Não há muito, abria a agenda e estava preenchida quase de cabo a raso. Estava numa reunião e em stress porque se atrasavam e iam canibalizar parte da reunião seguinte ou tinha que atalhar, deixando os presentes aborrecidos pois as pessoas têm sempre muito para dizer, especialmente as que gostam muito de se ouvir a si próprias.
Agora é uma limpeza. Poucas coisas, muito espaçadas e predominantemente coisas pessoais. Um alívio. Nos dias em que tenho alguma coisa, já me parece muito.
Por isso, ando um bocado desfasada das especificidades do calendário. O dia da semana ainda sei sempre qual é. Mas, para me certificar sobre qual o dia do mês, já tenho que recorrer muitas vezes o telemóvel. Ainda esta terça-feira, depois de acordar, tentei descobrir a quantas andava. Tive que fazer uma ginástica, andando às arrecuas a partir do próximo sábado cujo dia do mês sei qual é. Percebi que era dia 21.
E, ao percorrer os blogs, vi mais poesia do que é costume. Ocorreu-me, então, que talvez fosse Dia da Poesia. Fui conferir. Assim era.
Penso que também era Dia da Árvore e só é pena que não seja também o começo da Primavera.
Estava à tarde a descansar no sofá do terraço. Tinha vindo da hidroginástica, tinha almoçado, e estava outra vez como ficava quando encetava a ápoca balnear e passava parte do dia na praia, chegando a casa moída, espapaçada. Assim me senti hoje à tarde: perdida de sono, com urgência em deitar-me e deixar-me ir. Peguei num livro, deitei-me e li até dormir profundamente. Quando acordei, fiquei a olhar para as florzinhas encarnadas da buganvília e para as amarelas do jasmim. Tão delicadas, tão bonitas. Do outro lado, a glicínia ostenta o primeiro cacho de florzinhas em suave lilás. Pensei que finalmente tínhamos entrado na primavera. Bem precisados andamos. Pelo menos, eu andava desejando temperaturas amenas, solzinho bom, perfumes florais, natureza, a paz da bondade e da justiça.
E com a mudança da hora para breve e com os dias a ficarem maiores, então, ainda mais animada fico e mais optimista me sinto. Que bom.
Mas, voltando ao tema da Poesia, quando quero aqui festejá-la e ter poesia dita e música e imagem, lembro-me deste vídeo do Cine Povero. Acho-o uma beleza. É o que volto a querer aqui ter. A leveza dos movimentos, a doçura das palavras, a cor luminosa, a musicalidade da toada poética.
Acabou-se este período de descanso. Noutros tempos teria sido bem aproveitado. E, noutros tempos, para mim, aproveitar bem era ir passear ou, pelo menos, ir para o campo. Desta vez, covid, recolher obrigatório e, sobretudo, estado de empenanço agudo, foram dias de desconforto. Hoje estava um pouco melhor das costas, quase sem dor da nuca mas com um torcicolo dos bons. É assim comigo: quando tenho destas, a coisa gosta de brincar comigo. Muda de sítio. Se falo nisto a quem quer que seja, ninguém leva muito a sério. São crises inflamatórias que parece que vão percorrendo os sítios mais frágeis a nível muscular. Ontem a minha filha também se lembrou: 'E tens feito tiro ao arco...'. Exacto. Gosto e gosto de atirar de longe, forço o arco ao máximo para a flecha sair com uma força danada para que, se acertar no alvo, faça aquele som compensador. Se vai à mouche, então, é um prazer. Mas também badminton. Não tanto como o arco mas também. E isto já para não falar em saltar à corda. A minha filha falou que tinha saltado à corda e já não tinha aquela elevação que antes lhe era tão espontânea. E foi exemplificar. A minha nora também foi saltar. E eu, que quando era miúda, passava horas a saltar, para a frente, para trás, cruzado, sozinha, a pares, sei lá..., fui também saltar. Por acaso, à posteriori, ao querer atribuir culpas a alguma coisa em concreto, lembro-me que, na altura, pensei: 'A ver se tanto exercício não dá cabo de mim'. Mas isto é complicado porque gosto imenso de fazer estas coisas e porque o faço sem esforço. Portanto, na altura não me sinto limitada nem me dói nada. Mas o que, pelos vistos, acontece é que, quando tudo se conjuga, alguns músculos estarem mais frágeis porque sujeitos a um esforço adicional, e alguma coisa no meu organismo, talvez o sangue, transportar alguma substância que faz com que seja como veneno sobre os músculos mais frágeis, dá buraco. Portanto, diria eu que o segredo está em descobrir o que é que, de vez em quando, aparece no meu sangue.
E aqui entra o que a minha mãe diz: cortisol (do stress?), ácido úrico por comer queijo a mais? comi carne demais? Não faço ideia.
Das vezes anteriores em que estive assim, se calhou fazer análises a seguir, aparece evidente que o indicador das inflamações ainda está muito acima do valor mas, para além disso, nada de mais. Até o cortisol me aparece normal. Mas isto quando faço análises que, em geral, nunca é nos dias em que estou mal pois é preciso preparação e mais não sei o quê e, além disso, quando estou com dores não tenho qualquer disposição para ir para o médico. Ele diz-me: se não passasse era pior, como passa, menos mal. Pronto. Arruma o assunto. É um prático, o meu médico, não tem qualquer veia de investigador.
Mas, resumindo: ao levantar-me percebi que isto não ia lá só com ben-u-rons e repouso. Portanto, comecei com brufen e hoje já tomei ao almoço e ao jantar e, assim sendo, espero que agora comece a melhorar.
Espera-me uma nova semana das valentes. Não sei o que me passou pela cabeça achar que devia pegar o ano novo pelos cornos, reservando a primeira manhã de trabalho do ano com as três reuniões que mais preferia não fazer, de tal maneira que nem consigo pensar nelas. Não preparei nem vou preparar, vai ser na base do que me ocorrer. E não faço ideia do que vou ter pela frente. Se fosse nos tempos em que saíamos à rua para trabalhar, admito que talvez me passassem com o carro por cima. De tarde, não vai ser tão violento mas vai ser complexo e exigente. E, pior, de seguida. Três de seguida. Reuniões, bem entendido. Estes agendamentos foram quando não me doía nada e na base de o que tem que ser feito, deve ser feito o mais rapidamente possível. Mas, estar a começar o ano com tal programa de festas e o corpo a pedir tréguas, não é das melhores combinações. A ver como chego ao fim do dia.
E é isto, cá estou outra vez a falar das minhas maleitas. Só espero amanhã já nem me lembrar de tal coisa e já ter outro assunto.
Bem. Tinha dito que a ver se hoje, pelo menos, agarrava num livro. E agarrei. E estive a ler. Deitei-me no sofá. Durante o dia nunca consigo deitar-me na cama. No sofá, reclinada entre almofadas, com uma manta de veludo, tigresa, por cima, pus-me a ler 'Acidentes' de Hélia Correia. Na vez anterior que lhe tinha pegado não me convenceu especialmente. Desta vez, encontrei outro sentido, outra toada. Os livros também somos nós, leitores, que os acrescentamos (ou anulamos). Depois adormeci, um daqueles sonos que me tiram do sério. Não percebo de onde vem tanto sono. Em suma: terei que voltar ao livro com idêntica predisposição, passando adiante quando me parece que falta a toada ou quando encontrar alguma palavra que me parece indevida. Penso que este é o segredo quando não gostamos de alguma coisa (ou de alguma pessoa): em vez de persistirmos a tentar compreender e aceitar, não, é de fazer é o oposto: saltar por cima, deixar para trás. A gente às vezes parece que gosta de complicar. Perdemos tempo a tentar salvar o que não tem salvação possível. Mais vale isto: seguir em frente e ignorar o que não nos agrada.
Fiz isso hoje e só me detive naquilo que me soou bem. E, portanto, fiquei mais contente com o que li.
Por exemplo, gostei deste bocado de poema:
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
Fala de palavras, ela. E eu, que tanto gosto de palavras, esses misteriosos acasos que se acasalam, gosto de pensar que tudo o que fale de palavras encerra em si parte do mistério e, portanto, leio com atenção a ver se percebo porque gosto tanto delas. Mas não. Aquilo de que a gente gosta mesmo está acima da nossa capacidade de compreensão. Gosta-se por mil motivos, porque é aquilo mesmo de que se gosta mas, sobretudo, gosta-se porque se gosta.
Por exemplo, gosto de ler isto:
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo fome.
mas seria incapaz de explicar porque gosto tal como me parece fútil e inútil querer encontrar explicação para o próprio poema. Não sei como é que se dá aulas de Poesia. Penso que a única maneira razoável é ler. Ler, ouvir ler, deixar que a toada nos invada o corpo. Atribuir significados ou querer enquadrar burocraticamente na gramática normal é abafar a poesia quando o que a poesia precisa é de oxigénio, ar puro. Mas isto, claro, sou eu, leiga, leiga, a falar.
---------------------------------------
E, por falar em palavras e em poesia, uma vez mais o Faz uma chave de Eugénio de Andrade, num vídeo muito bonito do Cine Povero
No sábado, no bocado de tarde que estive in heaven, fiz fotografias que tinha vontade de partilhar convosco. Também tinha a ideia de vos contar como se estava lá tão bem e da pena que tive por não poder estar mais tempo. Mas depois, já nem me lembro porquê, não fui por aí.
Depois, no domingo, no bocado em que estive à beira mar, fiz várias fotografias e tinha ideia de aqui publicar uns quatro ou cinco postais. Só tive tempo para dois.
Esta segunda-feira voltei ao trabalho. Tinha pensado que ia ser um dia calmo, que conseguiria sair cedo mas os dois dias de férias hoje pesaram-me. Não sou nem um bocado de manias de que sou insubstituível nem sou maníaca do trabalho. Acontece é que as circunstâncias, ou a minha maneira de ser, nem sei, fazem com que tenha, de facto, muito trabalho. Sou de delegar, delego bastante, mas o facto de trabalhar em mais do que uma empresa e em qualquer delas com funções executivas, acarreta responsabilidades e as responsabilidades traduzem-se, para mal dos meus pecados, em trabalho.
E o trânsito. Uma pessoa, mesmo sem querer, torna-se insensível ao que se passa com o carro dos outros. Julgando que ia fazer um percurso num quarto de hora, foi furiosa que passei por um carro empanado no meio da estrada. Uma carripana velha, provavelmente um sufoco para o dono do carro, provavelmente custos que vão ser difíceis de suportar e eu, sem querer saber disso para nada, simplesmente a querer passar para ver se chegava a horas ao meu destino. Ou quando estou mais de uma hora num pára-arranca desesperante, enervada por chegar atrasada, e passo por carros espatifados, carros de bombeiros, ambulância, polícia, e eu nem penso no que ali se passou, apenas me sinto aliviada por, a partir dali, já poder andar normalmente.
Anos de vida nisto.
Bem. Adiante.
Quando cheguei a casa ainda fui ao supermercado comprar o que faltava para o almoço de Ano Novo cá em casa. E depois ainda fui fazer uma máquina de roupa.
E, a seguir, depois de me pôr confortável, fui-me àquilo para que me deu neste fim de ano: arrumações.
No sábado, o meu filho disse-me que estavam a pensar ir fazer uma caminhada num trilho de montanha perto de nós, in heaven, para nós irmos com eles, depois almoçávamos e voltávamos lá. Em situação normal, eu diria logo que sim. Os miúdos adoram estar lá, in heaven, até o bebé está sempre a falar nisso e eu jamais diria que não. Mas, pela primeira vez, disse que não dava jeito, que tencionava estar na cidade em arrumações. À noite foi a minha filha a dizer que o irmão a tinha desafiado para irem para a praia de manhã cedo mas que ela de manhã não mas que, se calhar, à tarde sim, e nós que nos juntássemos. O prazer de estar com eles é sempre o que fala mais forte. Mas, uma vez mais, disse que não. É que dizer que sim tem sido a história da minha vida. Sempre eles antes de tudo, em primeiro lugar haja o que houver, e eu sempre disponível para estar com eles. Com o meu marido a mesma coisa: quando estamos juntos, os programas que arranjamos durante o dia são programas conjuntos. Por isso, arrumações profundas vão passando para a próxima vez -- mas para a próxima vez nunca há tempo. Mas desta vez qualquer coisa desceu em mim. Um ponto de honra. Tinha mesmo que ser. E eu quando me dá para arrumações destas é mesmo a sério.
Por isso, hoje, de novo, foi até há pouco tempo. E ainda não acabei. Para fazer as coisas como eu queria, precisaria de mais uns dois ou três dias. Mas já não vai dar. Tenho que acabar amanhã e, ainda assim, amanhã vou ter um dia atarefado, pouco tempo me vai sobrar. Portanto, agora à noite dei no duro. No último dia do ano vou levantar-me cedo e tentar cobrir os mínimos que tenho em mente. Já fui duas vezes à loja dos chineses comprar caixas e cabides verticais. Amanhã vou ter que lá voltar para comprar uma com gavetinhas para guardar pulseiras. Os brincos e os anéis já estão organizados por cores. E as pulseiras também o serão.
Muitos anos a trabalhar, muitos anos a querer estar bem arranjada todos os dias, muitos anos a juntar roupa e bijuteria que não se estraga, muita gente a oferecer echarpes... dá nisto: coisas a mais.
Acho que pela primeira vez na vida tenho um roupeiro para o qual dá gosto olhar. As gavetas têm os tops ou as echarpes todas dobradinhas ao alto, por cores. Nos cabides, num compartimento estão as blusas ou camisas de manga comprida, noutro as de manga curta. Noutro, as malhas, os casaquinhos leves. E tudo por cores. Os pretos, os azuis -- do mais escuro para o mais claro. Depois os verdes -- os profundos, os esmeralda, os vivos, os água, os secos, os floridos, os que tendem para os amarelos. Depois os amarelos. Depois os corais, os laranjas, os encarnados. Etc.
Um gosto de ver. Tudo à larguinha, tudo fácil de encontrar, tudo a respirar bem (concordo, Susana, é mesmo verdade: as coisas respiram melhor, parece que o ar da casa até fica mais fresco).
E, agora que já posso dar dois passos atrás e olhar, pasmo com aquilo de que, não sei como, nunca me tinha apercebido: a cor predominante é o verde. Muitos tons de verde, com predominância para o verde musgo dourado. Ainda este Natal, para além de uma preciosa caixa com diferentes flavours de chá, a minha filha me ofereceu um lindo casaco, num tecido macio como uma camurça aveludada, num lindo tom de verde. Disse-me: 'Achei que ficava bem com os teus olhos'. E fica.
Não sei se pela cor dos meus olhos ou se por eles gostarem de ver a cor verde, a verdade é que, olhando para o roupeiro, a mancha verde é a que se impõe.
Não há muito, ao ler o último livro da Ivone Mendes da Silva, A mulher do meio, li uma coisa que me deixou um bocado espantada. Não tenho aqui o livro comigo, está in heaven, pelo que não posso transcrever. Digo de cor, certamente não sendo fiel à letra escrita. Se bem me lembro, descrevia ela que a Agustina dizia que só as mulheres muito bonitas podiam usar verde, razão pela qual ela nunca tido coragem para vestir uma peça verde. E eu, embora não sabendo, na altura, que o verde era a minha cor dominante mas já certa de que reincidia frequentemente, fiquei a pensar que eu, que uso tanto o verde, na volta, estou a ser impudica, descarada, estulta, inconsciente.
Mas é uma cor linda, vibrande, cheia de vida, cheia de nuances e de profundidades, cheia de luz,cheia de mistérios.
E, para o ilustrar, acabei, afinal, por ir mesmo buscar algumas das fotografias que fiz no sábado. A luz dourada sobre os verdes é de tal forma sedutora, não é? Mas todos os verdes o são, mesmo o da tenra erva, mesmo o dos rebentos na ponta das hastes, mesmo o da indistinta mancha do arvoredo vista de longe. Há deuses verdes à solta nos campos, há deuses verdes que dançam em minha volta. Tão bom.
Espero ainda conseguir voltar antes do final do ano para formular os meus votos mas, para o caso de o não conseguir, vou já adiantando que desejo para os meus amigos que aí desse lado me acompanham o mesmo que desejo para mim e para os meus: tudo de bom. Saúde, sorte, alegria, afecto, desafogo, motivação, boas surpresas, beleza, harmonia, desafios dos bons, partilha, aprendizagem, sorrisos. Coisas boas.
Os dois manos agora têm uma brincadeira nova, mais maluca ainda do que as anteriores. Chama-se Espasmo. A todo o instante levantam o braço, batem no outro ou alçam da perna e dão uma sapatada e, acto contínuo, dizem: Espasmo. Como é óbvio não percebi que brincadeira era aquela. Afinal era mesmo óbvio: faz de conta que temos um espasmo. A minha filha confirmou: é isso mesmo que parece: uma estupidez. A verdade é que com isto estão sempre às brigas. Tudo amistoso mas sapatada pede sapatada de volta e, às tantas, os espasmos estão acesos. Mas tudo na base da risota.
Estava era muito frio, escuro, a querer piorar. Apesar de tudo, linda a beira do rio, as gaivotas a rasarem a pala do Maat, a rasarem as águas, a elevarem-se em contrluz, a deslizarem sobre o vento. E a luz a passar pelas nuvens.
Mas mesmo muito frio. Tivemos, pois, que nos abrigar e foi bom irmos lanchar um lanchinho bom, conversando em família.
Antes de almoço tínhamos estado, só os dois, junto ao mar. Tínhamos pensado caminhar na praia mas, uma vez lá chegados, desatou a chover e levantou-se uma ventania. Saímos do carro mas não por muito tempo. O mar estava francamente revolto e o frio e o vento tornavam a tarefa quase impossível. Tinha levado o meu chapéu de feltro e estava a saber-me tão bem ter a cabeça protegida mas, para não correr o risco de ficar sem ele, tive mesmo que abrir mão do conforto. E o que aconteceu é que, com alguma pena minha, nem chegámos a descer até ao areal.
Quando vinha no carro, debaixo daquele mau tempo, a ouvir uma bela música, lembrei-me que debaixo daqueles grandes pinheiros mansos que nascem do areal fizemos, em tempos, vários picnics. Éramos cinco casais e, na altura, uns sete ou oito miúdos. Depois vieram mais, um por adopção e outros por nascimentos imprevistos, quando as respectivas mães pensavam que já tinham fechado a loja. Uma andou a tratar-se do estômago até a criança já ir para aí nos seis meses de gestação. Depois ficou em pânico com medo que os medicamentos lhe tivessem feito mal, isto já para não falar de ser mãe tardia e nem ter vigiado o início da gravidez. Felizmente, veio sem problemas de maior.
Mas, na altura, aquele primeiro lote de crianças tinha idades muito afins. E era uma paródia pegada.
Depois acabámos por perder aquela ligação próxima. Os miúdos ganharam vida própria e um tinha testes, outro tinha uma festa de anos, outro tinha um jogo. Eram muitos e conseguir agenda livre em simultâneo era um totoloto. Entretanto, quando vieram os bebés, os outros já adolescentes e com amigos e programas autónomos, estavam as mães a ter que 'guardar' em casa os bebés com viroses, com dentes a nascer. E isto, quando passa um mês e não se consegue e outro e não se consegue, o hábito vai-se perdendo. E depois, pelo meio, aconteceu uma coisa fracturante. Um dos casais que era central, até pela animação que proporcionava (animação, frequentemente, no mau sentido) separou-se. Foi muito complicado. Não era fácil estar com um e deixar o outro de fora das combinações. Resolvemos 'ficar' com ele porque ele existiu antes dela, já que, anos antes, ela apareceu no grupo como a namorada dele. Só que ele nos desnorteava pois, de cada vez que nos aparecia, vinha com uma namorada nova. Uma coisa louca. Para nossa surpresa, constatávamos que a ele, low profile, fisicamente até nada de mais, lhe caíam namoradas no colo como se fosse um galã. E não avisava. Combinávamos ir jantar e, por exemplo, encontrar-nos em casa dele e, pelo caminho, já íamos a pensar se seria a mesma. E nunca era. E ele, sempre o mesmo tímido, irónico, falinhas baixas e elas derretidas, olhando-o como se estivessem frente a um Brad Pitt desta vida. Embora, pensando bem, ele faz é lembrar o Al Pacino. Quando era casado, a mulher mais alta que ele, giríssima, interessantíssima, roía-se de ciúmes embora dissesse que o tinha escolhido por ele ser feio (e dizia-o à frente dele) e, assim, não ter que ter medo que as mulheres se perdessem de amores por ele. Enfim, umas cenas que nos divertiam e ajudavam a tornar o grupo ainda mais coeso em torno daquele casal meio disfuncional, sempre na corda bamba. E o que se passou foi, portanto, que aquele divórcio ainda mais ajudou a separar o grupo.
Ao passar por ali, pensei que há tanto tempo que não íamos para aqueles lados, como se os lugares estivessem associados às pessoas que os frequentam.
Tive vontade de lá voltar para, com melhor tempo, ver melhor. Já deu para ver que o que antes eram umas aldeias esparsas são hoje condomínios e condomínios, vivendas e moradias e, pareceu-me, uma certa confusão. Mas talvez andando a pé fique com uma ideia mais benevolente.
Ao passarmos de carro, vimos um casal que vinha da praia, a pé, à chuva. Vinham a conversar. Provavelmente tinham uma casa ali perto. Pensei na Isabel e no seu gosto em vir a ter uma casa ao pé da praia. Como a compreendo. Também eu, em tempos, o desejei. Desejava ter uma casa como a que que havia encavalitada nas rochas, salvo erro entre a Figueirinha e Galapos. Tinha uma escada que descia directamente para a areia. Talvez hoje não autorizassem a construção de uma casa assim. De resto, não faço ideia se tinha sido autorizada. Era uma boa casa e era uma casa de sonho, mesmo sobre o mar. Tinha um passadiço da estrada para a casa. Imagino como deve ser bom estar numa casa assim, ouvindo-se as vagas, a dança das ondas, o rugido das marés em dias de tempestade. Ou descer para a praia, a meio da noite, em dias de calor e lua cheia. E o cheiro da maresia, tão bom.
Quando andávamos à procura de uma casa no campo, isto há mil anos, chegámos a equacionar ser também perto da praia. Ouro sobre azul. Mas eram muito caras.
Depois de muito procurarmos e de vermos inúmeras, encantámo-nos por aquela ali, triste e escura, ainda com os móveis dos proprietários (também divorciados) que diziam que lá deixavam tudo, no meio de pedras e mato e rasteiro. Qualquer coisa ali nos atraíu irresistivelmente. Os miúdos puseram-se a correr pela casa, num entusiasmo, e a minha filha disse este é o meu quarto e o meu filho disse e este é o meu. E eu pensei tiro este móvel escuro e triste daqui e mudo o sítio dos móveis e tudo vai ficar diferente e o meu marido disse também de sua justiça. E eu pensei e vou plantar árvores porque aqui vai haver um bosque. Quando se riam, eu doseava a expectativa: um petit bois. O pior foi quando o meu cunhado lá chegou a olhando para aquilo de que nós já começávamos a gostar tanto e, naquele gesto tão típico dele, deslizou a mão pelo ar a meia altura, como que varrendo o espaço, e disse: 'deitam abaixo esta merda toda para conseguirem uma leitura diferente do espaço'. Bem conhecedora daquelas suas soluções que passavam sempre por deitar abaixo, fui taxativa: nem pensar, não vai nada abaixo, era o que faltava. Nem era só pelo acto em si, era também o dinheiro que aquilo que ele estava a idealizar ia custar. Mas aí o meu marido teve outra ideia, fez outros desenhos, unir aquilo com aquilo, rasgar uma grande janela, dali nascer um telheiro virado à serra. O irmão desaprovou: solução mediana quando poderia ser uma coisa fantástica. Paciência.
Ficou assim e acabou por reconhecer que foi uma boa solução.
E aos poucos foram nascendo os caminhos, os murinhos, as árvores foram crescendo, os pássaros foram chegando, as flores aparecendo, as borboletas, os cogumelos, a terra ficando atapetada de carumas, de musgos, de orvalhos. E eu tornei-me o bicho que tão bem conhecem.
Por isso, penso que, se calhar, as casas também nos fazem a nós. Talvez se, em vez daquela casa, nós tivéssemos descoberto uma outra que não nos permitisse mudá-la e, com ela, mudar a paisagem, talvez não fossemos o que hoje somos.
Mas acordar de manhã e ir caminhar à beira do mar também deve ser uma coisa boa, talvez eu aprendesse a descobrir conchas, algas, pássaros e outros bichos que moldassem também a minha maneira de ser. Sabe-se lá.
E só para vocês verem como é a minha fraca cabeça: quando comecei o post a minha ideia era olhar para os livros que aqui tenho quase ao colo e dizer qual ofereceria a cada um dos bloggers aqui do lado ou Leitores que conheço por comentarem ou me enviarem mails. Mas, se isto dá para perceber..., distrai-me e segui pelo caminho que viram. Se isto fosse na estrada, a esta hora estava a caminho do Porto. (E estava muito bem que já estou é com saudades de lá ir dar uma volta.)
Só por pretensiosismo é que eu, falando em público e a sério, poderia referir-me ao pedaço de terra a que chamo heaven como floresta. Mas, para mim, é como se fosse: é a minha floresta, é o meu bosque tão querido.
Choveu todo o dia. Nada de mais mas o suficiente para a terra estar molhada, a vegetação estar lavada, enfeitada com gotas, a quietude ainda mais limpa, os pássaros ainda mais felizes.
Pus-me a filmar para aqui mostrar e fiz três vídeos. Mas porque estava a chover e eu a segurar no chapéu de chuva com uma mão e a máquina com a outra, a coisa ficou mais do que imperfeita. Além disso, esqueci-me que não posso movimentar a máquina depressa demais. Por vezes, ficou a parecer um carrocel. Portanto, não os vou aproveitar. Tentarei, para a próxima, que fiquem melhores. E depois a vozinha. Baixinha, rouca, pouco mais que um sussurro. Não me dá jeito andar por ali a falar alto, sozinha. Então, a falar baixo e com o som da chuva a bater na sombrinha, fica impraticável. O meu marido quis ver e até estava a ver com atenção mas volta e meia, porque não ouvia, pedia para eu pôr mais alto. Só que, de facto, não dá para pôr mais alto: é um sussurrar que quase se confunde com o sopro do vento nas ramagens.
Tenho que aprender a transmitir o bem que me sabe e o bem que sinto que me faz andar por ali, respirando um ar tão sereno, tão cheio de paz, sem radiações, sem ruído, sem intrigas ou pressas, um ar perfumado e atravessado pelo canto dos pássaros. Ao aspirá-lo penso que parte daquele maravilhoso ambiente está a entrar dentro de mim, a percorrer as minhas artérias, a irrigar a minha mente, a minha consciência, a minha alma.
Se me analisassem o sangue ou o batimento do coração, não sei se seria visível o bem que isso me faz. Ando devagar, os pés pisando a caruma sobre a terra macia, passando a mão pelo alecrim, pelo rosmaninho, espreitando a madressilva a quer despontar, deslumbrando-me com as ervinhas que crescem por entre o musgo, as pedrinhas cobertas de bocadinhos de tempo. Absorvo tudo através de todos os sentidos, fico melhor pessoa, fico ainda mais tranquila e feliz, sinto-me agradecida.
Se calhar estou a praticar Shinrin-Yoku, o banho de floresta, isso que os orientais acreditam que é uma forma de curar o corpo e a alma. Consiste em simplesmente estar na floresta.
Shinrin-Yoku is the practice of spending time in nature for the purpose of enhancing health, wellness, and happiness. It is a Japanese term that translates into “forest bathing” - taking in the forest atmosphere.
Não sou dada a medicinas alternativas -- sou a favor de rigor e de coisas que se podem comprovar. Não sou dada a religiões, não sou dada a crenças, a metafísicas, não frequento clubes ou seitas, não alimento correntes, não me ponho como seguidora seja do que for, não tenho grupos nem sequer do WhatsApp, não tenho gurus, não tenho rituais, não alimento superstições. Nada. Cultivo orgulhosamente a minha natureza de bicho.
Mas acredito na tranquilidade que vem da natureza, acredito no poder infinito que emana da terra, acredito na beleza, na imensa beleza das árvores, das flores, das pedras, dos animais, do sorriso no olhar daqueles que amamos, na beleza imaterial das palavras boas que transportam a harmonia e a música que atravessa os céus, acredito na paz que pode crescer dentro de nós -- acredito na tocante generosidade da natureza, acredito na felicidade que ela nos traz.
Muito frio. Ao sol ainda vá mas, ainda assim, se se levanta o vento, logo se infiltra por entre as malhas do meu casaco. Trouxe um de lã macia, grossa e aveludada. Mas foi feito com agulhas ainda mais grossas pelo que ficou solto, leve e, portanto, o ar entra por ele com a maior facilidade.
Quando chegámos a casa, estava mesmo fria. Como gosto sempre de abrir as janelas para arejar, o meu marido veio logo dizer que nem pensar. E à noite já tivemos que dar uso à salamandra. Muito bom, o calorzinho ameno aqui junto a nós.
Ontem estive a ler o livro que tinha começado a ler no carro e do qual estou a gostar muito: Os testamentos traídos de Milan Kundera. É daqueles que estou a ler e a lamentar não ter a capacidade de memorização daquele meu amigo que até desconfio que seja pouco normal (e digo assim para não dizer anormal de todo): memoriza tudo. Tudo. Estamos a conversar e ele lembra-se de passagens de livros e depois di-las. Por vezes são livros que já li e ele diz: 'Lembra-se daquela parte em que ele se insurge e, com uma ironia fantástica, diz que...' (whatever) e eu não me lembro de nada. Até me faz sentir como se estivesse a querer enganá-lo. Este do Kundera dá vontade de memorizar e de transcrever para vos mostrar. Mas, como é bom em contínuo, desisto.
Agora a seguir vou voltar a ele. Já não vou poder deitar-me lá fora, ao sol, a respirar o perfume da figueira. Ou fico aqui ou vou ali para o lado, deitar-me no sofá, talvez com uma mantinha. E talvez deixe que o sono pouse sobre mim.
De manhã andei a caminhar, a fotografar, a fazer os meus vídeozinhos bucólicos, a limpar a casa, a fazer o almoço.
Agora, enquanto estava a escrever, reparei num pequeno vulto ali entre as folhas. Fui ver. Era um cogumelo. O primeiro cogumelo de outono. Fui fotografar.
E só surpresas. Estava também agorinha mesmo a colocar aqui a fotografia, diz o meu marido: 'Olha, um faisão'. Ao princípio nem percebi. Ele disse: 'Aqui à porta'. Nem queria acreditar. Era mesmo. Esta sala tem portas de vidro que dão para a rua. Um faisão lindíssimo passeava-se mesmo junto à porta. Rapidamente peguei na máquina mas ele já tinha ido para o pé da fonte. O meu marido disse: 'Se abres a porta, voa'. Mas, para o fotografar, para ter ângulo, tinha mesmo que abrir. Em silêncio. Mas ele ouviu, sobressaltou-se e voou. Grande, pesado, levantou voo e num ápice deixei de vê-lo. Ainda não estou em mim. Um faisão belíssimo aqui. Este meu heaven é habitado por seres muitos misteriosos.
Bem. Vou ler.
Deixo-vos com um dos vídeos de ontem. O meu marido já aqui esteve a gozar por eu, por muito que queira, não conseguir ter uma voz encorpada e lisa. Sai-me sempre esta voz sumida, com graozinho. Uma irritação. Ele diz: 'Mas se é a tua voz, como querias que parecesse outra?'. Olha, desisto. Paciência. Terão é que pôr o som bem alto para perceberem alguma coisa.
No meu dia da Poesia não houve poesia. Não é grave. De resto, não ligo a isso dos dias. Todos os dias são dias e os que são mais dias que outros não é por serem dias, é por serem eles mesmos. .
Mas revivo. A manhã foi árida. Tantas vezes as horas da minha vida são áridas. Nem boas nem más, apenas áridas. Nada de mais. Da aridez nasce o sonho e sonho é coisa boa.
Mas continuando. Antevendo que a tarde seguisse o mesmo rumo, fui, numa corrida à hora de almoço, a uma grande livraria. Não podia demorar-me, deveria nem ter entrado. Mas pensei: é dia da poesia, deve ser uma festa, tantos os livros de poesia, talvez lançamento de novos, talvez os autores dizendo-os, talvez poemas a serem oferendados aos vistantes.
Mas não. Nada. Não desisti e procurei-os na bancada da poesia. Folheei um, dois, três. Nada. Talvez não seja problema dos livros mas meu. Cada vez estou mais difícil de contentar. Se calha ver no meio de um poema uma palavra que considero pouco elegante logo fecho o livro, quase desprezando aquele a quem logo passo a ver como um mero pretenso poeta. Poemas que pingam sentimento também não suporto. Há que ser-se elegante e contido em qualquer situação e na poesia não se podem aceitar excepções. Exageros, vulgaridades ou deselegâncias são fatais.
Folheei outros. Por exemplo.
O novo da Adília. Sorrio com o que escreve a Adília. Por vezes, tem graça. Apesar de. Há ali muita solidão. Mas não é poesia. Como quem procura um porto seguro, folheei Nuno Júdice. Também não. Manchas densas e compactas de palavras onde o silêncio não tem lugar, onde o ar não respira. Talvez sejam pequenas histórias. Poemas não são. O novo de Alice Vieira: abri. Pensei: não gosto de a ouvir, rebola-se e ri demais, acha-se fofa, mas escreve bons poemas. Mas tudo o que ali vi me pareceu déjà-vu -- palavras a cheirarem a alfazema, frutos com cor de romã. Não me interessa. Imagens gastas. E outros. A Tatiana, a Rosa. Nem sei já.
Os poemas da professora de poesia. Ana Luísa. Áridos também. Ou desengraçados. Não poéticos. Ouço-a na rádio: impetuosa e emproada na forma como exibe os seus conhecimentos sobre poesia. Não suporto. Maça-me. Não gosto de ouvi-la a esmagar a poesia. Na rádio ouço várias outras vozes, todas de pessoas que desconheço, dizendo os poemas das suas vidas. Não gostei de um único. Prosaicos ou vulgares. Um actor dizendo poemas e dizendo-os bem, mas poemas gastos de tão ditos e reditos. Não gostei.
Procuro as palavras verdadeiras e únicas, procuro o fio azul da água, o silêncio, a luz autêntica, a subtileza e a suavidade da sombra, o gesto suspenso, o sentimento intuído, a beleza, a musicalidade perfeita. Ou o grito à beira da escarpa, a névoa branca e pura, o segredo voando baixinho, a flor nunca vista, o olhar que quebra a vontade, o fogo que desenha rendilhadas filigranas, as mãos que rasgam o peito, as carícias desejadas, e as saudades, tantas, tantas. E tudo isso é tão raro.
Tenho que confessar: algumas pessoas tiram-me do sério.
Gosto de fazer coisas, não perco tempo com mas-mas, se há o que fazer eu penso durante dez segundos, vejo em volta quem posso arregimentar para me ajudar na faina, desafio as pessoas a fazerem o que nunca fizeram, puxo por elas -- e não perco mais tempo, arregaço as mangas e meto pernas a caminho. E alegro-me no mais fundo do coração quando as vejo motivadas, a descobrirem o mundo, a sentirem que acreditam nelas. E depois passo-me quando vejo que há quem fica a patinar em seco, não querendo arriscar, quem se atemorize e não faça a sua parte.
Por mim, em querendo, arrastava o mundo para outra galáxia. Não me falta energia, capacidade para empolgar os outros nas jornadas que empreendo. Mas falta-me a paciência para esperar pelos que parece que têm medo de se mexer (medo de poder não estar a fazer bem, medo de poder vir a sofrer críticas por não fazer como deveria ser feito). Ficam, então, à espera do último input, da última confirmação -- e o que acontece é que as oportunidades vão passando. E os que estão mais do que disponíveis para avançar ficam eternamente à espera de que soe o tiro de partida. Desmotivam-se, desacreditam, abandonam.
Por isso, arreliei-me a sério. Quando me arrelio já não tenho vontade (ou capacidade) de disfarçar. Não disfarço. Vai à bruta. Se calhar mais à bruta do que deveria. Se calhar, chega aos outros quase como uma agressão. Mas não pretendo agredir, pretendo apenas que se mexam.
Mas logo a seguir me enterneci ao ver a minha menina, há pouco tão hesitante e frágil e agora já toda confiante, afirmativa, destemida. E o outro que tem andado meio perdido e agora a vir contar-me as suas ideias, todo ele projectos e vontade de voar. Ou o outro, todo bem disposto, a rir e a fazer-me rir, todo irreverente e teatreiro e a mostrar que conta comigo para virar o mundo do avesso.
E, de repente, aquele com quem me passei por não lhe ver a acção que me parece urgente, começou a dar sinais de que finalmente se moveu e eu enchi-me de esperança: o mundo é mesmo capaz de se ter começado a mexer e isso é o que eu quero.
E consegui ir à fisioterapia e o fisioterapeuta novo, um homem, está a pegar os cornos do bicho-ombro de outra maneira e ao fim de duas sessões parece que já sinto a diferença. Explicou-me o que tenho em cada sítio onde me dói, dizendo o nome da coisa e agarrando-a para eu perceber. E fez-me sentido. Percebi qual o tendão que teve a rotura, como a inflamação se formou, dando origem a uma bursite. Com energia, muito focado, desfaz contracturas, alisa músculos, puxa o braço. Tamanha a tareia, custa-me. Mas, enquanto me dói, penso que aquilo é para ficar boa e fico a suportar melhor a dor.
Cheguei tarde, tarde. Foi, pois, bem noite que fomos jantar à praia. Frio e tarde -- demais para passear à beira mar. Paciência, fica para outro dia.
Agora já passa bem da meia noite, estou a dormir aqui no sofá da sala, tentando (em vão) acordar. Está um calorzinho bom e eu estou em paz. Não guardo nunca nada por dizer. Digo tudo de caras e na hora. Digo, fica dito, sigo em frente. Não faço planos, não me inquieto. Mas, se vejo um caminho e me parece que leva a bom porto, então, eu vou por ele e arranjo quem venha comigo. Gosto de tentar descobrir onde levam os caminhos que nunca antes percorri. Gosto de me aventurar. Gosto de sentir o medo miúdo de não saber como chegar ao fim. Gosto de partilhar o medo para sentir nos outros a força que me leva mais longe.
E não há muito mais a dizer. Aliás, haver até havia, eu é que tenho que acordar para ver se consigo chegar ao quarto.
Talvez só mais isto: está-se bem.
Trabalhos efémeros na natureza by James Brunt
........................
Antes de tentar chegar à cama, só mais um pouco na companhia da beleza. Palavras, bailados, jardins.
Ou seja, as palavras interditas nos jardins selvagens, com bailado pelo meio.
Nem sempre possa dar largas à minha imaginação ou à minha vontade. Nem eu nem ninguém, acho eu. A vida vai criando mecanismos para nos cercear, sejam eles económicos, sociológicos, de índole interior ou outros. Acontece-me tantas vezes ter vontade de fazer coisas e ter que me auto-moderar. Contudo, verdade seja dita, sempre que posso dar largas à minha vontade, não alimento receios ou restrições.
In heaven estou, a todos os níveis, em minha casa. Esta é a minha terra, o meu pedaço de chão, o lugar do mundo onde posso ser quase tudo. Aquiinventei caminhos, escadas de pedra, plantei árvores e bancos à sua sombra (que, na altura, era apenas uma ilusão já que as árvores pouco mais tinham que um palmo), sonhei muros onde o vento se detivesse e pudesse ter espaços de conforto e puro desfrute, desenhei uma lareira que seria feita com pedra da montanha, enfiei estantes dentro das paredes e criei um risco de que hoje ainda não me restabeleci, inventei um jardin zen, criei uma capela, enchi telas de pinturas, fiz tapetes de arraiolos, decorei uma casa de banho com parede azul escura, louças pintadas à mão e espelhos dourados... e nem sei que mais. E desenhei paredes onde pudesse ter pinturas e poemas.
Já muitas vezes aqui os mostrei mas o número de leitores vai aumentando e, não me conhecendo de outros posts, acontece que alguns estranhem algumas coisas que digo. Por exemplo, no outro dia contei que um rapaz que lá tinha estado a fazer uns arranjos nos disse que tinha levado a mulher para ela ver e que ela tinha gostado muito dos poemas.
Recebi então mail de uma leitora que me perguntava se eu tinha escrito poemas nas paredes. Respondo aqui: por acaso, sim, L.. Em algumas pintei à mão poemas de Nuno Júdice, Maria Teresa Horta, Herberto Helder. Mas o tempo tem desbotado as cores e as fotografias já não os mostram bem. Um dia vou ter que repintar essas paredes e reescrever alguns poemas, provavelmente outros.
Mas a maior parte da poesia está em painéis de azulejos. Numa oficina de azulejaria mandei fazer painéis uns com poemas manuscritos e outros com reproduções de pinturas. O que mostro é uma parte. O prazer em conceber cada espaço, em escolher os poemas, em dispô-los... isso é das boas, maravilhosas memórias que vivem em mim.
E agora que o tempo já deixou impressas as suas marcas, é com deleite que ando por estes caminhos -- aspirando o perfume das árvores e dos arbustos que rebentam desta terra tão pedregosa e, afinal, tão fértil -- e vou lendo os poemas. É como se os poetas de quem eles nasceram também vivessem aqui e por aqui andem acompanhando os meus passos, guiando-me nas descobertas que sempre faço -- os pássaros, as flores, o desenho que a luz desenha, as sombras nas pedras, o musgo, a caruma, os cheiros, as nuvens, a lua branca, a dourada folhagem, um sino tocando ao longe.
Posso mudar a cor do céu, incendiar a linha do horizonte, posso inventar cenários impossíveis, posso pintar as árvores debruando-as a encarnado, posso incandescer o que vejo enquanto aspiro a serenidade dourada do entardecer, enquanto sinto o nostálgico recolher dos pássaros.
Posso tingir o céu com padrão de damasco, pintar a cor das folhas que, ao anoitecer nele se recortam, posso fazer brilhar ainda mais a lua, posso acender um halo purpúreo em volta dela, posso sentar-me no chão, ouvir o silêncio, deixar que de mim nasçam as cores que alumiam a escuridão que quer envolver-me.
Posso deixar que os meus olhos vejam um azul cobalto quando o azul já se tingiu de ultramarino, posso fazer a lua dançar derramando luz como uma insubmissa serpentina branca, posso salpicar de incarnadine o que sobra da silhueta das folhas, posso ouvir ao longe, muito ao longe, uma música e sonhar que é para mim que os acordes soam.
Posso. Mas acho que não consigo mudar o sentido do vento que lentamente começa a soprar em volta das folhagens, fazendo-as dançar, arrefecendo a minha pele que ainda há pouco se aquecia ao sol.
Tenho então que entrar em casa, fechar as janelas, acender a luz que é suave, guardar os sonhos, refugiar-me entre as palavras, sílaba a sílaba desenhar a luz, idealizar a sombra quando se demora nos muros, escrever-vos sobre os ténues fios que o tempo vai tecendo em volta de mim, à vossa vista.
Pudera eu comandar o vento, o rodar dos dias, encurtar distâncias, dilatar a doçura da luz
Mas não. Não sou como ela que aqui diz:
I, too can command the wind, sir!
_________________
As fotografias foram feitas in heaven
O vídeo é do Cine Povero: 'Faz uma chave', poema de Eugénio de Andrade que também o diz.
Excerto de Elizabeth: The Golden Age com Cate Blanchett