Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, dezembro 31, 2019

As cinquenta nuances de verde







No sábado, no bocado de tarde que estive in heaven, fiz fotografias que tinha vontade de partilhar convosco. Também tinha a ideia de vos contar como se estava lá tão bem e da pena que tive por não poder estar mais tempo. Mas depois, já nem me lembro porquê, não fui por aí.

Depois, no domingo, no bocado em que estive à beira mar, fiz várias fotografias e tinha ideia de aqui publicar uns quatro ou cinco postais. Só tive tempo para dois. 

Esta segunda-feira voltei ao trabalho. Tinha pensado que ia ser um dia calmo, que conseguiria sair cedo mas os dois dias de férias hoje pesaram-me. Não sou nem um bocado de manias de que sou insubstituível nem sou maníaca do trabalho. Acontece é que as circunstâncias, ou a minha maneira de ser, nem sei, fazem com que tenha, de facto, muito trabalho. Sou de delegar, delego bastante, mas o facto de trabalhar em mais do que uma empresa e em qualquer delas com funções executivas, acarreta responsabilidades e as responsabilidades traduzem-se, para mal dos meus pecados, em trabalho.


E o trânsito. Uma pessoa, mesmo sem querer, torna-se insensível ao que se passa com o carro dos outros. Julgando que ia fazer um percurso num quarto de hora, foi furiosa que passei por um carro empanado no meio da estrada. Uma carripana velha, provavelmente um sufoco para o dono do carro, provavelmente custos que vão ser difíceis de suportar e eu, sem querer saber disso para nada, simplesmente a querer passar para ver se chegava a horas ao meu destino. Ou quando estou mais de uma hora num pára-arranca desesperante, enervada por chegar atrasada, e passo por carros espatifados, carros de bombeiros, ambulância, polícia, e eu nem penso no que ali se passou, apenas me sinto aliviada por, a partir dali, já poder andar normalmente.

Anos de vida nisto. 

Bem. Adiante.

Quando cheguei a casa ainda fui ao supermercado comprar o que faltava para o almoço de Ano Novo cá em casa. E depois ainda fui fazer uma máquina de roupa.


E, a seguir, depois de me pôr confortável, fui-me àquilo para que me deu neste fim de ano: arrumações. 

No sábado, o meu filho disse-me que estavam a pensar ir fazer uma caminhada num trilho de montanha perto de nós, in heaven, para nós irmos com eles, depois almoçávamos e voltávamos lá. Em situação normal, eu diria logo que sim. Os miúdos adoram estar lá, in heaven, até o bebé está sempre a falar nisso e eu jamais diria que não. Mas, pela primeira vez, disse que não dava jeito, que tencionava estar na cidade em arrumações. À noite foi a minha filha a dizer que o irmão a tinha desafiado para irem para a praia de manhã cedo mas que ela de manhã não mas que, se calhar, à tarde sim, e nós que nos juntássemos. O prazer de estar com eles é sempre o que fala mais forte. Mas, uma vez mais, disse que não. É que dizer que sim tem sido a história da minha vida. Sempre eles antes de tudo, em primeiro lugar haja o que houver, e eu sempre disponível para estar com eles. Com o meu marido a mesma coisa: quando estamos juntos, os programas que arranjamos durante o dia são programas conjuntos. Por isso, arrumações profundas vão passando para a próxima vez -- mas para a próxima vez nunca há tempo. Mas desta vez qualquer coisa desceu em mim. Um ponto de honra. Tinha mesmo que ser. E eu quando me dá para arrumações destas é mesmo a sério. 


Por isso, hoje, de novo, foi até há pouco tempo. E ainda não acabei. Para fazer as coisas como eu queria, precisaria de mais uns dois ou três dias. Mas já não vai dar. Tenho que acabar amanhã e, ainda assim, amanhã vou ter um dia atarefado, pouco tempo me vai sobrar. Portanto, agora à noite dei no duro. No último dia do ano vou levantar-me cedo e tentar cobrir os mínimos que tenho em mente. Já fui duas vezes à loja dos chineses comprar caixas e cabides verticais. Amanhã vou ter que lá voltar para comprar uma com gavetinhas para guardar pulseiras. Os brincos e os anéis já estão organizados por cores. E as pulseiras também o serão. 

Muitos anos a trabalhar, muitos anos a querer estar bem arranjada todos os dias, muitos anos a juntar roupa e bijuteria que não se estraga, muita gente a oferecer echarpes... dá nisto: coisas a mais.


Acho que pela primeira vez na vida tenho um roupeiro para o qual dá gosto olhar. As gavetas têm os tops ou as echarpes todas dobradinhas ao alto, por cores. Nos cabides, num compartimento estão as blusas ou camisas de manga comprida, noutro as de manga curta. Noutro, as malhas, os casaquinhos leves. E tudo por cores. Os pretos, os azuis -- do mais escuro para o mais claro. Depois os verdes -- os profundos, os esmeralda, os vivos, os água, os secos, os floridos, os que tendem para os amarelos. Depois os amarelos. Depois os corais, os laranjas, os encarnados. Etc.

Um gosto de ver. Tudo à larguinha, tudo fácil de encontrar, tudo a respirar bem (concordo, Susana, é mesmo verdade: as coisas respiram melhor, parece que o ar da casa até fica mais fresco).


E, agora que já posso dar dois passos atrás e olhar, pasmo com aquilo de que, não sei como, nunca me tinha apercebido: a cor predominante é o verde. Muitos tons de verde, com predominância para o verde musgo dourado. Ainda este Natal, para além de uma preciosa caixa com diferentes flavours de chá, a minha filha me ofereceu um lindo casaco, num tecido macio como uma camurça aveludada, num lindo tom de verde. Disse-me: 'Achei que ficava bem com os teus olhos'. E fica.

Não sei se pela cor dos meus olhos ou se por eles gostarem de ver a cor verde, a verdade é que, olhando para o roupeiro, a mancha verde é a que se impõe.

Não há muito, ao ler o último livro da Ivone Mendes da Silva, A mulher do meio, li uma coisa que me deixou um bocado espantada. Não tenho aqui o livro comigo, está in heaven, pelo que não posso transcrever. Digo de cor, certamente não sendo fiel à letra escrita. Se bem me lembro, descrevia ela que a Agustina dizia que só as mulheres muito bonitas podiam usar verde, razão pela qual ela nunca tido coragem para vestir uma peça verde. E eu, embora não sabendo, na altura, que o verde era a minha cor dominante mas já certa de que reincidia frequentemente, fiquei a pensar que eu, que uso tanto o verde, na volta, estou a ser impudica, descarada, estulta, inconsciente.


Mas é uma cor linda, vibrande, cheia de vida, cheia de nuances e de profundidades, cheia de luz, cheia de mistérios.

E, para o ilustrar, acabei, afinal, por ir mesmo buscar algumas das fotografias que fiz no sábado. A luz dourada sobre os verdes é de tal forma sedutora, não é? Mas todos os verdes o são, mesmo o da tenra erva, mesmo o dos rebentos na ponta das hastes, mesmo o da indistinta mancha do arvoredo vista de longe. Há deuses verdes à solta nos campos, há deuses verdes que dançam em minha volta. Tão bom.


Espero ainda conseguir voltar antes do final do ano para formular os meus votos mas, para o caso de o não conseguir, vou já adiantando que desejo para os meus amigos que aí desse lado me acompanham o mesmo que desejo para mim e para os meus: tudo de bom. Saúde, sorte, alegria, afecto, desafogo, motivação, boas surpresas, beleza, harmonia, desafios dos bons, partilha, aprendizagem, sorrisos. Coisas boas.


Um dia feliz a todos.

segunda-feira, novembro 25, 2019

Podia ficar-me pelo meu encantamento in heaven ou pela maravilhosa decadência do Ginjal.
Mas prefiro chamar a vossa atenção para aquilo que sabem.





Fim de semana tranquilo. Mas não estive na melhor forma, estive um pouco adoentada. Resfriei-me na sexta-feira e mais do que pensava. 

No sábado estive no campo. De tarde, pensei que estava melhor, pus-me a passear por entre as árvores, andei nas minhas deambulações, nem dei pelo frio. 

Voltaram a aparecer as pegadas de bicho grande, a terra escavada. Eu estava longe mas pareceu-me o meu nome chamado pelo meu marido. Era ele mesmo: tinha visto aquelas marcas, quis alertar-me não fosse haver javalis por ali. Mas não. Provavelmente só por ali andam à noite. Pelo menos, assim o espero.


O que é curioso é que aparentemente andam a lavrar a terra com o focinho ou com as patas exactamente nos mesmos sítios onde andaram antes. A minha mãe no outro dia, quando lhe mostrei fotografias de tantos cogumelos, disse: 'Se calhar, também por lá tens trufas'. Não sei, não faço ideia. Mas, ao ver como a terra está, fico com a ideia de que há animais por ali a quererem encontrar alguma coisa. Será mesmo trufas? Nem sei como descobri-las. Sei que se parecem com torrões de terra pelo que não faço ideia de como procurá-las. E há também muitos cogumelos arrancados, meio comidos.


O campo está verde, lindo. Tudo se cobre de musgos, de líquenes. Não consigo olhar para os campos e ver ali o ocaso de nada. Pelo contrário, o próprio processo de transformação das folhas rubras em nada, misturando-se e preparando-se para a a dissolução final, tudo me parece um fenómeno maravilhoso, de uma beleza difícil de reproduzir ou descrever, como se tudo estivesse a nascer, a acontecer.


As cores e os perfumes e as aragens enchem o espaço bem como o canto dos pássaros que parecem andar mais felizes e livres do que nunca. 

Fotografo, fotografo. Parece que nunca vi tamanha beleza, parece que é um milagre que estou a testemunhar pela primeira e única vez, parece que é uma bênção de que me é dado fazer parte.


O sentimento de pertença que ali sinto envolve-me toda, todas as células do meu corpo. Uma paz, uma felicidade, uma harmonia tão absoluta, uma total fusão com a terra, com o ar que transporta cheiros e cantos, com a magia da luz cuja cor muda os cenários em minha volta. Um estado de encantamento, de puro e agradecido encantamento. Não sei dizer de outra forma.


Convencida de que já estava bem, fui à noite a casa dos meus pais. Por precaução, levei a echarpe em volta do pescoço, a tapar-me a boca. Embora um resfriado não seja contagioso, não quero que haja o risco de lhes passar alguma coisa.

Mas talvez tenha voltado a apanhar frio. Este domingo de manhã estava outra vez um pouco congestionada mas, como não tenho paciência para estar fechada e me apetecia ir a um sítio onde não ia há algum tempo, fomos ao Ginjal.


E, de novo, aquela sensação de alegria pela descoberta. A cada vez que lá volto as paredes estão diferentes. Como um ser vivo que se transmuta, assim aquelas velhas e decadentes paredes: sempre novas, cada vez mais belas. 


Fotografei, fotografei. Como é possível um lugar assim?

Lisboa vista dali é bela, magnífica. Tão bonito tudo. E tão bom andar por ali. A maré muito cheia, as águas muito perto, aquela frescura boa, molhada, aquele cheiro a beira do rio, aquela vastidão, aquela perfeição que as paredes grafitadas, tingidas, devastadas pelo tempo apenas complementam. E o rio, largo, imenso. E os barcos e as gaivotas e as pessoas. Tudo tão bom, tão bonito.


E, de novo, devo ter apanhado algum frio pois voltei a sentir-me pior. Felizmente a mim o chá quente e uma sesta fazem milagres e voltei a sentir-me boa. 

Estive a ler. Cercada de livros, no conforto desta minha sala tão acolhedora, com um chá quente, com uma luz a incidir nas páginas e pouco mais, eu estou nas minhas sete quintas.

O meu marido antecipou-se-me e está ele com o Augustus do Stoner. Não faz mal, leio-o a seguir. Estive com aqueles livros em que os arquitectos falam das suas casas, mostrando como é o lugar onde vivem. Gosto do que dizem os arquitectos (alguns arquitectos). Casas, objectos, memórias, o espaço, a luz, o interior e o exterior, o conforto, a simplicidade, a história das suas vidas, a partilha -- uma maneira interessante de falar das coisas.

E agora que aqui estou, depois de há bocado ter escrito sobre a Joacine e o Livre, estou a ouvir a chuva, a ouvir música, sons bons que se misturam, feliz e tranquila, sentindo o conforto bom da minha casa.

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Antes de começar a escrever vinha com a ideia de falar um pouco mais sobre como é impossível romper com o sistema (seja lá o que isso, na realidade, significa) estando dentro do sistema como, por vezes, ingenuamente parecem acreditar os que se deixam encantar por falas aparentemente rebeldes como as do Livre (e digo isto simpatizando com o Rui Tavares a quem acho um homem genuinamente bem intencionado).

E tinha a ideia de mostrar um vídeo que me impressiona bastante. E impressiona-me não apenas pelo vídeo em si mas porque fico a pensar que o mundo poderia ser um lugar menos perigoso se mais pessoas, em lugares de decisão e poder, pensassem e agissem como parece que o protagonista deste vídeo, Feike Sijbesma, CEO da DSM, pensa. Mas não sou ingénua. As disparidades são tão abissais, o mal feito ao planeta é tamanho, a estupidez intrínseca dos humanos é tão destruidora que não é a visão solidária e inclusiva de uma pessoa, ou de cem pessoas que sejam, mesmo de mil pessoas, mesmo de cem mil pessoas que vão fazer a diferença.

Ou talvez seja. Talvez.

Talvez se muitas vozes se levantarem, talvez se, em vez de se propagarem mentiras, intrigas, futilidades e disparates nas redes sociais e na comunicação social, se difundirem bons exemplos, gritos de alerta, passos no caminho certo, talvez progressivamente haja uma leve inflexão no sentido da destruição, talvez nos desviemos da rota para o abismo que temos vindo a trilhar. Talvez. 

You know


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Sergei Polunin está lá em cima no lugar das bandas sonoras mas, obviamente, é mais, muito, muito mais que isso. Não deixem, por favor, de ver como ele voa.

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E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira.

segunda-feira, novembro 18, 2019

Num domingo assim, tão chuvoso e tão frio, consegui ter o coração quente






De manhã fomos passear para a beira-rio. Estava frio e soube-me muito bem caminhar rente ao Tejo, sentir a frialdade húmida, ver as aves andando descansadamente nos lodos ou esvoaçando, deslizando pelos ares no maior vagar. Ao contrário de quando está bom tempo, hoje os turistas e caminhantes tinham-se retirado. Menos pessoas. Levei a máquina fotográfica mas, porque são as pessoas que mais me atraem, hoje senti que faltavam os motivos que, geralmente, me fazem sentir aquela adrenalina de as apanhar à socapa, de as apanhar no ângulo em que não podem ser reconhecidas ou, melhor ainda, de antecipar os gestos que vão fazer no instante seguinte, aquele em que vou estar a postos para os 'apanhar'.

Mas não fez mal. Fotografei as belas árvores pintadas com as mais intensas cores outonais, fotografei as esculturas de rua, fotografei os rastos que se desenham nos lodos, fotografei as águas mansas, longe dos azuis exuberantes, que quase se confundiam com o céu também em cores quase neutras.


Depois fomos almoçar. Já era tarde. O meu marido ainda tinha que ir à empresa buscar o computador e eu, chegando a casa, ainda tinha sopa para fazer, comida para o jantar de hoje já a contar com o de amanhã, pôr a máquina a lavar, etc. De manhã, tinha-me levantado com um pouco de dor de cabeça pelo que tinha pensado que, depois da labuta concluída, haveria de deitar-me no sofá, a ler e, tentativamente, dormiria um pouco a ver se aquela moinha nas têmporas desaparecia.

Mas, então, estando nós no início do almoço (e isto já depois das duas da tarde), eis que recebo uma sms da minha filha a dizer que o mais velho gostava que fossemos assistir aos seus jogos de futebol. Com o programa de festas que tínhamos pela frente, não era nada que desse jeito. O meu marido abanou a cabeça, encolheu-se todo. Que não dava tempo, que não dava jeito. Tinha um trabalho para fazer e não lhe dava jeito interrompê-lo para ir ver o jogo, às seis e tal da tarde.


Mas há uma coisa: eu não consigo dizer que não, não consigo desiludir os meninos. Se ele gostava que fossemos e se a minha filha também gostava que fossemos, então iríamos. O outro menino tinha também um jogo, mais cedo, noutro lugar, e aí era o pai a ir com ele. Mas, se acabasse a horas, iriam lá ter. 

Fomos. Chovia a potes. Mau tempo, frio, vento, chuva. Ainda pensámos que não haveria jogo. A minha filha até nos ligou, estávamos nós a meio caminho, que, se ainda estivéssemos perto de casa, se calhar não valia a pena irmos, que com o tempo daquela maneira era pouco provável que houvesse jogo. Mas houve. Um gelo. O meu menino lindo encharcado, enregelado, ali debaixo de chuva. Só visto.

Mas um valentão. Jogou muito bem. Tem muito jeito. Está um rapazinho. Vibrei imenso. Enregelada também eu, embora encasacada, mas feliz da vida. O meu marido também gostou de ver o neto a jogar bem. Três jogos, hora e meia a jogar à bola, coitado, ao vento e ao frio, debaixo de água.


Chegámos a casa às oito e tal, ele ainda com trabalho para fazer e eu com coisas para arrumar e tratar. E vínhamos com um frio entranhado no corpo. Diz ele: 'Arranjas-me com cada uma...'. Como se tivesse sido por mim e não pelo neto e pela filha. Mas, se calhar, se não tivesse sido eu a dizer que tínhamos que ir, ele, com o que tinha planeado de trabalho, diria que não. Ou talvez não. No fundo, apesar de não parecer tão 'agarrado' como eu, também não gosta de desiludir as crianças pequenas (nem as grandes).

Sempre assim fomos. Mesmo quando os nossos filhos eram pequenos, mesmo que tivéssemos muito que fazer, nada nos fazia desviar um milímetro quando o que estava em causa era estarmos junto deles. Muita ginástica para conseguirmos conciliar as obrigações com as devoções, muitas corridas para chegarmos a horas, muito stress por vermos o tempo a passar, o trânsito parado sabendo nós que eles estavam à nossa espera.


Lembro-de uma vez em que uma viagem a Itália coincidiu com os anos do meu filho, teria ele uns cinco anos. Fiz de tudo para mudar mas foi impossível. Íamos três e íamos ter reuniões com pessoas de duas outras empresas; e conciliar agendas foi uma complicação, acabando por convergir, desgraçadamente, naqueles dias. Fui com o coração partido. os meus pais vieram para ajudar o meu marido que, naquela altura, tinha trabalhos fora de Lisboa ou reuniões com pessoas que vinham de fora e que queriam optimizar o seu tempo cá, puxando os horários. E havia a festinha de anos com os meninos da escola. Todos disseram que eu fosse descansada, que o menino era pequeno, que nem ia perceber, que eles tratariam de tudo. Mas eu não consegui aceitar o que tinha feito e, ao segundo dia à noite, tomei uma decisão. Arrumei a mala e no dia seguinte de manhã, ao pequeno almoço, apresentei-me junto dos meus colegas dizendo que ia regressar a Lisboa. Ficaram perplexos, sem palavra. Mas eu disse que nem valia a pena dizerem nada. Quase sentia a voz estrangulada na garganta tanto me doía ter estado ausente no dia de anos do meu filho Não me lembro de como fiz para mudar o voo de regresso. Naqueles tempos, sem telemóveis nem internet, não sei como se resolviam coisas destas. Mas eu tê-las-ia resolvido mesmo que estivesse no meio do deserto. Lembro-me de andar meio assustada naquele aeroporto de Milão que é enorme, pejado de gente, eu com pouco tempo, com medo de não dar com a porta de embarque, enervada, angustiada comigo mesmo, desejando chegar a casa mas, ali sozinha, incontactável, com medo de não conseguir embarcar. Mas consegui. Quando, a seguir ao almoço, toquei à porta do apartamento dos meus pais, a minha mãe ficou ainda mais perplexa. Mas o meu alívio por estar de volta, por poder abraçar os meus filhos, por regressar a casa, não tinha tamanho. E tenho para mim que os meus colegas e o meu chefe da altura passaram a respeitar-me mais por ter mostrado tanta determinação e tanto amor pelos meus filhos.


Outra vez foi com a minha filha. Estava numa reunião de um grupo de trabalho do qual fazia parte, estávamos a preparar uma apresentação para o dia seguinte. Naquela altura as apresentações eram feitas em acetatos que se projectavam com auxílio do que hoje será obra de museu e que creio que dava pelo nome de retroprojector. Uma trabalheira. E tínhamos que acabar cálculos para passarmos as conclusões para os acetatos. E nisto ligam-me da creche a dizer que a minha filha tinha estado com um pouco de falta de ar e que, por precaução, a tinham levado ao hospital mas que parecia não ser nada de muito grave. Foi como se me tivessem tirado o chão, como se me tivessem tirado também a mim o ar, como se o céu estivesse prestes a cair-me sobre a cabeça. Fiquei aterrorizada, impotente. Na altura, andava de transportes públicos e chegar ao hospital parecia-me uma eternidade. Em tal estado de aflição me devem ter visto, certamente quase sem conseguir falar, que o meu chefe da altura me disse apenas: vai buscar as tuas coisas que eu levo-te lá. E foi a abrir, num ápice, eu em lágrimas, numa ansiedade -- como se o recado tivesse sido o oposto. Para mim era como se ela estivesse em risco de vida. Não encontro explicação para a irracionalidade que se apodera de mim em situações assim. Quando lá chegámos, ele disse que ficava à espera mas eu quis que ele se fosse embora pois sentia que era responsabilidade minha, que não podia dividir com ninguém. Voei dentro do hospital até dar com ela. Estava sentada, bem. Tinham-lhe feito um aerossol ligeiro e tinha ficado bem. Levei-a para casa mas num tal estado de medo que me lembro que passei o resto do dia a encostar o ouvido às costas dela a tentar detectar alguma pieira ou sinal de alarme. Quando penso nisto, ocorre-me que, na altura, ainda nem trinta anos tinha. Ontem ela e a sobrinha estiveram a ver fotografias e eu era tão novinha. Nesse dia, eu tinha vinte e tal anos e, para mim, apesar de ser muito responsável no trabalho, não havia acetatos, apresentações ou o que fosse que me prendessem perante a perspectiva de a minha filha não estar bem e eu não estar junto a ela.


E, mais recentemente -- embora já há uns sete ou oito anos --, o meu genro ligou-me um dia a dizer que o mais velho estava com um bocado de falta de ar e que tinham ido ao hospital e que, por prudência, lá ia ficar. Foi como se tivesse sido atingida por uma bala. Parece que, em momentos assim, se me esvaem as forças, parece que me fica a doer o peito, o ventre, tudo. Voei para o hospital. Uma preocupação imensa por ele, por imaginar o susto da minha filha, por tudo.

E podia dar mais exemplos. Apesar de achar que uma pessoa, em situações normais, não deve abdicar da sua profissão ou da sua ambição por fazer aquilo de que gosta por causa dos filhos, devendo, antes, esforçar-se por conciliar os dois mundos -- até porque os filhos crescem e a nossa disponibilidade passa a ser outra (e até porque não devemos nunca dar motivo para que os filhos fiquem a achar que nos devem alguma coisa, nomeadamente por nos termos sacrificado por eles) -- a verdade é que, para mim, sempre esteve muito claro que os filhos e a família vêm em inquestionável primeiro lugar.


Por isso, hoje, apesar de um certo transtorno e desconforto, foi com o coração quentinho que estive a ver o meu menino crescido, tão lindo, tão querido, a dar pontapés na bola tão fortes, tão certeiros, e tão contente por nos ter lá.

E claro que levei um lanchinho. Quando me despedi dele, no carro, ele, molhado e enregelado, coitado, disse-me: 'Obrigado pelo apoio... e pelo lanche...' e eu só me apeteceu enchê-lo de abraços e beijinhos.

E pronto, uma vez mais não ouvi notícias, não sei do que se passa no mundo a não ser alguns temas que não me dão muita vontade de falar neles -- como, por exemplo, que Bill Gates já ultrapassou o Bezos e que já é outra vez o homem mais rico do mundo mas os números são de tal ordem que me parece haver qualquer coisa de muito indecoroso em tudo isto; ou que Veneza está desgraçadamente submersa há tempo demais, de uma forma quase catastrófica, mas acho tudo tão assustador que mal consigo falar nisso -- e, tirando isso ou coisas pouco inspiradoras relacionadas com o Trump ou com o Boris, não tenho muito assunto. Só mesmo isto. Enquanto, na maior paz, ouço os sons do silêncio e escrevo isto que estão a ler.


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As fotografias foram feitas este domingo rente ao Tejo

Lá em cima, são Simon & Garfunkel a interpretarem The Sound of Silence
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A todos desejo uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

quinta-feira, outubro 24, 2019

O meu avô. A vida simples.
[E Li Ziqi que mostra como se comem as castanhas chinesas, como se fazem candeeiros e cestos, etc.]





O meu avô, que viveu uma vida longa, teve uma infância difícil. Contudo, isto sou eu a dizer porque a ele nunca ouvi um queixume nem o meu pai ou a minha avó alguma vez o referiram. Já o contei. De família abastada, o meu bisavô cedo se perdeu em mulheres e jogo, perdendo casas, terras, animais e, quando nada mais restava que a casa onde vivia com a mulher e três filhos pequenos, creio que para escapar a dívidas e vexames, fugiu para longe e, esqueci-me e ainda não me lembrei de perguntar á minha mãe, foi para a Argentina ou para a Venezuela. Não faço ideia o que aconteceu a seguir. Só sei que, ainda adolescente, o meu avô se fez à estrada e começou a trabalhar onde calhava. Presumo que se deslocasse a pé. Ou, então, de bicicleta. Andou de bicicleta até aos oitenta e muitos anos. O meu pai e o meu tio tinham medo, diziam que ele já não ouvia bem, que já não tinha idade para andar de bicicleta. Ele fingia que não ouvia, e continuava a fazer o que queria. Lembro-me dele com a cana de pesca em diagonal nas costas e a cesta para o peixe presa atrás.


Trabalhou em França e eu gostava imenso de o ouvir a falar em francês. Depois, não sei como, foi parar onde se fixou. Ali trabalhou até se reformar, vivendo perto. A casa tinha um terreno ao lado, onde tinha árvores de fruto e uma horta. Depois o terreno subia em socalcos onde ele, em pequenos talhões, plantava alhos, cebolas, favas, batatas. O terreno ia até lá muito acima. Acedia-se aos níveis superiores por caminhos, degraus, caminhos, degraus. Cá em baixo, tinha ainda uma capoeira grande; mas isso era pelouro da minha avó.

Lembro-me do meu avô sempre ocupado. Sempre que possível, ia à pesca e vinha carregado de peixes que eu pedia sempre para arranjar, as mãos mergulhadas nas vísceras, os dedos nas guelras puxando as tripas que vinham agarradas, ensanguentadas. E a minha avó sempre com medo que tivesse ficado um anzol na goela e eu ficasse presa. 


Ou, então, tratava da horta ou apanhava fruta. E a minha avó sempre a zangar-se por ele não limpar bem os pés no tapete que havia à porta da cozinha e levar terra agarrada aos sapatos. E ele a fingir que não ouvia. Mas nas mãos dele tudo passava por cuidados que me maravilhavam. Ele apanhava as cebolas e os alhos com a rama e entrançava-as, fazendo réstias que pendurava naquilo a que chamávamos 'a casinha'. Também o tomate. Havia tomate maduro todo o ano pois não se estragavam. A casinha tinha pouca luz. Talvez fosse por isso. Não sei. Quando alguma galinha ficava choca, era também nessa casinha, não tão pequena quanto isso, que se deitava a galinha, numa cama que lhe faziam, onde estavam os ovos. Por isso, era aí que nasciam os pintainhos. 

No quintal, havia ainda a casinha das ferramentas e a bancada onde estava um torno. Contudo, penso que o que ele aí fazia tinha sempre a ver ou com fazer um portão de madeira, ou uma escada para ir à fruta, ou um banco de madeira para a capoeira. Coisas assim, simples.


E tinha uma arte. E essa arte fascinava-me. Dos seus tempos de criança tinha-lhe ficado a lembrança da cestaria. Devia evocar a lembrança das pessoas da terra e, aos poucos, foi tentando reproduzir os movimentos e cada vez fazia melhor. Creio que ele falava em palma. Creio. Eram folhas estreitas e finas que ele abria ou dobrava. Tenho ideia que umas vezes fazia com as folhas secas e outras com elas ainda frescas. Fazia cestos para guardar os ovos, cestos para a fruta. Não eram muito perfeitas e, portanto, não se usavam como objecto decorativo. Mas eu gostava tanto. Gostava em especial quando ele os fazia com asas de lado ou uma única, ao alto, grande, a meio. Tenho ideia que uma vez pensei que queria ficar com uma recordação e quis uma dessas cestinhas. Mas com as mudanças de casa, com o tempo a passar, às tantas, perdi o rasto a uma que tinha. Não sei como foi possível. Ficou apenas a terna recordação.


Eu olhava para aquele avô com um grande fascínio. Como viveu até tarde, lembro-me especialmente dele quando reformado. Depois de almoço, sentava-se no cadeirão de madeira que agora tenho lá em casa, in heaven, ligava a televisão ou o rádio, pegava num jornal ou num livro, lia, e, por vezes, dormitava. Tirando isso, andava sempre ocupado. Nunca se zangava, nunca protestava. Por ele estava sempre tudo bem. A minha avó queixava-se do reumático ou das artroses, queixava-se dos filhos, queixava-se da outra nora que a afastava do filho, queixava-se de uma ou outra vizinha, queixava-se de ele trazer muito peixe e de ela já não ter paciência para o arranjar, queixava-se de ele ser pouco cuidadoso com o quintal, com o jardim e com as flores. Ele fazia de conta que não ouvia e, à socapa, sorria para mim. 


Sempre tive uma grande cumplicidade com ele. Quando deixei um namorado, ela preocupou-se e, quando apareci logo com outro, preocupou-se ainda mais. E quando aos vinte lhe disse que ia casar ainda mais preocupada ela ficou. Ele não. Ele não dizia nada, apenas sorria, deixava-a fazer os dramas. Não era bem dramas, era mais como se fosse uma agonia que ela tentasse disfarçar sem o conseguir. Nesse dia em que, em casa dos meus pais, eu lhes disse que dentro de um mês ia estar casada e que ela ficou arrasada ele ficou como se nada se passasse. Apenas veio ao pé de nós, de mim e do meu namorado, e disse: ela casou-se aos dezoito e ao fim de pouco tempo, já o teu pai tinha nascido e, pouco depois, o teu tio. Eu tinha vinte e cinco mas ela tinha dezoito. Por isso, aos vinte parece-me uma boa idade. 

Isto do lado desse meu avô.
Esqueci-me de referir um aspecto que talvez explique muitas coisas. Ele tinha umas feições levemente orientais que o filho mais novo herdou e de que uma das minhas primas ainda é portadora. Penso que talvez por isso tivesse aquela paciência de chinês.
Do lado da minha avó do lado da minha mãe era também sempre uma actividade mas aí uma coisa mais restrita: era renda. Fazia rendas lindas. Colchas, toalhas de mesa, rendas para lençóis, entremeios de mesa. Nunca estava sem nada que fazer e era altamente produtiva. Tenho várias coisas feitas por ela. 'Tirava' por amostras, 'tirava' por revistas, 'tirava' por onde calhasse. Eu adorava ver a destreza daquelas mãos.


Talvez por isso, quer a minha mãe, quer o meu pai sempre foram muito activos, sempre ocupados, muito habilidosos. Com o que calhasse. Contudo, lembro-me especialmente dessa actividade e criatividade depois de reformados pois antes a vida profissional ocupava-os bastante. 

E, talvez também por isso, eu seja como sou, incapaz de estar sem nada que fazer. Contudo, vejo-me limitada. Limitada, desde logo, em tempo. E, talvez tão importante como a falta de tempo, é o sentir-me limitada pelo preconceito de recear não saber fazer. O receio contraria a confiança e para se fazer o que se quer é preciso ser-se afoito. E para se ser afoito é precisa ignorância. Ora, se a gente se põe a pensar muito, estraga a ignorância, perde a afoiteza e lá se vão os sonhos.

Mas, senhores, que vontade sempre tenho de fazer coisas. Pintar, fazer tapetes, fotografar (como estas fotografias que fiz no outro dia in heaven), cozinhar, varrer, escrever. E outras coisas. Tantas outras coisas.


. . .   &   . . .

Já aqui mostrei muitas vezes aqueles vídeos que, para mim, são uma fonte de tranquilidade. Os movimentos serenos da jovem Li Ziqi, os seus passeios pelos bosques, a forma harmoniosa como se move, os gestos ancestrais no manuseio de frutos, de flores, o fogo, os preparados que faz, a comida que confecciona, as peças que talha. Tudo me faz ficar presa a olhar. Mesmo que não perceba o que faz, mesmo que não saiba que produtos usa. Mesmo assim eu fico a olhar. Penso que era uma vida assim que eu gostava de ter. Uma vida simples, sem tempo, sem pressa, sem ruído, embalada pelo canto dos pássaros. 

Fazer coisas bonitas para a casa.

(E foi por vê-la a fazer cestas que me lembrei tanto do meu avô)



Os frutos secos do Outono



Mas quem é Li Ziqui que tem milhões de seguidores?


Desejo-vos uma quinta-feira tranquila e boa

segunda-feira, outubro 21, 2019

Uma cúpula celeste virada para vir beijar este meu pedaço de terra, aqui in heaven





Estava dincerto, o céu ora claro, ora escuro, de vez em quanto gotas pesadas, aragem sempre fresca. Andei a esquivar-me para não me molhar muito, a olhar o céu, a distinguir os verdes, a ouvir os pássaros, a espreitar as novidades -- as tocas, as florzinhas despontando, os ramos que precisam de ser cortados.

Quando vi o céu por entre as copas dos cedros pensei que era a abóbada celeste virada ao contrário porque o heaven desceu a este meu bocado de terra. A cúpula celeste de uma catedral feita de árvores perfumadas. Pensei: esta é a minha igreja, esta é a minha religião.

É que aqui eu sinto este sentimento indefinido que poderia ser pura religiosidade mas que pode ter qualquer outro nome e que se traduz na adoração da natureza, em devoção, em agradecimento pela felicidade que sinto e que sei que vem de dentro da terra. É como se me sentisse tocada pela bênção de estar aqui, de presenciar estas pequenas coisas que me encantam, pequenos milagres. 

Não. Não pequenos. Grandes. Verdadeiros milagres.

E depois é o céu que se transmuta. As cores já são outras, a serra escura, recortada, um corpo imenso, um deus que se aquieta para ditar o silêncio, para garantir que os pássaros que se calam. E nem, de longe, chega o som de um cão que ladre lá do lado da serra nem um sino de uma qualquer de uma das aldeias do longo vale. 

Tudo tão bonito, tão tranquilo, um enlevo para a alma.


domingo, outubro 20, 2019

Uma vida inteira





Pois eu não é tanto se é de língua portuguesa nativa, se é isto, aquilo ou o outro. O feeling, em mim, começa pelo outside. Sou de amores à primeira vista. A intuição em mim é mesmo um shortcut. Se vejo uma capa discreta, se o bom gosto me parece suave, se folheio e me parece que a paginação é equilibrada, se me parece que a prosa flui sem atrapalhação nem floreado, se o tema tem a ver com coisas simples, se, em rápida amostragem, não encontro palavras que me desagradem, pois logo sinto aquela atração pela qual me perco.

E talvez nem tenha usado as melhores palavras pois agora reli o que escrevi e parecem-me motivos fúteis. O que são palavras que não me desagradam? Dito dessa forma nem eu sei responder. Sim, de facto, pensando bem, o que são palavras que não me agradam? Talvez sejam palavras deselegantes, quer pela leviandade da utilização quer pelo exibicionismo dispensável. Talvez. Também não saberia explicar o que são coisas simples pois sei que ao explicar complicaria a ideia.


O que sei é que 'Uma vida inteira' de Robert Seethaler, autor de que nunca antes ouvira falar, me pareceu um livro bom. Capa em cores simples, fotografia antiga, o título numa outra cor, em relevo, bom ao tacto, a lombada na cor do título. Reparo nestas coisas. Ainda fui espreitar quem era o tradutor. Desejei que fosse o Pedro Tamen. Traduções dele garantem a qualidade do livro.
Tenho medo do que um mau tradutor possa fazer a uma boa obra. Tradutores muito tecnicistas que não intuam a musicalidade que o autor tinha na cabeça quando escreveu ou que não adivinhem o sentido implícito e o transponham de forma directa destruindo o rio de ideias que corria por debaixo do texto são como uma máquina de rasto: destroem a beleza e intenção de um autor. 
Por isso, não sendo o Pedro Tamen ou outro tradutor que eu conheça, tento sempre medir o pulso ao texto a ver se me soa bem. A tradutora deste livro é Tânia Ganho e, se na altura nada me incomodou, agora que li o livro, não sei se num ou noutro caso não poderia ter procurado palavra mais em harmonia com o espírito do texto -- mas, globalmente, está aprovada, bem aprovada.


E Robert Seethaler aprovadíssimo. Para que se perceba: comecei a ler o livro a meio da tarde e já o li todo.

E só a meio da tarde porque.

No carro, à vinda, estive a ler um compêndio, temas cá muito meus, preocupações minhas, matérias que quero conhecer melhor, coisas do trabalho. E até comentei: ao contrário deste tipo de cenas em que metade do que ali está é déjà-vu, lugares comuns, tentativas de fazer tendência, banalidades, inutilidades -- o que me permite despachar muitas páginas num ápice e chegar ao fim sem ter perdido nada -- aqui é o oposto. É um compacto de cento e tal páginas, páginas densas e grandes, provavelmente A4, em letra miúda e em que cada palavra importa. Tudo relevante, tudo novo, tudo útil. Por isso, cheguei a casa com o compêndio quase todo por ler porque não consegui diagonalizar nem apressar um bocadinho que fosse. Pelo contrário, de vez em quando, parava, lia em voz alta, relia parágrafos transactos. Tão raro. E que se me perdoe o pleonasmo mas a boa qualidade é uma coisa tão boa.


Depois, uma vez chegada, fui caminhar pelo campo, fotografar, encantar-me com a beleza de tudo, a luz através das folhas, as cores douradas e rubras, o musgo já a nascer, muito verdinho, muito macio, tudo muito bonito, a terra ainda molhada, os pássaros a saltitar e a voar de árvore em árvore, a cantarem. Falam na língua deles, não vão em modas, não há buzzwords, não há floreados, não há subentendidos desnecessários, não são precisos tradutores ou traidores pelo meio. São eles, a sua joie de vivre, as árvores, a chuva, o sol, o ar puro e a emoção de quem os ouve -- sem nada de permeio.

Fotografei, feliz. De cada vez que passam uns dias sem que aqui esteja regresso cheia de saudades, vejo tudo pela primeira vez, há esta descoberta inaugural que me comove, a vida sem disfarces, em toda a sua infinita e renovável pureza.


Depois, voltei a casa, peguei no compêndio e, claro, precisada de recarregar baterias como sempre acontece quando chega o fim da semana, adormeci. Poucos minutos tinham decorrido quando a minha filha me enviou uma mensagem. Os meninos estavam no museu e ela, que sabe como gosto de me sentir próxima, enviou-me várias fotografias deles por lá a experimentarem tudo o que podiam. Como a troca de mensagens se prolongou, percebi que não seria possível retomar a sesta. Por isso, fui buscar o livro.

Tirando um pequeno intervalo para um jantar ligeiro e os telefonemas à família, foi de penalti. Tal como quando li os livros do Paolo Gognetti, também aqui me deixei prender com o desenrolar das descrições de uma vida simples. 'A vida inteira' também fala das mudanças das estações, da primavera e da neve, das grandes árvores, de um homem que não precisa de muito, que se senta a contemplar os vales e as montanhas ao longe, que fala pouco, que se apaixonou uma única vez mas se apaixonou muito, uma paixão daquelas que acontecem uma vez na vida, e que vive sem pedir muito em troca.

Sendo um livro assim -- sem truques, sem suspense, sem traições, sem crimes ou cenas tórridas, sem nada nunca visto -- a verdade é que não consegui parar de ler. Sendo um livro assim, dei por mim a ter que desviar os olhos para parar de ler, com lágrimas nos olhos. E, no entanto, o que tinha acontecido para assim me emocionar foi dito numa pequena frase. E o que tinha acontecido não foi nada de especial. Uma pequena frase que apareceu de súbito. Sem adjectivação, sem aparato. Uma frase pequena e simples. E o texto prosseguiu como se nada fosse. Mas a dimensão da emoção que ali estava chegou até mim de uma forma intensa. Penso que seja a isto que se chama literatura.


Ou seja, li o livro todo e fiquei com pena que tivesse acabado. Uma escrita escorreita, sem artifícios, elegante na sua simplicidade, sensível apesar da rudeza da vida do personagem, apesar da sua introversão, apesar de não ser dado a pensamentos profundos. Não sei como se faz um livro assim mas sei que, cada vez mais, é de livros assim que eu mais gosto.

E a seguir apeteceu-me deixar-me ficar a ver televisão, a olhar para ontem, a curtir a sensação que me ficou, a deixar que a leitura assentasse. Só pensava: tão bom.

E agora aqui estou. Como sempre, mesmo quando o dia é tranquilo, arranjo maneira de ficar a escrever até às tantas da noite.


Ah, é verdade. Só mais uma coisa. Deixem que vos mostre.

Quando estava a andar no campo, aqui in heaven, uma aragem fria, a echarpe que me protegia o colo esvoaçou e eu achei o movimento gracioso e fotografei-a em plena ondulação.  Mas como a fotografia não ficou nítida, debrucei-me sobre o alecrim e pousei-a para a fotografar em sossego. A fotografia que aqui vêem acima.

Comprei esta echarpe aos vendedores de Lagos, terra que tenho junto ao coração, naquelas barraquinhas junto ao braço de mar que vai até à marina. Gostei da cor, do tecido, das florzinhas, da harmonia do conjunto. Distraída como sou não reparei nem nas flores em si, nem nos dizeres, só mesmo nessa harmonia. Já a usei alguns dias desta semana, ao fim do dia quando fui caminhar, e hoje todo o dia. Tinha-a hoje, de manhã, quando estive em casa da minha mãe e lembro-me que estive a brincar com ela, a enrolá-la em volta das mãos, a sentir a macieza do tecido. Mas só quando a fotografei reparei que tem as flores aqui do campo: alfazema, orégãos, rosmaninho, tomilho. E até tem esses nomes escritos.  E eu, com ela em volta do meu pescoço, e não tinha reparado.

Quantas mais coisas, junto a mim, eu não vejo? Devem ser quase todas. E, no entanto, que bom ter tantas coisas para descobrir. Que contente fiquei ao ver que a echarpe tem desenhadas as florzinhas do campo de que eu tanto gosto. Há tantas pequenas coisas que me deixam contente. Se calhar pode dizer-se que sou uma pessoa fácil de contentar. Ou, mais simplesmente, uma pessoa fácil. Ou simples. Uma pessoa simples.

Acho que sim, acho que é isso. E, se não for, olha, paciência.


Desejo-vos um belo dia de domingo. 
Be happy.

terça-feira, outubro 08, 2019

E, no fim, um milagre







Há pouco os meninos ligaram-me. O bebé informou-me: 'Comi arroz dôche'. Confirmei: 'Arroz doce? Comeste?' E ele: 'Todo!'. Ouvi a mãe a rir. Depois as vozes dos irmãos sobrepuseram-se e já não ouvi bem mas pareceu-me perceber que foi a avó que levou. Deve ter sido. Faz um arroz doce delicioso. Quando há festa, acho que toda a gente já vai a lamber-se só de pensar naquele tabuleiro de arroz-doce. Depois continuou, querendo saber: 'Onde 'tás?'. Respondi: 'Na sala'. Quis saber mais: 'Onde...?'. Esclareci: 'Na sala da televisão, aquela onde estão as mesinhas com que costumas brincar'. Ligeira pausa. E depois: 'Não tás no tânjito?'. Foi a minha vez de processar e, depois, confirmar que tinha percebido bem. 'No trânsito?' e ele 'Xim, não tás no tânjito?'. Desatei a rir. 'Não, hoje não, hoje já estou em casa, estou na sala'. Presumo que tenha sido porque na sexta-feira, quando nos disseram para jantarmos com eles, eu disse que estava no trânsito, presa, sem fazer ideia de quando poderia lá chegar. Não sei se ele sabe o que é o tânjito. Na volta, sabe. Pergunta tudo, sabe tudo.

Mas esta do trânsito por acaso é daquelas que me consome. Sempre no trânsito, todos os dias no trânsito. Os anos de vida que tenho perdido presa no trânsito...

Mas hoje o dia até não foi dos piores mas, de qualquer maneira, é sempre um somatório de momentos por vezes paradoxais, por vezes incómodos. Outras vezes simpáticos.


De tarde, estava um sol bom, a cidade dourada, um céu protector, limpo de sombras. Ponho de lado a apreensão pelo calor deslocado no tempo, pela ausência de chuva, tento pensar que sou mera espectadora de um filme que me é distante. Olhando de dentro, a rua parecia o cenário de um filme tranquilo. E eu pensei que poderia desligar das minhas preocupações -- que, na maioria, seriam escusadas já que são causadas por quem rema em sentido contrário -- e usar o computador para me pôr a inventar histórias ou, simplesmente, a escrever coisas de nada. Mas não, tenho que desviar o olhar e esquecer o apelo que me chega da rua.


Por um momento ainda pensei que talvez pudesse conciliar: ver a apresentação que me enviaram, responder a mails, atender chamadas, despachar umas autorizações e, ao mesmo tempo, ter um documento de word aberto onde, nos intervalos, fosse escrever coisas minhas. Mas, mal pensei nisso, entrou um e sentou-se à minha mesa de reuniões e, sem mais nem ontem, começou a falar e, mal saíu, veio outro perguntar se podia entrar pois tinha um problema para partilhar comigo. E sei lá que mais. Só sei que cheguei ao fim do dia com a folha em branco. Mas também não daria. Não consigo escrever com algum desprendimento de mim se souber que posso ser solicitada no minuto seguinte. Penso que é por isso que me habituei a escrever apenas quando não há movimento de monta à minha volta. Preciso de me sentir alheada.


Agora estou aqui na minha sala e também não estou desligada pois dói-me um joelho. Neste domingo, antes de irmos votar, fomos ter com os outros meninos ao parque. Um lugar idílico onde sabe muito bem estar. Enquanto vou caminhando devagar e conversando com a minha filha, os meninos vão fazendo exercícios nas barras e noutros aparelhos que estão ao longo do caminho. E até aí tudo bem. Só que também me apeteceu fazer exercícios. Não apenas andei a fazer equilibrismo em barras paralelas, várias barras cada uma mais alta que a anterior, como pedalei nas máquinas de pedalar, fiz ginástica às pernas, daquelas em que se faz muita força para as conseguir abrir e fechar, fiz aos braços e aos ombros, baixando e levantando umas alavancas e outra parecida mas com as pernas. Tenho ideia que ouvi a minha filha a dizer ao pai: 'Ai... Amanhã não vai conseguir mexer-se...'. Como é óbvio, não liguei. Tudo o que fiz, fiz sem esforço. Muito menos dor. Nada. Até acelerei nos movimentos. Gosto de fazer exercício e, se ao ar livre, ainda melhor. E tudo tranquilo. Só que, vinte a quatro horas depois, comecei a sentir um certo incómodo num dos joelhos. E agora dói-me mesmo. Já estive a pôr pomada e pode ser que passe mas, quando o joelho dá sinal, eu fico sempre com medo pois já passei por aflições, com ele inchado e eu toda coxa. Isto é o que dá uma pessoa passar os dias no escritório ou no carro e, de exercício, apenas fazer uma simples caminhada diária de uma escassa meia hora. 


E é assim que, vindo eu hoje para casa a ouvir uma bela música na Antena 2, a ver um céu limpo e uma luz dourada sobre o belo casario de Lisboa, desejando chegar a esta minha sala e estar sossegada, longe dos problemas do dia, a ler outros blogs, a escrever palavras também serenas, estou é a falar do meu joelho burguês e sedentário.

E tudo isto, na volta, é mas é para não falar no que interessa. E isto de eu dizer que é o que interessa também é relativo. Aliás, sendo tudo relativo, algumas coisas são mais e outras menos relativas. E esta é daquelas que é coisa nenhuma, é rêverie, é loucura, é tudo.

Mas vou directa ao assunto: estava eu a passear in heaven, descobrindo cada coisa como se nascida no nada, tudo coisa nova, tudo razão para encantamento, tudo milagre. Os meus muros cheios de cor, as árvores que plantei e que estão gigantes como palácios, como castelos, como fortalezas, a glicínia dourada entrelaçada nas ramagens da azinheira que chega ao céu. Os cãezinhos pequeninos que vêm de lá do fundo, da casa do outro lado da rua, e se põem a olhar para mim, muito intrigados.

Fotografei tudo.

E então, neste estado de maravilhado apaziguamento, olhei para o céu e vi. Um milagre. Vi.


A pluma azul tinha derramado a cor sobre a página em branco e agora todo o fundo estava azul. E a pluma estava nua, em toda a sua alvura, em toda a sua pureza. E eu pensei que daquela pluma as palavras haverão de nascer ainda mais límpidas, plenas de luz, inocentes na sua infinita transparência. E eu pensei que só podia ser milagre.

E fotografei para que também possam testemunhar o que os meus olhos incrédulos viram.

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Desejo-lhe um dia feliz