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quarta-feira, junho 03, 2026

Noah Eckstein, um jovem graduado em Harvard e gerado na intersecção de culturas e religiões, faz um discurso que vai lá, vai

 

Quando uma pessoa passa a ser um obstáculo ou quando alguém que não pensa ou sente como nós passou a ser um inimigo, sabe bem ouvir alguns alertas ditos por um jovem, no caso um jovem graduado de Harvard.

Seria bom que a moda pegasse e que viesse dos mais novos a vontade de voltar a colocar as pessoas, o respeito pelo ser humano, no centro de todas as políticas. Seria bom que se pusessem de acordo numa nova carta de intenções, numa nova tábua de mandamentos.

Avanço já com os que eu juraria defender:

  • Não matarás. 
  • Não destruirás a casa do outro. 
  • Não separarás famílias. 
  • Não enviarás ninguém para a guerra. 
  • Não desviarás fundos do desenvolvimento, da investigação, da ciência, da cultura e da paz para os gastar na guerra. 
  • Não desejarás território alheio. 
  • Não mentirás para justificar os teus maus actos. 
  • Não quererás enriquecer quando isso implica deixar alguém na miséria. 
  • Amarás os outros mesmo quando não pensam como tu e não são destilam e praticam a maldade
  • Acolherás os outros, mesmo quando nasceram noutros lados e têm a pele de cor diferente da tua. 
  • Pensarás no futuro e na felicidade das pessoas antes de tomar decisões que os possam comprometer
Noah Eckstein não fala nestes mandamentos mas, de certa forma, estão subjacentes a uma cultura de bondade e de inclusão, de democracia e  de liberdade.

Vale a pena assistir ao vídeo.

Noah Eckstein profere o discurso de formatura | Cerimónia de Formatura de Harvard 2026


Desejo-vos um belo dia

sábado, março 28, 2026

Mulheres palestinianas e israelitas descalças, de mão dada, pedindo a paz -- para que os seus filhos não matem nem sejam mortos
E que este sábado, 28 de Março, as ruas americanas transbordem de millions and millions a protestar contra Trump

 

Todos os países que desencadeiam guerras são governados por homens. Não que todos os homens sejam belicistas, claro, claro que não. Muito menos se pode inferir que todos os homens têm tendências imperialistas, que são insensíveis ao sofrimento, que são assassinos. Nem pensar. Tenho a certeza que, felizmente, são uma minoria. Mas, nos que pertencem a essa minoria, há com certeza alguma correlação entre terem esses traços e a testosterona. Putin, Netanyahu, Trump -- são disso exemplo, e só para referir casos recentes, cujos actos bélicos estão a desestabilizar o mundo.

No meio deste ambiente frenético em que os mísseis e os drones cruzam os céus, com tanta gente a morrer e tantas cidades a serem destruídas, com a economia alterada e o futuro ameaçado, quase nos esquecemos que a maioria da população é feminina. 

E, enquanto ainda dura a chacina que se verifica em Gaza (e que não vai acabar enquanto Israel não dispuser do território limpo para poder começar a construir a Riviera idealizada por Trump, Jared Kushner e amigos, e, com tudo devidamente higienizado e produtivo, anexado a Israel), eis que mulheres da Palestina e de Israel se juntam em Roma e, descalças, marcham e cantam pela paz.


Seria bom que em todo o mundo -- em todo o mundo, repito -- houvesse manifestação de mulheres pela paz. As mulheres todas na rua, marchando pela paz. Milhões de mulheres. Para que os nossos filhos não matem nem sejam mortos. Sem bandeiras, sem símbolos territoriais ou religiosos. Apenas as mulheres, com vestes simples, com uma echarpe que simbolize a harmonia e a união entre os povos. 

Não sei quem pode convocar manifestações assim mas penso que seria importante que alguém conseguisse fazê-lo. Aqui fica o meu humilde apelo. Contra o belicismo de uns e a cobardia de outros, que as mulheres descessem à rua e fizessem ouvir a sua voz.

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Mães israelitas e palestinianas marcham descalças por Roma num apelo conjunto à paz

As mães israelitas e palestinianas caminharam lado a lado por Roma, na terça-feira, num poderoso apelo conjunto à paz, liderado pelas nomeadas para o Prémio Nobel da Paz, Yael Admi e Reem Al-Hajajreh. Centenas de pessoas juntaram-se à marcha descalça, atravessando o centro da cidade, desde o Ara Pacis até ao Terraço do Pincio.

A "Caminhada Descalça: Apelo das Mães pela Paz" contou com o apoio da administração da cidade de Roma, com uma apresentação coral realizada na Piazza del Popolo. Admi disse que as mães de Israel, Palestina, Líbano e Irão partilham uma exigência: que os seus filhos não morram nem matem.

As duas activistas deverão reunir-se com o Papa Leão XIII na quarta-feira, no âmbito da sua visita a Roma, acrescentando uma importante dimensão diplomática à sua missão de paz.


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Já agora:

Desejo também que, nos Estados Unidos, este sábado seja marcado por uma enchente nunca vista, muitos milhões de pessoas nas ruas de todas as cidades (mais que os 7 milhões da última manif), na manifestação NO KINGS


E cá está o Boss, Bruce Springsteen, a fazer o apelo. E com que intensidade o faz. Vejam até ao fim, ok? 


E vejam também o grande Robert de Niro, o respeitabilíssimo Robert de Niro, a fazer o mesmo apelo

Robert De Niro convoca o maior protesto da história americana para 28 de março: "NO KINGS"


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Um bom sábado

Saúde. Paz.

domingo, março 22, 2026

A crise tramada em que ainda estamos só a entrar.
Os meus meninos e a política.
E, para desanuviar, pastéis de massa tenra e gelados.

 


Não é obsessão, é verdadeira preocupação. Não dá para assobiar para o lado. Pode ser-se muito optimista e pensar que é lá longe ou que um dia destes o maluco recua. Mas nada disto elimina os riscos graves que todos corremos.

Com um doido varrido, narcisista maligno e demente, ao comando na nação mais poderosa do mundo, rodeado de nacionalistas que aliam um belicismo exacerbado a um espírito doentia e deturpadamente religioso, de ignorantes, de gente que luta pela sobrevivência (pois sabem que, mal sejam apeados, serão presos), ninguém está seguro. Poderia pensar-se 'coitados dos americanos' ou 'votaram nele, agora amanhem-se'. Mas não é uma visão correcta pois, como se vê, o mal que ele faz é extensivo a todo o mundo.

Os combustíveis vão continuar a subir e poderão tornar-se proibitivos, especialmente para quem não usa viatura de empresa e tem que os pagar do seu bolso. Acredito que possam até vir a ser rateados. O impacto que isso vai ter nas nossas vidas vai ser enorme. Em Espanha, muito correctamente, já está a ser recomendado o regresso ao teletrabalho, o incremento do uso do transporte público, o conselho para evitar viagens desnecessárias.  E isto afecta a sociedade em cadeia de uma maneira de que não consigo perspectivar o limite inferior.

Ao mesmo tempo que Trump dá sinais de que quer retirar, aumenta o número de tropas a caminho (e o uso da base das Lages...), aumentam os bombardeamentos, destroem instalações críticas -- e as retaliações iranianas não se ficam atrás. Ou seja, é o caos. E se do caos tranquilo nasce frequentemente a beleza e a criatividade, quando é um caos destrutivo é difícil ver se pode sair algo de bom.

Aqueles países agora tocados por esta guerra absurda dependem, para sobreviverem, de muita coisa que lhes é externa mas também, como todos nós, de água. E grande parte da sua água resulta de dessalinização. Uma central já foi atacada. Um primeiro aviso. Se várias o forem, a crise escalará para outros patamares. E nem quero pensar com que consequências.

Especula-se (e, por enquanto, este é o verbo que quero usar) que, com toda a escassez de combustíveis e consequente aumento de preços,  os juros começarão a subir. Ao subirem, sobem as prestações ao banco de quem está a pagar casa. E isso apertará ainda mais o garrote a muito boa gente. Mas subirá para muito mais que essas pessoas pois todas as empresas e todos os países têm dívidas e, portanto, o impacto será generalizado.

Não sei se há uma saída possível para isto. Se Trump saísse de cena (mas não é provável que saia, pelo menos no curto prazo) e se, em vez dele, houvesse um tipo inteligente e decente, talvez pudesse reunir-se com a China, talvez conseguissem pôr o Putin a bordo (idealmente, alguém mais decente e menos criminoso que Putin), talvez fizessem a delicadeza de contar com o contributo da Europa -- e talvez conseguissem pôr-se de acordo em que já é tempo de pensar em destruição e morte e começar a pensar em paz, no futuro, nas crianças e no mundo que lhes queremos deixar. Mas isto sou eu a efabular, sou eu a querer ter pensamentos positivos

E, muito sinceramente, não estou a consegui-los ter. Parece que o mundo está a ser sugado pela vertiginosa demência e malvadez de uns quantos homens possuídos pelo diabo. Netanyahu é um criminoso insaciável. É como Putin. Não há compaixão, não há misericórdia nesses dois seres viciosos, sanguinários. Matam crianças, famílias inteiras, destroem-lhes as casas, aniquilam-lhes o futuro, fazem com que toda a gente viva apavorada, sem perspectivas, entre mortos e ruínas. E não se condoem.

Poderia acabar-se-lhes o dinheiro, não conseguirem suportar a pesadíssima factura da guera. Mas com esta crise, o Putin fica a rir-se e a facturar. E de onde vem o dinheiro de Israel? Há anos a bombardear tudo e mais alguma coisa... Sabendo-se que o armamento e munições são dispendiosíssimos, de onde lhes vem todo esse capital? São frentes de guerra em simultâneo e em força: Gaza, Líbano, Irão. Não percebo. Têm de tal maneira os Estados Unidos na mão que é de lá que o dinheiro vem? Dívida? Mas estão a financiar-se onde? (Se não fosse tão tarde, tentaria agora pesquisar. Follow the money. Mas daqui a nada são três da manhã, já tenho sono). O dinheiro em Israel parece vir de um poço sem fundo. E um poço sem fundo de dinheiro nas mãos de um regime facínora, com uma apetência insaciável pela destruição alheia e pela ambição desmedida, é um grande, grande e dramático, problema.

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Mas adiante. Não quero contagiar-vos com o que a mim me atormenta.

O meu dia foi muito bom. Tive cá a almoçar os meus rapazes crescidos, desportistas, cheios de apetite e boa disposição. Um deles contou que na preparação física lá no clube onde é guarda-redes levanta 90 kg. Usou uma palavra que não identifiquei. Traduziu: com agachamento. Nem consigo imaginar... 90 kg...? Vai fazer 15 anos. Desde pequeno que é todo dado ao desporto, ágil, habilidoso. O mano mais velho, também guarda-redes, está a pensar começar também a praticar box. Outro dos rapazes, igualmente guarda-redes, agora mudou-se para futsal. O mais novo também já lá andava. E a menina agora faz vólei. No outro dia vi imagens da equipa, um grupo de miúdas giras, divertidas. Tudo gente dada ao desporto. Fico contente.

E estivemos também a fazer o teste dos partidos. Já no outro dia, um dos meninos, um que percebe e gosta de política, o tinha feito. Não se pode dizer que tenhamos que atribuir um grande significado aos resultados pois, com a tenra idade dele, muitos conceitos não estão ainda bem compreendidos nem saberá avaliar correctamente as implicações das opções que se tomam. Mas tenho ideia que lhe deu AD, creio que logo seguida do PS. Fiquei surpreendida. Os dois que hoje o fizeram, sem surpresa a um deu-lhe a AD, logo seguida do Chega e da IL, e a outro o PS. Ao mais velho, o segundo lugar do Chega deve-se ao tema da imigração. Faz-lhe impressão a quantidade de imigrantes que, segundo ele, parecem ter tomado de assalto a Baixa, acha que isso é sinónimo de entrada desregulada de imigração. O irmão perguntou-lhe se lhe faria a mesma impressão se fossem ingleses ou alemães. Gostei da pergunta. Gosto muito de os ouvir discutir estes assuntos, gosto que se interessem por política. O mais velho, 17 anos, prestes a entrar na universidade, preocupa-se que não venha a ter um salário que lhe permita ter a sua casa, a sua família, os seus filhos. É a sua grande preocupação. E imagina que as políticas liberais serão a resposta a isso. E imagina isso porque diz que se as políticas que têm vigorado nas últimas décadas -- e que cola às políticas socialistas -- deram o resultado actual (salários baixos, dificuldade em ter casa, natalidade reduzida), então há que mudar. Compreendo o seu ponto de vista.

Há muita literacia política a levar a cabo junto da juventude. E há que perceber as preocupações e os ensejos dos jovens. Os partidos democráticos deveriam, de forma muito honesta e sensata, apresentar perspectivas e soluções que vão ao seu encontro.

Depois, já para o fim da tardinha, fui comer o meu belo geladinho de gianduja e cheesecake. Quando peco, peco a sério, duas bolas a preceito. Pelo-me pelos melhores gelados de Lisboa e arredores (já devo ter dito mil vezes mas não me canso de os louvar: Casa do Gelado, Avenida de Roma). E passeámos por lá, pela avenida e adjacências, e, antes,  pelo parque do Campo Grande e, apesar de serem lugares que conheço muito bem, que frequentámos assiduamente durante uma parte significativa da nossa vida, senti-me como me sinto sempre: uma turista à descoberta.

E, claro, não poderíamos regressar a casa sem uns pastéis de massa tenra do Frutalmeidas para o jantar (e, note-se: não sou parte interessada nos lucros nem daqui nem dos gelados, sou apenas cliente satisfeita). Claro que tudo isto tem um senão: o estacionamento. Cada vez mais difícil. Carros, carros, carros. Voltas e mais voltas para descobrir onde largar o carro.

Dependemos totalmente dos carros, eu e toda a gente. Até por esta dependência, a crise dos combustíveis em que estamos ainda só a entrar é um problema que deve ser levado muito a sério, que deveria estar já a merecer atenção e medidas como em Espanha. E é tão a sério que até volto a trazê-lo à conversa, aqui, na despedida, entre pastéis de massa tenra e gelados.

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Nas imagens, geradas através de Inteligência Artificial, procuro trazer sempre o motivo da paz [ao mesmo tempo que evoco alguns pintores (Geogia O'Keeffe, Paul Klee, Matisse, Mondrian, Kandinsky)].

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Desejo-vos um belo dia de domingo

quarta-feira, março 04, 2026

O novo eixo do mal é um belicista aventureiro? Ou não passa de um grande e gordo motor de impulso laranja?

 

 Tinha identificado uns quantos candidatos a serem sucessores de Ali Khamenei mas o ataque foi tão bem sucedido que morreram todos. 

Isto foi dito por Trump. 

Não é de loucos? Eu ouço isto e não consigo conter uma gargalhada. Não parece uma anedota? Mata um para pôr uns que ele lá sabe e, afinal, mata-os a todos? Se não fosse trágico, não era de ir às lágrimas?

É como aquela outra maluquice. Perante as crescentes vozes de que não havia quaisquer evidências de que nos próximos anos o Irão representasse qualquer risco, o fofo Marco Rubio, sempre com aquela sua boquinha de folhos e ar meio perdido, veio dizer que a coisa tinha sido assim: os americanos tinham sabido que Israel -- que se está nas tintas para as negociações que os dois artolas, o genro e o outro totó também do imobiliário, andavam a ter com o Irão -- tinha descoberto uma cena que era uma janela de oportunidade e que iam avançar à bomba sobre o dito Irão. E que pensaram que, se isso ia acontecer, os iranianos, furiosos, iriam retaliar e ainda iam fazer mal aos americanos. Portanto, antes que isso acontecesse, apanharam a boleia de Israel e lá foram dar cabo deles.

Perante a candura desta confissão, a casa veio abaixo: uns a rebolar a rir, outros de boca aberta. Então foi essa a grande razão para avançarem para uma guerra destas que está a desestabilizar o mundo? Então é mesmo verdade que o Bibi é que manda nos Estados Unidos?

Face a esta revelação que pôs o mundo a dar cambalhotas para trás e para a frente, meio mundo perplexo e desconcertado e o outro meio sem sabe se rir ou chorar, Trump, para remediar a barracada, veio contradizer o Marquito: não, não nada disso, não foi bem assim, ele é que forçou a mão de Israel. Só que ninguém acredita numa palavra que ele diz.

Enquanto estou a escrever, estou a ver televisão. E de novo aqui está ele. Confirma que mataram todos os que pensaram que poderiam suceder a Khamenei mas que vão lançar uma onda de ataques ainda mais ofensiva e que, provavelmente, vão matar outros que talvez também pudessem servir. E como, se calhar, a seguir haverá outra onda de ataques ainda mais destrutiva, se calhar depois já lá não conhecem ninguém. 

Ouço isto e penso: mas isto não será para os Apanhados? Isto não será uma comédia? É que é tudo uma maluquice tão grande que é impossível encontrar aqui algum racional.

Também o ouvi a dizer que vai proibir todo o comércio contra Espanha e que, se quiser, usa as bases que (o corajoso e, aparentemente, dos poucos adultos na sala) Pedro Sánchez diz que ele não pode usar. Que não precisa mas, se precisar, os aviões vão para lá e sempre quer ver quem é que o vai proibir. 

Ouço isto e penso que é preciso respirar fundo. Um palhaço destes armado em ditador, em imperador de meia tigela... 


Mais um dilema para Trump
(da autoria de Ben Jennings para o The Guardian)


E não sei se este voluntarismo é bazófia, se é loucura, se é um destemperamento provocador e inconsequente, se é ganância, ou se é demência pura e dura. Sobretudo penso que um estupor destes está é a precisar de uma lição.

E, o que mais me tira do sério, é que, ao lado dele está Merz... a apoiá-lo... Porquê? Como se ouve uma coisa destas e se fica a apoiar? Como!? Não deveria interrompê-lo, não deveria dizer que cada país é soberano e que ninguém se pode sobrepor a isso e, mostrando que não está para alimentar a sede imperialista do bufão laranja, não deveria levantar-se e sair da sala?

Enfim... Um mundo pantanoso em que uns quantos espantalhos se levantam para roubar, vilipendiar e matar os indefesos que esbracejam, tentando salvar-se.

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No vídeo abaixo fala-se numa coisa que me parece muito verdade: se pensarmos em líderes que desencadeiam guerras ilegais, cruéis criminosos de guerra que causam muitas mortes absurdas, então, ao lado de Putin, haverá que colocar Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Claro que, ao falar-se em líderes, David Rothkopf torce-se todo e questiona-se sobre se Trump é mesmo um líder ou, até mais do que um belicista aventureiro, não é senão um grande e gordo motor de impulso laranja. 

E, com isto, já estão a perceber que, uma vez mais, escolho quem quero ouvir sobre o que se passa. Fonte sempre muito bem informada, David Rothkopf, aqui no vídeo ainda não tinha ouvido a confissão de Rubio e as parvoíces de Trump que se lhes seguiram já que a conversa com Joanna Coles foi gravada na 2ª feira de manhã. Mas é sempre uma voz que se ouve de gosto (relembro que nas definições do vídeo podem seleccionar legendar e, aí, seleccionar a auto-tradução para português)

Como a guerra de Trump desencadeou um novo eixo do mal | Podcast do The Daily Beast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para defender que a guerra de Donald Trump contra o Irão revela um presidente que acredita governar como um rei, e não como um comandante-chefe constitucional. Rothkopf, colunista imperdível do The Daily Beast e fundador da DSR Network, apresenta os argumentos de que se trata de uma guerra ilegal, iniciada sem a aprovação do Congresso, com apenas 21% de apoio público, sem um processo coerente do Conselho de Segurança Nacional e com baixas iniciais que já agravam o caos. Relaciona o ataque impulsivo de Trump aos incentivos políticos de Benjamin Netanyahu, ao risco de escalada regional, aos choques petrolíferos em vésperas de eleições intercalares e à perigosa fantasia de que a mudança de regime resultará de alguma forma em democracia em Teerão.


Desejo-vos um diz tão feliz quanto possível 

domingo, março 01, 2026

Trump, as guerras, as palhaçadas, os sistemáticos atentados à democracia, à lei e à ordem -- e a cobardia hipócrita dos líderes europeus

 

Não consigo dizer que os americanos são estúpidos tal como não digo que os russos são criminosos. Uma coisa é a população e outra é o regime instalado no respectivo país. Não fomos fascistas só porque tivemos, durante décadas, um fascista a governar-nos. 

Por isso, ao pensar no que os Estados Unidos têm feito no último ano, tenho que fazer a ginástica mental de me focar nos responsáveis pelas anormalidades a que temos assistido: Trump e os seus acéfalos carneiros, tão ignorantes quanto seguidistas.

Mais uma vez, não sei se mais esta ofensiva contra um outro estado soberano é fruto de um plano assente em ideologia ou que vise uma estratégia, ou se é, apenas, fruto de um desvario narcisista, alguém que começa guerras para depois apregoar vitórias (mesmo que ilusórias) ou se é uma demanda tresloucada para afastar a atenção do seu eventual envolvimento no ambiente Epstein ou se, por qualquer motivo que um dia se perceberá, está nas mãos do criminoso Bibi e, por isso, faz o que este lhe manda. 

Claro que o regime iraniano não é defensável sob qualquer ponto de vista. Mas o Irão é um estado soberano e, a haver ajuda ao povo, não poderá ser desta forma. O direito internacional é para ser levado a sério. 

Se, lá porque se acha que quem governa um determinado país é um déspota, for aceite que um outro país o invada e atire bombas e mísseis e drones para cima da população então o que não falta são países candidatos a serem arrasados, a começar pelos países governados pelos ídolos de Trump ou, até, os próprios EUA.

E o que me faz ainda mais confusão é como os merdas dos líderes europeus, em vez de condenarem veementemente esta acção bélica de Trump e de Netanyahu, aparecem quase de gatas, com uma conversinha de caca, em que se limitam a condenar a retaliação do Irão contra outros países. O que é que estavam à espera? Que o regime iraniano vergassm sem disparar um míssil? Supostamente, o Irão estaria a pretender atacar bases americanas e o que terá acontecido em zonas urbanas terá resultado de mísseis interceptados. Mas sabe-se lá, quando se começa uma guerra nunca se sabe o que acontece a seguir: há erros, há acidentes, há excessos. E, para mim, de forma inequívoca, em primeiro lugar haveria que condenar a ofensiva de Trump, que, ainda por cima, parece ser ilegal mesmo face à constituição americana. Ele, o bufão cor de laranja, dirá que é uma ofensiva tremenda, nunca antes vista, talvez até diga que é hot, se não mesmo big and beautiful. Mas, por sabermos todos o chanfrado cruel e demente que é Trump é que se justificaria condená-lo, condená-lo com veemência. A ele e ao outro criminoso, o manipulador Netanyahu.

Claro que sou pacifista, totalmente pacifista (excepto quando a paz é sinónimo de rendição e anulamento de identidade). Portanto, claro que gostaria muito que todos os países fossem democracias, que os povos vivessem em liberdade e pudessem gerir as suas vidas num ambiente tranquilo e feliz. E isso vale para os iranianos, os coreanos do norte, os russos, os venezuelanos que agora nem devem saber a quantas andam, até os americanos que agora vivem tão atormentados, e tantos mais.

Só espero que esta última loucura de Trump, o doido varrido que se acha merecedor do Nobel da Paz e a quem ninguém parece conseguir controlar, não alastre, não traga mais mortes e não se arraste no tempo.

Só espero também que os líderes europeus mostrem que se regem por princípios e por valores, que têm capacidade de liderança, que sabem fazer ouvir a sua voz -- ou seja que têm cabeça. E tomates.

E pardon my french. Mas é que fico passada com gente cobarde e hipócrita. Com burros, então, nem vos digo nem vos conto.

sábado, fevereiro 28, 2026

Ucrânia

 

Criei o blog há um bom par de anos, sem plano nem propósito -- sobretudo, queria descobrir como se fazia. Mas, assim que o percebi, o lado estético e lúdico entusiasmou-me bastante e logo resolvi que o seu look haveria de ser mutante. Quase todos os meses lhe mudava a imagem de abertura e as cores. Privilegiava pinturas do meu agrado mas também fotografias alheias que considerava também arte, frequentemente com um certo toque provocatório. E divertia-me imenso a escolher cores, em volta ou por detrás, no tom da imagem ou, pelo contrário, altamente contrastantes. 

Mas, quando a Rússia criminosamente invadiu a Ucrânia e começou a matar e a destruir, imediatamente abdiquei desse meu prazer e resolvi arranjar uma imagem que simbolizasse a esperança e o futuro, assentes nas cores ucranianas. A coragem e a capacidade de resistência daquela gente, o heroísmo de todos, a começar por Zelensky, alguém por quem nutro enorme admiração, sempre me comoveu muito e, desde sempre, na humildade da minha irrelevância, coloquei-me do seu lado. E decidi que assim ficaria até que a Ucrânia pudesse voltar a viver em paz, em liberdade, em felicidade. 

Achei, e cada vez mais o acho, que estar ao lado de quem defende a sua terra, as suas fronteiras, a sua identidade, o seu querer, o seu futuro, era o mínimo. Sem adversativas, sempre me coloquei do lado da Ucrânia e do seu direito a defender-se e a fazer valer a sua vontade, e sempre me mostrei inequivocamente contra quem demonstra não respeitar o direito internacional, não respeita as fronteiras dos outros países, não respeita a vontade dos povos desses países, não mostra compaixão nem mostra arrependimento nem empatia nem coisa boa alguma.

Confesso que nunca pensei que tivesse que manter a criança com as cores da bandeira pintadas no rosto nem o fundo amarelo e azul por muito tempo. Uma guerra desta natureza, absurda como todas as guerras e tanto mais quanto assenta em vontades imperialistas que eu julgava mortas e enterradas, uma guerra tão aberrante, tão assassina, tão estúpida, julgava eu que não poderia durar muito. Imaginei que alguma solução os civilizados deste mundo haveriam de arranjar e que, se não isso, então, internamente, os próprios russos haveriam de impor a retirada das tropas russas do território ucraniano e imporiam a neutralização do regime putinista para que a própria Rússia pudesse aspirar a um futuro tranquilo, livre e democrático. 

Enganei-me. Já lá vão 4 anos. Putin continua a usar os seus como carne para canhão, e ouve-se falar em cerca de 600.000 mortos, impondo também pesadas perdas para a Ucrânia, fala-se em cerca de 300.000. Uma brutalidade. Vidas interrompidas para as quais não pode haver perdão. Um dia Putin será julgado como o grande criminoso que é.

Não sei qual será ou quando será o desfecho desta guerra mas sei que um dia acabará e acabará bem para a Ucrânia. Espero que seja em breve.

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NB: Fiz as imagens que ilustram este texto com recurso a Inteligência Artificial

quarta-feira, dezembro 03, 2025

Estará a chegar a hora dos bravos de pelotão?

 

Não há muito éramos felizes e não sabíamos. A nossa Europa estava em paz, os Estados Unidos portavam-se amistosamente, a Rússia parecia relativamente contida e a China continuava, pacientemente e sem causar grandes ondas, a expandir-se. 

Até que a Rússia invadiu a Ucrânia, o instável equilíbrio entre a Palestina e Israel quebrou-se irremediavelmente e, para absoluto descrédito da racionalidade humana, um doido varrido, narcisista, corrupto e demente voltou a ganhar as eleições nos Estados Unidos. E o mundo virou um caldeirão em efervescência em que todos os valores que tínhamos por sagrados derretem a uma velocidade que dificilmente conseguimos acompanhar.

As ameaças de guerra sucedem-se -- e têm sorte os que não acompanham as notícias, vivendo na ignorância das ameaças que pairam sobre  a nossa existência. Preocupa-me, em especial, o que virá a ser a vida dos mais jovens. Queremos sempre que os que vêm depois de nós encontrem um mundo melhor e tenham uma vida mais auspiciosa mas eu receio que, se as coisas continuarem por este caminho, venham a ter pela frente tempos de incerteza e inquietação.

Contudo, perante o que parece uma força (do mal) difícil de combater, há quem se levante e, dando o peito às balas, enfrente todas as forças que estão a querer destruir a democracia.

O senador Mark Kelly, ameaçado por Trump e pelos fanáticos do culto MAGA, mostra de que fibra são feitos os heróis. Talvez inspire muita gente e abra a cabeça fechada dos que ainda se reveem nas trapalhices e infâmias de Trump.

Partilho dois vídeos sugestivos.

O senador Mark Kelly comenta a sugestão de Trump para que seja executado e a abertura de uma investigação por parte de Hegseth contra ele

O senador Mark Kelly fala dos ataques de Donald Trump contra si e da sugestão de que fosse executado por um vídeo em que dizia aos soldados que não tinham de obedecer a ordens ilegais, a questão da violência política no nosso país, a abertura de uma investigação contra ele por Pete Hegseth, a estratégia de Trump como forma de destruir democracias e o apoio dos seus colegas republicanos.


O senador Mark Kelly denuncia o 'bullying' do presidente Trump

O senador do Arizona, Mark Kelly, fez declarações na segunda-feira, criticando o presidente Trump pelo seu comportamento "intimidatório". O senador do Arizona foi um dos seis democratas que apareceram num vídeo na semana passada dirigido aos militares, dizendo-lhes que não têm de seguir ordens ilegais. O vídeo gerou uma grande polémica, com o presidente Trump a acusar os deputados de sedição e a afirmar que deveriam sofrer as consequências
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Dias felizes

terça-feira, novembro 25, 2025

Quid pro quo

 

A Europa prepara-se para a guerra, dizem. Uns constroem abrigos, outros treinam as tropas, outros aparelham os cavalos, os tanques, outros apressam a ciência e a tecnologia para que os drones e demais veículos aoto-tripulados sejam mais rápidos, mais precisos, mais invisíveis e mais baratos.

Tento afastar essa ideia. Não consigo conceber que o que está a acontecer à Ucrânia possa alastrar a países da UE e que os nossos rapazes tenham que pegar em armas. Não consigo acreditar nessa possibilidade. Os meus meninos, tal como os meninos de todo o mundo, devem poder viver uma vida tranquila, feliz. Não devem, nunca, ter que pegar em armas para se defenderem ou para matarem. Nunca, nunca.

Ao mesmo tempo, as ameaças americanas sobem de tom em relação à Venezuela. Já se ouvem os tambores. Cada vez estão mais fortes e mais próximos. Maduro dança para chamar a paz mas os navios de guerra que rondam fazem com que o rufo não possa ser esquecido. 

“Quid pro quo. I tell you things, you tell me things,” é o que Hannibal Lecter diz à investigadora   Clarice Starling. Quid pro quo, pode ser o que Putin diz a Trump quando Trump lhe pede que não mexa uma palha para defender a Venezuela. Não mexo se também te fizeres de morto em relação à Ucrânia, provavelmente responde-lhe Putin.

Dois narcisistas, megalómanos, psicopatas à frente dos destinos do mundo.

E, no entanto, um deles está cada vez mais doido.

As televisões e as redes sociais mostram agora um Trump que, dizem, deixou de cobrir a pele com aquela base cor de laranja e se veste como Mandani. A base MAGA está perdida, sem saber o que pensar do inexplicável encantamento de Trump por Mandani. Os assessores de Trump na Casa Branca também estão sem norte, cada vez mais convictos que algo está mesmo errado com o presidente. Disserem que, naquele dia, foi como se Trump se tivesse esquecido que era Trump. 

Mas se o enamoramento por Mandani foi surreal, tudo o resto não o é menos. Tão depressa diz coisas incompreensíveis, palavras inexistentes, sons incongruentes, como se mostra irascível, sem filtro, inconveniente, como publica inúmeros vídeos ou imagens em que se mostra como o rei e os seus adversários como gente que se ajoelha a seus pés, ou ameaça de morte quem diz coisas óbvias como que os agentes da lei e ordem não são obrigados a cumprir ordens ilegais. Os seus dias são caóticos, e tentar prever os seus próximos passos é impossível.

Como pode uma pessoa assim ser levada a sério? Como pode o mundo fazer de conta que não percebe o que se passa com o demente que está à frente dos Estados Unidos?

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Podemos ver que Trump está em grave declínio: afirma psicólogo | Podcast do The Daily Beast

O convidado imperdível do The Daily Beast, Dr. John Gartner, junta-se a Joanna Coles para analisar o que os momentos-chave revelam sobre o declínio cognitivo de Donald Trump. Desde dificuldades em fazer continência no Túmulo do Soldado Desconhecido a ruídos estranhos num evento da McDonald’s, Gartner explica padrões de declínio psicomotor, discurso desconexo e comportamento desinibido. Discutem como o stress, os problemas de personalidade preexistentes e uma possível demência se interligam, oferecendo uma perspetiva psicológica rara sobre o comportamento bizarro do presidente. Este episódio revela o que realmente se passa dentro do cérebro de Trump.


Um dia feliz

quarta-feira, outubro 22, 2025

Gaza, não tarda uma terra banhada a leite e mel

 

Não sei se a Palestina é uma abstração, um sonho, uma ilusão ou um eterno devir. Talvez uma ficção, talvez cenário de cruzadas, de quimeras. Talvez um local mítico, realmente nunca existente, provavelmente nunca materializado. 

A história da Palestina é tudo e nada, uma promessa, uma desilusão, um objectivo, um malogro, uma miragem - há uma língua, há uma história, há uma cultura. Mas não há moeda, não há economia auto-suficiente, não há controlo de fronteiras.

Se Gaza, que era governada pelo Hamas (antagónica em relação à Autoridade Palestina) é o que é e está como está, já a Cisjordânia também não passa de um acto falhado. Embora parcialmente administrada pela Autoridade Palestina, na prática é Israel que controla as fronteiras, o espaço aéreo e a maior parte do território, isto já para não falar das colónias israelitas que a polvilham.

Sempre me fez muita confusão que a dita Palestina vivesse de caridade, de ajuda humanitária. Ora não há país, organização ou grupo que subsista no tempo se não for minimamente autossuficiente. Ao pactuar com esta situação, todos (todos) os que ajudaram foram cúmplices de uma situação frágil, vulnerável, condenada ao insucesso.

Gaza, terra que tem sido de ninguém, é uma faixa de terra à beira-mar, apetecível para quem está nos negócios do real state, para quem gere fundos, para quem tem muito dinheiro para investir e para lavar. Não o têm escondido ou disfarçado: aquela terra tem muito potencial, dizem-no à boca cheia, à cara podre. Mas, para isso, primeiro tem que ser limpa. Não é com subtilezas que o anunciam, é abertamente. Quem gere fundos e se movimenta no mundo dos business plan e dos private equity não tem tempo a perder com meias palavras, quer é saber de coisas concretas: como, quando, com quem. Além disso, adequar projectos a infraestruturas existentes é uma maçada, uma perda de tempo, uma perda de dinheiro. O melhor mesmo é ser greenfield. Começar do zero. Portanto, limpeza geral. Prego a fundo nas demolições. O mais rápido é à bomba? Pois que o seja. 

Zero ideologia, excepto a ideologia do máximo proveito e o resto que se dane.

Isto em relação à nesga à beira-mar plantada, a Riviera há tanto adiada. Quanto à Cisjordânia, ali mais acima, vai continuar a ser um viveiro de revoltados, de humilhados. E viveiro também de mão de obra barata, quando fizer falta. E, enquanto o tempo passa, vai sendo progressivamente esvaziada. Tudo bem, para já está bem como está, dirão.

Talvez tudo isto pudesse ser de outra maneira. Talvez. Em abstracto. Primeiro haveria que pacificar toda aquela zona. Um plano para a paz na região passará forçosamente por esclarecer quem é dono do quê, quem manda em quem, quais as fronteiras e quem assegura a autonomia do território A e do território B. Ora ninguém está a tratar disto. Organizar a Palestina (leia-se: o território de Gaza mais o território da Cisjordânia) é caldinho para o qual ninguém parece estar preparado. Ou motivado. Não sei sequer se é possível. Diria que não. Os próprios não têm condições para isso -- pelo menos, do que se conhece, parece-me que não --, e os de fora não têm interesse nisso.

Portanto, dizer o quê...? Exigir o quê? A quem?

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Até há pouco tempo nada sabia de Candace Owens. Era Maga radical, influencer pro Trump, espaventosa, truculenta e provocadora. Mas, ultimamente, vem-se desviando. Tem-se demarcado do apoio dos Estados Unidos a Israel, tem criticado, e muito, o sinistro Bibi, tem levantado muitas dúvidas sobre o envolvimento de Israel em acontecimentos obscuros. E, por isso, agora tem estado sob fogo cerrado. E, no entanto, o grande arquitecto do plano para Gaza, o plano de reconstrução, o genro de Trump, Jared Kushner, nunca escondeu quais os seus propósitos.

É com espanto que leio agora que está a ser discutido o conflito de interesses em forma de gente que é Jared Kushner. Mas só agora o descobriram? Ele nunca escondeu o que pretende...

Este vídeo foca alguns destes aspectos. Permite a legendagem em língua portuguesa.

Candace Owens Gets It Right On Gaza AGAIN

Jared Kushner, Peter Thiel and Larry Ellison are linked to plans In Gaza that will certainly make them even richer. Cenk Uygur and Ana Kasparian discuss on The Young Turks. 

CHAPTERS:

0.00 Candace Owens Shreds Jared Kushner
1.00 TYT Explains The REAL Plan For Gaza
7.20 The Bad Guys Are In Charge
11.15 Why Israel's Press Is Better Than Ours
14.00 Bezalel Smotrich Says The Quiet Part Out Loud


Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, outubro 17, 2025

Momentos bizarros no mundo da parvalheira, numa cerimónia que era esperada há mais de 3.000 anos

 

Vamo-nos habituando. Agora, quando uma dada pessoa é apanhada a fazer parvoíces, já ninguém se choca ou critica: normaliza-se, diz-se que é a pessoa a ser a pessoa que é. Como se isso justificasse tudo ou desculpasse alguma coisa. Aliás, no que aqui me traz, a pessoa em causa, cândida na transparência com que se confessa ao mundo, até já fez saber que poderia sair à rua e dar um tiro num tipo qualquer que nada de mal lhe aconteceria.

E se já fez das suas... Tantas, tantas, que já não têm conto. E todas más de mais para serem verdade. Até conseguiu enterrar uma ex-mulher num dos seus vários campos de golf para, com o assim adquirido estatuto de cemitério, o campo de golf pagar muito menos impostos. Não há limites para ele. E há a impressão de que o que se sabe é ainda uma pálida ideia do que um dia se haverá de saber. 

Agora engendrou (à pressa -- a ver se ainda ia a tempo de lhe darem o nobel da paz) o acordo de reconstrução de Gaza -- a que deu o nome de acordo de paz -- e, para a fotografia, qual rei, para sentir que meio mundo lhe presta vassalagem, sem aviso prévio mandou que voassem dos seus países para estarem ali a ouvir as suas parvoíces, presidentes e primeiros-ministros de vários países. E ali estavam eles a prestar-se a destratos, a alarveiradas, a bocas foleiras, a tontices sem qualquer nexo. Em vez de o mandarem dar uma grande curva, não senhor, ali estão a compactuar com as anormalidades que ao narcisista-demente lhe ocorrer levar a cabo. Uma coisa triste de ver.

[Não obstante, tal como ontem referi, acho que é importante que a destruição brutal que Israel estava a levar a cabo tenha sido suspensa, acho importante que se abram corredores humanitários e que, mutuamente, se devolvam prisioneiros. As minhas reservas têm a ver com a sustentabilidade disso e com a indefinição política que pode levar a que isto, que é bom, não dure muito tempo]

Daqui por uns anos, quando os historiadores quiserem analisar este período terão que recorrer ao humor louco, ao estilo João César das Neves, ou à densidade das instituições psiquiátricas, ao estilo Voando sobre um ninho de cucos, para conseguirem retratar minimamente o período que atravessamos, que não sei se é das trevas, se é dos entrevados morais e mentais.

Há numerosos vídeos dos diferentes momentos, todos entre o hilariante, o patético, o grotesco, o aparvalhado, o aviltante. Escolhi este aqui como poderia ter escolhido vários outros. Aqui fica pro memória numa altura em que Trump agora já diz que, se for preciso, vai para lá caçar os do Hamas e matá-los um a um. Faria se não houvesse o tão celebrado acordo de paz...

Awkward Moments You Missed From Trump's Gaza Summit


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

quarta-feira, outubro 15, 2025

Sobre o acordo de Trump para Gaza, ie, sobre a 8ª guerra a que ele pôs fim

 

Aconteceu-me, quando trabalhava, fazer visitas a instalações que iriam ser inauguradas em breve com honras de visitas de ministros e até de presidente da república, a campanha de marketing e de comunicação toda gizada, ensaiada e pronta para ir para o ar, tudo em festa, tudo aos parabéns uns aos outros, e eu chegar lá, olhar para aquilo e dizer que nem daí por um ano, senão dois ou mais, ou se é que alguma vez, aquilo estaria pronto para funcionar como era suposto. Claro que era liminarmente aconselhada a calar-me pois era a única a suspeitar do sucesso que estava à vista. Anos decorridos, em minha defesa, posso dizer que estava certa.

Aconteceu-me também, naquelas manobras de gestão de portfolio, os accionistas decidirem comprar empresas, fundir empresas, arrancar com empresas adquiridas, cá ou no exterior, e ser-me comunicado que tudo teria que estar operacional num par de meses, e eu, olhando para o que estava em cima da mesa, dizer que não havia condições mínimas para funcionar num curto prazo pois estavam omissas todas as bases e pressupostos sobre os quais as empresas funcionam. As minhas observações eram recebidas com incómodo: então tinham tratado de tudo tão bem tratadinho, notícias e entrevistas na comunicação social e agora eu vinha dizer que no way, que era preciso equacionar mil coisas antes de se poder fazer qualquer plano?

Um colega que me compreendia e que muitas vezes alinhou comigo dizia que nós dois éramos a turma do baldinho, ou seja, quando tudo estava ao rubro de alegria, aparecíamos nós a despejar água fria na cabeça dos outros.

Agora estou mais aquietada, já admito que as coisas não têm que correr bem, já aceito que se a malta gosta de se iludir e festejar grandes vitórias pois que o faça. A memória é curta e quando correr mal ninguém se vai lembrar que pouco tempo antes ninguém reparou nas imperfeições ou omissões.

Vem isto a propósito do acordo do Trump para o cessar fogo, para a troca de reféns e prisioneiros e para o recomeço da ajuda humanitária. Tudo coisas boas, meritórias, inquestionavelmente de louvar. Vários chefes de Estado a dar o seu ámen, aplauso geral. No entanto, quando dizem a Trump que há, entre os presentes, quem não concorde com os dois Estados, Trump diz que o acordo não tem nada a ver com isso, que isso nem foi tema, que o acordo é sobre a reconstrução de Gaza.

E, de facto, o acordo foi gizado por investidores, por malta das cripto, por gente do imobiliário, por gente do petróleo, por gente que nada em dinheiro. E todo o processo vai ser gerido como uma empresa, Trump, o grande rei do real state, como chairman.

Claro que Gaza tem que ser reconstruída. É um terreno e pêras, à beira de água. E, depois, parte do trabalho de demolição já foi efectuado. Falta o resto antes de começarem a nascer a Gaza Trump Tower, os Casinos, os resorts de 6 e 7 estrelas, os campos de golf. Claro que com tanta frente de obra há que ter muita mão de obra, é bom que não haja cá a baderna do costume, o cessar fogo tem que estar garantido. E é preciso que estejam alimentados. Não conseguirão trabalhar a bom ritmo se continuarem a ser uns mortos de fome.

Mas, pergunto eu: todas essas construções ocorrem em solo de que nacionalidade? Quem aprova os projectos, quem define as prioridades e as condicionantes, quem negoceia com quem, por exemplo a nível das infraestruturas necessárias? É cada investidor por si, à tripa forra, sem baias de qualquer espécie? Os contratos ou questões que surjam dirimem-se segundo que lei? A que tribunais se reportam? E as escolas que porventura lá se construam seguem que programa, reportam a que 'ministério'? Havendo problemas, que agentes de segurança estão no terreno e perante quem respondem? Ou vão contratar os mesmos do Hamas que lá andam agora (agora, depois do grande e dourado trump-acordo) para assegurarem a segurança das obras, com ordem para darem um tiro na cabeça de qualquer operário palestino que levante cabelo?

Tudo isto faz-me muita confusão. Tenho para mim que as coisas não existem de forma estável sobre terra de ninguém. 

Ou estarão a pensar que é sustentável uma solução em que prevalecerá a lei do farwest, a lei da bala, em que os conflitos serão resolvidos a tiro? Ou ninguém quer saber disso pois o que importa é que, para já, se criem condições para transformar Gaza na Riviera trumpista -- e essa cena desagradável dos dois Estados e etc. que se lixe?

Gostava de não ser tão céptica pois desejo muito sinceramente não vir a ter razão. Desejo muito sinceramente que a paz e a concórdia se instalem naquele território e que o lei e o mel se derramem sobre o solo de Gaza, que jamais se misturem com sangue.

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Apenas um pequeno excerto do nível

Trump on Jared & Ivanka: “She Converted for Israel, It’s Incredible” | Abraham Accords Insight | APT

In a candid moment during his speech, US President Donald Trump reveals that his daughter Ivanka converted, sharing a personal insight while discussing the Abraham Accords and his efforts in fostering peace in the Middle East. Trump praises Ivanka and Jared Kushner’s contributions, highlighting the unique family connection to the historic peace process.


Inenarrável

sábado, agosto 09, 2025

Sobre a Guerra Rússia – Ucrânia"
-- A palavra ao meu filho --

 

Veio o segundo pedido, escrever sobre a Guerra Rússia – Ucrânia. 

Sendo este um texto pessoal, que expressa unicamente a minha opinião, há duas premissas de partida:

1) Culpo o governo e aparelho militar da Rússia, liderados pelo Putin, por terem iniciado uma Guerra que causou uma enorme destruição, muitas mortes civis e militares, e uma desestabilização do mundo. Provocar a morte nunca é desculpável e sobre o Putin recai essa culpa.

2) Este é um tema de enorme complexidade e, na minha opinião, a única verdade objetiva é a do ponto 1). Tudo o resto é o reflexo das últimas sete décadas de história mundial. Não sou historiador, não me preparei especialmente para este texto, não tenho uma equipa de pesquisa a trabalhar para mim, pelo que assumo desde já a superficialidade e subjetividade das minhas palavras.

Gostaria de neste texto de explorar três pontos que me parecem fundamentais para esta Questão.

1) Este conflito é um acontecimento isolado de um contexto recente?

2) Este conflito resulta da loucura imperialista do Putin?

3) A Ucrânia é inocente neste conflito?

Estabelecido o ponto de partida, vamos ao primeiro ponto. 

A sociedade foi-se interligando progressivamente ao longo dos últimos séculos, até se consolidarem dois grandes blocos geopolíticos: o Ocidental, orientado pelos princípios dos Direitos Humanos e pelo modelo capitalista, e o Oriental — ou de Leste — geralmente associado a regimes autocráticos e socialistas. Esta divisão é, naturalmente, uma simplificação excessiva, mas pode servir como ponto de partida para uma reflexão mais profunda.

A sua simplicidade é particularmente problemática porque, apresentada desta forma, estabelece logo dois lados — os "bons" versus os "maus". Por exemplo, a suposta virtude dos Direitos Humanos no Ocidente pode ser posta em causa quando se confronta com as contradições internas do liberalismo capitalista, que frequentemente sacrifica comunidades inteiras em nome da eficiência económica e da manutenção do sistema. 

A emergência e solidificação destes dois blocos resultou em alianças complexas e uma política permanente de tensão que teve altos e baixos, mas que se manteve latente, umas vezes mais global (auge da Guerra Fria) outras vezes mais episódicos e contidos (exemplo, Guerra da Síria).

Os Estados Unidos, enquanto potência dominante do bloco Ocidental, estabeleceram a doutrina de que a sua posição hegemónica exige acesso e controlo contínuo dos principais recursos estratégicos, essenciais para sustentar a sua economia e a dos seus aliados. O petróleo tornou-se o símbolo mais evidente dessa lógica, e muitos dos conflitos no Médio Oriente podem ser interpretados à luz desta necessidade geoeconómica.

A União Soviética — e posteriormente a Rússia — partilhou dessa mesma visão. A sua atuação em várias regiões, nomeadamente em África, revela uma ambição semelhante, marcada por uma voracidade estratégica sobre recursos e zonas de influência.

A tensão resultante desta pressão económica e politica sobre pontos críticos do planeta, associados ao antagonismo de ideais políticos, levou a um estado de permanente tensão militar com momentos de libertação de energia vulcânica naquilo que ficou conhecido por guerra por procuração por um lado, e por outro por operações secretas-militares altamente impactantes (caso do Chile por exemplo).

Este contexto global, marcado por disputas de poder, recursos e ideologias, parece-me ser um elemento fundamental para compreender o conflito na Ucrânia. Não se trata apenas de uma guerra territorial, mas de um episódio dentro de uma longa narrativa de confrontos sistémicos.

Os dois blocos antagonistas desenvolveram um arsenal nuclear de milhares de ogivas com capacidade de obliterar, muitas vezes, a população humana. Ainda esta semana ouvimos falar do paradigma Mão Morta, da Rússia, que assegura uma resposta imediata de aniquilação caso se dê o primeiro ataque.

Enquanto sociedade, vivemos em constante alerta perante ameaças como o aquecimento global, pandemias como a COVID-19, a proliferação de microplásticos, ou até a chegada da vespa asiática. No entanto, ignoramos com surpreendente leveza que, à distância de alguns códigos e botões, reside a possibilidade do nosso fim — não apenas o nosso, mas o dos nossos vizinhos, das futuras gerações, e de toda a espécie humana. Esta é, paradoxalmente, a maior ameaça à nossa sustentabilidade enquanto civilização: uma ameaça autoinfligida, nascida da nossa própria engenharia e ambição.

Parece ficção científica, mas a História mostra que já estivemos perigosamente perto dessa linha vermelha. O exemplo mais célebre é a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, quando a União Soviética tentou instalar ogivas nucleares na ilha caribenha, a meros 150 quilómetros da costa dos Estados Unidos. Esta ação foi uma resposta direta à instalação prévia de mísseis americanos na Turquia, junto à fronteira soviética. Ambos os lados acabaram por recuar, removendo os mísseis e afastando-se das fronteiras adversárias — uma decisão prudente que evitou o colapso global.

Ora esta psicose, este receio de aniquilação que foi, pelo que leio, algo muito palpável nos anos 60 no auge da guerra fria, hoje é praticamente inexistente, por habituação, mas também porque depois das ameaças ficou o conforto de entender que em geral impera a razão (diria que a destruição mutua garantida é equilibrada pelo mais básico instinto de sobrevivência, o código mais primário do nosso DNA). Parece-me até que esta psicose foi substituída pela ideia de que esta ameaça não é credível e as armas nucleares são peças de museu, como as réplicas do Sputnik.

Mas a verdade é que o equilíbrio nuclear continua a ser uma força poderosa que molda as relações entre estes países e, em geral, entre os dois blocos. Claro que perdeu protagonismo em face das relações económicas e comerciais, diplomacia, e todas as outras formas de soft power (que Trump agora tenta destruir).

É neste enquadramento que chego ao primeiro ponto da minha tese: a guerra na Ucrânia não é um acontecimento isolado, nem fruto exclusivo do contexto atual. Trata-se, antes, de mais um episódio de elevada tensão entre dois blocos que há décadas se confrontam. A Ucrânia tornou-se, neste caso, o palco onde se projetam forças que transcendem o território e o momento histórico específico – uma guerra por procuração.

O segundo ponto decorre diretamente do primeiro: não considero que esta guerra seja simplesmente um ato de loucura desvairada por parte de Vladimir Putin. Essa leitura, embora compreensível, ignora a complexidade do cenário geopolítico. O conflito parece ser, antes, o resultado de uma pressão externa crescente sobre uma fronteira sensível, que gerou uma escalada de tensão interna — especialmente dentro do aparelho militar russo. A decisão de invadir a Ucrânia, por mais condenável que seja, inscreve-se num padrão histórico de reação estratégica, ainda que profundamente destrutiva.

Nas palavras de Mário Soares (um insuspeito aliado dos EUA contra a influência que vinha de Leste) num artigo sobre a Nato na Visão: “A NATO, criada como organização defensiva, no início da guerra fria, está a tornar-se, por pressão dos neoconservadores americanos, uma ameaça à paz.” E acrescentava “E a NATO, cercando a Rússia e instalando na Polónia e na República Checa bases de misseis, começa a ser uma ameaça para a Rússia, que a pode tornar agressiva. Um perigo!”. E por fim “Cheney foi à Ucrânia, onde tentou também dividir os dirigentes políticos, (…) Tudo em nome da Nato.”

Não são por ser do Mário Soares que estas palavras se tornam em verdade absoluta. Mas é conhecimento histórico do final do século passado e início deste, que a Rússia abatida e humilhada, foi sendo sucessivamente pressionada pela EUA como forma de solidificar a sua hegemonia, o seu papel de única e indiscutível potência. Do ponto de vista económico e de influência política os EUA conquistaram de facto esta posição. Faltou o lado militar.

A Rússia de Putin sabe-se que adotou muito dos princípios da Doutrina Primakov, de multipolaridade como eixo central e da Rússia como a potência com enorme influência Euroasiática. O BRICS é um acrónimo que simboliza isso mesmo, um mundo multipolar onde o Ocidente não detém o monopólio da liderança.

Esta doutrina e esta postura é tao aceitável ou criticável quanto o são as estratégias idênticas dos EUA e da China. No caso da Rússia é quase um mandato de sobrevivência e preservação de um estatuto outrora inquestionável. Ao que parece, os russos têm uma nostalgia da Rússia imperial, de Rússia motherland. um símbolo de orgulho e de grandeza perdida.

Se aceitarmos esta leitura como credível, podemos então estabelecer a base para o segundo ponto da tese: a aproximação progressiva da NATO às fronteiras russas foi interpretada por Moscovo como uma ameaça existencial e uma humilhação estratégica. A resposta russa — militar e política — visa reafirmar o seu estatuto de potência que não se deixa intimidar, e que detém o maior arsenal nuclear do planeta.

O poder militar, e em particular o nuclear, tornou-se o último bastião do estatuto da Rússia como potência mundial. E essas mesmas armas estão no cerne da tensão entre a NATO e a Rússia no contexto ucraniano. A guerra, neste sentido, pode ser vista como uma fuga para a frente por parte de Putin — não um ato de loucura irracional, mas uma decisão deliberada e planeada, nascida da pressão interna e da perceção de cerco externo.

Este segundo ponto, sobre Putin, é uma tentativa de entender, não desculpar. Porque perante esta pressão haveria outras hipóteses, nomeadamente diplomáticas, de deterrence baseada em ameaças. 

Esta Guerra não é desculpável por nenhum dos parágrafos anteriores, apenas é mais entendível. 

Quanto ao terceiro ponto, a inocência ou não da Ucrânia, importa analisar a relação da Ucrânia com a Nato. 

Primeiro ponto, a Ucrânia pode juntar-se à Nato? 

Pode querer juntar-se à Nato! Mas a Nato não a pode aceitar!

Porquê? Porque o equilíbrio que se estabeleceu, voltando ao tema das armas nucleares, requer zonas de tampão, zonas neutras. A colocação de armas nucleares na proximidade das fronteiras resulta num risco acrescido para a Potência alvo. E a Ucrânia, com as suas planícies, é a auto-estrada para a invasão terrestre da Rússia, desestabilizando ainda mais o equilíbrio.

Por ser evidente esta necessidade de equilíbrio, diversos líderes ocidentais prometeram, em declarações públicas, que a Nato não se expandiria para a leste depois da queda do Muro de Berlim 

Mas não me parece que a responsabilidade de manter a Nato fora da Ucrânia recaia sobre a própria Ucrânia, e como tal não a culpo de lutar pelos seus interesses. Também não me parece que seja culpada por lutar pela sua independência e pela soberania da totalidade do seu território prolongando a Guerra. Creio que esse é o seu direito e quiçá dever.

Mas ponho em causa um desejo bélico incontrolado dos aliados ocidentais, que animados pelo lobby militar, continuam a enviar armas e fogem da solução diplomática. Curiosamente só Trump tentou realmente uma solução de paz, sem sucesso. E, enquanto cidadão do mundo, parece-me um mal menor a Ucrânia perder território a leste versus o prolongar e escalar um conflito com consequências globais e riscos de dimensão incalculável.

Portanto, procuro estabelecer três ideias:

1) A guerra na Ucrânia não é um acontecimento isolado no tempo. É mais um episódio de elevada tensão entre dois blocos que se enfrentam há décadas, num conflito que se inscreve na lógica de guerra por procuração, com repercussões globais em múltiplas dimensões — económicas, políticas e humanitárias.

2) Não considero que esta guerra seja fruto de uma loucura imperialista de Vladimir Putin. Trata-se, antes, de uma ação deliberada, orientada pela tentativa de recuperar o estatuto da Rússia como potência mundial. A invasão da Ucrânia é, nesse sentido, uma resposta estratégica — ainda que profundamente condenável — à pressão externa e à perceção de cerco por parte da NATO e dos seus aliados.

3) A Ucrânia e o seu povo são, indiscutivelmente, as grandes vítimas deste conflito. Não encontro razão nos argumentos utilizados para justificar a agressão. A tese do “nazismo” ucraniano não tem fundamento, e não há evidência sólida de perseguições sistemáticas contra cidadãos russófonos no leste do país. O tipo de guerra que Putin escolheu travar é moralmente indefensável, e a sua inclinação para a destruição evoca um passado sombrio que não deve ser revivido.

Em resumo, não podemos ignorar o papel que os EUA, a Nato e os aliados no geral, têm na provocação à Rússia, que, qual urso ferido, se tornou perigoso. Mas não sendo Urso e sendo um sistema de pessoas, haveria outro caminho para a Rússia – o caminho escolhido não tem desculpa. No entanto, aqui chegados, para sair desta situação não basta à Rússia recuar, também o bloco ocidental tem de fazer concessões que permitam restabelecer a integridade do equilíbrio e à Rússia evitar a total humilhação.

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Nota de minha lavra a propósito do texto acima, escrito pelo meu filho

Levou algum tempo, ainda por cima com alguns aniversários e casa cheia pelo meio do habitual muito trabalho, mas o meu filho lá conseguiu arranjar tempo para escrever o texto que eu lhe tinha pedido. Mais uma vez, enviou-me o que acabaram de ler desafiando-me e questionando se haveria lápis azul. 

Não, mais uma vez não há. Primeiro, porque não teria que haver, é a sua visão das coisas, e é livre de a ter. Segundo, porque concordo com o que ele aqui escreve. É certo que sou um pouco mais linha dura que ele pois, em abstracto, penso que não deveria ser preciso muito para fazer vergar Putin, obrigando-o a recuar. Bastaria, pela via negocial, conseguir que, por exemplo, a China deixasse de abastecer a Rússia. Mas, claro, entre a abstracção e a realidade vai um mundo de oportunidades perdidas: à China também não lhe interessa enfraquecer a Rússia, deixando que o bloco ocidental cante demasiado de galo. Também alimentei durante bastante tempo a esperança de que o assunto se resolvesse dentro das portas da própria Rússia -- mas também já se viu que Putin está bem blindado, inclusive a nível de opinião pública interna. Portanto, também a esse nível, não consigo ver qual a melhor solução (e, por melhor solução, leia-se a mais justa, a mais decente, a mais segura para o mundo, e, simultaneamente, a possível) e, portanto, também a esse nível não me arrisco a contestar o que ele escreveu, alvitrando alternativas.

Em suma, considero que o texto que o meu filho escreveu está excelente pelo que nada tenho a ressalvar.

Quando acabei de ler, fiz-lhe mais um pedido: que se pronuncie sobre a posição do PCP em relação a este assunto. Gostava de conhecer a sua abordagem pois sei que é sempre racional, que enquadra bem os assuntos. Mas aí não sei se serei bem sucedida já que me respondeu o seguinte: "Essa não escrevo, pois seria uma discussão mais de comunicação do que de conteúdo". E pronto... Mas irei tentando, prometo...

Por estes dias em que Putin e Trump, essas duas sumidades, andam a tanguear o mundo com as suas erráticas conversações sobre este conflito, por acaso gostaria que as Estátuas de Sal desta vida e seus fervorosos seguidores lessem o texto do meu filho  -- e dissessem de sua justiça.

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Desejo-vos um bom fim de semana

quinta-feira, junho 26, 2025

Isto é o que realmente interessa

 

Vi o vídeo que aqui partilho com particular agrado. Revejo-me em muito do que Annie Norgarb ali diz. Não na parte em que diz que passou grande parte da vida a fazer e a ser como os outros esperavam, esforçando-se por não desagradar, mas na parte em que diz que gosta cada vez mais de estar em contacto com a natureza, na parte em que diz que a vida é como remar até chegar ao outro lado, e isto em todos os sentidos, e na parte em que diz que gostaria de passar para o outro lado com calma, na boa. 

Não posso dizer que nunca fiz coisas contrariada. Fiz. Por exemplo, quando os meus sogros ou os meus cunhados combinavam almoços ou jantares em restaurantes que, segundo eles, eram muito conhecidos e muito bons, eu ia para não ser desmancha-prazeres, mas ia antevendo que era um dia que ia às malvas. Fazia um esforço para parecer bem disposta mas, por dentro, ia mais do que contrariada. Geralmente os restaurantes estavam a deitar por fora. Primeiro que fossemos atendidos era um castigo. Os meus filhos ficavam cheios de fome, impacientes. Chegávamos a um ponto em que as crianças já se portavam mal por todo o lado, os meus sobrinhos mais pequenos choravam, já todos embirravam uns com os outros.

Alguns, começavam a pedir bebidas antes de começarmos a ser atendidos e, portanto, parece que nem davam pelo incómodo das crianças. O tempo passava e a comida não vinha. Depois, quando vinha, como éramos muitos, era uma confusão. Uma confusão a pedir, uma confusão à mesa com meio mundo a querer provar o que os outros tinham pedido, a trocarem coisas uns com os outros. Depois uns eram especialmente vagarosos, e estavam ali numa de degustar. Era quatro e tal da tarde e ainda estávamos à mesa. Quando parecia que tínhamos acabado, havia quem passasse aos digestivos e aí iniciava-se uma nova e demorada fase. Depois, ao fim de muito tempo, finalmente lá vinha a conta, sempre uma verba astronómica mas que era impossível de conferir pois, pelo meio, toda a gente tinha pedido mais um pouco de cada coisa, no conjunto parcelas que não acabavam. Podia ser aquilo ou metade daquilo. Pagava-se e pronto. Mas eu gosto de coisas rigorosas. Por isso, ficava azul de largar uma nota preta sem fazer a mínima ideia se estava correcto. Saíamos de lá tardíssimo. E, não raras vezes, a cena dava-se em lugares que não eram propriamente à beira de casa. Lembro-me, por exemplo, de uma ida à Sopa da Pedra em Almeirim, aí incluindo também primos, uma confusão indescritível, ou a um cozido em broa em Sintra num restaurante numa aldeia em que só começámos a almoçar depois das quatro da tarde. Intimamente sentia-me desvairada e estafada pois perder um sábado ou um domingo daquela maneira não era o que eu mais desejasse, mas aguentava de boa cara, fazia um esforço sobre-humano para não espumar, para não invectivar ninguém, para parecer que aquela também era a minha praia. Tudo porque não era capaz de dizer que não contassem comigo. Mas, enfim, a vida também é feita de alguns fretes.

A nível profissional também fiz alguns. O pior eram reuniões, não conduzidas por mim mas por alguém que gostava de fazer render e que deixava que se arrastassem por infindáveis horas sem que nada se resolvesse. Horas e horas a mastigar, sem engolir. Eu a ver as horas a passar, a querer ir para casa, e aquilo sem acabar. Por vezes mostrava alguma impaciência mas era obrigada a acatar o ritmo de quem conduzia a reunião. Lembro-me, em especial da ansiedade em que ficava quando os meus filhos ainda eram pequenos ou adolescentes e eu queria ir buscá-los à escola, estar com eles, queria fazer o jantar a horas... e nada, aquilo não atava nem desatava. Se calhar, não podia mesmo levantar-me e dizer que me recusava a dar mais para aquele peditório. Acho que não podia mesmo fazer isso. Mas foi tempo de vida que queimei a aturar pessoas que não sabiam conduzir reuniões ou tomar decisões. Não foi para agradar, foi apenas porque seria impensável desacatar a hierarquia, seria algo que irremediavelmente teria consequências, e não seriam boas.

Mas, tirando coisas assim, não tenho ideia de ter contrariado a minha natureza para agradar aos outros.

Mas, tirando esse aspecto, coincido muito no que a Annie Norgarb diz, no gosto das coisas simples, no prazer no contacto da natureza, na compreensão de que não vale a pena complicar e na vontade de que, quando o fim se aproximar, ir na boa, sem me agarrar a uma vida que irremediavelmente um dia se extinguirá.

Do que mais me custou nos últimos tempos da vida da minha mãe foi na sua total negação, na sua recusa em aceitar que o fim estava para breve, na forma desesperada como se agarrava à vida. Não aceitou que estava doente, escondeu-o, não quis tratar-se, teve medo dos tratamentos, e, sobretudo, não quis aceitar que o fim da linha estava prestes a ser cruzado. Estava numa angústia terrível e nunca permitiu que o tema fosse abordado. Gostava de ter podido dizer-lhe que partisse em paz, que nós ficaríamos bem e que ela iria descansar. Gostava de ter podido serená-la. Mas não foi possível. Ela queria viver e, sobretudo, queria viver com a qualidade de vida que teve até tarde. Eu gostava de, quando chegar a minha vez, encarar esses momentos com maior racionalidade, com tranquilidade, com aceitação. A forma como Annie Norgarb fala disso, sorrindo, agrada-me.

Mas não é só disso que ela fala. Fala de despojamento, fala de simplicidade. E alimenta os passarinhos, os patos, o pavão, os seus três cães. Passeia, acarinha as flores, desfruta da paz de existir.

É um vídeo muito bonito. (Dá para pôr legendas em português).

It took me 80 Years - Life Lessons I Wish I Knew Earlier - HERE'S WHAT MATTERS

Time, when approached with gentleness, doesn’t have to be something we resist. It can become a steady companion, offering a quieter kind of beauty — one that isn’t about appearance or achievement, but about depth and authenticity. As we grow older, our priorities shift, our understanding deepens, and there’s often a greater sense of ease in simply being who we are.

The passing years don’t take away who we are, they often bring us closer to it. Rather than chasing youth or regretting its passing, there is value in settling into ourselves more fully. When we stop measuring life by what we should be or do, we begin to recognise the richness of where we already are.

Featuring Annie Norgarb.

Filmed in McGregor, South Africa. 


Desejo-vos dias felizes

quarta-feira, junho 04, 2025

Isto é sobre uma história de amor

 

Às vezes acredito em coincidências. Outras vezes acho que qual coincidências, qual carapuça, o que se passa é que ele há coisas

Se o Instagram e o Blogger estivessem associados a uma plataforma comum, poderia dizer que o algoritmo caçava coisas num lado para influenciar ou impressionar noutro. Mas não é o caso. O Instagram é Meta e o Blogger é Google. Não se contagiam. De resto, não é a primeira vez que ando com uma em mente, sem deixar pistas no google, e, ao abrir o YouTube, me aparecem vídeos justamente relacionados com isso. Parece que o caraças do algoritmo do youtube consegue captar-me os pensamentos.

Hoje, como tantas vezes acontece, andava imersa na natureza, a sentir-me feliz, em paz, parte integrante do lugar, não mais importante que os pássaros, não mais relevante que os bichos que por ali andam, aspirando o ar limpo e perfumado, sentindo que sou abençoada por me ser dado sentir tão benfazeja comunhão, sentindo-me humilde, efémera, um conjunto de partículas que o acaso mantém unidas até que um dia se dispersem e se agrupem com outras, quaisquer, talvez provenientes de flores, de borboletas, de raios de luz, de musgos. 

Fiz um vídeo que publiquei no feed do Instagram sobre o cedro que caiu e que ainda ali está, enorme, digno, verde, belo. E fiz um outro, que publiquei numa story, sobre uma flor que parece um pompom (esta aqui ao lado) e disse que não tarda que se desfaça e fique a pairar, podendo eu respirar partes dela, flores dançando dentro de mim. 

Sinto-me feliz ao andar por ali, por pensar e dizer coisas assim -- mas não me alieno a ponto de não perceber que o mais certo é que quem me ouve ache que tenho uma pancada, e das grandes, nesta minha cabeça. Mas, como isto é inócuo, não sinto necessidade de disfarçar. Sou muito autêntica no que escrevo e no que digo.

Por exemplo, ao aproximar-se da casa, de longe, vi um losango dourado, flutuante. Achei maravilhoso, uma aparição. Não percebia o que era, mas adorei. Sou míope. Por isso, de longe a minha visão é impressionista. Quando cheguei mais perto, percebi que era a luz a incidir no tronco de uma azinheira. Achei lindo. A natureza, a luz, a sombra, as mutações cromáticas, as texturas -- tudo me parece arte, tudo me parece beleza.

Depois pensei: mas a casa e a azinheira estão aqui desde sempre; como é possível que eu nunca tenha visto isto? A verdade é que não. Se calhar, a esta precisa hora, nesta altura do ano, nunca me aproximei da casa por este lado. Parece-me pouco provável mas nunca antes tinha visto esta figura geométrica de luz sobre o tronco da árvore. Ou, então, os nossos olhos nem sempre veem o que está disponível para ser visto -- e hoje eu estava disponível para ver a luz que se concentrava no tronco e se espraiava pelo chão, nessa direcção.

Pois bem. 

Andei nisto e, depois, ao cair do dia, andei nas minhas regas -- ando de mangueira, rego e rego e rego --, depois jantei, vi um bocado de televisão, e, ao ligar o computador, fui ver os mails e espreitar as notícias e, de seguida, abri o youtube. 

Logo à cabeça, o vídeo que aqui abaixo partilho. Ao vê-lo, pensei: caraças, até parece que tinha visto este vídeo antes de fazer os meus. Como é isto possível? Como é que, logo hoje, depois de ter publicado aqueles meus vídeos, me aparece isto aqui?

Mas, depois da surpresa, estupefacção mesmo, fiquei contente. 

Não tinha dúvidas, sabia que aquilo de que abaixo se fala é mesmo verdade, mas gostei de o ouvir dito por uma cientista, gostei de ouvir dito como ela o diz. 

O vídeo está legendado. E é um prazer. Espero que também gostem.

Nature Isn't a Place - It's Who You Are | Laurence Nachin | TEDxGöteborg

When was the last time you "visited" nature? What if that whole concept is based on an illusion? Laurence Nachin reveals why our separation from nature might be the biggest myth we've ever created.

Discover how breaking down the illusion of separation from nature could be the key to creating a more joyful and sustainable future for all. From microscopes to mindfulness, Laurence's journey from completing her PhD in microbiology and cell biology to becoming a nature-based facilitator offers a revolutionary perspective on our relationship with the natural world. She demonstrates how we're constantly connected to other living organisms, whether we're in a forest or a city office. As the founder of Sense in Nature, Laurence helps organizations make nature their business partner, showing how this connection boosts wellbeing, creativity, and pro-environmental behaviors. Her insights reveal how acknowledging our inherent connection to nature isn't just about environmental awareness - it's about becoming fully human again. 


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Dias felizes!