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terça-feira, dezembro 22, 2015

Ensaio sobre a Cegueira revisited. Ou 'o que está Carlos Costa a fazer no Banco de Portugal?' Alguém me diga porque eu ainda não consegui perceber. Isto a propósito do Banif e não só. E o mea culpa do FMI que acha que foi um erro que não se tivesse feito a reestruturação da dívida portuguesa. E, face a tudo isto, qual a reacção do PSD e do CDS? Pois bem: continuam na deles. Não perceberam, não percebem e nunca perceberão nada de nada. Ou, então, percebem bem demais e nós é que somos parvos. Ou eles ou nós somos ceguinhos.



Os bancos, tal como acontece com as demais empresas, são regularmente auditados. Os auditores têm a obrigação de analisar minuciosamente as contas e fazer recomendações. Para além disso, os bancos em Portugal, por via da crise financeira, foram obrigados a efectuar testes de toda a espécie e feitio -- devido à brilhante intervenção da troika, Portugal foi obrigado à vigilância continuada sobre os bancos, obrigando-os a reforçar capitais para corresponderem aos rácios mínimos.

Acresce que existe uma coisa que se chama Banco de Portugal, braço armado do BCE e regulador das entidades bancárias neste rectângulo tuga de tão brandos costumes.

Contudo, apesar de tanta vigilância e de tantas entidades (principescamente pagas e premiadas), mais um melro foi à vida. Desta vez foi o Banif. E, portanto, durante todos os anos em que o Banif alegremente se descapitalizava, decorriam auditorias e vigilâncias e análises por parte do Governo e do Banco de Portugal. E durante todo esse tempo, o Governo e o Banco de Portugal asseguravam que estava tudo bem.


Ora bem, sabemos agora que foi deliberadamente e com conivências várias que esta situação foi encoberta -- para forjar um sucesso que não existiu, para maquilhar uma saída que se apregoou como limpa, quiçá para ajudar nas eleições.

Nada disto seria espectacular (porque que no anterior governo existiam mentirosos compulsivos e que no Banco de Portugal ou andam a dormir ou andavam com o Passos Coelho, a Albuquerque e o Cavaco ao colo, já nós estamos fartos de saber) se não estivesse em jogo o dinheiro dos contribuintes e se isso não tivesse efeito nos fundos disponíveis para a economia real.

Passos Coelho e Maria Albuquerque agora já não estão em funções em que possam continuar a fazer estragos. Resta-lhes, enquanto responsáveis pelo que se passou, prestar contas -- e a sua actuação deve ser cuidadosamente analisada.

Mas com Carlos Costa a situação é mais bicuda: ele ainda está em funções. Continuamos, pois, em risco de que continue distraído, sem perceber o que se passa, a manipular ou a esconder mais alguma informação relevante. Desde que está em funções no BdP a sua actuação tem sido um desastre. E não é um desastre qualquer: é um desastre que já vai em vários mil milhões de euros. Não sei se é competente, se é inteligente, se é sério - pode ser isso tudo e não ter jeito. Ou não ter sorte. Não sei. 
Sei apenas que os resultados do seu desempenho têm sido desastrosos. Uma pessoa que exerça funções de tal responsabilidade não pode sistematicamente mostrar que é uma nulidade. Manter-se em funções uma pessoa assim é um risco para o País.
Não podendo ser demitido pelo Governo, não sei como podemos ver-nos livres de tal encosto mas alguma maneira há-de haver. 

Contudo, se Carlos Costa tivesse um pingo de vergonha ou soubesse o que é dignidade profissional, saía pelo seu próprio pé.


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Sei que, no FMI, parece que não há uma cadeia de comando: enquanto uns publicam estudos num sentido, outros implementam soluções em sentido oposto; enquanto uns reconhecem que austeridade a mais é contraproducente, outros carregam na dose. 
E Christine Lagarde -- ou porque nunca recupera do jet leg ou do excesso de solário -- tão depressa aponta num sentido, como no contrário. 
É outra que me desiludiu e que cedo revelou que, apesar de parecer ter testosterona que a levaria a ombrear a nível testicular com muito tubarão, padece do irremediável mal das cabecinhas de vento.

Agora, uma vez mais, os técnicos do FMI vêm fazer um mea culpa em relação aos programas de ajustamento impostos aos países intervencionados: FMI assume que Portugal devia ter reestruturado a dívida.


Transcrevo uma parte:

O Fundo Monetário Internacional (FMI) assumiu ontem que países como Portugal teriam beneficiado de uma reestruturação da dívida pública, feita de forma significativa, logo no arranque dos seus programas de ajustamento. A conclusão foi assumida por Vivek Arora, director do Departamento de Análise Estratégica e Política do FMI, numa conferência de imprensa sobre um relatório técnico de avaliação aos programas de ajustamento da crise.

“Não temos um ponto de vista específico sobre Portugal, mas temos uma visão geral: se os países têm um rácio de dívida elevado ou se a sustentabilidade da sua dívida não pode ser assumida categoricamente, então a reestruturação da dívida à cabeça é uma solução desejável”, explicou Vivik Arora, quando questionado sobre o caso português.

Poderia perguntar-se aos capachos do anterior governo português e aos seus papagaios avençados que por aí andaram, pelas televisões, rádios e jornais, a pregar que este era o remédio certo (leia-se: sugar a economia, massacrar o povo, vender ao desbarato empresas, casas, terrenos, forçar a emigração, e etc) se, agora que uns tiram o cavalinho da chuva, outros assumem o erro, e as porcarias escondidas debaixo dos tapetes começam a aparecer, ainda acham que fizeram um trabalhinho asseado.

Poderia perguntar-se se achássemos que vale a pena. Mas não vale. Embora o mais elementar sentido de decoro aconselhasse que se mantivessem calados, que emigrassem para bem longe, que abrissem um buraco no chão e lá enfiassem a cabeça até a gente se esquecer deles, não senhor. Por aí andam a espalhar patacoadas, a revelarem que, para além de mentalmente indigentes, são ainda descarados e recidivamente mentirosos.

Ligo a televisão e lá anda um rapazolas qualquer do PSD e aquele oleoso do CDS a mostrarem o pior que a política partidária tem dado ao País: gente inculta, impreparada, incompetente, incapaz de relacionar as causas com os efeitos. Ou, se não é isso, é gente com falta de vergonha, falta de respeito, que quer fazer dos outros parvos. 

Esta gente não percebe que o País já não os leva a sério? Esta gente não fica de bico calado porquê?!?!

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As ilustrações provêm do saudosíssimo blog We have Kaos in the garden.
O fantástico penteado da fotografia que abre o post é obra do cabeleireiro Guido Palau.

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Tenho um outro post, mais pessoal, praticamente pronto mas tenho que ajeitar as imagens e agora já não consigo, tenho muito sono que estes dias não me andam nada fáceis. Vou tentar finalizá-lo logo de manhãzinha ou à hora de almoço.
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De qualquer forma, vou já desejando que tenham, meus Caros Leitores, uma terça-feira muito feliz.

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sexta-feira, janeiro 30, 2015

Martin Schulz, Presidente do Parlamento Europeu, sai optimista de Atenas depois de se encontrar com Tsipras. Obama telefonou, deu os parabéns e disse que Tsipras pode contar com o apoio dele. Quem não acredita nada em contos de fadas é o Passos Coelho. E o Ricardo Costa também está preocupado com uma possível aproximação à Rússia. A ver se o Tsipras se põe a pau e ouve estes dois.


Um a um, todos vão ao beija-mão aos esquerdistas radicais que tanto encanitam o láparo (a ponto de se tornar inconveniente) e que despertam no Ricardo Costa o grande educador da classe política que há dentro dele (a ponto de já estar a dar palpites e a antever desgraças).

Eu cá, por mim, não sei o que vai acontecer na Grécia mas, seja o que for, é de certeza melhor do que a indignidade a que têm estado a ser sujeitos e, mesmo que venham a sofrer alguns sobressaltos, eles serão menos graves do que o verem-se despidos de soberania e esperança, como aconteceu até aqui. A expectativa que agora atravessam vale bem um ou outro susto; e, de resto, só se deixa ficar de gatas com medo do bicho mau quem é um grandesíssimo cobarde ou uma sensível princesinha.

Velhinhas e mariquinhas assustadiços que ao mínimo sopro vão logo a correr tirar o dinheiro dos bancos nacionais para os irem depositar nos bancos alemães ou suíços há em todo o lado. Não sei quantos milhões voaram de lá mas hão-de voltar e as velhinhas e os mariquinhas hão-de voltar a ficar sossegados.

O que eu vejo é que, aos poucos, o paradigma está a mudar e o mundo parece respirar de alívio por alguém ter ousado avançar noutra direcção.

Esta austeridade cega que afunda os países no lodo onde só se sentem bem láparos, ratos e um ou outro verme, já mostrou ao mundo que este não é o caminho para controlar a dívida nem para nenhuma coisa decente.

Contudo ninguém sabia bem o que fazer, como fazer. Agora, se estes malucos dos gregos não se importam de partir a loiça e, afoitos, não se importam de avançar às cegas, o mundo agradece e vai dar uma ajuda, nem que seja à socapa.

No meio disto quem é que vai ficar isolado? O láparo e os seus apaniguados. Até a Merkel teve a decência de lhes desejar força e felicidades. Só o láparo, o de lima, o camelo e um ou outro papagaio que ainda não virou o bico ao prego é que ainda não perceberam que um sopro de mudança começou a varrer a Europa.



Transcrevo do Expresso:

"Tive uma discussão construtiva e aberta" com o novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, disse em Atenas Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, depois da reunião que ocorreu entre ambos esta quinta-feira. Schulz é o primeiro alto responsável europeu a reunir com o novo governo helénico saído das eleições de domingo, ganhas pelo Syriza, o partido liderado pelo atual primeiro-ministro.


Schulz deu uma tónica otimista e procurou reduzir a crispação que surgiu nos últimos três dias e  que influenciou negativamente os mercados financeiros . "Há a impressão dentro da Europa que o novo governo grego irá seguir um caminho separado. Mas descobri hoje que esse não é o caso", disse o presidente do Parlamento Europeu, segundo o diário "Kathimerini".

O político alemão adiantou, ainda, que houve acordo em muitos pontos, "enquanto outros necessitam de mais discussão". O jornal grego sublinha que houve concordância em dois temas: no combate à evasão fiscal e na avaliação da austeridade que "não consegue fazer emergir a Europa da sua crise". Schulz terá concordado na ideia que o programa de investimento público grego deverá ser excluído dos cálculos do défice orçamental.

O jornal grego, com base em fontes, adianta que o presidente do Parlamento Europeu terá pressionado Tsipras para que obtenha uma extensão do programa de resgate e que apresente exemplos concretos de medidas que criem receitas, antes de pressionar para o alívio da dívida.

Esta sexta-feira é esperado em Atenas o ministro das Finanças holandês, Jeroen Dijsselboem, presidente do Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro), que reunirá com Yanis Varoufakis, o novo ministro das Finanças grego, que afirmou esta quinta-feira que o encontro servirá para iniciar as negociações com os parceiros europeus. "As negociações com os nossos parceiros europeus começam com esta visita, que conduzirá a um acordo viável e compreensível", disse Varoufakis.

O ministro das Finanças não vai parar a partir de domingo. Pegará na mala para reunir no domingo com o homólogo inglês George Osborne, aproveitando para se encontrar em Londres com investidores. Na segunda-feira voará para Paris, onde se reunirá com Michel Sapin, ministro das Finanças, e com Emmanuel Macron, ministro da Economia. Finalmente, na terça-feira deslocar-se-á a Itália, onde reunirá com o ministro das Finanças Pier Carlo Padoan.




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O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio

Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes

E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios

Para que a justiça dos deuses seja convocada



[Electra, de Sophia de Mello Breyner Andresen, enviada pelo Leitor HB, a quem muito agradeço, num comentário aqui abaixo]

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E, com os meus agradecimentos ao Carlos que ma deu a conhecer,

Agnes Baltsa - Áspri méra ke ya mas (There will be better days, even for us)



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sexta-feira, janeiro 23, 2015

Salvé Mario Draghi! Venha daí essa injecção de liquidez que já devia ter vindo há uns anos e que, por não ter vindo, tanta miséria causou a tantas famílias. Resta ainda saber se vai ser bem aproveitada mas isso são outros quinhentos. Entretanto, divertido vai ser ver os vira-casacas, os que só queriam austeridade e que agora já aí andam a deitar foguetes como se sempre tivessem defendido a compra de dívida por parte do BCE. Lobo Xavier já mostrou como vai ser. Aos mais sensíveis recomendo que nem ouçam nem vejam porque é pouco recomendável e muito pouco higiénico.


Quem por aqui me acompanha deste o deflagrar da crise financeira sabe que tenho defendido a solução que Mario Draghi hoje, finalmente!, desbloqueou.

Há cerca de cinco anos que os EUA estão a fazer isto, a colocar o dinheiro em circulação. Só gente muito burra (ou forças contrárias anulando-se entre si, ou moscas mortas, ou vendidos) poderia acreditar que o problema português era só português e resultava de esbanjamento, e que a solução para o problema era secar a economia.

Passos Coelho, tal como os que o apoiaram, não sabe - porque, do que tenho percebido, não tem cabeça para mais - que a coisa pior que se pode fazer a um país é secar a liquidez.

Reduzindo o rendimento disponível das pessoas (ou por corte de ordenados, ou por brutal aumento de impostos ou por fomentar desemprego ou emigração), o edifício económico desmorona ainda mais rapidamente.

As absurdas medidas de austeridade acéfala ainda poderiam ter algum efeito benéfico se aplicadas a um país fortemente industrializado e/ou fortemente exportador que aguentasse uma redução abrupta da procura interna. Acontece que, fruto de políticas nefastas - muitas delas do tempo de Cavaco primeiro-ministro - a indústria, as pescas e a agricultura foram reduzidas à sua ínfima expressão e, portanto, embora alguns governos, entre os quais o de Sócrates, tenham tentado (e em alguns casos mais ou menos conseguido) relançar a industrialização, o que acontece é que o tecido económico é muito frágil e, portanto, nunca poderia resistir a uma drenagem como aquela a que se assistiu de há quase quatro anos para cá.

Claro que não foi só Passos Coelho, Paulo Portas, e os que apoiam a actual coligação no poder: não, esta foi a linha Merkel, que alguns cães de fila seguiram.


No entanto, se há país que, em parte, contribuíu para o estado fragilizado das finanças dos países que mais sofreram, esse país é justamente a Alemanha (tal como os outros países que assentam a sua estratégia na exportação pura e dura). A esses países nada convém mais do que países frágeis que importam tudo o que eles para lá querem enviar. Os países frágeis importam os produtos e endividam-se juntos dos seus bancos (vide o caso do Deutsch Bank), e portanto pagam, quer os produtos quer os juros - e os alemães e os seus amigos esfregam as mãos de contentes porque estão sempre a facturar.

Portanto, fomos vítimas da ganância de todos os que gostam de ganhar muito à custa dos mais carentes. 

A vinda da troika serviu apenas para que se pagasse aos bancos alemães e a todos quantos temeram não reaver a dívida. Que, para isso, os portugueses, gregos e outros pobres, tenham ficado ainda mais pobres, que o desemprego aumentasse, que os apoios aos desempregados e pobres tenham diminuido, que os direitos dos trabalhadores tenham ficado quase reduzidos a nada, que o Serviço Nacional de Saúde esteja na miséria que está, que o Ensino Público caminhe para o descrédito, etc, ... isso foram efeitos secundários para os quais Passos Coelho, Paulo Portas e a sargenta Merkel se estão bem nas tintas.

Por isso, só posso ficar contente com a compra de dívida que o BCE anunciou. Comprando dívida, injecta dinheiro.

Mas atenção, ainda não sei bem como é que isto vai funcionar.

O BCE vai comprar dívida aos bancos. E, portanto, quem vai ficar com as contas mais arejadas é, numa primeira análise, o sistema bancário.


Se bem estou a ver, o benefício vai ser indirecto: os bancos vão ter dinheiro livre para emprestar. Estando os juros baixos, as empresas vão poder beneficiar de crédito para se relançarem. Por outro lado, o Estado, tendo menos juros para pagar por via da compra também de dívida pública, poderá reduzir impostos pois a despesa relativa ao serviço da dívida deve ser reduzido.

Isto, sem ter podido ainda ler o que quer que seja sobre o assunto, é o que me parece.

Ora, para que tudo isto reverta favoravelmente para o comum dos cidadãos é necessário que o Governo retome uma política de apoio à economia, quer lançando investimentos reprodutivos, quer apoiando o relançamento da indústria.

[E não é apenas Portugal que deve sofrer um rápido mudar de agulha na sua condução: é também a UE como um todo. Ou a Europa quer afirmar-se como uma potência forte, desenvolvida, coesa, ou nada disto surtirá efeito, será dinheiro que os fundos abutres e outras almas iluminadas não tardarão a farejar, descobrindo a forma de o surripiarem airosa e rapidamente.]

Em Portugal, obviamente que um governo decente (não este desgraçado que ainda está em funções) fará mais do que o que acima referi: relançará em força o apoio ao ensino e à investigação, reconstruirá os serviços públicos vitais ao funcionamento de qualquer país desenvolvido tais como a saúde, a justiça, os apoios sociais. 

Estou a ser minimalista pois não estou em campanha nem quero aqui fazer um programa de governo às três pancadas, mas há uma coisa que eu sei: este miserável governo, constituído por gente que maltratou e humilhou o povo português, não poderá continuar em funções já que durante quase quatro anos defendeu com unhas e dentes as sinistras medidas que quase destruíram o país.

Contudo, há coisas que já se perderam e isso não se resolverá com tudo aquilo de que tenho estado a falar: refiro-me à venda das empresas mais estratégicas a outros Estados ou a empresas estrangeiras de mérito duvidoso. Grande parte do valor criado em Portugal se perdeu ou virá a perder por via da venda da EDP, da REN, da ANA, de bancos, seguradoras, correios, cimenteiras, algumas águas e sei lá que mais.

No meio desta hecatombe, o governo assistiu ainda passivamente à desregulação, queda e desmantelamento de grandes grupos nacionais como o GES/BES e PT.

Tudo isto é uma irreversível perda para o País que lamento tanto, tanto. E, por tanto lamentar quero, com todas as minhas forças, que se abram rapidamente caminhos de esperança.

Não sei quantos anos vão ser precisos e qual a dimensão do apoio de que Portugal vai necessitar para se levantar e poder recuperar alguma da sua soberania e dignidade, e para os portugueses voltarem a acreditar no seu futuro. Mas acredito que a medida de Draghi abre caminho para que um governo decente possa vir a trabalhar nesse sentido e para que a Europa volte a poder ter esperança de ser um lugar de progresso, inclusão e liberdade.

Entretanto, enquanto escrevo estou a ouvir a Quadratura do Círculo e estou espantada, chocada, siderada, com a súbita viragem de casaca de António Lobo Xavier que aplaude a medida do BCE, critica a austeridade, lamenta os anos perdidos em que se andou a destruir valor. Há gente sem vergonha na cara. Já há bocado, ao vir para casa, tinha ouvido um qualquer do PSD a regozijar-se com esta medida com a cara de pau da gente sem vergonha, gente que parece que pensa que os portugueses são mentecaptos e amnésicos, como se toda a gente não soubesse que fizeram de tudo para secar a economia sob o argumento beato de que os portugueses tinham que empobrecer para expiar os pecados anteriores. E li que Pires de Lima é outro que já para aí anda a saracotear-se como se há muito tempo defendesse isto. Que cara de pau, senhores! Gente assim faz mal a um país, caraças!


Mas os portugueses não são parvos e saberão mostrar que estão fartos de ser molestados para nada. Para nada! Anos perdidos para nada. 

Se Passos Coelho e Paulo Portas fossem homens de verdade, se tivessem um pingo de sentido de Estado, demitiam-se já. Já. Já! com ponto de exclamação e tudo. E pudesse eu encher o texto de pontos de exclamação sem, com isso, dificultar a vossa leitura, palavra que o fazia (já que não posso correr com esta laparada e companhia a pontapé)

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sexta-feira, outubro 17, 2014

O tijolo e a bolinha, segundo Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo. O tijolo é o peso da realidade. A bolinha ou o berlinde (que vem do CDS e sobre a qual todos os papagaios para aí andam a discutir) e que nem é bem bolinha mas sim uma molécula, é a novidade que, de tão insignificante, praticamente não existe. Isto é o Orçamento de Estado para 2015 sobre o qual os três intervenientes concordam que traz um agravamento fiscal e que, quem disser o contrário, mente e não tem vergonha


Abaixo descrevi o ataque implacável ao OE por parte de Manuela Ferreira Leite no seu comentário semanal da TVI 24. Encarecidamente vos peço que não percam pois é importante que se veja o que uma pessoa que já foi ministra das Finanças e líder do PSD diz do Orçamento apresentado por um Governo da sua cor política. Ela é certamente uma voz esclarecida e isenta. Dela nenhum cão com pulgas poderá dizer que é uma radical de esquerda. 

Mas isso é no post a seguir. Aqui, agora, falo do que estou agora a ver: a Quadratura do Círculo.


Pacheco Pereira apresentou-se com um tijolo e com um berlinde. Por baixo do tijolo escreveu realidade, por baixo do berlinde escreveu novidade.


Diz ele que o CDS apareceu com uma novidade, novidade essa sobre a qual toda a gente fala, bolinha que não passa de um pequeno berlinde quando comparado com o peso do tijolo que é a carga terrível da realidade. 


Lobo Xavier corrigiu-o: nem será bem um berlinde, é ainda menos que isso. Ficaram, então, os três de acordo que, a bem dizer, deve ser apenas uma molécula, qualquer coisa que, a existir, apenas será detectada com microscópio.





Pacheco Pereira não se está a ficar atrás de Manuela Ferreira Leite. Do OE 2015 apresentado pelo Governo de Passos Coelho e Paulo Portas, diz que se trata de uma ficção propagandística, que introduz complicação nas deduções fiscais, que não passa de conjunto de fantasias.  Um OE cheio de truques. E, com mal disfarçado nojo, refere as brincadeiras verbais como aquela do fanatismo orçamental na boca de Passos Coelho.


[Num aparte e quanto ao processo da Tecnoforma contra Pacheco Pereira, Lobo Xavier ofereceu-se para o defender pro bono pois diz que ainda se vão divertir à brava. Contudo, diz que os juízes não costumam dar seguimento a coisas destas pelo que acha que essa brincadeira não irá dar em nada.
Pacheco Pereira já tinha dito que se tinha limitado a comentar afirmações proferidas por administradores ou ex-administradores da Tecnoforma; e que, nesse caso, não se percebe porque é que não os processam em vez de o processarem a ele. E que dorme bem em qualquer lado pelo que, a propósito disto, é para o lado que se vai deitar melhor]

Lobo Xavier, de seguida, confirma que este OE tem um agravamento fiscal (que há agravamento em alguns dos impostos já existentes e vários novos impostos) e que ninguém, a não ser que fosse algum cómico, por exemplo o Herman a gozar com os políticos, poderá dizer que, com o que ali está, vai haver algum alívio fiscal. Só se tiver falta de vergonha, diz ele.


Pacheco Pereira chama a atenção para a mistificação que é chamar poupanças a cortes e mais uma vez está a ter uma grande intervenção. Fala contra o gueto em que este governo enfiou a pobreza, diz que é essencial que um futuro Governo reponha os elevadores sociais, restaure a classe média que é o verdadeiro motor do desenvolvimento de um país. Diz que esta gente do governo chumbaria em qualquer exame (a começar em Economia), que tudo o que fazem revela uma profunda ignorância. E di-lo quase com repugnância - e como eu o compreendo.

E estão os três de acordo que é indispensável recompor a sociedade, restaurar o equilíbrio entre desenvolvimento e rigor nas contas públicas, mudar o paradigma, voltar a manifestar respeito pela dignidade das pessoas.

Pacheco Pereira diz também que este Governo está bloqueado e que institucionalizaram o funcionamento de facção (PSD/CDS) e que, se continuarem a governar, será uma perda de milhões e milhões para o País. 



António Costa fez uma intervenção também muito clara, reforçando a necessidade de fazer a agulha, de focar a acção governativa no desenvolvimento económico; e diz que este Orçamento é a pedra tumular sobre este governo que, para cúmulo, paralisou o funcionamento de instituições essenciais - e, como exemplo, diz que hoje, no concelho de Lisboa, ainda estão por colocar 300 professores! 


E todos concordam que este Governo está em gestão corrente, não governa e que é, em si mesmo, uma fonte de instabilidade para o País.


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Nota: Agora que estou a acabar de escrever isto, começou o noticiário da meia-noite na SIC onde estão a passar o dito Paulo Núncio e, seguindo a sugestão que acabo de ouvir na Quadratura do Círculo, acho que isto deve ser uma rábula, uma cena cómica, pois, apesar de estar com cara de governante, só o ouço a dizer manipulações esparvalhadas, piadolas, fantasias e a dar grande relevo a berlindes, ou melhor, a moléculas que, à vista desarmada, ninguém conseguirá ver. 

No entanto, a jornalista, revelando como é actualmente o trabalho de investigação ou análise jornalística, papagueia tudo o que o Núncio apregoa, falam à vez, ora o põem a ele a vender banha da cobra, ora complementa ela o que ele disse. Ele omite o tijolo e assim faz a jornalista, toda embeiçada com o berlinde.

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Nota: tal como o post que se segue, também este foi escrito enquanto ia vendo e ouvindo a Quadratura, tirando fotografias, passando-as para o computador, etc. Por isso, a escrita não terá sido a mais escorreita. Isto de estar com um olho no burro e outro no cigano, nunca deu bordado fino.

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Relembro: permitam que vos peça que desçam até ao post já a seguir pois a opinião de Manuela Ferreira Leite é digna de também ser conhecida.

Aliás, daqui lanço um repto ao PCP e ao BE (quiçá até ao PS ou, pelo menos, a franjas do PS): contratem Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira para aprenderem com eles a analisar os documentos, a serem objectivos, lúcidos, a não serem míopes, a não se prenderem com minudências, para se focarem no que é relevante. Coaching, meus Caros, coaching, que bem precisados andam.


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terça-feira, outubro 14, 2014

PSD e CDS: esta gente falhou em tudo e vai continuar a falhar até ao fim. E, até ao fim, sem perceber nada do que aconteceu. Cá para mim não é ideologia, é burrice mesmo. Assim de repente, faço uma breve resenha do que se passou desde que se alaparam no poder. E, no fim, para me ajudar a superar a arrelia que isto me provoca, chamo para o pé de mim Luís Filipe Castro Mendes que sabe do que fala, quando fala da Misericórdia dos Mercados. E chamo também os bailarinos do Nederlands Dans Theater para ajudarem a esconjurar os maus espíritos dos maus mercados e dos seus mentecaptos servos.


Por favor, vamos com música que vamos melhor

Philip Glass - Metamorphosis II





(com quem muito divergi nos tempos que ele refere ao dizer que integrava então a escola da pureza inconsequente)




Em 2008 a Europa estava a ferro e fogo com os fundos abutres a sobrevoarem as economias mais débeis, fundos que fazem apostas e que ganham com os incumprimentos, fundos que sobrevoam os países ou as empresas onde sentem o cheiro morno na carniça.

Poderia relembrar que a mesma Europa que antes, e bem, tinha tentado fazer frente a essa ofensiva dando ordem para que se avançasse em força com o investimento público para ver se se mantinham os motores da economia em movimento, veio depois (assustada com o escândalo das contas públicas falseadas da Grécia - falseadas com o apoio da Goldman Sachs e com a Alemanha a olhar para o lado, a fingir que não via, note-se) a mandar travar a toda a força, impelindo estes países para uma austeridade radical, provocando a angústia e incompreensão dos povos envolvidos. 

 "O Fabricante de Máscaras", (Wikicommons, Carlos Orduna)


Debaixo de um fogo externo severo (e não tendo maioria no Parlamento e, ainda por cima, sujeito a campanhas sórdidas forjadas pelos apaniguados do PSD, nomeadamente pelos Jotas que vieram depois a descrever em pormenor a forma concertada como actuavam nas redes sociais e comunicação social), Sócrates negociou um programa que tinha o apoio da Comissão Europeia, da Merkel, da França, do BCE, contando que, entretanto, viesse a ser aprovado um outro programa europeu que permitisse a Portugal sobreviver sem ter que se chamar a troika - uma vez que sabia que, entrando a troika, Portugal ficaria francamente sem grande margem de manobra para decidir. Tentou fazer aquilo que, mais tarde, por exemplo, a Espanha conseguiria, isto é, resolver, por meios próprios e recorrendo ao menor mal, o ataque que se abatia sobre o País.

Mas o PSD de Marco António, Relvas e Passos Coelho estava noutra, a avidez pelo poder era muita, era cega. O CDS, qual mulher fácil, abeira-se sempre dos que se acercam do poder e, portanto, também embarcou na aventura. Numa união espúria (que para sempre carregarão nas costas), o PCP e o BE aliaram-se ao grupelho mais desqualificado de que havia memória.

O que aconteceu foi o expectável: o Governo caíu, a troika veio.


Na altura, tirando alguns aspectos como alguma redução dos direitos dos trabalhadores (que achei que deveria ser, depois, renegociado) e tirando o facto do prazo ser muito curto (devendo, também, ser posteriormente renegociado), não fiquei especialmente chocada com o programa da troika. Havia um conjunto de propostas, até relativamente equilibradas, para reformar todas as artroses da administração pública, as metas eram razoáveis, estimulava-se o diálogo entre os parceiros e o reforço dos apoios sociais.

Contudo, como todos os alunos marrões e pouco dotados, o novo governelho, este que ainda se conserva em funções, achou que se um comprimido por dia fazia bem à anemia, então porque não tomá-los às mãos cheias?

Nessa altura, quais porcos a tomar conta da quinta, decretaram que o programa da troika era o programa deles e que iriam ainda mais longe do que o que era requerido.

Mas talvez tão grave quanto isso foi nunca terem percebido a razão da crise. Desde o início - e penso que até agora - pensaram que o problema residia na imoralidade ou fraqueza individual dos mais carecidos: os velhos que recebiam pensões mais altas do que o que precisavam, os desempregados que não trabalhavam porque não queriam, os mais pobres dos pobres que tinham contas no banco, os que compravam uma televisão quando podiam vê-la na montra da loja. Entretidos com a sua própria estupidez e moralidade balofa, não cuidaram sequer de fazer um simples cálculo aritmético para perceber quão ridículo era o seu raciocínio: quanto é que cada um desses pobres ou piegas precisava de ter gasto a mais para gerar um buraco tão grande nas contas do país? Se o fizessem perceberiam que jamais aí poderia ter residido a raiz do problema. Não perceberam isso tal como não perceberam que são os erros de gestão, nomeadamente os de gestão financeira (não terem renegociado os swaps de alto risco), o material de guerra pago por valores excessivos para cobrir luvas e outras prebendas, o dinheiro desviado da economia para offshores, o peso do serviço da dívida, a importação para suprir a ausência de indústria, e todas essas debilidades nacionais que pesam, e como pesam, no drama deste pobre país - e que deveria ser aí que deveriam ter incidido a sua acção, 

Mas não. Não têm cabeça para tanto.

O desastre foi o que se viu. Perante os sucessivos desaires, Vítor Gaspar ia-se confessando perplexo, nunca percebia o que acontecia. Cortava nos ordenados e nas pensões, aumentava impostos, cortava nos apoios sociais, aumentava transportes e taxas moderadoras e, para espanto dele, as empresas começaram a fechar e o desemprego a aumentar para além do previsto.



Como todos os burros encartadados, os membros do governo não conseguiram nunca perceber o nexo causal entre as causas e as consequências, olhando apalermados a realidade que desfilava perante si. E, para espanto da maior parte da população, para tentar corrigir a rota, os do governelho persistiram na receita e, alheados até da lei, foram sempre tentando aumentar a dose.

E foi assim que a Segurança Social começou a desequilibrar-se, a dívida pública a aumentar, o défice a não abrandar, a recessão a impor-se, a emigração a aumentar.

Até que, não conseguindo mais gerir o descalabro, Vítor Gaspar se foi embora, confessando que tudo lhe tinha fugido das mãos, que a receita estava errada.

Poderia pensar-se que os que ficaram aprendiam alguma coisa com a lição. Mas não. Menos inteligentes ainda do que Vítor Gaspar, continuaram a persistir nos erros.

Depois de cortarem no rendimento disponível e na liquidez circulante, desataram a cortar naquilo a que chamaram gorduras: na investigação, no ensino, na saúde, na justiça. Sempre à toa.

É que poderiam tê-lo feito (embora o não devessem porque racionalizar não é eliminar!) com um mínimo de ponderação ou racionalidade. Mas não. Cortaram mãos, braços, pernas, com a displicência de quem corta cabelos ou unhas. Com os corpos em sangue e em sofrimento, apresentam-se, lampeiros, a pedir desculpa pelos transtornos ou a fazer pueris habilidades verbais.

Mural de Rivera pintado no Palácio Nacional, México

E nós assistimos perplexos à desvergonha, ao desrespeito desta gente. Pensamos, com pudor, que um povo não deveria ser governado por gente tão ignorante. É que é tudo muito mau, mau demais, humilhantemente mau demais.

A devastação que esta gente provocou no País vai ser difícil de corrigir.

Há questões que são estruturais e só gente muito inconsciente e irresponsável é que, querendo fazer arranjos em casa, desata a deitar abaixo os pilares e as traves, as paredes mestras, a escavar dentro de casa. E nem mesmo quando lhes cai o tecto em cima percebem que a culpa é do que estão a fazer.

Durante muito tempo me interroguei: será deliberado? será ideologia?

Mas agora tenho para mim que não: é burrice mesmo, apenas burrice, aquela burrice estulta dos que nem sequer se sabem burros.

Augustin de Lassus

Ao fim de três anos, a dívida disparou para valores assustadores, o défice não desceu nem dá mostras de estar controlado, o desemprego mantém-se elevado, o esbulho fiscal mantém-se, a economia está mais débil que antes e, mais preocupante, e isto é mesmo o mais grave, o investimento parou e a demografia prenuncia uma catástrofe a prazo. Ou seja, o mal que foi feito não é apenas um mal imediato: não, é um mal que vai perdurar.


Poderia ainda falar em tantos outros aspectos. Mas são tantos.

Por exemplo, poderia falar na cegueira e leviandade como se actuou no caso BES deixando ruir e despedaçar um banco que era um pilar do sistema financeiro português, poderia falar no que está a acontecer na PT em que com a mesma ligeireza dizem que não têm nada a ver com isso, como se os 14.000 empregos directos e os ainda em maior número indirectos ou um importante centro de decisão nacional ou a detenção de tecnologia fossem letra morta, objectos dispiciendos.

Poderia também falar na ligeireza com que entregaram a energia aos chineses, parte significativa dos seguros aos chineses, os aeroportos aos franceses, os correios a não se sabe quem, e, com idêntica ligeireza, querem entregar os transportes públicos a quem calhar, as águas a quem der mais (mais ou menos, tanto lhes faz), e etc, etc.

Poderia também falar da ligeireza com que se acolhe gente cujas fortunas não são explicáveis e que estão a comprar todo o património imobiliário relevante, tal como poderia falar na igual ligeireza com que fecham os olhos ao facto de grande parte da comunicação social já estar nas mãos de angolanos.

Poderia ainda falar no preocupante e gravíssimo desprezo pela arte, pela cultura em geral, pelo conhecimento no seu todo.

Poderia falar no desprezo pela dignidade das pessoas, na indiferença perante a dor e o sofrimento dos que ficaram desempregados, nos que caíram na mendicidade encapotada, nos que foram para longe das famílias, nos que foram formar família longe do seu país. Poderia falar de tanta coisa.




Mas vou poupar-me porque falar nisto deixa-me doente. Se eu pudesse e se soubesse que não me ia meter em trabalhos, juro que soltava os cachorros atrás desta gente que tão mal fez ao meu País.


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Não gosto de acabar o meu dia debaixo de uma nuvem de arrelia malsã. 

Podia, claro, escrever um outro post como geralmente faço. 

Mas, em vez disso, vou antes chamar um Poeta para ver se, com as suas puras palavras, me ajuda a purificar o ar por aqui. Luís Filipe Castro Mendes com Imitado de Alberto Caeiro e depois com A Casa na Noite em A Misericórdia dos Mercados parece-me ser a voz certa para isso.

















Ontem um homem das cidades
veio explicar-me os valores da vida.
Disse-me que a minha sobrevivência era um privilégio
e o conchego dos banqueiros uma justiça.
Falou-me de uma nova sociedade, feita de esperteza e água fresca.
Deixei-o falar.
Ele não sabe que ficou também do lado dos que perdem
e até o descobrir virão mais rosas
e a areia cobrirá todos os jardins.



Máscaras de dança da tribo Yupk, século 19
















O que foi teu e o que juntaste à vida,
tudo te mostra a casa iluminada:
no fim do caminho a luz estremecida,
no rasto dos teus passos a morada.


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E a dança, senhores. Que os corpos digam de sua justiça.





Nederlands Dans Theater

SLEEPLESS
coreografia Jirí Kylián, música de Dirk Haubrich
GODS AND DOGS
coreografia Jirí Kylián, música de Ludwig Van Beethoven
MINUS 16
coreografia Ohad Naharin, música de autores vários

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 E, por hoje, por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.


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terça-feira, outubro 07, 2014

O aumento do salário mínimo e os idiotas de serviço - e a crise segundo Nuno Júdice


No post abaixo falei do Ébola e da forma - que parece óbvia - como este terrível vírus deve ser travado. Hans Rosling (outra vez ele), com os seus gráficos, é claro quanto a isto.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, quero falar de um tema que já é de há uma semana ou mais e do qual não falei porque o meu tempo é escasso e os temas sobre os quais me apetece falar nem sempre são os que flutuam sobre a espuma dos dias.

Leitor atento (e atencioso) a quem muito agradeço enviou-me um texto publicado num blogue de que eu nunca tinha ouvido falar. 

[Há milhares de blogues! Não sei como se consegue ter uma ideia de quantos, quais, de que é que vale a pena. Provavelmente não se consegue mesmo, vão-se descobrindo pouco a pouco. Volta e meia vou parar a alguns que pouco mais têm do que passarinhos e gatinhos e florzinhas e ideiazinhas de perlimpimpim - e fico espantada. Penso cá para mim: Mas porque é que alguém se dá ao trabalho de fazer uma coisa assim? Mas não deveria pensar. A blogosfera é uma porta aberta para um mundo infinito e toda a gente é livre de dizer o que lhe vai na alma; e um passarinho a ter pensamentos floridos pode dizer mais a algumas pessoas do que um texto chato e comprido sobre o salário mínimo como o que me palpita que vou escrever.]
Adiante. 

O artigo que me foi enviado chama-se A direita punitiva desconhece o fundamento do salário mínimo nacional, é da autoria de Isabel Moreira e o blogue o Aspirina B.



É um tema que me é caro, o da mão de obra barata. (Dito assim até parece um trocadilho a la Teresa Guilherme mas não é um trocadilho, é a verdade)



Song for my brother



Avishai Cohen with strings




No âmbito do programa de formação anual que tínhamos na empresa, participei durante uns anos num Jogo de Gestão que creio ser patrocinado, na altura, pela Cegoc e por mais umas quantas empresas. Mais tarde fiz o Jogo de Gestão da Católica que era parecido, senão igual, ao anterior.

O princípio é sempre o mesmo. Cada equipa é como se fosse uma empresa e as equipas devem ser constituídas por elementos que tenham as valências de gestão que existem nas empresas. Na minha equipa tinha vários colegas meus. 

O jogo consiste em tomar decisões a vários níveis sobre a gestão da empresa, sendo que nos é dado que estamos a actuar no mercado de um certo produto (automóveis, por exemplo) e relativamente ao qual nos é fornecido material de base como estudos de mercado, estudos estatísticos relativos à população, etc. Temos, no decurso de cada jogada, que decidir que produtos vender (gama alta, média, baixa, por exemplo), que quantidades se admite que se venda de cada produto, quanto se gasta em publicidade, quantos vendedores se quer ter, quanto se paga ao pessoal, se vamos gastar dinheiro em formação ou não, se vamos formar turnos ou reduzir pessoal, investir ou não investir, com capitais próprios ou financiamento bancário, etc, etc. Ao fazermos isso, vamos obtendo como que uma antecipação de resultados, aquilo que nas empresas designamos por um forecast.

Depois de todas as equipas em jogo (que, portanto, é como se fossem empresas a actuar no mesmo ramo de negócio) fazerem as suas jogadas, o computador simula as consequências e a seguir recebemos os resultados.

Quando recebemos os resultados vemos se conseguimos se ficámos atascados em stock, ou se, pelo contrário, vendemos tudo e entrámos em ruptura (nesse caso, os clientes vão à procura de alternativas e perdemos quota de mercado), se tivemos lucro, se os trabalhadores estão satisfeitos ou se fizeram greve (e nesse caso reduziram a produção), qual a percepção que o mercado tem de nós, etc. Tudo medido e sopesado, é feito um ranking das empresas e inicia-se nova jogada.

Escusado será dizer que gosto imenso destes jogos. Para além do objectivo do jogo em si, há a alegria de jogar, toda a gente opina, discute, quase anda à tareia, e conta anedotas, e eu, claro, farto-me de rir.

Um dos meus colegas é um somítico do caraças e portanto, quando jogava, só queria cortar nos custos (menos vendedores, menos pessoal, ordenados baixos, menos prémios de produtividade, menos formação); outro é um optimista enervante e vá de expandir à maluca, mais fábricas, mais escritórios de venda, campanhas na televisão como se não houvesse amanhã (e caras como elas são!); eu, por exemplo, tendo a preferir ter um produto gama alta, dinheiro para investigação, formação e marketing para cima, vendas em números reduzidos mas preço de venda alto.

Todas as estratégias são possíveis assim como a combinação delas. Claro que cada uma delas não é boa de per se pois tem que ser vista em perspectiva face ao posicionamento das outras empresas. Se eu apostar num produto tipo linha branca e as outras empresas também, ficará o mercado inundado de fancaria, a preço da uva mijona, sobrando stock que nunca mais acaba.

Ou seja, a melhor estratégia será a que vai crescendo, com inteligência e consistência, a partir das diversas interacções das empresas presentes no mercado.

Uma coisa é certa: raramente é bem sucedida uma empresa que aposte na indiferenciação, nos custos espremidos, na exploração da mão de obra barata. Para isso, haverá sempre concorrência com fartura e os trabalhadores só não mudam de empresa se não puderem, e têm baixos níveis de motivação e de produtividade. Quando íamos na cantiga do meu colega forreta, tínhamos sempre os trabalhadores à perna, greves e baixos níveis de produtividade e tínhamos sempre os nossos concorrentes com produtos mais apetecíveis e vendedores mais motivados.

Em contrapartida, com o meu colega mãos largas, ficávamos com produto excedente e um endividamento de três em pipa que nos impedia de ter dinheiro para as matérias primas ou pagar ao pessoal.

Estes jogos são réplicas da realidade.

Sei bem do que falo.

É bem sucedida uma empresa em que haja um bom equilíbrio entre todas as peças que contribuem para o resultado e para a sustentabilidade da empresa.

É essencial haver uma estratégia bem definida e flexibilidade para a ir adaptando, é essencial que todos saibam bem qual o seu papel e se sintam valorizados, é essencial que se entenda que uma empresa é um organismo vivo, em que a vontade e o saber das pessoas é o que mais conta.

Se o produto pode ser diferenciado, deverá sê-lo; se não, então é o serviço que deverá ser valorizado. 

Boas cabeças e cabeças motivadas geram boas ideias, fazem bons produtos, serviços aprimorados.

Empresas que apostam no sacrifício dos trabalhadores, nos trabalhos forçados, nos baixos salários e nas fracas condições, são empresas condenadas ao fracasso. Podem conseguir contratos, à peça, para outras marcas, mas são empresas a prazo, empresas que, faltando-lhes as encomendas dos clientes para quem trabalham a façon, se vêem obrigadas a fechar portas.

Admito que no pequeno comércio, em que a subsistência mal é garantida para o patrão quanto mais para os empregados, não haja como pagar mais do que o salário mínimo. Mas isso apenas deveria acontecer em situações quase marginais, de comércio de subsistência.

Sei também como é perversa esta coisa do outsoursing, dos call centers e de todos esses negócios terceiro-mundistas em que se exploram as pessoas até à última pinga de suor. As empresas, querendo aliviar os seus próprios custos, suprimem os seus postos de trabalho trocando-os por subcontratação. Claro que isso só é rentável para quem contrata se pagar menos do que o custo de ter pessoal próprio. Ora, atendendo a que a empresa contratada também tem a sua margem de lucro, isso só é possível se se pagar muito pouco a quem trabalha.

E há as enormes cadeias de supermercados em que, apesar de todos os bons rácios económicos, pagam miseravelmente às pessoas que estão nas caixas de supermercado. Poderia fazer algum sentido se pensasse que é uma forma de, por exemplo, os estudantes ajudarem ao pagamento dos seus estudos, um part time. Contudo, o conceito foi subvertido e o que acontece é termos lá gente formada que tem que se sujeitar a isso por não arranjar outro trabalho.

Ter parte da população a viver com um salário mínimo tão miserável não é apenas uma questão humanitária, ou, pelo menos, não é apenas uma questão directamente humanitária em relação aos abrangidos: é uma questão mais ampla. Quem recebe tão pouco, não paga impostos. Logo, outros terão que pagar por eles. Quem recebe tão pouco, pouco consome, logo o pequeno comércio local sairá lesado, quem recebe tão pouco, se puder emigra (e, logo, não paga cá impostos), quem recebe tão pouco, se estiver em idade de ter filhos, se calhar não os tem. Enfim, mil outros argumentos eu poderia aqui referir para evidenciar como um país não se desenvolve com parte da população a viver no limiar da pobreza e todos, mesmo os que mais ganham, pagam por isso.

Uma sociedade que vive assente em atitudes miserabilistas e com uma vistas curtas não é uma sociedade justa e feliz. 

Um país que se deixou esventrar, acabando com a sua indústria a troco de patacos ou que, em vez de aproveitar os fundos europeus para se modernizar, os usou para os meter ao bolso, é um país de gente idiota.

Empresários de faz de conta, gestores de meia tigela, governantes ignorantes, uma elite política abandalhada. E uma comunicação social maioritariamente nas mãos de vendedores de produtos da loja de 1€ que esvaziam a cabeça do público de manhã à noite. Quando vejo a programação da televisão generalista, lixo e mais lixo, quando vejo os analfabetos que as televisões por cabo convidam para opinar sobre tudo e mais alguma coisa,  quando vejo que fecha uma empresa aqui, outra ali, e toda a gente já acha normal, quando vejo a gentezinha fútil e de cabeça oca que pulula nas comissões de inquérito do parlamento ou que discursa como se soubesse alguma coisa da vida, tenho vontade de que alguém faça uma série de disparates que abane este miserável e estagnado status quo

Não falo em violência física mas actos simbólicos que atrapalhem ou envergonhem os visados, como aqueles que também já caíram em desuso, de se cantar o Grândola ou o Acordai ou desatar a rir quando todos esses idiotas falam (ou coisas do género).

As elites são uma desgraça. Aos anos de negrume seguiram-se anos de euforia, aos anos de euforia seguiram-se anos de quebranto, a esses sucederam-se os de mediania, depois os de mediocridade. E abulia. E para aqui estamos, a cabeça entre as orelhas, mais espantalhos do que gente, aceitando tudo, tudo.

Simon O'Connor






Comecei a escrever isto a propósito do miserável aumento do salário mínimo de que um badameco falando em nome da Comissão Europeia (nos estertores de um cherne fora de prazo) disse ser um sinal errado -  e de que os papagaios de serviço passivamente logo se fizeram eco.

Em vez de termos um primeiro-ministro e um presidente da república que mandassem esses palermas de Bruxelas meterem-se na vida deles e na da prima deles e que tivessem vergonha na cara pois não sabem o que é viver com 500 euros por mês - e que o dissessem com todas as letras e em linguagem muito pouco de salão - o que tivemos? Pois bem, uma vergonha: meio mundo a papaguear, a carpir ou a tirar partido do que umas nulidades pagas a peso de ouro resolveram bolsar.


Raios partam esta praga de inúteis que nos rodeia.

Bem podíamos era escrever por todo o lado Save the portuguese a ver se alguém nos acudia já que nós próprios parece que gostamos de ser os carneiros mal mortos deste filme de quinta categoria.


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Isto já para não falar nos sindicalistas ineficazes e igualmente inúteis que nos calharam na rifa.

E já também para não falar neste hábito de comadres que temos, cada um para seu lado, uns a fazerem, outros a desfazerem.


by Banksy

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Adiante.


Estive a tirar fotografias a livros novos que estão aqui a desafiar-me e tinha ideia de apresentá-los um a um, transcrevendo um bocadinho de cada; mas passa da uma e meia da manhã e eu não descansei o suficiente durante o fim de semana e ando cheia de sono. Por isso, por agora, fica apenas a fotografia geral.






  A Crise

- Não é caso para ter razão, disse o racionalista.
- Também não é caso que faça impressão, respondeu o impressionista.
- Talvez seja caso para duvidar, disse o agnóstico.
- É mas é caso para acreditar, gritou o crente.
- Se for caso é casual, comentou o materialista.

E quando o criado chegou à mesa com o vinho,
já todos estavam à pancada.

- Eu bem disse que isto acabava mal, suspirou o pacifista.



[de Nuno Júdice in O fruto da gramática]



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Relembro: o tema que se segue não é muito mais animador mas, ainda assim, acho que deve ser levado em atenção. O ébola deveria ser atalhado nas próximas semanas. Hans Rosling explica porquê.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.


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sexta-feira, junho 20, 2014

Cai Ricardo Salgado, o homem forte do BES, o banqueiro do regime, e, com a sua demissão, fica à vista de toda a gente os pés de barro do conhecido paladino da moral e dos bons costumes, a 'mão por detrás do arbusto' de toda a privatização, negociata e derrube de governo que aconteceu em Portugal nos últimos vinte e tal anos. E aqui deixo uma perguntinha: tanta auditoria, tantos testes de stress e tanta treta... e nunca tinham dado por tanta tramóia...? Ah, que brandos são os costumes dos amigos e capachos desta gente.


No post a seguir a este lanço uma pergunta ao verdinho de serviço, à poiazita que por aí anda: não quererá ter um acto de higiene e livrar-nos da sua inteligência invertida?

Mas isso é mais abaixo.

Aqui, agora, a minha conversa é outra. Não é que cheire melhor mas, enfim, é o que os tempos presentes nos andam a reservar.


Ricardo Salgado, o ex-homem forte do Grupo Espírito Santo.


A queda de um mito 

(um mito de pés de barro, de mãos ao que parece pouco limpas, de consciência, ao que parece, bastante pesada)



Há quanto tempo Carlos Costa está à frente do Banco de Portugal? E quantos testes de stress foram feitos aos bancos? E, quando o BES recusou receber apoio como os outros bancos, alegando que os seus rácios estavam tão belos, que não precisava de nenhuma injecção?


Auditorias de toda a espécie e feitio e ninguém percebeu que havia dívida não declarada, contas manipuladas, trapalhada da grossa? Tanta gente inteligente e sabichona e ninguém deu por nada...? A sério...?

Como poderemos nós confiar em toda esta gente? Como poderemos saber que o que vemos como limpo não é, afinal, um monte de lama? Que auditores e reguladores são estes...?

Carlos Costa que, ao que parece, foi o homem dos negócios internacionais do BCP alegando, contudo, desconhecer as trapalhadas dos offshores, parece que continua a deixar passar-lhe, por baixo dos olhos, muita coisinha esquisita. Precisará de óculos? De tratamento de outra espécie?

Mas agora está a actuar. Certo, está. Mas, ao que parece, tarde e más horas, quando a coisa já sujou e demais, e a reboque de notícias que já não cabiam no segredo dos gabinetes e no seguimento de bombas a rebentarem na capa dos jornais.



Carlos Costa reuniu-se no final desta tarde como os membros do Conselho Superior (CS)  do GES. Esta reunião foi convocada de urgência depois de o Expresso ter revelado que Ricardo Salgado pretende renunciar à  administração, mas que alguns administradores não iriam aceitar sair, como era o caso de José Maria Ricciardi, Pedro Mosqueira do Amaral e Ricardo Abecassis Espírito Santo.


O governador quer que este três membros do CS, que estavam na reunião no Banco de Portugal, também renunciem aos seus mandatos de administradores. Na prática, o BdP não só obrigou Ricardo Salgado a renunciar, como não deixa que os outros administradores lá fiquem.  E significa também que os supostos candidatos à sucessão que estão dentro do conselho superior deverão deixar a administração do BES.


Segundo Pedro Santos Guerreiro, um dos jornalistas que mais de perto tem acompanhado este escândalo, a guerra está ao rubro e o desfecho disto, à data de hoje e a esta hora, ainda não é conhecido. Acabo de ouvir que agora, aproximadamente à meia-noite, Ricardo Salgado ainda estará dentro do BdP, apesar do primo Ricciardi já ter saído.

Mas se Carlos Costa andou a marcar passo, já Ana Gomes não brinca em serviço. 

Transcrevo:

Ricardo Salgado, noutros tempos.

O homem que, há cerca de 3 anos derrubou um Governo
para, segundo se diz, lá ter um mais a seu gosto,
acaba por ter, afinal, um fim triste.

A deputada socialista no Parlamento Europeu, Ana Gomes, escreveu esta quinta-feira duas cartas dirigidas a Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), e a Andrea Enria, presidente da Autoridade Bancária Europeia, onde denuncia "irregularidades" no Espírito Santo Financial Group (ESFG).


Nas cartas, divulgadas no seu site de eurodeputada, Ana Gomes recorda que "recentemente foram reportadas 'sérias irregularidades' em contas" da Espírito Santo Internacional, que passaram por "omissões na contabilidade de passivos" ("segundo a imprensa", no valor de 1,2 mil milhões de euros, explica a eurodeputada) e "sobrevalorização de ativos".


A barraquinha toda armada e à vista de toda a gente. Sujou, como dizem os brasileiros.


Ricardo Salgado
No Grupo escondeu milhares de milhões em falta,
no IRS pessoal escondeu 8 milhões,
e em vez de pintar a cara de preto e se enfiar num buraco,
por aí continuou a andar, armado em gente fina.


Segundo se diz, o BES estará a salvo, o que estará em frangalhos é o GES. Não sei. A ver vamos.

Mas, para além da minha perplexidade perante a bagunçada que se passa em lugares supostamente sujeitos ao maior escrutínio, o que me espanta é a lata desta gente. 

A lata!

Por aí andam a impor condições, a dar entrevistas sempre naquela pose de superioridade, a pregar lições de moral, a falar no que se gastou a mais, como se os velhos, os funcionários públicos e os desempregados tivessem agora que pagar os excessos que antes cometeram, pregando que a austeridade é vital e toda essa conversa fiada, a derrubar governos na maior descontração, e afinal são essas mesmas pessoas que fogem ao fisco, que engatam as contas deliberadamente, que fazem toda a espécie de negociatas e jogadas... 

Um asco, é o que isto é. Baaahh.



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Relembro: sobre a desautorização que os do Governo, certamente acagaçados com o abrir de olhos do Constitucional e talvez levando em consideração a recomendação do ministro das finanças da Merkel que diz que nunca se mete com o Constitucional, perguntei: em que posição fica o coisinho maduro? Andou armado em forcado a querer tourear os juízes do Ratton e a ver se virava os funcionários públicos contra eles e agora tiram-lhe o tapete desta maneira... Não se demite?

Mas, sobre isso, desçam até ao post a seguir, por favor.

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