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quinta-feira, maio 28, 2026

Klee
-- Por todas as razões e por mais uma: para fugir dos deslaçamentos verbais do Láparo. Chiça! --

 

Nunca devo ter sido muito normal. Por exemplo, lembro-me de ser ainda pequena quando vi pela primeira vez a imagem de uma pintura de Paul Klee. Nunca tinha visto nada assim. As pinturas que conhecia eram figurativas, quando muito impressionistas. Por cima do sofá da nossa sala havia uma pintura de razoáveis dimensões com uns barcos. As cores, os traços, a mancha, tudo puxava mais para o impressionista, e eu gostava muito mais do que das pinturas de flores ou afins que havia noutras paredes. Havia também umas gravuras antigas, bonitas, tenho ideia que de casas antigas, bairros, não sei, desfoca-se-me a memória, mas sei que eram absolutamente fiéis aos objectos retratados.

Imagem gerada pelo ChatGPT para responder ao meu pedido:
uma pintura que evoque o Senecio de Paul Klee

Por isso, quando vi Senecio, a tal pintura de Paul Klee, fiquei fascinada. E não larguei a minha mãe, queria ter uma reprodução, poderia ser um poster, poderia ser um cartão, qualquer coisa. Não sei o que é que os meus pais acharam dessa minha pancada. Provavelmente pensaram que não faziam a mínima ideia onde arranjar tal coisa* e que eu acabaria por me esquecer. Mas não me esqueci. Parecia-me que não conseguiria viver longe daquela imagem. E, não sei como, mas a verdade é que alguém arranjou a imagem. E a meu pedido a minha mãe emoldurou-a. Existiu lá em casa quase desde que tenho memória.

Não sei se alguma vez alguém me perguntou o que é que eu via ali. O que sei é que, se o tivessem feito, não saberia explicar. Sei hoje que é a cabeça de um homem senil. Mas o nome da pintura não muda nada. Poderia chamar-se Retrato de um Jovem Perplexo. Tanto faria. O que sei é que me identifico com aquela imagem, com aquele olhar, com aquelas cores, com a inexplicação daquele rosto.

Muitos anos depois, mantendo-me fiel a esse amor, não descansei enquanto não encomendei numa cerâmica um pequeno painel de azulejos com a reprodução daquela pintura para a ter in heaven. 

Como sempre na arte, posso olhar para uma coisa muito bonita, muito perfeita, e seguir adiante. Nada me diz. E posso ver uns 'rabiscos', uma sobreposição de cores, e ficar fascinada, agarrada. Para mim a arte não é, não pode ser, a reprodução da realidade. Tem que ser a invenção da realidade ou uma outra visão da realidade. E tem que me emocionar, tenho que querer ficar a olhar, de preferência sem ser capaz de dizer o que estou a ver.

No entanto, apesar de nada do que eu saiba da vida de Paul Klee ou das suas obras me fará gostar mais ou menos da sua pintura, a verdade é que fiquei curiosa quando vi o vídeo que abaixo partilho.

A Vida e a Arte de Paul Klee: História da Arte Explicada

Paul Klee passou os primeiros trinta anos da sua vida convencido de que não tinha aptidão para as cores, ou mesmo para a vida de artista.

Nascido perto de Berna, numa família de músicos, estudou em Munique, no seio do modernismo alemão, e encontrou o seu caminho no círculo de Wassily Kandinsky, Franz Marc e Der Blaue Reiter — um dos movimentos artísticos mais influentes da sua época. No entanto, apesar de toda esta companhia estimulante, mantinha-se inseguro quanto à sua própria voz. Depois, em 1914, uma viagem ao Norte de África mudou tudo.

Foram precisas décadas, mas a partir desse momento a visão singular de Klee floresceu com uma intensidade notável. Violinista talentoso, para além de pintor, trouxe a sensibilidade de um músico para o ritmo e a composição para a sua arte, produzindo obras que resistem à categorização fácil, inspirando-se em elementos do Expressionismo, Surrealismo, Cubismo e abstração, mas permanecendo inteiramente originais.

* Ao escrever aquilo lá em cima, de que imagino que os meus pais tenham ficado sem saber onde arranjar uma reprodução daquela pintura, em específico, do Paul Klee, penso que isto deve ser difícil de entender por quem é de uma outra geração. Agora arranja-se tudo. Ainda no outro dia andávamos a pensar onde arranjar um candeeiro que nos agradasse, vi na Amazon e havia vários, encomendei, perfeito. E o meu marido queria uma máquina para o jardim -- mais uma! --, procurámos na Worten, encomendámos ao fim do dia e, na manhã seguinte, estavam a entregar. Sabe-se tudo, descobre-se tudo, arranja-se tudo nem que seja do outro lado do mundo. Agora... há mil anos... sem marketplaces, sem internetes, está bem, está. Havia livrarias, isso sim. Que me lembro eram as únicas janelas abertas para o mundo. Isso e, de certa forma, também as lojas que vendiam discos. Por isso, na volta, a minha mãe comprou algum livro de arte e arrancou a página que continha a imagem do Senecio. Mas agora que falo nisto, tenho ideia que na livraria onde mais íamos, também vendiam algumas reproduções, gravuras, coisas assim. Mas posso estar enganada. Sei é que arranjaram. E foi bom pois, desde cedo, tive a companhia de imagens que ajudaram a desconstruir o que a sociedade tentava construir dentro da minha cabeça.

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Nota: Ando mais para este género de temas do que para sujar as mãos a escrever sobre os deslaçamentos verbais do Láparo. Bem pode ele chamar prostituto ao Montenegro, ainda por cima, prostituto sem carácter, que isso, a mim, não me inspira. Bem podem todas as comentadeiras do burgo saltar, assanhadas, para os balcões em que se serve comentário a copo, que eu me mantenho na minha. Estão os três bem uns para os outros. Melhor, os quatro. Portanto, se a conversa desceu ao nível do bordel, pois que lhes faça muito bom proveito. (Ah... não sabeis quem é o quarto? E refiro-me não ao quarto de dormir mas ao quarto personagem... Ora pensai. Láparo, Ventura, Mentenegro e... Hugo Soares. Uma quadrilha do caneco. Quadrilha no sentido de serem quatro, claro. Se calhar, mais vale dizer quarteto. É isso, um quarteto do caraças, benza-os o belzebu).

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Desejo-vos um dia feliz

domingo, março 22, 2026

A crise tramada em que ainda estamos só a entrar.
Os meus meninos e a política.
E, para desanuviar, pastéis de massa tenra e gelados.

 


Não é obsessão, é verdadeira preocupação. Não dá para assobiar para o lado. Pode ser-se muito optimista e pensar que é lá longe ou que um dia destes o maluco recua. Mas nada disto elimina os riscos graves que todos corremos.

Com um doido varrido, narcisista maligno e demente, ao comando na nação mais poderosa do mundo, rodeado de nacionalistas que aliam um belicismo exacerbado a um espírito doentia e deturpadamente religioso, de ignorantes, de gente que luta pela sobrevivência (pois sabem que, mal sejam apeados, serão presos), ninguém está seguro. Poderia pensar-se 'coitados dos americanos' ou 'votaram nele, agora amanhem-se'. Mas não é uma visão correcta pois, como se vê, o mal que ele faz é extensivo a todo o mundo.

Os combustíveis vão continuar a subir e poderão tornar-se proibitivos, especialmente para quem não usa viatura de empresa e tem que os pagar do seu bolso. Acredito que possam até vir a ser rateados. O impacto que isso vai ter nas nossas vidas vai ser enorme. Em Espanha, muito correctamente, já está a ser recomendado o regresso ao teletrabalho, o incremento do uso do transporte público, o conselho para evitar viagens desnecessárias.  E isto afecta a sociedade em cadeia de uma maneira de que não consigo perspectivar o limite inferior.

Ao mesmo tempo que Trump dá sinais de que quer retirar, aumenta o número de tropas a caminho (e o uso da base das Lages...), aumentam os bombardeamentos, destroem instalações críticas -- e as retaliações iranianas não se ficam atrás. Ou seja, é o caos. E se do caos tranquilo nasce frequentemente a beleza e a criatividade, quando é um caos destrutivo é difícil ver se pode sair algo de bom.

Aqueles países agora tocados por esta guerra absurda dependem, para sobreviverem, de muita coisa que lhes é externa mas também, como todos nós, de água. E grande parte da sua água resulta de dessalinização. Uma central já foi atacada. Um primeiro aviso. Se várias o forem, a crise escalará para outros patamares. E nem quero pensar com que consequências.

Especula-se (e, por enquanto, este é o verbo que quero usar) que, com toda a escassez de combustíveis e consequente aumento de preços,  os juros começarão a subir. Ao subirem, sobem as prestações ao banco de quem está a pagar casa. E isso apertará ainda mais o garrote a muito boa gente. Mas subirá para muito mais que essas pessoas pois todas as empresas e todos os países têm dívidas e, portanto, o impacto será generalizado.

Não sei se há uma saída possível para isto. Se Trump saísse de cena (mas não é provável que saia, pelo menos no curto prazo) e se, em vez dele, houvesse um tipo inteligente e decente, talvez pudesse reunir-se com a China, talvez conseguissem pôr o Putin a bordo (idealmente, alguém mais decente e menos criminoso que Putin), talvez fizessem a delicadeza de contar com o contributo da Europa -- e talvez conseguissem pôr-se de acordo em que já é tempo de pensar em destruição e morte e começar a pensar em paz, no futuro, nas crianças e no mundo que lhes queremos deixar. Mas isto sou eu a efabular, sou eu a querer ter pensamentos positivos

E, muito sinceramente, não estou a consegui-los ter. Parece que o mundo está a ser sugado pela vertiginosa demência e malvadez de uns quantos homens possuídos pelo diabo. Netanyahu é um criminoso insaciável. É como Putin. Não há compaixão, não há misericórdia nesses dois seres viciosos, sanguinários. Matam crianças, famílias inteiras, destroem-lhes as casas, aniquilam-lhes o futuro, fazem com que toda a gente viva apavorada, sem perspectivas, entre mortos e ruínas. E não se condoem.

Poderia acabar-se-lhes o dinheiro, não conseguirem suportar a pesadíssima factura da guera. Mas com esta crise, o Putin fica a rir-se e a facturar. E de onde vem o dinheiro de Israel? Há anos a bombardear tudo e mais alguma coisa... Sabendo-se que o armamento e munições são dispendiosíssimos, de onde lhes vem todo esse capital? São frentes de guerra em simultâneo e em força: Gaza, Líbano, Irão. Não percebo. Têm de tal maneira os Estados Unidos na mão que é de lá que o dinheiro vem? Dívida? Mas estão a financiar-se onde? (Se não fosse tão tarde, tentaria agora pesquisar. Follow the money. Mas daqui a nada são três da manhã, já tenho sono). O dinheiro em Israel parece vir de um poço sem fundo. E um poço sem fundo de dinheiro nas mãos de um regime facínora, com uma apetência insaciável pela destruição alheia e pela ambição desmedida, é um grande, grande e dramático, problema.

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Mas adiante. Não quero contagiar-vos com o que a mim me atormenta.

O meu dia foi muito bom. Tive cá a almoçar os meus rapazes crescidos, desportistas, cheios de apetite e boa disposição. Um deles contou que na preparação física lá no clube onde é guarda-redes levanta 90 kg. Usou uma palavra que não identifiquei. Traduziu: com agachamento. Nem consigo imaginar... 90 kg...? Vai fazer 15 anos. Desde pequeno que é todo dado ao desporto, ágil, habilidoso. O mano mais velho, também guarda-redes, está a pensar começar também a praticar box. Outro dos rapazes, igualmente guarda-redes, agora mudou-se para futsal. O mais novo também já lá andava. E a menina agora faz vólei. No outro dia vi imagens da equipa, um grupo de miúdas giras, divertidas. Tudo gente dada ao desporto. Fico contente.

E estivemos também a fazer o teste dos partidos. Já no outro dia, um dos meninos, um que percebe e gosta de política, o tinha feito. Não se pode dizer que tenhamos que atribuir um grande significado aos resultados pois, com a tenra idade dele, muitos conceitos não estão ainda bem compreendidos nem saberá avaliar correctamente as implicações das opções que se tomam. Mas tenho ideia que lhe deu AD, creio que logo seguida do PS. Fiquei surpreendida. Os dois que hoje o fizeram, sem surpresa a um deu-lhe a AD, logo seguida do Chega e da IL, e a outro o PS. Ao mais velho, o segundo lugar do Chega deve-se ao tema da imigração. Faz-lhe impressão a quantidade de imigrantes que, segundo ele, parecem ter tomado de assalto a Baixa, acha que isso é sinónimo de entrada desregulada de imigração. O irmão perguntou-lhe se lhe faria a mesma impressão se fossem ingleses ou alemães. Gostei da pergunta. Gosto muito de os ouvir discutir estes assuntos, gosto que se interessem por política. O mais velho, 17 anos, prestes a entrar na universidade, preocupa-se que não venha a ter um salário que lhe permita ter a sua casa, a sua família, os seus filhos. É a sua grande preocupação. E imagina que as políticas liberais serão a resposta a isso. E imagina isso porque diz que se as políticas que têm vigorado nas últimas décadas -- e que cola às políticas socialistas -- deram o resultado actual (salários baixos, dificuldade em ter casa, natalidade reduzida), então há que mudar. Compreendo o seu ponto de vista.

Há muita literacia política a levar a cabo junto da juventude. E há que perceber as preocupações e os ensejos dos jovens. Os partidos democráticos deveriam, de forma muito honesta e sensata, apresentar perspectivas e soluções que vão ao seu encontro.

Depois, já para o fim da tardinha, fui comer o meu belo geladinho de gianduja e cheesecake. Quando peco, peco a sério, duas bolas a preceito. Pelo-me pelos melhores gelados de Lisboa e arredores (já devo ter dito mil vezes mas não me canso de os louvar: Casa do Gelado, Avenida de Roma). E passeámos por lá, pela avenida e adjacências, e, antes,  pelo parque do Campo Grande e, apesar de serem lugares que conheço muito bem, que frequentámos assiduamente durante uma parte significativa da nossa vida, senti-me como me sinto sempre: uma turista à descoberta.

E, claro, não poderíamos regressar a casa sem uns pastéis de massa tenra do Frutalmeidas para o jantar (e, note-se: não sou parte interessada nos lucros nem daqui nem dos gelados, sou apenas cliente satisfeita). Claro que tudo isto tem um senão: o estacionamento. Cada vez mais difícil. Carros, carros, carros. Voltas e mais voltas para descobrir onde largar o carro.

Dependemos totalmente dos carros, eu e toda a gente. Até por esta dependência, a crise dos combustíveis em que estamos ainda só a entrar é um problema que deve ser levado muito a sério, que deveria estar já a merecer atenção e medidas como em Espanha. E é tão a sério que até volto a trazê-lo à conversa, aqui, na despedida, entre pastéis de massa tenra e gelados.

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Nas imagens, geradas através de Inteligência Artificial, procuro trazer sempre o motivo da paz [ao mesmo tempo que evoco alguns pintores (Geogia O'Keeffe, Paul Klee, Matisse, Mondrian, Kandinsky)].

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Desejo-vos um belo dia de domingo

quarta-feira, setembro 01, 2021

Antes paneleiro que populista, diz o António Guerreiro


 

Dia de férias. Sem canseiras, sem stress. Finalmente. Ainda assim, foram compradas e depois postas prateleiras na despensa para arrumar melhor os sapatos, cabides para bonés, cabides para panos do pó em uso, um cabide com uma coisa com compartimentos que o meu marido diz que é para pôr sapatos mas que eu não sei se é e usei para acondicionar produtos de limpeza (de madeiras, de vidros, de fornos, de tapetes). E acho que ainda temos que adquirir caixas de arrumação para ter numa as pilhas, noutra as lâmpadas, noutra as extensões, etc. 

De manhã, quando fomos ao Leroy, à cidade mais próxima, quis logo trazê-las mas ele não quis. Aquele é o seu território  e não me quer a arrumar as suas coisas. Diz que a minha lógica não é a dele e teme nunca mais encontrar o que hoje tem à mão de semear. Só que eu olho para aquilo e vejo um caos. Ele espanta-se, diz que durante vinte anos eu não quis saber de nada daquilo e agora quero organizar tudo. Explico que é uma questão de prioridades. Agora já estamos no fundo dos fundos, na despensa.

Quando estávamos a ir de carro para o Leroy ele deu-me uma novidade: 'as gavetas do móvel da despensa estão vazias'. Fiquei sem perceber: 'Quais gavetas?'. Nunca dei por gavetas nenhumas. Ele respondeu: 'Como queres que te responda? As gavetas do móvel'. Não estava a ver. 'Mas onde estão as gavetas?, nunca as vi'. Ele disse: 'Não me admira que não tenhas visto, nunca vês esse tipo de coisas. Como queres que te explique?'. E eu, admirada: 'Mas é que nunca vi mesmo. Parece que aquilo tem só portas e portinhas, umas de madeira, outras de vidro, prateleiras, prateleirinhas e nichos. Explica: estão em cima ou em baixo, entre o quê? Entre portas?'. E ele: 'Sim, isso, em baixo, entre portas'

Aquele móvel imenso, atafulhado de coisas e mais coisas, sempre foi, para mim, território a ignorar. Mal cheguei a casa fui logo conferir. Três grandes gavetas. Como é possível que nunca tenha reparado nelas? Há com cada mistério... E, de facto, vazias. Um desperdício. Portanto, vou dar-lhes um destino. Se calhar, uma vai ser para panos do pó, panos de limpeza e coisas afins. Hoje tenho uma gaveta da cozinha com isso. Outra se calhar vai ser para individuais e/ou toalhas de exterior. A terceira ainda não sei. O meu marido diz que se calhar para papéis que hoje estão em caixas num móvel da cozinha. E na cozinha posso pôr toalhas de mesa que estão num móvel que, às tantas, pode ficar para outra coisa.

Ou seja, a so called despensa que, na prática, é uma arrecadação, está a ficar um lugar bem aproveitado, e, além do mais, civilizado e transitável. 

Tirando isso, os novos habitantes. Estive na espreguiçadeira, à sombra, a ler. Às tantas, levantei-me para ir buscar água e tive uma visão. 

Temos um portão alto que separa a zona das traseiras (se é que, numa casa como esta, faz sentido falar em traseiras). Antes de termos parte da propriedade vedada, pusemos aquele portão para tentarmos que não acontecesse uma coisa que uma vez aconteceu e que nos incomodou bastante. Estávamos na sala, de janela aberta, descontraidamente em família, e, às tantas, ouvimos vozes mesmo ali. Olhámos pela janela e estavam umas pessoas a passear mesmo junto à casa, dá ideia que, inclusivamente, a olharem para dentro. Quando nos viram, disseram com a maior descontração: 'Parabéns, está tudo muito bonito'. Habituados à total privacidade citadina, aquilo pareceu-nos uma tremenda invasão da nossa privacidade. Não me passaria pela cabeça que um dia estivesse a sair da casa de banho, nua, e algum curioso estivesse ali a passar e a observar. Portanto, pusemos um portão para ver se, ao menos, quem passasse na rua se sentisse inibido e sem à vontade para circular por ali, junto à parte mais privada da casa. Mais tarde, quando os caçadores andavam por todo o lado, deixando-nos com medo por causa dos miúdos, vedámos parte do terreno, a parte mais ou menos circundante da casa. O portão intermédio perdeu o seu propósito mas não o tirámos pois gostamos dele. Está, contudo, quase sempre aberto. 

E, então, deitado no chão, no recanto formado pelo portão aberto e pela parede, estava o cão. De vez em quando, damos por ele cá dentro. Parece que está em sua casa. Olhou para mim com interesse. Quando passei lá perto, levantou-se e foi deitar-se num banco de pedra que há colado àquele lado da casa. Mostra conhecer os cantos à casa.

Também vi o gatinho malhado de branco e dourado. Também por aí anda, como se este fosse o seu território.

Tenho estado a ler o livro do António Guerreiro 'Zonas de baixa pressão'. Gosto das suas crónicas. É daquelas pessoas que atravessa o seu caminho sem desvios ou concessões. Diz o que pensa e tenho ideia que, como a malta o respeita, não se vê metido em alhadas ou confusões verbais. É como o Vice-Almirante Gouveia e Melo que soube impor respeito. Aquela maralha do comentário a metro ou os jornalistas de meia-tigela batem a bola baixinho quando falam com ele ou de algum tema que o envolva. E tenho ideia que com António Guerreiro passa-se o mesmo. E nem tem que andar de camuflado.

É daquelas vozes lúcidas, que não vai em modas e que, aparentemente, não tem grande medo de represálias. E é inteligente. E isso, parecendo que não, faz muita diferença. 

Leio uma crónica, fecho o livro e volto a abrir ao acaso. Como se fosse um baralho de cartas que se abre e se distribui a partir de onde calhar. Assim eu a ler este livro de crónicas. Os temas são variados, alguns absolutamente actuais, outros intemporais, e não há cedência ao facilitismo. Pelo menos, assim me parece. 

Leio e penso que deveria ter um lápis para ir sublinhando algumas passagens, talvez para reler, talvez para partilhar convosco. Mas a preguiça tem-me impedido de me levantar para ir procurar um lápis. Portanto, agora, népias.

Aliás, agora que peguei nele reparei numa página a que, à laia de marcação, tinha ao de leve dobrado um cantinho. Transcrevo parte de uma frase:

A natureza gosta de se esconder, tanto quanto a ignorância gosta de se mostrar

Mas é a excepção. Não assinalei mais nada. Aliás, só mais uma. A crónica à qual pertence o título deste post chama-se: 'Se eu fosse...' e numa nota, no seu final, António Guerreiro explica:

No título, a palavra 'paneleiro' é substituída por três pontos. Não por motivos de censura ou auto-censura mas porque seria um foco de atracção dos clicks  Antes paneleiro que populista.

E eu, que sou uma descarada, apesar de também não suportar o populismo, puxei este statement para o título pois acho um daqueles sound bites de estalão. 

The Harbinger of Autumn - Paul Klee

E, por ora, nada mais. Não tenho conseguido dormir a sesta nem, de manhã, dormir até mais tarde. Não sei porquê pois bem precisada ando. Por isso, ainda não pus o sono em dia. Uma chatice. Parece que ainda não fiz o desmame do estado de habituação (ou dependência?) a elevados volumes de trabalho. Nos pequenos momentos de descanso, sinto-me entediada como se a ausência de ocupação útil quase me pusesse doente. Mas pior ainda que isso: sinto-me como que a desleixar-me com as minhas obrigações se, em horário de trabalho, me puser estendida ao sol, a ler. Que coisa esta.

E o tempo que tem estado tão afável, tão a abrir a porta ao outono, tão bom para uma pessoa se sentir serenada... Só me falta mesmo é reaprender a não fazer nada e a gostar disso.

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Pinturas de Paul Klee ao som da Estrela da Carminho

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Desejo-me uma boa quarta-feira
Saúde. Esperança. Ânimo.

quarta-feira, março 06, 2019

Potpourri com a cataplana do Costa na casa da Cristina Ferreira, com bochechas e queixadas à mistura e com a saltitona Katelyn Ohashi a mostrar o que é a alegria absoluta





Gostava de contar todas as minudências do meu dia mas acredito que seja fastidioso para quem me lê.  Tudo muito mais do mesmo e, como sempre, nada de relevante.


Conto apenas por alto que desbastei uma árvore grande que está num dos lados do caminho que vem do portão grande. Não sei que árvore é aquela, não é azinheira nem é aroeira. É uma árvore muito linda e tem uma madeira amarela que, quando cortada, cheira muito bem. No fim, estava no chão um mega monte de ramos que arrastei com esforço lá para baixo. Quem veja e não saiba, nem vai perceber o grau de desrame que a árvore sofreu: continua armada e sombrejante como se não tivesse passado por toda aquela amputação. Também continuei com ancinho e vassoura a apanhar bolotas, folhas, terra, musgos e restinhos de cenas que, tudo junto, voltou a dar mais um montão de carrinhos de mão. Também varri, lavei e limpei a casa por dentro. E, para além de peixe cozido para o almoço, cozinhei queixadas de porco no forno com orégãos, alecrim e mel e bochechas, também de porco, estufadas. Para acompanhar, arroz de cenoura feito com o caldo do estufado. E isto trouxe para jantarmos em casa da minha filha. Rever os meus amores, estar na conversa, é das coisas boas da minha vida. Estão grandes os meninos, brincalhões, felizes da vida. Viemos de lá relativamente cedo porque o meu marido anda com dores no pescoço e, às tantas, fica impaciente e, além do mais, tínhamos coisas para arrumar e, segundo decretou, 'estamos a precisar de descansar'.


E é verdade. Foram uns belos dias in heaven mas em que trabalhámos de sol a sol. Intercalei apenas por volta do meio dia para ver o António Costa com a mulher, os filhos e a nora no programa da Cristina Ferreira. Muito bem todos, uma família simpatiquíssima, tudo gente boa onda. Todos bem... excepto a Cristina Ferreira. E o excepto tem a ver com aquele excesso, aqueles gritos, aquela gargalhada insuportável, aquela maneira histriónica de ser e de se vestir, aquela maneira absurda de se pôr de perna aberta quando está de pé a falar com alguém, aquela parvoíce que aparece a todo o momento como, por exemplo, ao tirar os sapatos e pôr-se de chinelos, supostamente para ir almoçar. Não há dúvida que bate a concorrência aos pontos mas, como nunca vejo televisão de manhã, não consigo estabelecer paralelismos. Provavelmente os outros, nos outros canais, são mais sóbrios e a malta gosta é de chinfrim, de baderna e de fofoca. Do que percebo, a grande aposta da Cristina Ferreira é devassar a vida privada das figuras públicas. Ora isso apela ao voyeurismo de que toda a gente padece um bocadinho. No fundo, no fundo, é a decadência.


Confesso que, na véspera, ao ouvir que o Costa lá ia, temi o pior. Pensei: não me digam que vai sujeitar-se àquelas perguntas que apelam ao sentimentalismo, à lágrima. Se ceder a essa piroseira vai ter-me à perna, ah vai, vai. Mas não senhor, manteve-se no seu registo de boa onda e depois concentrou-se na cataplana, foi respondendo com a leveza típica de quem vai conversando enquanto faz a comida e deixou a Cristina a fazer a festa com o resto da família. Gostei de vê-lo, na boa, com a sua alegre Fernanda, com o filho que é outro simpático e as duas meninas, bonitas e sorridentes. Portanto, por esta passa. E se aquilo chega a casa de um milhão de pessoas pois, muito bem. Manteve a dignidade, não disse nada que envergonhasse aqueles que o apoiam. Portanto, adiante. 


Tirando isso, só sei que daqui a nada estou de volta ao trabalho e que nem tão cedo volta a haver feriados e isso não é ideia especialmente inspiradora. Também sei que tenho alguns assuntos de que gostava de falar aqui (e um foi-me agora enviado pelo P, a quem muito agradeço) mas requerem alguma concentração e, a esta hora, não tenho neurónios acordados em número suficiente. Também sei que, neste momento chove que deus a dá, sopra o vento com intensidade, atirando fortes bátegas de água contra a janela -- e esse som é outro que me agrada. 


Como sempre faço, abro o Youtube, preguiçosa de ir à procura, passiva, curiosa de ver o que o safado do algoritmo resolveu escolher para me mostrar. E, uma vez mais, ele acertou. Tinha, logo em primeiro lugar, mais um extraordinário desempenho da mocinha reboludinha, pequeninha, elástica, risonha: Katelyn Ohashi. É humana, mulher e, no entanto, parece uma boneca saltitona, um pássaro maroto, alguém muito diferente dos outros humanos. Vê-se e pasma-se. Como é possível?



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Como continuo tomada pela indolência, em vez de ir escolher fotografias feitas por mim e para fazer jus ao potpourri do título, fui buscar a companhia de uma malta dada ao surrealismo, a saber, respectivamente, Roberto Matta, Wolfgang Lettl, Paul Klee, Salvador Dali, Wolfgang Lettl e Jindřich Štyrský. Para companhia musical: Malena de Ennio Morricone. Tá-se bem.

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E agora já ia desejar uma boa semana a começar por ... quando dei por mim a acordar a tempo de ver que onde é que já lá vai a segunda-feira. Thanks god já é quarta-feira. Mas que seja tudo bom na mesma, ora essa.

terça-feira, maio 09, 2017

Acho que hoje, por aqui, a noite não está estrelada, Vincent


Leio que Vincent Van Gogh não estava certo da sua arte e que, de cada vez que pintava uma coisa, achava que era um fracasso.

Tal aconteceu também com The Starry Night. Achou que era obra sem préstimo. 




Consta que, de facto, apenas vendeu um único quadro enquanto vivia. E se era um pintor prolixo. Apesar de apenas ter pintado durante dez anos (entre os 27 e os 37 que tinha quando se suicidou), deixou cerca de 900 pinturas e mais um monte de desenhos e esboços, num total de cerca de 2.000 trabalhos.

Igualmente prolixo a escrever, foram também da mesma ordem de grandeza as cartas que escreveu, nomeadamente ao seu bom irmão Theo. Nas cartas ou postais, por vezes fazia o esboço do que estava a pintar e escrevia sobre isso.


Lendo sobre isso e vendo as suas cartas e constatando a prolixidade, fez-me lembrar a Gina G. que também fotografa, cria e escreve e descreve. E não venham os puristas dizer-me que a Gina está a milhas do Vincent porque não sei, não -- e, de resto, acho que a vida não tem que ser um pódio nem sequer há uma única escala. Gosto imenso de ver a torrente criativa das palavras da genuína Gina, das suas fotografias tantas vezes surpreendentes. Tudo lhe é motivo, tudo ela transforma em algo que, depois, partilha com o mundo. E é sempre uma surpresa e uma graça (mesmo quando há alguma sombra a toldar-lhe os dias).



Na altura, também havia muito quem achasse que o que Vincent não tinha a ver com nada. Ainda hoje o que não devem faltar são pessoas que, perante uma 'noite estrelada' ou uma jarra com girassóis, pensam: 'Tretas, como se eu não fosse capaz de fazer igual. Não, igual não... Qual igual...? Melhor, muito melhor'


A vida muda a perspectiva segundo a qual observamos o mundo. 

Lembro-me de, em tempos, uma prima me ter recomendado uma exposição da Paula Rego e de eu, com inabalável convicção, lhe ter dito que nem pensar, que não gostava nem um pouco da obra de tal pessoa. Hoje acho-a extraordinária.


Identicamente lembro-me de, numa outra vida, ter ido ver uma exposição de Miró e de ter vindo de lá desconcertada. Nada daquilo parecia fazer-me sentido. Tempos houve em que eu procurava o sentido de tudo e, não o encontrando, rejeitava-o. A vida tem vindo a ensinar-me que o sentido das coisas não tem que ser percepcionado para que as coisas nos emocionem. Agora gosto imenso de Miró. E gosto especialmente se olhar para as suas pinturas sem tentar reconhecer o que quer que seja. Acho que há uma elegância intrínseca, uma leveza, uma harmonia cromática e espacial. E uma simplicidade que afasta pretensas explicações.


Não será exactamente pelos mesmos motivos que gosto de Miró e de Paula Rego. Na Paula Rego é outra coisa, aí penso ser a afinidade -- e o grão de loucura, o agudo sentido de observação, a ironia, o desprendimento em relação à opinião alheia.

Igualmente era completamente insensível em relação à pintura renascentista. Nos museus passava por essas salas sem me deter nem um minuto. Agora, não que seja de minha predilecção ou que lhe seja particularmente sensível, mas já olho, já tento encontrar alguma estética que, de alguma forma, chegue até mim.  No entanto, ainda não cheguei completamente lá. Tudo o que me pareça querer ser fiel à realidade me maça. Se algum ângulo de visão ou alguma figura é imprevista ou parece deslocada no contexto, então já talvez me desperte interesse. Procuro o que é incomum, desconhecido, incompreensível. Procuro o que não existe a não ser ali.

Parte de O Juízo Final - Fra Angelico
(E desta parte eu que gosto bastante)

Somos diferentes uns dos outros e somos diferentes ao longo das nossas idades. O meu gosto tem vindo a evoluir no sentido do despojamento, do silêncio.

Rothko, claro. Mas muitos outros. Contudo, quando penso na atracção pela pintura do nada e do silêncio, é em Rothko que logo penso.


No entanto, acho que o meu sentido estético sempre assentou numa matriz de desconcerto. Lembro-me de ser bem miúda, ainda desconhecedora de tudo, e ter visto numa revista uma imagem que me fascinou. Recortei-a. Pedi à minha mãe para a emoldurar. Ela fez-me a vontade. Uma moldurinha pequenina. Era de Paul Klee. Não fazia ideia, na altura, de quem fosse. E, no entanto, era como se fosse coisa que me fosse familiar, um ser imaginário que existia sem propósito, apenas para estar ali. Um mundo perfeito onde tudo tem lugar, sem explicações.


E estava eu a ler o texto 10 Things You Might Not Know About Vincent van Gogh no Google Arts & Culture quando reli que uma das músicas de que muito gosto tinha sido inspirada em Van Gogh. E lembrei-me de como, não há muito, dei por mim a sentir-me como tantas vezes me sinto: a mais burra de todas as burras. Parece que, por vezes, sou distraída para além do que é normal e admissível. A desatenção das coisas faz-nos ignorantes e, talvez por isso, tantas vezes distantes.

Por inacreditável que possa parecer nunca, antes desse dia, tinha reparado que a canção se referia à pintura de Van Gogh e a ele mesmo. E se a ouvi e ouvi. Gostava sem motivo racional, sem pretender descortinar-lhe o sentido, gostava apenas por gostar. E, no entanto, depois que o soube, parece-me tão estupidamente óbvio que não compreendo como é que nunca o tinha percebido.

Mas, enfim, as coisas são o que são e nem vale a pena tentar perceber tudo o que nos rodeia. Muito menos o que se passa dentro de nós.

Fresh snow in distant mountain by Okuda Genso

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Sobre pinturas de Van Gogh, A Prayer de Max Ehrmann lido por Tom O'Bedlam


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Um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

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terça-feira, janeiro 10, 2017

Uma casa aberta, para todos.
Uma casa onde cabem todos os sonhos.


Se pudesse, acho que, mesmo assim, não iria. Não porque não me sinta devedora ou porque respeite menos do que os que vão mas porque não está na minha natureza ir. O que penso sobre ele já o disse no dia em que morreu. Agora é o tempo das despedidas e eu nao sou de me despedir.

Por isso, acompanhando as imagens que vejo na televisão ou nos jornais -- tanta gente nos Jerónimos, longas filas -- vou por aqui falando ou mostrando outras andanças. 

A vida continua e honraremos a memória de quem parte se mantiverms vivos os seus ensinamentos ou o seu exemplo.

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Ao percorrer as longas galerias de cores quentes onde várias vezes já estive antes é sempre com emoção que me detenho quando reencontro obras daqueles por quem o meu coração mais bate.

Hoje algumas vezes. A respiração em suspenso, e eu logo parada em frente: 'Ah... Paul Klee...' aquele que reúne todas as cores, toda a inocência, todas as possibiliades em aberto. 'Ah...'.



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quinta-feira, agosto 25, 2016

Vem aí a guerra e só os alemães é que sabem?
Para que é que vão armazenar água e alimentos?
Não sei.
Mas, do que conheço dos alemães, avanço com uma explicação.
[E, atenção, o que digo não é para causar alarme, é apenas para alertar para o que estamos fartos de saber]





Depois de ter louvado a iniciativa de Renzi atribuindo 500 euros a cada adolescente para consumir em cultura, volto-me agora para a notícia que está a causar estranheza e a lançar alguma suspeição nos europeus:

O plano de defesa civil, que inclui o conselho para os alemães armazenarem comida e bebida para dez dias, foi hoje aprovado pelo Governo.


O governo alemão aprovou hoje um plano de defesa civil, que pede aos cidadãos para fazerem aprovisionamentos de água e alimentos, permitindo uma resposta em caso de atentados ou catástrofes naturais. (...)
Entre as recomendações feitas à população, contam-se a necessidade de reservas de água, de "dois litros por pessoa e por dia, por um período de cinco dias". Os cidadãos devem abastecer-se de alimentos suficientes para dez dias.
Prevê também planos de emergência em caso de interrupção do fornecimento de água ou eletricidade, uma série de medidas de segurança em caso de crise de natureza química, atómica ou biológica, ou ainda em caso de ataques cibernéticos.


Soube disto e desde então já ouvi interpretações diversas e comentadores para todos os gostos a especular a razão de ser de tão inusitada medida: que tem a ver com a Ucrânia, ou com a Turquia, ou com o Daesh, ou com severas ameaças às centrais nucleares ou com indícios de terramotos bárbaros, ataques cibernéticos ou, acrescento eu, invasão por marcianos.

Pode ser. Mas, como não tenho espiões debaixo das saias da Merkel, de facto não faço ideia.

Contudo, já trabalhei diversas vezes com alemães, uma das quais recentemente. E já trabalhei em diversos contextos e circunstâncias, algumas vezes durante períodos bem longos.

Já aqui o disse algumas vezes: gosto de trabalhar com alemães embora venha achando que, enquanto organização (isto é, a nível não pessoal), se vêm tornando mais quadrados, tudo muito by the book. A nível pessoal continuo a achá-los descontraídos, simpáticos, até folgazões. Mas, a nível profissional, não brincam em serviço nem sabem desviar-se um milímetro do que antes planearam.

Contudo, se reconhecerem e lhes provarem, mas provarem bem, que uma solução menos ortodoxa parece valer a pena, então equacionam-na, enfiam-na no plano e deixa de ser heterodoxa e, portanto, passa a estar regulamentada, tornando-se admissível. E, uma vez estabelecido um plano, seguem-no ferreamente. Podem levar um ano ou mais a fazer um plano ao pormenor, quando, em iguais circunstâncias, os portugueses o fazem numa manhã, de forma não detalhada para deixar margem para os imprevistos que sempre acontecem. Os alemães não: os alemães elencam previamente todos os passos e todos os possíveis imprevistos e, neste caso, para cada um, estudam qual o antídoto. Só depois se abalançam à acção.

Para além do mais têm a paranóia da segurança e da propriedade das suas coisas. Podem optar por soluções pouco operacionais e pouco económicas mas priveligiam (ou melhor, exigem) a segurnça e o controlo absoluto das situações (a propriedade inquestionável e regulamentada da informação gerada nas suas organizações, a segurança à prova de bala das suas redes de dados, dos seus ficheiros, etc).

Ou seja, do que lhes tenho observado -- e, como disse, do que tenho constatado desde há alguns anos para cá, esta atitude vem-se tornando generalizada e inquestionável -- só se sentem bem se tiverem planos para tudo e, sobretudo, planos que garantam que, haja o que houver, eles estão sempre salvaguardados pois preveniram-se em terra antes de se fazerem ao mar.

Por isso, do que lhes conheço, não precisam de saber de alguma ameaça concreta para desencadearem estas medidas que agora aprovaram. Leio e acredito que isto faz parte de um plano global que vem sendo estudado desde de 2012 (ou seja, há 4 anos) e que visa substituir um outro que estava em vigor desde 1995.

Agir como eles, tem prós e contras. Eu acho que, com alguma frequência, tendem a levar a coisa ao limite do absurdo; acho que perdem a noção de que tamanha pre-ocupação é um excesso de zelo que pode não se justificar. No entanto, acho que entre a despreocupação portuguesa, de deixar tudo muito ao improviso, de não divulgar riscos para não lançar alarme, de se fiarem na virgem e não correrem e a confiança cega dos alemães em que tudo poderão prevenir haverá um meio termo virtuoso.

Por exemplo (e sem, de modo algum, querer cavalgar a onda da tragédia do sismo italiano), refiro um tema do qual já aqui, de resto, falei algumas vezes: algumas zonas do país e, em particular o Algarve, a Costa Alentejana e Lisboa e Vale do Tejo. são de alto rismo sísmico e o não ter voltado a haver um abalo violento como o de 1755 já é uma improbabilidade. Ou melhor, é uma grande sorte que devemos agradecer a todos os santinhos mas é, também, uma improbabilidade. 


Dito de outra forma: pode ser que ainda falte muito tempo e espero bem que sim mas o mais provável é que volte a acontecer e que, acontecendo, possa vir a ter efeitos devastadores.


Por isso, teríamos já mais do que tido tempo não apenas para reforçar as estruturas dos edifícios que não aguentarão um desses tremores de terra valentes como para traçar um plano de contingência e de recuperação (a todos os níveis) em caso de desastre. Mas qual o quê...

Este plano pressuporia ampla divulgação, realização de simulacros e intervenções de toda a ordem. Contudo, portuguesmente assobia-se para o lado e espera-se que, na nossa vida, tal não venha a acontecer.

Não sou eu que o digo, que eu não percebo nada do assunto. Mas ouça-se um dos maiores especialistas nacionais na matéria, o Engenheiro João Appleton:


Tivemos um bom exemplo com a Parque Escolar, em que os edifícios foram, de uma forma sistemática, analisados e reforçados do ponto de vista sísmico, mas esse programa foi interrompido. Foram feitas obras em 200 e tal escolas, mas as outras centenas de escolas estão esquecidas e abandonadas. E o que é que acontece aos hospitais, aos edifícios de bombeiros ou governamentais, onde trabalham diariamente aqueles que tomam as decisões? 
Estou plenamente convicto de que, se sofrêssemos um sismo de grande intensidade agora, colidiriam vários hospitais, vários quartéis de bombeiros, vários edifícios públicos de ministérios, porque não estão preparados para suportar um terramoto semelhante ao de 1755.
Quando acontece um sismo de elevada magnitude num qualquer lugar do planeta, especialmente quando é mais perto, as televisões salivam e a toda a hora são mostrados escombros e pessoas a chorarem. Depois aparecem os comentadores, os senhores da protecção civil, os do INEM, não sei se também o Nuno Rogeiro -- e, passados dois dias, já ninguém se lembra de nada. Ora isto com os alemães seria o oposto e, de certeza, já se iria na 50ª versão de um plano exaustivo, sempre melhorada, divulgada e ensaiada.

Portanto, mais do que enveredarmos por teorias da conspiração e desatarmos a especular sobre o que é que os alemães sabem e nós não, acho que deveríamos reflectir um pouco e talvez seguir-lhes o exemplo pois, em caso de atentados, desastre grave, acts of God ou seja o que for, os planos e as cautelas podem salvar muitas vidas ou, pelo menos, minorar o desconforto de algumas situações.

E tenho dito.

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Lá em cima Marlene Dietrich interpreta uma das minhas canções preferidas de ever and forever: Lili Marlene

As imagens que escolhi para adornarem o texto mostram obras de pintores alemães, desta vez dos modernos. A saber, pela ordem em que aparecem: Franz Marc, Max Ernst, Paul Klee, Hans Hofmann, Tomma Abts e Gerhard Richter.

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E queiram, agora, ir de visita aos antigos. 
No post abaixo falo a propósito de uma extraordinára medida de Renzi e peço ao nosso Ministro da Cultura que se inspire. 

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sexta-feira, agosto 21, 2015

A felicidade é o prazer da existência, a existência como prazer. A felicidade é eminentemente política. José Gil dixit. [NB.: E que não se pense que isto da felicidade agora aqui é para compensar a infelicidade do pénis do post abaixo. Não tem nada a ver.]


Meus Caros, 
Se, no post abaixo, ficaram chocados com a minha história sobre o pénis que pediu aumento, terão agora, aqui, oportunidade de ver que não sou indecente a toda a hora (apenas de vez em quando).
Portanto, desviemo-nos dos pénis reivindicativos e entremos num outro comprimento de onda. Uma onda mais zen. Mas zen à maneira - nas palavras de quem sabe do que fala. Felicidade é o tema. O último reduto.






Paul Klee: " A imagem artística não possui nenhuma utilidade especial. O único objectivo que deve cumprir é o de nos tornar felizes"

A criança que entra no mar, sem ondas e com pé, atira com água, chapinha, grita e ri, ri ao sol -- é feliz. A felicidade não é um estado, psicológico ou outro, nem um sentimento ou uma emoção particular. É uma abertura total do corpo ao espaço, aos outros, ao cosmos. Não é um afecto mas uma disposição para viver todos os afectos da maneira mais intensa. Ela mesma tem a intensidade = 0. Por isso acolhe em si qualquer afecto com as intensidades mais variadas.

Há, no entanto, uma afinidade entre o plano da felicidade e o jorrar da alegria: a felicidade (= 0) favorece o máximo de alegria no tempo mais longo (= ∞, a eternidade). A alegria infiltra-se pela alma dentro e torna as emoções fortes e alegres. Mesmo as mais tristes doem sobre um fundo firme e consistente que a alegria forjou.

(...) Na felicidade não há lugar para a inveja, o rancor, o ressentimento ou a maldade. Estes afectos encolhem o corpo e a felicidade dilata-o. São paixões do 'eu' e na felicidade não há 'eu', apenas o acontecer da existência das coisas. A inveja, o ressentimento cobrem o mundo com um véu único e opaco e enfiam-no no eu, enquanto o jogo das cores, os saltos imprevisíveis da alegria tornam impossível o aprisionamento da vida, expandindo-a.

Porque a felicidade permite a maior intensificação dos afectos, o ser feliz é afectado por todo o tipo de emoções com a máxima vibração. A crueldade do mundo, o horror, o mal mais devastador são vividos com lucidez e compaixão extremas. Mas não o destroem, antes lhe dão forças para os combater: a felicidade, como que esquecida de si, torna-a mais densa, não é exactamente porque ela existe e está ameaçada que a barbárie nos afecta a todos?

A felicidade não resulta do somatório sábio de prazeres. Pelo contrário, ela dá valor aos prazeres, acrescentando ao sentir empírico e não empírico um prazer subtil, o prazer de existir. A felicidade transforma assim todo o prazer em prazer de existir: quando se é feliz, o mínimo prazer dos sentidos adquire a consistência aérea que emana do facto de simplesmente existir. A felicidade é o prazer da existência, a existência como prazer. Assim se funda estético-ontologicamente a felicidade.

Como abertura total do corpo ao espaço, às coisas e aos seres, a felicidade não define um estado de espírito fechado que isola o indivíduo na complacência de um prazer que é só dele. A felicidade abre o indivíduo aos outros, torna-o uma singularidade ligada a outras. É uma promessa de felicidade comum. Por isso a felicidade é eminentemente política.

(...) A alegria do devir.


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O texto é da autoria do filósofo José Gil e faz parte de 'Poderes da Pintura' da Relógio D'Água

As pinturas são, como é bom de ver, de Paul Klee.

A música é Once Upon A Time in The West   (Ennio Morricone) com Yo-Yo Ma

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Isto de uma coisa vir catalogada como inspiracional já me faz recuar à força toda mas, enfim, Kipling é Kipling chamem o que chamarem ao seu poema If, aqui lido por Tom O'Bedlam e, portanto, aqui o deixo porque senti muita vontade de o partilhar convosco.



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Leitor, em comentário, deixou-me referência da versão portuguesa dita por Villaret. Deixo-a aqui, com os meus agradecimentos

Se


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Relembro que abaixo há um post muito impróprio para donas de casa bem comportadas, avôzinhos beatinhos, betinhos de fatinho e gravata ou virgens por ideologia: o post abaixo é mesmo para gente que não se importa de passar por indecente (e estou com estes avisos todos apesar de ser uma brincadeirinha de crianças, mas, enfim, pelo sim, pelo não, acho melhor avisar).
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira, com boas notícias, alegrias, presentes, afectos, bolinhos bons, abracinhos fofos e tudo o que de bom vos apetecer. Be happy.

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segunda-feira, janeiro 19, 2015

Um espírito sem asas a servir chás inventados in heaven. Ou treze maneiras de olhar para um pássaro preto. Paul Klee e Wallace Stevens de visita a Um Jeito Manso.


No post abaixo já me insurgi contra o que se está a passar nas urgências dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. Há coisas que devem ser olhadas com a seriedade que elas merecem e a vida humana é, seguramente, uma delas. 

Paulo Macedo deveria reflectir nisto, a contabilidade que ele gosta de fazer não deveria esquecer a contabilidade das mortes que decorrem da gestão do seu ministério. Passos Coelho, que parece que chefia o governo do qual Paulo Macedo faz parte, também deveria reflectir nisto. E Cavaco Silva, que supostamente estará a acompanhar a situação do país, não deveria ignorar o que se está a passar.

Mas, enfim, talvez tudo isto seja pedir demais a estes personagens. E, sobre isto, falo no post abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra.

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No outro dia, uma das crianças, numa exposição, em frente de uma pintura abstracta, perguntava-me o que era aquilo. Respondi que achava que não era nada. Ele ficou admirado, como poderia alguém fazer uma coisa que não era nada? Disse-lhe que uma pintura não precisa de ser alguma coisa em concreto. Ou poderia ser uma parte de uma coisa de que só estávamos a ver essa parte e, por isso, não percebíamos. E, de facto, ele não percebia. Está habituado a fazer desenhos em que se lhe pede que represente qualquer coisa concreta: um barco, uma casa, uma árvore, a família. Disse-lhe que se pode pintar de uma maneira diferente da que se vê, que podemos pintar o que imaginamos. Ele continuou muito admirado.

Disse-lhe que, para fazer uma coisa tal e qual, mais valia fazer uma fotografia e que, mesmo assim, numa fotografia também se pode mostrar apenas uma parte do que se vê ou mesmo não se perceber o que é.

Gosto muito de Paul Klee e, tantas vezes, vá lá eu saber explicar o que é aquilo que ali se vê ou porque é que o fez daquela maneira.


À direita, Senecio, Paul Klee, 1922
(também chamado, com humor, Head of a Man Going Senile)
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A minha cor é psíquica — ele disse. E as formas incorporantes.
(...)
 Mas eu vi latejar rudemente nos seus traços milagres de Klee.

Manoel de Barros em Klee da Bolívia


Fiz copiar algumas das suas pinturas para azulejos para poder tê-las junto a mim.

Uma delas é de uma simplicidade desarmante, um anjo, ou um espírito, a servir um pequeno almoço. Não me perguntem porque é que eu olho para esse pequeno trabalho e lhe acho tanta graça - talvez a leveza, o humor, o desconcerto. Quis tê-la perto de mim, um espírito a andar por ali, in heaven, servindo leite, pão, fruta.

Eu levava as caixas com os azulejos pintados, marcava-os por trás, para que o senhor da aldeia que fazia estes trabalhos, ao aplicá-los nas paredes ou nos muros, soubesse a sequência e, para ajudar, deixava ainda um desenho com o esquema matricial. Ele ia lá fazer isso durante a semana e durante a semana nós não estávamos lá, era por esses esquemas que ele se orientava. Geralmente corria sempre tudo bem.

Contudo, quando aplicou este pequeno painel e eu lá cheguei, ao olhar para o resultado ia-me dando uma coisa: uma perna do espírito para cada lado, uma das pernas encostada à ponta de um braço, a asa nem se percebia que era uma asa, os pés em cima, a um canto, quase pegados um ao outro, tudo desligado - em suma, um desastre. Fiquei estarrecida a olhar para aquilo e, confesso, só me apetecia chorar. Não percebia como tinha acontecido uma coisa daquelas nem percebia como não tinha ele dado por aquele disparate. E não via maneira de tirar os azulejos para os aplicar da forma correcta sem os partir.

Quando o senhor lá chegou, mostrei o meu descontentamento. Eu olhava para o desenho e achava que se via bem que estava tudo mal e sentia-me mesmo triste com o absurdo que ali estava. Ele, muito admirado, disse-me que se calhar se tinha enganado e que tinha lá tido um cunhado a ajudá-lo e que, se calhar, o cunhado tinha percebido mal as orientações tendo-lhe passado os azulejos para as mãos virados ao contrário, não sabia, mas que aqueles desenhos dos azulejos que eu andava a trazer-lhe lhe pareciam tão fora de normal que achava que não se notava a diferença. Eu ouvia aquilo e não queria acreditar.


Há um pensamento em Paul Klee que sempre me comoveu,
aquele onde diz que o visível é só um exemplo do real.
A poesia seria então a intenção de revelar
os aspetos da realidade que não são visíveis


Roberto Juarroz em Uma outra realidade



Mostrei-lhe a página do livro em que se via a pintura tal como ela era na realidade e ele olhou - e eu via que ele estava mesmo preocupado com o que tinha acontecido e com a minha tristeza - e com franqueza disse que eu não levasse a mal mas que o original não lhe parecia muito diferente do que tinha saído.

Juro, eu ouvia as palavras dele e também não queria acreditar. Como era possível? O que estava no muro e o que ele estava a ver no livro não tinham nada a ver... e ele achava que ia dar no mesmo ou que era indiferente? Eu mal conseguia falar tal a estupefacção e tal a tristeza que aquele erro me causava.

O meu marido nestas coisas o que quer é que não haja dramas e saíu-se com uma daquelas que lhe é típica: que assim até tinha mais graça. Mais uma vez eu não queria acreditar no que estava a ouvir. Lembro-me bem de ter ficado furiosa, parecia-me aquilo uma heresia da parte dele, estava a querer sacrificar uma coisa linda apenas para não ter chatices, era uma tentativa estapafúrdia para acabar com o assunto. 

Mas a verdade é que, depois, conformei-me. A alternativa seria partir aquilo, mandar fazer outro painel e esperar que a coisa saísse bem. Mais despesa e mais tempo de obras.

Ficou assim. Agora, quando olho dá-me vontade de rir.


E já está o anjo, caseiro como um pão fraternal e seguidor até à morte.

O espírito que vagueia in heaven a servir chá e scones é um anjo psíquico, ainda mais surreal do que o genuíno, talvez nem Klee o reconheça quando o vê lá de cima. 

É tudo tão relativo.

É como a poesia. Porque é que umas dúzias de palavras se tornam uma poesia? Não sei dizer. Pode nem ser uma ideia. Pode ser apenas um esboço de uma ideia, um fragmento, uma musicalidade.

Um pássaro preto.

Este domingo de manhã - uma manhã gelada, o rio agreste, rijo, as gaivotas doidas, soltando grandes gritos pelos ares  - vi um pequeno pássaro preto sossegado na relva olhando as águas picadas. Preparei-me para o fotografar mas o vento interrompeu a sua meditação, voou, escondeu-se numa árvore, deixei de o ver.

Mas porque fico eu numa alegria sempre que vejo um pequeno pássaro preto no meio do verde? Não sei explicar. Sei apenas que aquele pequeno pássaro é um poema que me cativa e enternece. O que poderia eu dizer sobre ele? Não sei. Não saberia dizer muito mas, quando o vejo, sinto a liberdade de ser um pequeno pássaro preto na relva junto ao rio como se fosse ele.

Mas ouçamos agora as palavras de Wallace Stevens. Qual o sentido das suas palavras? Porque é poesia o que ele diz? Não sei dizer. Mas é. Oh, é. É mesmo.



Thirteen Ways of Looking at a Blackbird  de  Wallace Stevens 
(lido por Tom O'Bedlam)


A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.
The river is moving.
The blackbird must be flying.
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow
The blackbird sat
In the cedar-limbs

Um cedro in heaven, perfeito demais para ser verdadeiro


Blackbird
por Herbie Hancock & Corrine Bailey Rae


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Paul Klee para quem não esteja muito familiarizado


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Luminosos os dias visitados pela cor, pela poesia, pela música, pelo inesperado, pelo afecto. 

Luminosos os dias que trazem palavras inesperadas, formas desconhecidas, vozes que falam de pássaros ou de cedros, afinidades indefinidas, outras realidades, sorrisos que se adivinham em quem os recebe.

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Não é que me apeteça muito trazer para aqui temas desconfortáveis mas permitam que relembre que a seguir a coisa descarrila e falo do actual estado da saúde em Portugal. Não é tema que predisponha bem mas, enfim, caso queiram, é só descer até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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