Onde eu hoje estive, o que vi e ouvi, está acima e abaixo do que posso aqui dizer. Se eu pudesse descrever, e não posso, poderia algum cineasta passar a coisa a filme e, consoante o ângulo, assim seria obra do mais puro surrealismo ou realismo fantástico ou realismo trágico ou comédia da melhor.
Gostava de contar pois acho que aquilo puxa pela minha veia de escrevinhadora. Não sei que personagem elegeria para artista principal pois poderiam ser três. Um poderia encarnar o cristo ressuscitado. Morto, morto, morto de vários dias. Coisa mais louca. Vim desalinhada de mim própria tanta a coisa estranha e fora do comum mundo dos mortais que presenciei. O que me ciceroneou estava muito nervoso e isso manifestava-se no gaguejar e na forma ansiosa como aspirava o ar, quase engolindo a máscara, enquanto os olhos se esbugalhavam na minha direcção, certamente sem saber se sairia vivo daquela provação.
Mas como não posso contar, é com esse filme em subconsciente, que aqui estou. Só espero é que daqui por algum tempo ainda guarde memória desta experiência limite para dar largas ao meu gosto de escrever sobre bizarrias verídicas que todos tomam por ficções amalucadas.
Aqui chegada a casa ainda fomos ao supermercado, estava com falta de bacalhau e queria também comprar corvina (anda a apetecer-me uma boa sopa de tomate com corvina e ovo escalfado) e mais uma ou outra coisita, nomeadamente um baton, e o meu marido queria comprar pellets, mas, se eu tive sorte, ele não. E vi lá uma embalagem que dizia: 'os nossos delicioso pastéis de nata' e, então, a sair que estou do meu período de doença incompreensível que até o apetite me retirou, perguntei-lhe: 'queres uma embalagem de deliciosos pastéis de nata?' Ficou admirado com os termos da pergunta mas disse: 'pode ser'. E, portanto, depois de jantar, aquecemos um pastel para cada um e chamámos-lhe um figo.
E é isto. Estou manietada e sem saber de que falar. Claro que poderia falar do teste positivo de Marcelo. Ainda bem que está assintomático e desejo que assim se mantenha. A minha mãe, que anda irritadiça com os confinamentos, apetecia-lhe sair, conviver, e como, com isto, não pode, dizia-me hoje à hora de almoço: 'esses estúpidos que não têm cuidado nenhum é que fazem isto, estúpidos, andam sem máscara, estúpidos'. Tive que lhe lembrar que não são só os estúpidos que andam sem máscara, é também a Graça Freitas, é a mulher do Macron, é gente por todo o mundo que, apesar de bem informada e cuidadosa, aparece contagiada. O corona é uma besta desencabrestada. Pior: não é uma besta, é uma manada de bestas desencabrestadas, aos pinotes.
Acumulado de casos à data de 11.Jan.2020
Acumulado de óbitos à mesma data
O crescimento acentuado e a inclinação das curvas falam por si. Adiante.
Abro o Youtube a pensar: deixa lá ver o que é que essa grande bicha, a prima algoritma do Youtube, hoje tem para me animar e para me salvar a dia blogosférico. E foi na mouche.
Ferreira Gullar fala de Vinicius e é coisa gostosa de ouvir
Chico, coisa mailinda, sorriso tímido a iluminar os seus belos olhos d'água, conta o medo que sentia perante Clarice, mulher bela, cheia de mistério, alheia às aflições alheias. E conta sobre o jantar onde foi, a convite de Clarice, e, para o qual, para se sentir mais apoiado, levou dois amigos, ambos igualmente intimidados. Mulher bonita intimida. Mulher bonita e inteligente intimida ainda mais.
Para que serve a poesia?, perguntarão alguns. Imagino que muitos tratados já terão sido escritos sobre isso, muitas teses já terão sido expostas enunciando hipóteses, desfiando certezas. Eu não sou de sabedorias ou certezas e, nisto das poesias, sou mais de sensações. Não sei interpretar nem dissertar. Sou mais de gostar ou não gostar, de me soar ou não bem. Os meus instintos prevalecem sobre a razão -- quase sempre na vida e, na poesia, sobremaneira. Tenho que ali sentir uma toada que me toque, tem que haver a elegância da palavra subtil, tenho que sentir que o silêncio predomina, tenho que sentir que há o vagar da destilação gota a gota, e que, do que se vai produzindo, se evola o perfume e a luz dos momentos sagrados.
E, depois de o ler ou ouvir, algumas cordas em mim deverão continuar a vibrar sem perceber que isso acontece porque, sem dar por tal, me reconheci na palavra que me define ou que define o que sinto.
Cada vez estou mais exigente. E nem sei se diga exigente se experiente. Não, experiente talvez não. Talvez mais privada nos meus gostos. Coisas cá minhas. O que dantes me parecia uma combinação feliz de palavras para descrever um sentimento ou uma impressão, agora, muitas vezes, parece-me coisa banal, forjada, forçada, procura de efeito fácil.
Outras vezes, poemas de poetas aclamados que leio em versão portuguesa parecem-me exercícios de escrita descuidada, sem melodia ou emoção, tradução infantil ou apressada, agarrada a uma gramática acéfala. Por exemplo, em geral, não consigo ler poemas traduzidos por Ana Luísa Amaral ou Frederico Lourenço. Dá ideia que traduzem palavra a palavra sem terem a sensibilidade necessária para captar o estado de espírito e a intenção de quem os escreveu no original. Aliás, para não correr o risco dessas desatenções desagradáveis, evito ler poemas em português de poetas estrangeiros. Acho que não há muitos tradutores capazes de me cativarem na tradução de poesia. Talvez haja um ou dois. Casos raros, especialíssimos. Um muito em particular. Not a private dancer, a dancer for love, mas um private translator. É um trabalho de minúcia, de relojoaria, de bordado fino, um trabalho feito com desvelo e em busca da nota perfeita, a nota de som, a nota de perfume.
Pode acontecer que um poema, instintivamente, brote como água pura de entre as pedras e as palavras sejam límpidas e perfeitas. Palavras ditadas por um misterioso deus. Mas pode também acontecer que, depois de desbastada a pedra, haja ainda um fino trabalho de limar, de afagar, de amaciar. O amor dos amantes perfeitos.
E poetas portugueses, actuais, vivos, também os não há em quantidade. Tenho o privilégio de, com grande assiduidade, ler poemas de um poeta que me encanta: tem um blog e, portanto, não sou a única privilegiada. Apetecia-me puxar para aqui alguns dos seus poemas, tecelagem amorosa, toada cristalina. Mas não o faço. Receio macular a beleza das suas palavras. Ali respiram a luz e o silêncio que habitam aquele lugar. Há nelas uma pureza branca que pousa no meu coração e que, sinto sem sombra de dúvida, ali ficam a cintilar. É o que se espera da poesia de verdade.
E talvez, no fundo, seja isso que faz com que eu goste de um poema -- sentir-lhe a verdade, que é como quem diz as suas vísceras.
E talvez seja para isso que, afinal, a poesia serve: para que nos sintamos felizes, especiais, únicos, por conseguirmos tocar a verdade, essa coisa tão íntima, de outra pessoa.
Em vez de poemas desse Poeta especial, coloco antes um poema (do qual também extraí o título deste post) de um poeta da língua portuguesa e dito por uma pessoa que o sabe dizer com a contenção e simplicidade de que a poesia precisa:
Ausência de Viniciu de Moraes dito por Marília Gabriela
(...)
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Chegamos ao Natal debaixo de um outono ensolarado. Ouvi que no propriamente dito dia vai estar de chuva mas, por enquanto, há sol e passeei debaixo de um límpido céu.
Lembrei-me hoje de um dia, mil anos atrás, em que também estava sol e frio. Lembro-me da boneca que recebi nesse Natal. Mais tarde a minha mãe haveria de lhe fazer uma saia de fazenda aos quadradinhos azuis e brancos e uma camisolinha de malha canelada branca e é assim que eu me recordo dessa boneca. Não me lembro do nome que lhe dei. Só me lembro que tinha cabelo comprido louro e tinha um rosto que não era bem de boneca embora tivesse feições delicadas. Fiquei orgulhosa por ter uma boneca tão invulgar e tão linda.
Recebia os presentes no dia de Natal, de manhã, junto ao sapatinho que deixava na véspera junto à chaminé, e era o Menino Jesus que mos dava. Depois fomos almoçar a casa dos meus avós paternos e, claro, levei a minha boneca nova.
Do outro lado da rua da casa da minha avó morava a avó de uma colega minha da escola infantil. Era uma menina chinesa. O pai tinha estado numa missão em Macau e veio de lá com essa filha. Depois casou com uma das educadoras da escola onde eu andava, uma grande amiga da minha mãe. A menina passou a ser aluna da madastra.
Essa minha educadora era muito simpática e divertida mas, por algum motivo que ninguém compreendia (e em que a minha mãe, quando eu lhe contava, se recusava a acreditar) passava-se com a enteada e não apenas se zangava para além da conta como, frequentemente, lhe batia. Eu ficava consternada. Não compreendia o que desencadeava aquela violência sobre a minha amiga, sempre tão bem comportada e tão doce. Claro que ela tinha uma certa falta de vocabulário mas eu achava isso mais do que compreensível e não percebia como é que a minha educadora, sempre tão simpática, conseguia ser tão agressiva com uma menina tão querida.
Talvez por isso, a minha amiga era silenciosa e, por vezes, triste.
Penso que hoje ninguém consideraria admissível que uma educadora desse bofetadas numa criança em plena sala de aulas mas, nessa altura, ninguém dizia nada.
Nesse dia de Natal, pedi aos meus pais para ir visitar a minha amiga que eu sabia que estava a passar o Natal com o pai e a madastra na casa da avó emprestada.
Lembro-me bem. Estava sentada na cama do quarto onde ficava quando lá pernoitava. Tinha apenas um livro. Como ainda não sabia ler, estava a folhear, a ver os bonecos. Tinha um ar muito triste. Nunca falava da mãe excepto quando eu lhe perguntava. Dizia que não sabia dela, que, se calhar, tinha morrido. Vendo-a assim, ali sentada sozinha e apenas com um livro como presente, fiquei triste por ela. Pensava que, tivesse ela uma mãe de verdade, e haveria de ser mais feliz. Ia para lhe mostrar a minha boneca mas passei-a logo para os seus braços. Só vim de lá quando a minha mãe me chamou. Voltei cabisbaixa, com muita pena da minha amiga.
Anos mais tarde, essa amiga da minha mãe conseguiu finalmente ter filhos. Soube depois que chegou a pensar que não conseguiria. Talvez por isso sublimasse a sua frustração, sendo agressiva para com a filha do marido. Quando conseguiu ser mãe, adoçou em relação à enteada. Os miúdos gostavam muito daquela irmã mais velha, de rosto redondo, olhos rasgados e cabelo preto escorrido e ela era do mais carinhoso que há para com os seus irmãozinhos.
Quando vem o Natal, lembro-me muitas vezes daqueles para quem o Natal, por algum motivo, não é tempo de alegria.
Dantes eu não tinha máquina de café expresso em casa e, por isso, tomava-o na rua. Como nas vésperas de Natal me deito sempre tarde (como em todos os dias, mesmo sem ser Natal...) -- e no dia havia a 'cena' dos miúdos a verem os presentes, e depois era pôr o almoço ao lume -- só depois, geralmente já depois do meia-dia, é que conseguia ir ao café. Era um café muito grande que servia também refeições simples, como sopa, bitoque ou coisas do género. E fazia-me uma impressão terrível quando via algumas pessoas sozinhas a almoçarem ali, no dia de Natal. Reparava como as pessoas comiam de olhos baixos, talvez para não encararem os olhares das outras pessoas, quase como se estivessem envergonhados por estarem a almoçar sozinhos, no café, no dia de Natal. Aquilo era para mim muito triste. E, no entanto, não sei se era. Mas, para mim, sempre rodeada de amigos e família, era como se aquelas pessoas estivessem abandonadas e o meu coração sentia-se condoído por elas.
Em tempos, havia um rapaz com bom ar que eu via aqui na rua frequentemente alcoolizado. Fazia-me também muita impressão. Tão novo e naquilo, tão novo e sem que a família conseguisse impedir aquilo que parecia desenhar-se como um crescente vício. Uma vez, para minha surpresa, vi-o a fazer o papel de arrumador. Quando estacionei, ele veio pedir-me dinheiro e, como sempre, estava embriagado. Disse-lhe que não lhe dava dinheiro porque achava que ele não precisava de dinheiro mas de procurar tratamento. O rapaz ficou a olhar para mim meio atarantado e fez um gesto respeitoso com o boné. E eu fiquei a sentir-me estúpida por ter ousado pensar que sabia aquilo de que o rapaz precisava. O tempo foi passando e ele por aqui. Aos tombos, pedindo dinheiro a quem estacionava. A mim nunca mais me pediu dinheiro. Pelas companhias em que passou a andar percebi que se tinha tornado um sem-abrigo. Depois começou a andar com uma mulher mais velha, esquelética, com ar de alcoólica ou drogada, não sei. Deixou de ser um rapaz. De garrafa na mão, sempre. De vez em quando, passam-se grandes temporadas sem que o veja. Penso que estará a tratar-se ou penso que caíu de vez. Hoje, por entre aquele frenesim de entra e sai, promoções e luzes e cânticos de natal, quando ia a entrar no supermercado, reparei num homem já com a calvície a despontar e com o boné na mão, a pedir. Era ele. Fiquei cheia de pena. Não lhe dei esmola. Não sei porquê mas acho que iria ferir o seu orgulho (se é que lhe resta algum orgulho). Mas custa-me muito pensar no que aquele rapaz fez da vida dele. Tinha um ar saudável, andava bem vestido e agora está transformado num pedinte. Não sei que memória guardará ele destes seus anos de decadência. Talvez não guarde memórias. Penso: tomara que a família não o veja assim, o boné na mão estendida, nas ante-vésperas de Natal.
......................
Depois de andar a falar em presentes e compras e coisas do género, pode até parecer disparatado eu estar aqui hoje a falar de assuntos que não têm um smile estampado na testa, quando deveria talvez era estar a falar em preparativos para a festa.
Mas se o Natal tem algum significado -- e para mim é, sobretudo, um período de convívio familiar -- é nos que se sentem mais sozinhos e tristes que eu hoje penso. Ontem, o Um Jeito Manso teve quase 3.000 visitas. Talvez alguns desses meus Leitores também se sintam também sozinhos e tristes. Aliás, sei que sim. Alguns. E é para eles, em especial, que vão os meus sentimentos. Gostava que, de alguma maneira, as minhas palavras fossem o abraço que gostariam de ter. Não estão sozinhos.
(Não sei bem em que circunstâncias se usa a expressão 'a rasgar' mas, no contexto, parece-me apropriada).
À hora de almoço saí a estalar, o gps em acção que o destino era vagamente diferente do habitual e não podia arriscar-me a andar perdida: fui ver a festa de fim de ano lectivo do meu mais crescido que não foi na escola mas noutras instalações. Espigado, compenetrado e a desempenhar na perfeição o que era esperado dele, o orgulho e amor que senti justificaram o dia.
Foi ele que inventou o nome pelo qual hoje todos os meninos me chamam.
Ele, bebé, dizia o monossílabo e a minha filha um dia disse: eu acho que ele te está a chamar, que é o nome que ele te dá, porque só o ouço dizer isto quando estás cá em casa. Não acreditei. Era apenas um som dito e repetido por um bebé. Afinal o tempo provou que sim. Todo ele se ria e batia os pezinhos e os bracinhos, repetindo o que viria a tornar-se o meu segundo nome. Meu menino mais lindo.
Lembro-me tão bem quando ele nasceu. Eu no hospital, tensa, à espera. Depois, quando se resolveu, o pai da criança saíu, orgulhoso, e veio dizer que estava bem; e, logo a seguir, a médica veio ao berçário mostrar o bebé. E eu tive uma crise de alegria completamente fora de controlo. O meu marido estava a trabalhar. Liguei-lhe para lhe dar a boa nova. Queria dizer-lhe 'Já és avô'. Mas a emoção era tanta que, numa daquelas saídas bruscas de vapor que acompanham a descompressão, comecei a ficar com a voz embargada. Queria falar e não conseguia. Depois as lágrimas a rolarem. E ele 'Então? Já nasceu?' e eu queria começar a falar e não conseguia. Por fim, ao esforçar-me, ele percebeu que eu estava a chorar. Já aflito: 'Mas que foi? Aconteceu alguma coisa?' e eu pensava, caraças, que estupidez, estou a assustá-lo, e queria dizer aquela coisa tão simples 'Já és avô' e só chorava. Ele enervado 'Fala. O que foi? O que é que aconteceu? Diz.' Tive que fazer um esforço de superação, superação da parvoíce aguda, e tenho ideia que desisi de dizer a fórmula mágica e que me limitei a dizer, num sufoco, que já tinha nascido e estava tudo bem.
Mas, portanto, tanta alegria. Depois, quando ela saíu da sala de partos, sorridente, com a sua cria junto a si, foi outra vez a emoção à solta: ver a minha filha tão feliz, tão realizada, ver aquele bebé filho dela, foi maior felicidade do que quando a tive a ela. Entretanto, já passei por este estado de felicidade absoluta mais umas quantas vezes. Uma emoção penta-vivida. De cada vez, sempre a alegria da primeira vez. Cada um deles único, o primeiro, o meu amorzinho mais lindo.
Mas continuando: de tarde. E mais uma tarde de estalão. Coisas, coisas, coisas. Até um mail em que um artista me dizia que uma certa coisa já hesistia. Li aquilo, encolhida, arrepiada, aterrada. Pensei: ninguém merece. Depois, la está, descomprimi e dei uma valente gargalhada.
Ai que mundo diverso -- e por vezes desvairado -- que me traz, no mesmo dia, tantas emoções contraditórias.
Depois, ao fim do dia, caminhada. Passeio, conversa solta, descanso mental. Depois, fazer o jantar (pescadinha de anzol, batata doce que não comi porque ainda persisto na dieta, cenoura, feijão verde, cebola, ovo cozido) ... e, mais tarde, ao chegar à sala e, mais concretamente ao sofá, pimba. Caída a dormir. Que nem uma pedra. Ando mesmo estafada.
Quando acordei, dei uma volta pelas notícias e a única que me interessou foi uma sobre o que nos diz a forma como as fêmeas escolhem os machos com quem querem fazer sexo. Vi isto não num site pornográfico mas na National Geographic. Aí encontrei aquela bela expressão que Drawin usou: the taste for the beautiful. Essa ideia, que Darwin plasmou em palavras depois das suas observações, tem sido comprovada por várias gerações de cientistas. E é uma ideia que me é cara.
Também para mim, e *os feios que me desculpem, mas beleza é fundamental.
Se eu quiser definir a beleza neste contexto, e pensando nos homens que ao longo dos anos tenho achado atraentes e, em particular, naquele que me prendeu e que, desde há muitos anos, me traz presa (mas, calma, presa não pela trela mas pela liberdade), penso que talvez mais do que uma beleza clássica, perfeita, o que a mim mais me atrai é achar que será um bom parceiro sexual, é olhar e ver que ali está um homem capaz de uma boa pegada. Um bom reprodutor, portanto. E, portanto, com esta conclusão, percebo que, mais do que um ser racional, sou um simples ser animal, tentando garantir o prolongamento da carga genética, propagando-o através da descendência.
O meu marido que lê o que escrevo, chega a este ponto e deve achar normal que eu diga isto pois está farto de saber que é isto que penso (ou melhor dizendo... de mim já espera tudo). Os meus filhos, que também lêem, também já não devem estranhar mas talvez tenham dificuldade em ver os pais como uns meros animais reprodutores. Mas somos. É o que somos. De nós dois já nasceram eles os dois e deles os dois já nasceram mais cinco pessoas.
Dito isto, até parece que nesta escolha não há lugar para o romance. Mas há. Envolve-se o desejo básico, primordial, em sedução, jogo de olhares, jogo de palavras, envolve-se isso tudo em afecto, em compreensão --- e o romance está feito. Vai-se juntando tudo isso (e quantos mais ingredientes se juntam, maior será a animação) até a coisa ficar respeitável e duradoura. Mas é pela atracção sexual que tudo começa. Pelo menos, comigo é.
Já contei tantas vezes que já toda a gente deve saber de cor. Quando vi o meu marido e o achei altamente apetecível não sabia quem ele era nem como era. E, no entanto, pus o meu namoro da altura em risco e mostrei-me, sem pudor, apaixonada e disposta ao que fosse preciso, porque, no meu íntimo, sabia que não descansaria enquanto não o tivesse nos meus braços. Calhou bem que veio a revelar-se mais do que um belo corpo, mais que um belo rosto, mais do que uma bela maneira de andar. Mas foi sorte. E por isso tem perdurado.
E o que me encanta em tudo isto é pensar que pelo meu estouvamento, que me levou a seduzir e a deixar-me seduzir pelo rapaz mais bonito da faculdade quando namorava firme um outro, resultou esta família de que gosto tanto, filhos felizes que têm também famílias felizes. Fosse eu a menina ajuizada que supostamente deveria ter sido, e poderia ter constituido também uma família, mas não era esta e eu, hoje, parece que só sou eu porque os tenho a eles.
Bem.
Está aqui a querer parecer-me que a conversa vai meio maluca. Isto é do sono. Fico desestruturada das ideias. Daqui a nada tenho que estar a pé e não consigo puxar pela cabeça para falar de coisas mais espertas. Ainda por cima o supra citado artigo tinha pano para mangas (o facto de serem as fêmeas a escolher e os machos terem que andar a bandear-se junto delas a ver se lhes caem no goto, a cena diferenciadora do pato, etc,) mas o meu estado de depauperação anímica leva-me a ter que fazer ouvidos moucos aos apelos e a ter que me deixar ficar por aqui. Mais há mais dias.
Lembrei-me de trazer ao texto algumas pinturas com beijos (Toulouse-Lautrec, Chagall, Magritte, Klimt e Jean-Léon Gérôme) e, depois de o ter lá em cima em Eu não existo sem você, numa composição com Tom Jobim e com a voz da Maria Bethânia, vou terminar outra vez com aquele* poema de Vinicius:
Receita de mulher, escrito e dito por Vinicius de Moraes
Não confio em gente que cria passarinho em gaiola. Eu conheço essa dor. Tenho tantos sentimentos aprisionados dentro do peito, que nem lhe conto. Eles são tristes e sozinhos, mesmo assim, não sentem vontade nenhuma de cantar. Eu queria muito lhe comer com os olhos e lamber com a testa. Tenha dó. Faça festa. É dura a espera para os que têm fome. De que vale uma gaiola de ouro, se o passarinho não canta? O amor — eu já tinha ouvido falar nisso antes — é um fio desencapado.
Não confio em gente que conversa comigo olhando para os lados. A verdade está nos olhos, gracinha. Não insista. Não tenho lado. Um dia ainda me atiro inteiro em seus braços, baby.
Pode parecer um paradoxo, um conflito interior da maior magnitude, mas, eu não confio em gente que guarda rancor nos cofres da memória. Não minta pra mim, que meu peito não é de aço. Ele não possui chave nem segredo. Também sofro de injustiças, iniquidade e medo. Será que um dia eu cresço? Na minha idade, já devia demonstrar mais equilíbrio. Quase não rio, e isso não tem nada de intransitivo, de impessoal, pois, mesmo morando no centro-norte do país, onde o índice pluviométrico é pífio, eu continuo a chover de tanta melancolia. Você diz que eu deveria conjugar corretamente o verbo, ao invés de julgar as pessoas? Ora, não me faça estudar gramática a essa altura da vida.
Não confio em gente que não dá a mínima para o que as outras pessoas estão sofrendo. A frieza, a falta de brio os fazem selvagens de arrombar introitos. Eu devoro a solidão sem sujar as mãos, e há pouca coisa que os editoriais possam fazer para amenizar a carnificina. Como diria o poeta, eu sou um poço de sensibilidade. Portanto, feche os olhos, tape o nariz, abra um sorriso e salte aqui dentro, docinho.
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Excertos do texto homónimo de Eberth Vêncio na Revista Bula
Vinicius canta Amor em Solidão
As imagens mostram "The street of loneliness de Carolina Soledad Salvatierra Seguel e "Two People: The Lonely Ones" de Edvard Munch
Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.
Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.
Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.
Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...
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O texto 'Separação' é de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor"
Nina Simone interpreta 'Iy you knew'
As imagens mostram obras menos conhecidas de Edvard Munch
_____________________ Soneto do amor como um rio de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor'
Imagens de pinturas de Marc Chagall, alguém que pintou a inocência dos grandes amores e os rodeou do azul mais luminoso e secreto
Melody Gardot interpreta Love me like a river does _________________
E queiram continuar a descer para ficarem a saber queeles eram mais antigos que o silêncioe, ainda mais abaixo, para tomarem conhecimento de conselhos da maior utiliddde emOs elementos do estilo
No vasto mundo sideral, flutuam palavras que ligam, entre si, desconhecidos que têm em comum o gosto pela leitura e/ou pela escrita.
Para ajudar aqueles que gostam de escrever, aqui deixo alguns conselhos. E são dos bons. Não quer dizer que se sigam mas, ainda assim, nada como a gente saber o que é que devia fazer.
(...)
"A prosa vigorosa é concisa. Uma frase não deve conter palavras desnecessárias, nem um parágrafo frases desnecessárias, pela mesma razão que um desenho não deve ter linhas desnecessárias, nem uma máquina partes desnecessárias. Isto não quer dizer que um escritor faça breves todas as suas frases, nem que evite todo detalhe, nem que trate seus temas apenas na superfície; apenas que cada palavra conta".
Para Strunk (...), os preceitos de um bom estilo podem resumir-se no seguinte:
1. Use uma linguagem positiva: em vez de "habitualmente não chegava à hora", diga "habitualmente chegava tarde"; em lugar de "não recordou" diga "esqueceu" - e isso porque, consciente ou inconscientemente, o leitor prefere que se diga o que é a o que não é.
2. Seja concreto: "Sobreveio um período de tempo desfavorável" constitui uma vagueza. "Choveu diariamente uma semana" seria a boa fórmula.
3. Abrevie o mais que puder: escrever "atos de natureza hostil" é alongar de dois centímetros "atos hostis".
4. Não qualifique: sempre que não se tratar de estabelecer uma opinião, a qualificação prévia é desnecessária. Dizer que é "interessante" o fato que se vai narrar, é pichar o leitor de inimaginativo.
5. Não use adornos: o estilo não é um molho para temperar uma salada; o estilo deve estar na própria salada.
6. Coloque-se atrás do que escreve: escreva de tal forma que a atenção do leitor seja despertada sobretudo pelo sentido e pela substância do que está dito, e não pelo temperamento e pelos modismos do autor. O primeiro conselho a dar ao escritor que começa seria, pois: para chegar a um estilo, comece por não ter nenhum.
7. Use substantivos e verbos: evite o mais possível adjetivos e advérbios. Não há adjetivo no mundo que possa estimular um substantivo exangue ou inadequado; isto sem subestimar adjetivos e advérbios, quando corretamente empregados. Mas a verdade é que são os nomes e os verbos que dão sal e cor ao estilo.
8. Não superescreva (significando aqui, don't overwrite): a prosa excessivamente rica, adornada ou gorda torna-se mais facilmente nauseante.
9. Não exagere e seja claro: primeiramente, porque o exagero pode tornar o leitor suspicaz; e a clareza, é lógico, facilita a comunicação. Mais vale recomeçar uma frase longa com que se está brigando, que persistir na briga. Freqüentemente uma frase longa nada mais é que duas curtas.
10. Não opine sem razão: ter por hábito ventilar opiniões próprias é prejulgar que o leitor as esteja pedindo, o que constitui um sinal de vaidade.
É isto em resumo. Há mais. Mas não espaço. E depois, é como diz o outro: se todos fossem da mesma opinião, o que seria da cor amarela? (Sendo que, neste caso, até que eu "entrava bem", pois trata-se da minha cor preferida ... ). Mas pobre Proust, pobre Dickens, pobre Balzac, pobre Melville, pobre Otávio de Faria...
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Excerto de Os Elementos do Estilo de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor'
As pinturas têm em comum conterem gatos e, obviamente, não têm nada a ver com o texto. Ou talvez tenham. Se calhar é que, para se fazer retratar com um gato, é preciso ter-se um certo estilo.
Lá em cima Para viver um grande amor, interpretado por Vinicius e Toquinho, é também, como disse, o nome deste gostoso livro que tenho aqui ao meu lado.
Só de vez em quando me lembro de ver as estatísticas do Um Jeito Manso e, ainda menos, a das palavras-chave que, a partir dos motores de busca, trazem as pessoas até mim.
Contudo, quando me apetece ficar bem disposta já sei que é a essa porta que devo ir bater. É que não é apenas a graça de perceber o tipo de questões que assola ao espírito de algumas pessoas como também o constatar em que conta me tem o algoritmo da google.
Todos os dias há algumas que se repetem. Desde logo 'um jeito manso' ou 'blog um jeito manso' ou 'quem é a autora de um jeito manso'. Isso é banal.
Também, recorrentemente, aparecem algumas através das quais antecipo o conhecimento de algumas fofocas que, decorrido algum tempo, vejo que se confirmam. Por exemplo, hoje aparece o nome de conhecida apresentadora de entretenimento televisivo ao lado de nome de bem conhecido director do Expresso. Não sei se é só fumaça, como diria o titio do filósogo Bruno de Carvalho, ou se há mesmo fogo. On vera.
E há as que me aparecem quase desde o princípio dos tempos: 'alexandra lencastre plástica', 'quem operou a alexandra lencastre»' ou 'alexandra lencastre gorda'. Aliás, esta da gordura é frequente. Coisa de mulherzinha má. Presumo que sejam mulheres que vão ao google e, com sorrisinho vingador, escrevam outro dos 'best of': 'teresa caeiro gorda ou grávida?'. Acho isto de uma perversidade assinalável. Caramba: isto é lá coisa que se pergunte? Onde a subtileza...? Sugiro que, para a próxima, escrevam antes: 'quando é que o Miguel Sousa Tavares começa a cozinhar comida saudável?' ou 'qual a nutricionista onde a Teggy está com vontade de ir?'. Coisa discreta e construtiva.
Mas há uma expressão que está sempre nos tops das estatísticas do Um Jeito Manso: 'Cátia Palhinha sem cuecas'. É certo que um dia, tendo recebido um mail com uma foto da dita vedeta com a passarinha ao léu e, por sinal, uma passarinha bem penugenta, a publiquei. Aliás, tenho ideia que foi até o meu filho que ma enviou. Acho que na altura não o mencionei mas tenho ideia que sim.
A partir daí, esse post é visto com frequência porque, qual Origem do Mundo pela pena de Courbet, dá ideia que há muito pessoal que gosta de ver a gloriosa saída de quem se faz ao mundo pelas vias normais (ia escrever 'a gloriosa entrada' mas, felizmente, dei por isso a tempo).
Claro que não sei se a Cátia Palhinha ainga gosta de andar a dar ar à pluma. Também não sei se é da família de um tal João Palhinha que tenho ideia que joga futebol. Ou seja, infelizmente, sobre tão profunda e cabeluda temática nada mais tenho a acrescentar. Lamento. Ninguém é perfeito.
Outra expressão que traz muitos leitores até mim é 'piropos sedutores'. Esta não sei bem porquê. Mas como 'sedução' é outras das palavras chaves frequentes, presumo que o algoritmo da google ache que aqui o meu inocente blog é um antro de pecado e perdição, ou, nos melhores dias, um lugar onde se pratica a sedução e onde se pode obter inspiração para sacar alguns piropos à maneira.
Ora, dizer piropos, que eu saiba, não é bem o meu forte. Portanto, temo bem que as pessoas por aqui andem, coitadas, debalde, à procura de piropos. Lembrei-me, então, de, para tentar que, na próxima, não vão daqui de mãos a abanar, inventar agora uns quantos.
Ora bem. Então, vamos lá a ver se sai coisa que se aproveite. Vou tentar que sejam usáveis por pedreiros (livres ou não livres), poetas, filósofos, engenheiros, chefs ou desocupados ou, mesmo, deputados ou comentadores. Para dizer a mulheres:
'Se eu pudesse, colocava-a em água, e cheirava-a a toda a hora, minha linda e perfumada flor'
ou
'Os meus olhos não se cansam de a olhar mas mais ávidos ainda estão os meus ouvidos por ouvir-lhe palavras de amor, amada minha'
Para dizer a homens e, identicamente, para ver se servem para todas as faixas etárias, preferências linguísticas, ocupações ou credos:
'De entre todas as feras do mundo, é a ti que eu escolho para me ronronares ao ouvido, oh meu leão' -- [Dúvida: os leões ronronam? ou deveria, antes, dizer: 'meu tigre'?)
ou
'gosto do teu verbo, gosto da tua lógica mas gosto ainda mais da força que adivinho nos teus braços, oh meu tarzan'
claro que, se for para dizer a um lingrinhas, a coisa deveria merecer um twist:
'gosto da força mental que adivinho no teu olhar mas é do teu verbo e da tua lógica que eu estou à espera desde que nasci, oh meu platão'
[Não são grande coisa como piropos, bem sei, mas quem dá o que tem a mais não é obrigado e eu, a esta hora, com os neurónios a meio gás, já não consigo produzir melhor sedução enlatada. Aliás, estava aqui a ver se me ocorria banda sonora para este post e nada. Se me passar esta fase de 'brancas' profundas, ainda aqui venho colocar um little video.]
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E agora das duas uma: ou durmo aqui uma pequena sesta e acordo toda esperta e pronta para outro post ou descubro alguma coisa que me esperte antes de dormir ou, o que também é provável, caio aqui num sono profundo e assim me quedarei até ouvir chamar pelo meu nme.
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Ah, é verdade, as três últimas fotografias são de Helmut Newton
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Talvez o Poema dos Olhos da Amada - Vinicius
(O que acham?)
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A ver se lá para a hora do almoço consigo acabar o que vai a meio. Depois publico.
Dindinha finge que chora, se achega, encosta a cabeça no meu ombro.
Diz: Prima, ninguém quis saber de mim hoje, foi dia dos namorados e nenhum quis se arrimar a mim.
Ponho-me a rir, Deixa disso, Dindinha, bonita como tu és, logo, logo vão andar de roda de ti, cheirando tua saia.
Quem dera, prima, quem dera. Tomei banho em água com pétala de rosa, depois pedi ao Zezinho que pusesse creme em todo o corpo e ele caprichou, cada refego, cada dobra, a pele toda macia, macia, macia, prima. Não quer ver?
Não, Dindinha, deixa, acredito.
Mas, prima, confira. Eu dispo a blusa. Espere. Já despi, prima, veja.
Oh Dindinha, para que é isso? Eu acredito.
Mas veja, prima, ponha a mão aqui na maminha, veja, veja, prima, a macieza.
Pega em minha mão e leva-a a ver que o Zezinho caprichou na espalhação do creme.
Já vi, Dindinha, agora vista a blusa. Já vi. Mas, prima, veja aqui o biquinho. Não parece botãozinho de flor, bom para passar linguinha? Tenha mas é tento na língua, menina, isso é lá coisa que se diga?
Esconde o rosto na dobra do braço, depois encosta-se à porta, finge que tem vergonha. Dindinha é moça melancólica. Desdobra a trança, solta o cabelo. Está triste.
Lastima-se: Veja, prima, foi dia dos namorados e nem uma rosinha alguém deu para mim. Nem bombom. Sabe que eu sonhei.
Foi? Com quê?
Sonhei que vinha um homem grandão, morenão, barbudo, e batia na porta e eu ia abrir. E ele perguntava: 'Foi daqui que pediram um bombom entregue na boquinha?' E eu dizia que sim. E ele dizia: 'Mas tenho que tirar a camisola e a menina também, são ordens da casa'. E eu tirava e ele também e então ele dizia, 'Agora fecha os olhinhos porque a transacção tem que ser feita de olhinhos fechados'. E eu fechava e ele deixava um bombom na minha boca.
Foi um sonho doce, Dindinha.
Ah pois foi, prima. Mas o homem do bombom desapareceu e não voltou de verdade. E agora estou aqui triste, sem namorado que sinta a minha pele macia, a minha língua que ainda sabe a chocolate. Faço agora o quê, prima?
Olha Dindinha, não pense mais nisso. O que for soará.
Oh prima, sempre com ensinamento distante. Eu queria era um namorado aqui e agora vem a prima com filosofia.
Ai Dindinha, que impaciência é essa, menina?
Oh prima, é muita decepção, muita, muita. Veja, prima, logo que Zezinho saíu, apareceu Roninho para ver se eu tava precisando de algum nada e eu disse: 'Ah que veio na hora certa Roninho. Estou aqui para pôr uma eau de toilette e não sei bem como'. E Roninho disse: 'Vai Didinha, para não ficar muito forte faz assim: vai buscar um lencinho'. E eu, 'Oi Roninho, lencinho...? Mas onde é que eu tenho lencinho?' E ele, 'Qualquer coisa que dê para a gente depois passar no seu corpo'. E eu disse: 'Cuequinha de seda pode, Roninho?' E ele disse, 'Vai lá buscar Dindinha'. Fui. Ele disse: 'Dindinha... que cuequinha macia.' Então ele pôs a eau de toilette na cuequinha e disse: 'Deita aí na cama, Dindinha'. Deitei. Então ele passeou a cuequinha pelo meu corpo. E, no fim, eu disse, 'Agora cheira, Roninho'. E ele cheirou-me toda, toda, por todo o sítio. E disse, 'Cheira bem, Dindinha'. Mas logo tocou o telefone e Roninho disse 'Não leve a mal, Dindinha. Tenho que ir, a minha mulher lembrou que tenho que ir buscar o menino ao colégio'. E foi, prima. E foi. Fiquei ali largada, meu corpo exalando perfume de desejo, minha pele toda sedenta. E ele se foi, prima. Ai de mim.
Deixa, Dindinha, mas ao menos tua pele ficou macia e perfumada.
Pois, prima, mas para quê isso tudo se não ganhei nenhum namorado, se agora a noite está caindo e eu aqui sem ninguém que venha passar a mão na minha pele ou venha cheirar meu corpo? Já viu meu destino, prima? Já viu minha solidão? Ai Dindinha, que drama, menina. E escuta... você acha que namorado é para isso que serve, menina? E não é, prima, e não é? Não, Dindinha, namorado é também para dizer um poeminha no ouvido, passar o braço sobre o ombro, olhar o céu em silêncio, segurar a mão enquanto faz jura de amor. Ai prima que lá vem de novo com poesia. Mas oh Dindinha, só prosa, só prosa...? Sim, prima, eu quero é substantivo bem definido, verbo bem afirmado, nada de reticência, nada de adjectivo silencioso. Quero grito, prima, quero palmada, beijo de língua, corpo transado, abraço suado. Quero namorado homem, prima, nada de santo, dispenso valentim, dispenso jura, dispenso metáfora, dispenso suspiro. Dispenso até prosa, prima. Quero é homem, prima. Mas primeiro, prima, primeiro me ensina a ser mulher.
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Lá em cima a música é "Minha Namorada" - ( Maria Creuza/Vinicius de Moraes/Toquinho )
As fotografias pertencem ao livro 'Nues. Femmes Lascives', da L'Oeil Curieux.
[O mal de uma pessoa andar nisto já vai quase em seis anos é que se torna repetitiva. Mas, também, não se pode, todos os dias, dizer coisas nunca vistas, não é...? E a verdade dos factos é o que é, não vou estar a inventar para ser original, não acham?
Portanto, com vossa licença, vamos lá.]
Até aos meus vinte e tais pesava cerca de 50 kg. Vestia o 36. Depois de ter os meus filhos e de os ter longamente amamentado, apesar de me desdobrar em mil, de trabalhar imenso e de, apesar disso, conseguir ter tempo para os ir levar e buscar à escola e de, à noite, estar disponível para eles (e para mim), não emagreci. Pelo contrário. Passei a vestir o 38. E o 38 foi o meu número durante anos e anos. Andaria, então, pelos 54 ou 55 kg.
Contudo, à medida que os anos avançaram, o meu corpo parece ter adquirido o hábito de transformar em peso a mais pequena insignificância que ingira, mesmo que se trate de uma gota de água ou de uma folha de alface. Não tenho explicação para isto. É da idade, disse-me um dia um médico junto de quem me pus a carpir. Pimba. Já levaste. E é capaz de ser mesmo isso. Posso esfalfar-me a trabalhar, à noite ainda caminhar em ruas íngremes durante quase uma hora, posso alimentar-me ajuizadamente, que não perco peso.
Quer dizer: se conseguir, durante uns meses de seguida, comer sempre no intervalo das principais refeições, se me privar de hidratos de carbono, etc, etc, talvez perca uns quilitos. Mas não só nem sempre tenho oportunidade para comer uma coiseca a meio da manhã ou da tarde como, com tanta gente a fazer anos ou com tantas situações em que até pareceria mal se não provasse a sobremesa, as transgressões, ainda que moderadas, são relativamente frequentes.
Não sei dizer quanto peso: evito aborrecer-me e já sei que se olhasse para a balança me sentiria maçada. Por isso, faço de conta que não tenho balança em casa. Para me alienar da realidade não há como eu. Visto agora o 42 (ou o L) e, confesso, tremo de pensar que já me instalei comodamente acima dos 60 kg.
Não visto já aquelas blusas bem justinhas que antes vestia com despreocupação. Adquiri volume e se isso, aos olhos de quem gosta do género, não será mau de todo, a mim condiciona-me um bocado. Evito roupa que me faça parecer provocante ou que me iniba pois nada me inibe mais do que usar peças de vestuário que pareçam desajustadas para o meu corpo.
No entanto, se me comparar com tantas mulheres, (acho que) estou longe de ser uma gorda badocha. E, devo dizer, faz-me uma certa impressão ver como tantas jovens adquiriram já tantos quilos a mais, tanta celulite. Mas faz-me impressão, sobretudo, porque acho que não é saudável nem confortável. Andar à pressa ou subir escadas deve ser muito cansativo para pessoas cujo corpo está revestido de muitos quilos de banha e encontrar roupa confortável e feminina para números tão grandes deve ser um calvário.
Agora, dito isto, acho um perfeito disparate que, por um idiota desejo de emulação em relação a mulheres esculpidas à faca ou a photoshop, algumas se privem do prazer de comer capazmente, passem o dia a falar de dietas ou de receitas saudáveis, andem no ginásio a estafarem-se até quase caírem para o lado-se e falem do PT (Personal Trainer) como se fosse um insubstituível guru espiritual.
Se a pessoa não tem um corpo estrelicadinho e umas medidas de top model, paciência. A pessoa sentir-se bem e segura no seu corpo (e segura também em relação à sua maneira de ser) é imprescindível para uma vida feliz. Por isso, se tenho três ou quatro ou cinco quilos a mais, vou continuar a tentar perdê-los mas não vou sacrificar nada a troco disso, muito menos vou chorar ou sentir-me infeliz. Era o que me faltava.
Mas há quem o faça, sofra, chore, faça toda a espécie de sacrifícios.
O vídeo abaixo mostra a consciencialização que é necessária para que as mulheres aceitem o corpo que têm. O documentário Embrace da autoria da fotógrafa e realizadora australiana Taryn Brumfitt fala disso. Mostrando corpos de mulheres normais, faz com que outras mulheres normais vejam que não são mal jeitosas, não senhora, e, portanto, não são indignas de que o seu corpo seja amado. Não. Somos mulheres normais. Felizmente imperfeitas.
« Pourquoi est-ce que tant de femmes détestent leur corps ? » Taryn Brumfitt, mère de trois enfants, est partie à la rencontre de femmes à travers le monde pour leur poser cette unique question. Parmi les personnes interviewées : une femme à barbe, un mannequin australien, une présentatrice de télévision ou une championne sportive dont le corps a été brûlé à 60%... (ler o artigo completo)
Embrace
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As fotografias que usei no texto fazem parte de uma edição da Vogue Itália dedicada à sensualidade e graça de mulheres big size (XL ou mais)
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E desçam, por favor, até ao post abaixo caso queiram conhecer o meu comentário desportivo em relação à nossa vitória sobre a Polónia. Então, com meio Portugal transformado em comentador, eu ia ficar de fora...? É o ias!