Ontem falei da minha improdutividade mas esqueci-me de referir um outro aspecto: toda a vida trabalhei muito e sempre tive a preocupação de que fosse trabalho que se visse (muitas camisolas feitas, muitas telas pintadas, muitos tapetes feitos, muitos livros escritos e, no trabalho, quase sempre acumulando diferentes funções e, ultimamente, trabalhando até, ao mesmo tempo, em diferentes empresas). Parece que só me realizava se trabalhasse muito, se fizesse coisas complicadas, se me auto-propusesse objectivos difíceis de alcançar.
Mesmo depois de me reformar, parece que todos os dias me auto-estabelecia um monte de coisas para fazer.
E agora, ao fim de tantos anos, vá lá eu saber porquê, começou a saber-me bem não fazer nada. Claro que o meu nada não é exactamente nada. Mas, ainda assim, é uma novidade. Permito-me passar uma tarde (quase) inteira a ler, a ver vídeos, a percorrer redes sociais, a flanar, a fotografar.
Por exemplo, no instagram, há um cabeleireiro italiano que faz maravilhas. Vejo-o de gosto. Fico com imensa vontade de pegar numa tesoura e atirar-me ao meu cabelo a ver se consigo reproduzir aqueles feitos. Não ponho aqui o link pois não fixo o nome e depois não consigo encontrá-los. Mas não é grave pois aparece-me todos os dias. E há um número infinito de mulheres (e de homens) que se mostram a disfarçar olheiras, a maquilhar-se de maneira a alongar os olhos, a parecer que têm os lábios maiores, as maçãs do rosto mais subidas. A maquilhagem serve para tudo. E gosto de ver como põem isto e depois aquilo e mais aquilo, carradas de produtos para os mais diferentes fins, todos aplicados em cima uns dos outros, e usam pincéis de todo o tipo e feitio e esponjinhas e apetrechos para alisar, para esfumar, para iluminar. Gosto de ver. Já pensei até arranjar algumas coisinhas daquelas para experimentar.
E, no youtube, o que eu gosto de ver animais... Acho que o comportamento inteligente dos animais é verdadeiramente maravilhoso. Espanto-me sempre. E outra coisa que vejo sempre com atenção é a construção de pequenos lagos e o efeito que eles têm na atracção dos animais. Aparecem para beber água, para brincar, para se banharem. Fico sempre com vontade de fazer isso in heaven. Só ainda não me atirei a tal pois, quando chove, é tranquilo, auto-abastece-se, mas, sem chuva, como fazemos para lá manter a água? Mas as imagens colhidas pelas câmaras mostram uma actividade fantástica.
As coisas estão como estão, e eu nem me pronuncio para melhor as classificar pois é tudo too much e nem sei que diga ou para onde olhe, tantos os pontos de subversão e loucura, e, por cá, a malta continua a brincar às eleições presidenciais. Já aqui falei algumas vezes que não percebo que fossanguice é esta. Faz lembrar as vizinhas que, à falta de assunto, se pronunciam como umas e outras estendem a roupa.
Como penso apenas dedicar-me a isso quando estivermos lá, passo adiante.
Há ainda o tema da pen. Mas também não consigo perceber o que quer que seja sobre o grande assunto da pequena pen. Portanto, passo também adiante.
Conto antes um sonho tramado. Estava na empresa, a uma mesa com outras pessoas, e aparecia-me um artista que, com ar arrogante, me dizia que tinha sido admitido com a garantia que lhe dariam um computador topo de gama, com uma placa gráfica toda xpto, uma coisa de luxo, fora das normas da empresa. Eu dizia-lhe que, ali, não era cada um que escolhia os seus instrumentos de trabalho, era a empresa que avaliava as necessidades face às funções e providenciava o que fosse necessário. Mas ele falava-me de alto e dizia que isso fazia parte das suas condições admissão e eu, já contrariada, dizia que ele fosse pedir ao funcionário que lhe tinha dito isso que lhe desse o computador que ele queria. Ele dizia que tinha sido o director de Recursos Humanos e eu dizia que, sim senhor, o director de Recursos Humanos que, com o seu próprio dinheiro, fosse à Fnac ou à Worten e comprasse um computador para lhe dar. E a coisa ia escalando e eu, cada vez mais irritada, já lhe dizia que ele expusesse o assunto ao Marcelo.
Acordei contrariadíssima, como se estivesse outra vez em ambiente de trabalho, com gente a reivindicar tudo e mais um par de botas, e tudo me vinha cair em cima e eu é que tinha que ser a má da fita. Primeiro que assimilasse que tinha sido um sonho foi uma carga de trabalhos.
Pois bem. Que nem de propósito, fomos almoçar a um belo restaurante, em cima do rio. E há compartimentos para cada mesa. Os compartimentos estão separados uns dos outros por ripas de madeira e, portanto, se os comensais falarem alto, consegue ouvir-se.
Nas minhas costas estavam 4 cavalheiros que falavam empolgadamente de trabalho, de orçamentos, de departamentos cujos objectivos ficam aquém, que os resultados parece que se arriscam a ficar aquém, que iriam ter que resolver algumas situações porque há desempenhos que parece que estão aquém. E falavam de nomes. E o meu marido repetia o nome e dizia: 'A X. vai saltar'. E só não digo aqui o nome dessa ou de outros pois não quero trazer más notícias. E eu, ouvindo-os falar, pensei que, felizmente, já estou fora destes números. Aliás, sempre odiei tratar de assuntos de trabalho ao almoço. Mas, independentemente de ser ou não almoço, fico mesmo contente de já estar distante deste tipo de problemas com o qual eu também estava confrontada.
Eu estava a saborear a boa comida, a conversar, a ver a vista, e aqueles pobres coitados ali enfronhados em problemas e mais problemas...
E agora aqui, à noite, enquanto nas televisões se debate o almirante e a pen e mais não sei que pepineiras, vou até ao YouTube e sou presenteada com o vídeo abaixo. E, portanto, à falta de melhor, aqui o partilho:
King of the Dorks (Elon Musk / Donald Trump song parody)
Who is the real king of the dorks - Elon Musk or Donald Trump? Also starring Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Kristi Noem, Pete Hegseth, RFK Jr, and Karoline Leavitt.
Song parody of "The King of New York" from "Newsies"
Continuo quase maneta. O quase advém de que mão até tenho e de que ela até mexe. O que mal mexe é o braço pois o cotovelo continua inchado, encravado e doloroso.
Não me apetece ir ao médico pois sei que teria que fazer rx e o escambau e que, portanto, teria que ficar nas urgências a penar. Tenho esperança que, com anti-inflamatório, analgésico, pomada, gelo e imobilização (ie, braço ao peito), isto vá ao sítio.
[Não tenho aqui Transact mas não creio que funcione neste caso não apenas porque, sendo o cotovelo, não sei se o rectângulo adesivo funcionaria (acho que funciona melhor em superfícies lisas como as costas) mas, sobretudo, porque isto deve ter sido alguma rotura de ligamentos ou uma inflamação aguda nos tendões e creio que o Transact é para coisas mais light, tipo contracturas ou distensões. Digo eu.]
Por isso, não apenas não consegui regar, varrer ou outras coisas básicas e essenciais no meu dia a dia, como continuo a escrever sobretudo com a canhota pois alguns inocentes movimentos de mão provocam-me incomodativas dores no cotovelo.
Portanto, com as minhas desculpas, não vou comentar os comentários (nem sequer os do Mr. Implicante que, apesar de revelar algum sentido de humor, deve ser viciado em gramática e deve padecer de um défice agudo de simpatia -- simpatia ou empatia?).
Passei o dia, pois, na maior indolência, sobretudo lendo e vendo vídeos.
Contudo, a minha natureza puxa-me para a paródia pelo que dou por mim a ver vídeos que me fazem rir e, manhoso como é o algoritmo do youtube, às tantas só me dá é disso. Então, para ver se me cultivo, ponho-me a ver tutoriais sobre maquilhagem, sempre na vã esperança de descobrir quem me ensine como, num minuto (isto é, num único minuto), se transforma uma mulher normal, madura, numa esbelta e viçosa barbie. E, às tantas, começam a aparecer-me tutoriais de toda a espécie e feitio, uns que transformam pretas em brancas, nórdicas em gueixas, outros que transformam olheirentas e papudas em frescas e fofas, outros que transformam narigudas em narizinhas. Nada de útil face às minhas expectativas.
Tem-me também aparecido muita coisa séria como as alterações climáticas mas, por estes dias, para coisas sérias já bastam as terríveis imagens dos incêndios na Grécia ou tempestades na Suíça.
Por isso, não tenho nada de jeito que possa trazer aqui à colação. Quanto muito partilho este vídeo com dois fantásticos: Leonard Cohen interpretando o maravilhoso Dance me to the end of love e o elegante e cavalheiro Robert Redford a dar corpo à coisa.
E, vendo-o, penso: como é que eu, no estado em que estou, poderia corresponder caso me aparecesse um Redford desta vida a convidar para dançar?
PS: Começo a convencer-me que vou ter que interiorizar que o meu corpo não é o de uma atleta sempre pronto para os desafios que se me deparem. Uma maçada, isto.
Continuam os dias de trabalho pesado, apesar de pouco sair de casa. O meu marido, à tarde, disse: 'Hoje a coisa não correu bem'. Perguntei: 'Como assim?'. Esclareceu: 'Estavas com a assertividade nos máximos'. Não percebi. Explicou: 'A malta levou pela medida grossa'. Perguntei a que se referia em concreto. Respondeu, com sorrisinho irónico: 'Acho que não escapou nenhum. Parece-me que foi a manhã toda. Levaram todos'. Ainda quis que me dissesse qual o tema, para perceber com quem estaria eu a falar. Disse que não percebia as palavras, mas que o tom de voz falava por si. Acabei por confirmar que, pensando bem, tirando numa breve reunião de meia-hora, em todas as outras expressei a minha contrariedade. Por exemplo, uma faz telefonemas que são de meia-hora se a agente a interromper, senão são de uma hora no mínimo, para dizer que tem muito que fazer e que não tem tempo para fazer tudo o que é preciso. E passa o dia a fazer telefonemas destes. Se não os fizer, é tempo que lhe sobra para trabalhar. Como não mostrar arrelia com uma pessoa que não percebe isto? Ou um que tem mil coisas para fazer e que, em vez de se concentrar a fazê-las, se põe a fazer outras? Ou um que mal tem uma ideia vai a correr dizê-la a toda a gente, criando expectativas infundadas, lançando confusão e, quando lhe pergunto se já falou com alguém, bem sabendo eu que sim, me diz com cara de pau, mentindo à descarada, que com certeza que não. Claro que se eu tivesse estudado diplomacia ou tivesse aprendido a ser beata e paciente, passava por tudo isto sem me torcer nem me amolgar. Assim, é o que é.
Tinha pensado que teria tempo para redigir um documento que amanhã queria partilhar para colher opiniões mas, com tanta reunião e tantos telefonemas, não consegui. Ainda pensei que talvez agora. Mas não me apetece.
Só intervalei para fazer o jantar. Fiz assim:
Num tacho coloquei azeite e cortei duas cebolas aos bocados. Frigi ao de leve com duas folhas de louro fresco. Juntei um pequeno morceau de bacon aos bocadinhos e deixei que alourasse. Depois juntei quatro lindos tomates maduros. Por cima, três pernas grandes de frango do campo. Por cima, um pouco de sal, um alho francês às rodelas largas e mais um tomate maduro. Reguei com um pouco de vinho tinto e juntei salsa em quantidade generosa. Cozinhou nos próprios sucos até que vi a carne a querer despegar dos ossos. Juntei ervilhas congeladas. Cozinharam um pouco. Verti, então, o caldo que se tinha formado para uma chávena de pequeno almoço. Completei com água até encher. Juntei mais três chávenas de água. Quando ferveu, juntei duas chávenas de basmati. Quando estava seco, desliguei. O meu marido andava de roda da cozinha a dizer que cheirava bem, querendo saber o que era. Soube-nos bem ao jantar, acompanhado de salada de alface e canónigos. Depois comi uma tangerina. Rematei com um quadrado de chocolate bem preto (82% de cacau)
Tirando estas minhas coisas, tenho ainda a reportar uma coisa: não sei que é feito dos meus óculos brancos que me dão muito jeito para conduzir à noite. Já corri tudo -- e nada. O meu marido diz que se espantava é se eu soubesse deles. Não comento. Andavam sempre no carro, aqueles óculos. Mas mudei de carro ao mesmo tempo que mudei de casa e agora não faço ideia. O meu marido disse: na volta ainda estão no saco com as coisas que tiraste do outro carro. Não digo que não. Mas qual saco? À hora de almoço fui à cave ver se, nos sacos que estão pendurados no cabide de pé, encontrava alguma coisa. Nada. Sacos vazios, sacos de desporto, sacos de praia. Às tantas, um estava fofo, com coisas lá dentro. Abri: duas toalhas de praia, uma delas parece que ainda um pouco húmida. Nem queria acreditar. Não devia estar húmida senão cheirava a bolor e não, cheirava bem. Deve ser do frio que parecia húmida. Qualquer dia haveria de querer saber das toalhas e não fazer ideia delas. Calhou bem achá-las. Já as coloquei dentro da máquina. Num outro encontrei duas pens e um espelhinho de carteira que andava perdido há anos. Acabei por subir para almoçar. Dos óculos nem sinal.
Não vi o debate entre todos. Não me apeteceu. Não consigo ver a Ana Gomes a imitar o Herman José a fazer de Ana Gomes e, ao mesmo tempo, prestar atenção ao que diz. Não consigo, acho que a imitação dela não é credível. Não tenho paciência para a Marisa a fazer de conta que está a candidatar-se para o parlamento ou para o governo. Não tenho paciência para as tiradas simpáticas e nulas do Tino. Não tenho paciência para o tal senhor Mayan que parece ser gigante e deslocado. Não tenho paciência para o João Ferreira porque tenho pena que ele não tenha uma votação fantástica pois tem boa cabeça e uma dignidade tocante e era bom que evitasse o achincalhante declínio do PCP. Não tenho paciência para ouvir o porco imundo que, ao merecer a preferência de tanta gente, demonstra a mais triste de todas as realidades: há muito português mais estúpido e burro que uma porta. E não tenho paciência para ouvir o Marcelo porque já o conheço de ginjeira e sei que, se for como no primeiro mandato, apesar de todas as patetices que fazem parte do seu lado mais catavento, saberá interpretar o querer dos portugueses e saberá manter o equilíbrio interno ao mesmo tempo que não nos envergonhará quando representa o país perante o exterior, e porque o meu sentido de voto já está mais do que decidido. Portanto, não poderei comentar o debate. Terei perdido alguma coisa?
E agora vou espreitar vídeos. Qualquer dia ainda me torno seguidora de influencers. Mas não de uns influencers quaisquer. Hoje o algoritmo trouxe-me nova entrevista com Bethânia, desta vez a cargo de uma tal Naná, bem simpática por sinal. Já me arregimentei ao canal da Naná.
E o que Bethânia diz, senhores, que mulher, que carisma...!
Gostei de tudo mas não posso deixar de destacar o que ela diz do que é a poesia: não apenas o que respiguei para o título como também o que o seu mano Caetano diz: poesia não serve para dormir, poesia acorda.
Naná se derrete, olhando com devoção a grande diva, beijando as mãos da deusa da imensa cabeleira. Uma vez mais é um vídeo um pouco longo mas em que cada minutinho vale ouro.
Mas, antes, um curtinho em que Bethânia pergunta a Naná porquê esta série de entrevistas. E eu, que não fazia ideia de quem era Naná, vejo-a aqui toda vulnerável, toda dengosa, também seduzindo, fazendo amor com as palavras. Bonito de ver. Cá para mim, Naná é que nem eu que do amor gosto é dele carregadinho de expoente.
Hoje foi outro dia com o seu quê de especial -- um dia tranquilo, de novo a trabalhar entre bungavílias em flor, mas com um fim de tarde disruptivo e que pode bem influenciar os próximos não sei quantos anos da minha vida. Não gosto de falar antes das coisas serem coisas mas, claro está, estou aqui a dedilhar estas palavras e com a cabeça no sucedido. Não sei como é que estas coisas me acontecem nem como é possível que tudo na minha vida mude tanto, tantas mudanças em simultâneo. O que se terá passado dentro de mim para, de súbito, ter vontade de virar costas a um trabalho ao qual me dediquei durante tanto tempo, de virar costas a uma casa que adorava, de virar costas a hábitos que foram os meus durante anos? Ainda estou para saber. A tudo viro costas sem pensar duas vezes, sem pena, sem saudades, sem receios. E este ímpeto continua dentro de mim: vontade de desbravar novos lugares, novos percursos, novas actividades.
Só ainda não me aventurei mais pois não me sobra muito tempo: a trabalhar, o tempo livre é relativo. E depois da loucura que foi a mudança, embora ainda não esteja 100% concluída, estou numa inércia desgraçada, de repente vejo-me incapaz de me esforçar, diria mesmo que me vejo improdutiva.
Os dias passam a uma velocidade para a qual não encontro explicação. Quando dou por ela são horas de almoçar, quando dou por ela já estou a meio da tarde, depois daí a nada são horas de fazer o jantar, de regar, depois de telefonar à família, de tomar banho, de jantar, de arrumar a cozinha, depois já aqui estou, depois distraio-me, depois já é tarde, escrevo cheia de sono, não consigo energia para responder a comentários e mails, e, como sempre, vou para a cama tarde e más horas. E, enquanto isso, a pensar que deveria organizar-me melhor para arranjar espaço para começar a explorar novas áreas pois a vontade de me aventurar por aí está a latejar faz tempo.
Ao fim do dia, como sempre, preguiçosa, tentando descobrir temas que me digam alguma coisa (já que o covid ou a ana gomes não conseguem tirar-me das tábuas -- embora o galope a que vejo o número de contágios a avançar esteja a causar-me alguma apreensão), largo os jornais que só me trazem notícias maçadoras e desloco-me para a arca dos muitos mil tesouros: o youtube. E o algoritmo que, como é sabido, percebe mais dos meus humores do que muita gente de verdade, hoje tinha para me propor vídeos de uma série que já uma vez me tinha mostrado. Uma jovem coloca um microfone e uma câmara num jardim e pede a quem passa que partilhe um segredo. E acontece o que, à luz da razão, seria impensável. Se alguém tem um segredo, por que razão o partilha, sem hesitar, perante um microfone e uma câmara, sabendo que vai ser divulgado perante o mundo? Não percebo. Juro que não percebo. E acontece-me ainda uma outra perplexidade: o que faria eu em idênticas circunstâncias? Não sei. Mas não sei porque não me ocorre nenhum segredo que pudesse ser contado. Como é que tanta gente tem segredos?
Não sou bissexual, não tenho traumas cabeludos, não me empanturro para espantar mágoas, nunca roubei coisas no supermercado, não me sinto atraída por toda a gente, não desejo a minha melhor amiga, nunca deixei que gravassem tatuagens parvas no meu rabo em noite de bebedeira. Nada. Nada a declarar. Banalidades? Até me sentiria inibida... Vou contar que, quando era pequena, às vezes, a caminho da escola para casa da minha avó, eu e outras meninas bem comportadas íamos tocar às campainhas das vizinhas mais rabugentas? Bahhh..., toda a gente o deve ter feito. Conto que, às vezes, quando via a vizinha chata lá do prédio a caminho da entrada, me punha a mexer na carteira, como se procurasse alguma coisa, só para fazer de conta que não a tinha visto, esperando que ela subisse no elevador para só então entrar no prédio? Bahhh..., quem mais no prédio não o deve ter feito...? Vou contar que, quando ia buscar livros à fantástica biblioteca da primeira empresa em que trabalhei, quando eram livros especiais, tinha sempre vontade de não os devolver e sentia vergonha por ter essa vontade? Bahhh...., que não-pecado mais betinho... Só se for contar que, uma vez, teria eu uns dezasseis ou dezassete anos, uma cabeleira farta de dar gosto, resolvi inovar e a apresentar-me com um penteado diferente numa festa de anos onde estava o meu grande amor. Pedi uma ondulação a preceito. Nos poemas o meu cabelo era descrito como sendo de ouro velho mas, depois de uma tarde inteira de cabeleireiro, para além de ouro velho, o cabelo era o do marquês de pombal, caracóis sobre caracóis, uma juba descontrolada que deixava quem me via de queixo caído e, a mim, me fazia rir sem parar, incapaz de me encarar no espelho.
Enfim.
Conclusão: a vida é uma coisa curiosa e, depois de ver o vídeo, só tenho pena é que haja pessoas que guardem segredos tão tristes e que sigam em frente, com eles, tenebrosos, no fundo do seu peito. Prefiro ouvir segredos malucos, inofensivos, divertidos. Mas isto é assim mesmo: os segredos não se escolhem.
___________________________________________
Pinturas de Alma Thomas ao som de Georges Moustaki com a sua eterna Chanson pour elle
À vinda, uma mensagem a dizer que já tinham aterrado e bjs. Respirei de alívio, senti-me agradecida e, como não dava para escrever de volta já que estava a conduzir, liguei. Estavam à espera das malas e, ao mesmo tempo, a controlar as crianças e, portanto, não era a melhor hora para telefonemas, pelo que ok, tudo bem, bjs, etc. Fico sempre mais descansada quando os tenho por perto. Bem podem tentar explicar-me que a sua segurança não depende de mim que não quero saber. É uma coisa física, mais do que racional. Entretanto, liguei ao meu marido a dizer que já tinham chegado. Ficou contente.
Depois de chegar, fui ao supermercado. Depois à loja das frutas e legumes porque os tomates no supermercado não estavam bem maduros e a fruta também não me inspirou. Depois vim arrumar as compras a casa e outras coisas como pôr alguma roupa a lavar e etc.
A seguir, como a canseira fosse razoável e a preguiça ainda maior, fomos passear para a praia. Pode ser que pessoas haja que, estando a precisar de descansar, se deitem sossegadas. Nós não somos exactamente assim e, pelo menos nisso, somos parecidos. A menos que estejamos a cair para o lado, a canseira dá-nos sobretudo para ir lavar a alma para a beira de água. Também podia ser enfiar-nos nos bosques, atravessar serras e andar por entre árvores e outros bichos secretos -- mas isso era se estivéssemos perto desse outro mundo mágico por onde gostamos de adentrar-nos. E não estávamos.
Por isso fomos para a praia, bem rente ao mar.
Névoa, frescor, uma luz coadíssima, um entardecer dourado, um intenso e húmido perfume a maresia. Não me cansei de fotografar. A noite a cair sobre um mar em fúria e eu maravilhada com tamanha beleza. O mar revolto, tomado por aquela força avassaladora, é de uma grande e assustadora beleza.
A seguir fomos petiscar.
E depois, uma vez mais, espreitar o mar. Mas já estava frio e eu, com uma blusinha curta e fina e, por cima, apenas um poncho ultra-aberto de crochet aos buracos, senti que o melhor seria bater em retirada. Ele fez de conta que se zangava comigo, perguntando-me retoricamente se eu tinha mesmo achado que, contra a humidade e frio da noite, aquela 'coisa' ia servir para alguma coisa. Expliquei-lhe pela enésima vez que ele xailinho aconchega que se farta. Ele gozou, porque não acredita, e desistiu. Há coisas difíceis de explicar e as mais simples são as mais difíceis.
E agora passa da uma da manhã e estou perdida de sono. Perdida, perdida. Só de pensar em ir ali ver se as fotografias do mar estão boas para aqui as incluir já me apetece é fechar os olhos, encostar melhor a cabeça e deixar que o sono me pegue ao colo. Mas vá, tem que ser, não ia estar aqui a falar da braveza do mar e da sua enorme belezura e guardar as imagens só para mim.
Mas não posso ir tarde para a cama pois a alvorada vai ser cedo e há mil coisas a arrumar pois a jornada promete.
Entretanto, aqui ao lado, ele já dorme há que tempos. Não ter este meu vício de dar asas aos dedos ao fim da noite é capaz de ser bom. É capaz. Mas mal conheço.
Se não era para escrever aqui, era o tapete de arraiolos ou pintar. Também houve aquilo de escrever o livro. Mudei de computador, pu-lo numa disquete. Isto deu-se naquela era remota em havia disquetes. Depois perdi o rumo da disquete. Foi-se o livro. E se eu me empolgava a escrever noite adentro, o meu marido a perguntar, lá do quarto, a que horas é que ia deitar-me. Sempre a dar uso aos dedos. Dedos que têm vida própria, estes meus. Escrever não é coisa mental. Muito menos de coração. É mesmo apenas coisa de dedos, ainda por cima dedos desmiolados.
Isto para dizer que, a menos que pinte por aí uma espertina, hoje não vai ter Clara e Manel nem nada mais. Até porque ainda não sei que nome dar ao folhetim. E isto porque também não sei onde aquilo vai dar. Aliás sei onde deu na realidade mas, como tenho que pintar a realidade, não sei como vai ficar depois de photoshopar o filme real. Ou seja, preciso de um break e esse break vem a calhar num dia como o de hoje. Ainda por cima hoje não tem Alone e tanto que eu gosto de ver aqueles lá a inventarem como sobreviver, junto ao mar ou na floresta, do lado de lá de ursos grandes. Seria eu capaz de viver assim? Sozinha não de certeza mas a dois, se calhar, sim. Mesmo assim, receio que não. Mas gosto de ver. Mas hoje não dá. Uma lacuna.
Para compensar pus-me a ver o último vídeo da Li Ziqi, aquela jovem chinesa que sabe fazer tudo com uma precisão impressionante. Ela apanha bagas, flores, ela faz infusões, geleias, bolos. E até tinge roupa. E borda. E costura. Aquele meu lado de menina prendada faz-me ficar a olhar, presa, com vontade de viver num lugar assim, de ter um espacinho lindo assim, arrumadinho. E saber fazer aquilo tudo e ter tempo e sabedoria. Tempo. Tempo e motivação e recolhimento e capacidade de entrega. Tempo e sentido de harmonia e beleza.
Olho e ponho-me a imaginar se poderia criar um espaço assim para poder fazer as minhas cenas à vontade. Talvez in heaven. Espaço lá não falta. Só que, mal começo a pensar, percebo logo que comigo não dá. Não gosto de estar sozinha. Só à noite. Gosto muito de estar sozinha à noite. É como se, de tudo o que fui durante o dia, sobrasse esta que chega à noite, destilada, pouco mais do que a essência de mim. De dia sou outra.
O vídeo da Li Ziqui foi feito há um dia e já foi visto mais de um milhão e trezentas mil vezes. Há, afinal, muita gente que gosta de ver coisas assim. Parece-me espantoso. Na volta, há mesmo cada vez mais pessoas que apreciam a vida simples, o contacto com a natureza, os trabalhos manuais, as actividades em que sabe bem desfrutar o tempo e fazer nascer a beleza.
Já contei várias vezes como foi o meu casamento. Foi do mais simples que há, em casa dos meus pais. Para além da senhora da conservatória (ou do notário?), apenas a família mais próxima de ambos os lados lá esteve. Não usei vestido de noiva porque, quando fui provar, achei que parecia fantasiada e não me pareceu bem que, para um momento tão importante, eu me apresentasse fantasiada. Além disso, era caro e pareceu-me absurdo gastar (ou melhor: fazer alguém gastar) um balúrdio num vestido que iria usar um único dia. Optei por uns jeans justos, brancos, uma túnica de algodão muito fino, transparente, bordada, também em branco, do Augustus, uns sapatos leves de verão. Toda de branco mas assim, nesta base. O meu marido também foi na descontra e, ao pescoço, levava um fio feito por mim de missangas pretas minúsculas. Quem não visse com atenção nem se dava conta das missangas. Fi-lo para mim, tipo gargantilha ultra-leve, ultra-fina, um discreto risco preto na base do pescoço. E um dia, quando namorávmos, tirei-o de mim e pu-lo nele e ele deixou e ficou com ele. Portanto, quando se casou, ia, naturalmente, com ele. E também não quis levar bouquet, parecia-me uma coisa meio sem jeito, andar de ramalhete. Ele levou-me um botão de rosa, como me oferecia todos os meses, no dia do mês em que tínhamos começado a namorar, e foi essa flor que usei na mão, isto para cumprir minimamente o ritual de ter flores na mão.
Depois fomos para um lugar muito bonito para as fotografias, e estava um lindo dia de sol, e lá juntaram-se os nossos amigos e restante família, seguindo, então, de lá para um restaurante onde comemos bem, divertidos, muita gente nova. E partimos o bolo de noiva também para mantermos a tradição. Ao fim da tarde despedimo-nos e partimos para a lua de mel. O fotógrafo era um colega da faculdade que se ajeitava a fotografar e que às vezes me fotografava quando eu estava por lá, na cantina ou na associação. Também não nos ocorreu contratar um fotógrafo profissional. Tudo sem grandes pensamentos, tudo na base da espontaneidade. Um dia de pura e inocente felicidade.
Hoje, para a maioria das pessoas, o casamento é uma produção complexa, dispendiosa, muito trabalhosa e stressante. Festas preparadas com muita antecedência, grandes produções, muitos serviços contratados, muita coiseca, muita dor de cabeça. E um dinheirão. Cada um é como é e ainda bem que há gostos para tudo mas a verdade é que isso, a mim, não me diz nada. Pasmo como é que há pessoas que se dão a tanto trabalho para uma coisa que, depois, dura umas horas e, no fim, cá para mim deve é ficar um vazio, uma frustração -- tanto trabalho para afinal acabar em menos de nada. Prefiro a simplicidade absoluta, pouca gente, coisa espontânea, sem dar trabalho ou despesa a quem quer que seja. Mas lá está, na volta sou um misto de bicho do mato e de irmã carmelita, sendo que como irmã carmelita sou daquelas que acaba expulsa do convento.
Na altura, tinha eu vinte anos, casei-me. Estava farta de namorar e sem grande paciência para não morar com o meu namorado, ter que me despedir à noite já não me fazia grande sentido, e não nos ocorreu simplesmente irmos viver um com o outro. Outros tempos. Parece que, nessa altura, não era muito frequente as pessoas irem viver juntas sem se casarem. Se fosse hoje era isso que faria, juntar-me, sem aparatos de qualquer espécie.
Os meus pais também não fizeram grande finca-fé em que fosse diferente. Conheciam bem a filha e estavam era preocupados com aquela paixão e com a liberdade intrínseca que sentiam nela, uma filha que nunca aceitou arreios. Não fosse aquilo ainda dar em barriga que, isso sim, seria uma situação embaraçosa para eles, acho que até devem ter ficado aliviados com o casamento.
Foi, pois, um casamento muito simples, sem preparações, sem stresses, tudo na boa. De qualquer maneira, nunca depois senti pena de que tivesse sido assim. Pelo contrário, tenho para mim que, se calhar, por nunca ter havido 'armações' ou fantasias, é que dura até hoje. Digo eu mas, seja como for, há mil e uma razões para um casamento durar e muitas não passam por aqui.
No entanto, gostei muito, muito mesmo, do casamento dos meus filhos apesar de terem sido o oposto do meu.
A minha filha planeou tudo ao milímetro, desde o vestido, às flores da igreja (casou na igreja, não pela igreja, como ela costuma dizer), a toda a decoração do belo solar apalaçado onde decorreu a festa, e foi um casamento todo ele muito bonito, todos os espaços estavam lindamente decorados, o banquete foi primoroso, a música muito boa, os convidados eram elegantes e chiques, tudo de revista. Ela estava linda e muito feliz. Dançou muito, andou abraçada e enlevada e as fotografias mostram um dia muito alegre, inesquecível. Quando vejo aquelas fotografias não apenas recordo esse dia de sonho como pessoas que já não estão entre nós como, ainda, vejo dezenas de pessoas que, até hoje, não voltei a ver. O noivo provém de uma família muito numerosa e nem eles próprios dão bem conta de quantos são. Já aqui contei que quando perguntei ao avô dele quantos bisnetos já tinha, o senhor sorriu, encolheu os ombros e, para meu espanto, disse: 'Não faço ideia, estão sempre a nascer'. Presumo que nem netos ele soubesse ao certo, tantas as dezenas.
O meu filho sai um bocado a mim, não é grande apreciador de cenas. Sempre disse que não se casava, não tinha paciência para festas, quanto mais para festanças. Mas a minha nora sempre disse que teria um bocado de pena de ser mãe solteira e eu compreendia-a, é coisa que, parecendo que não, ainda tem, socialmente falando, algum peso. Por isso, vivendo juntos há algum tempo, quando ela engravidou, ele lá foi sensível ao argumento e resolveu fazer-lhe a vontade. Mas festa não haveria, disse ele. Só os pais, os padrinhos e, vá lá, talvez os irmãos de ambos os lados. Mas a coisa foi ganhando vida própria e acabou por haver uma grande festa, uma folia, uma animação. A noiva com uma barriga enorme, vestido branco, feliz como devem estar todas as noivas, o meu filho emocionado por ver a noiva feliz, orgulhosamente a transportar, no ventre, a filha de ambos. Muito bonito, tudo, muito alegre, uma festa rija, dezenas e dezenas de jovens bem dispostos.
Escusado será dizer que eu, em qualquer dos casos, me emocionei como gente grande ao ver os meus filhos tão felizes. Mas estar ali no meio daqueles grandes ajuntamentos, a ter que me controlar para não dar barraquinha e a ter que me manter distante dos meus filhos quando gostava era de estar junto deles, a fazer-lhes mimos, a desejar-lhes felicidades e boa sorte e tudo de bom na vida é uma coisa um bocado violenta para mim -- embora disfarce bem, sei comportar-me.
E estou com isto porque quando aterrei no sofá, perdida de sono --
depois de ter ido ver os meus pais ao fim de um dia de trabalho e depois de ainda ir ao supermercado e, no fim, depois das dez da noite, ainda ter estado a fazer o jantar --
e me pus a ver as novidades do YouTube, dei com o vídeo do casamento daquela jovem de 26 anos que vive nos bosques do norte da Suécia, Jonna Jinton, e que se descreve assim:
My name is Jonna Jinton, I'm 26 years old live in the woods in the north of Sweden. I practice the art of kulning, which is the name of the ancient Swedish herdingcall. It was used a long time ago to call the herdstock (the cows and goats) and to communicate with other women. Because of it's very high pitch tones the sound can travel through very far distances and makes very load echoes. To me "kulning" has become a form of art and I love to share my music here on this channel.
Besides kulning, I work as an artist, photographer and are running one of the most popular blogs in Sweden.
E agora casou e mostrou o filme do dia. E gostei de ver a simplicidade deles e do lugar, a beleza das flores do bouquet. Contou-o assim, ela:
On July 13 we got married in our garden. A day I will always remember with so much warmth, joy and love. This beautiful film with glimpses of our day was made by amazing wedding photographer Sandra Hila, as a gift to us. (...) It was truly a magical day. I was not prepared that it would feel so emotional. I have never cried so many tears of joy than on our wedding day. Just being there with my Johan, my soulmate and husband, together with so many people we love, it was just...so beautiful.
I will soon make a vlog where I tell you all about our day.
Meanwhile you can get a glimpse of the love and magic that we felt on our wedding through this film.
E que sejam muito felizes
____________________________________
As flores estão no gelo apenas porque me apetecia ter aqui flores e porque estou com calor. Olga Kulakova foi quem as fotografou.
_________________________________
E a todos desejo um belo sábado.
Tenham ou não alguém ao vosso lado, sejam felizes, está bem?
Há Leitores que me dizem que vêm aqui pelo que escrevo e não pelos vídeos que partilho. Algumas pessoas vêem o blog no trabalho e não lhes dá jeito estarem a fazer barulho ou receiam dar nas vistas. Mas acredito que alguns conseguirão oportunidade para os verem e, por isso, na senda do post de ontem, partilho hoje um outro vídeo do mesmo género. Não será tanto pela casa (embora também o seja) mas pela tranquilidade que se desprende do modo de viver que se percebe vendo a sua dona, uma serena senhora com 76 anos.
Atrai-me muito este vagar de gestos, a forma como toca os tecidos, esta curiosidade dela em sair, ao frio, para fotografar, o preparar de uma refeição para os amigos. E gosto de ver os objectos, a casa, o conforto simples. Não admira que pessoas assim vivam para além dos cem anos: a paz de espírito é saudável.
Eu, que receio a forma desregulada como a inteligência artificial parece tender a evoluir, como as redes sociais proporcionam todo o tipo de devassa e manipulação, e todas essas coisas, tenho que reconhecer as imensas vantagens da internet e de plataformas como o youtube sem os quais jamais poderíamos conhecer tantas coisas tão distantes e tão simples como esta forma de viver que aqui podemos observar.
Tenho uma amiga farmacêutica, investigadora e professora universitária. Tem uma farmácia, que já era de família, e, de vez em quando, trabalha lá, especialmente quando a farmácia está de serviço.
Agora não sei, talvez já tenha ganho mais juízo, mas antes ela divertia-se com uma das empregadas sempre que aparecia algum homem meio atrapalhado a comprar preservativos. Era certo e sabido que o praxavam. Quase apostavam entre elas que o pobre ia cair como um pato.
Contava ela que era normal o cavalheiro aproximar-se do balcão e, como quem não quer a coisa, discretamente pedir preservativos, geralmente pelo nome da marca. Por exemplo, 'Queria uma caixa de Durex...'. Aí ela sorria, atenciosa, e perguntava com ar também discreto, como que cúmplice da situação, 'Com certeza. Mas diga-me... qual é o tamanho?' Contava ela que era certo e sabido que o cavalheiro, ainda mais atrapalhado, assumia '... É médio...'. Ao que ela respondia com ar admirado: '.... Eu estava a falar do tamanho da embalagem..!' deixando o pobre capaz de se enterrar pelo chão abaixo.
Vem isto a propósito de um vídeo que Leitor a medo e confessando-se embaraçado me enviou. Trata-se de um anúncio australiano a uma marca de preservativos, Four Seasons - Get Naked, que foi banido na televisão mas que está disponível no youtube.
A mim não me faz confusão e nem vejo mal nenhum, apenas graça. Parece-me até bastante razoável que os clientes, não percebendo a diferença entre os diferentes modelos, os possam experimentar na própria farmácia (até porque, se os levarem e não ficarem satisfeitos, não os devem poder trocar).
Contudo, para quem não goste de cenas destas, aqui fica o aviso: se acha que pode sentir-se com urticária, por favor, não faça play
No post abaixo já dei oportunidade a que todos, vocês aí desse lado e eu aqui deste, nos juntemos em volta de um presépio (especial) e entoemos, em conjunto, um belo cântico natalício.
Não deixem, por favor, de lá ir para que o espírito de Natal desça em nós.
Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.
Através da televisão, ouvi com estas orelhinhas bem arrebitadas e vi com estes olhinhos wide open um momento lindo, lindo, lindo, na Assembleia da República. Paulo Portas, como sempre bronzeado (ou anda a frequentar solários ou anda em países onde se está melhor do que cá), sorrindo cinefilamente, encenando um número de fantasia, todo contente, dando uma, duas e três razões, para provar que os vistos gold são do melhor que há para Portugal - vender casas a chineses (dando oportunidade a que vários metam dinheiro ao bolso) a troco de terem visto de residência e, ao fim de algum tempo, cidadania, é o que vai salvar o País. Coisa boa, boa, boa, da qual o País não se pode dar ao luxo de prescindir e que as árvores podem ser uma porcaria mas que a floresta é do melhor que há. Dizia ele, mais coisa menos coisa.
Cecília Honório,
a gémea separada à nascença e com uns anos de diferença
de Jeanne Moreau
Jeanne Moreau,
a gémea univitelina, com anos de diferença,
de Cecília Honório
E, às tantas, olhar esfuziante, ar lampeiro, vira-se para aquela deputada do BE, a Cecília Honório - que dá ares de Jeanne Moreau e que o interpelava sobre que raio de investimento bom é este que não cria postos de trabalhos - e pergunta-lhe quem é que tinha criado mais postos de trabalho, se era a Remax se era o Bloco de Esquerda. Ela ficou em transe, tal a maluquice da pergunta e ele, feliz da vida, ficou radiante com a inteligência da sound bite.
A veia de stand up do vice-irrevogável anda a tomar conta dele: já o leva a dizer qualquer piada que lhe venha à cabeça.
Mas para ele não é piada pois, se a Remax se apresentasse a votos - com base nas casas que vendeu a chineses e nos postos de trabalho que criou, arregimentando vendedores para darem a volta a chineses -, é certo e sabido que ele não se ensaiaria nada para se coligar com eles.
Eu só tenho pena que aquilo tudo pretendesse ser a sério e não uma rábula, uma série humorística britânica. Uma tirada parva daquelas merecia que alguém se levantasse e desatasse a fazer parvoíces ainda maiores, danças malucas, macacadas de partir o coco. Ou que a Cecília o surpreendesse dizendo coisas ainda mais esparvoadas do que ele, deixando-o sem saber como ser ainda mais engraçado que ela.
Uma coisa do género:
'Em nome das mulheres portuguesas digo-lhe que não queremos mais chineses no país, nem mais um. Diz que têm uma coisinha muito pequenina' e mostrava-lhe o dedo mindinho para ilustrar.
Ou 'Irrevogalíssimo Vistos-Portas, num futuro governo de coligação entre o CDS e a Remax, com que pasta ficaria o Senhor? Com a pasta das Moradias Geminadas? Ou das Varandas com toldos às Riscas Vermelhas?'
A ver como é que ele se saía, se dava troco, e de dedo espetado como é seu hábito.
Além do mais, dada a época que se avizinha, só espero é que da próxima que se apresente no Parlamento, se apresente a preceito, ou seja, se aperalte de pai natal para ter ainda mais graça.
E sugiro também que, para a coisa ser ainda mais animada, haja momentos de interlúdio não propriamente musicais mas, antes, para passarem episódios dos Monty Python. Aposto que, depois, estariam todos ainda mais inspirados. Por exemplo, este aqui vinha a calhar.
Apelo à saude mental e em nome da conservação natural
Mas os tempos vão bons para as maluqueiras. Dados os brandos costumes da rapaziada, não é costume ver-se os deputados à batatada como por vezes se vêem noutros países. Mas estamos quase lá. Esta quinta-feira o circo ia pegando fogo com o Eduardo Cabrita, do PS, e o Paulo Núncio dos Impostos do CDS. Com palavrinhas corteses chamaram-se mentirosos e o deputado-presidente não sei de quê não emprestou , porque não, o microfone para o outro continuar a chamar-lhe mentiroso em alta voz. Por pouco não batia na mãozinha do secretário fiscal. Foi lindo. Só faltou a malta das bancadas organizar-se em claques e fazerem a onda ou entoarem cânticos específicos a cada equipa.
No Parlamento da Ucrânia não sei porque é que andaram à bulha. Ao princípio, parecia que queriam apossar-se do púlpito. Depois não sei o que foi aquilo. Mas mobilizaram-se, não são como estas moscas mortas dos nossos deputados. E estavam organizados, e, lá está, até entoaram cânticos. Assim, sim. Uma lição.
Mass fight between MPs breaks out in Ukraine's parliament
Mas, enfim, sabendo da doçura dos portugueses, não espero que haja cá disto. Mas, bolas, uma de cheerleaders, porque não?
Daqui lanço uma ideia para próximas ocasiões em que aqueles dois se peguem por causa do microfone. Com uma coreografia adequada, bem que deputadas e deputados travestis poderiam incentivar os dois cabeças de cartaz. Qualquer coisa nesta base:
Deputadas e travestis da oposição: Eduzinho, ó meu fofo cabrita, tira-lhe, tira-lhe o microfone, que a gente não usa sonotone e ele não vale uma batata frita! E viva o dudu e viva o cabrita!
Deputadas e travestis da coligação:
Ó paulinho, paulinho do fisco,
ó meu lindo, aguenta-te aí
querias ser um belo petisco
mas tadinho, tens cara de pipi! E viva o pauly e viva o audi!
Mas vou deixar-me de lérias e vou mostrar o vídeo.
Eizi-os picados e quase à marrada um ao outro, o Cabrita e o Núncio, e tudo por causa de um microfone
(Aliás até se poderia vender bilhetes à entrada da AR para as garraiadas com o Cabrita e com o Núncio)
São uns pândegos, estes fofos.
..........
Só espero é que agora saibam tirar partido do sucedido. Bora lá a plantar spins nos media, malta?
DEPUTADO
(Uma sessãozinha de coaching a cargo dos moços da Porta dos Fundos)
___
Relembro que, para verem o presépio que recebi de presente, é só descerem até ao post seguinte.
______
Por hoje fico-me por aqui.
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.
As iluminações de Natal já aí estão, as lojas estão cheias de enfeites, brinquedos, banquinhas para fazer embrulhos com laçarotes - e eu estou a ver se não reparo pois chateia-me este apelo ao consumo. Preferia que o Natal fosse ali pelos fins de Dezembro e, vá lá, uns diazitos antes para se preparar a casa para receber a família.
Mas, enfim, tenho que me deixar de lirismos e surfar a onda. Afinal, vendo bem, já falta apenas pouco mais de 1 mês: Santa Claus está quase a chegar à cidade.
Hoje já recebi um cartão com um presépio e, com o espírito natalício a querer entranhar-se em mim, aqui o partilho convosco.
Mas vamos com música que é para sentirmos um estremeçãozinho, daqueles bons que antecedem as coisinhas gostosas que estão para acontecer.
Jingle Bells, se faz favor.
E agora o presépio que recebi de presente.
Tadinho, só tem o burro mas, ainda assim, agradeço e acho que fica aqui muito bem.
Ora bem. No post abaixo dei-vos conta da carga de trabalhos que foi para Passos Coelho arranjar um substituto para Miguel Macedo. Não foi fácil. Como ali se pode ler, dos que ele tinha em mente, ninguém quis.
Uma loura e uma morena lutam na lama
(futurologia, claro)
Até que, de cabeça à nora e sem saber a que porta bater, o Aguiar Tinto (sorry: Branco) lhe sugeriu Anabela Rodrigues, professora com um belíssimo currículo na área académica.
Anabela Rodrigues, a nova Ministra da Administração Interna
Mas vamos com o Marco Paulo, que vamos bem acompanhados
A professora universitária de Coimbra, onde nasceu a 5 de dezembro de 1953, é docente de Direito e Processo Penal, doutorada em Ciências Jurídico-Criminais, e na sua carreira assumiu funções como presidente da Comissão para a Reforma do Sistema de Execução de Penas e Medidas e também da Comissão de Reforma da Legislação sobre o Processo Tutelar Educativo. Tem várias publicações nestas matérias.
Curriculum Vitae completo de Anabela Rodrigues aqui.
Vinha no carro e ouvi dizer isso mesmo, que o CV de Anabela Rodrigues - a poucos dias de completar 61 anos, bonita, bom ar - é muito bom, que acabou o curso com uma boa nota, que tem feito trabalhos e estudos e que a carreira académica é exemplar. Muito bem.
Contudo, do que percebi, não tem experiência política nem actuação que se conheça fora da sua área de estudo. Ora isso parece-me um problema na pasta para que vai.
A rapariga que está na recepção do piso em que trabalho tem um um CV fantástico: o que ela sabe fazer, a sua maneira de ser e as boas referências dos sítios por onde passou são invejáveis, não há quem não o reconheça. Mas como recepcionista. Extrapolar que, se o CV e as referências são inatacáveis, então daria certamente uma boa MAI, vai uma grande distância.
Pôr Anabela Rodrigues a gerir polícias, guardas republicanos, bombeiros e respectivas reivindicações, polícias de fronteiras, alguns dados a esquemas e sei lá a que mais, deve ser, para ela, uma realidade paralela.
No entanto, pode ser que nos surpreenda até porque pode ser que aquela malta, no princípio, tenha uma certa deferência para com ela, até por ser mulher e inexperiente (e como também a coisa não é para durar mais que uns meses, pode ser que não dê tempo a azedar de vez).
Paula Teixeira da Cruz, a loura do governo do PC
Agora onde me parece que a porca vai mesmo torcer o rabo é nos conselhos de ministros, no confronto com a Loura da Cruz. Sendo jurista de formação e tendo uma vida profissional em torno do direito, nomeadamente direito penal, palpita-me que a Anabela (Belinha para a família?) vai bater de frente com a outra destravada. Ouvi que a nova MAI é reservada. Ora, sendo inteligente e reservada, tem tudo para ouvir petrificada e em silêncio as aberrações que a outra profere para, a seguir, a frio, lhe aplicar estocadas fatais.
Portanto, a ver se a corda não vai partir mais cedo, não por causa dos homens fardados que costumam ser cavalheiros e estão habituados a ser pacientes nos primeiros momentos, mas por causa das refregas que se adivinham entre a loura e a morena.
Aliás, pode até acontecer que o putativo barítono, quando as duas se pegarem à estalada e ao puxão de cabelos, não sabendo o que fazer, se ponha a cantar 'Eu tenho dois amores...'
Tirando isso, desejo muita sorte à nova ministra. A sério.
[Nem ela sabe no que se veio meter mas isso é outra coisa: é apenas a primeira manifestação da sua inexperiência]
___
A coisa pode acabar assim: Paulinha versus Belinha (a Loura vs a Morena)
No post abaixo já falei o que tinha a falar sobre a demissão de Miguel Macedo. E como não me apeteceu falar muito no novo bocado que caíu ao chão desde governo que se está a despedaçar à vista desarmada, passei para o humor. Digo-vos que é coisa digna de ser vista. A sério. E, ao contrário do caso de que aqui vou falar, aqueles aparatos ali são mesmo reais.
Mas isso é a seguir.
Entretanto, estive para aqui a ver se me redimia da minha ligeireza numa altura em que o País está feito num oito. Percorri os jornais online, espreitei blogues. Esforcei-me.
Li o Pedro Santos Guerreiro, sempre tão objectivo e lúcido, escrevendo a propósito dos vistos gold, da corrupção, do ministro no meio de um grupo de gente de quem se suspeita:
As suspeitas que hoje existem e as informações já recolhidas por jornalistas mostram uma súcia que envolve quadros do Estado e à volta do Estado, com negócios intermediados por agentes e advogados, funcionários a receber dinheiro por debaixo da mesa, comissões e facilitações. Não é coisa pouca. E mesmo que tudo isso se tenha passado sem intervenção de um ministro, passou-se debaixo das barbas que ele não tem. A responsabilidade política existe, sim. Se um governo falha criando negócios vulneráveis à corrupção, ela própria participada por pessoas do Estado e próximas da política, está a prestar serviços de incompetência que aproveitam a alguém em detrimento da sociedade.
Concordo. Gostava de ter disposição para também dizer qualquer coisa mas a verdade é que não ando com pachorra para mergulhar neste charco.
Então, pedindo antecipadamente para não levarem a mal que me entregue a temas tão de cu, passo ao tema que agora aqui me traz.
O rabo de Kim Kardashian aparece-me por todo o lado. Oleado, aparatoso, e dizendo que pretende parar a internet.
Não sabendo quem era a moçoila, fui à procura. Pois bem. Parece que é uma socialite de 34 anos, com 1,59m, conhecida pelas formas generosas. Em linguagem de outros tempos dir-se-ia que tem um corpo tipo viola. Não sei se ainda se diz. De resto, parece que não é assim de origem e, além disso, ainda lhe acentuam os montes e os vales com doses generosas de photoshop.
Kimberly Kardashian West, nascida Kimberly Noel Kardashian, mais conhecida como Kim Kardashian (Los Angeles, 21 de outubro de 1980) é uma cantora, modelo, socialite, atriz, empresária, produtora executiva e reality star norte-americana. Filha do falecido e renomado advogado Robert Kardashian, ficou conhecida após protagonizar um vídeo de conteúdo erótico com seu ex-namorado, o rapper Ray J, irmão da cantora Brandy.
Kim hoje, possui quatro lojas com suas irmãs, Khloé e Kourtney, chamada DASH. Além de fazer aparições em filmes e lançamentos de produtos, é também a protagonista do reality-show Keeping up with the Kardashians que mostra o dia-a-dia de sua família. Estima-se que a aparição de Kim em Keeping Up with the Kardashians custe US$80 mil (por episódio), sendo assim, a mais bem paga estrela de reality show dos Estados Unidos.
Agora Kim Kardashian foi capa e editorial da revista PAPER e o seu rabo fez arregalar os olhos e explodir em riso a malta que viu tal avantajamento.
PAPER - Break the internet - Kim Kardashian
E as comparações e as paródias não se fizeram esperar. Por todo o lado, encontro imitações, ridicularizações. Kim Kardashian deve agradecer: quanto mais publicidade fizerem dela, mais ela factura.
E a seguir vieram os vídeos. Há imensos e a dificuldade está na escolha. (E reparem no estado de alienação a que cheguei para evitar pensar neste malfadado e estapafúrdio desgoverno - imagine-se que até me pus a ver filmes a parodiarem uma criatura de quem até há uns dias atrás nunca tinha ouvido falar).
Her ass broke the internet, ours merely cracked it - dizem os rapazes.
Actores: Keith Habersberger, Eugene Lee Yang e os BuzzFeed's Zach e Ned
Banda sonora: Monsters Under The Bed
___
A ver se aparece algum vídeo que mostre as maluqueiras da Marta Gautier enquanto era desfeita pela Manuela Moura Guedes no programa Barca do Inferno. Estive a ver uma paródia no Canal Q e é de ir às lágrimas. Não tinha ideia que a moça fosse tão ocazinha, tão ignorantezinha. Um dó de alma. A Manuela Moura Guedes desfê-la e até a percebo. Claro que a Marta, filha de Rita Ferro, já desistiu do programa e, a julgar pela amostra, fez bem.
Mas o vídeo viria a calhar, agora que ando nesta onda de disparates. Se aparecer, avisem-me, está bem?
[E a ver se amanhã já estou mais atilada para conseguir dedicar-me a temas mais eruditos não vão os meus Caros Leitores pensar que surtei e que sou um caso perdido]
_____
Relembro: não deixem de ir até ao post já a seguir, não se vão arrepender, verão. Para além de que lá tenho um anúncio de emprego que pode ser útil a algum dos meus Leitores.
____
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.