderia fazer outras coisas. Penso, aliás, que um dia ainda as hei-de fazer.


Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?


- Não sou dada a utopias nem a ideais. Maça-me até a perfeição. Vivo em Portugal e é aqui que quero viver. Se me acontecer ter que viver algum tempo noutro país, sei que quererei sempre voltar para cá. Apesar de tudo.


Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.




- Muito difícil responder a isto. Também não sou dada a eleitos. Escritores de que gosto há muitos. Seria ridículo escolher um ou outro. Ao acaso apenas alguns: Clarice Lispector, Hélia Correia, Eça, Jorge Luís Borges, Yourcenar, Thomas Mann, Pedro Tamen, Manuel António Pina, Herberto, Sophia - e vou parar porque estes não são os preferidos, são apenas alguns dos que muito gosto.


E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.


- Que pergunta... Então os poetas não são escritores? Já mencionei alguns na resposta anterior. Mas são muitos. A poesia para mim é a simetria perfeita da matemática. A expressão destilada, perfeita das coisas. Venero os poetas. Citei aqueles na pergunta anterior mas poderia ir por aí fora. Não o fazendo e apenas para não deixar a pergunta sem resposta substantiva, acrescento dois: Luís Filipe Castro Mendes e Jorge Carreira Maia.


Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.




As ligações perigosas dão sempre pares memoráveis


- Outra vez... Preferências é coisa que não joga comigo, é estreitar muito o que é imenso. Há tantas coisas de que gosto que reduzi-las apenas para dar uma resposta é coisa em que não alinho. Mas, vá lá, alguns exemplos, e repito-me uma vez mais: apenas exemplos. Aos pares: Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont; Lara Antipova e Yuri Jivago; Karen Dinesen Blixen e Denys George Finch Hatton. São exemplos. Podia puxar pela cabeça e referir mais umas dezenas. E, claro, não tem que ser aos pares. Muitas vezes são personagens que se destacam na sua individualidade. Adriano seria, por exemplo, um deles (e estou, claro, a lembrar-me das suas memórias ditas pela Yourcenar). Mas para que faria esse absurdo exercício? Ficariam de fora outros tantos, muitos outros tantos. Mas quero juntar um outro par, ou melhor mais dois personagens que 'me enchem as medidas': Lisa e Bart Simpson, talvez até mais o Bart. Mas também todos os outros membros da família. 


Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...


- Fogo... estou quase a desistir. Maçada, isto. Todos os referidos na pergunta e mais cem. E Leonard Cohen. E Rodrigo Leão. E José Afonso. E tantos, tantos mais. 


Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.



"Amor vincit omnia", Caravaggio, 1602 c.


- E continua... Mas vá lá... Rothko, sim, o absurdo de uma cor que nos atrai de forma incompreensível. E a luz de Van Gogh. E as sombras, a sujidade, o vício de Caravaggio. E Paula Rêgo, controversa. E Picasso desbragado. E Balthus, perverso. E cem mais.



The Golden Years, Balthus, 1945

(A primeira imagem que encabeçou o Um Jeito Manso;
acho que esta menina tem muito de mim - e não me perguntem porquê)


Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.


- Os desempregados. Não sei como vivem. Não sei como continuam vivos, não sei como encontram forças para se manterem vivos. Curvo-me perante eles. 


“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?


- Esse Proust, credo, parece que não via muito além dele próprio. Eu aquilo de que gosto menos é capaz de ser da hipocrisia. E da mentira dita com descontracção, olhos nos olhos: acho um perigo. Da maldade: tenho medo das pessoas que são más.


Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!


- Gostava de saber tocar piano. Nunca consegui. A minha filha toca, aprendeu com uma facilidade impressionante. Eu que lhe ensinava tantas coisas, não apenas não sabia ensinar-lhe isso, como não conseguia aprender. Mas nem os mínimos. Colcheias, semi-colcheias, tra-la-la. Zero. Mas nem tocar de ouvido. Nunca consegui, escusado. E tanto que gostava de saber, de deixar os meus dedos voarem sobre o teclado. 


Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.


- Proust era mesmo um lírico. Eu sou mais simples: a dormir, sem dar por nada. Pensando melhor, não, que pregaria um susto a quem desse por mim. Por isso, talvez sentada, a ler ou a olhar pela janela, na boa, sem sofrer, sem incomodar os outros, sem me aperceber. 


Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?


- O meu actual estado de espírito? Será preciso responder? Farta de estar aqui a responder a isto. Não me tinha apercebido que isto era tão comprido, senão não me tinha metido nisto, que seca. (Pensar em quem sou traz-me aborrecimento? perguntam. Não, nenhum. Gosto de ser quem sou)


Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?


- Irrelevo (isto é, não perdoo) o que é feito com irresponsabilidade ou com maldade, prejudicando os outros. Por exemplo, irrelevo a devastação que o Governo de Passos Coelho tem levado a cabo no meu País.
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Volto e esta resposta pois fiquei a pensar que, ao responder, atribuí à palavra irrelevar o sentido oposto ao de relevar, ou seja, quis dizer não desculpar. Contudo, parece-me agora que o sentido mais comum que a ela se atribui é o de tornar irrelevante. Por isso, respondo de novo.
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- Irrelevo (no sentido de não dar importância) a atitudes de efeito pouco significativo tomadas no calor de uma discussão ou decorrentes de uma maneira de ser precipitada (por exemplo, disparates ditos ou feitos quase sem pensar e de que, ainda por cima, regra geral, os seus responsáveis por eles se vêm a arrepender)



Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?


- O meu lema não sei qual é, talvez viver bem e contribuir para que os outros vivam também melhor. Voar. Abraçar. Dar. Coisas assim. O que me faz correr? Acho que não corro. Não tenho pressa, vivo cada instante, degustando-o, e isso é incompatível com correrias. Caminho, aspiro o perfume do ar, deixo o meu pensamento voar.


Acabou? Ufffffff. Parecia que não acabava. Bolas.


[Não vou rever. Passa das 3 da manhã, imagine-se. Que coisa tão comprida esta, credo. Por isso, já sabem, é como nas outras vezes: se encontrarem erros graves, por favor, avisem-me, está bem? Se forem vírgulas ou letras trocadas, por favor, relevem, sim?] 

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E, para não darem a visita por perdida - que isto de lerem isto tudo também deve ter sido uma seca das antigas - aqui vos deixo Leonard Cohen.





U2 & Leonard Cohen,  Tower of Song
(uma ao acaso)


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Entretanto, agora de manhã, que vim aqui dar uma rápida vista de olhos, reparei que a Clara de Sousa já não é a última, já lá está uma nova entrevista da Anabela Mota Ribeiro, seguindo o Proust Quest., agora com a Guta Moura Guedes. Mas vou ter que deixar a leitura disso para mais tarde, que os meus afazeres não podem esperar. Estar agora aqui no computador é uma frescura incompatível com os trabalhos pesados a que tenho que deitar mão.


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E tenham, meus Caros Leitores, um domingo muito feliz!!!!!!!!!