Embora nada disto seja aqui novidade, faço questão.
À laia de disclaimer poderia dizer que me batizaram e me levaram a fazer a Primeira Comunhão e a Comunhão Solene. Nunca senti qualquer tipo de ligação ao que tentaram ensinar-me mas a verdade é que andei por lá.
Também poderia dizer que, quando visito cidades, gosto de entrar nas igrejas e me sinto bem naqueles espaços amplos, frescos, em que a luz é coada e em que há figuras com ar piedoso que parecem acolher-nos. Poderia também dizer que, in heaven, não descansei enquanto não tive a minha própria capela, um pequeno espaço despojado destinado ao recolhimento. Nunca soube explicar essa minha vontade. E o pessoal deixou de me perguntar embora nunca ninguém tivesse percebido.
Mas terei também que dizer que, se sinto que há qualquer coisa de soberanamente incompreensível que regula a existência da vida e dos bem sucedidos acasos que são inexplicáveis milagres e que me sinto amparada nos momentos de maior vulnerabilidade, a verdade é que nada disso atribuo ao que se prega nas catequeses, nos grupos de reflexão, nas missas. E, talvez por isso, não batizei os meus filhos e sempre tentei que os princípios castradores e hipócritas que têm regido o catolicismo nunca influenciassem o seu são desenvolvimento.
Contudo, tenho as minhas crenças. Acredito incondicionalmente nos valores supremos da bondade, da generosidade, da liberdade, acredito na defesa dos direitos dos mais desfavorecidos, acredito nos malefícios da intriga, da inveja, da ganância, defendo a paz assente na justiça e no respeito pela vontade dos outros. Acredito no supremo saber e poder da natureza e acredito que devemos respeitá-lo e venerá-lo.
E etc. Coisas assim.
Mas isto é, digamos assim, a introdução e a declaração de interesses antes de falar no que hoje aqui me traz.
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E o que hoje aqui me traz é o seguinte:De pessoas que abusam sexualmente de outras eu sinto um asco sem tamanho. Também desprezo. Mas o desprezo às vezes mistura-se com indiferença e eu não consigo ficar indiferente quando alguém abusa sexualmente de outra pessoa.
Mas quando o abuso é cometido contra uma criança o asco é mais do que asco. É raiva, é repulsa, é vómito misturado com fúria.
E se a isso se junta que o abusador se disfarça de protector e de emissário da igreja então eu não vejo que possa haver perdão.
Mas perdão sempre deve haver. Tem que existir em nós capacidade de descobrir clemência, em especial se o abusador é um tarado, um pérfido encapotado, alguém tão hipócrita e sinistro que com uma mão penetra na intimidade de uma criança e com a outra dá a hóstia aos devotos. Temos que tentar encontrar em nós capacidade para perceber que só alguém muito perturbado, muito doente, muito psicopata pode molestar uma criança indefesa e depois continuar a encomendar almas, a batizar crianças, a pregar a fé e a caridade.
Mas já não me parece que mereçam perdão, sequer compreensão, as hierarquias da igreja, a estrutura da organização, os supremos zeladores, os que sabem o que se passa e encobrem, desculpam, inventam pretextos.
Não, não me parece que mereçam perdão os que, sabendo dos abusos, se paramentam com vestes bordadas e debruadas a ouro e bem moldadas mitras, que frequentam as atapetadas e luxuosamente decoradas salas em que se fala baixo e se transaccionam dádivas e perdões, os que fazem prelecções transbordantes de apelos à verdade e à bondade. Não, esses não podem merecer perdão, sequer compreensão.
Há demasiada cumplicidade para com tantos crimes. Há demasiado encobrimento e demasiada tolerância para com tantos criminosos. Há demasiado silêncio em relação aos que viram as suas almas e os seus corpos para sempre dilacerados. Há demasiados criminosos no seio da Santa Madre Igreja.
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As duas pinturas são da autoria de Fra Angelico ao som de Salve Regina
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Desejo-vos um bom sábado
Saúde. Justiça. Paz.












