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quarta-feira, julho 08, 2020

A inocência, os mamilos, a secreta razão





O tema de hoje, embora desprovido de propósito ou coerência, vai ser vasto e é múltiplo. Felizmente não são horas para homilias. É tempo é de silêncio. Portanto, se estiverem de acordo, em silêncio aguarde-se que a Empty Note acabe. Só então se deverá despir a blusa, quiçá tudo o resto e, cautelosamente, avançar para o que se segue.


Como se define inocência? Seduzir apenas for the fun of it? Brincar ao 'agarra lá a ver se eu deixo'? Ou, antes, o não ter noção dos danos que se podem causar com um ingénuo menear de ancas, um olhar sem querer, um sorriso de nada, uma palavra deixada cair ao de leve?

Não sei. Só sei que é bom ser inocente. Não ser por mal, não poder adivinhar as consequências, não ter nada a ver com isso, não ter maldade. É bom a gente não ser responsável pela perdição em que alguns descuidados caem. Um inocente tem sempre uma alma com não mais de quatro anos. Acima dos quatro anos já começa a haver malícia, consciência das coisas.

Não há, portanto, nada de mais perigoso do que uma mulher cuja alma não tem mais que quatro anos.

Nos homens não é bem assim. São inocentes toda a vida. São inocentes mesmo quando julgam que não são. Pensam que têm artes e malícias mas não, têm é muitas inocências. Têm é piada. O que, convenhamos, já não é mau.



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E depois há aqueles temas que se prestam ao diz-que-diz-que com subentendidos na voz, com curiosidades secretas, suposições inverbalizadas. Há gente que gosta de dizer coisas e que, nestas circunstâncias, fala em 'mitos urbanos'. A mim irritam-me os 'mitos urbanos'. Eu que tenho séculos de existência prefiro a palavra tabu. Tabu é conceito escorreito, palavra simples e foneticamente muito primária como, cá para mim, convém a tema assim.

Falo de um daqueles temas que é como se contivesse pecado. What's in a name? Diz-se 'mamilo' e logo há quem fique à espreita: rosado, pequenino, um inocente convite? escuro, impúdico? grande, indecoroso? pequenino, coisa de eterna lolita? E o que pode fazer com ele? Contemplar? Imaginar? Desejar? Não descansar enquanto não o tocar? Com a mão? Com a língua? Venha o primeiro descarado e atire um palpite.

Mas que digo eu? Em que mamilos estou eu a pensar? Nos meus? Nos de qualquer outra mulher? Ou nos mamilos dos homens, mamilos inocentes, disponíveis, oferecidos, sem mistério? Que promessas encerra o mamilo de um homem? Penso que nenhuma. Mamilo de homem é raspadinha já raspada, a gente olha e já viu tudo. E, mesmo sem ver, a gente já viu. Agora o das mulheres...

E, mesmo os das mulheres que foram operadas, podem desaparecer que não desaparece a sua memória e, se forem reconstruídos, renascerão ainda mais arrojados, mais belos, mais prometedores.

Mas atenção, mamilo é tema e petit morceau para gente fina, para connaisseur. Não pense que é o primeiro lambão que já pode sair por aí a fingir que sabe do que fala. Não, lambão não sonha sequer o que é, nunca chegou nem perto de jóia tão cheia de requinte.


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E depois há o resto: a graça, o impulso, o que nos leva lá, o que nos chama, o que existe sem a gente saber porquê. Dir-se-á que é a beleza. Qual quê? A pluma, a cor, o canto, a dança, o odor da hormona? Também. Mas, apesar disso, não sei, não. Penso que é outra coisa. Coisa invisível. É tão forte que atravessa mundos, é tão forte que ainda não há, nem nunca haverá, expressões que o exprimam através da matemática. É que o que não se pode transformar em equação não existe. E isto de que falo não existe. Está para além disso.

Não tem a ver com a perfeição, com a ausência de ruga, com a pele lisa, com a carnadura no lugar, com a glúteo a espreitar, com o mamilo a arrebitar, com o olhar a desafiar, com a palavra a convidar. Não tem a ver. Encerra saudade, encerra vontade de abraçar, encerra vontade de imaginar infinitudes, encerra vontade de descobrir descrição ou razão. Mas não é só isso. Talvez também empatias inexplicáveis, atracções irresistíveis, jogo de espelhos, mãos que se estendem mas só em pensamento. Vontade de comer. De devorar.

E que se disfarçam de brincadeiras, de desencontros. Inocentes. Imateriais. Inexistentes.

(E solte-se aqui, se faz favor, um conveniente risinho malandro)


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E mais nada. Ainda hei-de falar de uma árvore magnífica que o homem da biblioteca secreta plantou. Mas isso só mais tarde, agora ainda não. Até porque ainda não descobri o nome dela.

As fotografias são, de novo, de Eylül Aslan e provavelmente estão aqui por conta delas, não por mim, não pelo texto. Ou, então, a mom seul désir.

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E eu gostava de saber que está tudo bem convosco.
E desejo-vos saúde, boa disposição.

terça-feira, julho 07, 2020

Uma certa biblioteca secreta





Nesta fase da minha vida em que tudo muda, é como se estivesse a começar de novo. Ou seja, estou como peixe na água. Gosto de recomeços. Quando estou nesta, pouco ou nada me prende ao que era. Pelo contrário, quanto mais depressa despir toda a pele que ainda me prende à minha vida anterior melhor.

Hoje ao fim do dia, tive que ir a um sítio para escolher uma coisa. Mas, mal lá chegada, quando me preparava para ir tratar do que lá me tinha levado, uma pessoa chamou-me para me mostrar uma coisa. Fui. Pensava que era coisa rápida. Afinal foi demorado. Ia mostrar-me umas coisas simples. Afinal, de uma coisa, veio outra e, de outra, veio outra. Sempre mais coisas para me serem mostradas. E, às tantas, chegámos a uma sala e ali havia muita coisa para ver. E, estava eu a ver uma estante, diz-me: não está ver o que é esta estante? E eu: não. Então, a estante rodou e descobriu-se uma porta. Fui atrás. Máquinas. Não percebi que máquinas eram aquelas. De outro lado, caixas, arcas, coisas indistintas. Então, quando pensava que não havia nada mais a ver, dizem-me: e aqui atrás há isto. Espreitei.

Não queria acreditar: uma sala cheia de estantes e livros, livros, revistas. Explicou-me: uma biblioteca privada. Mas privada em todos os sentidos da palavra. Secreta, oculta, quase como se não existisse. Olhei em volta, perplexa. Estantes a toda a volta e, se não estou em erro, também ao meio, Se eu pudesse ter uma biblioteca assim, a library of my own, secreta, vasta, sigilosa, um espaço quase infinito... Fiquei sem dizer nada. Nunca poderia ter imaginado tal.
Quando saí daquele labirinto, já as pessoas com quem tinha ido encontrar-me se tinham ido embora, certamente cansadas de esperar por mim. O tempo tinha passado sem que eu tivesse dado por ele e sem que eu tivesse conseguido interromper quem tinha estado a conduzir-me naquela inesperada visita guiada.


O tempo não anda a ser-me suficiente para me entregar à absoluta descoberta de uma vida nova que se desdobra a toda a hora à minha frente até porque tenho que conciliá-la com o lado prático da minha actividade quotidiana mas, apesar disso, o que posso dizer é que, para mim, o mais estimulante são estes momentos em que passam por mim estas vibrações prenhas de expectativa e descoberta.

Há algum tempo, naquele longínquo tempo pré-covid, estava eu a almoçar, acompanhada, quando ouvi uma voz conhecida a exclamar: 'Olha quem ela é,,,!'. E já lá vinha ela de braços abertos e eu levantei-me e abraçámo-nos e demos o beijinho que, em tempos, as pessoas trocavam quando se encontravam. E logo ali, de pé, pusemos a conversa em dia. Quis que ela se sentasse e almoçasse connosco mas não, estava atrasada, ia ter com outra pessoa, já estava nas horas. Perguntei-lhe como estava a dar-se nessa sua nova vida. Sorrindo, transbordante de entusiasmo, disse: 'Bem! Óptima! Se eu soubesse que ia ser assim, há que tempos que tinha mudado'. Adorei ouvir, era bem ela, sempre pronta para ser a eterna adolescente que conheço há anos. Provavelmente sou também um pouco assim. Não fazer as coisas pela metade, não negar a experiência que se faz convidada, ousar, ir em frente.

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Uma vez mais, fotografias que nada têm a ver com o texto (ou será que têm?) da autoria de Eylül Aslan e que, cá para mim, se forem como eu, curvam-se perante Ennio Morricone que, pela milionésima vez, aqui nos traz o Oboé de Gabriel. 
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Talvez um dia destes regresse ao mundo dito real e fale da notícia do dia: o que o super-judge Alex -- o implacável justiceiro que parece odiar visceralmente quem tem dinheiro ou poder -- fez agora ao Mexia (o da EDP) e ao Manso Neto. Todo um filme. Uma opera bufa. Uma soap. Mas terá que ser num dia de muito estômago. 

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E boa sorte e muita saúde e alegria para si que aí está desse lado.

segunda-feira, julho 06, 2020

Quando temos um martelo na mão, tudo nos parece um prego.
É isso e a Bíblia ser maioritariamente um desfiar de fake news.
E outras coisas que Harari dixit





A democracia baseia-se na ideia de que o eleitor é que sabe, o capitalismo de mercado livre acredita que o cliente tem sempre razão, e o sistema educativo liberal ensina os alunos a pensarem pela própria cabeça. No entanto é um erro depositar tanta confiança no indivíduo racional, 

Os economistas comportamentais e os psicólogos evolucionários têm provado que a maioria das decisões humanas se baseia em reacções emocionais e e atalhos heurísticos em vez de análises racionais, e que, embora as nossas emoções e heurísticas tenham sido adequadas à vida na idade da Pedra, infelizmente são desadequadas à Idade do Chip. 

Não só a racionalidade como a individualidade são um mito. Os seres humanos raramente pensam pela própria cabeça. Pensamos em grupo. 

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O poder em grande quantidade distorce a verdade inevitavelmente, O poder prende-se com a mudança da realidade, não com vê-la como ela é. Quando temos um martelo na mão, tudo nos parece um prego; e quando temos uma grande quantidade de poder nas mãos, tudo parece um convite para nos imiscuirmos. Mesmo que consigamos conter este impulso, as pessoas à nossa volta nunca deixarão que nos esqueçamos do gigantesco martelo na nossa mão. Todas as pessoas que falarem connosco terão intenções conscientes ou inconscientes, pelo que nunca nos podemos fiar inteiramente no que dizem. Nenhum sultão pode confiar que a sua corte e os seus súbditos lhe dirão a verdade. 

Assim, o poder em grande quantidade funciona como um buraco negro que distorce todo o espaço à sua volta. Quanto mais próximos estamos dele, mais distorcido tudo se torna, todas as palavras ficam mais pesadas ao entrar na sua órbita. Se temos muito poder, todas as pessoas que vemos tentam lisonjear-nos, agradar-nos ou pedir-nos algo. Elas sabem que não podemos dispensar-lhes mais de um minuto ou dois, e têm receio de dizer algo de inadaptado ou confuso; acabam, portanto, por proferir frases vazias ou os maiores lugares-comuns.

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Assim, se o leitor culpa o Facebook, Trump ou Putin por terem aberto alas à nova e assustadora era do pós-verdade, recorde a si mesmo que há muitos séculos os cristãos fecharam-se a si próprios numa bolha mitológica de autofortalecimento, sem nunca se atreverem a questionar a veracidade factual da Bíblia, ao passo que milhões de muçulmanos depositaram a sua fé inquestionável no Alcorão. Durante milénios, muito do que era visto como 'notícia' ou 'facto' nas redes sociais humanas eram histórias sobre milagres, anjos, demónios e bruxas, com jornalistas destemidos a darem notícias directamente das profundezas mais recônditas do submundo. Não há quaisquer provas científicas de que Eva tenha sido tentada pela serpente, que as almas de todos os infiéis ardam no inferno após a morte, ou que o criador do universo não goste que um brahmin se case com uma intocável  -- no entanto, milhões de pessoas têm acreditado nestas histórias ao longo de milhares de anos. Certas fake news duram para sempre. 



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Obviamente as fotografias não têm -- nem tinham que ter -- nada a ver com o texto. São da autoria de Eylül Aslan e, se as suas fotografias não têm a ver com o texto, de uma coisa podem Vossas Senhorias estar certas: é de que elas têm muito a ver comigo.

James Blunt que aqui vem interpretar Halfway também não deveria ser para aqui tido nem achado. Veio porque quis e porque a dança daqueles ali me enternece; e tenho para mim que isso é razão mais do que suficiente para ele ser aqui bem recebido.

Os textos são excertos de '21 Lições para o Século XXI' de Yuval Noah Harari e escolhi estes como poderia ter escolhido muitos outros. Talvez ainda, um dia destes, venha a escolher. Vou intercalando isto com cenas do Livro do Desassossego, coisa que também não tem grande explicação. Só uma que não é para aqui chamada.

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Votos de uma boa semana a começar já por esta segunda-feira. 
Saúde, energia, alegria e mais coisas boas.