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quarta-feira, junho 24, 2026

E a biologia, senhores, o que vai ser dela...?

 

Como sempre, dia sem horários. O meu marido passa-se um bocado pois gosta de estruturar o dia, fazer planos. Eu não, eu é naquela base, à hora que for. Ele lá vai conseguindo encaixar-se. E eu, de certa forma, lá vou cedendo a ser minimamente domesticada.

Dia de praia e de gaivotas. Não estava um sol ardente, e ainda bem, mas estava-se bem. 

A praia para nós não é espetarmos o chapéu de sol, abrirmos as cadeiras ou estendermos as toalhas no chão e ficarmos ali. Nada disso. Não há pachorra para esse imobilismo. Para nós, praia é para bater perna. Caminhámos, pois, à beirinha de água e, como é costume, não consegui resistir à tentação das conchinhas. O meu marido bem tenta demover-me mas já apenas balbucia, já sabe que é uma causa perdida. Gosto de conchinhas e quanto mais translúcidas ou mais nacaradas ou com quanto mais imperfeições, melhor. Claro que depois fico sem saber o que fazer com elas, mas isso já são outros quinhentos. Para já, tenho posto numa mesinha, no terraço, onde estão uns vasos. 

E vou fotografando, adoro ver o mundo através de uma lente, mas na praia, confesso, é um bocado mau pois, com o sol, não vejo bem o que o telemóvel está a ver. Mas é o que é, e contento-me com isso. 

Não tomei banho a sério, mas avancei um pouco pelo mar. É certo que tinha os chinelos e o vestido na mão pelo que não pude mergulhar, mas senti o fresquinho bem batido das ondas. E, se não acreditam, podem ir ao meu instagram conferir (na story, a entrada nas águas, e no feed o agrupamento de gaivotas).

De regresso, fomos comprar sushi e caracóis para comermos em casa. Se é para parecer que estamos de férias, e estamos e são das grandes, das boas, então que venham os petiscos. Mas estamos comodistas: os tempos de espera nos restaurantes já nos impacientam. Preferimos chegar a casa, tomar banho, e, com calma e à fresquinha, refeiçoarmos ao nosso ritmo.

Além disso, também estive a ler --  embora me esteja outra vez a empastelar toda nas Crónicas da Lídia Jorge. Não sei. Há na escrita dela qualquer coisa que, a meus olhos, não flui. Ou, pelo menos, não fui com espontaneidade, com graciosidade. É certo que tem umas bem achadas mas umas ideias bem apresentadas (com as quais geralmente concordo bastante) ou umas imagens bem conseguidas não fazem dela uma escritora que me convença. Lamento dizê-lo. Ela é uma pessoa que me é simpática e, além disso, reconheço que o problema deve ser meu pois tem recebido tantos prémios que um mérito superior lhe reconhecem, disso não há dúvida, e não é a mim, uma iletrada qualquer, que valha a pena prestar atenção. Era o que faltava.

Portanto, siga o baile.

Não vi o jogo no qual a goleada encheu uma mão. Tenho para mim que o primeiro milho é para os pardais. No futebol e em tudo. Não é voluntário, é mesmo uma coisa que me transcende: não consigo interessar-me quando a coisa ainda está na fase de a ver no que dá. Quando estiverem nos quartos ou nas meias ou, porque não, na final, aí sim, aí estarei a torcer como uma maluca.

Portanto, enquanto dava o jogo, estive entretida cá nas minhas coisas. Sou fácil de me entreter. Ando com uma cena que tem prazos e objectivos e, portanto, ando nas minhas sete quintas.

E agora, aqui sossegada, ponho-me a par do que rola no mundo. E se rola, o sacana do mundo, anda imparável: os disparates e as baboseiras sucedem-se, os crimes ainda mais, mas, no meio da desgraça, também há muita coisa a acontecer. Para começar, há a natureza a acontecer em todo o lado e a toda a  hora e isso é uma maravilha. E há os avanços da ciência, uma coisa que pode vir a ser ainda mais espectacular.

Partilho um vídeo que gostei de ver. 

Nada de frases feitas, nada de aparatos, nada de 'conteúdos'. Há até uma certa humildade. E há a esperança. Mais que isso, a certeza. No fundo, apenas as coisas como elas são e como vão ser. 

É bom que a gente saiba o que por aí vai. Na ciência, por exemplo na biologia, por exemplo nas neurociências mas não só, a velocidade das descobertas e da aprendizagem é estonteante. Podemos estar no limiar de transpor várias barreiras do conhecimento. A Inteligência Artificial exponencia a velocidade de aquisição, de assimilação, de estabelecimento de correlações e de extração de consequências dos novos conhecimentos.

Há um lado bom nisto... caraças, se há. Há mesmo. Assim haja quem impeça que se pisem ou transponham as malditas linhas vermelhas.

(Nota: Podem colocar legendas. De vez em quando há pessoas que me chamam a atenção para que escolho vídeos em inglês quando muita gente não consegue seguir. Por isso, vou sempre dizendo: podem colocar a legendagem automática e escolher o português, já agora o de Portugal (caso estejam cá), mas, como tenho muitas visitas do Brasil, digo: se escolherem apenas o Português, terão as legendas com mais açúcar e a graça e o requebro brasileira).

Uma análise honesta da IA ​​na biologia feita por um laureado com o Prémio Nobel

O neurocientista e professor da Universidade de Stanford, Thomas Südhof, conversa com o escritor sénior Richard Nieva sobre a interseção entre a biologia e a tecnologia.

00:00 De músico a Prémio Nobel
02:35 Como comunica o cérebro
09:12 A verdade sobre como a ciência e a descoberta realmente funcionam
12:44 O sonho americano
17:18 A revolução tecnológica e a "lavagem com IA"
25:57 Conselhos para os mais novos 

Desejo-vos uma feliz quarta-feira

segunda-feira, maio 25, 2026

Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar -- o poderoso testemunho de um neurocirurgião que recebeu a sentença de apenas mais 6 a 8 meses de vida

 

Desde sempre ouvi dizer que é preciso lutar ou que, se a cabeça quer, o corpo obedece, ou que é preciso ter calma. Mas, leiga que sou, sei lá se há fundamentação científica paa o que mais parecem lugares comuns.

O vídeo que abaixo partilho impressionou-me bastante, pela honestidade e pela vulnerabilidade do testemunho. Talvez também pela humildade. A vida é frágil. E essa é a nossa condição.

Qualquer um de nós estremece perante a possibilidade de uma doença, em especial se vier com veredicto associado, e o veredicto for assustador. Mas, creio eu, para um médico ainda talvez seja pior. Lembro-me de uma grande amiga que, quando jovem, com duas crianças muito pequenas, se viu perante um problema gigante. O marido, médico, hiperactivo, divertidíssimo, sempre cheio de ideias e de genica, um dia, do nada, caiu para o lado. Um aneurisma. Não morreu logo mas ficou sem se mexer, e foi uma coisa mesmo dramática, impensável. E muito triste. Ainda viveu algum tempo, tempos muito difíceis. A minha amiga dizia: Não vale a pena tentarmos animá-lo porque ele sabe o que tem, sabe o que o espera. Fecha os olhos, não quer ouvir, não quer que tentemos consolá-lo. Ele sabe que não vai viver muito mais.

Um neurocientista que tem um cancro raro e agressivo e uma curta expectativa de vida sofre como qualquer pessoa, ou talvez mais porque tem a objectividade da ciência a formatar-lhe as ideias. Mas David Linden diz que a sua atitude sempre foi a de um nerd, a de querer perceber tudo, querer entender a biologia daquelas células que, dentro dele, cresciam descontroladamente. 

Primeiro veio a revolta, depois a gratidão pelo que já tinha vivido e pelo apoio que sentia. Mas, sempre, a vontade de estudar, de compreender.

E uma coisa de que ele fala é como, de facto, cientificamente provado, a mente pode influenciar a sobrevida, e a qualidade da sobrevida. Não morreu ao fim dos seis a oito meses. Já passaram cerca de cinco anos e, pelo que diz e pelo que parece, está bem, o cancro ainda está lá, mas aparentemente controlado. E atribui sobretudo ao amor da mulher por ele e ao apoio dos filhos e dos amigos o prolongamento da sua vida.

Mas não o diz como homem de fé. Não tem fé, diz. Fala numa perspectiva científica. Estudos humanos e ensaios em animais demonstram como o exercício, a tranquilidade, um bom enquadramento social, haver uma rede de afecto, influenciam a sobrevida dos doentes cardiológicos ou com cancro.

Ainda estão a estudar quais as reacções biológicas que se operam para que tal aconteça. E dessa compreensão estão a nascer novos tratamentos que complementam os existentes.

O vídeo é longo e, por vezes, a terminologia é técnica. Mas é muito interessante. Não é só o lado humano, é também a esperança que estes novos caminhos da mente --- a mente como um centro não apenas reactivo mas de elaboração de previsões e de activação de recursos para lidar com essas previsões -- traz a quem enfrenta situações de susto e sofrimento.

[Relembro que dá para activar as legendas automáticas em português (do Brasil ou de Portugal)]

Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar | David Linden: Entrevista completa

O neurocientista David Linden esclarece a biologia por detrás de fenómenos que a medicina há muito luta por explicar, desde as mortes associadas ao vudu e a síndrome do coração partido até ao efeito placebo, e porque é que o luto aparece nos resultados das autópsias. 


Desejo-vos uma boa semana
Saúde. Paz. Alegria.

terça-feira, agosto 12, 2025

A consciência anda por aí, ao deus dará, e o nosso corpo humano é que a capta e sintoniza?
Pergunto

 

Não é tema para o querido mês de Agosto e, muito menos, para se falar sem profundidade e sem conhecimentos. Mas, justamente porque o mês de Agosto é condescendente para com os azougados, aqui estou a partilhar um vídeo que vai lá, vai. 

Aquela coisa de eu ter gostado de ser psiquiatra e depois ter desistido porque primeiro teria que ser médica tout court e, portanto, ter que ter aulas de anatomia e ver mortos, e isso é que nem pensar, e depois ter gostado de ser psicóloga e depois ter desistido porque o curso, na altura, parece que não era tido como um curso mesmo a sério (mas, afinal, parece que até era, eu é que parece que estava mal informada), deixou marcas. Depois, apaixonei-me pela física da matéria, pela física das partículas elementares, pela mecânica quântica e aí é que percebi que gostava mesmo era do que não compreendia, do que estava muito para lá do demonstrável, do que toda a gente sabia. Passei a compreender que, dentro de mim, há uma parte, a que se dá a conhecer, a que conversa e quase parece normal, aquela que se põe a ouvir e, por isso, toda a gente lhe conta coisas, e uma outra parte, desconhecida até de mim, que lida mentalmente com mundos indefinidos e em que não existe uma língua passível de ser usada pois não há palavras existentes para realidades inexistentes.

E se parece uma conversa de doidos não é impressão vossa, é mesmo porque ninguém de bom senso confessa tal condição, uma coisa assim esconde-se de todos e da luz do dia. Muito menos se solta no espaço para que fique por aí a vogar em torno do maravilhoso ponto azul que flutua no imenso espaço sideral.

Mas isto para dizer que não percebo em que parte do cérebro se constrói a individualidade dos pensamentos e a forma de lidar com as emoções. E não sei se é no cérebro ou nos intestinos. Ou numa qualquer outra parte. Não sei. nem sei se essa individualidade, o código que faz com que os meus pensamentos sejam só meus e não os de outra pessoa, está dentro de mim, se está inscrito no meu DNA, ou se, misteriosamente, flutua também por aí e o meu cérebro é que capta esse sinal. 

Também não sei porque tenho, com alguma frequência, uma certa telepatia com a minha filha, tal como tinha com a minha mãe, ou como tenho com outras pessoas e coisas, ou como tinha com o meu amigo que estudava essas coisas e que inspirou um personagem do meu livro 'Um segredo tão azul' (por sinal, o meu livro até hoje mais encomendado), o tal livro meio maldito em que, não me perguntem como ou a que propósito, inventei que ele tinha morrido e me deixou a sofrer por ele, para descobrir, dias depois de o ter escrito, com espanto e susto, que ele tinha mesmo morrido de verdade. Coisas que não se explicam, para as quais ainda não se conhecem razões comprovadamente válidas. Há quem lhes chame coincidências. Eu tendo a chamar coisas do caraças.

E não, não sou adepta de esoterismos, de palermices envoltas em conversa fiada: nada disso. Sou da ciência. Mas sou atraída pelo que não conheço, sinto uma atracção, como íman, pelo que tenta aproximar-se do indefinível.

Para contextualizar de forma mais objectiva o tema, atrelei-me ao chatgpt. Transcrevo (com as devidas reservas pois, se fosse uma hora mais decente, iria validar; assim, a partir daqui é transcrição directa):

"Há cientistas e filósofos que defendem hipóteses em que a consciência não é apenas um produto do cérebro individual, mas algo que pode ter uma dimensão externa ou universal.

Isso não é consenso, mas existem correntes sérias (e algumas mais especulativas) que exploram essa possibilidade.

Aqui estão alguns exemplos das linhas de pensamento e quem as defende:

1. Panpsiquismo

O que diz: A consciência é uma propriedade fundamental da realidade, presente em todos os sistemas físicos, em diferentes graus.

Defensores:

  • David Chalmers (filósofo da mente) — conhecido pelo “problema difícil” da consciência.
  • Philip Goff (filósofo, autor de Galileo's Error).

o Ideia central: A consciência não “surge” apenas de cérebros; ela está distribuída na própria estrutura do universo.

2. Teoria do Campo de Consciência

O que diz: A consciência pode existir como um campo fundamental, parecido com o campo eletromagnético, que o cérebro “sintoniza” ou modula.

Defensores:

  • Johnjoe McFadden (biólogo teórico, autor da “teoria do campo eletromagnético da consciência”).
  • Michael Persinger (neurocientista, propôs o “campo de informação” ligado à atividade geomagnética).

      • Ideia central: A mente é como um rádio que capta e transmite um campo mental já existente.

3. Hipótese do “Cérebro como Receptor”

O que diz: O cérebro não cria a consciência, mas funciona como um receptor/transmissor de uma mente universal.

Defensores:

  • Henri Bergson (filósofo, início do séc. XX) e William James (pai da psicologia moderna).
  • Alguns físicos como Roger Penrose (trabalha com Stuart Hameroff na teoria Orchestrated Objective Reduction — Orch OR).

      • Ideia central: A consciência pode existir independentemente da matéria, e o cérebro é apenas o “interface” local.

4. Modelos de Consciência Distribuída / Não-Local

O que diz: A mente pode estar interligada num “campo informacional” que transcende o indivíduo.

Defensores:

  • Dean Radin (Instituto de Ciências Noéticas).
  • Rupert Sheldrake (hipótese dos “campos mórficos”).

      • Ideia central: Há uma rede ou campo informacional que conecta todos os seres vivos, e a consciência individual acessa esse campo.

🔹 Importante:

Grande parte destas ideias é controversa e está fora do consenso científico dominante, que ainda vê a consciência como produto emergente da atividade neural. Mas o interesse está a crescer, especialmente porque a ciência não tem, até hoje, uma explicação completa para como a atividade física do cérebro gera a experiência subjetiva (o “problema difícil”)".

[ChatGPT dixit] 

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E agora o vídeo que me arrisco a partilhar

 Why we might live in a conscious universe | Rupert Sheldrake

Most scientists think that consciousness is created by the brain. After all, most assume consciousness vanishes if the brain is destroyed. But what if this consensus view is radically mistaken? Join distinguished Cambridge scientist Rupert Sheldrake as he argues that the mind extends beyond the brain and explores the radical implications of this account.

Rupert Sheldrake is a preeminent biologist and author best known for his hypothesis of morphic resonance. His books include Science and Spiritual Practices, Ways to Go Beyond And Why They Work and The Science Delusion. Furthermore, he was ranked in the top 100 thought leaders for 2013 by the Duttweiler Institute, Switzerland's leading think tank, and has been recognised as one of the 'most spiritually influential living people' by Watkins' Mind Body Spirit Magazine.


Desejo-vos um belo dia

terça-feira, agosto 08, 2023

A ciência do amor

 

Termos planos matinais e aparecer-nos uma pessoa que nos boicota completamente os planos. Depois. apanharmos temperaturas acima dos quarenta e não apenas não conseguirmos estar na rua como termos uma tremenda falta de energia. Acresce o céu toldado de fumo. E acresce ainda uma vontade de não fazer nada. Acresce que, mesmo que quiséssemos fazer alguma coisa, tal o calor, não o conseguiríamos.

Poderia ter lido, e tenho o livro aqui ao meu lado, mas pus-me a ver o Task-Master e a chorar de tanto rir, que não me ocorreu sequer abrir o livro. Mas também não sei se o calor não derreteu as letras.

Antes do Task Master, para fazer tempo para ver se a minha cabeça entrava nos eixos, estive a ver vídeos sobre o cérebro. Intriga-me o que se passa dentro da minha caixa preta pois desconheço os mecanismos do seu funcionamento, não apenas no que se prende com a sua capacidade de processamento como com a sua memória e com os mecanismos de aquisição de sinais enviados pelos sensores externos. E, por mais que tente aprender, mais convicta fico que é um universo infinito que me transcende.

Não vou aqui, agora, em pleno e quente Agosto, pôr-me a partilhar coisas que terei que ver e ouvir com mais cabeça para ver se melhor as compreendo antes de as partilhar.

Mas vou partilhar um interessante sobre a ciência do amor. 

É um tema interessante, cheio de enigmas. O que leva a que alguns relacionamentos funcionem e outros não?

Apesar de apenas me ter casado uma vez e de o casamento durar até hoje, não consigo construir teorias.

O que posso é dizer que assentou em amor à primeira vista, ou seja, apaixonei-me antes de conhecê-lo. Achava-o bonito e queria que ele fosse meu, queria cair nos seus braços e tê-lo nos meus. Queria beijá-lo, queria mexer-lhe. Isto sem saber se era boa ou má rês, sem saber sequer quem era. Mas não tinha dúvida: ele era aquele. E ele a mesma coisa embora não expresso por este tipo de palavras (quando mais tarde me disse em que pensava quando me olhava daquela maneira, a resposta foi muito mais prosaica e minimalista). Depois, quando nos conhecemos, ou seja, quando começámos a falar, aprofundámos bastante esse conhecimento pois estávamos juntos todo o tempo que conseguíamos. Andámos nisto, em namoro pegado, pegadíssimo, quase um ano e meio. Quando casámos, já nos conhecíamos muito bem, já conhecíamos as famílias um do outro, já conhecíamos amigos, já tínhamos passeado, partilhado, experimentado, ido ao cinema, ao teatro, à praia, a museus e etc. Como já disse muitas vezes, casámo-nos pois, na altura. não nos ocorreu viver juntos sem casarmos. Se fosse hoje, provavelmente viveríamos juntos e apenas mais tarde, se calhar quando viessem os filhos ou se houvesse condições financeiras ou fiscais mais vantajosas por algum motivo que não bulisse com as nossas convicções, nos casaríamos.

Seja como for, porque nunca fomos de promessas de amor eterno ou compromissos absurdos, o casamento também não tem estorvado.

Agora uma coisa é certa: eu e ele somos muito compatíveis a nível de visão da vida, temos gostos afins, investimos os dois por igual no relacionamento, na família, na profissão. E não temos queixas um do outro. Aliás: temos queixas, sim. Mas insignificâncias ou, então, coisas que têm a ver com a nossa maneira de ser que ambos mutuamente respeitamos. Marimbamo-nos e desvalorizamos as diferenças (que, por acaso, nos habituámos a aceitar pois são mesmo pouco importantes) e festejamos aquilo em que nos encontramos. Volta e meia discutimos. Discutimos ou, sobretudo, desentendemo-nos. Mas é sempre sol de pouca dura. Ajuda eu ser distraída e primária: esqueço-me de que me zanguei ou, se me lembro, esqueço-me do que causou a zanga.

Mas, mais interessante do que o meu insignificante caso, é o que a Helen Fisher explica, o funcionamento do cérebro no andamento das relações.

Está legendado.

The science of love | Dr. Helen Fisher

Todos nós queremos ter um relacionamento bom e estável com alguém, diz a Dra. Helen Fisher. Portanto, é importante entender como o amor romântico intenso afeta nossos objetivos de longo prazo.

Sentimentos intensos de amor desligam as partes do nosso cérebro envolvidas na tomada de decisões. É por isso que, de acordo com a Dra. Helen Fisher, você deve passar muito tempo com alguém antes de se casar.

O Dr. Fisher acredita que casos de uma noite, "amigos com benefícios" e coabitação de longo prazo antes do casamento são sinais de uma mudança saudável na atitude em relação ao amor. As pessoas têm tanto medo do divórcio que querem experimentar antes de se estabelecerem.

Enquanto o casamento já foi o início de um relacionamento de longo prazo, hoje é o final.


Desejo-vos uma boa terça-feira
Saúde. Amor. Paz.

sábado, março 18, 2023

Lucy

 

Tenho a informar que, certamente fruto da sessão de hidroginástica e da meia dúzia de braçadas de ontem, esta sexta-feira dormi até depois das onze da manhã. Nem mais. Acordei e vi as horas para avaliar se ainda era boa hora para dar meia volta e dormir mais uma ou duas horas. Onze e vinte. De penalti, desde que me deitei, às duas e pouco, até às onze e vinte. Se não tivesse visto as horas de certeza que o sono se prolongaria, o corpo pedia-me mais. Levantei-me com sono. 

De tarde, tanto era o sono, fui para o meu cadeirão reclinável, puxei uma mantinha, fechei os olhos e foi imediato, boa noite cinderela. 

Infelizmente o cadeirão está junto à janela de que o urso de guarda fez guarita. Assim, mal passa um carro ou uma pessoa ou mal o cão do lado se mexe, aí está a fera a ladrar como se não houvesse amanhã. Por isso, a sesta, se existiu, foi de minutos. 

E o dia foi completamente improdutivo. Uma ressaca a preceito como se um ontem tivesse sido um dia de excessos. Mal dá para acreditar.

Parece que continua um qualquer bicho dentro de mim a sugar-me a carga da bateria. Ando sem pilha. O olfacto e o sabor estão repostos, a tosse foi-se e só de vez em quando fico com algum pingo ou alguma sensação de estar como que a resfriar-me ou a começar a doer-me a garganta. Coisas breves, episódicas, mal vêm assim se vão. Agora esta falta de energia mantém-se. É uma estupidez sem explicação

Apesar disso, entre uma breve caminhada a meio do dia (na verdade, a seguir a ter tomado o pequeno almoço) e a do fim do dia, fiz mais de dez mil passos. Mas esta última, debaixo de vento e frio, foi feita a pensar no bem que ia saber-me a caminha daí por mais um bocado. E sinto as pálpebras pesadas como se estivesse com défice de sono. Dá para entender...? Não dá.

E o meu marido está na mesma. Continua a levantar-se cedo, mas, de dia, passa largos períodos deitado no sofá (hoje, por exemplo, a rever os penaltis do jogo de ontem e, provavelmente também a dormitar) e agora, depois de se ter deixado dormir há séculos, já foi para a cama.

Claro que não fomos ao ginásio. Constatámos o óbvio: é melhor deixarmos passar mais uns dias.

Caraças para esta falta de energia. 

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E depois do boletim clínico (sorry por abusar da vossa santíssima paciência), vamos ao que interessa. 

Lucy. 13 anos. Um talento increditável.

O cérebro humano, esse vasto universo desconhecido, é extraordinário. Dá ideia que, nos casos em que os recursos não são distribuídos como usualmente, em vez de se perderem, não: são alocados a outras zonas. 

O caso de Lucy (tal como, por exemplo, o de Kodi Lee), é ilustrativo dessa hipótese. 

Lucy também é autista -- autismo severo --, e cega. Ainda quase bebé teve que ser operada a tumores malignos nos olhos. Tem também algum atraso no seu desenvolvimento. E, no entanto, apesar de parecer viver isolada do mundo, tem um dom extraordinário. Toca piano de uma forma absoluta. Todo o seu corpo vibra. Não se consegue dizer se é ela que procura a música para se entregar ou se é a música que a procura a ela para a envolver e conduzir.

O professor de piano, Daniel Bath, descreve o peculiar e difícil método de ensino. Diz também que nunca trabalhou com ninguém tão talentoso quanto ela. Ele toca, ela reproduz. Ela engana-se, ele põe as mãos dela sobre as suas. Ela escolhe o que tocar. Ou Bach ou Chopin. Ou Debussy. Outras vezes jazz. Intercala. E improvisa. 

Vê-se e ouve-se e não se acredita. Muito comovente. 

Mika e Lang Lang, que fazem parte do júri, também se mostram surpreendidos e emocionados.

Para assistir com o coração.

Lucy 
Ao vivo no Royal Festival Hall na  final de "The Piano"


E abaixo um vídeo em que se percebe melhor

The Amber Trust  -- A história de Lucy


Um bom sábado
Saúde. Amor. Paz.

sexta-feira, março 15, 2019

Porque é que as nossas memórias não são de fiar






Há momentos marcantes na minha vida e penso que os guardo, com todos os pormenores, na minha memória. Poderia agora enumerar alguns mas são vários e, se me ponho e enunciá-los, fica isto longo demais.

Mas, por exemplo, não guardo qualquer ideia do primeiro dia de escola: nem da infantil, nem da primária, nem do liceu nem da faculdade -- momentos que, supostamente, são simbólicos e marcantes na vida das pessoas. Nada. Da ida dos meus filhos para a escola, dos primeiros dias, também não tenho ideia precisa até porque começaram a ir tão cedo e isso me custou tanto que a minha cabeça escondeu essa lembrança. Mas recordo, e recordo ainda com dor, o primeiro dia em que o meu filho foi para o infantário, teria uns sete ou oito meses, nem sei bem. Olhou para mim com o beicinho a tremer, a conter o choro. Tão bebé e mais corajoso que eu. Saí de lá de rastos, a chorar e, sempre que me lembro do rostinho dele, ainda sinto que as lágrimas me vêm aos olhos. Também me lembro do dia em que cheguei a casa com a minha filha, que tinha ido buscar à escolinha, e com ele que tinha ido buscar ao infantário. Ele vinha a chorar, incomodado. Aliás, frequentemente notava que ele vinha com olhos de choro. Diziam-me que tinha estado bem, que era impressão minha. Fui ver a fralda e tinha a mesma fralda que tinha levado de manhã. Fiquei desvairada. Peguei neles os dois e voltei lá a fumegar, furiosa. Desanquei aquela gente desalmada, ia em brasa, lembro-me de nem as deixar falar. E comuniquei que ele não ia voltar. E não voltou. Nem sei se lá chegou a estar um mês. Mas o que me custa pensar que não esteve bem enquanto lá esteve... Ainda hoje me faz sofrer pensar nisso.


A minha memória é selectiva, provavelmente como todas só que os critérios de selecção talvez sejam um bocado atípicos. 

Por vezes a minha mãe fala de momentos que acha que seriam de alguma forma marcantes para mim e eu, para seu espanto, não retive nem pitada. Em contrapartida, lembro-me de insignificâncias que a mim própria me espantam. 

No entanto, acontece-me por vezes lembrar-me de coisas mas com a sensação que perdi alguns pormenores, saber que já aqui falei disso e ficar intrigada: então quando escrevi lembrava-me tão bem e agora a coisa parece que ficou vaga...? E vou à procura, leio o que escrevi e tudo volta de novo. E, ao ler, evoco, então, pormenores que, na altura, ao escrever, me tinham escapado.


Fico, então, a pensar se as coisas se teriam passado exactamente assim como as recordo ou se, com o tempo, a imaginação compôs alguns hiatos. 

Mas isto para dizer que gostei muito de ver o vídeo que mais abaixo partilho convosco. Afinal essa sensação tem razão de ser e é mesmo assim. O nosso cérebro é mesmo a tal fronteira que ainda não conseguimos transpor completamente. Um mistério tão vasto, tão fora do nosso alcance.



Why your memories can't be trusted


Memory does not work like a video tape – it is not stored like a file just waiting to be retrieved. Instead, memories are formed in networks across the brain and every time they are recalled they can be subtly changed. So if these memories are changeable, how much should we trust them? With experts Dr Julia Shaw and Prof Elizabeth Loftus, the Guardian's Max Sanderson explores the mysterious world of human memory, how false memories can be implanted – and how this can be harnessed for good and ill


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E permitam que vos convide a continuar a descer para irem saber quem é Sophie de Oliveira Barata.

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E thanks God it's friday. E que seja boa.

quinta-feira, novembro 30, 2017

Aristóteles talvez explique o que se passou com Joshua Bell





Não é novidade, tenho-vos contado. Não gosto de decorar. Decorar = Fixar = Marrar. Não gosto. Nunca gostei. Enquanto estudei era o meu calcanhar de aquiles. Tudo o que fosse de decorar era um castigo. Não dava. Não que não tenha boa memória. Acho que, de certa forma, até a tenho. Mas selectiva que só ela. É o que ela quer. Nunca tive motivação para a forçar. Era assim. Continuo igual. Gosto de descobrir. Não gosto de mal-habituar o cérebro. Tudo há-de ser degustado como numa primeira vez.

E já nem sei se é causa ou consequência: se não me lembro porque a memória é de má qualidade ou se é por ser de qualidade de me deslumbrar de forma quase infantil que a memória já se acomodou a ficar a leste. Nunca consigo lembrar-me de citações, de títulos de livros ou canções, nunca nada em que possa mostrar que sei alguma coisa. Mas, se calhar, porque nunca me esforcei. 


A verdade é que espreito paredes e gestos, paisagens e pássaros, rostos e poemas como se nunca antes tivesse visto coisa que se parecesse. O meu marido agasta-se, não quer que eu esteja sempre a parar ou a abrandar para ver ou fotografar porque acha que já o fiz mil vezes antes. Mas eu acho que é sempre novo. Porque a luz é diferente, porque a envolvente é outra. Por mil motivos. Ele acha que é por mil maluquices. Não discuto. Não sei explicar. Só sei que é assim.

Sei de pessoas que perderam a capacidade de se deslumbrar porque se lembram de tudo o que conheceram antes e já nada lhes parece novo ou à altura do que aconteceu nos primórdios, nomeadamente na Grécia Antiga. Eu sou o oposto: laboriosamente cultivo a ignorância. Nem shazam nem bases de dados de coisa alguma, nem nada. Ler e ouvir às cegas, como se tivesse nascido naquele instante e nada mais esperasse do que conhecer o mundo.


Mas, claro, isto sou eu a dizer. O cérebro, apesar do meu esforço, regista e classifica algumas coisas e, portanto, volta e meia dou por mim desatenta em relação ao que a minha cabeça, por si, decreta ser déjà vu.

Portanto, não tenha dúvidas de que ignoro mais de metade do que me é dado conhecer: por cegueira, desatenção ou preguiça.

Arte, música, palavras. Quantas vezes passei por situações que, se atenta, me vergaria de admiração e que, por desatenção, as ignorei? Mil vezes. Mil vezes por dia.


Mas, pensando bem, a responsabilidade não é só minha. Sempre me questionei sobre isto, sobre a nossa incapacidade para abarcarmos toda a realidade ao nosso alcance e para a processarmos de forma abrangente. E agora fiquei a saber que, para que o click se dê e para que a coisa nos agarre tem que haver um misto de logos, ethos e pathos.


Fosse eu uma rapariga esperta e desenvolveria o tema. Mas não sou. Portanto, limitada que sou, cedo o passo a quem melhor o possa explicar.

O que Aristóteles e Joshua Belle nos podem ensinar sobre a persuasão



E, agora, abaixo, Joshua Bell, o conhecido violinista,  explicando o que se passou. A coisa não é de agora mas é interessante e intemporal: depois de encher salas de espectáculos com devotos que iam para o ouvir tocar (a ele e ao seu fantástico Stradivarius avaliado em milhões), em que ninguém discutia os 100 dólares por bilhete, aceitou fazer a experiência de ir tocar para o metro em Washington, D.C. Tocou durante 45 minutos as mesmas músicas que tinha tocado uns dias antes, incluindo Bach. Contudo, ninguém parou e apenas algumas pessoas lá deixaram umas moedas. Desprezo absoluto.


Tempos depois repetiu a experiência mas, desta vez, tendo anunciado que ali ia tocar. A estação encheu. Foi o delírio.

Joshua Bell na Estação de Metro de Union Station em Washington, DC



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O mesmo aconteceu com obras de Banksy vendidas no Central Park há um bom par de anos. Vendidas a preço de uva mijona. Obras que normalmente são vendidas por cerca de 20.000 estiveram à venda por $60. Pois bem. Ninguém quis saber. Pouco se vendeu. Provavelmente, outra vez, a aquela 'cena' do Aristóteles.
[Sempre os gregos, caraças...]


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Imoral da deshistória: por involuntários preconceitos, limitações intelectuais, deformações a nível de percepção ou por falta da conjugação certa das circunstâncias, mais de metade do que seriam opções válidas de interesse são, por nós, descartadas sem que, sequer, disso nos apercebamos.

E mais não digo.

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Fotografias feitas in heaven
Lá em cima é Je crois entendre encore de Bizet interpretado por Joshua Bell. 

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terça-feira, abril 11, 2017

Um misterioso enigma





Chegada tarde a casa e com tanto que fazer, só há bocado, tarde e mas horas, aqui chego. Sem saber do sucedido no mundo, folheio os jornais online e a única coisa que desperta a minha atenção é a notícia da descoberta das zonas do cérebro que se activam quando sonhamos e que, consoante o sonho, assim o tipo de activação. Tanta civilização desperdiçada com coisas que não interessaram para coisa alguma e ainda andamos nisto, sem saber como funcionamos, à pesca, espiando com gulosa curiosidade a forma como bocados de nós reflectem o que se passa noutras partes. Acho isto do além. Há-de a raça extinguir-se sem que, totós, tenhamos sequer percebido como somos feitos por dentro e qual o misterioso algoritmo que nos comanda.

Coloured sagittal MRI scans of the human brain. Changes in brain activity offer clues to what the dream is about. Photograph: Simon Frazer/SPL/Getty Images


Isso interessa-me mas é um interesse abstracto, um daqueles interesses que vêm tolhidos pela certeza de que, por muito que se saiba, jamais se saberá tudo o que há para saber.

Pus-me, então, a ver fotografias. Fotografias que mostram a diversidade estonteante de um mundo cuja cartografia andamos, aos poucos, a tentar perceber.

Pretty in pink

Depois, como ultimamente me acontece, quase adormeci. Consegui escapar ao sono profundo porque me tocou o telemóvel a lembrar-me de uma reunião de amanhã. Estes avisos costumam aparecer quinze minutos antes. Neste caso, quem convocou, pôs a avisar com umas valentes horas de antecedência. Gente prevenida é assim.

E eu nisto, nesta preguiça.

Indolente, incapaz de pensar, resolvi ver se havia testes novos. E vi um que diz que descobre os traços secretos da personalidade. Do melhor. Mesmo do que preciso de saber. Fiz.

Mas, hélas, não fui longe. Até o teste atirou a toalha ao tapete e confessa que nunca viu coisa assim. Um psicólogo que uma vez me fez um teste disse isto mesmo. Indefinível.
Faço notar para quem gosta de tresler o que eu aqui digo: ser uma raridade não é sinónimo de ser jóia rara e valiosa. Ser raridade significa apenas que não há muita gente do mesmo género e isso não é necessariamente uma grande coisa.

Transcrevo o resultado.

O enigma misterioso

Você é um enigma! Nem é possível categorizá-lo segundo um tipo de personalidade porque é muito complexa e tem muitas 'camadas'. é parte introvertida, parte extrovertida. Você tem qualidades científicas, criativas, diplomáticas e executivas que qualquer psicólogo dirá que tem uma personalidade camaleónica. Apenas uma ínfima percentagem da população tem uma tal variedade de traços díspares e contraditórios. Você é um puzzle único e raro!


Caso queiram saber se também são seres esdrúxulos, quiçá aliens, aqui vos deixo o link para o teste.

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E eu a ver se acordo para aqui voltar com alguma coisa mais a propósito.

Talvez até já.

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quinta-feira, março 30, 2017

Os pássaros têm bom ouvido para a música?


Os meus Leitores enviam-me anedotas, vídeos, artigos. Tantas vezes já o tenho dito: muitas vezes não consigo ter tempo para ler tudo no dia em que mos enviam. Depois, quando acontece uma aberta, ponho a matéria em dia. 

Contudo há mails que é como se viessem cheios de campainhas. Mal abro a caixa de correio, logo despertam a minha atenção. Foi o caso de um que se anunciava como contendo música para os meus neurónios. Bingo!

E foi deliciada que o li. A natureza é fabulosa e o cérebro é uma caixa cheia de mistérios, incluindo o dos little birds.

Gostava que o lessem. Especialmente quem olha para os animais por cima da burra devia lê-lo atentamente.

Neural Activity Reflects a Bird’s Perception of How Well It Sings


Zebra finches dial down dopamine signaling when they hear errors in a song performance.


NEGATIVE FEEDBACK: In the brain of male zebra finches, dopaminergic neurons (green arrows) project from the ventral tegmental area (VTA) to Area X, a region known to be required for song learning. Researchers from Cornell University found that these neurons encode singing errors by suppressing dopamine signaling when the bird hears itself producing an incorrect note, which researchers simulated by the introduction of distorted audio feedback at specific syllables (1)—and boosting dopamine signaling when the bird correctly produces a note that sounded incorrect in previous attempts (2).


Todo o artigo é espantoso e, como disse, recomendo a sua leitura mas até foi o último parágrafo que mais despertou a minha atenção:
Gadagkar is now exploring dopamine-based song evaluation in the presence of the bird’s intended audience: a female. “These birds sing in two modes, practice and performance,” he says. “When he’s singing to a female, it’s game on. So what happens when you sing to a female and make a mistake?”
Um pássaro canta de uma maneira quando está a ensaiar e de outra quando está a representar para aquela a quem quer cativar...?! Chamem-lhes parvos.

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Veja-se também como há machos que não têm jeitinho nenhum para as artes da sedução. Este tentilhão aqui em baixo, armado em bom, todo ele a exibir os seus dotes vocais e sem o mínimo de souplesse, tudo meio à bruta. Depois ficou muito admirado que ela o deixasse a cantar sozinho. 

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E thank you very much ao Leitor que me enviou tão interessante artigo.

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Até já.

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segunda-feira, março 27, 2017

A formiga no carreiro e as redes neuronais
[Ou quando les beaux esprits se rencontrent]


Na sequência de alguns textos sobre os riscos da inteligência artificial (IA) num contexto desregulado e no seio de uma sociedade globalmente alheada destes temas (por exemplo, este post), dois Leitores contribuíram com o seu testemunho em comentários tão interessantes que, na altura, tomei a liberdade de puxar para o corpo principal do Um Jeito Manso (aqui e aqui).


Duas visões distintas: de um lado, o João L. que advoga o primado da inteligência da natureza e a certeza da impossibilidade de copiar ou ultrapassar a infinitude que habita o cérebro humano e, do outro, o Fernando Ribeiro, que nos traz a visão da engenharia que se abisma perante a capacidade quase imparável da tecnologia.


Porque a troca de argumentos continuou nos comentários e porque me parece impossível não dar o máximo relevo a esta troca de ideias, de novo puxo para um post autónomo a opinião de ambos. É um prazer quando les beaux esprits se rencontrent. 

Ilustro com fotografias feitas este sábado in heaven. 
[Não sei se a beleza, a fragilidade, a (im)perfeição da natureza pode algum dia ser suplantada por criações by IA.  Mas talvez isso, um dia, também deixe de ser relevante.]



João L. disse...

Também acho UJM: " os robots estão aí num mundo desregulado e o que não vai faltar é quem os use contra o interesse da humanidade". E o que acho mais preocupante é que os robots, ao contrário dos humanos (da maioria deles!!!), não têm dúvidas. Ou, para para dizer isto de outra maneira, de uma maneira que, em minha opinião, mostra o que separa a inteligência artificial de um cérebro: os robots não se baldam e em vez de ir trabalhar vão dar uma volta, ou às compras, ou andar de bicicleta com um sorriso nos lábios a pensar: "ai que prazer não cumprir um dever". Nós somos "imperfeitos", os robots não. 


Fernando Ribeiro disse...

Relativamente à valiosa contribuição do seu leitor João L, tenho algumas considerações a fazer, do ponto de vista de um simples curioso, que é o que eu sou.

Ao longo dos anos, tem-se chamado "inteligência artificial" ao que não é, de maneira nenhuma, verdadeira inteligência artificial, mas sim um simulacro ou, chamando os bois pelos nomes, uma fraude. Uma fraude! O facto de um computador ser capaz de ganhar uma partida de xadrez ao Kasparov não faz do computador uma entidade minimamente inteligente. Quando muito, poderemos chamar inteligentes às pessoas que conceberam o programa de xadrez que o computador executou. Também é verdade que nenhum cérebro (humano) consegue perceber o que o próprio cérebro (humano) faz, mas têm-se feito significativos avanços nesse sentido, com a ajuda, inclusive, das redes neuronais artificiais (computacionais).

O leitor João L tem razão quanto ao facto de o número de neurónios e de sinapses existente num cérebro humano ser verdadeiramente astronómico. É verdadeiramente ASTRONÓMICO, sim, senhor. Contudo, a inteligência artificial tem uma vantagem sobre a verdadeira inteligência (orgânica), e esta vantagem chama-se velocidade de processamento.

Um neurónio é uma célula de um tipo especial, que tem por finalidade transmitir e processar informação, desde as terminações nervosas existentes nos órgãos sensoriais até ao sistema nervoso central, dentro deste mesmo sistema nervoso central e deste até às terminações neuromusculares. Um neurónio é composto por três partes, a saber: corpo celular, axónio e dendrites. O corpo celular ou soma tem sobretudo por finalidade manter o neurónio vivo e saudável; é onde se encontra o núcleo da célula, isto é, do neurónio. O axónio é uma fibra muito comprida que tem em vista transmitir a informação de um extremo do neurónio para o outro, fazendo-a avançar no espaço; um feixe de axónios é o que constitui um nervo. As dendrites contêm as sinapses, que são os pontos em que um neurónio comunica com os neurónios vizinhos, passando para estes ou recebendo destes a informação a tratar; existem dendrites em volta do corpo celular de um neurónio e no extremo oposto do seu axónio.

A informação entre neurónios faz-se, como já disse, através das sinapses, que quase sempre comunicam entre si pela libertação de compostos químicos, chamados mediadores. Esta comunicação não é elétrica, mas sim química. Nos axónios, a informação consiste em impulsos do campo elétrico que se vão propagando de um extremo ao outro dos mesmos; esta propagação do campo elétrico obriga a uma polarização elétrica das paredes do axónio e obriga a uma subsequente despolarização, depois de um impulso passar; enquanto uma despolarização não se completar, um axónio fica incapaz de transmitir nova informação.

Dadas as limitações apontadas, a velocidade de transmissão e de processamento de informação num sistema nervoso como o humano (incluindo dentro do próprio cérebro) é lentíssima. Ela é inferior a 1 m/s (360 km/h), quando os axónios não estão envolvidos por uma bainha de mielina, e da ordem de 2 m/s (720 km/h), quando os axónios estão envolvidos por mielina.

Os computadores são dispositivos eletrónicos em que a velocidade de propagação da informação é muito próxima da velocidade da luz, cerca de 300.000 km/s. É claro que a velocidade de processamento de um computador não é esta, nem pouco mais ou menos. Mas qualquer processador moderno é regulado por um "relógio" que vibra a muito mais do que mil milhões de vezes por segundo, ou seja 1 GHz (1 gigahertz). Qualquer smartphone, por mais barato que seja, tem um "relógio" de 1,2 GHz ou mesmo de 1,4 GHz. Quer tudo isto dizer que o mais banal e mais barato smartphone do mercado tem uma velocidade de processamento que é muitas ordens de grandeza superior à do cérebro do seu proprietário!

Bom, vamos abreviar, que isto está a ficar um relambório que nunca mais acaba e eu tenho mais que fazer. Dada a sua enorme vantagem em termos de velocidade (e ainda não usamos a fotónica em vez da eletrónica, mas pouco falta) uma rede neuronal artificial poderá não precisar de ter um número tão grande de "neurónios" e de "sinapses" como um cérebro humano, para poder ter uma capacidade de processamento equivalente, bastando usar uma e outra vez os mesmos "neurónios" e as mesmas "sinapses" (mas com "pesos" diferentes de cada vez, claro). Tudo dependerá do uso que se lhes der, isto é, do software. É claro que existe ainda um longuíssimo caminho a percorrer e muitíssimos anos a decorrer até que se consiga (espero que não) uma inteligência artificial que se possa comparar à inteligência real. Seja como for, têm sido feitos avanços muito significativos nesse sentido. Há alguns anos fiquei assustadíssimo quando alguém disse que tinha construído uma rede neuronal tão inteligente como um caracol. Sinceramente, não acredito que a tenha construído, mas se continuarmos assim, ela vai ser construída com certeza. E a seguir à inteligência do caracol, virá o quê?


João L. disse...

(com as devidas desculpas a UJM pelo abuso)

Caro Fernando Ribeiro, já vi que tenho aqui companheiro para umas belas discussões mas, sem querer abusar da hospitalidade da UJM, deixo-lhe esta provocação: a complexidade num ninho de (lentas) formigas é bem maior que numa corrida de (rápidos) carros de fórmula 1. São as interacções e a regulação que alavancam (para usar uma palavra da moda) a complexidade.


Fernando Ribeiro disse...

Caro João L., não me deixa provocação nenhuma, porque estou totalmente de acordo. São precisamente as interações e a regulação existentes nas redes neuronais computacionais que lhes dão o seu poder, incluindo o poder de aprenderem, a partir, está claro, de um certo "conhecimento" inicial que lhes é dado. Os exemplos fornecidos dos carros que já circulam sozinhos (experimentalmente, por enquanto) em algumas cidades dos Estados Unidos, ou do reconhecimento de padrões em imagens que a Google e o Facebook estão a desenvolver com resultados que já são extraordinários, são uma demonstração do que pode vir aí. A velocidade dos circuitos eletrónicos (e dos circuitos fotónicos num futuro próximo) pode permitir ultrapassar as limitações que tais redes não podem deixar de ter, através da reafetação dos seus recursos uma e outra vez, para uma e outra tarefa, a uma velocidade alucinante. Note-se que estamos a falar de redes neuronais, que já têm milhares e milhares de núcleos e um número incomparavelmente maior de interligações, mas que mesmo assim são infinitamente menos poderosas do que o cérebro. Já não são para aqui chamados os computadores que têm uma arquitetura tradicional, dita de von Neumann, com um processador central, bancos de memória e periféricos à volta. O computador que estou a usar neste momento já é pré-histórico.


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E, uma vez mais, agradeço ao João e ao Fernando o seu precioso contributo para uma reflexão que acho indispensável e urgente.

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Nem de propósito o artigo de destaque da Vanity Fair de hoje:

ELON MUSK’S BILLION-DOLLAR CRUSADE TO STOP THE A.I. APOCALYPSE


Elon Musk is famous for his futuristic gambles, but Silicon Valley’s latest rush to embrace artificial intelligence scares him. And he thinks you should be frightened too. Inside his efforts to influence the rapidly advancing field and its proponents, and to save humanity from machine-learning overlords




sexta-feira, março 17, 2017

Pode um humano tornar-se imortal?
Pode um humanóide superar o infinito que habita um humano?


Sendo tema que muito me motiva e preocupa, não quero, contudo, maçar aqueles meus Leitores a quem o tema pouco ou nada diz. No entanto, se me permitem, vou reincidir, não na primeira pessoa mas dando a palavra a um Leitor -- acho que é bom ouvir opiniões não unânimes e que trazem à reflexão diferentes pontos de vista.

Recebi um comentário que, uma vez mais, me pareceu de tal forma interessante que acho que o melhor que tenho a fazer é puxá-lo para o corpo principal do Um Jeito Manso não vá ficar perdido entre os textos.

Por isso, agradecendo ao João L, tomo a liberdade de aqui partilhar convosco o que ele escreveu. Contudo, um pouco ao arrepio do que ele aqui defende, vou usar fotografias de humanóides, robots com aspecto humano, provavelmente o lado mais lúdico e inócuo do que aí pode vir (ou seja, nada a ver, digo eu, com os riscos de que o Fernando Ribeiro nos falou no outro dia). Obtive as imagens no The Guardian de ontem, 16 de Março.

Seja como for, percebo perfeitamente o ponto de vista que abaixo é evidenciado mas...
(guardo umas quantas perguntas para o fim, depois de terem lido a sólida argumentação do João L.)


Para trazer um toque de azul e verde ao post, o som de Miles Davis: Blue in Green


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Era para comentar o post da inteligência artificial – assunto tão interessante - publicado pela UJM lá mais para trás mas como não o consegui fazer a tempo e horas vai aqui fora de horas:

Transcrevendo umas ideias de Roger Schank, um dos pioneiros do campo da Inteligência Artificial (AI), 

- No brain on Earth is yet close of knowing what brains do …
- A machine that plays chess well does just that; it won´t play worse one day because it drank too much the night before or had a fight with its wife …
- We feed kids food, not knowledge. No computer starts out knowing nothing and gradually improves by interacting with people …
Isto, entre outras ideias, para chegar à seguinte conclusão:

The fact is that the name AI made outsiders to AI imagine goals for AI that AI never had".

Como leigo, acho que a AI passa a ideia de que tenta reproduzir funções executadas pelo cérebro humano ou, até, um cérebro humano. 

Ora, a inteligência é entendida hoje como um processo dinâmico e não como uma “propriedade” do cérebro. 

O cérebro é constituido por dez elevado a onze neurónios (e por um número ainda maior de outras células). 
Este é um número cem vezes superior ao das estrelas na nossa galáxia ou que os grãos de areia nas praias da Costa da Caparica. 
Por sua vez, cada neurónio pode estabelecer mil a dez mil ligações com outros (sinapses). 

Mas a complexidade não está nos números. Está na regulação. Está nas interacções. Cada ligação (sinapse) não tem apenas um on e um off, um desliga e um liga, um mais e um menos, um zero e um 1, como num computador. A maioria das ligações são químicas e não eléctricas (como num computador). Em cada uma das ligações há diversos componentes orgânicos envolvidos (neurotransmissores, receptores, proteinas acopladas a receptores, enzimas e transportadores) o que, segundo alguns cálculos, significa que os número de “switches” no cérebro é maior que o de todas as redes de computadores, routers, hubs … em todo o planeta. 

Tudo o que conhecemos das redes de computadores é uma brincadeira de crianças comparada com o cérebro. 

Cada um dos “switches” pode ser alvo de regulação, isto é pode ser “sintonizado” como nos botões dos rádios antigos a válvulas. Mais um bocadinho, menos um bocadinho. Não é só liga e desliga. Cada “switch” no cérebro pode ser regulado, pode “sentir” o que se passa num local remoto e ajustar a sua acção em função de múltiplos parâmetros que variam constantemente. E pode ser desactivado e substituído e colocado a desempenhar outras funções, quer por parâmetros internos do metabolismo ou externos (incluindo os ciclos circadianos). Inimaginável.

Imagine-se uma máquina dotada de AI a olhar-se ao espelho. Podemos imaginar que se “sentiria” bela, ou velha, ou coisas assim (coisas que não entendemos)? Que ligaria os “mecanismos de recompensa” que quase nos comanda a vida como bola colorida nas mãos de uma criança? Ou que cairia de amores por uma outra máquina? Ou que a máquina dotada de AI perderia “capacidade” com a passagem do tempo, que envelheceria?

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E as perguntas que me ocorrem e que lá em cima referi são: e o que dizer dos cérebros de pessoas com Alzheimer ou que sofreram um AVC extenso? Não funciona melhor um humanóide que, embora podendo não reagir emocionalmente à sua imagem ao espelho, manterá intactas as suas capacidades de execução de tarefas?


E as vantagens para um empregador em ter um humanóide a executar tarefas dia e noite e fim de semana, sem férias, sem doenças, sem humores?
NB: Não estou a advogar a vantagem dos robots sobre os humanos. Mas eles estão aí num mundo desregulado e o que não vai faltar é quem os use contra o interesse da humanidade. Aliás, o tema já não é futurologia: é realidade.

E, a seguir à Dina 48, que poderão ver no vídeo abaixo, mostro um outro 'ser' que já sabe fazer expressões faciais adaptadas a cada emoção. Baby steps num caminho que não se sabe bem onde nos vai levar. Pode ser difícil reproduzir a imensidão e a maravilha que é o cérebro humano mas nada nos diz que não vai ser criada uma qualquer outra coisa com capacidade imensa e que conjugue uma variedade de outras características que, no conjunto, se traduzam numa força imparável.

NB: Não gosto de ficção científica. Acho que não li, até hoje, um único livro de ficção científica. Portanto, o que escrevo não resulta de uma efabulação mas de juntar informação disponível que a minha fraca mente vai conseguindo processar.

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À laia de curiosidade, peço que não deixem de ver porque é do além:

Exploring digital immortality | Bruce Duncan & Bina48



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E, como acima se diz, se V., meus Caros Leitores, quiserem tornar-se eternos e criar o vosso avatar, têm aqui como:


Life Naut (eternalize)


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E agora o tal robot emocional
(BBC Earth Lab)


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Caso prefiram outro tipo de realidade e queiram antecipar o combate Cristas vs Leal Coelho nas Autárquicas Lisboa 2017, é descerem para antever as batalhas na lama que aquelas duas sex bombs certamente nos vão proporcionar.

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