Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, maio 01, 2019

Entre os azuis de Monet, nos bosques com Liziqi





Uma pessoa que conheço há anos contou-me a sua história e eu ouvi sem perceber como pode uma coisa assim acontecer. Há pessoas que se acham especiais e com uma vida que deveriaa dar direito a um livro. Há outras que se acham normais, sem nada que as distinga. Eu incluo-me neste segundo grupo. Contudo, isso de uma pessoa ser normal é coisa que não existe. Acabei de ler nos onlines a história do assassino do Tagus Park, uma coisa assustadora e tremedamente triste -- e os colegas dizem que ele era uma pessoa normal. Sempre que há crimes, roubos ou desmandos, os vizinhos e familiares aparecem a atestar que os fora de lei são pessoas normais, pacíficas, tranquilas e, se necessário for, até acrescentam a pérola do costume: amigo do seu amigo.


Mas, enfim, ressalvas à parte, pelo menos da roupa para fora eu acho que sou normal; e a pessoa de quem falo também. E, no entanto, a sua vida, pelo menos até certa altura, foi singular, estranha, difícil. E eu, agora que sei disso, espanto-me que ele seja normal. E fico a pensar: quando se conhece uma pessoa, como podemos garantir que a conhecemos? E quando é que a pessoa é mais ela: quando se desliga da sua história ou quando a recorda? E a verdade é que não tenho respostas. 

E, logo a seguir a ter ouvido aquelas revelações surpreendentes, desliguei e continuei o meu dia como se não tivesse sabido nada e como se nada daquilo tivesse importância. E só voltei a lembrar-me disso ao jantar, quando contei ao meu marido. E fiquei também surpreendida comigo porque a minha cabeça parece que tem alçapões por onde desaparecem as coisas, por mais extraordinárias que sejam, fazendo com que os meus dias sejam 'normais', sem nada que os marque. E agora estou a pensar no tema enquanto escrevo e a pensar que não devo contar aqui nada já que é a vida mais do que privada de uma pessoa e não tenho direito de a expor mas sei que um dia, daqui por algum tempo, falarei nisso -- mas que, até lá, o assunto eclipsar-se-á no meio de todas as outras coisas que vou descobrindo e vivendo no meu dia a dia. E a importância relativa de cada coisa dilui-se na amálgama em que tudo parece transformar-se.


No entanto, e podem crer, preocupações não me faltam. Mas sobre umas nada posso fazer e sobre outras também não e as outras, sobre as quais posso fazer alguma coisa, em boa verdade não me preocupam, apenas me incomodam ligeiramente.

E, portanto, com tudo isto (que assim descrito dá ideia que espremido é nada -- e, quando visto em perspectiva, é), a verdade é que chego aqui à noite e, antes de ir dormir (e como já no outro disse), apetece-me adentrar-me no meio de bosques verdejantes, longínquos, inacessíveis, apetece-me ver formas de vida que desconheço e me atraem, apetece-me seguir os gestos tranquilos desta jovem aqui abaixo que faz gestos seguros e sábios, manuseando ervas, ingredientes, bagas ou fazendo misturas que me deixam intrigada, sem conhecer nada, sem perceber nada. E sou capaz de me deixar ficar assim durante imenso tempo.


Gostava de perceber quais as ervas que ela apanha, quais as técnicas de cozedura, quais os temperos, para tentar reproduzir. Mas, na volta. se soubesse, talvez deixasse de achar tanta graça. Acho que há ali tanta serenidade, tanta segurança, tanta elegância nos gestos que olhar para isto me descansa a alma. E que é bom não quebrar o mistério.


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[A quem apeteça uma escapadinha ao Algarve ou ao Porto recomendo que faça o favor de descer até onde a Vogue ou o Guardian nos recomendam]

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sexta-feira, março 22, 2019

Qual a palavra para dizer azul, silêncio, limpidez?





Nos outros, eu gosto de ler textos curtos, palavras soltas. Mas eu, quando me ponho a escrever, não sei ser contida. Falta-me um freio, falta-me um filtro, falta-me a sabedoria para destilar as ideias. 

É como na pintura. As que escolhi e comprei aqui para casa são neutras, claras, simples. Eu, se me ponho a pintar, desfaço-me em cor, incapaz de controlar a torrente.

Não sei que é isto em mim, este excesso. 


Por exemplo, agora estou com vontade de escrever sem ser por nada e gostava mesmo era de ser capaz de saber dizer palavras silenciosas, transparentes. Estou a escrever e a parar, a pensar, sem saber como escrever para que, quem leia, se sinta como se estivesse a contemplar, em silêncio, uma lâmina de gelo azul, límpida, perfeita. Pétalas de azul efémero.

Também gostava de saber falar sobre a paz. Não a impossível paz no mundo mas, sim, apenas, a paz entre duas pessoas talvez unidas por invisíveis e inconfessáveis laços feitos de palavras. Mas não sei. Acredito que seria preciso muito mais do que sei. Não sei alcançar as quimeras, não sei como aproximar-me do transcendente. Nem sei se a palavra transcendente aqui faz sentido pois desconheço as letras que deslizam, frescas, azuis, que se unem, que formam palavras puras. Afecto, luz, paz, água, azul, olhar, silêncio. Ou fogo.


Uma cama azul, infinita, amores perfeitos e intangíveis, palavras cegas, perdidas, procurando o gesto, o tacto, o remoto olhar. Soubesse eu qual a palavra, a única palavra, soubesse eu dizer pouco e numa única palavra guardar dentro o reflexo, a saudade, o sonho, o murmúrio, o fogo. Mas não sei.

Talvez a palavra amor.

Mas não sei.

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As fotografias mostram o gelo a quebrar-se no Lago de Michigan
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terça-feira, junho 05, 2018

Ao anoitecer as montanhas cobrem-se de azul.
O azul é a cor do silêncio.
O azul é a cor mais quente.






Quando cai a noite, as árvores começam a cobrir-se de azul. O mistério envolve-as. Os vultos agigantam-se, os pássaros aquietam-se. Apenas leves rumores, aragens suaves fazendo ondular a folhagem, o lento ranger dos troncos como doces gemidos. O azul tomba sobre as árvores, sobre as almas. 

E as montanhas também. Nas casas da minha vida há sempre, ao longe, uma montanha. Sei bem como a luz as desvenda e a noite as veste de veludo, sei como, então, os contornos se perdem, difusos. Por fim, apenas a nostalgia.
Olha-se o vulto feito de sombra e pensa-se: aconteceu? foi apenas um sonho?
Fecho os olhos, tento recordar. O fulgor da luz, as palavras, os sorrisos, as flores. Manhã luminosa e mil promessas.

Depois entardece. As saudades, a melancolia. Uma serra ao longe. Murmúrios que atravessam a distância. Laços intangíveis perdidos nas brumas.

Chegam os lobos, silenciosos, os olhos brilhando, o bafo azul ardendo na noite. Vultos súplices rondando os corações melancólicos, tingidos de blue.


Ou o mar. O mar a ficar galante ao cair do dia, os azuis mais profundos, os verdes rendidos, a encostarem o corpo, a pedirem uma quebra, um lânguido quebranto, um beijo de espuma macia, longo, infinito. A escuridão a pousar sobre as águas, o horizonte a perder-se na lonjura, os azuis a enegrecerem, tentadores, tentadores como a mágoa mais ardente.

O mar à noite é como uma serra. Um volume imenso, uma solidão distante, inumana, uma presença magnífica. Um abraço prometido. Ao longe, ao longe. Sempre presente. Um abraço quente, azul. O perfume de um corpo expectante.

E depois. Depois, lentamente. O despertar. Os primeiros raios, o amanhecer. 

Musgos que antecipam o afago, cristais indefinidos que a aurora descobrirá, o azul a esvair-se, devagar, devagar. Limos, algas, fetos, heras, a seiva verde a despir-se da noite, os lobos a recolherem-se, os azuis a esconderem-se, inocentes como bichos sinuosos. O silêncio perde-se. O alvo frescor começa a chegar. As flores, inocentes, deixam escorrer o orvalho da madrugada. Os bluebirds que habitam os nossos corações sacodem os restos de noite. O azul nasce de novo, claro e inocente, vem quase branco.

Outro dia.


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Pinturas de Zao Wou-Ki


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Lá em cima é Harmen de Boer com a Nieuw Sinfonietta Amsterdam que interpretam o Adagio do Concerto para Clarinete de Mozart

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