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domingo, junho 10, 2018

A palavra a uma Leitora que há pouco tempo percebeu porque se suicidam as pessoas




Na sequência do meu post de ontem sobre o suicídio de Anthony Bourdain, recebi um mail de uma Leitora que me impressionou e, porque acho que quem se sente mal ficará melhor se souber que não é a único e que é importante que saiba que pedir ajuda é essencial e que há tratamento, pedi~lhe autorização para o partilhar convosco. Cá está:
Há cerca de um ano percebi porque se suicidam as pessoas, percebi que temos uma energia que nos motiva, que nos faz levantar da cama com projectos, uma energia que nos faz enfrentar e aguentar tudo. Só me apercebi dessa energia quando a perdi.
Não é tristeza, como dizem, porque tristeza temos todos. 
Pedi ajuda a um amigo médico, disse-lhe "dá-me qualquer coisa". Adversa que sou a drogas rasguei o folheto informativo e tomei tudinho. Ainda tomo (pela primeira vez obedeci a um médico).
Eu queria desistir mas não posso, pelos filhos, pela minha família -- não podia mesmo.
No outro dia, uma colega, meia idade -- um marido bem sucedido na sua profissão, um filho a acabar um curso superior, uma querida, nada dada a mostrar riquezas exteriores, saiu da empresa, e atirou-se ao mar. O corpo foi encontrado no dia seguinte.
Via sempre Bourdain. Fora da caixa, inteligente -- e dizia asneiras como eu gosto de dizer.
Infelizmente não se fala de depressão, não se fala nem se usa a TV para falar das doenças mentais que, se não matam, também não deixam "viver". Quando acontece uma desgraça chamam um psiquiatra ao telejornal e ficam por aí.
Estamos a viver de forma errada e nesta loucura esquecemos o essencial.

PS: Não sei se se apercebeu mas a CNN ao dar a notícia aparecia no ecrã um nº de ajuda


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Tendo em atenção a dica da Leitora a quem muito agradeço, permito-me colocar aqui a linha de apoio ao suicida que, apesar de não ter ligado para lá a confirmar, admito que esteja activa.

 213 544 545 - 912 802 669 - 963 524 660 / Diariamente das 16h às 24h 

Linha Verde gratuita - 800 209 899 / Entre as 21.00 e as 24.00 horas

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sexta-feira, maio 05, 2017

Os invisíveis





Estava numa reunião, ligou-me um antigo colega meu. Como não costumo atender chamadas quando estou em reunião, deixei estar. Passado um bocado um número que eu desconhecia. Deixei tocar. Estava sem som, não incomodava. Logo de seguida, aviso de mensagem de voz. Acto contínuo, o mesmo número. E outra vez. Pedi desculpa, disse que algum fogo estava a acontecer, que tinha que sair para atender.

Uma voz desconhecida, de homem, muito entaramelada. Não percebi nada, apenas, e vagamente, o que me pareceu ser o meu nome. Pedi que repetisse. De novo a voz enrolada, incompreensível e, no meio, o meu nome. Afastei-me da porta da sala de reunião, fui para um local onde pudesse falar mais alto como se o problema fosse meu. Depois, pensei que talvez fosse problema de rede quando, obviamente, não era. Perguntei quem falava. A pessoa disse qualquer coisa que não entendi. Depois de várias tentativas, percebi o nome de um ex-colega, não aquele que me tinha feito a primeira chamada mas outro. Um colega com quem tinha trabalhado há muitos anos, boa pessoa, bom amigo. Tinha saído da empresa onde eu estava na altura, num processo de rescisão amigável. Não tinha querido mudar de local de trabalho, recebeu indemnização, saíu ainda longe da idade da reforma.

Lembro-me muito bem dele. Muito moreno, muito bem disposto, encorpado, sempre com uma forma engraçada de dizer as coisas. Onde ele estivesse as pessoas andavam bem dispostas. 

Tinha uma mulher vistosa de quem ele se orgulhava muito. Era bonita mas de uma beleza talvez um pouco vulgar. Usava sempre uns cortes de cabelo modernos, maquilhava-se e vestia-se de uma forma produzida. Era simpática mas eu achava-a ligeiramente afectada. Ela às vezes ia lá ter com ele e ele olhava-a embevecido. Levava-a sempre até mim pois ela gostava de me cumprimentar e trocar dois dedos de conversa comigo. Tinham um filho uns quatro ou cinco anos mais velho que a minha filha e muitas vezes a conversa começava por aí. 

Há cerca de um ano aquele meu colega que ontem me fez o primeiro telefonema contou-me que tinha almoçado com ele e que ficou um bocado impressionado. Que lhe tinha sido diagnosticada há uns anos, pouco depois de ter saído da empresa, uma doença neurológica degenerativa, que estava com algumas limitações. E que, para ajudar à festa, a mulher o tinha deixado e o filho tinha ido trabalhar fora do país, nunca cá vinha. Vivia, pois, sozinho. 

E o que era, então, o telefonema? Apenas percebi, e muito vagamente, ao fim de árduos minutos de tentativa de compreensão: sabendo que algumas pessoas que me são próximas estão ligadas ao sector da saúde, tinha ligado ao outro colega para ele lhe dar o meu telemóvel pois tinha-o perdido e queria pedir-me se eu lhe conseguiria, através desses meus contactos, arranjar determinada consulta. O outro colega deu-lho dado mas, por isso, me tinha ligado, de seguida, para me avisar. 

Explicou-me a doença, o mal estar, as dificuldades e eu apenas percebia uma pequena parte do que ele, com esforço, me dizia. Disse-lhe que ia fazer as minhas melhores diligências e que, quando tivesse notícias, ficasse ele descansado que logo lhe ligaria a informar. 

Nesse mesmo dia, ligou-me mais quatro vezes, uma das quais depois das dez da noite, uma chamada longa, difícil de perceber mas, ainda assim, dolorosa. No dia seguinte, logo de manhã, nova chamada. Que agradecia mas que já não era preciso porque o médico habitual lhe tinha ligado, já tinha alterado a medicação, ia vê-lo nesse dia e ele afinal preferia assim, era mais fácil para ele, tinha um rapaz amigo que tinha um táxi que o levava lá, e que o levava ao colo, que eu não o via há algum tempo, não imaginava como ele estava. Mas isto ao longo de uma conversa demorada, eu sempre uma dificuldade terrível para o perceber, a fazer um esforço para não dar a entender que não estava a compreender mas, mesmo não percebendo mais de metade das palavras, a tentar manter a conversação. Deus meu, uma angústia. Ele igual na graça, na forma bem disposta de se exprimir, mas dizendo as coisas mais tristes que se podem imaginar. A solidão, as enormes limitações, o esforço brutal para não ser totalmente dependente, as agruras horríveis pelas quais tem passado, a falta de apoios para situações destas, o muitas vezes não saber a quem recorrer, o não querer dar trabalho aos outros, o não suportar quando, em lugares públicos, o olham de lado, o ar desmazelado que tem porque não consegue fazer a barba, só a senhora que lá vai a casa, percebi que talvez apenas uma vez por semana, é que lha faz, e que trava uma luta penosa para não ficar imobilizado e que tenta mover-se mas cada vez menos, cada vez pior.

Falava ininterruptamente naquela voz embrulhada, parecia ter uma necessidade incontrolável de falar.

Não falo habitualmente de situações destas pois temo sempre entristecer quem me lê e, para tristezas, já chegam as de cada um, não é preciso estar a ler sobre tristezas alheias. Se falo disto agora é porque tantas vezes nos esquecemos que existe vida para além da que é visível e, esquecendo-nos, não cuidamos de acautelar que, todos quantos precisam de apoio mas não têm como pedi-lo, o consigam obter.

Marcelo está empenhado, e o Governo e as autarquias também, em encontrar soluções para quem vive na rua -- e eu acho isso inquestionavelmente meritório. Mas não deveremos esquecer os que têm um tecto mas não têm companhia, apoio, meios de locomoção.

Não haverá nunca soluções únicas pois admito que mesmo quem quase não consiga mexer-se mas conserve ainda a integridade da sua lucidez não queira abandonar a sua casa e passar a ser tratado como um pobre animal inválido, em fim de linha. Mas seria bom que houvesse uma malha social mais humanizada e disponível para acorrer e garantir a dignidade da vida de todos quantos estão carentes de tudo, em especial de solidariedade.

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E, agora, quem estiver mais numa de espantar tristezas, poderá descer até ao post seguinte, onde se pode ver a primeira fotografia conhecida do casal Macron na praia. Delicioso, malgré tout.


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