Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, outubro 24, 2019

O meu avô. A vida simples.
[E Li Ziqi que mostra como se comem as castanhas chinesas, como se fazem candeeiros e cestos, etc.]





O meu avô, que viveu uma vida longa, teve uma infância difícil. Contudo, isto sou eu a dizer porque a ele nunca ouvi um queixume nem o meu pai ou a minha avó alguma vez o referiram. Já o contei. De família abastada, o meu bisavô cedo se perdeu em mulheres e jogo, perdendo casas, terras, animais e, quando nada mais restava que a casa onde vivia com a mulher e três filhos pequenos, creio que para escapar a dívidas e vexames, fugiu para longe e, esqueci-me e ainda não me lembrei de perguntar á minha mãe, foi para a Argentina ou para a Venezuela. Não faço ideia o que aconteceu a seguir. Só sei que, ainda adolescente, o meu avô se fez à estrada e começou a trabalhar onde calhava. Presumo que se deslocasse a pé. Ou, então, de bicicleta. Andou de bicicleta até aos oitenta e muitos anos. O meu pai e o meu tio tinham medo, diziam que ele já não ouvia bem, que já não tinha idade para andar de bicicleta. Ele fingia que não ouvia, e continuava a fazer o que queria. Lembro-me dele com a cana de pesca em diagonal nas costas e a cesta para o peixe presa atrás.


Trabalhou em França e eu gostava imenso de o ouvir a falar em francês. Depois, não sei como, foi parar onde se fixou. Ali trabalhou até se reformar, vivendo perto. A casa tinha um terreno ao lado, onde tinha árvores de fruto e uma horta. Depois o terreno subia em socalcos onde ele, em pequenos talhões, plantava alhos, cebolas, favas, batatas. O terreno ia até lá muito acima. Acedia-se aos níveis superiores por caminhos, degraus, caminhos, degraus. Cá em baixo, tinha ainda uma capoeira grande; mas isso era pelouro da minha avó.

Lembro-me do meu avô sempre ocupado. Sempre que possível, ia à pesca e vinha carregado de peixes que eu pedia sempre para arranjar, as mãos mergulhadas nas vísceras, os dedos nas guelras puxando as tripas que vinham agarradas, ensanguentadas. E a minha avó sempre com medo que tivesse ficado um anzol na goela e eu ficasse presa. 


Ou, então, tratava da horta ou apanhava fruta. E a minha avó sempre a zangar-se por ele não limpar bem os pés no tapete que havia à porta da cozinha e levar terra agarrada aos sapatos. E ele a fingir que não ouvia. Mas nas mãos dele tudo passava por cuidados que me maravilhavam. Ele apanhava as cebolas e os alhos com a rama e entrançava-as, fazendo réstias que pendurava naquilo a que chamávamos 'a casinha'. Também o tomate. Havia tomate maduro todo o ano pois não se estragavam. A casinha tinha pouca luz. Talvez fosse por isso. Não sei. Quando alguma galinha ficava choca, era também nessa casinha, não tão pequena quanto isso, que se deitava a galinha, numa cama que lhe faziam, onde estavam os ovos. Por isso, era aí que nasciam os pintainhos. 

No quintal, havia ainda a casinha das ferramentas e a bancada onde estava um torno. Contudo, penso que o que ele aí fazia tinha sempre a ver ou com fazer um portão de madeira, ou uma escada para ir à fruta, ou um banco de madeira para a capoeira. Coisas assim, simples.


E tinha uma arte. E essa arte fascinava-me. Dos seus tempos de criança tinha-lhe ficado a lembrança da cestaria. Devia evocar a lembrança das pessoas da terra e, aos poucos, foi tentando reproduzir os movimentos e cada vez fazia melhor. Creio que ele falava em palma. Creio. Eram folhas estreitas e finas que ele abria ou dobrava. Tenho ideia que umas vezes fazia com as folhas secas e outras com elas ainda frescas. Fazia cestos para guardar os ovos, cestos para a fruta. Não eram muito perfeitas e, portanto, não se usavam como objecto decorativo. Mas eu gostava tanto. Gostava em especial quando ele os fazia com asas de lado ou uma única, ao alto, grande, a meio. Tenho ideia que uma vez pensei que queria ficar com uma recordação e quis uma dessas cestinhas. Mas com as mudanças de casa, com o tempo a passar, às tantas, perdi o rasto a uma que tinha. Não sei como foi possível. Ficou apenas a terna recordação.


Eu olhava para aquele avô com um grande fascínio. Como viveu até tarde, lembro-me especialmente dele quando reformado. Depois de almoço, sentava-se no cadeirão de madeira que agora tenho lá em casa, in heaven, ligava a televisão ou o rádio, pegava num jornal ou num livro, lia, e, por vezes, dormitava. Tirando isso, andava sempre ocupado. Nunca se zangava, nunca protestava. Por ele estava sempre tudo bem. A minha avó queixava-se do reumático ou das artroses, queixava-se dos filhos, queixava-se da outra nora que a afastava do filho, queixava-se de uma ou outra vizinha, queixava-se de ele trazer muito peixe e de ela já não ter paciência para o arranjar, queixava-se de ele ser pouco cuidadoso com o quintal, com o jardim e com as flores. Ele fazia de conta que não ouvia e, à socapa, sorria para mim. 


Sempre tive uma grande cumplicidade com ele. Quando deixei um namorado, ela preocupou-se e, quando apareci logo com outro, preocupou-se ainda mais. E quando aos vinte lhe disse que ia casar ainda mais preocupada ela ficou. Ele não. Ele não dizia nada, apenas sorria, deixava-a fazer os dramas. Não era bem dramas, era mais como se fosse uma agonia que ela tentasse disfarçar sem o conseguir. Nesse dia em que, em casa dos meus pais, eu lhes disse que dentro de um mês ia estar casada e que ela ficou arrasada ele ficou como se nada se passasse. Apenas veio ao pé de nós, de mim e do meu namorado, e disse: ela casou-se aos dezoito e ao fim de pouco tempo, já o teu pai tinha nascido e, pouco depois, o teu tio. Eu tinha vinte e cinco mas ela tinha dezoito. Por isso, aos vinte parece-me uma boa idade. 

Isto do lado desse meu avô.
Esqueci-me de referir um aspecto que talvez explique muitas coisas. Ele tinha umas feições levemente orientais que o filho mais novo herdou e de que uma das minhas primas ainda é portadora. Penso que talvez por isso tivesse aquela paciência de chinês.
Do lado da minha avó do lado da minha mãe era também sempre uma actividade mas aí uma coisa mais restrita: era renda. Fazia rendas lindas. Colchas, toalhas de mesa, rendas para lençóis, entremeios de mesa. Nunca estava sem nada que fazer e era altamente produtiva. Tenho várias coisas feitas por ela. 'Tirava' por amostras, 'tirava' por revistas, 'tirava' por onde calhasse. Eu adorava ver a destreza daquelas mãos.


Talvez por isso, quer a minha mãe, quer o meu pai sempre foram muito activos, sempre ocupados, muito habilidosos. Com o que calhasse. Contudo, lembro-me especialmente dessa actividade e criatividade depois de reformados pois antes a vida profissional ocupava-os bastante. 

E, talvez também por isso, eu seja como sou, incapaz de estar sem nada que fazer. Contudo, vejo-me limitada. Limitada, desde logo, em tempo. E, talvez tão importante como a falta de tempo, é o sentir-me limitada pelo preconceito de recear não saber fazer. O receio contraria a confiança e para se fazer o que se quer é preciso ser-se afoito. E para se ser afoito é precisa ignorância. Ora, se a gente se põe a pensar muito, estraga a ignorância, perde a afoiteza e lá se vão os sonhos.

Mas, senhores, que vontade sempre tenho de fazer coisas. Pintar, fazer tapetes, fotografar (como estas fotografias que fiz no outro dia in heaven), cozinhar, varrer, escrever. E outras coisas. Tantas outras coisas.


. . .   &   . . .

Já aqui mostrei muitas vezes aqueles vídeos que, para mim, são uma fonte de tranquilidade. Os movimentos serenos da jovem Li Ziqi, os seus passeios pelos bosques, a forma harmoniosa como se move, os gestos ancestrais no manuseio de frutos, de flores, o fogo, os preparados que faz, a comida que confecciona, as peças que talha. Tudo me faz ficar presa a olhar. Mesmo que não perceba o que faz, mesmo que não saiba que produtos usa. Mesmo assim eu fico a olhar. Penso que era uma vida assim que eu gostava de ter. Uma vida simples, sem tempo, sem pressa, sem ruído, embalada pelo canto dos pássaros. 

Fazer coisas bonitas para a casa.

(E foi por vê-la a fazer cestas que me lembrei tanto do meu avô)



Os frutos secos do Outono



Mas quem é Li Ziqui que tem milhões de seguidores?


Desejo-vos uma quinta-feira tranquila e boa

quarta-feira, abril 04, 2018

Vintage violets




Há coisas que se fixam na nossa memória como se tivessem sido tocadas pela graça da eternidade. No largo espaço do tempo -- onde se albergam várias geografias, muitas pessoas ao longo das suas múltiplas idades e memórias fragmentadas de acontecimentos ocasonais -- essas coisas permanecem incólumes, como se o tempo se tivesse detido para as conservar, frescas e belas, dentro de nós.


Essas coisas (ou pessoas) especiais preservam-se no ambiente em que um dia tocaram o nosso coração. Pode ser, por exemplo, um sorriso avistado numa varanda suspensa, entre flores e sobressaltos. Pode ser o canto do mar saltitando nas rochas, rompendo por entre uma gruta numa longínqua tarde de verão ou o nosso nome descoberto entre ruínas, tempos depois de lá termos estado com alguém que escondia o seu amor.

Ou uma luxuriante avenca no fundo parapeito interior de uma larga janela ocultada por espessa cortina. De um verde secreto e sereno, a terra sempre húmida, o vaso dentro de um prato alto sempre molhado. Na sala dos meus avós. O cadeirão onde o meu avô se sentava, ali sob esse largo parapeito. A minha avó com uma tesourinha, cortando as folhinhas secas, passando a mão pela frescura viçosa das hastes repletas de folhinhas pequeninas e perfeitas como um denso bordado.

Depois disso já houve outras avencas. Mas nenhuma bela e farta como a daquela janela por onde a luz não era autorizada a entrar. Sempre que me lembro de avencas, é daquele vaso ali que me lembro Eternamente ali. 

Como o perfume fresco, subtil, delicado, que ofereci à minha mãe. A essência da violeta. Um frasquinho pequenino, muito bonito. Como o vasinho de violetas que tive na minha primeira casa, aquele ninho de amor no alto de uma torre de onde se via o mundo a toda a volta. 

E agora -- contei-o aqui -- recebi um inesperado vasinho de violetas pelo Natal. Estamos em Abril e estão ainda vivas as florzinhas e aveludadas as macias folhas.

Penso no largo parapeito da minha avó. Não tenho nenhum parapeito assim nem as violetas são parecidas com a grandiosa avenca do vaso da minha avó. 

Está na bancada de pedra da minha cozinha, junto ao tabuleiro da fruta. As cores luminosas das laranjas, das maçãs, das bananas, a luz coada passando pela cortina de renda, e o vasinho de violetas. Olho e penso que gostaria de guardar na minha memória o sentimento de harmonia que dali me vem. Mesmo quando as laranjas doces e sumarentas tiverem sido comidas e as florzinhas definhado, mesmo então eu gostava de ver ali as cores e a suavidade destes momentos.

Em vão tenho procurado um perfume tão suave e intangível como o daquele que, quando era ainda menina, ofereci à minha mãe. Mas todos os que encontro não são tão eternos e elegantes como aquele. Ontem, ao passar os olhos pelo Bois de Jasmin dei com um texto sobre violetas, Vintage Violets. Encantei-me a lê-lo.
Swan-down puffs, lace camisoles, ivory fans, tulle skirts, satin shoes… If these words evoke an appealing vision for you, then you’re the right candidate for a Victorian violet perfume. While the 19th century under the reign of Queen Victoria is often described as conventional and stuffy, the favourite aromas are anything but. 
Despite its reputation for being dainty and demure, violet has a complex scent with a fascinating history.
The Victorian era was a period of great change in society, and the simple example of a violet cologne is a good illustration of the dynamics of the time. 
Violet waters became popular long before Victoria was crowned, highly sought after for their sweet scent with nuances of raspberry and rose. At first, fragrances based on this flower were derived from Parma violets via the painstaking process of collecting tiny blossoms and extracting their essence. It made violet a costly and luxurious perfume available only to a select few.
Violets and other floral notes were usually blended with musk and amber to give them depth and character. 
Guides to contemporary etiquette urged women to select light and delicate perfumes, but fragrances rich with sandalwood, balsams and ambergris were much loved. 
Queen Victoria herself favoured Ess Bouquet, a bold choice that during her 1855 trip to France confounded Parisian mavens. A perfume “with a detectable hint of musk” on a royal persona seemed surprising, risqué and yet intriguing. (...) 
It might make you understand why Napoleon Bonaparte, a character far from demure and retiring, selected the violet as his signature flower.
Victoria Frolova refere os perfumes de violeta que mais aprecia. Infelizmente, que eu saiba, nenhum se vende em Portugal.

Mas não faz mal. Vive ainda dentro de mim a eterna fragância da mais perfeita essência, aquela que guardo desde a minha meninice e que agora sinto colorida pela doçura da minha memória.


The Passion of the Saintpaulias, Lou Bermingham

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PS: Desaconselho a descida até ao post abaixo. O cheiro a galinha (e ainda por cima a galinha pouco séria e pouco inteligente) estragaria a qualidade olfactiva do ambiente que se vive no post que acabaram de ler.

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domingo, abril 01, 2018

Sergei in blue, um presentinho que o meu querido algoritmo do YouTube tinha para me oferecer pela Páscoa


O meu querido algoritmo da Google* -- que tal como o algoritmo do Facebook também é cheio de inteligência e subtilezas - hoje tinha um belo ovo da páscoa para me presentear: Sergei in blue.


Sei que, para os católicos, a Páscoa é o momento mais significativo do ano religioso. Mas, para mim que não sou de práticas religiosas ou de me encaixar em preceitos que atentam contra a minha racionalidade, a Páscoa nunca teve significado.

Que aqueles que amamos para sempre viverão em nós, na nossa memória, isso é para mim uma verdade que me é cara. Não tem a ver com ressurreição ou com fenómenos paranormais. Tem a ver com a força do amor que supera as leis da vida.

Na minha família também nunca se ligou à Páscoa. Não sei porquê, quando me baptizaram, os pais convidaram a minha avó paterna para minha madrinha e o irmão do meu pai para meu padrinho. Por isso, ainda hoje o trato por padrinho. E à mulher dela trato por madrinha. Mas essa minha avó, pela Páscoa, lembrava-me que era minha madrinha e dava-me dinheiro (chamava-lhe 'as amêndoas') e um ovo de chocolate e um folar. Nunca consegui comer aquele bolo maçaroco com ovos cozidos lá dentro. A minha mãe é que gostava, comia-o como se fosse pão, às fatias, e acho que até punha manteiga. Aqui há agum tempo, provei e até gostei, sabia a erva doce ou lá o que era. Mas naquela altura, pela Páscoa, acontecia essa bizarria da minha avó vir com aquilo de me lembrar que a madrinha era ela e não a mulher do meu tio, e me aparecer com um envelope com notas, com um bolo incomestível e, vá lá, com um ovo de chocolate com amêndoas às cores lá dentro.

Mas, enfim, isto não vem ao caso. O que vem ao caso é que o algoritmo me apareceu hoje a dizer que me recomendava um novo vídeo com o belo e ultra talentoso Sergei -- e eu fiquei feliz como se ele viesse dentro de um guloso ovo de chocolate.flo


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* Isto dos algoritmos e das plataformas de partilha de informação tem que se lhe diga. Se a Google também não fica muito atrás do Facebook no que se refere a ter um poder social astronómico face ao valioso manacial de informação personalizada de cada um de nós -- e isto num mundo desregulado em que tudo, nestes domínios, é possível -- a verdade é que, na avaliação que faço, o Facebook supera a Google no nível de perigosidade pois o modelo de funcionamento, mais imediato, mais propenso à propagação exponencial, torna-o uma arma muito, mas mesmo muito, arriscada.



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sexta-feira, março 30, 2018

Um hábito recomendável para todos os actuais, putativos ou potenciais avôs


Continuo invandida pela preguiça. Se começo a ler, pouco avanço. Estive a tentar ler crónicas de João Barrento mas fui debicando, de crónica em crónica, até que pousei o livro. Estive com o Raul Barndão Íntimo mas arrastei-me por ele, deixando-me ficar a ouvir a chuva, o vento, vendo as chamas na lareira.

No carro vim com O Leopardo e, de facto, deleitada com o requinte irónico da escrita. Com ele detenho-me mas para saborear a suculência daquelas palavras. Quem mo ofereceu, referindo que esta edição e esta tradução é a melhor de todas, tinha-me dito que é do melhor que a literatura já produziu. Sabendo de cor algumas passagens, tinha exemplificado como com uma escolha criteriosa e inteligente de palavras se conseguia visualizar a subtileza de algumas situações, o sentimento contido, a emoção elegantemente demonstrada, o humor religiosamente envolto em brandura.

Mas, quando me encanto muito com algumas leituras, custa-me avançar. Gosto de reler o que acabei de ler e por ali fico, o pitéu rolando vagarosamente na boca. Ora imagine-se isso, o vagar alimentado, quando a preguiça me tolhe a mente. Fecho os olhos, o tempo vai correndo e eu sem avançar.

Depois passeei, fotografei, olhei os verdes e os céus, adormeci no sofá e agora aqui estou, lenta, procurando nem sei o quê enquanto na televisão alguns quantos comentam qualquer coisa.

E, no meio destas coisas, estando eu ao acaso, aparecem-me coisas com piada. Fiquei agora a saber que não é incomum os chineses dançarem na rua -- e vi vários vídeos em que algus homens, que se vê terem já uma idade bem medida, dançam com crianças ou adolescentes. Coreografias bem afinadas entre o avô e as suas netas. Delicioso. Já mostrei ao meu marido. Acho que ele deveria ensaiar uma dança assim com os netos. Esteve a ver com alguma atenção mas acho que convencê-lo a levantar os pés do chão para saltitar desta forma graciosa com os miúdos é proeza que nunca conseguirei. Mas tenho pena. Acho que vou mas é eu tentar.



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quinta-feira, janeiro 12, 2017

Caixinhas de música, penas, canetas de aparo e tinteiros, arranjo de sapatos, cestos de baracinha.
E algumas memórias.



Je crois entendre encore
Caché sous les palmiers
Sa voix tendre et sonore
Comme un chant de ramiers.
Oh nuit enchanteresse
Divin ravissement
Oh souvenir charmant,
Folle ivresse, doux rêve!

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É mais do que sabido por quem, por aqui, me acompanha: não sou pessoa de ficar fechada em casa. Quanto mais estafada ando, mais me apetece dar ar à pluma. Se tenho que descansar o corpo, é caminhando que descanso. Se tenho que descansar a mente e não posso caminhar, é escrevendo noite adentro que descanso.

Assim acontece, agora, uma vez mais. Depois de um período de trabalho em excesso, com gripes cá em casa, em casa dos meus pais, uma ida a uma urgência hospitalar, recuperação clínica arrastada e cheia de complicações por parte deles, e por todo o lado crises e mais crises, eis que, logo que a bonança se faz anunciar, aí estou eu a querer libertar-me de tanto peso e sair por aí. Sem planos, tudo combinado na véspera, às tantas da noite. Aqui estou, portanto, restabelecendo forças. Claro que ando com dores de garganta (que não estão a passar e bastante me incomodam; comprimidos e pastilhas não estão a resultar espectacularmente). Mas mal menor. Porque bom, bom, é poder andar de nariz no ar, espiolhando gentes, edificios, novidades, fotografando candeeiros, carrocéis, lojas, descobrindo o que houver para ser descoberto.

Mas ainda não relaxei o suficiente. Há bocado até apanhei um certo susto. Uma chamada. O telefone estava longe de mim, perto do meu marido. Trouxe-me o telefone, anunciando tratar-se de um ex-colega meu, e vinha também com uma certa apreensão na voz: 'atende...'. Era um dos muitos que a vida vai dispersando ao sabor da gestão de portfolios por parte dos accionistas. Trabalhámos juntos durante anos, agora já não. Mas a amizade fica. Contudo, a esta hora da noite, estar a ligar-me parecia prenunciar triste notícia. Ultimamente, tenho recebido uns telefonemas ou sms a dar conta de notícias que me deixam pregada ao chão. Pensei logo que, a esta hora, só podia ser coisa assim.

Mas não, nada disso. Estavam num jantar, contaram-lhe das minhas novas andanças, coisa que o deixou muito admirado, e resolveu tirar a coisa a limpo, logo ali, na hora. Mas a verdade é que não sei se é de andar um bocado cansada, se é a porcaria da gripe que me deixou com a imunidade reduzida, a verdade é que, durante parte do telefonema, apesar de ele me falar de assuntos normais, eu estava ansiosa, à espera do momento em que ele se ia deixar de preliminares e dar-me, finalmente, a má notícia. Mentalmente, eu ia elencando quem é que poderia ter sido. Credo. Felizmente nada. Ali a jantarem, animados, e a resolverem envolver-me na conversa. Só isso.

Mas, portanto, ia eu dizendo que ando a descansar. Por dia temos dado para cima de vinte mil passos. Aliás, se não estou em erro, ontem fizémos cerca de trinta mil. Sei isto porque o meu filho instalou uma app no telefone do meu marido para monitorizar os percursos, se os caminhos são a subir ou a descer, fáceis ou complicados, quantos quilómetros, quantos passos, quantas calorias gastas. Chegamos ao fim do dia e pasmamos com o que andámos. Tão bom andar.

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Adiante. Como sabem, para além de natureza e de arte, gosto de consumir ambientes urbanos. Nomeadamente, como ontem já mostrei, gosto de andar a ver montras. Geralmente nem entro pois, em regra, o que me move não é o consumo mas o ver o que há à venda, objectos diferentes, alguns cuja finalidade nem descortino ou, então, a decoração das montras ou das lojas.

Nesta loja aqui em baixo, achei graça, sobretudo, à tradicional figura feminina completamente insólita no meio daqueles objectos modernos e coloridos. A ideia de porem uma boneca, naqueles preparos, em tamanho natural, ali naquele contexto...


Esta aqui abaixo é uma verdadeira arca de tesouro, a caverna de ali-baba, um cenário de mil sonhos. Há ali de tudo. Entrei, empurrando a porta. Nenhum outro cliente lá dentro, só o que deveriam ser os donos mas com ar de quem tinha sido apanhado a meio de alguma discussão, um clima estranho. Andei por ali a cirandar mas a sentir que estava a ser uma intrusa. Não vi preços nem tive coragem de perguntar. Dali, se as coisas não fossem caras, era capaz de me deixar seduzir por quase tudo: caixinhas de música com bailarinas, uma com uma senhora a ver-se ao espelho, outra com um carrocel, outras com bonequinhos de todo o tipo, bailarinas, passarinhos. Depois pisa-papéis lindos, de vidro, com flores ou insectos lá dentro, ou motivos às cores. E casinhas de bonecas. Ou teatrinhos. E caixinhas lindas. Com pedrinhas, com lantejoulas, com aberturas disfarçadas. Coisas mesmo bonitas. E muitas, muitas.


Esta aqui abaixo tem objectos para escrita: penas, canetas com aparo, canetas de tinta permanente, tinteiros, carimbos antigos. E papéis muito bonitos, de diferentes gramagens, diferentes cores. Uma coisa que parece de outros tempos.


E depois os bares de tapas e petiscos, cerveja gelada e boa, muitas vezes apresentados com humor.


E, em pleno centro da cidade, por onde passam hordas de turistas e boémios, um sapateiro do mais tradicional que há, daqueles que já rareiam em Lisboa. Tive que aumentar agora a luminosidade da fotografia para se ver alguma coisa porque a fotografia foi feita já ao cair da noite e a lojinha estava quase mergulhada em escuridão (e eu não quis fotografá-lo à descarada, muito menos usar flash). Mas fez-me lembrar o Ti Luís da minha infância junto de quem eu gostava de estar para ir perguntando tudo da sua arte. A minha avó não queria e a minha mãe, quando sabia, zangava-se com a minha avó, que jeito uma miúda de 3 ou 4 anos estar ali a moer a paciência ao pobre homem que deveria era gostar de estar a trabalhar sossegado, habituado a estar em silêncio. Mas eu gostava tanto que a minha avó acabava por ceder. E o Ti Luís dizia que ela me deixasse lá ficar, que eu não incomodava, até lhe fazia companhia. Recordo-o com ternura.


E depois, mais inesperada ainda, uma loja de cestos. As saudades que despertou em mim. O meu avô --  filho aventureiro de um pai que deixou mulher e filhos pequenos para ir viver para o outro lado do mundo, fugindo a dívidas de jogo, as terras e parte das casas perdidas -- saíu muito cedo do Algarve para percorrer terras de Espanha e França. Mais tarde regressou ao País, arranjou uma namorada uns bons anos mais nova e formou família. Mas conservou um passatempo muito algarvio, que, em criança, devia ter visto às gentes da terra, provavelmente às mulheres. Arranjava folhas de palmeiras e, nas horas livres, depois do trabalho, das pescarias e da horta, fazia cestos. A minha mãe gostava imenso, pedia ao sogro para lhe fazer cestas, alcofas com asas, pedia que lhes reforçasse o fundo. E ele fazia. Lembro-me de os ver a combinar o tamanho e de ele se esmerar nos remates. E fazia cestas para pôr a fruta, cestinhos para pôr os ovos. Lembro-me tão bem disso. A arte dele, a rapidez com que o fazia, o cuidado com que escolhia as folhas para com elas fazer os entrançados. Cestas de baracinha, dizia ele. A minha avó não ligava nenhuma a esses trabalhos do marido. Mas ele não queria saber, fazia na mesma. Não fiquei com nenhum. Quando ele morreu, quis ficar com o cadeirão em que ele se sentava e com o móvel onde estava a televisão enquanto fazia os cestos, e com outras coisas assim. Mas não vi nenhum cestinho feito por ele. Quando agora vi esta montra cheia de cestos de baracinhas lembrei-me logo do meu avô tão, tão, querido, tão meu amigo, tão tolerante, tão boa onda.


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Estou a mostrar isto tudo e com estas conversas e não faço ideia de se isto interessa a alguém. Mas faz de conta que é um diário a céu aberto, que estou a escrever só para mim, para ficar registado para o improvável caso de um dia mais tarde me dar para ir à procura de qualquer coisa. 

E a música que escolhi se calhar fica aqui deslocada. Mas é muito bonita. Gosto mesmo. Talvez tenha a ver com estes meus assomos melancólicos, não sei, sei é que me apeteceu estar a ouvi-la enquanto escrevia

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Já cá volto para mostrar a cavalagem.
(Cavalagem como plural de cavalos - calma aí.)

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